A misericórdia de Deus (Sl 103.1-5)

Introdução

Em se tratando de “misericórdia” há, pelo menos, dois aspectos, opostos entre si, a se considerar.

O primeiro, tem o sentido de poupar, refrear uma ação contra o ofensor, de alguma forma esperada e merecida. No texto, “As misericórdias do SENHOR são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim;” (Lm 3.22 – onde aparece חֲסָדָיו, forma plural de ḥésed), fica evidente essa ideia. Neste sentido, vale lembrar que, no que se refere a Deus, misericórdia é Deus não nos dar (reter) o castigo que merecemos, enquanto graça, é “favor imerecido”, é Deus nos dar o que não merecemos – “porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor.” (Rm 6.23).

“A teologia cristã não considera a misericórdia divina como incompatível com os seus justos julgamentos, mas considera ambas as coisas como expressões vivas de seu amor, conforme o mesmo é revelado em Cristo, cuja morte expiatória reconcilia as exigências da justiça divina com as misericórdias divinas”.

“Encontraram-se a graça e a verdade, a justiça e a paz se beijaram.” (Sl 85.10)

O segundo aspecto tem o sentido de “ter piedade”, “ter compaixão”. Não é apenas um sentimento; envolve ação concreta, fidelidade e compromisso. Está profundamente ligada ao caráter de Deus: Seu amor que não falha, mesmo quando o povo falha. Neste estudo, vamos focalizar este segundo aspecto da misericórdia.

No grego o substantivo é ελεος (eleos)  – misericórdia. Para o adjetivo plural “misericordiosos” é  ελεημονες (elehmonev). Qualifica quem é compassivo, misericordioso, tem compaixão – isto é, aquele que não apenas sente piedade, mas age para aliviar o sofrimento alheio. Portanto, a misericórdia não se resume a um sentimento interno, mas a ações concretas de ajuda, perdão, socorro.

1. Termos próximos

A misericórdia é um dos atributos do caráter divino: ela expressa o cuidado compassivo de Deus para com a humanidade caída. No entanto, na diversidade de palavras usadas pelas Escrituras, encontramos termos próximos, mas com nuances próprias (diferenças sutis): misericórdia, compaixão, compadecer (compadecimento), bondade e benignidade. Compreender essas diferenças nos ajuda a mergulhar mais profundamente no ensino bíblico e a viver a experiência prática dessas virtudes.

Em resumo:

Misericórdia
Etimologia:
miser “infeliz, pobre, miserável” (derivado de mi(s) – “sofrimento” + –ser “ser”).
cor, cordis “coração”.
– sufixo -ia para formar substantivos abstratos.
Sentido original:
“Sentimento que vem do coração pelos miseráveis”, isto é, piedade profunda que leva alguém a ajudar o sofredor.
Ênfase no ato de aliviar o infortúnio (“doar do próprio coração”).

Amor ativo que envolve ação concreta, lealdade e compromisso. Não apenas sentir piedade, mas efetuar o bem que restaura e perdoa (Sl 57.1).

Compaixão
Etimologia:
– prefixo com  “junto, juntamente”.
passio, passionis “sofrimento” (de pati, “sofrer”).
Sentido original:
“Sofrer junto”, partilhar a dor do outro; daí “sentir piedade” ou “solidariedade com o sofrimento alheio”.
Ênfase em “sofrer junto”, solidariedade emocional.

É a identificação profunda com o sofrimento do outro – sofrer junto –, gerando impulso para acudir (Mc 1.41; Mt 14.14).

Compadecer (subst. compadecimento)
Etimologia:
– com- “junto, juntamente”
– pati, “sofrer” (da mesma raíz de passio, “sofrimento”)
Sentido original:
“Sofrer com”, literalmente “colocar-se junto ao que sofre”; no uso corrente, “ter piedade de alguém” ou “emocionar se com a miséria alheia”.
Ação do sujeito que demonstra compaixão (“ter piedade, comover-se”).

Verbo que reflete a ideia de “sofrer com” ou “ter piedade de”; ato de comover-se diante da dor alheia e aproximar-se para acolher (Jo 11.33, 35; Lc 7.13).

Bondade
Etimologia:
“bon-”, vem de bonus, -a, -um, que em latim significa “bom”.
“-dade”, sufixo correspondente ao latim -tās, -tātis, que forma substantivos abstratos indicando “qualidade” ou “estado de ser”.
Sentido original:
É literalmente “a qualidade de ser bom” — em sentido moral, a disposição de fazer o bem.
Ênfase na prática do bem, indiscriminadamente.

