Requisitos do Discipulado

Texto(s) base: Lucas 9.57-62 | Mateus 8.19-22
O discipulado posto à prova – O preço do discipulado

Introdução          

É interessante observar nos Evangelhos que, por três vezes, Jesus usa a expressão “não pode ser meu discípulo” após mencionar uma ou mais condições necessárias e indispensáveis, conforme segue:

“Se alguém vem a mim e não aborrece[1] a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs e ainda a sua própria vida, não pode ser meu discípulo.” (Lc 14.26)
“E qualquer que não tomar a sua cruz e vier após mim não pode ser meu discípulo.” (Lc 14.27)
“Assim, pois, todo aquele que dentre vós não renuncia a tudo quanto tem não pode ser meu discípulo.” (Lc 14.33)

Portanto, ser discípulo e seguidor de Jesus não é um tipo de favor que fazemos a ele, ou prestígio que damos a ele, como acontece quando seguimos alguém numa Rede Social. Ao contrário, é uma oportunidade e privilégio que o Mestre nos concede desde que atendamos a determinadas condições ou requisitos.

Na minha adolescência e início de juventude muito me impactou a leitura do livreto “O Discipulado Verdadeiro” de William MacDonald (Ed. Mundo Cristão). Dentre várias exposições ele enumera sete “Termos do Discipulado”, todos com um tom de exigência muito forte:

1º) Supremo amor por Jesus Cristo.
“Se alguém vem a mim e não aborrece a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs e ainda a sua própria vida, não pode ser meu discípulo. (Lc 14.26)”

2º) Abnegação.
“Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me.” (Mt 16.24b)

3º) Deliberada escolha da cruz[2].
“Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me.” (Mt 16.24b)

4º) Vida que se passa seguindo a Cristo.
“Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me.” (Mt 16.24b)

5º) Fervente amor por todos os que pertencem a Cristo.
“Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros.” (Jo 13.35)

6º) Perseverança em sua Palavra, sem desvios.
“Disse, pois, Jesus aos judeus que haviam crido nele: Se vós permanecerdes na minha palavra, sois verdadeiramente meus discípulos;” (Jo 8.31)

7º) Abandono de tudo para segui-lo. 
“Assim, pois, todo aquele que dentre vós não renuncia a tudo quanto tem não pode ser meu discípulo.” (Lc 14.33)

O tema dá margem para abordarmos esses e tantos outros requisitos ou condições prévias, entretanto, vamos nos fixar em três deles contidos no texto base deste estudo. Desde sempre a sociedade humana aprendeu a conviver com a exigência de requisitos. Podemos citar alguns exemplos mais recentes: para entrar em uma determinada escola, para ocupar uma vaga numa empresa, para concorrer a um cargo eletivo, para jogar numa equipe de esporte, para ter acesso a determinados benefícios (auxílio governamental, atendimento prioritário, aposentadoria etc.) e assim por diante. Ser discípulo de Jesus não é diferente. A salvação é pela Graça Divina, mas o seguir a Cristo tem um preço a ser pago pelo salvo. Portanto, o propósito deste estudo é apresentar algumas exigências impostas ao discípulo e seguidor de Cristo.  

Desenvolvimento             

Notemos que Mateus e Lucas registram esses incidentes de “quase discípulos”. Sabemos que Mateus não teve a intenção de escrever um “Evangelho cronológico”; antes como seu propósito, compilou um “Evangelho por tópicos”. A narrativa de Lucas parece ser mais completa.

Todo aquele que começa a seguir a Cristo não deve se surpreender com o fato de que irá se deparar com muitos que se desviam, seguindo caminhos que surgem diante deles. Além disso, sempre será tentado a retroceder. Também, não faltarão outras vozes e propostas  tentando induzi-lo a não se envolver muito, a aproveitar a vida e  oferecendo-se para “cortar centímetros da cruz”.

Há uma interessante ilustração disto no registro bíblico desses três candidatos a discípulos que permitiram que outras vozes tivessem precedência à voz de Cristo. Estes três homens estiveram face a face com Jesus. Sentiram-se movidos por uma compulsão interna a segui-lo. Mas permitiram que alguma coisa, interferisse entre suas almas e a completa dedicação a ele.

