
Texto(s) base: Lucas 9.57-62 | Mateus 8.19-22
O discipulado posto à prova – O preço do discipulado
Introdução
É interessante observar nos Evangelhos que, por três vezes, Jesus usa a expressão “não pode ser meu discípulo” após mencionar uma ou mais condições necessárias e indispensáveis, conforme segue:
“Se alguém vem a mim e não aborrece[1] a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs e ainda a sua própria vida, não pode ser meu discípulo.” (Lc 14.26)
“E qualquer que não tomar a sua cruz e vier após mim não pode ser meu discípulo.” (Lc 14.27)
“Assim, pois, todo aquele que dentre vós não renuncia a tudo quanto tem não pode ser meu discípulo.” (Lc 14.33)
Portanto, ser discípulo e seguidor de Jesus não é um tipo de favor que fazemos a ele, ou prestígio que damos a ele, como acontece quando seguimos alguém numa Rede Social. Ao contrário, é uma oportunidade e privilégio que o Mestre nos concede desde que atendamos a determinadas condições ou requisitos.
Na minha adolescência e início de juventude muito me impactou a leitura do livreto “O Discipulado Verdadeiro” de William MacDonald (Ed. Mundo Cristão). Dentre várias exposições ele enumera sete “Termos do Discipulado”, todos com um tom de exigência muito forte:
1º) Supremo amor por Jesus Cristo.
“Se alguém vem a mim e não aborrece a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs e ainda a sua própria vida, não pode ser meu discípulo. (Lc 14.26)”
2º) Abnegação.
“Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me.” (Mt 16.24b)
3º) Deliberada escolha da cruz[2].
“Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me.” (Mt 16.24b)
4º) Vida que se passa seguindo a Cristo.
“Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me.” (Mt 16.24b)
5º) Fervente amor por todos os que pertencem a Cristo.
“Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros.” (Jo 13.35)
6º) Perseverança em sua Palavra, sem desvios.
“Disse, pois, Jesus aos judeus que haviam crido nele: Se vós permanecerdes na minha palavra, sois verdadeiramente meus discípulos;” (Jo 8.31)
7º) Abandono de tudo para segui-lo.
“Assim, pois, todo aquele que dentre vós não renuncia a tudo quanto tem não pode ser meu discípulo.” (Lc 14.33)
O tema dá margem para abordarmos esses e tantos outros requisitos ou condições prévias, entretanto, vamos nos fixar em três deles contidos no texto base deste estudo. Desde sempre a sociedade humana aprendeu a conviver com a exigência de requisitos. Podemos citar alguns exemplos mais recentes: para entrar em uma determinada escola, para ocupar uma vaga numa empresa, para concorrer a um cargo eletivo, para jogar numa equipe de esporte, para ter acesso a determinados benefícios (auxílio governamental, atendimento prioritário, aposentadoria etc.) e assim por diante. Ser discípulo de Jesus não é diferente. A salvação é pela Graça Divina, mas o seguir a Cristo tem um preço a ser pago pelo salvo. Portanto, o propósito deste estudo é apresentar algumas exigências impostas ao discípulo e seguidor de Cristo.
Desenvolvimento
Notemos que Mateus e Lucas registram esses incidentes de “quase discípulos”. Sabemos que Mateus não teve a intenção de escrever um “Evangelho cronológico”; antes como seu propósito, compilou um “Evangelho por tópicos”. A narrativa de Lucas parece ser mais completa.
Todo aquele que começa a seguir a Cristo não deve se surpreender com o fato de que irá se deparar com muitos que se desviam, seguindo caminhos que surgem diante deles. Além disso, sempre será tentado a retroceder. Também, não faltarão outras vozes e propostas tentando induzi-lo a não se envolver muito, a aproveitar a vida e oferecendo-se para “cortar centímetros da cruz”.
Há uma interessante ilustração disto no registro bíblico desses três candidatos a discípulos que permitiram que outras vozes tivessem precedência à voz de Cristo. Estes três homens estiveram face a face com Jesus. Sentiram-se movidos por uma compulsão interna a segui-lo. Mas permitiram que alguma coisa, interferisse entre suas almas e a completa dedicação a ele.
