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Ah, o Tempo…

Introdução

Ah, o tempo! Esse ente tão misterioso, tão singular, tão absoluto e ao mesmo tempo tão relativo. Tão curto para um corredor olímpico de 50m e tão longo para uma vítima de assalto sob a mira de uma arma. Ele é distribuído uniformemente com cada pessoa numa dose diária de vinte e quatro horas.

Nem todo o dinheiro do mundo seria suficiente para comprar mais alguns anos de vida. Talvez você esteja pensando que aquela pessoa que tem dinheiro para pagar por um bom plano de saúde consegue sim aumentar sua permanência entre os viventes. Será? Não estaria este tempo sob o controle do Criador? A lista de ricos e/ou famosos que morreram “cedo” é extensa, dentre eles o bilionário Steve Jobs (1955-2011 | 56 anos).

Tão precioso é o tempo que o fatiamos em anos e o fragmentamos diariamente em horas, minutos e segundos. Ele está sempre diante dos nossos olhos; nos relógios, nos calendários, nas embalagens, nos produtos, nos documentos e em toda a parte. É como se estivesse continuamente nos espreitando e dizendo: – cuide bem do seu tempo porque um dia ele vai terminar.

Vivemos num tempo tão inusitado, bizarro e estapafúrdio da história no qual se ouve falar em eliminar o a.C. e d.C. (antes de Cristo e depois de Cristo) porque teria uma conotação religiosa, de uma religião específica – Cristã, quando há outras religiões e pessoas sem religião.  Ainda que levem adiante e implementem tal intento, jamais conseguirão apagar as marcas indeléveis de Jesus, o Filho de Deus encarnado, como divisor de águas da história, bem como anular ou ofuscar o antes e depois daquele que tem um encontro salvador com ele.

1. O que é o tempo?

É bom começar lembrando que o “chronos”(gr) (o tempo do relógio e do calendário, o tempo para todo o propósito) é o campo preferencial de ação do ser humano, enquanto o “kairós”(gr) (o tempo oportuno, o momento certo, o tempo determinado) é o campo preferencial de ação de Deus.

Agostinho de Hipona (354 – 430 d.C.) escreveu uma interessante reflexão sobre o tempo[1], da qual destacamos:

a) Como defini-lo? Como explicá-lo?

“Que é, pois, o tempo? Quem o poderá explicar facilmente e com brevidade? Quem poderá apreendê-lo, mesmo com o pensamento, para proferir uma palavra acerca dele? Que realidade mais familiar e conhecida do que o tempo evocamos na nossa conversação? E quando falamos dele, sem dúvida compreendemos, e também compreendemos, quando ouvimos alguém falar dele. O que é, pois, o tempo? Se ninguém mo pergunta, sei o que é; mas se quero explicá-lo a quem mo pergunta, não sei: …”

b) As três espécies de tempo: passado, presente e futuro

“De que modo existem, pois, esses dois tempos, o passado e o futuro, uma vez que, por um lado, o passado já não existe, por outro, o futuro ainda não existe? Quanto ao presente, se fosse sempre presente, e não passasse a passado, já não seria tempo, mas eternidade. Logo, se o presente, para ser tempo, só passa a existir porque se torna passado, como é que dizemos que existe também este, cuja causa de existir é aquela porque não existirá, ou seja, não podemos dizer com verdade que o tempo existe senão porque ele tende para o não existir?”

Ou seja, o passado já não existe; o futuro ainda não existe. Já o presente, precisa se tornar passado para ser tempo, senão é eternidade. Então, o presente também não é tempo, se precisa se tornar passado para ser tempo, porque o que é não deixa de ser.

Para complicar um pouco mais:

“Uma coisa é agora clara e transparente: não existem coisas futuras nem passadas; nem se pode dizer com propriedade: há três tempos, o passado, o presente e o futuro; mas talvez se pudesse dizer com propriedade: há três tempos, o presente respeitante às coisas passadas, o presente respeitante às coisas presentes, o presente respeitante às coisas futuras. Existem na minha alma estas três espécies de tempo e não as vejo em outro lugar: memória presente respeitante às coisas passadas, visão presente respeitante às coisas presentes, expectação presente respeitante às coisas futuras.”

Trocando em miúdos…

Na realidade existem três espécies de tempo na nossa mente: a)A memória ou lembrança presente das coisas passadas; b)A percepção ou visão presente das coisas presentes; c) A expectativa ou esperança presente das coisas futuras.

