“Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus.” (Mt 5.9)
Pacificadores são aqueles que promovem a paz e a concórdia. Não se deve confundir o pacificador com o pacifista. O pacificador é aquele que atua ativamente para restaurar ou manter a paz, especialmente em situações de conflito. Tem um sentido bíblico e prático: alguém que intervém com sabedoria, reconcilia partes em conflito, promove entendimento e reconciliação. O pacificador não foge do conflito – ele entra nele para curar, reconciliar, transformar. O pacifista é aquele que defende ideologicamente a não-violência e a oposição a qualquer guerra ou uso da força. É um termo mais filosófico ou político, comum em debates sobre ética, guerras, justiça social etc. Um pacifista geralmente rejeita o uso de armas, força militar ou violência sob qualquer circunstância. O pacifista recusa o conflito, por princípio.
Cada cristão, cada seguidor de Cristo, de acordo com esta bem-aventurança, deve ser um pacificador, onde quer que esteja. O texto de hebreus 12.14 expressa bem essa ideia e a vincula a bem-aventurança anterior: “Segui a paz com todos e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor,”. O apóstolo Paulo orienta: “se possível, quanto depender de vós, tende paz com todos os homens;” (Rm 12.18).
“Não penseis que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada. Pois vim causar divisão entre o homem e seu pai; entre a filha e sua mãe e entre a nora e sua sogra. Assim, os inimigos do homem serão os da sua própria casa. Quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a mim não é digno de mim; quem ama seu filho ou sua filha mais do que a mim não é digno de mim;” (Mt 10.34-37)
Pode parecer que a declaração de Cristo, no texto acima, contradiga essa ideia de pacificação. Não, não contradiz! O fato é que quando Cristo entra numa vida, há transformação de princípios e valores, de comportamento, e, é comum a reação contrária daqueles que não aceitam essa mudança. Assim, o conflito é inevitável. Além disso, o seguir a Cristo, implica num compromisso de amor a ele superior ao dedicado a qualquer outra pessoa, inclusive pai, mãe, cônjuge e filhos, o que pode não ser entendido e aceito pelo outro e provocar o conflito.
Jesus é o “Príncipe da paz” (Is 9.6) e jamais ensinou os seus seguidores a procurar o conflito. Ele veio para promover a paz, para reconciliar o homem com Deus: “e que, havendo feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele, reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, quer sobre a terra, quer nos céus.” (Cl 1.20; ver tb Ef 2.15)
Essa pacificação nada tem a ver com a tolerância ao erro e ao pecado! Jesus não está se referindo a uma paz a qualquer custo, nem sugerindo que se deve fechar os olhos diante do pecado, do erro ou da injustiça. Os profetas do Antigo Testamento falaram da parte de Deus denunciando o pecado. João Batista denunciou o pecado de Herodes e acabou sendo morto por isso. A paz do Reino de Deus não é a simples ausência de conflito, nem uma neutralidade que se cala diante do mal. Antes, trata-se de uma paz fundamentada na verdade, na justiça e na reconciliação com Deus.
O verdadeiro pacificador é um embaixador da paz divina – e não da conivência. Ele age em nome de Deus para promover reconciliação entre os homens, e entre o homem e Deus, e isso requer confronto amoroso, arrependimento e mudança de vida. A Escritura deixa claro que não pode haver paz verdadeira onde há pecado não tratado: “Para os perversos, todavia, não há paz, diz o SENHOR.” (Is 48.22). “Curam superficialmente a ferida do meu povo, dizendo: Paz, paz; quando não há paz” (Jr 6.14). O pacificador, portanto, não negocia princípios espirituais em nome de uma convivência harmoniosa artificial. Ele ama a verdade e busca a paz por meio dela, mesmo que isso implique exortar, corrigir ou denunciar o erro – sempre com espírito manso e objetivo de restauração.
Deus só nos perdoa quando nos arrependemos, e Jesus nos ensinou: “Acautelai-vos. Se teu irmão pecar contra ti, repreende-o; se ele se arrepender, perdoa-lhe.” (Lc 17.3). Portanto, ser pacificador, à luz de Mateus 5.9, não é silenciar diante do pecado, mas ser um instrumento de Deus para que, por meio da verdade, a paz do Evangelho seja estabelecida onde hoje há conflito, rebelião ou distanciamento de Deus. Não existe pacificação e união no corpo de Cristo sem pureza de doutrina e de conduta!
Jesus é o nosso modelo de pacificador. Ele não foi conivente com os pecados dos fariseus nem tolerante com as injustiças dos poderosos. Denunciou o pecado, chamou ao arrependimento, e ainda assim é chamado o “Príncipe da Paz” (Is 9.6), pois trouxe ao mundo a paz verdadeira, que começa com a reconciliação do homem com Deus. Se seguirmos esse exemplo seremos chamados de filhos de Deus.
😊Oitava bem-aventurança⚪
“Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus.” (Mt 5.10)
A oitava bem-aventurança diz respeito àqueles que são “perseguidos por causa da justiça”, isto é, por defenderem a justiça a qualquer preço. Qualquer pessoa piedosa que tenha apreço pela justiça, mesmo não sendo cristã, pode ser perseguida. Principalmente se defender a prática da justiça em uma sociedade corrupta. Entretanto, em se tratando de um cristão, defender a justiça parece resultar em maior perseguição devido a preconceito e discriminação religiosa.
É significativo que Jesus passe diretamente dos pacificadores à perseguição – da obra de reconciliação à experiência da hostilidade. Isso revela uma realidade profunda: nem sempre o esforço sincero pela paz resulta em paz com todos. Por mais que busquemos a reconciliação, algumas pessoas simplesmente se recusam a viver em paz conosco. Nem toda tentativa de harmonia encontra resposta favorável.
Na verdade, há aqueles que, longe de se abrirem ao diálogo, optam por nos rejeitar, insultar e perseguir. E isso não por causa de nossas falhas pessoais ou peculiaridades, mas, como Jesus explicou, “por causa da justiça” (Mt 5.10) e “por minha causa” (Mt 5.11) — ou seja, porque se opõem à justiça que desejamos com fome e sede (Mt 5.6), e rejeitam o Cristo a quem seguimos.
A perseguição, nesse contexto, é o resultado inevitável do confronto entre dois sistemas de valores que não podem coexistir pacificamente – o Reino de Deus e o sistema deste mundo. Onde o Evangelho avança, haverá resistência; onde a luz brilha, as trevas se incomodam. Por isso, ser perseguido por causa da justiça é, paradoxalmente, um selo de autenticidade da vida cristã e uma bem-aventurança diante de Deus.
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“Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.” (Mt 5.7)
A palavra grega para o adjetivo plural “misericordiosos” é ελεημονες (elehmonev). Qualifica quem é compassivo, misericordioso, tem compaixão – isto é, aquele que não apenas sente piedade, mas age para aliviar o sofrimento alheio. O substantivo é ελεος (eleos) – misericórdia.
A misericórdia não se resume a um sentimento interno, mas a ações concretas de ajuda, perdão, socorro. Ela produz a reciprocidade divina, isto é, quem imita o coração compassivo de Deus será agraciado com a misericórdia divina. Misericordiosos são aqueles cujos corações se comovem com a dor dos outros e cujas mãos estendem socorro. Essa atitude reflete a própria natureza de Deus e garante ao discípulo participar da sua graça e perdão.
Vale lembrar que, no que se refere a Deus, misericórdia é Deus não nos dar o castigo que merecemos e, graça, é “favor imerecido”, é Deus nos dar o que não merecemos (perdão e bênçãos).
Nosso Deus é um Deus misericordioso e dá provas de misericórdia continuamente; os cidadãos do seu reino também devem demonstrar misericórdia. Jesus praticou e ilustrou a misericórdia. Ele curou enfermos, ressuscitou mortos, alimentou os famintos, acolheu os rejeitados pela sociedade. Ele ilustrou a misericórdia na parábola do bom samaritano, onde um desconhecido socorreu um viajante que ia de Jerusalém para Jericó, sendo assaltado e ferido, enquanto os religiosos passaram de largo (Lc 10.10-35).
Nada nos motiva mais a perdoar do que o maravilhoso entendimento de que nós mesmos fomos perdoados por Deus. E nada evidencia com maior clareza que fomos verdadeiramente perdoados do que a nossa disposição sincera em perdoar aos outros. Perdoar e ser perdoado, demonstrar misericórdia e receber misericórdia são realidades inseparáveis no Reino de Deus – como Jesus ilustrou de forma impactante na parábola do servo impiedoso (Mt 18.21-35).
😊Sexta Bem-aventurança⚪
“Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus.” (Mt 5.8)
Já vimos que os “humildes de espírito” são aqueles espiritualmente pobres – bem diferentes dos que são apenas pobres materialmente. Da mesma forma, aqui, ao dizer “limpos de coração”, Jesus está especificando o tipo de pureza a que se refere, assim como ao falar “humildes de espírito”, ele define o tipo de humildade que tem em vista. Trata-se daqueles que foram purificados da imundície moral.
O salmista Davi assim diz: “Quem subirá ao monte do SENHOR? Quem há de permanecer no seu santo lugar? O que é limpo de mãos e puro de coração, que não entrega a sua alma à falsidade, nem jura dolosamente.” (Sl 24.3-4). Davi também orou, dizendo: “Cria em mim, ó Deus, um coração puro e renova dentro de mim um espírito inabalável.” (Sl 51.10).
Seguindo esta mesma linha, Jesus confrontou os fariseus obcecados pelo legalismo, pela aparência exterior e pela pureza cerimonial, comparando-os a sepulcros caiados: “O Senhor, porém, lhe disse: Vós, fariseus, limpais o exterior do copo e do prato; mas o vosso interior está cheio de rapina e perversidade.” (Lc 11.39). “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque sois semelhantes aos sepulcros caiados, que, por fora, se mostram belos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda imundícia!” (Mt 23.27).
Portanto, os limpos de coração são aqueles marcados por total sinceridade. Sua vida, tanto pública quanto privada, é transparente diante de Deus e dos homens. O interior do seu coração – seus pensamentos, intenções e motivações – é puro, livre de qualquer mistura com o que é falso, dissimulado ou indigno. Rejeitam a hipocrisia e detestam qualquer forma de engano; não abrigam malícia em seu ser. É fato que só Jesus Cristo, entre os homens, foi absolutamente limpo de coração, foi inteiramente sem malícia. Ele é o nosso modelo e referencial.
