Arquivo

Archive for agosto \30\UTC 2018

Liderança Populista e Liderança Cristã

Não são muitas as pessoas que têm sensibilidade suficiente para perceber a existência de um estilo de liderança populista. Porém, certamente todos sofrerão as consequências desastrosas de tal estilo, mesmo que não entendam a causa. Naturalmente que a questão não se limita apenas a “estilos”, mas às implicações ou consequências da prática de um ou outro tipo de estilo. A referência e desafio que se coloca aqui é que os líderes exerçam uma liderança cristã, e não populista. Nos referimos a líderes cristãos, de um modo geral, mas, principalmente, a pastores, missionários e oficiais de igreja (presbíteros e diáconos). Quando alguns desses líderes concorrem em eleições democráticas a cargos e ofícios, a questão se torna mais séria. Isto porque muitos serão tentados a adotarem um estilo populista para obterem votos suficientes para serem eleitos ou reeleitos. Certamente, quem sairá perdendo é a instituição, particularmente aqui, a igreja.

Este artigo tem o propósito de despertar a atenção e o interesse dos cristãos sobre o assunto, de modo a não permitirem prosperar, no meio da igreja de Cristo, esse tipo reprovável de liderança populista. A igreja deve caminhar firme, centrada em Cristo, e não em líderes populistas. Toda a honra e glória sejam dadas a Deus e não a homens ou mulheres que estejam na liderança.

Na tabela abaixo é apresentado um quadro comparativo entre os dois estilos de liderança, acrescentando-se alguma referência bíblica. Não há aqui a pretensão de se apresentar uma obra robusta e acabada sobre o assunto. Preferimos considerar este artigo como uma espécie de ensaio, onde os 30 itens mencionados podem ser reunidos em 4 grupos ou aspectos:
CT – Caráter/Temperamento;
CH – Comportamento/Hábito;
HC – Habilidade/Competência; e,
GP – Gestão de Pessoas.

ITEM

LÍDER POPULISTA

LÍDER CRISTÃO

REFERÊNCIA BÍBLICA
01 CT

Relativiza a moral e a ética.

Pratica e defende os princípios e valores cristãos.

“apegado à palavra fiel, que é segundo a doutrina, de modo que tenha poder tanto para exortar pelo reto ensino como para convencer os que o contradizem.” (Tt 1.9)
02 CT

Omite verdades e deturpa os fatos para favorecer seu ponto de vista.

Tem compromisso com toda a verdade dos fatos.

“Por isso, deixando a mentira, fale cada um a verdade com o seu próximo, porque somos membros uns dos outros.” (Ef 4.25)
03 CT

Vive dando desculpas para se livrar do trabalho.

Vive sobrecarregado de tarefas.

“Portanto, meus amados irmãos, sede firmes, inabaláveis e sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que, no Senhor, o vosso trabalho não é vão.” (1Co 15.58)
04 CT

O importante é “ser” e “ter”, ou, “aparentar ser” e “aparentar ter”.

O importante é ser a imagem de Cristo e se contentar com o que tem, sem se acomodar.

“De fato, grande fonte de lucro é a piedade com o contentamento. Porque nada temos trazido para o mundo, nem coisa alguma podemos levar dele. Tendo sustento e com que nos vestir, estejamos contentes.” (1Tm 6.6-8)
05 CT

É melhor receber, do que dar.

É melhor dar, do que receber.

“Tenho-vos mostrado em tudo que, trabalhando assim, é mister socorrer os necessitados e recordar as palavras do próprio Senhor Jesus: Mais bem-aventurado é dar que receber.” (At 20.35)
06 CT

Julga-se melhor do que os outros.

Pensa de si com moderação, reconhecendo que o seu crescimento é mais resultado da ação de Deus do que mérito pessoal.

“Porque, pela graça que me foi dada, digo a cada um dentre vós que não pense de si mesmo além do que convém; antes, pense com moderação, segundo a medida da fé que Deus repartiu a cada um.” (Rm 12.3)
07 CT

Julga saber mais do que os outros.