Portanto, enquanto no mundo exterior o que existe é a instantaneidade do real, no qual tudo que é logo deixa de ser; no nosso mundo interior, na alma humana, podemos distender ou alongar o passado e o futuro, tanto quanto, no presente, pensarmos ou nos projetarmos ali. Não podemos perder de vista que excesso de passado pode gerar frustração ou depressão; excesso de futuro pode gerar ansiedade; e excesso de presente pode gerar estresse.

2. Qual o valor do tempo?

Tempo é vida!

Tempo e vida se entrelaçam e se confundem. Se a vida de uma pessoa tem valor o seu tempo é precioso. Nosso verdadeiro valor não reside naquilo que temos, mas naquilo que somos. Somos preciosos porque fomos comprados por um alto preço, o sangue de Cristo derramado na Cruz do Calvário (1Pe 1.18-19).

Tempo é dinheiro!
Tempo é aquilo que fazemos com ele!

Tempo e o que fazemos com ele se entrelaçam e se confundem. Se a vida de uma pessoa tem valor e o seu tempo é precioso, o que a pessoa faz também o é. Então precisamos ocupá-lo com o que é efetivamente  relevante e que, preferencialmente, tenha consequências eternas. Isso não quer dizer que não possamos nos ocupar com coisas importantes para esta vida ou relaxar de vez em quando e ter algum entretenimento. Dizem que o mal do século é o excesso de cultura inútil e o excesso de informação inútil. Certamente essa é uma questão que demanda muita atenção, ou então iremos sucumbir, deixando de cumprir nossa missão. Como equilibrar o uso do tempo entre o que eu gosto de fazer e o que eu preciso fazer?

Portanto, vede prudentemente como andais, não como néscios, e sim como sábios, remindo o tempo, porque os dias são maus. (Ef 5.15-16)

Estes versículos destacam a importância de “remir o tempo”(“exagorazomenoi ton kairon”). O que isso significa? Referindo-se ao tempo, tem o sentido de apropriar para si ou para seu próprio uso; resguardar de perda ou de má aplicação. A ideia é de ter o domínio do tempo, administrá-lo, fazer sua gestão de forma sábia. É o oposto do que diz o refrão de uma canção popular, do Zeca Pagodinho: “E deixa a vida me levar (vida leva eu!)”. Em Colossenses 4.5 há uma expressão semelhante “ton kairon exagorazomenoi” que é traduzida por “aproveitai as oportunidades”. Quanto aos “dias maus”, pode ser entendido como dias desfavoráveis ao testemunho cristão ou à realização da obra de Deus.

3. Quanto tempo temos?

Por dia são 24 horas. Como as utilizamos? Talvez 8 horas dormindo, 3 horas nos alimentando e nos ocupando com a higiene pessoal e necessidades fisiológicas. Então, nos sobram 13 horas. Se trabalhamos e precisamos nos deslocar para o local do trabalho lá se vão outras 9 ou mais horas. Restam, portanto, 3 ou 4 horas efetivas por dia? É muito pouco, não acham? E, assim, a vida vai escapando por entre os nossos dedos sem percebermos, até que termina.

4. O que estamos fazendo do tempo que temos?

Há tempo para tudo, disse o sábio em Eclesiastes 3.1-8. Dentre as situações expressas pelo sábio, há uma que, de certa forma, se enquadra no que estamos vivendo hoje, no ano 2020, nesse tempo de pandemia do corona vírus: “…tempo de abraçar e tempo de afastar-se de abraçar;”(Ec 3.5).  Nessa interessante lista, ainda caberia outra situação, como: “tempo para ficar em casa e tempo para retornar as atividades do cotidiano”. E, como as autoridades de todas as nações estão confusas, sem saber discernir o tempo e a extensão de uma e da outra situação.

O uso do tempo nos define.

Se a maior parte do nosso tempo é consumida com coisas fúteis e inúteis, então é bem provável que sejamos pessoas fúteis e que pouco contribuem para a expansão do Reino de Deus e melhoria da Sociedade!

5. O que devemos e não devemos fazer com o tempo que temos?

a) Ser imitador de Deus, o Pai Celeste, seguindo o exemplo do Filho (Ef 5.1-2).

Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos amados;”(Ef 5.1)

Como ser imitador de Deus? A estreita convivência de um filho com seu pai humano permite que ele assimile muito do jeito de ser, da conduta e das atitudes do seu pai. O que temos a imitar em Deus?