A promessa é que os limpos de coração verão a Deus – já agora, com os olhos da fé, e no porvir, contemplarão sua glória face a face. Somente os sinceros de todo o coração podem permanecer diante dessa visão deslumbrante, pois, à luz de sua santidade, as sombras da mentira se dissipam, e nas chamas de sua presença toda dissimulação é consumida.
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“Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra.” (Mt 5.5)
A palavra grega para “mansos” é πραεις (praeiv) uma declinação de πραυς (praus) significa “manso”, “gentil”, “humilde” (Mt 21.5), “espírito manso e tranquilo” (1Pe 3.4).
Mansidão não é fraqueza, mas força domada pelo Espírito; é o autocontrole ou domínio próprio. O apóstolo Paulo fala sobre a “mansidão e benignidade” de Cristo: “E eu mesmo, Paulo, vos rogo, pela mansidão e benignidade de Cristo, eu que, na verdade, quando presente entre vós, sou humilde; mas, quando ausente, ousado para convosco,” (2Co 10.1). Esta mansidão de Cristo exige uma transformação interior dos seus discípulos. A mansidão denota uma atitude humilde e gentil para com os outros.
Imagine alguém que, reconhecendo sua pobreza espiritual e chorando pelo próprio pecado diante de Deus, reage com igual ou maior agressividade ao menor comentário negativo. Essa postura anula todo o testemunho anterior, pois revela a ausência de mansidão – virtude essencial para legitimar o arrependimento e a humildade professados. “A mansidão é, em essência, a verdadeira visão que temos de nós mesmos, e que se expressa na atitude e na conduta para com os outros.” (Dr. Lloyd-Jones)
A “herança da terra” é a bênção prometida conforme mencionado pelo salmista: “Mas os mansos herdarão a terra e se deleitarão na abundância de paz.” (Sl 37.11). À primeira vista, esse cenário soa contraditório. Imaginamos que os “mansos” nada conquistam – são ignorados, tratados com descaso ou desprezo – enquanto os arrogantes e impetuosos triunfam na vida, e os tímidos acabam derrotados. Até o povo de Israel teve de guerrear bravamente para herdar a terra prometida, embora o Senhor a tivesse reservado para eles. Contudo, no plano espiritual de Cristo, a herança não se conquista pela força, mas pela mansidão. Pois, a nossa herança espiritual em Cristo já nos pertence se somos de Cristo.
Os mansos, ainda que sejam despojados e privados dos seus bens e direitos, pelos homens, no tempo presente, sabem o que é viver e reinar com Cristo, e podem desfrutar e até mesmo “possuir” a terra, a qual pertence a Cristo. Então, no dia da “regeneração”, haverá “um novo céu e uma nova terra” para herdar (Mt 19.28; 2Pe 3.13; Ap 21.1). Portanto, o caminho de Cristo é diferente do caminho do mundo, e cada cristão, mesmo sendo como Paulo e “nada tendo”, pode dizer-se “possuindo tudo”: “entristecidos, mas sempre alegres; pobres, mas enriquecendo a muitos; nada tendo, mas possuindo tudo.” (2Co 6.10)
😊Quarta Bem-aventurança⚪
“Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos.”(Mt 5.6) “Bem-aventurados vós, os que agora tendes fome, porque sereis fartos.” (Lc 6.21a)
Assim como observado na primeira bem-aventurança, Mateus tem em vista uma fome e sede imaterial, enquanto Lucas, uma fome não qualificada, que pode ser a física, de alimento, (considerando que Lucas tem uma visão humanitária) ou, a mesma referida por Mateus. No cântico de Maria – o Magnificat – registrado apenas por Lucas, é declarado: “Agiu com o seu braço valorosamente; dispersou os que, no coração, alimentavam pensamentos soberbos. Derribou do seu trono os poderosos e exaltou os humildes. Encheu de bens os famintos e despediu vazios os ricos.” (Lc 1.51-53). Destaca-se aqui a rejeição de Deus aos soberbos e poderosos, e a exaltação aos humildes, bem como, o favorecimento dos famintos e a preterição dos ricos.
John Stott[1] entende que a justiça na Bíblia tem pelo menos três aspectos: o legal, o moral e o social, a saber:
A justiça legal é a justificação, um relacionamento certo com Deus. Os judeus “buscavam a lei da justiça”, escreveu Paulo mais tarde, mas não a alcançaram porque a buscaram pelo modo errado. Procuraram “estabelecer a sua própria” justiça e “não se sujeitaram à que vem de Deus”, que é o próprio Cristo (Rm 9.30 – 10.4). Alguns comentaristas acham que Jesus se refere a isso, mas é provável que não, pois Jesus está se dirigindo àqueles que já lhe pertencem.
A justiça moral é aquela justiça de caráter e de conduta que agrada a Deus. Jesus prossegue, depois das bem-aventuranças, contrastando essa justiça cristã com a do fariseu (Mt 5.20). Esta última era uma conformidade exterior às regras; a primeira é uma justiça interior, do coração, da mente e das motivações. É desta que devemos sentir fome e sede.
E a justiça social, conforme aprendemos na lei e nos profetas, refere-se à busca pela libertação do homem da opressão, junto com a promoção dos direitos civis, da justiça nos tribunais, da integridade nos negócios e da honra no lar e nos relacionamentos familiares. Assim, os cristãos estão empenhados em sentir fome de justiça em toda a comunidade humana para agradar a um Deus justo.
Entretanto, nesta vida nossa fome jamais será totalmente saciada, assim como nossa sede não será totalmente aplacada. Recebemos, de fato, a satisfação da esperança prometida pela bem-aventurança. Para além desta vida, aguardamos o dia do juízo, quando a justiça triunfará e a iniquidade será vencida. Então, Deus renovará todas as coisas, estabelecendo “novos céus e nova terra, nos quais habita a justiça” (2Pe 3.13). Essa certeza da vindicação final fortalece nossa esperança, e nela jamais seremos frustrados.
“Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados.” (Mt 5.4) “Bem-aventurados vós, os que agora chorais, porque haveis de rir.” (Lc 6.21)
São inúmeros os motivos que nos levam às lágrimas:
A dor e o sofrimento, sejam físicos ou emocionais, que nos lembram da fragilidade humana;
A perda da saúde, que rouba liberdade e esperança;
A morte ou o afastamento de alguém querido, deixando um vazio profundo;
O desemprego ou o rebaixamento de padrão de vida, que abala nosso sustento e autoestima;
A injustiça sofrida, capaz de ferir o espírito e minar a confiança no próximo;
Decisões impulsivas ou inconsequentes, cujas consequências tardias pesam no coração;
O fracasso de sonhos e projetos, quando planos cuidadosamente traçados desmoronam;
O sentimento de abandono ou incompreensão, quando nos vemos isolados em nossa dor.
Em cada uma dessas situações, o choro surge como resposta humana – um alívio imediato para a alma, um sinal de que ainda nos importamos e cremos na possibilidade de restauração. Será que Jesus estaria se referindo a esses (ou, apenas a esses) motivos pessoais e particulares para chorar?
Jesus chorou por compaixão, diante do sofrimento humano e de tristeza, diante da incredulidade e do juízo que viria:
Mesmo sabendo que ressuscitaria Lázaro, Jesus se comoveu e chorou com a dor de Marta, Maria e dos amigos, mostrando empatia profunda pela aflição alheia (Jo 11.35). Ao avistar a cidade de Jerusalém, Jesus “chorou por ela”, lamentando que não reconhecesse o tempo da visitação de Deus e prevendo o cerco e a destruição que viriam por sua rejeição (Lc 19.41-44).
Que motivos devem levar um cristão a chorar?
– Por compaixão diante do sofrimento alheio, mostrando solidariedade e amor verdadeiro. (Rm 12.15)
– Pelas almas perdidas, por aqueles que ainda não conhecem o Evangelho. É o choro missionário, que clama por salvação para os que estão longe de Deus.
– Pelas injustiças do mundo, à semelhança dos profetas, diante da opressão, violência e maldade, intercedendo para que Deus traga justiça e restauração (Lm 3.48; Ez 9.4).
– Pela dor dos irmãos. No corpo de Cristo, choramos juntos nas aflições e lutos, fortalecendo uns aos outros e reafirmando a esperança da glória futura (1Pe 5.10).
– O apóstolo Paulo se refere a um choro pela ação danosa de falsos mestres que perturbavam as igrejas do seu tempo (Fp 3.18).
Relacionando essa bem-aventurança com a anterior, podemos dizer que uma coisa é ser pobre ou humilde de espírito e reconhecer isso – confissão; outra é entristecer-se e chorar por causa disso – contrição. É chorar pelo pecado cometido, em arrependimento sincero. O choro do quebrantamento espiritual (2Co 7.10) é fruto de uma tristeza segundo Deus, que leva à vida. É quando se reconhece o peso do pecado e se busca a restauração pela graça. “Em minhas devoções matinais minha alma desfez-se em lágrimas, e chorou amargamente por causa da minha extrema maldade e vileza.” (missionário David Brainerd, 18/10/1740)
A bênção prometida é o consolo, no tempo presente e futuro!
Aqueles que choram e lamentam a própria maldade receberão o único consolo capaz de aliviar seu desespero: o perdão da graça de Deus. Nada há mais consolador do que a declaração de absolvição que repousa sobre o pecador contrito ainda em sua aflição. E há também uma consolação futura, para os que “vêm da grande tribulação, lavaram as suas vestiduras e as alvejaram no sangue do Cordeiro” (Ap 7.14): Deus mesmo “lhe enxugará dos olhos toda lágrima.” (Ap 7.17b). Dessa forma, o consolo divino se estende do perdão presente até a plena restauração porvir, quando a própria presença de Deus secará todas as nossas dores.