Tem consciência de que o que tem aprendido é fruto da sua intimidade com Deus e com a sua Palavra.

“Se alguém julga saber alguma coisa, com efeito, não aprendeu ainda como convém saber.” (1Co 8.2)
08 CH

Gosta de ser o centro das atenções.

Não se importa em fazer trabalho anônimo.

“não servindo à vista, como para agradar a homens, mas como servos de Cristo, fazendo, de coração, a vontade de Deus;” (Ef 6.6)
09 CH

Gosta de ser paparicado e de paparicar pessoas de seu interesse.

Gosta de ver o bom resultado do seu trabalho ou do trabalho dos outros.

“Pois todo o que se exalta será humilhado; e o que se humilha será exaltado.” (Lc 14.11)
“A verdade é que nunca usamos de linguagem de bajulação, como sabeis, nem de intuitos gananciosos. Deus disto é testemunha.” (1Ts 2.5)
10 CH

Gosta de aproximar-se de quem está no poder.

Gosta de estar onde pode ser útil.

“Ora, havia em Damasco um discípulo chamado Ananias. Disse-lhe o Senhor numa visão: Ananias! Ao que respondeu: Eis-me aqui, Senhor!” (At 9.10)
11 CH

Investe para ocupar posições de destaque na instituição. Considera mais importante ocupar cargos do que trabalhar.

Coloca-se à disposição de Deus para servi-lo onde Deus o colocar. Considera mais importante trabalhar do que ocupar cargos.

“Mas Deus dispôs os membros, colocando cada um deles no corpo, como lhe aprouve.” (1Co 12.18)
“Porque não é aprovado quem a si mesmo se louva, e sim aquele a quem o Senhor louva.” (2Co 10.18)
12 CH

Acima de tudo, procura agradar as pessoas.

Acima de tudo, procura agradar a Deus.

“Porventura, procuro eu, agora, o favor dos homens ou o de Deus? Ou procuro agradar a homens? Se agradasse ainda a homens, não seria servo de Cristo.” (Gl 1.10)
13 CH

Gosta de passar a imagem de bonzinho, concedendo benécias com os recursos da instituição.

Faz o que é possível com os recursos da instituição e, quando necessário, acrescenta até os seus próprios recursos.

“Eu de boa vontade me gastarei e ainda me deixarei gastar em prol da vossa alma. Se mais vos amo, serei menos amado?” (2Co 12.15)
14 CH

Sente-se confortável do lado da maioria.

Sente-se em paz defendendo a verdade e a justiça, mesmo, quando necessário, contrariando a maioria.

“Porque Deus não nos tem dado espírito de covardia, mas de poder, de amor e de moderação.” (2Tm 1.7)
15 CH

Fala muito, faz pouco e critica quem faz.

Faz muito, fala o suficiente e incentiva quem faz.

“Tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como para o Senhor e não para homens, cientes de que recebereis do Senhor a recompensa da herança. A Cristo, o Senhor, é que estais servindo;” Cl 3.23)
16 HC

É superficial e raso no conhecimento bíblico.

É fundamentado na Palavra de Deus.

“Respondeu-lhes Jesus: Errais, não conhecendo as Escrituras nem o poder de Deus.” (Mt 22.29)
17 HC

Fundamenta-se na sabedoria humana.

Fundamenta-se na sabedoria de Deus, sem desprezar a sabedoria humana.

“A minha palavra e a minha pregação não consistiram em linguagem persuasiva de sabedoria, mas em demonstração do Espírito e de poder, para que a vossa fé não se apoiasse em sabedoria humana, e sim no poder de Deus.” (1Co 2.4-5)
18 HC

É extremamente relacional e politicamente articulado.

É mais focado em ajudar as pessoas e a melhorar as coisas.

