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Cristão e Política

Cristão e Política – Pronunciar-se ou Silenciar-se? Participar ou Distanciar-se?

Introdução

O assunto CRISTÃO ou IGREJA e POLÍTICA recebe os holofotes da mídia e ganha ainda mais notoriedade na sociedade em geral quando um candidato disputa as eleições presidenciais em 2018, no Brasil, e sai vencedor, empunhando a bandeira de “Deus acima de todos”. Não somente o ingrediente religioso, acompanhado do discurso conservador em defesa da família e dos usos e costumes da sociedade atraíram a atenção e impactaram a opinião pública e da grande mídia, mas, também, o uso maciço das redes sociais e da internet como elemento de convencimento para o voto. Os profissionais do marketing eleitoral, os partidos e políticos, ou seja, a sociedade brasileira como um todo, se surpreendeu perplexa e se deu conta de que dispor de muito dinheiro e tempo na grande mídia televisiva e radiofônica não são mais fatores determinantes para se ganhar uma eleição.

As redes sociais, através da internet, têm sido o palco de manifestações profusas, de discussões e debates candentes dos mais variados assuntos e temas, inclusive os de natureza política, isto é, tornou-se um verdadeiro espaço democrático de divulgação e debate de ideias. Para aqueles líderes alinhados com alguma ideologia totalitária e para aquelas autoridades públicas que não desejam que os seus malfeitos venham a público, as redes sociais se tornaram o inimigo da vez. Para aqueles governantes que compravam a grande mídia para divulgarem apenas o que lhes interessava, as redes sociais se tornaram o adversário a ser silenciado. Assim, viveremos tempos difíceis de combate feroz às redes sociais, à liberdade de expressão e manifestação, quer nas redes sociais, quer nos púlpitos das igrejas. Certas autoridades públicas brasileiras parecem estar muito preocupadas agora com a qualificação e legislação para punição de um tal “abuso do poder religioso”, como se pastores e padres pudessem ter afetado o resultado do pleito, convencendo ou coagindo seus fiéis a votarem no candidato que ganhou as últimas eleições presidenciais. Naturalmente que repudiamos qualquer ação neste sentido que possa ser exercida por  parte da liderança de uma igreja. Entretanto, sem dúvida, estão procurando brechas para poderem controlar o que é dito nos púlpitos das igrejas: política, homossexualidade etc.! Por que tais autoridades nunca se preocuparam com o discurso ideológico da esquerda sindicalista nas portas das fábricas e das empresas? E com a propagação ideológica da esquerda nas escolas e universidades? Por que não apoiam iniciativas como “Escola Sem Partido”? Por que não se dedicam mais a coibir o patrocínio de candidatos por gente fora da lei e sua investida nas comunidades carentes?

Reafirmamos aqui que a relação do Cristão com o Estado é diferente da relação da Igreja com o Estado. Sendo o Estado laico não há que se pensar em interferência direta da instituição Igreja na Instituição Estado. O inverso também não é aceito. Assim sendo, qual deveria ser o papel do cristão na política? Deve pronunciar-se ou silenciar-se? Participar ou distanciar-se?

1. Pronunciar-se ou Silenciar-se?

Há duas realidades relevantes e irrefutáveis na pátria brasileira que não podem ser desconsideradas numa abordagem como esta. A primeira é a crescente disponibilização das ferramentas virtuais vinculadas à internet, cada vez mais acessíveis a todos os cidadãos, de todas as faixas de renda, principalmente através dos aparelhos celulares (smartphones), com planos de dados mais baratos, resultante da grande competição entre as operadoras. A segunda é o crescimento da população evangélica que iremos abordar no final deste artigo. O acesso às notícias e informações disponíveis e que circulam no mundo virtual e o crescente número de usuários estão mudando o nosso cotidiano. Não é mais concebível ficar indiferente aos acontecimentos que nos chegam a cada instante, inclusive ao que acontece com as figuras públicas e com as autoridades constituídas, porque tudo isso produz consequências que afetam a todos.

Jesus nos deu o exemplo se pronunciando sobre temas “religiosos”, tais como, jejum, guarda do sábado, oração, falsos profetas, ressurreição, dízimo, escatologia, vida eterna, galardão no céu, Espírito Santo, dentre outros. Porém, também se pronunciou sobre diversos temas que dizem respeito ao cotidiano de qualquer pessoa, tais como: amar, praticar a caridade, ansiedade, julgamento alheio, perdão, ambição, senhores e servos, justiça, matar, adulterar, revidar, acúmulo de bens e riqueza, divórcio, pagamento de tributos, salário, dentre tantos outros.