Então, vejamos o que aconteceu no encontro desses três senhores com Jesus. Seus nomes não são mencionados, então, poderíamos identificá-los com os seguintes  “apelidos”:

1. Sr. PRECIPITADO

57  Indo eles caminho fora, alguém lhe disse: Seguir-te-ei para onde quer que fores. (Lc 9)
58  Mas Jesus lhe respondeu: As raposas têm seus covis, e as aves do céu, ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça. (Lc 9)
“19  Então, aproximando-se dele um escriba, disse-lhe: Mestre, seguir-te-ei para onde quer que fores. (Mt 8)
20  Mas Jesus lhe respondeu: As raposas têm seus covis, e as aves do céu, ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça. (Mt 8)

Entusiasticamente o Sr. Precipitado, aquele “alguém” ou um “escriba”, se apresentou como voluntário para seguir o Senhor por toda a parte. Será que ele tinha consciência plena das implicações disso? Do preço a ser pago? Precipitado é aquele que se comporta de maneira impulsiva; que age sem reflexão.

A princípio a resposta de Jesus não parece ter sido tão animadora diante de tão espontâneo oferecimento do Sr. Precipitado. Na verdade, a resposta do Senhor foi apropriada e realista. É como se dissesse: “Alegas que estás disposto a seguir-me por toda parte, mas estás disposto a fazer isso sem as comodidades materiais da vida? As raposas têm mais comodidades deste mundo do que eu. As aves têm ninhos que podem dizer que lhes pertencem. Mas eu sou um Peregrino sem lar no mundo que as minhas mãos fizeram. Estás pronto a sacrificar a segurança de um lar para seguir-me? Estás pronto para renunciar às legítimas comodidades da vida a fim de servir-me devotadamente?”

Ao que parece, o homem não estava disposto a isso, porque não ouvimos falar mais dele nas Sagradas Escrituras. Talvez o seu amor pelas conveniências tenha sido maior do que a sua pretensa dedicação a Cristo!

Diferentemente de muitos líderes populistas, Jesus não esconde dos seus pretensos seguidores as dificuldades e sacrifícios exigidos pelo discipulado. Seus seguidores precisam ter consciência das dificuldades, dos desafios, das perdas, da renúncia, do desconforto. Quantas pessoas, de forma irrefletida, num momento de pura emoção, ou na busca de bênçãos e vantagens materiais, ou fuga do inferno e garantia do céu,  agem como o Sr. Precipitado? Os adeptos e defensores da “teologia da prosperidade” não agem como Jesus, ao contrário, enfatizam a prosperidade e escondem as dificuldades.  

Jesus também disse: “No mundo, passais por aflições; mas tende bom ânimo; eu venci o mundo.” (Jo 16.33b). Ele venceu, mas foi morto e ressuscitou. Os seus primeiros seguidores, os apóstolos, foram martirizados, bem como Estêvão. O apóstolo Paulo acrescentou: “Porque vos foi concedida a graça de padecerdes por Cristo e não somente de crerdes nele,” (Fp 1.29); “Ora, todos quantos querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos.” (2Ts 3.12)

2. Sr. ATAREFADO

59  A outro disse Jesus: Segue-me! Ele, porém, respondeu: Permite-me ir primeiro sepultar meu pai. (Lc 9)
60  Mas Jesus insistiu: Deixa aos mortos o sepultar os seus próprios mortos. Tu, porém, vai e prega o reino de Deus. (Lc 9)
21  E outro dos discípulos lhe disse: Senhor, permite-me ir primeiro sepultar meu pai. (Mt 8)
22  Replicou-lhe, porém, Jesus: Segue-me, e deixa aos mortos o sepultar os seus próprios mortos. (Mt 8)

Este não foi voluntário como o primeiro; em vez disso o Senhor o chamou para que fosse um seguidor. Sua resposta não foi uma recusa completa. Ele não estava inteiramente desinteressado no Senhor, mas havia algo que ele queria fazer primeiro. Este foi o seu grande erro. Colocou as reivindicações dele acima das de Cristo.