“Porque Deus não é injusto para ficar esquecido do vosso trabalho e do amor que evidenciastes para com o seu nome, pois servistes e ainda servis aos santos.” (Hb 6.10)
19 GP

É liberal: em princípio pode tudo.

É sensato: pode o que é biblicamente certo e convém.

“Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas convêm.” (1Co 6.12a)
20 GP

Seus planos e objetivos são mais importantes do que os de Deus.

O que importa é buscar e viver a vontade de Deus.

“porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade.” (Fp 2.13)
21 GP

Defende os seus próprios interesses.

Defende os interesses da comunidade.

“assim como também eu procuro, em tudo, ser agradável a todos, não buscando o meu próprio interesse, mas o de muitos, para que sejam salvos.” (1Co 10.33)
22 GP

As normas engessam a instituição. Na verdade quer ficar livre para impor sua vontade, conforme as circunstâncias.

As normas são instrumentos balizadores e necessários para a boa ordem.

“Tudo, porém, seja feito com decência e ordem.” (1Co 14.40)
“porque estais inteirados de quantas instruções vos demos da parte do Senhor Jesus.” (1Ts 4.2)
23 GP

Despreza e combate qualquer forma de controle, pois quer ficar mais à vontade.

Investe no controle, até mesmo como uma forma de preservar a integridade da instituição.

“Por esta causa, te deixei em Creta, para que pusesses em ordem as coisas restantes, bem como, em cada cidade, constituísses presbíteros, conforme te prescrevi:” (Tt 1.5)
24 GP

Valoriza apenas as áreas em que atua.

Valoriza todas as áreas, para o bem comum.

“A manifestação do Espírito é concedida a cada um visando a um fim proveitoso.” (1Co 12.7)
25 GP

Gosta de mostrar muitas realizações. Faz muita despesa e obriga a instituição a se virar para pagar. Na sua boca, governança austera é só discurso vazio.

Está interessado em realizar o que é necessário. Planeja as despesas de acordo com as verbas que lhe são destinadas pela instituição.

“Pois qual de vós, pretendendo construir uma torre, não se assenta primeiro para calcular a despesa e verificar se tem os meios para a concluir?” (Lc 14.28)
26 GP

Convive bem com o erro (seu e dos outros).

Procura corrigir o que está errado. Não ignora a má conduta, promovendo ações corretivas com o propósito pedagógico.

“Mas Paulo não achava justo levarem aquele que se afastara desde a Panfília, não os acompanhando no trabalho.” (At 15.38)
27 GP

Disciplinar é demonstrar falta de amor.

Disciplinar e corrigir é demonstrar amor.

“porque o Senhor corrige a quem ama e açoita a todo filho a quem recebe.” (Hb 12.6)
“Toda disciplina, com efeito, no momento não parece ser motivo de alegria, mas de tristeza; ao depois, entretanto, produz fruto pacífico aos que têm sido por ela exercitados, fruto de justiça.” (Hb 12.11)
28 GP

Esquiva-se de tomar ou apoiar medidas impopulares.

Tem coragem de tomar medidas amargas, se forem necessárias e para a preservação da instituição.

“prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer não, corrige, repreende, exorta com toda a longanimidade e doutrina.” (2Tm 4.2)
29 GP

Gosta de tirar de quem tem para dar a quem não tem. É assistencialista.

Gosta de viabilizar formas de geração de meios e recursos para que cada um possa prover o seu sustento dignamente.

“Ora, aquele que dá semente ao que semeia e pão para alimento também suprirá e aumentará a vossa sementeira e multiplicará os frutos da vossa justiça, enriquecendo-vos, em tudo, para toda generosidade, a qual faz que, por nosso intermédio, sejam tributadas graças a Deus.” (2Co 9.10-11)
30 GP

O importante é a quantidade dos liderados ou seguidores.

O importante é a quantidade e a qualidade dos liderados ou seguidores.