Então, vejamos o que aconteceu no encontro desses três senhores com Jesus. Seus nomes não são mencionados, então, poderíamos identificá-los com os seguintes “apelidos”:
1. Sr. PRECIPITADO
57 Indo eles caminho fora, alguém lhe disse: Seguir-te-ei para onde quer que fores. (Lc 9)
58 Mas Jesus lhe respondeu: As raposas têm seus covis, e as aves do céu, ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça. (Lc 9)
“19 Então, aproximando-se dele um escriba, disse-lhe: Mestre, seguir-te-ei para onde quer que fores. (Mt 8)
20 Mas Jesus lhe respondeu: As raposas têm seus covis, e as aves do céu, ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça. (Mt 8)
Entusiasticamente o Sr. Precipitado, aquele “alguém” ou um “escriba”, se apresentou como voluntário para seguir o Senhor por toda a parte. Será que ele tinha consciência plena das implicações disso? Do preço a ser pago? Precipitado é aquele que se comporta de maneira impulsiva; que age sem reflexão.
A princípio a resposta de Jesus não parece ter sido tão animadora diante de tão espontâneo oferecimento do Sr. Precipitado. Na verdade, a resposta do Senhor foi apropriada e realista. É como se dissesse: “Alegas que estás disposto a seguir-me por toda parte, mas estás disposto a fazer isso sem as comodidades materiais da vida? As raposas têm mais comodidades deste mundo do que eu. As aves têm ninhos que podem dizer que lhes pertencem. Mas eu sou um Peregrino sem lar no mundo que as minhas mãos fizeram. Estás pronto a sacrificar a segurança de um lar para seguir-me? Estás pronto para renunciar às legítimas comodidades da vida a fim de servir-me devotadamente?”
Ao que parece, o homem não estava disposto a isso, porque não ouvimos falar mais dele nas Sagradas Escrituras. Talvez o seu amor pelas conveniências tenha sido maior do que a sua pretensa dedicação a Cristo!
Diferentemente de muitos líderes populistas, Jesus não esconde dos seus pretensos seguidores as dificuldades e sacrifícios exigidos pelo discipulado. Seus seguidores precisam ter consciência das dificuldades, dos desafios, das perdas, da renúncia, do desconforto. Quantas pessoas, de forma irrefletida, num momento de pura emoção, ou na busca de bênçãos e vantagens materiais, ou fuga do inferno e garantia do céu, agem como o Sr. Precipitado? Os adeptos e defensores da “teologia da prosperidade” não agem como Jesus, ao contrário, enfatizam a prosperidade e escondem as dificuldades.
Jesus também disse: “No mundo, passais por aflições; mas tende bom ânimo; eu venci o mundo.” (Jo 16.33b). Ele venceu, mas foi morto e ressuscitou. Os seus primeiros seguidores, os apóstolos, foram martirizados, bem como Estêvão. O apóstolo Paulo acrescentou: “Porque vos foi concedida a graça de padecerdes por Cristo e não somente de crerdes nele,” (Fp 1.29); “Ora, todos quantos querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos.” (2Ts 3.12)
2. Sr. ATAREFADO
59 A outro disse Jesus: Segue-me! Ele, porém, respondeu: Permite-me ir primeiro sepultar meu pai. (Lc 9)
60 Mas Jesus insistiu: Deixa aos mortos o sepultar os seus próprios mortos. Tu, porém, vai e prega o reino de Deus. (Lc 9)
21 E outro dos discípulos lhe disse: Senhor, permite-me ir primeiro sepultar meu pai. (Mt 8)
22 Replicou-lhe, porém, Jesus: Segue-me, e deixa aos mortos o sepultar os seus próprios mortos. (Mt 8)
Este não foi voluntário como o primeiro; em vez disso o Senhor o chamou para que fosse um seguidor. Sua resposta não foi uma recusa completa. Ele não estava inteiramente desinteressado no Senhor, mas havia algo que ele queria fazer primeiro. Este foi o seu grande erro. Colocou as reivindicações dele acima das de Cristo.