Note-se a sua resposta: “Permite-me ir primeiro sepultar meu pai”. Ora, é perfeitamente legítimo que um filho mostre respeito natural a seus pais. E, se um pai morre, por certo está dentro dos limites da fé cristã que o filho lhe dê um sepultamento decente. À primeira vista a resposta de Jesus pode até causar certa estranheza ou chocar. Entretanto, fica no ar as seguintes questões: (i)Esse pai acabara de morrer e o filho precisava providenciar o seu sepultamento? Ou, (ii) O pai estava vivo e ele quis adiar por algum tempo, o seguir a Jesus, para cuidar do pai até que viesse a morrer e fosse sepultado?  De qualquer forma fica explícito que as exigências do discipulado e do reino têm precedência e prioridade sobre as tarefas e vínculos terrenos.

A questão principal que se coloca aqui diz respeito à sua prioridade pessoal em detrimento à prioridade do Senhor. Ele começou dizendo: “Senhor, permite-me…primeiro…”. As outras palavras que disse eram simples camuflagem para ocultar o seu subjacente desejo de colocar o seu “eu” em primeiro lugar.

O Sr. Atarefado tinha um trabalho para fazer, e deixou que esse trabalho ficasse com o primeiro lugar. Portanto, foi pertinente que Jesus lhe dissesse: “Deixa aos mortos o sepultar os seus próprios mortos. Tu, porém, vai, e prega o reino de Deus”. Podemos parafrasear as suas palavras como segue: “Há certas coisas que os espiritualmente mortos podem fazer tal qual os crentes. Mas há outras coisas na vida que somente o crente pode fazer. Vê que não passes a vida fazendo o que um inconverso poderia fazer igualmente bem. Deixa que os mortos espiritualmente enterrem os fisicamente mortos. Quanto a ti, porém, age como indispensável. Deixa que o impulso dominante da tua vida seja o de promover o progresso da minha causa na terra”.

Parece que o preço era alto demais para o Sr. Atarefado pagar. Saiu do palco do tempo para entrar num anônimo silêncio.

“Se o primeiro ilustra as comodidades materiais como um obstáculo ao discipulado, o segundo pode falar de um serviço ou ocupação tomando precedência sobre a principal razão da existência de um cristão. Não é que haja algo errado num emprego secular; a vontade de Deus é que o homem trabalhe para suprir as suas necessidades e as de sua família. Mas a vida do verdadeiro discípulo exige que o reino de Deus e a sua justiça sejam procurados primeiro; que o crente não passe a vida fazendo o que o não regenerado pode fazer tão bem, se não melhor; e que a função de um trabalho seja simplesmente suprir as necessidades comuns, enquanto a principal vocação do cristão é pregar o reino de Deus.”

Nem todos são chamados por Deus para serem obreiros de tempo integral, mas todos os discípulos são chamados para uma dedicação integral e testemunho seja lá onde estiver (em casa, na escola, no trabalho etc.). Como anda a sua agenda? Quais são as suas prioridades e projetos nesta vida? Qual é a sua escala de valores? O que é mais importante para você? Não perca de vista as advertências de Jesus: “porque, onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração.” (Mt 6.21); e, ainda: “Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?” (Mc 8.36); “Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de aborrecer-se de um e amar ao outro, ou se devotará a um e desprezará ao outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas.” (Mt 6.24)  

3. Sr. SENTIMENTALISTA

61  Outro lhe disse: Seguir-te-ei, Senhor; mas deixa-me primeiro despedir-me dos de casa. (Lc 9)
62  Mas Jesus lhe replicou: Ninguém que, tendo posto a mão no arado, olha para trás é apto para o reino de Deus. (Lc 9)

Este é parecido com o primeiro uma vez que também se apresentou voluntariamente para seguir o Senhor. Mas, também é parecido com o segundo no uso que fez das palavras contraditórias: “…Senhor…deixa-me primeiro…”. Disse ele: “Seguir-te-ei, Senhor; mas deixa-me primeiro despedir-me dos de casa”.