É importante destacar que a “consolação”, segundo os profetas do Antigo Testamento, era missão central do Messias: ele viria como Consolador para curar os corações quebrantados e anunciar boas novas aos aflitos (Is 40.1; 61.1). Por isso, homens piedosos como Simeão aguardavam ansiosamente “a consolação de Israel” (Lc 2.25). Cristo, de fato, derrama óleo sobre nossas feridas e concede paz às consciências marcadas pela dor. Ainda assim, choramos pela devastação do sofrimento e da morte que o pecado espalha pelo mundo. Só no estado final de glória, quando o pecado tiver sido extirpado de vez, veremos o consolo de Cristo manifestado em sua plenitude.
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“Vendo Jesus as multidões, subiu ao monte, e, como se assentasse, aproximaram-se os seus discípulos; e ele passou a ensiná-los, dizendo:” (Mt 5.1-2) “Então, olhando ele para os seus discípulos, disse-lhes:” (Lc 6.20a)
A narrativa do Sermão do Monte é mais completa em Mateus (no monte – Mt 5.1) do que em Lucas (numa planura – Lc 6.17). A de Lucas pode ter ocorrido em outra ocasião. Após a chamada dos doze Jesus passa a instruí-los e prepará-los para a continuidade do seu ministério após sua ascensão.
A simplicidade das palavras e a profundidade das ideias contidas neste sermão continuam a atrair, geração após geração, não apenas cristãos, mas também muitos outros. Quanto mais nos aprofundamos em suas implicações, mais percebemos o quanto ainda há por descobrir. Suas riquezas são inesgotáveis, e suas profundezas, insondáveis.
O evangelista Mateus fez questão de registrar com esmero os discursos do Rei. São ao todo cinco discursos, identificados facilmente pela expressão de encerramento: “quando Jesus acabou de proferir estas palavras …”.
São eles:
1°) Sermão do monte (Mt 5-7; desfecho Mt 7.28-29) 2º) Discurso missionário (Mt 10.1–11.1; desfecho Mt 11.1) 3º) Discurso sobre os mistérios do reino (Mt 13.1-53; desfecho Mt 13.53) 4º) Discurso sobre vida comunitária (Mt 18.1–19.2; desfecho Mt 19.1-2) 5º) Discurso escatológico (Mt 24.1–26.2; desfecho Mt 26.1-2)
As multidões apertavam Jesus e ele então sobe ao monte e assenta-se como um Rabi. Os seus discípulos se aproximam para o ouvir. Jesus passa a ensiná-los, mais diretamente. O que vem a ser esse sermão? Jesus veio estabelecer um reino espiritual neste mundo. Este Sermão oferece as bases de conduta para os súditos desse reino.
Há quem procure estabelecer um paralelo entre Moisés e Jesus. Aliás, a ideia é bíblica: “Disse, na verdade, Moisés: O Senhor Deus vos suscitará dentre vossos irmãos um profeta semelhante a mim; a ele ouvireis em tudo quanto vos disser.” (At 3.22).
Quais são essas características que ligam os dois vultos da bíblia?
MOISÉS
JESUS
Moisés é o libertador de Israel.
Jesus o libertador do novo Israel, a Igreja.
Israel era formado por doze tribos.
Jesus chama doze apóstolos.
Moisés escreveu os cinco primeiros livros do AT (Pentateuco).
Jesus pronunciou cinco discursos, segundo Mateus.
Moisés estabeleceu a Lei de Deus.
Jesus estabeleceu os princípios e valores do reino de Deus.
O sermão é iniciado com as bem-aventuranças, sendo que Mateus registra oito e Lucas apenas quatro dessas nove. Mais adiante veremos o que elas têm em comum. A palavra grega traduzida por “bem-aventurados” é “μακάριοι” (makarioi). Este termo é uma declinação de “μακάριος” (makarios) que tem o significado de “feliz” ou “abençoado”, expressando um sentido muito maior do que a simples ideia de alegria ou contentamento passageiros. No uso secular, significava estado elevado de contentamento, favor ou sorte, especialmente reservado àqueles fora do alcance do sofrimento humano comum. No Novo Testamento (NT), μακάριος (bem-aventurados) aparece principalmente nos evangelhos, nas epístolas (Rm 4.7; 1Pe 3.14 e 4.14 etc.), e no Apocalipse (Ap 1.3; 14.13; 19.9; 22.14). Refere-se a alguém que é abençoado por Deus, aprovado e favorecido por ele, e por isso é pleno, realizado, satisfeito – mesmo em condições humanas desfavoráveis. No NT há muitas outras ocorrências do termo “bem-aventurado” (no singular).
Já no início do sermão, essas bem-aventuranças nos desafiam a responder algumas perguntas, tais como:
Para quem são essas bênçãos?
Que bênçãos são essas?
Elas são para o tempo presente ou pós-morte?
Será que as bem-aventuranças não ensinam uma doutrina de salvação pelos méritos humanos e pelas boas obras, o que é incompatível com o evangelho?
Em cada bem-aventurança será necessário identificar quem são as pessoas em foco e quais bênçãos lhes estão sendo prometidas.
😊Primeira Bem-aventurança⚪
“Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus.” (Mt 5.3) “Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus.” (Lc 6.20b)
Mateus registra “os humildes de espírito” (gr. οἱ πτωχοι τω πνεύματι) e Lucas “os pobres” (gr, οἱ πτωχοι). A palavra πτωχοι (ptwcoi), pobres, aparece nos dois textos, por isso, algumas traduções de Mateus 5.3 registram “pobres de espírito”. De qualquer forma, “pobres de espírito” é diferente de “pobres”. Assim, ser “humilde de espírito” – ou “pobre de espírito” – é reconhecer a nossa absoluta falência espiritual diante de Deus. Significa admitir que somos pecadores, sob a justa ira divina, e que nada merecemos além de seu juízo. Não temos méritos a apresentar, direitos a reivindicar, nem recursos com que comprar o favor dos céus. Por outro lado, pobre, literalmente é “quem não tem”, “os desprovidos de”: riqueza, posição social, segurança material; elementos relevantes para a vida no Império Romano. Pobre é aquele que passa por necessidades materiais.
Então, estaria Mateus ressaltando a atitude interna de humildade e dependência de Deus, não apenas a miséria econômica? Estaria Lucas enfatizando mais o aspecto social? Na verdade, nos dois registros o sentido é semelhante: quem reconhece sua pobreza – seja material ou espiritual – e recebe o Reino como dom.
As palavras rico(s) ou riqueza(s) e pobre(s) ou pobreza, ocorrem nos quatro evangelhos, com a seguinte frequência:
Palavra
Mateus
Marcos
Lucas
João
Total
Rico(s)
3
2
12
–
17
Riqueza(s)
2
3
6
–
11
Pobre(s)
4
5
9
4
22
Pobreza
–
1
1
–
2
Total
9
11
28
4
52
Então, como pano de fundo, é necessário registrar que o evangelista Lucas (o médico amado) tem um olhar mais atento para a questão da riqueza e da pobreza, provavelmente por influência da sua formação e ocupação. A verdade é que tanto pobres quanto ricos necessitam igualmente da salvação em Cristo, pois a pobreza não confere mérito para a vida eterna, nem a riqueza constitui um impedimento absoluto à graça de Deus.
Quanto a “reino dos céus” e “reino de Deus” são designações sinônimas que qualificam o reino[1], com o sentido da esfera do domínio e governo de Deus[2].
Finalmente, fica claro que essa bênção é para o tempo presente: “porque deles é…”
[1]Reino dos céus – Mateus (31 vezes, e não aparece em outros livros do NT) Reino de Deus – Mateus (4 vezes); Marcos (14 vezes); Lucas (31 vezes); João (2 vezes)
[2] Resumindo: – Governo dos céus (Deus) sobre a terra (Dn 2.44; 4.25, 32) – Governo da soberania de Deus sobre tudo. – Esfera da Salvação (Jo 3.5-7)
Veja a continuação, clicando no link desejado (abaixo).
Em se tratando de “misericórdia” há, pelo menos, dois aspectos, opostos entre si, a se considerar.
O primeiro, tem o sentido de poupar, refrear uma ação contra o ofensor, de alguma forma esperada e merecida. No texto, “As misericórdias do SENHOR são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim;” (Lm 3.22 – onde aparece חֲסָדָיו, forma plural de ḥésed), fica evidente essa ideia. Neste sentido, vale lembrar que, no que se refere a Deus, misericórdia é Deus não nos dar (reter) o castigo que merecemos, enquanto graça, é “favor imerecido”, é Deus nos dar o que não merecemos – “porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor.” (Rm 6.23).
“A teologia cristã não considera a misericórdia divina como incompatível com os seus justos julgamentos, mas considera ambas as coisas como expressões vivas de seu amor, conforme o mesmo é revelado em Cristo, cuja morte expiatória reconcilia as exigências da justiça divina com as misericórdias divinas”.
“Encontraram-se a graça e a verdade, a justiça e a paz se beijaram.” (Sl 85.10)
O segundo aspecto tem o sentido de “ter piedade”, “ter compaixão”. Não é apenas um sentimento; envolve ação concreta, fidelidade e compromisso. Está profundamente ligada ao caráter de Deus: Seu amor que não falha, mesmo quando o povo falha. Neste estudo, vamos focalizar este segundo aspecto da misericórdia.
No grego o substantivo é ελεος (eleos) – misericórdia. Para o adjetivo plural “misericordiosos” é ελεημονες (elehmonev). Qualifica quem é compassivo, misericordioso, tem compaixão – isto é, aquele que não apenas sente piedade, mas age para aliviar o sofrimento alheio. Portanto, a misericórdia não se resume a um sentimento interno, mas a ações concretas de ajuda, perdão, socorro.
1. Termos próximos
A misericórdia é um dos atributos do caráter divino: ela expressa o cuidado compassivo de Deus para com a humanidade caída. No entanto, na diversidade de palavras usadas pelas Escrituras, encontramos termos próximos, mas com nuances próprias (diferenças sutis): misericórdia, compaixão, compadecer (compadecimento), bondade e benignidade. Compreender essas diferenças nos ajuda a mergulhar mais profundamente no ensino bíblico e a viver a experiência prática dessas virtudes.
Em resumo:
▶Misericórdia Etimologia: – miser “infeliz, pobre, miserável” (derivado de mi(s) – “sofrimento” + –ser “ser”). – cor, cordis “coração”. – sufixo -ia para formar substantivos abstratos. Sentido original: “Sentimento que vem do coração pelos miseráveis”, isto é, piedade profunda que leva alguém a ajudar o sofredor. Ênfase no ato de aliviar o infortúnio (“doar do próprio coração”).