“À vista disso, muitos dos seus discípulos o abandonaram e já não andavam com ele.” (Jo 6.66)

Que Deus nos ajude a prestigiar e apoiar um estilo de liderança cristã!

Anúncios

O Obreiro, a Seara e o Ministério

Texto base: Lucas 10.1-12

Introdução:

A Bíblia registra dois momentos marcantes no ministério de Jesus, quando ele mesmo promoveu esse “vá e ponha em prática o que ensinei”: a “missão dos doze“, relatada em todos os evangelhos sinóticos (Mc 6.6b-13; Mt 9.35-11.1; Lc 9.1-6) e a “missão dos setenta“, mencionada somente por Lucas (Lc 10.1-24). Tomaremos como base esta última missão, para aprendermos um pouco mais com Jesus.

Desenvolvimento:

A “missão dos setenta” se situa no último ano do ministério público de Jesus. Inicialmente, Jesus mesmo ia a toda parte pregando e curando, e os seus discípulos o acompanhavam. Posteriormente, as multidões vinham ao seu encontro e ele as ensinava e as curava. Por último, Jesus já não podia transitar livremente, por causa da oposição crescente e do aperto das multidões. Houve pregação e cura durante todo o seu ministério, porém no último ano Jesus dedicou-se a preparar e enviar aqueles que haveriam de dar prosseguimento à sua obra.

Quais teriam sido as razões para esta grande comissão?

“Para que o precedessem em cada cidade e lugar aonde ele estava para passar”. O grande objetivo era preparar o ambiente, criar expectativa para a chegada do Senhor. Jesus queria obter o máximo proveito nesta viagem.

– Para completar o aviso à nação judaica de estar presente o Messias.

– Para proporcionar aos seus seguidores um treinamento prático, preparando-os para a grande missão de Atos 1.8.

– Para deixar-nos orientação.

Uma particularidade da missão:

Confrontando as duas missões, constatamos que os doze foram designados apenas às ovelhas perdidas da casa de Israel, enquanto os setenta foram enviados “a todas as cidades e lugares aonde ele estava para passar” (Lc 10.1). Tem sido sugerido que isto indica que, enquanto a primeira missão era aos judeus (às doze tribos), a segunda antecipava a abertura da porta da fé a todas as nações.

Concentremos nossa atenção em três aspectos relevantes da obra evangelística e missionária: o obreiro, a seara e o ministério.

1. O OBREIRO

1.1 Sua chamada

O texto mostra claramente que Jesus não delegou a responsabilidade de escolher os setenta. Ele, pessoalmente, escolheu, designou setenta para essa importante missão. “Rogai, pois, ao Senhor da seara que mande…”. Nessa expressão Jesus ratifica que apenas o Senhor da seara tem autoridade para enviar trabalhadores. (ver Jr 1.4-5; At 9.15; 13.2).

1.2 Suas qualificações

A única informação que temos é que eram seguidores de Jesus, discípulos, que acompanhavam Jesus. E, portanto, Jesus pôde separá-los e enviá-los. Ser enviado por Jesus não é privilégio de uma elite, mas sim dos que o seguem de perto. Temos exemplos na Bíblia de que Deus mesmo qualifica os seus enviados como fez com Moisés, Jeremias, Isaías, Paulo e tantos outros.

As características principais dos que produzem frutos na obra de Deus são:

i) Crentes de oração. Tais obreiros passam muito tempo em conversa, em comunhão com o Senhor, expondo-lhe todas as ansiedades e necessidades; confiam nele e dele esperam tudo.

ii) Crentes com conhecimento bíblico. O Senhor Jesus disse aos saduceus: “Não provém o vosso erro de não conhecerdes as Escrituras, nem o poder de Deus!” (Mc 12.24)

iii) Crentes com paixão pelas almas. Como alguém vai sair pelo mundo, pregando ou ensinando, se não sente nenhuma paixão pelas almas perdidas? O Senhor Jesus se compadecia delas; as via como ovelhas que não têm pastor (Mt 9.36-37).