É certo que não podemos viver alienados dos acontecimentos que nos cercam, inclusive na esfera política, nem vivermos como que dividindo e separando aquilo que supostamente é “espiritual” do que é “material” e focando somente o espiritual. Entretanto, para o cristão exercer esse direito e dever de pronunciar-se, deve levar em conta alguns aspectos, tais como:

a) É preciso buscar um crescimento integral e equilibrado em todas as dimensões da existência humana: física, mental, social e espiritual (Lc 2.52).

b) Um cidadão dos céus, precisa pensar nas coisas lá do alto, não nas daqui da terra (Cl 3.2). Isso significa que o seu foco e missão vão muito mais além das coisas efêmeras desta vida. Entretanto, ele foi chamado para ser sal da terra e luz do mundo, isto é, para afetar positivamente o seu entorno.

c) Um cristão ingênuo, despreparado, sem sabedoria e sem o conhecimento das coisas desta vida, além de dispor de reduzidas condições para agregar valor à sociedade, corre o risco de ser enganado e usado por pessoas vis e inescrupulosas, inclusive no campo da política partidária.

d) É preferível silenciar-se a pronunciar-se de forma equivocada ou inadequada. Ao invés de contribuir para elevar e dignificar a causa do evangelho e o bem comum, manchará a imagem da igreja. Se um cristão for se pronunciar sobre algum assunto que o faça com sabedoria e conhecimento de causa, usando os melhores argumentos e tendo a sensibilidade necessária ao se expressar.

Enfim, sendo o cristão um cidadão da pátria deve praticar uma cidadania responsável, exercendo os seus direitos constitucionais e legais, expressando-se de forma respeitosa, dentro dos limites da lei, com base em fatos e dados verdadeiros. Acima de tudo deve também cuidar de cumprir os seus deveres, sempre fazendo a diferença, dando um bom testemunho da sua ética cristã, para não ser traído e condenado por suas atitudes divergentes das suas palavras.

2. Participar ou Distanciar-se?

Qual deve ser o papel do cristão na política? Deve participar ou distanciar-se?

Essa ideia de fazer separação entre “vida eclesiástica ou cristã” e “vida secular”, entre “coisas espirituais” e “coisas materiais”, é, no mínimo, equivocada, sem base bíblica.  A vida que cada um tem para viver é uma só e deve ser vivida plenamente, ainda que alguns o façam com motivação carnal e outros com motivação espiritual. Cada cidadão, cristão ou não cristão, tem sua contribuição a dar para a sociedade, usando suas habilidades, dons e talentos. Um empregado ou empregador, um profissional (médico, advogado, operário, servidor público etc.) cristão serve ao Senhor, de “modo integral”, através do serviço que executa servindo ao próximo e à sociedade. O trabalho é um meio e não o fim em si mesmo. É o que Jesus nos ensinou quando disse “trabalhai, não pela comida que perece” (Jo 6.27). Trabalhar pelo sustento é regra da vida, conforme o apóstolo Paulo enfatiza: “se alguém não quer trabalhar, também não coma.” (2Ts 3.10). Entretanto, alguns são chamados e vocacionados para se dedicarem de “tempo integral” aos serviços da igreja e do reino de Deus.

Na história bíblica revelada no Antigo Testamento há dois exemplos clássicos da atuação de pessoas, indivíduos tementes a Deus e por ele chamados e vocacionados, junto a governos: José, no Egito; e, Daniel, na Babilônia.  E, merece destaque, o fato deles terem dado o seu melhor, direcionados e usados por Deus, em governos que não eram os da sua própria pátria, porém, que de certa forma contribuíram para o bem do seu povo. Também há o exemplo relevante de Neemias, que deixa sua zona de conforto junto à corte do Império Persa, para coordenar todo o esforço de restauração física e espiritual da sua nação.