Amor ativo que envolve ação concreta, lealdade e compromisso. Não apenas sentir piedade, mas efetuar o bem que restaura e perdoa (Sl 57.1).
▶Compaixão Etimologia: – prefixo com “junto, juntamente”. – passio, passionis “sofrimento” (de pati, “sofrer”). Sentido original: “Sofrer junto”, partilhar a dor do outro; daí “sentir piedade” ou “solidariedade com o sofrimento alheio”. Ênfase em “sofrer junto”, solidariedade emocional.
É a identificação profunda com o sofrimento do outro – sofrer junto –, gerando impulso para acudir (Mc 1.41; Mt 14.14).
▶Compadecer (subst. compadecimento) Etimologia: – com- “junto, juntamente” – pati, “sofrer” (da mesma raíz de passio, “sofrimento”) Sentido original: “Sofrer com”, literalmente “colocar-se junto ao que sofre”; no uso corrente, “ter piedade de alguém” ou “emocionar se com a miséria alheia”. Ação do sujeito que demonstra compaixão (“ter piedade, comover-se”).
Verbo que reflete a ideia de “sofrer com” ou “ter piedade de”; ato de comover-se diante da dor alheia e aproximar-se para acolher (Jo 11.33, 35; Lc 7.13).
▶Bondade Etimologia: – “bon-”, vem de bonus, -a, -um, que em latim significa “bom”. – “-dade”, sufixo correspondente ao latim -tās, -tātis, que forma substantivos abstratos indicando “qualidade” ou “estado de ser”. Sentido original: É literalmente “a qualidade de ser bom” — em sentido moral, a disposição de fazer o bem. Ênfase na prática do bem, indiscriminadamente.
Qualidade de ser “bom” em essência e ação; generosidade universal de Deus, provendo para todos, sem discriminação (Sl 145.9; Mt 5.45).
▶Benignidade A palavra benignidade em português vem, por via direta, do latim benignitās que é composta de duas partes. Etimologia: 1ª) Benignus – Advém da junção de bene (“bem”) + forma derivada de gignĕre (“gerar, produzir”). 2ª) -itās / -idade – Sufixo substantivador do latim -itās, que em português se tornou -idade, indicando “qualidade” ou “estado de ser”. Sentido original: “Aquele que gera bem”, isto é, “amável, favorável, bondoso”. É a gentileza, o trato dócil e atencioso para com o outro.
É a disposição mansa e gentil do coração, no trato com o outro, a “amabilidade” que precede, inspira e prepara o caminho para ações de bondade (Gl 5.22; Ef 4.32).
2. Expressões da misericórdia de Deus (Sl 103.1-5)
“1 Bendize, ó minha alma, ao SENHOR, e tudo o que há em mim bendiga ao seu santo nome. 2 Bendize, ó minha alma, ao SENHOR, e não te esqueças de nem um só de seus benefícios.“
O Salmo 103 é um significativo hino de louvor a Deus de autoria atribuída ao rei Davi. Inicia com uma chamada ao coração, à memória e a todo o ser do seu autor, para a exaltação ao nome do Senhor, e por todos os seus benefícios (vv.1-2). Lembra e explicita os benefícios divinos (vv.3-5). Declara a justiça e a misericórdia do Senhor para com os oprimidos e pecadores (vv.6-12). Expressa o cuidado paternal de Deus e a efemeridade da vida humana (vv.13-18). Termina com uma convocação geral ao louvor e exaltação ao soberano rei dos céus e da terra (vv.19-22).
2.1 O perdão dos pecados (v.3a)
“3a Ele é quem perdoa todas as tuas iniquidades;“
Davi tinha plena consciência da fragilidade humana, dos seus pecados, da necessidade de arrependimento e confissão (Sl 51). O pecado interrompe a comunhão com Deus e definha o corpo (Sl 32.3). Somente Deus tem autoridade para perdoar pecados e, Jesus, manifesta sua divindade declarando ter essa autoridade (Mt 9.6).
Desde a queda de Adão e Eva Deus deixou claro a necessidade da expiação de pecados através do sacrifício substitutivo de animais. Entretanto, somente em Cristo, o que era paliativo e repetitivo, deu lugar a uma obra de redenção única, definitiva e eficaz (Hb 10.1-18). Assim, nenhuma acusação ou condenação pesa sobre nós (Rm 8.1).
2.2 A cura de enfermidades (v.3b)
“3b quem sara todas as tuas enfermidades;“
Nosso corpo é frágil e sujeito a enfermidades, independentemente de sermos justos ou injustos diante de Deus. Felizmente, a misericórdia de Deus nos alcança provendo alívio e cura, quer pelos meios ordinários da medicina (Mt 9.12), quer pelo meio extraordinário decorrente da manifestação do poder de Deus (Mt 10.1). Deus tem o poder de curar qualquer tipo de enfermidade, do corpo e da alma. Entretanto, ele somente o fará segundo a sua soberana vontade.
2.3 A redenção e o coroamento (v.4)
“4 quem da cova redime a tua vida e te coroa de graça e misericórdia;“
O salmista, guerreiro e rei Davi, ainda não tinha a consciência da redenção em Cristo, que estava por vir. Assim, poderia ele estar se referindo à restauração da saúde física, ou ao livramento no campo de batalha, ambos acontecendo como resultado da intervenção divina. Entretanto, tal declaração nos remete à obra redentora do Calvário – “Ele vos deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados,” (Ef 2.1). Da mesma forma, isso não acontece como resultado dos nossos esforços ou obras, mas é pela graça, pela intervenção direta de Deus.
A expressão “e te coroa” parece ser uma metáfora referindo-se ao costume antigo de uso de coroas e grinaldas em ocasiões especiais.
Por exemplo:
(i)Líderes e guerreiros bem-sucedidos eram coroados com grinaldas de ramos (folhas ou galhos entrelaçados) como emblema de triunfo.
(ii) Símbolo de honra e bênção profética – a sabedoria é comparada a “coroas” ou “grinaldas” que adornam o justo (Pv 4.9; ver tb Is 61.3).
(iii)Além desses, em cerimônias festivas (banquetes e rituais agrícolas) era comum adornar mesas, altares e até pessoas com guirlandas de flores e folhas – gesto de alegria, gratidão ou pedido de provisão. Desse modo, coroas e grinaldas iam muito além da realeza, e da consagração (sacerdotal); caracterizavam vitória (militar) e bênção (ética e litúrgica) na vida de Israel.
2.4 O provimento e a revitalização (v.5)
“5 quem farta de bens a tua velhice, de sorte que a tua mocidade se renova como a da águia.“
Quando o salmista fala em “bens” (hb. טוֹבִים, tôvîm), não fica evidente a que tipo de bens ele está se referindo. Em certa ocasião, Davi apresenta seu testemunho quanto à bênção do justo: “Fui moço e já, agora, sou velho, porém jamais vi o justo desamparado, nem a sua descendência a mendigar o pão.” (Sl 37.25). Entretanto, entendemos que o melhor que Deus tem para nós não é a prosperidade material. Assim, é provável que ele esteja se referindo aqui a todo o conjunto de benefícios que Deus já lhe concedera e listados nos versículos anteriores. Esses “bens” não são meramente coisas materiais, mas sobretudo bênçãos espirituais e restauradoras.
Então, tais bens seriam:
Perdão dos pecados (v.3a) – O primeiro “bem” é a remissão de toda culpa. A alma que tinha sido oprimida pelo peso do pecado agora tem liberdade e alívio.
Cura das enfermidades (v.3b) – Em seguida, a restauração física. Deus não apenas perdoa, mas também sara as feridas que o pecado trouxe ao corpo e ao espírito.
Redenção e coroamento (v.4) – “Da cova (morte) redime a tua vida” aponta o resgate do perigo extremo e a libertação do que aprisionava a vida do salmista. – “E te coroa de graça e de misericórdia” descreve o selo de honra e o favor contínuo do Senhor, que vem de seu caráter fiel à aliança.
Provimento e revitalização (v.5) – Somados, esses benefícios constituem o “banquete” espiritual com que Deus “sacia” a alma do crente. É esse transbordar de perdão, saúde, redenção e amor que renova interiormente o adorador, fazendo sua “juventude”– a vitalidade, a esperança, o vigor – ressurgir como a renovação periódica das penas da águia, garantindo que as asas mantenham a capacidade de voar alto e com agilidade.
Aplicação prática:
Reconheça: relembre quais “bens” Deus já lhe concedeu (perdão, cura, livramento, bens) e deixe que eles te sustentem em esperança.
Descanse: permita que a experiência de ser “saciado” por Deus revigore seu ânimo e renove sua fé.
Siga em justiça: estando fortalecido por esses “bens”, avance pelas “veredas da justiça” (Sl 23.3b), vivendo coerentemente com o Deus que tanto te favorece.
Que, na velhice, possamos corresponder ao expresso pelo salmista: “Na velhice darão ainda frutos, serão cheios de seiva e de verdor, para anunciar que o SENHOR é reto. Ele é a minha rocha, e nele não há injustiça.” (Sl 92.14-15)
Conclusão
“Porque o SENHOR é bom, a sua misericórdia dura para sempre, e, de geração em geração, a sua fidelidade.” (Sl 100.5)
Nosso Deus é um Deus misericordioso e dá provas de misericórdia continuamente; os cidadãos do seu reino também devem demonstrar misericórdia. Jesus praticou e ilustrou a misericórdia. Ele curou enfermos, ressuscitou mortos, alimentou os famintos, acolheu os rejeitados pela sociedade. Ele ilustrou a misericórdia na parábola do bom samaritano, onde um desconhecido socorreu um viajante que ia de Jerusalém para Jericó, sendo assaltado e ferido, enquanto os religiosos passaram de largo (Lc 10.10-35).
Que assim, Deus nos ajude!
Bibliografia
1. Bíblia Sagrada (SBB – Versão Revista e Atualizada). 2. Bíblia Online (SBB). 3. Willem A. VanGemeren, Ph. D. – Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do Antigo Testamento (vol.2) (Ed. Cultura Cristã – 2011). 4. R. N. Champlin, Ph. D. – O Antigo Testamento Interpretado – Versículo por versículo (Ed. Hagnos – 2001). 5. Internet / ChatGPT / IA.
“Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, produz muito fruto.” (Jo 12.24)
Introdução
O contexto desta declaração de Jesus (Jo 12.24) é a sua última semana que culminou com a crucificação. Após sua entrada triunfal em Jerusalém no domingo, vem a segunda-feira. Alguns gregos, isto é, gentios prosélitos que tinham ido a Jerusalém para a festa da Páscoa desejavam vê-lo (Jo 12.20-21), o que contrastava com os líderes religiosos dos judeus que procuravam matá-lo. Uma verdadeira cadeia de comunicação se estabelece: Os gregos rogam a Filipe uma desejada “audiência” com Jesus, ele repassa para André, e, enfim, ambos comunicam a Jesus. Jesus percebe que sua hora de ser glorificado (ou seja, de sofrer, morrer e ressuscitar) estava chegando. E, então, se pronuncia de forma misteriosa, usando essa metáfora do grão de trigo para referir-se aos desdobramentos da sua morte.
1. O significado da metáfora
Jesus compara a si mesmo a um grão de trigo. Ele usa a lógica da agricultura:
Um grão, não semeado, nada gera.
Mas se for plantado e “morrer”, ele germina e dá fruto – muito fruto.
Portanto, Jesus usa uma ilustração simples da agricultura – algo que todos podiam entender. Mas ele está falando de algo muito profundo: o poder da morte que gera vida.
2. A Aplicação a Jesus
Jesus está falando sobre sua própria morte:
Ele precisa morrer (como o grão que morre ao ser enterrado).
Para que, através disso, muitos tenham vida – ou seja, sejam salvos.
Sua morte na cruz não seria uma perda, mas uma semeadura que traria grande colheita espiritual.
Jesus é o grão que cai na terra e morre. Ele não foi vencido pela morte – ele se entregou voluntariamente para que a sua morte trouxesse vida a muitos. Se Jesus não tivesse morrido, não haveria salvação, não haveria fruto.
O fruto somos nós! Sua morte não foi em vão. Da cruz nasceu um povo: nós, sua igreja.
Cada alma salva é um fruto do sacrifício de Jesus.
A igreja é a plantação de Deus que brotou da morte do Salvador.
3. Lições do Trigo
“Quem ama a sua vida perde-a; mas aquele que odeia a sua vida neste mundo preservá-la-á para a vida eterna. Se alguém me serve, siga-me, e, onde eu estou, ali estará também o meu servo. E, se alguém me servir, o Pai o honrará.” (Jo 12.25-26)
Na sequência da sua fala, Jesus se dirige aos seus discípulos e, por extensão, a todos os seus seguidores. Esta mesma ideia e conceito também se aplica a nós. Quando vivemos para nós mesmos, até podemos estar “vivos”, mas nossa vida será estéril. Entretanto, quando morremos para o eu, nos tornamos frutíferos – em amor, serviço, generosidade, impacto.
Somos convidados a refletir sobre o processo de transformação que conduz à vida plena. O trigo, símbolo da semente que precisa “morrer” para dar vida a uma colheita abundante, nos ensina valiosas lições para nossa jornada espiritual.
A metáfora do trigo é uma das imagens mais interessantes do evangelho. Jesus utiliza esse exemplo para ilustrar como a morte do “velho homem” é necessária para que a renovação e o crescimento aconteçam (Rm 6.6; Ef 4.22; Cl 3.9). Em cada etapa do ciclo do trigo, encontramos um paralelo com nossa caminhada cristã, um chamado para abandonar o “velho eu” e abraçar a transformação que resulta em uma vida frutífera.
A seguir, abordaremos seis etapas desse processo:
1ª) Desaparecimento ou entrega
“Estou crucificado com Cristo; logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim.” (Gl 2.19b-20)
A primeira etapa é o desaparecimento, representado pela semente que, ao ser plantada, deixa de ser vista, pois está coberta pela terra. Esse desaparecimento não é um fim, mas uma entrega total. Na vida do cristão, o desaparecimento do “eu” anterior – marcado pelo pecado, pelo orgulho e pelas limitações humanas – é essencial para abrir espaço para algo novo. Assim, o abandono das velhas práticas e atitudes é o ponto de partida para a renovação espiritual.
Muitos crentes vivem em solidão, não porque lhes falte companhia, mas porque recusam-se a passar pelo processo da entrega. Em vez de se doarem, se protegem. Em vez de se entregarem, se fecham. Defendem sua própria vida, e acabam presos em si mesmos. Quanto mais resistem à “morte do eu”, mais suas vidas giram em torno de si, e menos frutíferas se tornam.
2ª) Transformação ou renovação interior
“Agora, porém, libertados do pecado, transformados em servos de Deus, tendes o vosso fruto para a santificação e, por fim, a vida eterna;” (Rm 6.22)
Após o desaparecimento, vem a transformação. Assim que o grão de trigo cai na terra e é coberto, inicia-se um processo invisível, mas poderoso – uma transformação química e biológica que dá início a uma nova vida. De igual modo, o cristão, ao se submeter à vontade de Deus, experimenta uma profunda mudança interna. A velha natureza, endurecida e inflexível, precisa morrer para que surja uma vida transformada – mais dócil, mais sensível, mais parecida com Cristo, e mais agradável aos que convivem com ela. Essa transformação é marcada pela regeneração pelo Espírito Santo, que reconfigura nossa identidade e nos capacita a viver segundo os princípios do Reino de Deus.
3ª) Ampliação ou Multiplicação
“cheios do fruto de justiça, o qual é mediante Jesus Cristo, para a glória e louvor de Deus.” (Fp 1.11)
A etapa da ampliação reflete o potencial que foi liberado com a transformação. Quando o grão de trigo morre, ele gera uma planta que cresce e se expande, produzindo muitos grãos. Para o cristão, essa ampliação se manifesta na propagação do evangelho e no impacto transformador que sua vida pode ter sobre os outros. Cada mudança pessoal se torna uma semente para influenciar e inspirar o próximo, multiplicando os frutos da fé.
4ª) Rompimento ou Quebra de Barreiras
“Não reine, portanto, o pecado em vosso corpo mortal, de maneira que obedeçais às suas paixões; nem ofereçais cada um os membros do seu corpo ao pecado, como instrumentos de iniquidade; mas oferecei-vos a Deus, como ressurretos dentre os mortos, e os vossos membros, a Deus, como instrumentos de justiça.” (Rm 6.12-13)
O rompimento é a força que quebra as barreiras do antigo estado. No ciclo do trigo, a emergência da planta representa o rompimento da casca que o aprisionava. Na vida espiritual, esse rompimento simboliza o afastamento definitivo das estruturas e hábitos que impedem a plena vivência da fé. É o momento em que o crente se liberta das amarras do passado e se lança para uma nova realidade, determinada pela graça e pelo amor de Deus.
5ª) Enraizamento ou Consolidação
“Ora, como recebestes Cristo Jesus, o Senhor, assim andai nele, nele radicados, e edificados, e confirmados na fé, tal como fostes instruídos, crescendo em ações de graças.” (Cl 2.6-7)
Após romper, a planta se enraíza profundamente no solo, garantindo sua estabilidade e a absorção dos nutrientes necessários para o crescimento. No contexto cristão, o enraizamento representa o fortalecimento na fé e na comunhão com Deus. É o período em que o crente consolida sua identidade em Cristo, estabelecendo raízes sólidas na Palavra (Bíblia), na oração e na comunhão com a comunidade de fé, o que o prepara para enfrentar as adversidades e continuar crescendo.
6ª) Ressurreição ou Renascimento em Cristo
“Mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou, e estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo, – pela graça sois salvos, e, juntamente com ele, nos ressuscitou, e nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus;” (Ef 2.4-6)
Finalmente, o processo culmina na ressurreição. O trigo que “morre” gera uma nova planta que floresce e produz abundância. Assim também, a entrega total de nossa vida a Deus resulta na ressurreição espiritual, na renovação que traz esperança e a promessa de vida eterna. Essa ressurreição não é apenas a promessa de um futuro glorioso, mas uma realidade presente, manifestada na transformação contínua do coração e na renovação diária que reflete a presença de Cristo em nossas vidas.
É importante lembrar que o trigo era moído até se tornar farinha fina, a qual era usada para preparar o pão sagrado no tabernáculo. Deus nos mói para nos tornar alimento espiritual para outros. Esse processo de moagem e santificação continua até que as últimas partes duras do nosso ser sejam eliminadas.
Conclusão
“Quando alguma pessoa fizer oferta de manjares ao SENHOR, a sua oferta será de flor de farinha; nela, deitará azeite e, sobre ela, porá incenso.” (Lv 2.1)
Flor de farinha é o nome dado à parte mais fina, pura e refinada da farinha de trigo, resultado de um processo de peneiramento cuidadoso. É semelhante ao que hoje chamamos de farinha tipo 00 ou farinha superfina, usada para pães delicados e bolos leves. No hebraico, o termo é “solet” (סֹלֶת), e aparece em vários textos sobre ofertas no templo.
“Mas ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados. Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo caminho, mas o SENHOR fez cair sobre ele a iniquidade de nós todos.” (Is 53.5-6)
A flor de farinha é uma representação da pessoa de Cristo. “Declarou-lhes, pois, Jesus: Eu sou o pão da vida; o que vem a mim jamais terá fome; e o que crê em mim jamais terá sede” (Jo 6.35). Ainda que não houvesse dureza nele, ele foi moído e peneirado por nossas iniquidades, ele foi levado à fornalha acesa dos sofrimentos, para a salvação de todo aquele que crê. “Ele verá o fruto do penoso trabalho de sua alma e ficará satisfeito; o meu Servo, o Justo, com o seu conhecimento, justificará a muitos, porque as iniquidades deles levará sobre si.” (Is 53.11)
“Eu de boa vontade me gastarei e ainda me deixarei gastar em prol da vossa alma.” (2Co 12.15a)
Jesus nos deu o exemplo a ser seguido. A Bíblia tem vários textos que falam sobre entrega, sacrifício pessoal, dedicação intensa – até o ponto de “se deixar gastar” pela causa de Cristo. É o tipo de vida que não se poupa, mas se derrama como oferta. O apóstolo Paulo expressa sua disposição de se doar totalmente, mesmo sem retorno.