Qualidade de ser “bom” em essência e ação; generosidade universal de Deus, provendo para todos, sem discriminação (Sl 145.9; Mt 5.45).

Benignidade
A palavra benignidade em português vem, por via direta, do latim benignitās que é composta de duas partes.
Etimologia:
1ª) Benignus
– Advém da junção de bene (“bem”) + forma derivada de gignĕre (“gerar, produzir”).
2ª) -itās / -idade
– Sufixo substantivador do latim -itās, que em português se tornou -idade, indicando “qualidade” ou “estado de ser”.
Sentido original:
“Aquele que gera bem”, isto é, “amável, favorável, bondoso”.
É a gentileza, o trato dócil e atencioso para com o outro.

É a disposição mansa e gentil do coração, no trato com o outro, a “amabilidade” que precede, inspira e prepara o caminho para ações de bondade (Gl 5.22; Ef 4.32).

2. Expressões da misericórdia de Deus (Sl 103.1-5)

1 Bendize, ó minha alma, ao SENHOR, e tudo o que há em mim bendiga ao seu santo nome.
2 Bendize, ó minha alma, ao SENHOR, e não te esqueças de nem um só de seus benefícios.

O Salmo 103 é um significativo hino de louvor a Deus de autoria atribuída ao rei Davi. Inicia com uma chamada ao coração, à memória e a todo o ser do seu autor, para a exaltação ao nome do Senhor, e por todos os seus benefícios (vv.1-2). Lembra e explicita os benefícios divinos (vv.3-5). Declara a justiça e a misericórdia do Senhor para com os oprimidos e pecadores (vv.6-12). Expressa o cuidado paternal de Deus e a efemeridade da vida humana (vv.13-18). Termina com uma convocação geral ao louvor e exaltação ao soberano rei dos céus e da terra (vv.19-22).

2.1 O perdão dos pecados (v.3a)      

3a Ele é quem perdoa todas as tuas iniquidades;

Davi tinha plena consciência da fragilidade humana, dos seus pecados, da necessidade de arrependimento e confissão (Sl 51). O pecado interrompe a comunhão com Deus e definha o corpo (Sl 32.3). Somente Deus tem autoridade para perdoar pecados e, Jesus, manifesta sua divindade declarando ter essa autoridade (Mt 9.6).

Desde a queda de Adão e Eva Deus deixou claro a necessidade da expiação de pecados através do sacrifício substitutivo de animais. Entretanto, somente em Cristo, o que era paliativo e repetitivo, deu lugar a uma obra de redenção única, definitiva e eficaz (Hb 10.1-18). Assim, nenhuma acusação ou condenação pesa sobre nós (Rm 8.1).

2.2 A cura de enfermidades (v.3b)   

3b quem sara todas as tuas enfermidades;

Nosso corpo é frágil e sujeito a enfermidades, independentemente de sermos justos ou injustos diante de Deus. Felizmente, a misericórdia de Deus nos alcança provendo alívio e cura, quer pelos meios ordinários da medicina (Mt 9.12), quer pelo meio extraordinário decorrente da manifestação do poder de Deus (Mt 10.1). Deus tem o poder de curar qualquer tipo de enfermidade, do corpo e da alma. Entretanto, ele somente o fará segundo a sua soberana vontade.

2.3 A redenção e o coroamento (v.4)

4 quem da cova redime a tua vida e te coroa de graça e misericórdia;

O salmista, guerreiro e rei Davi, ainda não tinha a consciência da redenção em Cristo, que estava por vir. Assim, poderia ele estar se referindo à restauração da saúde física, ou ao livramento no campo de batalha, ambos acontecendo como resultado da intervenção divina. Entretanto, tal declaração nos remete à obra redentora do Calvário – “Ele vos deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados,” (Ef 2.1). Da mesma forma, isso não acontece como resultado dos nossos esforços ou obras, mas é pela graça, pela intervenção direta de Deus.

A expressão “e te coroa” parece ser uma metáfora referindo-se ao costume antigo de uso de coroas e grinaldas em ocasiões especiais.

Por exemplo:

(i)Líderes e guerreiros bem-sucedidos eram coroados com grinaldas de ramos (folhas ou galhos entrelaçados) como emblema de triunfo.

(ii) Símbolo de honra e bênção profética – a sabedoria é comparada a “coroas” ou “grinaldas” que adornam o justo (Pv 4.9; ver tb Is 61.3).

