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Gerando Discípulos – Crescimento na Fé

Introdução:

Na Grande Comissão (Mt 28.19-20), Jesus deixou para a igreja três importantes instruções: (i) Fazer discípulos; (ii) Batizá-los; e, (iii) Ensiná-los. Nenhuma dessas partes, ou ordens, ou instruções deve ser negligenciada pela igreja. Nessa pós-modernidade em que vivemos, muitas igrejas têm se preocupado mais em manter templos cheios, do que com discípulos que guardam e praticam “todas as coisas que eu (Jesus) vos tenho ordenado”.

“Durante a Idade de Ouro da Grécia, o jovem Platão podia ser visto caminhando pelas ruas de Atenas em busca de seu mestre: o maltrapilho, descalço e brilhante Sócrates. Aqui, provavelmente, estava o início de um discipulado. Sócrates não escreveu livros. Seus alunos escutavam atentamente cada palavra que ele dizia e observavam tudo o que ele fazia, preparando-se para ensinar a outros. Aparentemente, o sistema funcionou. Mais tarde, Platão fundou a Academia, onde Filosofia e Ciência continuaram a ser ensinadas por 900 anos. Jesus usou relacionamento semelhante com os homens que ele treinou para difundir o Reino de Deus. … Discípulo é o aluno que aprende as palavras, os atos e o estilo de vida de seu mestre com a finalidade de ensinar outros.” (Keith Phillips).

Através do discipulado, Deus entretece uma cadeia que começa em Cristo e se desenvolve através dos seus seguidores, alcançando cada geração, até à volta de Cristo: “E o que de minha parte ouviste através de muitas testemunhas, isso mesmo transmite a homens fiéis e também idôneos para instruir a outros.” (2Tm 2.2)

Neste estudo vamos abordar alguns aspectos do crescimento na fé, do discípulo de Cristo.

1. QUAL A CONDIÇÃO ESSENCIAL PARA CRESCER?

Por mais óbvio que possa parecer, vale lembrar que é preciso ter vida para poder crescer. Seres inanimados, coisas mortas, não podem crescer. As coisas mortas podem até aumentar de tamanho, por superposição de outros materiais. Em se tratando de pessoas, quando não se tem a vida que vem do alto, as práticas religiosas são como camadas revestindo coisas mortas. Tais pessoas foram definidas por Jesus como sepulcros caiados (Mt 23.27).

O discipulado começa quando uma pessoa é regenerada pelo Espírito Santo, nascendo de novo – “logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim;” (Gl 2.20). É importante ressaltar em que momento acontece esse início; sem dúvida é quando a pessoa se torna cristã. “Muitíssimas pessoas acham que você se torna cristão vivendo a vida cristã. Absolutamente NÃO! É preciso que primeiro você se torne cristão, antes de poder viver a vida cristã.” (William Mac Donald)

2. POR QUE CRESCER?

2.1 É a lei da natureza

No mundo físico no qual estamos inseridos, as árvores frutíferas seguem o ciclo da germinação, crescimento e produção de frutos. Com os seres vivos não é diferente; é a lei da vida. Nas palavras de Jesus, esse processo natural dita a regra para o processo espiritual: “Todo ramo que, estando em mim, não der fruto, ele o corta; e todo o que dá fruto limpa, para que produza mais fruto ainda.” (Jo 15.2).

2.2 É uma questão de sobrevivência

Há uma expressão, em inglês, Grow up or Blow up (ou você cresce ou desaparece) bastante interessante. Não há como manter-se estagnado, estacionado; ou se está crescendo, ou se está diminuindo, porque as coisas ao nosso redor estão num processo contínuo de desenvolvimento. Quando não há crescimento na vida cristã, individual ou coletivamente, isso gera frustração e reprimenda, por parte da liderança (Hb 5.12) e ameaça o corpo de Cristo, a igreja (1Co 3.1-3; Gl 5.15).

2.3 É a vontade de Deus  

A vontade de Deus é sempre boa, agradável e perfeita (Rm 12.2), e deve ter sempre a primazia em nossa vida. O discípulo de Cristo é convocado e desafiado a crescer: “antes, crescei na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.” (2Pe 3.18a). É um crescimento em várias áreas:

i) Crescimento na graça do Senhor (2Pe 3.18a).
ii) Crescimento no conhecimento do Senhor (2Pe 3.18a).
iii) Crescimento em amor, uns para com os outros (1Ts 3.12).