O sacrifício vicário de Cristo e as lições do trigo nos convidam a abraçar a mudança e a transformação como partes essenciais do processo de crescimento espiritual. Ao renunciar ao antigo “eu” e permitir que a graça de Deus atue em nossas vidas, experimentamos o desaparecimento, a transformação, a ampliação, o rompimento, o enraizamento e, finalmente, a ressurreição. Essas etapas nos ensinam que, assim como o grão de trigo precisa “morrer” para dar fruto, nossa jornada de fé também requer a entrega e a renovação contínua, conduzindo-nos a uma vida abundante e repleta do amor redentor de Jesus Cristo.
No findar de mais um dia de ensinamentos e doutrinamentos, Jesus se dirige aos que estavam com ele, num tom de comando, e diz: “- Passemos para a outra margem”. Na verdade, há nessas palavras do Mestre muito mais que a intenção de empreender uma viagem marítima. Observando atentamente os acontecimentos anteriores e posteriores, podemos perceber que Jesus intencionava conduzir os discípulos da margem teórica para a margem prática; da margem do conhecimento, das doutrinas, dos princípios, enfim, das palavras, para a margem da ação, da vivência, da experiência prática e real.
1. A MARGEM DE CÁ
“Tempo de arrependimento, confissão e aprendizado (discipulado)”
35 Naquele dia, sendo já tarde, disse-lhes Jesus: Passemos para a outra margem.(Mc 4) 18 Vendo Jesus muita gente ao seu redor, ordenou que passassem para a outra margem.(Mt 8) 22 Aconteceu que, num daqueles dias, entrou ele num barco em companhia dos seus discípulos e disse-lhes: Passemos para a outra margem do lago; …(Lc 8)
Jesus estava apenas no início do seu ministério. Entretanto, já conseguia reunir em torno de si uma numerosa multidão. Desta feita, ele fez de um barco à beira-mar (mar ou lago da Galileia) o seu púlpito e ensinava muitas coisas, por parábolas, àquela congregação à sua frente, na praia (Mc 4.1-2). Quem era este que tinha tanto a ensinar e tantos para lhe ouvir?
A característica mais marcante da margem de cá está expressa pelo evangelista em Marcos 4.2, 33-34. Esta margem se refere ao mundo das palavras, que expressam ideias, formam convicções e determinam comportamentos. Emerson se expressou assim: “Semeai um pensamento e colhereis um ato; Semeai um ato e colhereis um hábito; Semeai um hábito e colhereis um caráter; Semeai um caráter e colhereis um destino”.
A missão de Jesus incluía uma ampla exposição a respeito de coisas que o ser humano precisava saber. Coisas que Deus já havia revelado parcialmente “aos pais pelos profetas”, mas que agora falava diretamente pelo Filho (Hb 1.1-2). As palavras de Jesus revelavam, basicamente: Os mistérios, os princípios do reino de Deus, que estava sendo estabelecido entre os homens; os padrões de conduta requeridos por Deus e os acontecimentos futuros que afetariam a vida de cada criatura humana. Enfim, todo o conhecimento necessário ao homem, no qual ele pudesse alicerçar a sua vida, por nele a sua fé e viver em harmonia com o resto da criação e com o Criador.
Três grupos de pessoas:
Jesus tinha diante de si uma multidão, composta por grupos que, de certa forma, ainda nos cercam hoje. Do ponto de vista intelectual e de personalidade, podemos identificar três grupos principais – enfatizando tanto os aspectos materiais quanto os espirituais:
– Personalidade Massificada:
Formado por indivíduos que absorvem ideias dispersas e experiências cotidianas, esse grupo, também denominado “massa atrasada”, é o maior em qualquer época. Assim somos alertados em Romanos 14.5b: “Cada um tenha opinião bem definida em sua própria mente.”
– Personalidade Induzida:
Caracterizado por pessoas influenciadas por líderes ou ideologias de determinados segmentos – sejam entidades de classe, sindicatos, partidos políticos, religiões ou seitas – esse grupo se forma a partir da adoção de princípios e crenças alheias. É preciso ter cautela, conforme Colossenses 2.4: “Assim digo para que ninguém vos engane com raciocínios falazes.”
– Personalidade Lapidada:
Formado por indivíduos que constroem sua visão de mundo com base em ideias e fatos investigados, estudados e comprovados, esse grupo se destaca pelo discernimento. Em 1Tessalonicenses 5.21, somos exortados: “… julgai todas as coisas, retende o que é bom.”
Sejamos cristãos ou não, e independentemente do campo – religioso ou secular – cada um de nós pode ser enquadrado em um desses grupos. Em qual deles estamos? Ter consciência dessa realidade é fundamental para que possamos tomar decisões significativas em nossas vidas.
No universo das palavras, o Evangelho se destaca como o único capaz de salvar e aperfeiçoar o homem, conforme enfatizado em Colossenses 1.26-28.
2. A TRAVESSIA
“Tempo de experiência pessoal com Deus”
A vida não é feita só de palavras e pensamentos! Quantos ficariam assentados, indefinidamente, ouvindo palavras de sabedoria. A rainha de Sabá não mediu esforços para estar diante de Salomão e ouvir de viva voz palavras de extrema sabedoria. Não há limites para se registrar palavras e ideias, entretanto, se essas palavras não forem capazes de melhorar a situação do homem, então serão apenas palavras vazias, para o engano da alma e do intelecto.
Após um dia repleto das sábias e inspiradoras palavras de Jesus, era chegada a hora de vê-las ganhar forma e transformar-se em vida. Era tempo de sair da zona de conforto e vivenciar a fé. Em outra ocasião, mais adiante, no monte da transfiguração, Pedro sugeriu ficarem ali, “com a cabeça nas nuvens”, desfrutando daquele momento glorioso (Mc 9.5), porém havia uma missão a cumprir, muita gente a ser alcançada, libertada e curada, como o jovem possesso, no pé do monte (Mc 9.14-29).
A travessia é:
Uma Ordem Divina – “Passemos…”
Obrigatória para se alcançar a outra margem, isto é, algo mais.
Dinâmica como o deslizar do barco sobre as águas.
No campo da fé, ela retrata a experiência pessoal, através da qual a Palavra de Deus passa a ter um significado real em nossa vida. É quando as promessas divinas deixam de ser apenas palavras e passam a ser realidade.
a) O início da travessia
36 E eles, despedindo a multidão, o levaram assim como estava, no barco; e outros barcos o seguiam.(Mc 4) 23 Então, entrando ele no barco, seus discípulos o seguiram. (Mt 8) 22 ….; e partiram.(Lc 8)
Este é o cenário do início da travessia. A multidão permanece na praia enquanto o barco de Jesus assume a dianteira, seguido por outras embarcações. Elementos simples – barco, mar, viagem – simbolizam a essência da vida. Podemos imaginar que somos como um barco navegando pelo vasto mar do mundo: uma imensidão repleta de recursos e belezas, mas também sujeita a surpresas desagradáveis.
Quatro tipos de atitudes para com Jesus:
O quadro do início da travessia nos sugere ou remete a algumas atitudes que em todas as épocas as pessoas têm tido para com Jesus:
1º) Os Indiferentes Há uma grande multidão que nem sequer está interessada em saber quem é Jesus e ouvir o que ele tem a dizer. São pessoas muito ocupadas e entretidas trilhando o caminho largo.
2º) Os Oportunistas Há uma pequena multidão que até gosta de ouvir sobre Jesus, mas fica na praia e, logo após, retorna a seus velhos hábitos.
3º) Os Simpatizantes Há também aqueles, que se dizem interessados, ou até mesmo cristãos, mas seguem Jesus de longe, sem assumir compromisso.
4º) Os Autênticos O menor e mais privilegiado grupo é formado por aqueles que têm Jesus no barco da sua vida, isto é, que desfrutam da sua intimidade e comunhão.
Esses grupos sempre existirão. Em qual deles você está?
b) O meio da travessia
O quadro do meio da travessia se mostra ameaçador, tenebroso, como na provação. Por cima, a negridão da noite; por baixo, o mar revolto; em volta, ao redor, a tempestade de vento levantando fortes ondas que se arremessavam contra o barco. Que situação terrível! É na provação que chegamos mais perto de Deus. Ela nos proporciona a oportunidade de conhecer melhor a Deus e a nós mesmos. Os momentos de crise têm mudado a vida de muitos, levando-os a uma vida de inteiro compromisso e dependência de Deus (Jó 42.5). Por que? Porque a Palavra de Deus se reveste de vida. A presença de Deus se torna real.
Quatro fases da crise:
1º) Crise e Autossuficiência
37 Ora, levantou-se grande temporal de vento, e as ondas se arremessavam contra o barco, de modo que o mesmo já estava a encher-se de água. (Mc 4) 24 E eis que sobreveio no mar uma grande tempestade, de sorte que o barco era varrido pelas ondas. Entretanto, Jesus dormia. (Mt 8) 23 Enquanto navegavam, ele adormeceu. E sobreveio uma tempestade de vento no lago, correndo eles o perigo de soçobrar. (Lc 8)
É interessante observar como as coisas acontecem. Aquele tipo de tempestade de vento era muito comum no Mar da Galileia. O levantamento do ar quente do dia permitia ao ar mais frio das colinas ao redor, descer rapidamente sobre o lago, girando e rodopiando. Aqueles homens, como bons conhecedores do mar, certamente sabiam disso. Entretanto, confiados na habilidade que tinham, parece que inicialmente dispensaram a presença de Jesus, talvez até mesmo com a nobre intenção de deixá-lo descansar. Jesus ficou atrás, na popa, e dormia. Na nossa vida não é muito diferente. Nos julgamos capazes de lidar com os desafios sozinhos, com os nossos próprios recursos, com as nossas habilidades, talvez, até com as palavras de Jesus na mente, mas quanto a Jesus, ele fica “dormindo”, atrás.