Note-se a sua resposta: “Permite-me ir primeiro sepultar meu pai”. Ora, é perfeitamente legítimo que um filho mostre respeito natural a seus pais. E, se um pai morre, por certo está dentro dos limites da fé cristã que o filho lhe dê um sepultamento decente. À primeira vista a resposta de Jesus pode até causar certa estranheza ou chocar. Entretanto, fica no ar as seguintes questões: (i)Esse pai acabara de morrer e o filho precisava providenciar o seu sepultamento? Ou, (ii) O pai estava vivo e ele quis adiar por algum tempo, o seguir a Jesus, para cuidar do pai até que viesse a morrer e fosse sepultado? De qualquer forma fica explícito que as exigências do discipulado e do reino têm precedência e prioridade sobre as tarefas e vínculos terrenos.
A questão principal que se coloca aqui diz respeito à sua prioridade pessoal em detrimento à prioridade do Senhor. Ele começou dizendo: “Senhor, permite-me…primeiro…”. As outras palavras que disse eram simples camuflagem para ocultar o seu subjacente desejo de colocar o seu “eu” em primeiro lugar.
O Sr. Atarefado tinha um trabalho para fazer, e deixou que esse trabalho ficasse com o primeiro lugar. Portanto, foi pertinente que Jesus lhe dissesse: “Deixa aos mortos o sepultar os seus próprios mortos. Tu, porém, vai, e prega o reino de Deus”. Podemos parafrasear as suas palavras como segue: “Há certas coisas que os espiritualmente mortos podem fazer tal qual os crentes. Mas há outras coisas na vida que somente o crente pode fazer. Vê que não passes a vida fazendo o que um inconverso poderia fazer igualmente bem. Deixa que os mortos espiritualmente enterrem os fisicamente mortos. Quanto a ti, porém, age como indispensável. Deixa que o impulso dominante da tua vida seja o de promover o progresso da minha causa na terra”.
Parece que o preço era alto demais para o Sr. Atarefado pagar. Saiu do palco do tempo para entrar num anônimo silêncio.
“Se o primeiro ilustra as comodidades materiais como um obstáculo ao discipulado, o segundo pode falar de um serviço ou ocupação tomando precedência sobre a principal razão da existência de um cristão. Não é que haja algo errado num emprego secular; a vontade de Deus é que o homem trabalhe para suprir as suas necessidades e as de sua família. Mas a vida do verdadeiro discípulo exige que o reino de Deus e a sua justiça sejam procurados primeiro; que o crente não passe a vida fazendo o que o não regenerado pode fazer tão bem, se não melhor; e que a função de um trabalho seja simplesmente suprir as necessidades comuns, enquanto a principal vocação do cristão é pregar o reino de Deus.”
Nem todos são chamados por Deus para serem obreiros de tempo integral, mas todos os discípulos são chamados para uma dedicação integral e testemunho seja lá onde estiver (em casa, na escola, no trabalho etc.). Como anda a sua agenda? Quais são as suas prioridades e projetos nesta vida? Qual é a sua escala de valores? O que é mais importante para você? Não perca de vista as advertências de Jesus: “porque, onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração.” (Mt 6.21); e, ainda: “Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?” (Mc 8.36); “Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de aborrecer-se de um e amar ao outro, ou se devotará a um e desprezará ao outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas.” (Mt 6.24)
3. Sr. SENTIMENTALISTA
61 Outro lhe disse: Seguir-te-ei, Senhor; mas deixa-me primeiro despedir-me dos de casa. (Lc 9)
62 Mas Jesus lhe replicou: Ninguém que, tendo posto a mão no arado, olha para trás é apto para o reino de Deus. (Lc 9)
Este é parecido com o primeiro uma vez que também se apresentou voluntariamente para seguir o Senhor. Mas, também é parecido com o segundo no uso que fez das palavras contraditórias: “…Senhor…deixa-me primeiro…”. Disse ele: “Seguir-te-ei, Senhor; mas deixa-me primeiro despedir-me dos de casa”.