3. COMO CRESCER?

Como ajudar um irmão a crescer na fé? Para acontecer o crescimento saudável do discípulo de Cristo, há uma confluência de fatores relevantes e determinantes. Como se dá esse crescimento?

3.1 Sobrenaturalmente

Se o discípulo é uma nova criatura em Cristo, habitado pelo Espírito Santo, tem vida espiritual, esse mesmo Espírito age nele e na igreja, com vistas ao crescimento. O apóstolo Paulo assim nos ensina a respeito desse crescimento sobrenatural: “Eu plantei, Apolo regou; mas o crescimento veio de Deus. De modo que nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento.” (1Co 3.6-7). “…, da qual todo o corpo, suprido e bem vinculado por suas juntas e ligamentos, cresce o crescimento que procede de Deus.” (Cl 2.19)

3.2 Naturalmente

Os seres vivos crescem e se desenvolvem, naturalmente. Jesus afirmou: “Considerai como crescem os lírios do campo: eles não trabalham, nem fiam.” (Mt 6.28b). Jesus chama a atenção para esse processo natural e espontâneo de crescimento. Mesmo sendo um processo natural estabelecido pelo Criador, esse crescimento também depende de algumas condições ambientais, tais como: solo, sol, água, ar etc. Na Bíblia, o justo ou o cristão é comparado a uma árvore (Sl 1.3). Da mesma forma, havendo vida espiritual, o crescimento do discípulo é natural e espontâneo. Entretanto, há alguns aspectos essenciais para esse crescimento, tais como:

i) Ambiente adequado.

A igreja precisa zelar no sentido de manter um ambiente agradável e favorável ao crescimento do discípulo. Há ambientes que ele será obrigado a frequentar, como o da escola, trabalho etc. Nesses, ele precisa ser forte, não se contaminando e sendo sal da terra e luz do mundo. Entretanto, há outros, que ele pode e deve evitar (Sl 1.1). Finalmente, há aqueles que ele pode e deve tornar adequados (Sl 1.2).

ii) Alimentação saudável

Os seres vivos se alimentam e o tipo de alimento ingerido afeta diretamente o crescimento. Nossa dieta espiritual mais rica é a leitura (e meditação) da Palavra de Deus: “desejai ardentemente, como crianças recém-nascidas, o genuíno leite espiritual, para que, por ele, vos seja dado crescimento para salvação,” (1Pe 2.2). Ela é alimento e agente de purificação: “para que a santificasse, tendo-a purificado por meio da lavagem de água pela palavra,” (Ef 5.26; comp. Jo 15.3).

iii) Respiração

A oração é a respiração da alma. A oração deve ser como a respiração: contínua e natural. Ela nos mantém espiritualmente vivos. Nem sempre precisamos usar palavras; podemos nos quedar na presença de Deus.

iv) Exercício

Nosso corpo se mantém sadio, nossos músculos se desenvolvem, se nos exercitarmos. Uma fé sem obras é morta. O discípulo precisa praticar a adoração a Deus, testemunhar a sua fé e servir o próximo.

v) Descanso

O estresse gerado pelas preocupações e medos, adoece o corpo e a mente. Até mesmo o ativismo cristão é condenável e prejudicial. Assim como o corpo necessita de descanso, do sono restaurador, nosso ser precisa se aquietar e descansar no Senhor e na força do seu poder. A Bíblia diz: “Descansa no SENHOR e espera nele…” (Sl 37.7); “Inútil vos será levantar de madrugada, repousar tarde, comer o pão que penosamente granjeastes; aos seus amados ele o dá enquanto dormem.” (Sl 127.2).

3.3 Sacrificialmente

Embora não se fale muito sobre a chamada “dor do crescimento”, na medicina ela é descrita como “uma sensação dolorosa recorrente, sem causa específica, que recebeu esse nome por se manifestar em uma fase crucial do desenvolvimento físico – especialmente entre 3 e 8 anos. Os médicos acreditam que de 5% a 15% da população infantil enfrente o problema pelo menos uma vez na vida.”