2º) Crise e Clamor
38 E Jesus estava na popa, dormindo sobre o travesseiro; eles o despertaram e lhe disseram: Mestre, não te importa que pereçamos? (Mc 4) 25 Mas os discípulos vieram acordá-lo, clamando: Senhor, salva-nos! Perecemos! (Mt 8) 24 Chegando-se a ele, despertaram-no dizendo: Mestre, Mestre, estamos perecendo!… (Lc 8)
Quando o barco começa a encher-se de água, porque o “barco” do cristão não está isento das tempestades desta vida; quando nos tornamos completamente impotentes para dominar a situação, só então nos lembramos de recorrer a Jesus. Como Deus tem sido misericordioso! Jesus nunca rejeita um coração quebrantado e aflito. Ele se mantém fiel e pronto a ajudar, apesar de tudo.
3º) Crise e Solução
39 E ele, despertando, repreendeu o vento e disse ao mar: Acalma-te, emudece! O vento se aquietou, e fez-se grande bonança. (Mc 4) 40 Então, lhes disse: Por que sois assim tímidos?! Como é que não tendes fé? (Mc 4) 26 Perguntou-lhes, então, Jesus: Por que sois tímidos, homens de pequena fé? E, levantando-se, repreendeu os ventos e o mar; e fez-se grande bonança. (Mt 8) 24 ….Despertando-se Jesus, repreendeu o vento e a fúria da água. Tudo cessou, e veio a bonança. (Lc 8) 25 Então, lhes disse: Onde está a vossa fé? ….. (Lc 8)
Diante dos clamores daqueles homens, Jesus acorda (a autenticidade da sua humanidade) e repreende o vento e aquieta o mar (a autenticidade da sua divindade). Felizes são aqueles que podem contar com Jesus, por perto, pois ele pode salvar a alma das tempestades repentinas da vida e da destruição final!
Após o majestoso milagre, Jesus se dirige àqueles homens questionando-lhes a falta de fé. Por que? “O apelo que lhe fizeram, estando ele dormindo, não foi a calma da invocação de um poder em que se confia, mas a reprimenda assustada daqueles cuja fé foi derrotada pelo perigo”. Deus espera muito mais de nós em termos de fé!
4º) Crise e Crescimento
41 E eles, possuídos de grande temor, diziam uns aos outros: Quem é este que até o vento e o mar lhe obedecem? (Mc 4) 27 E maravilharam-se os homens, dizendo: Quem é este que até os ventos e o mar lhe obedecem? (Mt 8) 25 …. Eles, possuídos de temor e admiração, diziam uns aos outros: Quem é este que até aos ventos e às ondas repreende, e lhe obedecem? (Lc 8)
O descobrimento da grandeza daquele Jesus que estava ao lado deles era tal que as suas mentes ficaram confusas e atemorizadas com o que seus olhos presenciaram. O reconhecimento da grandeza deste Deus vivo e verdadeiro, através de uma experiência pessoal é indispensável para alcançarmos a outra margem da vida cristã.
3. A MARGEM DE LÁ
“Tempo de vida frutífera”
É o lugar de ação, do serviço cristão. É o lugar onde se encontram as multidões famintas e necessitadas. Quando Jesus desembarcou na outra margem (Mc 5.1), ele enfrentou e venceu os maiores desafios que conhecemos: O poder satânico (Mc 5.1-20), a enfermidade incurável (Mc 5.25-34) e a morte (Mc 5.21-24; 35-43). Provou assim toda a sua autoridade.
Jesus, porém, não reservou para si próprio a tarefa de libertar, curar e pregar; antes, capacitou e continua capacitando aqueles seus servos que se dispõem a pagar o preço dessa viagem para a outra margem, dessa travessia da fé (Mc 6.7-13).
Conclusão
A margem de cá representa o tempo de forjar a fé, alicerçando-a solidamente na Bíblia, a Palavra de Deus. Na travessia do cotidiano, é o tempo de aprofundar a comunhão e a intimidade com o Senhor — tanto nos dias serenos quanto nos embates da vida. E, na margem de lá, salvos e capacitados por Deus, fortalecidos pelo Espírito Santo, é tempo de sermos instrumentos úteis: cumprindo nossa missão, servindo ao próximo, levando a mensagem da vida eterna e sendo apoio nas suas eventuais necessidades e desafios.
A poesia abaixo resume os três tópicos:
A Travessia da Fé
Na margem de cá, Onde a calmaria nos aquieta o coração se abre à brisa suave de lições sagradas e promessas contidas. Ali, em cada palavra e olhar, descobrimos os ensinamentos que, como sementes, aguardam o tempo de germinar na alma.
Então, surge a travessia, o mar se agita, tempestade e desafio, e o barco balança a fé. A experiência prática pulsa, no uivar do vento e no agito da dúvida, mas então, a voz de Jesus acalma as ondas, e a travessia se torna um caminho de confiança renovada, onde cada gota de medo se transforma em confiança no Salvador.
E chegamos à margem de lá, a luz se ergue em frutos de serviço, Ali, a fé amadurece e é comprovada. O que foi aprendido e vivido se traduz em ação: em cada gesto de amor, em cada palavra de esperança, floresce o fruto da graça que transforma o mundo ao nosso redor.
………………………..
Entre a margem de cá, a travessia e a margem de lá, a travessia se revela como um caminho de transformação e ação: Na calmaria, aprendemos; na tormenta, experimentamos; e, no amanhecer, servimos … com a grandiosidade do Deus que acalma todas as tempestades.
A sociedade clama por socorro. Temos ouvido a sua voz?
Você que ainda não tem Jesus no “barco”, como vai reagir a tudo que tem ouvido?
Vivemos em um mundo repleto de falsas promessas e carente de esperança, principalmente da verdadeira e maior esperança. É um tempo sombrio e desafiador. O unigênito Filho de Deus, que se fez carne e deu a sua vida por nós, promete aos seus seguidores:
1. Salvação dos pecados:
Jesus prometeu que todo aquele que nele crer será salvo e resgatado da condenação do pecado.
“Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.” (João 3.16)
2. Vida eterna:
Ele assegurou que, mesmo enfrentando a morte física, os crentes terão a vida eterna por meio dele.
“Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá;” (João 11.25)
3. Paz:
Deus tem pensamentos de paz, e não de mal, para nos dar o fim que esperamos (Jr 29.11-13). Jesus prometeu uma paz única, que não depende das circunstâncias deste mundo, uma paz que excede o entendimento humano.
“Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como a dá o mundo. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize.” (João 14.27) “Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo;” (Rm 5.1)
4. Presença contínua:
Ele garantiu estar presente com os seus seguidores em todos os momentos, até o fim dos tempos.
“E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século.” (Mateus 28.20b)
5. Consolo e auxílio pelo Espírito Santo:
Jesus nos oferece refúgio, consolo, descanso e alívio: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei.” (Mt 11.28). Ele prometeu enviar o Espírito Santo, o Consolador, para estar com os crentes e guiá-los em sua jornada terrena.
“E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, a fim de que esteja para sempre convosco,” (João 14.16)
6. Resposta às orações:
Deus é fiel para suprir todas as nossas necessidades: “E o meu Deus, segundo a sua riqueza em glória, há de suprir, em Cristo Jesus, cada uma de vossas necessidades.” (Fp 4.19). Jesus assegurou que as orações feitas em seu nome seriam ouvidas e atendidas, segundo a sua vontade e para a glória do Pai.
“E tudo quanto pedirdes em meu nome, isso farei, a fim de que o Pai seja glorificado no Filho. Se me pedirdes alguma coisa em meu nome, eu o farei.” (João 14.13-14)
7. Recompensa e herança no Reino de Deus:
Jesus prometeu aos que o seguem fielmente não só uma recompensa neste mundo, mas uma herança eterna como filhos de Deus.
“Pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus. Ora, se somos filhos, somos também herdeiros, herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo; se com ele sofremos, também com ele seremos glorificados.” (Romanos 8.14, 17)
Conclusão
Jesus – o Deus Filho – e Deus Pai são um e são Onisciente, Onipresente e Onipotente. Essas promessas de Jesus formam a base da esperança cristã, garantindo salvação, consolo, orientação e a certeza de uma vida eterna em comunhão com Deus.
Ele te convida a depositar sua fé e confiança nele e nas suas promessas.
“Porém que se diz? A palavra está perto de ti, na tua boca e no teu coração; isto é, a palavra da fé que pregamos. Se, com a tua boca, confessares Jesus como Senhor e, em teu coração, creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Porque com o coração se crê para justiça e com a boca se confessa a respeito da salvação.” (Rm 10.8-10)
“Entrega o teu caminho ao SENHOR, confia nele, e o mais ele fará.” (Sl 37.5)
Esta história é sobre um soldado que finalmente estava voltando para casa, após a terrível guerra do Vietnã. Ele ligou para seus pais, em São Francisco, e lhes disse: – Mãe, Pai, eu estou voltando para casa, mas, eu tenho um favor a lhes pedir. – Claro meu filho, peça o que quiser! – Eu tenho um amigo que eu gostaria de trazer comigo. – Claro meu filho, nós adoraríamos conhecê-lo!!!! – Entretanto, há algo que vocês precisam saber. Ele foi ferido na última batalha que participamos. Pisou em uma mina e perdeu um braço e uma perna. O pior é que ele não tem nenhum lugar para onde ir. Por isso, eu quero que ele venha morar conosco. – Eu sinto muito em ouvir isso filho, nós talvez possamos ajudá-lo a encontrar um lugar onde ele possa morar e viver tranquilamente! – Não, eu quero que ele venha morar conosco! – Filho, disse o pai, você não sabe o que está nos pedindo. Alguém com tanta dificuldade, seria um grande fardo para nós. Temos nossas próprias vidas e não podemos deixar que uma coisa como esta interfira em nosso modo de viver. Acho que você deveria voltar para casa e esquecer este rapaz. Ele encontrará uma maneira de viver pôr si mesmo…
Neste momento, o filho bateu o telefone. Os pais não ouviram mais nenhuma palavra dele.
Alguns dias depois, no entanto, eles receberam um telefonema da polícia de São Francisco. O filho deles havia morrido depois de ter caído de um prédio. A polícia acreditava em suicídio. Os pais angustiados voaram para São Francisco e foram levados para identificar o corpo do filho. Eles o reconheceram, mas, para o seu horror, descobriram algo que desconheciam: O filho deles tinha apenas um braço e uma perna.