Ao longo da história da igreja já se viu de tudo no que diz respeito a relação Igreja x Estado. Em certas épocas e lugares, reis, soberanos e governantes exerceram poder e controle sobre a igreja. Em outras, vê-se a elite religiosa influenciando e dominando os governos. Em outro artigo já tratamos de como deve ser  essa relação Igreja x Estado. Aqui queremos tratar do envolvimento do cristão com a política. De longa data vem uma ideia equivocada quanto à santificação. Foi assim que no monasticismo se defendia o isolamento e renúncia das coisas materiais para se obter essa verdadeira santificação e consagração. Desde longa época paira sobre a igreja a ideia de que os cristãos farão melhor quando se mantiverem distantes da política, com suas disputas pelo poder, intrigas e corrupções. Entendemos que santificação tem a ver com separação do pecado e não com isolamento social! Quando os cristãos verdadeiros deixam de participar ativamente da vida pública, deixam de agregar a ela relevantes contribuições para o bem comum.

Resumindo a resposta:

a) Empregue os seus dons e talentos para o bem da sociedade onde Deus te chamar e vocacionar para fazê-lo, dentro e fora da igreja, o que pode incluir envolvimento político ou o exercício de um cargo público.

b) Lembre-se do exemplo digno, ilibado e eficaz dos personagens bíblicos José, Daniel e Neemias (dentre outros). Se você se omitir de participar outros o farão, muitas vezes sem a ética cristã, acarretando muito prejuízo social.

c) Tenha em mente que santificação tem a ver com separação do pecado e não com isolamento social ou político.

d) Fuja à tentação de obter vantagens pessoais ou corporativas em detrimento do bem coletivo. Nunca perca de vista que o alvo é o bem comum, o que inclui todas as pessoas com suas diferenças de sexo, raça, classe social, crença etc.

e) Não se envolva ou assuma compromissos com partidos políticos e ideologias que violem a liberdade democrática e os princípios e valores bíblicos.

f) Considere que desvios de conduta de um cristão que exerce atividade pública (ou privada) é sempre motivo de escândalo e um desserviço à causa do Evangelho.

3. O crescimento evangélico e suas consequências

Pelos dados do IBGE na tabela abaixo, constatamos o seguinte, em dez anos (2000 a 2010):

– Crescimento da população brasileira: 12,29%
– Crescimento da população evangélica: 61,45%
– Decrescimento da população católica: – 1,36%
– Total de cristãos (católicos e evangélicos): 86,79%

Nota: Tabela gerada diretamente no site do IBGE.

Independentemente do grau de envolvimento e compromisso desses católicos e evangélicos com a fé cristã, o fato evidente é que o Brasil continua tendo uma maioria cristã, o que significa um certo grau de alinhamento com os princípios e valores cristãos, rotulados pelos progressistas de valores conservadores. Entretanto, o que mais tem chamado a atenção e gerado preocupação na ala progressista é esse relevante crescimento da população evangélica. É de se esperar uma investida cada vez maior do reino das trevas para tentar impedir a continuação desse crescimento. Por outro lado, os evangélicos têm diante de si a oportunidade, o desafio e a responsabilidade de saírem da sua zona de conforto e contribuir efetivamente, em todas as áreas da sociedade, para o desenvolvimento da nação. É mandatório participarem dos debates de temas relevantes, tais como, liberdade de expressão, aborto, ideologia de gênero, homossexualidade, justiça social, ética na política, combate a corrupção, cotas raciais, preservação do meio ambiente, dentre tantos outros.

Conclusão

Os cristãos têm muito a dizer, a se pronunciar. Precisam se engajar nas lutas legítimas por uma sociedade melhor. É muito cômodo se esconder nas máximas de que “o mundo jaz no maligno” e que está determinado que “o mundo vai de mal a pior” e, assim, cruzar os braços e reclamar da situação. Somos arregimentados pelo Senhor da Igreja para proclamar a sua tão grande salvação, nutrindo a esperança do desdobramento na transformação de vidas. Se a população evangélica cresce de forma tão relevante, se não houver influência efetiva desta que produza mudança na sociedade, esse crescimento será rotulado de inócuo e visto com muita desconfiança.

Não basta orar pelas autoridades, pois a nossa cidadania celeste não nos isenta dos labores terrenos. “Disse-lhes, então, Jesus: Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.” (Mc 12.17)

Que Deus nos ajude!

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Veja também:
Igreja e Política – Mídia Tendenciosa
Igreja e Política – Pronunciar-se ou Silenciar-se?

Outro tema a ser desenvolvido:
Cristão e Comunismo – Como conciliar?

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