Crescer espiritualmente também acarreta “alguma dor” que é incomparavelmente menor do que as dores de um viver sem Cristo, de uma vida pecaminosa. O verdadeiro discípulo cristão precisa ter um compromisso total com o Senhor Jesus Cristo. Isso implica num modo de vida diferenciado que, ao mesmo tempo que lhe traz crescimento e maturidade na fé, e a bênção de Deus, leva a uma luta espiritual, sem tréguas. Alguns desses aspectos são:

i) Decisão por Cristo

Ter Cristo em primeiro lugar na vida, significa que nada e ninguém é mais importante do que ele. Essa é uma condição estabelecida pelo próprio Senhor, para o discipulado: “Se alguém vem a mim e ama o seu pai, sua mãe, sua mulher, seus filhos, seus irmãos e irmãs, e até sua própria vida mais do que a mim, não pode ser meu discípulo.” (Lc 14.26NVI). Em algum momento, circunstância ou situação essa opção por Cristo pode trazer alguma dor, pois somos humanos. Não são poucos os casos de conflitos familiares, ou desprezo, ou abandono, porque tomou-se a decisão de seguir a Cristo.

ii) Abnegação

“Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue,….” (Mt 16.24). Se Jesus é o Mestre e Senhor, se queremos ser como ele e viver como ele, não há como fazer isso se não renunciarmos a nós mesmos e nos submetermos a ele, à sua vontade, aos seus ensinos, ao seu estilo de ser e agir.

iii) Renúncia aos bens terrenos

“Assim, pois, todo aquele que dentre vós não renuncia a tudo quanto tem não pode ser meu discípulo.” (Lc 14.33). Jesus não está ensinando aqui que para ser seu discípulo é necessário se desfazer de todos os bens materiais. Por outro lado, a pobreza não é passaporte para a eternidade. O fato é que o discípulo de Jesus não pode amar a riqueza ou os prazeres lícitos deste mundo, mais do que a Deus. Somos mordomos de Deus e devemos investir na sua obra segundo o muito ou pouco que ele nos dá.

iv) Pagar o preço

“Se alguém quer vir após mim, …., tome a sua cruz e siga-me.” (Mt 16.24). Quando seguimos a Cristo, passamos a andar na contracultura da sociedade secular. Certamente teremos enfrentamentos frequentes por conta disso e precisamos tomar a decisão deliberada de pagar o preço dessa conta. A cruz aqui não é uma enfermidade física, uma fraqueza de caráter, uma perda irreparável, um fracasso etc, coisas essas que podem acontecer com qualquer pessoa. A cruz é a vergonha da cruz: a perseguição, o desprezo, a indiferença, as críticas sofridas por trilharmos o caminho apertado (Mt 7.14).

Conclusão:

Fazer discípulos e ensiná-los é tarefa indelegável da igreja, na qual todo cristão deve estar engajado. Jesus é o modelo e referencial a ser seguido; nenhuma figura humana, do presente ou do passado, pode ocupar esse lugar.  Para crescer na fé é preciso primeiramente nascer do alto. O crescimento espiritual obedece a uma lei natural, é uma questão de sobrevivência, mas, acima de tudo, é a vontade do nosso Pai Celeste. Qual o pai ou mãe que não deseja que seus filhos cresçam? O crescimento é um processo sobrenatural, natural e sacrificial. Depende de Deus, a família e a igreja participam, mas depende, também, da vontade, do empenho e da dedicação de cada discípulo.

Cada discípulo é desafiado a crescer e a ajudar outros a crescerem. “E sabeis, ainda, de que maneira, como pai a seus filhos, a cada um de vós, exortamos, consolamos e admoestamos, para viverdes por modo digno de Deus, que vos chama para o seu reino e glória.” (1Ts 2.11-12)

Bibliografia:

SWEETING, George. Os primeiros passos na vida cristã. Ed. Mundo Cristão, 1976.
MAC DONALD, William. O discipulado verdadeiro. Ed. Mundo Cristão, 1975.
PHILLIPS, Keith. A formação de um discípulo. Ed. Vida, 1981.

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