Em princípio, não havia nada de errado com essa solicitação e alguém pode até ter estranhado a resposta de Jesus, afinal, Eliseu pediu a mesma coisa a Elias, quando chamado a segui-lo, e foi atendido (1Rs 19.20 – “Vai e volta”, é o nosso popular “bate e volta”). É mais do que justo mostrar interesse amoroso pelos parentes e dar satisfação à família ao deixá-los. Qual foi, pois, o ponto em que este homem falhou no teste? Este permitiu que os ternos laços naturais, as demandas familiares, usurpassem o lugar de Cristo.

Por isso, o Senhor Jesus disse: “Ninguém que, tendo posto a mão no arado, olha para trás, é apto para o reino de Deus”. “Em outras palavras: Os meus discípulos não são feitos de substância tão egocêntrica e maleável como a que exibes. Quero como discípulos aqueles que estejam dispostos a renunciar aos laços familiares, que não se deixem levar por parentes sentimentais, que me ponham acima de todos os demais em suas vidas.”

Podemos, então, concluir que o Sr. Sentimentalista deixou Jesus e se foi desprezando tão relevante oportunidade. “Suas mais que confiantes aspirações ao discipulado romperam-se nas rochas dos laços da afinidade familiar. Talvez fosse uma chorosa mãe a solução: ‘Você partirá o coração de sua mãe se me deixar para ir para o campo missionário`. Não sabemos. Tudo que sabemos é que a Bíblia generosamente evita dar o nome deste fraco indivíduo que, voltando atrás, perdeu a maior oportunidade da sua vida e ganhou o epitáfio: ´Inepto para o reino de Deus.`”

Conclusão

Resumindo:
Estes três casos, com estes três candidatos a discípulo de Jesus, ilustram três situações de não atendimento aos requisitos do discipulado, a saber:

Sr. Precipitado – O apego às comodidades terrenas; a valorização do conforto e do prazer acima do Senhor.

Sr. Atarefado – A precedência de um emprego ou de uma ocupação terrena.

Sr. Sentimentalista – A prioridade dos ternos laços de família.

O Senhor Jesus Cristo continua chamando, como sempre chamou, homens e mulheres dispostos a segui-lo com compromisso total, submissão incondicional, prioridade inegociável, abnegação, renúncia e sacrifício. Neste caminho, não estão disponíveis atalhos ou rotas de fuga. Não há espaço para impor condições pessoais. A pergunta que não quer calar é: quantos estão dispostos a responder positivamente a esse chamado?

“O Salvador não está procurando homens e mulheres que lhe deem escassas noites – ou os seus fins de semana – ou os anos da sua aposentadoria. Antes, procura os que hão de dar-lhe o primeiro lugar em suas vidas”.

Não podemos encerrar este estudo sem lembrar que não é vã tal dedicação a Cristo, qualquer que seja o preço pago pelo discípulo e seguidor de Jesus; há recompensa aqui e no pós morte: “E todo aquele que tiver deixado casas, ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe ou mulher, ou filhos, ou campos, por causa do meu nome, receberá muitas vezes mais e herdará a vida eterna.” (Mt 19.29)

Que Deus nos ajude!

Bibliografia

1. Bíblia Sagrada (SBB – Versão Revista e Atualizada).
2. Bíblia Online – SBB.
3. Revista Fazei Discípulos (Ed. Didaquê).
4. O Discipulado verdadeiro – William MacDonald (Ed. Mundo Cristão)
5. Internet.


[1] Aborrecer: colocar em 2º plano.

[2] “A cruz não é alguma fraqueza física ou angústia mental; estas coisas são comuns a todos os homens. A cruz é um caminho escolhido deliberadamente. É ´um caminho que segundo o curso deste mundo é alvo de desonra e crítica.` – C. A. Coates.


Veja isso:

VOCÊ TEM TEMPO PARA DEUS?