(iii)Além desses, em cerimônias festivas (banquetes e rituais agrícolas) era comum adornar mesas, altares e até pessoas com guirlandas de flores e folhas – gesto de alegria, gratidão ou pedido de provisão. Desse modo, coroas e grinaldas iam muito além da realeza, e da consagração (sacerdotal); caracterizavam vitória (militar) e bênção (ética e litúrgica) na vida de Israel.  

2.4 O provimento e a revitalização (v.5)     

5 quem farta de bens a tua velhice, de sorte que a tua mocidade se renova como a da águia.

Quando o salmista fala em “bens” (h­b. טוֹבִים, tôvîm), não fica evidente a que tipo de bens ele está se referindo. Em certa ocasião, Davi apresenta seu testemunho quanto à bênção do justo: “Fui moço e já, agora, sou velho, porém jamais vi o justo desamparado, nem a sua descendência a mendigar o pão.” (Sl 37.25). Entretanto, entendemos que o melhor que Deus tem para nós não é a prosperidade material. Assim, é provável que ele esteja se referindo aqui a todo o conjunto de benefícios que Deus já lhe concedera e listados nos versículos anteriores. Esses “bens” não são meramente coisas materiais, mas sobretudo bênçãos espirituais e restauradoras.

Então, tais bens seriam:

Perdão dos pecados (v.3a)
– O primeiro “bem” é a remissão de toda culpa. A alma que tinha sido oprimida pelo peso do pecado agora tem liberdade e alívio.

Cura das enfermidades (v.3b)
– Em seguida, a restauração física. Deus não apenas perdoa, mas também sar­a as feridas que o pecado trouxe ao corpo e ao espírito.

Redenção e coroamento (v.4)
– “Da cova (morte) redime a tua vida” aponta o resgate do perigo extremo e a libertação do que aprisionava a vida do salmista.
– “E te coroa de graça e de misericórdia” descreve o selo de honra e o favor contínuo do Senhor, que vem de seu caráter fiel à aliança.

Provimento e revitalização (v.5)
– Somados, esses benefícios constituem o “banquete” espiritual com que Deus “sacia” a alma do crente. É esse transbordar de perdão, saúde, redenção e amor que renova interiormente o adorador, fazendo sua “juventude”– a vitalidade, a esperança, o vigor – ressurgir como a renovação periódica das penas da águia, garantindo que as asas mantenham a capacidade de voar alto e com agilidade.

Aplicação prática:

  • Reconheça: relembre quais “bens” Deus já lhe concedeu (perdão, cura, livramento, bens) e deixe que eles te sustentem em esperança.
  • Descanse: permita que a experiência de ser “saciado” por Deus revigore seu ânimo e renove sua fé.
  • Siga em justiça: estando fortalecido por esses “bens”, avance pelas “veredas da justiça” (Sl 23.3b), vivendo coerentemente com o Deus que tanto te favorece.

Que, na velhice, possamos corresponder ao expresso pelo salmista: “Na velhice darão ainda frutos, serão cheios de seiva e de verdor, para anunciar que o SENHOR é reto. Ele é a minha rocha, e nele não há injustiça.” (Sl 92.14-15)

Conclusão

“Porque o SENHOR é bom, a sua misericórdia dura para sempre, e, de geração em geração, a sua fidelidade.” (Sl 100.5)

Nosso Deus é um Deus misericordioso e dá provas de misericórdia continuamente; os cidadãos do seu reino também devem demonstrar misericórdia. Jesus praticou e ilustrou a misericórdia. Ele curou enfermos, ressuscitou mortos, alimentou os famintos, acolheu os rejeitados pela sociedade. Ele ilustrou a misericórdia na parábola do bom samaritano, onde um desconhecido socorreu um viajante que ia de Jerusalém para Jericó, sendo assaltado e ferido, enquanto os religiosos passaram de largo (Lc 10.10-35).

Que assim, Deus nos ajude!

Bibliografia

1. Bíblia Sagrada (SBB – Versão Revista e Atualizada).
2. Bíblia Online (SBB).
3. Willem A. VanGemeren, Ph. D. – Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do Antigo Testamento (vol.2) (Ed. Cultura Cristã – 2011).
4. R. N. Champlin, Ph. D. – O Antigo Testamento Interpretado – Versículo por versículo (Ed. Hagnos – 2001).
5. Internet / ChatGPT / IA.


Renovação das penas da águia:

Autor: Paulo Raposo Correia

Um servo de Deus empenhado em fazer a sua vontade.

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