Em princípio, não havia nada de errado com essa solicitação e alguém pode até ter estranhado a resposta de Jesus, afinal, Eliseu pediu a mesma coisa a Elias, quando chamado a segui-lo, e foi atendido (1Rs 19.20 – “Vai e volta”, é o nosso popular “bate e volta”). É mais do que justo mostrar interesse amoroso pelos parentes e dar satisfação à família ao deixá-los. Qual foi, pois, o ponto em que este homem falhou no teste? Este permitiu que os ternos laços naturais, as demandas familiares, usurpassem o lugar de Cristo.
Por isso, o Senhor Jesus disse: “Ninguém que, tendo posto a mão no arado, olha para trás, é apto para o reino de Deus”. “Em outras palavras: Os meus discípulos não são feitos de substância tão egocêntrica e maleável como a que exibes. Quero como discípulos aqueles que estejam dispostos a renunciar aos laços familiares, que não se deixem levar por parentes sentimentais, que me ponham acima de todos os demais em suas vidas.”
Podemos, então, concluir que o Sr. Sentimentalista deixou Jesus e se foi desprezando tão relevante oportunidade. “Suas mais que confiantes aspirações ao discipulado romperam-se nas rochas dos laços da afinidade familiar. Talvez fosse uma chorosa mãe a solução: ‘Você partirá o coração de sua mãe se me deixar para ir para o campo missionário`. Não sabemos. Tudo que sabemos é que a Bíblia generosamente evita dar o nome deste fraco indivíduo que, voltando atrás, perdeu a maior oportunidade da sua vida e ganhou o epitáfio: ´Inepto para o reino de Deus.`”
Conclusão
Resumindo:
Estes três casos, com estes três candidatos a discípulo de Jesus, ilustram três situações de não atendimento aos requisitos do discipulado, a saber:
Sr. Precipitado – O apego às comodidades terrenas; a valorização do conforto e do prazer acima do Senhor.
Sr. Atarefado – A precedência de um emprego ou de uma ocupação terrena.
Sr. Sentimentalista – A prioridade dos ternos laços de família.
O Senhor Jesus Cristo continua chamando, como sempre chamou, homens e mulheres dispostos a segui-lo com compromisso total, submissão incondicional, prioridade inegociável, abnegação, renúncia e sacrifício. Neste caminho, não estão disponíveis atalhos ou rotas de fuga. Não há espaço para impor condições pessoais. A pergunta que não quer calar é: quantos estão dispostos a responder positivamente a esse chamado?
“O Salvador não está procurando homens e mulheres que lhe deem escassas noites – ou os seus fins de semana – ou os anos da sua aposentadoria. Antes, procura os que hão de dar-lhe o primeiro lugar em suas vidas”.
Não podemos encerrar este estudo sem lembrar que não é vã tal dedicação a Cristo, qualquer que seja o preço pago pelo discípulo e seguidor de Jesus; há recompensa aqui e no pós morte: “E todo aquele que tiver deixado casas, ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe ou mulher, ou filhos, ou campos, por causa do meu nome, receberá muitas vezes mais e herdará a vida eterna.” (Mt 19.29)
Que Deus nos ajude!
Bibliografia
1. Bíblia Sagrada (SBB – Versão Revista e Atualizada).
2. Bíblia Online – SBB.
3. Revista Fazei Discípulos (Ed. Didaquê).
4. O Discipulado verdadeiro – William MacDonald (Ed. Mundo Cristão)
5. Internet.
[1] Aborrecer: colocar em 2º plano.
[2] “A cruz não é alguma fraqueza física ou angústia mental; estas coisas são comuns a todos os homens. A cruz é um caminho escolhido deliberadamente. É ´um caminho que segundo o curso deste mundo é alvo de desonra e crítica.` – C. A. Coates.
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