Gerando Discípulos – Crescimento na Fé

Introdução:

Na Grande Comissão (Mt 28.19-20), Jesus deixou para a igreja três importantes instruções: (i) Fazer discípulos; (ii) Batizá-los; e, (iii) Ensiná-los. Nenhuma dessas partes, ou ordens, ou instruções deve ser negligenciada pela igreja. Nessa pós-modernidade em que vivemos, muitas igrejas têm se preocupado mais em manter templos cheios, do que com discípulos que guardam e praticam “todas as coisas que eu (Jesus) vos tenho ordenado”.

“Durante a Idade de Ouro da Grécia, o jovem Platão podia ser visto caminhando pelas ruas de Atenas em busca de seu mestre: o maltrapilho, descalço e brilhante Sócrates. Aqui, provavelmente, estava o início de um discipulado. Sócrates não escreveu livros. Seus alunos escutavam atentamente cada palavra que ele dizia e observavam tudo o que ele fazia, preparando-se para ensinar a outros. Aparentemente, o sistema funcionou. Mais tarde, Platão fundou a Academia, onde Filosofia e Ciência continuaram a ser ensinadas por 900 anos. Jesus usou relacionamento semelhante com os homens que ele treinou para difundir o Reino de Deus. … Discípulo é o aluno que aprende as palavras, os atos e o estilo de vida de seu mestre com a finalidade de ensinar outros.” (Keith Phillips).

Através do discipulado, Deus entretece uma cadeia que começa em Cristo e se desenvolve através dos seus seguidores, alcançando cada geração, até à volta de Cristo: “E o que de minha parte ouviste através de muitas testemunhas, isso mesmo transmite a homens fiéis e também idôneos para instruir a outros.” (2Tm 2.2)

Neste estudo vamos abordar alguns aspectos do crescimento na fé, do discípulo de Cristo.

1. QUAL A CONDIÇÃO ESSENCIAL PARA CRESCER?

Por mais óbvio que possa parecer, vale lembrar que é preciso ter vida para poder crescer. Seres inanimados, coisas mortas, não podem crescer. As coisas mortas podem até aumentar de tamanho, por superposição de outros materiais. Em se tratando de pessoas, quando não se tem a vida que vem do alto, as práticas religiosas são como camadas revestindo coisas mortas. Tais pessoas foram definidas por Jesus como sepulcros caiados (Mt 23.27).

O discipulado começa quando uma pessoa é regenerada pelo Espírito Santo, nascendo de novo – “logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim;” (Gl 2.20). É importante ressaltar em que momento acontece esse início; sem dúvida é quando a pessoa se torna cristã. “Muitíssimas pessoas acham que você se torna cristão vivendo a vida cristã. Absolutamente NÃO! É preciso que primeiro você se torne cristão, antes de poder viver a vida cristã.” (William Mac Donald)

2. POR QUE CRESCER?

2.1 É a lei da natureza

No mundo físico no qual estamos inseridos, as árvores frutíferas seguem o ciclo da germinação, crescimento e produção de frutos. Com os seres vivos não é diferente; é a lei da vida. Nas palavras de Jesus, esse processo natural dita a regra para o processo espiritual: “Todo ramo que, estando em mim, não der fruto, ele o corta; e todo o que dá fruto limpa, para que produza mais fruto ainda.” (Jo 15.2).

2.2 É uma questão de sobrevivência

Há uma expressão, em inglês, Grow up or Blow up (ou você cresce ou desaparece) bastante interessante. Não há como manter-se estagnado, estacionado; ou se está crescendo, ou se está diminuindo, porque as coisas ao nosso redor estão num processo contínuo de desenvolvimento. Quando não há crescimento na vida cristã, individual ou coletivamente, isso gera frustração e reprimenda, por parte da liderança (Hb 5.12) e ameaça o corpo de Cristo, a igreja (1Co 3.1-3; Gl 5.15).

2.3 É a vontade de Deus  

A vontade de Deus é sempre boa, agradável e perfeita (Rm 12.2), e deve ter sempre a primazia em nossa vida. O discípulo de Cristo é convocado e desafiado a crescer: “antes, crescei na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.” (2Pe 3.18a). É um crescimento em várias áreas:

i) Crescimento na graça do Senhor (2Pe 3.18a).
ii) Crescimento no conhecimento do Senhor (2Pe 3.18a).
iii) Crescimento em amor, uns para com os outros (1Ts 3.12).