1.3 Seu envio

“De dois em dois”. Jesus não adotou esta forma apenas por um capricho pessoal. Ele já havia enviado os doze do mesmo modo (Mc 6.7). Enviando-os aos pares fortalecia o seu testemunho pessoal e tornava a viagem mais agradável. O envio de missionários, de dois em dois, foi imitado nos primeiros séculos (At 13.1-2), e continua a ser feito por algumas seitas (mórmons etc). Atualmente, a dupla missionária tem sido constituída por marido e mulher. O número dois na Bíblia tem como significado: autoridade (At 13.2; 15.27); conservação (Gn 6.19-20; Ec 4.9-12); confirmação (Mt 18.19); continuação. É claro que se trata de um quantitativo mínimo recomendado.

1.4 Seu destino

“Cada cidade e lugar”. Não é o obreiro que define o seu destino. Ele apenas segue o caminho traçado por aquele que o envia.

2. A SEARA (colheita)

Jesus usou, muitas vezes, a figura de um campo semeado (seara), ao falar sobre a colheita dos crentes (Jo 4.35-36; Mt 13.30, 39).

2.1 Seu tamanho

Inicialmente a seara era a nação de Israel. Mais tarde, porém, incluiu o mundo inteiro (Mt 28.19-20). Em face das dimensões da seara, Jesus adverte que há poucos trabalhadores e, portanto, devemos rogar a Deus pelo envio de mais trabalhadores. É curioso que naquela época não havia falta de autoridades religiosas. Grande parte do povo de Israel se ocupava das questões religiosas; no templo, nas sinagogas, nas casas, nas ruas. Entretanto, na avaliação de Jesus os trabalhadores eram poucos na seara. Desse exemplo se aprende que a organização religiosa e a aparência religiosa do povo não garantem a existência de trabalhadores autênticos do evangelho, ou que haja ceifa. Quem está disposto a orar? Quem está pronto a ir?

2.2 Seu Proprietário

“Senhor da seara…para a sua seara”. Os trabalhadores são representados por aqueles que trabalham diariamente para ganhar certo salário. Não são senhores da seara e nem têm autoridade sobre os que trabalham, mas tão somente são empregados do proprietário do campo. A alusão é ao Pai Celeste, que se interessa especialmente pelo êxito da colheita, porquanto o campo lhe pertence. Nenhum obreiro, nenhuma missão, nenhuma instituição poderá desapropriar o verdadeiro dono da seara (1Co 3.5-10).

“O dia pode ser longo e quente, mas no fim, os trabalhadores recebem, sem falta, o salário que lhes fora prometido pelo dono da seara.”

3. O MINISTÉRIO

Jesus não os enviou de qualquer maneira. Ele fez algumas advertências e recomendações e, ainda, deu-lhes as instruções e a autoridade de que necessitavam para o bom êxito daquela missão.

3.1 Seus riscos

“Ovelhas para o meio de lobos”. Jesus preparou os seus enviados para que enfrentassem duras experiências, que incluíam a perseguição.

“Ovelhas”. Mais uma vez, em seus ensinos, Jesus lança mão do simbolismo das ovelhas. Com esse simbolismo, Jesus indica diversas coisas:

1º) As ovelhas são pessoas sob a direção de um pastor.

2º) O pastor é responsável pela defesa das ovelhas, porque é claro que tais pessoas não sabem defender-se.

3º) Provavelmente também sugere que os discípulos, em comparação aos homens dotados de má intenção, são inocentes, fracos, humildes, mansos, gentis, simples.

“Lobos”. Termo usado no Novo Testamento para indicar os perseguidores e seu temperamento malicioso, por serem homens maus, injustos, destituídos de misericórdia, inclinados à destruição, à voracidade e à crueldade.