É fácil amar quem é agradável aos nossos olhos, seja pela beleza ou pelo carisma. Mas, tendemos a nos afastar daqueles que pensam diferente ou nos irritam ou nos causam desconforto. Preferimos evitar as pessoas que julgamos diferentes de nós – aquelas que não se encaixam em nossos padrões de saúde, beleza, inteligência, princípios e valores.
Felizmente, existe alguém que não nos trata dessa forma. Alguém que nos ama de maneira incondicional, sem fazer distinções, e nos acolhe com um amor genuíno, unindo-nos em uma única família.
……………
O que é o outro para você?
Qual o preço que você está disposto a pagar para ajudá-lo?
Entre um parente seu, que é culpado, e um estranho, que é inocente, quem você defenderia?
……………
O que a Arca de Noé tem em comum com o sacrifício de Jesus, na Cruz?
Ambos simbolizam a salvação e o resgate da humanidade. Na narrativa do dilúvio, a Arca de Noé foi o meio pelo qual Deus preservou a vida em meio à destruição, oferecendo um novo começo para o mundo. Da mesma forma, o sacrifício de Jesus na Cruz é visto como o caminho para a redenção espiritual, salvando as pessoas do pecado e restaurando a relação com Deus. Em resumo, enquanto a arca proporcionou segurança física em um tempo de juízo, a cruz oferece salvação espiritual, renovação e livramento do Juízo Final. “Jesus é a Arca da nossa Salvação!”
1. Em Adão e Noé somos todos a família humana!
“Os filhos de Noé, que saíram da arca, foram Sem, Cam e Jafé; Cam é o pai de Ca-naã. São eles os três filhos de Noé; e deles se povoou toda a terra.” (Gn 9.18-19)
CRIAÇÃO ➤ ARCA ➤ NOVA CRIAÇÃO (HUMANA)
Devemos sempre nos lembrar de que não caminhamos sozinhos neste mundo. Cada pessoa que cruza nosso caminho faz parte de algo maior: nossa família humana. Independentemente das diferenças, todos compartilhamos a mesma essência, e, como membros dessa grande família, somos chamados a cuidar uns dos outros.
2. Em Jesus Cristo os salvos são a família de Deus!
“Portanto, qualquer que fizer a vontade de Deus, esse é meu irmão, irmã e mãe.” (Mc 3.35) “Assim, já não sois estrangeiros e peregrinos, mas concidadãos dos santos, e sois da família de Deus,” (Ef 2.19)
NOVA CRIAÇÃO (HUMANA) ➤ JESUS ➤ NOVA CRIAÇÃO (ESPIRITUAL)
A igreja reúne e acolhe a nova criação espiritual.
Para aqueles que seguem uma fé, há um sentido ainda mais profundo de comunidade. Nossa família da fé transcende barreiras culturais, sociais e pessoais, unindo-nos por um propósito comum e por um amor que vai além das aparências ou circunstâncias. Somos parte de um corpo maior, onde o bem-estar de cada membro influencia o todo.
3. O que a Bíblia nos ensina a esse respeito
A Bíblia aborda de forma profunda e repetida a importância de cuidarmos uns dos outros, enfatizando que todos nós fazemos parte de uma grande família, tanto humana quanto da fé. Alguns dos principais ensinamentos bíblicos a respeito do amor ao próximo e da nossa responsabilidade de cuidar uns dos outros incluem:
a) Amor ao Próximo Jesus ensinou que o amor ao próximo é o segundo maior mandamento, logo após o amor a Deus. Em Mateus 22.37-39, ele diz: “Respondeu-lhe Jesus: Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento. O segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo.” Este texto bíblico deixa claro que o amor ao próximo é essencial, e que todos nós, como parte da criação de Deus, devemos nos tratar com respeito, cuidado e compaixão.
b) Em Cristo, somos parte de uma só família Em Gálatas 3.28, Paulo fala sobre a unidade que existe em Cristo, onde todas as barreiras são eliminadas: “Dessarte, não pode haver judeu nem grego; nem escravo nem liberto; nem homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus.” Isso mostra que, em Cristo, fazemos parte de uma única família da fé, e essas distinções sociais, culturais ou de status perdem a importância. O que prevalece é nossa unidade espiritual.
c) Cuidar do outro é cuidar de Cristo Jesus destaca que ao cuidar dos necessitados, estamos cuidando do próprio Cristo. Em Mateus 25.40, ele diz: “O Rei, respondendo, lhes dirá: Em verdade vos afirmo que, sempre que o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes.” Isso nos lembra de que toda vez que ajudamos alguém em necessidade, estamos demonstrando amor ao próprio Cristo, reforçando a importância de cuidar do próximo como um ato de fé.
d) Jesus é a nossa referência de amor ao próximo Em João 13.34-35, Jesus oferece um novo mandamento, orientando que amemos como ele nos amou: “Novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros; assim como eu vos amei, que também vos ameis uns aos outros.” Aqui, Jesus eleva o amor ao próximo a um nível mais alto: amar como ele amou, de maneira incondicional, sacrificial e transformadora.
e) A responsabilidade de ajudar uns aos outros Paulo também nos instrui a carregar os fardos uns dos outros. Em Gálatas 6.2, ele afirma: “Levai as cargas uns dos outros e, assim, cumprireis a lei de Cristo.” Isso nos ensina que ajudar os outros, especialmente em suas dificuldades, é uma expressão prática da nossa fé e obediência aos ensinamentos de Jesus.
f) Somos feitos para viver em comunidade Em 1Coríntios 12.26, Paulo descreve como os cristãos são parte de um corpo espiritual: “De maneira que, se um membro sofre, todos sofrem com ele; e, se um deles é honrado, com ele todos se regozijam.” Isso destaca nossa interdependência como uma comunidade de fé, mostrando que devemos cuidar uns dos outros, pois estamos espiritualmente conectados.
Conclusão
Portanto, o outro não é alguém tão distante de nós assim. No mínimo é alguém da nossa família humana; porém, pode ser alguém ainda mais próximo de nós, alguém da família da fé. E, é o amor incondicional de Cristo, derramado em nossos corações, que nos faz olhar para o outro com mais atenção e empatia.
Importar-se com o outro é reconhecer que, ao estender a mão, não ajudamos apenas um estranho, mas um irmão ou irmã. Nossa empatia e cuidado refletem o amor que recebemos. Afinal, a verdadeira força de uma família — seja ela humana ou espiritual — está na capacidade de acolher, apoiar e caminhar juntos, especialmente nos momentos de dificuldade.
Seja no dia a dia ou em situações extraordinárias, o gesto de nos importarmos com o próximo é um reflexo de quem somos: pessoas ligadas por laços que vão além do sangue ou das crenças, unidas pelo simples fato de compartilharmos a mesma jornada.
……………………
“Servi uns aos outros, cada um conforme o dom que recebeu, como bons despenseiros da multiforme graça de Deus.” (1Pe 4.10)
“Ora, o mundo passa, bem como a sua concupiscência; aquele, porém, que faz a vontade de Deus permanece eternamente.” (1Jo 2.17)
……………………
Apêndice:
COMPARAÇÃO – ARCA x CRUZ
Aspecto
Arca de Noé
Cruz de Cristo
Contexto Histórico
Provisão de Deus para salvar (Gênesis 6 a 9) Evento do Dilúvio, onde Noé, por ordem divina, construiu a arca para preservar a vida.
Provisão de Deus para salvar (1Pe 3.18-22) Evento da crucificação de Jesus, central no Novo Testamento, onde seu sacrifício abriu o caminho para a redenção da vida.
Propósito Principal
Refúgio do julgamento divino (Gênesis 6.11-22) Preservar Noé, sua família e os animais do juízo de Deus sobre uma humanidade corrompida.
Refúgio do julgamento divino (João 3.16-18) Prover salvação e perdão dos pecados, possibilitando a reconciliação da humanidade caída, com Deus.
Significado Simbólico
Representa a salvação, a obediência e o recomeço após o juízo; prenúncio da restauração da criação.
Simboliza o amor sacrificial, a vitória sobre o pecado e a esperança da vida eterna através do sacrifício expiatório de Cristo.
Relação com a Aliança
Marca o início de uma nova aliança entre Deus e a humanidade, selada pelo sinal do arco-íris.
Institui a Nova Aliança, fundamentada no sangue derramado de Cristo, garantindo a promessa da salvação eterna, simbolizada na celebração da Ceia do Senhor (pão e vinho).
Natureza do Objeto
Estrutura física construída com madeira, simbolizando a proteção divina e a obediência a Deus. – Somente uma porta (Gênesis 6.16) (Único meio de entrada e saída) – Somente uma janela (Gênesis 6.16) (Fonte de Luz e Vida)
Estrutura simples de madeira, que se transforma no instrumento pelo qual o amor e a justiça de Deus se revelam.
– Somente uma porta (João 10.9; 14.6) (Único meio de entrada e saída)
– Somente uma janela (João 8.22) (Fonte de Luz e Vida)
Pessoas Envolvidas
Deus convidou o homem para entrar (Gênesis 7.1) Apenas Noé e sua família – escolhidos por sua obediência e retidão em meio à corrupção mundial.
Deus convidou o homem para entrar (Mateus 11.28-30) Todos os que creem em Jesus, os “eleitos segundo a presciência de Deus Pai” (1Pe 1.2), independentemente de sua condição anterior, alcançados pela graça e pela fé.
Fé e Obediência
Noé foi salvo por sua fé e obediência; entrou na arca conforme a ordem divina, confiando na palavra de Deus.
Os alcançados pela cruz são salvos pela fé em Cristo, respondendo à graça de Deus.
Vontade de Deus
A escolha de Noé e sua família foi um ato da vontade soberana de Deus, preservando os justos do juízo.
A cruz reflete o cumprimento da vontade de Deus em oferecer redenção e transformar vidas por meio do sacrifício vicário de Cristo.
Aplicação Teológica
Pré-figuração do livramento divino e do recomeço, evidenciando a importância da retidão e da fidelidade.
Cumpre a promessa de salvação e reconciliação, demonstrando que a graça de Deus é acessível a todos os crentes.