3. COMO CRESCER?

Como ajudar um irmão a crescer na fé? Para acontecer o crescimento saudável do discípulo de Cristo, há uma confluência de fatores relevantes e determinantes. Como se dá esse crescimento?

3.1 Sobrenaturalmente

Se o discípulo é uma nova criatura em Cristo, habitado pelo Espírito Santo, tem vida espiritual, esse mesmo Espírito age nele e na igreja, com vistas ao crescimento. O apóstolo Paulo assim nos ensina a respeito desse crescimento sobrenatural: “Eu plantei, Apolo regou; mas o crescimento veio de Deus. De modo que nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento.” (1Co 3.6-7). “…, da qual todo o corpo, suprido e bem vinculado por suas juntas e ligamentos, cresce o crescimento que procede de Deus.” (Cl 2.19)

3.2 Naturalmente

Os seres vivos crescem e se desenvolvem, naturalmente. Jesus afirmou: “Considerai como crescem os lírios do campo: eles não trabalham, nem fiam.” (Mt 6.28b). Jesus chama a atenção para esse processo natural e espontâneo de crescimento. Mesmo sendo um processo natural estabelecido pelo Criador, esse crescimento também depende de algumas condições ambientais, tais como: solo, sol, água, ar etc. Na Bíblia, o justo ou o cristão é comparado a uma árvore (Sl 1.3). Da mesma forma, havendo vida espiritual, o crescimento do discípulo é natural e espontâneo. Entretanto, há alguns aspectos essenciais para esse crescimento, tais como:

i) Ambiente adequado.

A igreja precisa zelar no sentido de manter um ambiente agradável e favorável ao crescimento do discípulo. Há ambientes que ele será obrigado a frequentar, como o da escola, trabalho etc. Nesses, ele precisa ser forte, não se contaminando e sendo sal da terra e luz do mundo. Entretanto, há outros, que ele pode e deve evitar (Sl 1.1). Finalmente, há aqueles que ele pode e deve tornar adequados (Sl 1.2).

ii) Alimentação saudável

Os seres vivos se alimentam e o tipo de alimento ingerido afeta diretamente o crescimento. Nossa dieta espiritual mais rica é a leitura (e meditação) da Palavra de Deus: “desejai ardentemente, como crianças recém-nascidas, o genuíno leite espiritual, para que, por ele, vos seja dado crescimento para salvação,” (1Pe 2.2). Ela é alimento e agente de purificação: “para que a santificasse, tendo-a purificado por meio da lavagem de água pela palavra,” (Ef 5.26; comp. Jo 15.3).

iii) Respiração

A oração é a respiração da alma. A oração deve ser como a respiração: contínua e natural. Ela nos mantém espiritualmente vivos. Nem sempre precisamos usar palavras; podemos nos quedar na presença de Deus.

iv) Exercício

Nosso corpo se mantém sadio, nossos músculos se desenvolvem, se nos exercitarmos. Uma fé sem obras é morta. O discípulo precisa praticar a adoração a Deus, testemunhar a sua fé e servir o próximo.

v) Descanso

O estresse gerado pelas preocupações e medos, adoece o corpo e a mente. Até mesmo o ativismo cristão é condenável e prejudicial. Assim como o corpo necessita de descanso, do sono restaurador, nosso ser precisa se aquietar e descansar no Senhor e na força do seu poder. A Bíblia diz: “Descansa no SENHOR e espera nele…” (Sl 37.7); “Inútil vos será levantar de madrugada, repousar tarde, comer o pão que penosamente granjeastes; aos seus amados ele o dá enquanto dormem.” (Sl 127.2).

3.3 Sacrificialmente

Embora não se fale muito sobre a chamada “dor do crescimento”, na medicina ela é descrita como “uma sensação dolorosa recorrente, sem causa específica, que recebeu esse nome por se manifestar em uma fase crucial do desenvolvimento físico – especialmente entre 3 e 8 anos. Os médicos acreditam que de 5% a 15% da população infantil enfrente o problema pelo menos uma vez na vida.”