Jesus, primeiro mostrou que não deveriam esperar riquezas ou valores, segundo são representadas pelo mundo. Em seguida, mostrou que alguns rejeitariam sua missão e sua mensagem. Finalmente, mostrou que a rejeição pode incluir perseguição e até mesmo a morte. Com estas advertências eles devem ter compreendido que não estavam sendo enviados para uma excursão gratuita.

3.2 Seu Suprimento

i) Bagagem (Lc 10.4)

Jesus os exortou para que não levassem qualquer coisa que os viajantes normalmente pensavam ser indispensáveis para as viagens; mas que aprendessem a depender do suprimento divino. “Não leveis bolsa, nem alforje (porta-níqueis), nem sandálias”.  Estavam proibidos de sobrecarregarem-se com bagagem sobressalente. O sustento deles deveria vir de donativos feitos pelos beneficiários das ministrações. Esse método de subsistência dos obreiros foi confirmado pelas instruções de Paulo (1Co 9.7-11). Em qualquer época vê-se que o sustento do ministério é um problema muito sério. Isto porque as igrejas locais, em muitos casos, se recusam a assumir esta responsabilidade.

NOTA: O texto de Lucas 22.35-36, mostra que as provisões de que fala este versículo 4 eram temporais, e também revela a lição que Jesus queria ensinar por meio de suas proibições: “A seguir Jesus lhes perguntou: Quando vos mandei sem bolsa, sem alforje e sem sandálias, faltou-vos porventura alguma coisa? Nada, disseram eles. Então lhes disse: Agora, porém, quem tem bolsa, tome-a, como também o alforje; e o que não tem espada, venda a sua capa e compre uma”. Situações diversas requerem provisões diferentes, mas as lições dadas por Jesus permanecem.

ii) Habitação e alimentação (Lc 10.5-8)

“Ao entrares numa casa”. As regras sociais no oriente, acerca da hospitalidade, abririam muitas casas aos discípulos, mas Jesus queria que estes procurassem certos indivíduos, que mostrassem simpatia pelo seu ministério e pelos seus propósitos (“Indagai quem neles é digno” – Mt 10.11). Alguns comentaristas explicam simplesmente que eles deveriam procurar pessoas capazes de arcar com as despesas da viagem e da visita; e parece que isto faz parte do sentido da instrução, mas também parece que Jesus indicou que só as pessoas que simpatizassem pelo trabalho dos discípulos – provavelmente conhecidas como pessoas piedosas – seriam dignas de receber as visitas dos enviados de Jesus. Jesus parece indicar que era grande privilégio alguém receber a visita dos seus discípulos. A companhia deles serviria de benefício mútuo, e, sobre tais circunstâncias, a dificuldade do trabalho seria menor.

“Permanecer na mesma casa”. Jesus queria que seus discípulos fossem mensageiros, não mendigos. Não deveriam andar sem destino, à procura dos alojamentos mais confortáveis e da companhia mais agradável.

“Comendo e bebendo do que eles tiverem”. Jesus ensina aqui, claramente, que os obreiros devem receber o sustento físico daqueles que são beneficiados por seu ministério. Há aqui uma recomendação muito importante e que alguns obreiros parecem desconsiderar; eles devem participar do cardápio normal da família e não esperar manjares ou banquetes.

“Digno é o trabalhador do seu salário”.  Isso equivale ao que se diz em Mateus 10.10,“…Digno é o trabalhador do seu alimento”. Lucas diz “salário”, em lugar de “alimento”, mas está em foco a mesma ideia. Essa é uma das poucas declarações de Jesus, que Paulo citou (ver 1Co 9.7, 14; 1Tm 5.18). Naturalmente a ideia já se achava no Antigo Testamento, e Paulo poderia estar fazendo dali um empréstimo, e não diretamente a Jesus (Dt 25.4). É a primeira vez que encontramos a palavra “salário” referindo-se ao trabalho de um servo de Deus. Paulo, entretanto, abriu mão do seu direito e trabalhava com as mãos para não ser pesado a ninguém e para dar o exemplo. Desta forma podia gozar de mais liberdade em seu ministério, além de evitar constrangimentos e falatórios (1Co 9.12).