(i) Sua santidade: “Eu sou o SENHOR, que vos faço subir da terra do Egito, para que eu seja vosso Deus; portanto, vós sereis santos, porque eu sou santo.” (Lv 11.45; 1Pe 1.16).

(ii) Seu amor: (Jo 3.16).

(iii) Sua misericórdia.

(iv) Sua bondade.

(v) Seu perdão.

(vi) Sua justiça.

(vi) Sua fidelidade.

Somente os nascidos de novo, os gerados pelo Espírito de Deus é que são filhos de Deus, aproximados dele, em Cristo, e herdeiros da mesma natureza do Pai Celestial.

“e andai em amor, como também Cristo nos amou e se entregou a si mesmo por nós, como oferta e sacrifício a Deus, em aroma suave.” (Ef 5.2)

O “andar” aqui mencionado nos remete a um estilo de vida, a uma conduta geral de vida, a uma entrega de vida, como oferta e sacrifício, em retribuição ao que ele fez por nós e imitando o seu exemplo. Assim como no Antigo Testamento as ofertas queimadas produziam o aroma suave do sacrifício aceitável a Deus, Jesus, o nosso cordeiro pascal foi imolado e oferecido como oferta e sacrifício aceitável diante de Deus expiando o preço do nosso pecado.

b) O que não devemos fazer – As obras infrutíferas das trevas (Ef 5.3-7; 11-14).

NVI[2]
3 Entre vocês não deve haver nem sequer menção de imoralidade sexual nem de qualquer espécie de impureza nem de cobiça; pois estas coisas não são próprias para os santos.
4 Não haja obscenidade nem conversas tolas nem gracejos imorais, que são inconvenientes, mas, ao invés disso, ação de graças.
5 Porque vocês podem estar certos disto: nenhum imoral nem impuro nem ganancioso, que é idólatra, tem herança no Reino de Cristo e de Deus.
6 Ninguém os engane com palavras tolas, pois é por causa dessas coisas que a ira de Deus vem sobre os que vivem na desobediência.
7 Portanto, não participem com eles dessas coisas.

11 Não participem das obras infrutíferas das trevas; antes, exponham-nas à luz.
12 Porque aquilo que eles fazem em oculto, até mencionar é vergonhoso.
13 Mas, tudo o que é exposto pela luz torna-se visível, pois a luz torna visíveis todas as coisas.
14 Por isso é que foi dito: “Desperta, ó tu que dormes, levanta-te dentre os mortos e Cristo resplandecerá sobre ti”.

c) O que devemos fazer – O fruto da luz (Ef 5.8-10; 15-21).

NVI[2]
8 Porque outrora vocês eram trevas, mas agora são luz no Senhor. Vivam como filhos da luz,
9 pois o fruto da luz consiste em toda bondade, justiça e verdade;
10 e aprendam a discernir o que é agradável ao Senhor.
15 Tenham cuidado com a maneira como vocês vivem; que não seja como insensatos, mas como sábios,
16 aproveitando ao máximo cada oportunidade, porque os dias são maus.
17 Portanto, não sejam insensatos, mas procurem compreender qual é a vontade do Senhor.
18 Não se embriaguem com vinho, que leva à libertinagem, mas deixem-se encher pelo Espírito,
19 falando entre si com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando e louvando de coração ao Senhor,
20 dando graças constantemente a Deus Pai por todas as coisas, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo.
21 Sujeitem-se uns aos outros, por temor a Cristo.

Conclusão

Ah, o tempo que não para. Em certos momentos da vida, tão bons e extraordinários, certamente desejaríamos que o tempo parasse. Foi esse o sentimento que habitou o coração dos três discípulos no monte da transfiguração – “façamos três cabanas”. Há dias em que estamos bem no alto, no monte da autorrealização pessoal, entretanto há outros em que nos encontramos no vale da dor e da sombra da morte. Portanto, parece bom que o tempo não pare, e os bons momentos nos encham de força para suportar os dias maus. E os dias maus cedam lugar a dias bons.

Enfim, o que mais importa mesmo é procurarmos viver plenamente o tempo que se chama hoje, pavimentando com sabedoria, inteligência e sensatez o caminho que nos levará até o amanhã. É deixarmos uma legado diferenciado.

“logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim.” (Gl 2.20)

Viva e aproveite intensamente cada dia como se fosse o último, porque um dia será!


[1] Agostinho de Hipona (Santo Agostinho) – Confissões – Livro XI
[2] NVI – Nova Versão Internacional

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