Crescer espiritualmente também acarreta “alguma dor” que é incomparavelmente menor do que as dores de um viver sem Cristo, de uma vida pecaminosa. O verdadeiro discípulo cristão precisa ter um compromisso total com o Senhor Jesus Cristo. Isso implica num modo de vida diferenciado que, ao mesmo tempo que lhe traz crescimento e maturidade na fé, e a bênção de Deus, leva a uma luta espiritual, sem tréguas. Alguns desses aspectos são:

i) Decisão por Cristo

Ter Cristo em primeiro lugar na vida, significa que nada e ninguém é mais importante do que ele. Essa é uma condição estabelecida pelo próprio Senhor, para o discipulado: “Se alguém vem a mim e ama o seu pai, sua mãe, sua mulher, seus filhos, seus irmãos e irmãs, e até sua própria vida mais do que a mim, não pode ser meu discípulo.” (Lc 14.26NVI). Em algum momento, circunstância ou situação essa opção por Cristo pode trazer alguma dor, pois somos humanos. Não são poucos os casos de conflitos familiares, ou desprezo, ou abandono, porque tomou-se a decisão de seguir a Cristo.

ii) Abnegação

“Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue,….” (Mt 16.24). Se Jesus é o Mestre e Senhor, se queremos ser como ele e viver como ele, não há como fazer isso se não renunciarmos a nós mesmos e nos submetermos a ele, à sua vontade, aos seus ensinos, ao seu estilo de ser e agir.

iii) Renúncia aos bens terrenos

“Assim, pois, todo aquele que dentre vós não renuncia a tudo quanto tem não pode ser meu discípulo.” (Lc 14.33). Jesus não está ensinando aqui que para ser seu discípulo é necessário se desfazer de todos os bens materiais. Por outro lado, a pobreza não é passaporte para a eternidade. O fato é que o discípulo de Jesus não pode amar a riqueza ou os prazeres lícitos deste mundo, mais do que a Deus. Somos mordomos de Deus e devemos investir na sua obra segundo o muito ou pouco que ele nos dá.

iv) Pagar o preço

“Se alguém quer vir após mim, …., tome a sua cruz e siga-me.” (Mt 16.24). Quando seguimos a Cristo, passamos a andar na contracultura da sociedade secular. Certamente teremos enfrentamentos frequentes por conta disso e precisamos tomar a decisão deliberada de pagar o preço dessa conta. A cruz aqui não é uma enfermidade física, uma fraqueza de caráter, uma perda irreparável, um fracasso etc, coisas essas que podem acontecer com qualquer pessoa. A cruz é a vergonha da cruz: a perseguição, o desprezo, a indiferença, as críticas sofridas por trilharmos o caminho apertado (Mt 7.14).

Conclusão:

Fazer discípulos e ensiná-los é tarefa indelegável da igreja, na qual todo cristão deve estar engajado. Jesus é o modelo e referencial a ser seguido; nenhuma figura humana, do presente ou do passado, pode ocupar esse lugar.  Para crescer na fé é preciso primeiramente nascer do alto. O crescimento espiritual obedece a uma lei natural, é uma questão de sobrevivência, mas, acima de tudo, é a vontade do nosso Pai Celeste. Qual o pai ou mãe que não deseja que seus filhos cresçam? O crescimento é um processo sobrenatural, natural e sacrificial. Depende de Deus, a família e a igreja participam, mas depende, também, da vontade, do empenho e da dedicação de cada discípulo.

Cada discípulo é desafiado a crescer e a ajudar outros a crescerem. “E sabeis, ainda, de que maneira, como pai a seus filhos, a cada um de vós, exortamos, consolamos e admoestamos, para viverdes por modo digno de Deus, que vos chama para o seu reino e glória.” (1Ts 2.11-12)

Bibliografia:

SWEETING, George. Os primeiros passos na vida cristã. Ed. Mundo Cristão, 1976.
MAC DONALD, William. O discipulado verdadeiro. Ed. Mundo Cristão, 1975.
PHILLIPS, Keith. A formação de um discípulo. Ed. Vida, 1981.