3.3 Sua Urgência

“E a ninguém saudeis pelo caminho”. O Senhor não pretendia que eles fossem descorteses. As saudações orientais eram cerimoniosas e consumiam tempo, e a necessidade da pressa justificaria a negligência a essas “etiquetas sociais”. As palavras mostram a necessidade de total devoção à missão; e isso concorda com todas as ordens registradas no contexto geral.

3.4 Seu Serviço

“Curai os enfermos…..anunciai…”. Imitando o que Jesus e os doze já haviam feito. Cristo conferiu aos seus discípulos o poder de curar como parte do seu ministério. Não há nenhuma indicação de que todos eles ficassem de posse desse poder, permanentemente. No Pentecostes, o Espírito Santo desceu sobre os discípulos e distribuiu dons aos homens. Ainda hoje os discípulos de Jesus podem ser usados para esses dois serviços (Mc 16.15-18):

1º) Operar os sinais que demonstram a vinda do Reino;

2º) Proclamar a mensagem de Salvação.

3.5 Sua Rejeição

A narrativa de Lucas 10.10-12 apresenta um “ritual de rejeição” mais elaborado. Além de bater o pó proveniente da “cidade dos rejeitadores”, e de fazer uma espécie de pequeno discurso formal, os missionários cristãos deveriam assegurar-lhes que tinham perdido grande oportunidade, pois o “Reino de Deus” chegara perto deles, na forma de seus mensageiros. Desse modo, a mensagem de misericórdia se transmuta em “sentença condenatória”, quando é ignorada ou repelida.

“Haverá menos rigor para Sodoma…”. Para os judeus, “Sodoma e Gomorra” eram símbolos de cidades ou indivíduos especialmente pecaminosos e, ao mesmo tempo, símbolo do juízo de Deus contra tais. Jesus mostrou que nem mesmo Sodoma e Gomorra mereciam julgamento tão severo como aqueles que rejeitam o Messias, o seu Reino e os seus discípulos. O ensino de Jesus, neste ponto, inclui ideias que a rejeição da luz, quanto mais brilhante ela for, trará julgamento mais severo, e que quanto maior for a luz recebida, maior será a responsabilidade do indivíduo.

Sodoma contou apenas com o fraco testemunho de Ló. Mas as cidades da Galiléia gozaram do testemunho dado pelo próprio Messias. Provavelmente os pecados dos habitantes de Sodoma e Gomorra eram mais graves e numerosos do que os dos habitantes da Galiléia. Mas o julgamento dos habitantes da Galiléia seria mais severo, em face de terem ouvido a mensagem mais ampla do mensageiro divino. É possível que nesses ensinos, Jesus tenha incluído a ideia de Julgamentos terrestres, isto é, tipos de juízo como os que foram sofridos por Sodoma e Gomorra, e não somente um juízo vindouro. Alguns intérpretes acham só este último sentido no texto, mas a verdade é que Jesus pode ter indicado mais do que isto.

Conclusão:

É uma bênção e privilégio poder participar da missão de levar o Evangelho à toda a criatura! No relato do regresso dos setenta (Lc 10.17-24), há alguns pontos de alerta a se considerar. Eles retornaram exultantes pelo poder de operar sinais, de submeter demônios. Ser capacitado e usado por Deus pode insuflar nosso ego, fazer-nos pensar de nós mesmos além do que convém. Jesus os adverte quanto ao objeto da verdadeira alegria – a salvação eterna. Nossa alegria consiste em glorificar a Deus, anunciar o Evangelho e contemplar os frutos do penoso trabalho do Servo Sofredor (Jesus): “Ele verá o fruto do penoso trabalho de sua alma e ficará satisfeito;” (Is 53.11). Vidas salvas e transformadas alegram o coração de Deus e deve alegrar o nosso também.

%d blogueiros gostam disto: