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Archive for outubro \23\America/Sao_Paulo 2017

A Excelência da União Fraternal (Salmo 133)

1  Oh! Como é bom e agradável viverem unidos os irmãos!
2  É como o óleo precioso sobre a cabeça, o qual desce para a barba, a barba de Arão, e desce para a gola de suas vestes.
3  É como o orvalho do Hermom, que desce sobre os montes de Sião. Ali, ordena o SENHOR a sua bênção e a vida para sempre. (Sl 133.1-3)

Como é constituído o Salmo 133?

A resposta é simples: por três números [1] [3] [3]

Se você achou a resposta simples demais, vamos aprofundar nossa análise. Este salmo contém:

  • [1] Um assunto relevante: união fraternal ou comunhão fraternal.
  • [3]Três versículos com: Uma declaração entusiástica (ou uma exclamação contagiante) – “Oh! Como é bom e agradável…” e Duas comparações aparentemente estranhas – “É como o óleo precioso…” “É como o orvalho….”.
  • [3] Três ensinos preciosos que envolvem três pessoas importantes: DEUS, VOCÊ e O OUTRO.

 

1º) União Fraternal ou Comunhão Fraternal (VOCÊ e O OUTRO).

“Oh! Como é bom e agradável viverem unidos os irmãos!” (v.1)

O salmista Davi declara aqui a excelência da união fraternal. A que irmãos ele estaria se referindo?

Ainda que todos sejamos descendentes de Adão e, mais especificamente, descendentes dos três filhos de  Noé (Gn 9.18-19), é provável que não seja a estes irmãos humanos que Davi se referia. O que não quer dizer que essa declaração não se aplique a essa categoria de irmãos. Talvez ele estivesse se referindo àqueles irmãos que vivem mais próximos, os irmãos compatriotas, especificamente o seu povo, os judeus, ou, quem sabe, os irmãos de uma mesma família. Davi viveu um verdadeiro caos no relacionamento entres seus filhos: Amnom violou sua meia irmã Tamar, irmã de Absalão e este mandou matá-lo, por vingança. Adonias disputava o trono de Davi com Salomão e este o mandou executar assim que começou a reinar.

Além e acima dessas três categorias mais consagradas de irmãos, esta declaração se aplica a um grupo especial e distinto de irmãos, a Igreja de Cristo. Esta reúne irmãos dessas três categorias e cria laços muito mais fortes e duradouros, porquanto, eternos: “Assim, já não sois estrangeiros e peregrinos, mas concidadãos dos santos, e sois da família de Deus,” (Ef 2.19). “Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz;” (1Pe 2.9). “Eles não são do mundo, como também eu não sou.” (Jo 17.16).  Às vezes nos envolvemos de tal maneira com as coisas deste mundo que não nos damos conta da nossa verdadeira identidade celestial.

O que é União ou Comunhão Fraternal?

  • É mais do que proximidade física! Podemos partilhar muitos espaços com outras pessoas, lado a lado, em nossa vivência diária e, também, nos cultos e demais programações da igreja, e, ainda assim, isso não assegura que temos comunhão com elas. Porém, estarmos juntos, na adoração e no serviço, pode ser um bom indicativo dessa comunhão: “Todos os que creram estavam juntos e tinham tudo em comum. Diariamente perseveravam unânimes no templo, partiam pão de casa em casa e tomavam as suas refeições com alegria e singeleza de coração,” (At 2.44, 46)
  • É mais do que o compartilhamento de uma mesma identidade religiosa! “- Sou cristão” ou “ – Sou presbiteriano”. O nome faz a pessoa ou a pessoa é que faz o nome?
  • É mais do que a participação comum em “práticas religiosas”! Orar, ler a bíblia, ir à igreja, cantar hinos, dar o dízimo, etc. são práticas que por si só também não asseguram que haja essa verdadeira comunhão; porém os que vivem em comunhão participam dessas práticas.
  • É mais do que uma uniformidade estereotipada imposta! Houve um tempo em que você olhava para a forma de se trajar de determinadas pessoas e podia identificar a que grupo de evangélicos elas pertenciam. Essas pessoas podiam até ter uma certa uniformidade visual, porém, também não é por causa disso que estaria assegurada a comunhão entre elas.
  • É, sim, interação íntima e visceral contínua no corpo de Cristo! “Mas, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo, de quem todo o corpo, bem ajustado e consolidado pelo auxílio de toda junta, segundo a justa cooperação de cada parte, efetua o seu próprio aumento para a edificação de si mesmo em amor.” (Ef 4.15-16)

Mas, a união fraternal é apenas algo “bom e agradável” ou vai além?

  • É essencial para a preservação da igreja: “Se vós, porém, vos mordeis e devorais uns aos outros, vede que não sejais mutuamente destruídos.” (Gl 5.15)
  • É um testemunho ao mundo sobre Jesus: “a fim de que todos sejam um; e como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti, também sejam eles em nós; para que o mundo creia que tu me enviaste.” (Jo 17.21)

Viver em comunidade é viver “com + unidade”, “como + um”. Comum é o que pertence simultaneamente a mais do que um. Assim é a fé que professamos – a fé comum (Tt 1.4).

Não é fácil e nem tentaremos interpretar o que exatamente estava no coração de Davi quando ele expressou as metáforas dos versículos 2 e 3 do Salmo 133.  Entretanto, aproveitando as ideias por ele apresentadas e à luz do contexto atual de Igreja de Cristo, podemos ser grandemente abençoados com os seguintes ensinos:

 

2) Unção Espiritual (Deus em Nós).

“É como o óleo precioso sobre a cabeça, o qual desce para a barba, a barba de Arão, e desce para a gola de suas vestes.” (v.2)

O óleo aqui mencionado não é um óleo qualquer, um composto aromático comum. Trata-se do óleo sagrado da unção (Ex 30.25), composto com exclusividade para ungir o Tabernáculo e sua mobília, e para ungir os Sacerdotes. Qualquer fabricação independente ou qualquer aplicação diferente da prescrita na lei seria punida com a morte. Por que? Porque esse óleo é tipo do Espírito Santo – único e exclusivo. Conta-se que um cientista produziu uma semente de feijão exatamente igual a uma verdadeira e desafiou certo homem a descobrir qual a verdadeira e qual a falsa. O homem desafiado disse: “- Dá-me as duas sementes e depois de três dias te direi.” Passados os três dias o homem voltou com as sementes e respondeu ao cientista: “- A verdadeira é a que tem vida, veja como está brotando.” Ele havia plantado ambas as sementes; porém, apenas uma brotou. A verdadeira Igreja de Cristo é comparada a um corpo vivo, a um organismo; a falsa é apenas uma organização. No corpo vivo os membros estão intrinsecamente ligados e sob o comando da cabeça desenvolvem suas funções específicas.

Observem que a analogia não se restringe ao óleo, porém, ao óleo aplicado, ou seja, à unção sobre a cabeça de Arão.

  • A igreja foi instituída por Deus e subsiste pela ação e poder do Espírito de Deus; invisível, porém, real e essencial. “E, havendo dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo” (Jo 20.22).
  • É o Espírito Santo de Deus que nos regenera e nos possibilita uma autêntica comunhão com o corpo de Cristo – a Igreja.
  • Sem o poder de Deus nada somos e nada podemos fazer. “Eu sou a videira, vós, os ramos. Quem permanece em mim, e eu, nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer.” (Jo 15.5).

Não há esforço humano capaz produzir a verdadeira união entre os membros do corpo; só o Espírito de Deus é capaz disso.

 

3) Convergência na Palavra (Nós em Deus).

“É como o orvalho do Hermom, que desce sobre os montes de Sião. Ali, ordena o SENHOR a sua bênção e a vida para sempre.” (v.3)

A outra comparação é com o orvalho do monte Hermom[1]. O Hermom era, e é, uma preciosidade incalculável para os judeus. O Hermon está para Israel assim como a água está para a vida. Esse majestoso monte, localizado no extremo Norte de Israel, perto de Cesaréia de Filipe, tem quase três mil metros de altitude. Quando a seca assola as outras regiões de Israel e países vizinhos, no Hermon faz frio e nos seus picos predomina a neve o ano todo. O calor do dia derrete grande parte desse gelo, transformando-o em água líquida que escorre pelas superfícies ou pelas entranhas do famoso monte e vai formar as nascentes do rio Jordão. “Quando as três vertentes se encontram, a 14km ao norte do lago de Hula, ou Hulé, ou Merom, o Jordão está a 150m acima do nível do mar (Mediterrêneo)”. Passando pelo lago do Merom, que está a 68m, o rio continua descendo vertiginosamente por um vale estreito e acidentado, entrando ruidosamente no Mar ou Lago da Galiléia, a 212m abaixo do Mar Mediterrâneo. O Lago da Galiléia tem cerca de 27km no sentido Norte-Sul. O Jordão entra nele pelo norte e sai dele pelo sul em direção ao Mar Morto.  Do sul do Lago da Galiléia até ao Mar Morto são cerca de 117km em linha reta, mas o seu curso é sinuoso e acidentado, por 351km percorridos sempre abaixo do nível do Mar. Tem mais de 100 corredeiras, que tornam suas águas barrentas e suas margens perigosas, terminando no Mar Morto, a 400m negativos.

O monte Hermom é, portanto, o grande responsável pela fertilidade das terras na sua base e por toda a extensão do rio Jordão, que dele nasce. Era uma montanha sagrada para muitos povos pagãos da antiguidade.  Ali eles cultuavam e festejavam seus deuses. Construíam templos no sopé do monte. O deus principal do Hermom foi Baal, daí o nome de Baal-Hermom (Jz 3.3 e 1Cr 5.23).

Já o povo de Israel o salmodiava, com alegria: “O Norte e o Sul, tu os criaste; o Tabor e o Hermom exultam em teu nome”. (Sl 89.12) ou, com saudade, quando exilados: “Sinto abatida dentro de mim a minha alma; lembro-me, portanto, de ti, nas terras do Jordão, e no monte Hermom, e no outeiro de Mizar.”(Sl 42.6). Foi, provavelmente, em algum ponto da subida deste monte alto que se deu a transfiguração de Jesus (Mt 17.1-13). Num lugar de tanta idolatria, aprouve a Deus distinguir o Senhor Jesus como único e verdadeiro Deus, acima de qualquer deus humano ou grandes vultos do AT como Moisés e Elias: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo; a ele ouvi.

Neste Salmo 133.2 o orvalho sobre o Hermon é comparado à excelência da união fraternal. O que esse orvalho tem a ver com comunhão?

O gotejar miúdo e constante da “água do céu” é o fator determinante da continuidade da vida; pela água que forma o rio (Jordão) e pelo rio que fertiliza o solo ao longo de todo o seu percurso. Se o óleo da comparação anterior era uma figura do Espírito Santo; a água é uma figura da Palavra de Deus. Jesus é o verbo de Deus, a palavra que se fez carne. A Bíblia é palavra que se fez livro. E é através da Palavra e do Espírito que somos regenerados e nos tornamos membros do corpo de Cristo, a Igreja. A Palavra regenera “pois fostes regenerados não de semente corruptível, mas de incorruptível, mediante a palavra de Deus, a qual vive e é permanente”. (1Pe 1.23) e purifica“… como também Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela, para que a santificasse, tendo-a purificado por meio da lavagem de água pela palavra, para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, porém santa e sem defeito.” (Ef 5.25-27).

E é essa mesma Palavra que nos conduz à comunhão: “completai a minha alegria, de modo que penseis a mesma coisa, tenhais o mesmo amor, sejais unidos de alma, tendo o mesmo sentimento.” (Fp 2.2). Será que o apóstolo Paulo estaria ensinando aqui que para desfrutarmos da verdadeira comunhão precisaremos pensar igual?  Certamente que não! O apelo aqui é pela convergência ou concórdia ou harmonia intelectual (de ideias e de ideais), sentimental e espiritual. “Rogo a Evódia e rogo a Síntique pensem concordemente, no Senhor.” (Fp 4.2), “para que concordemente e a uma voz glorifiqueis ao Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo.” (Rm 15.6)

Sobre a questão da convergência bíblica x comunhão, Richard Baxter apresenta uma fórmula simplificada: “Em assuntos fundamentais, unidade. Em assuntos secundários, liberdade. Em todas as coisas,  caridade  (ou amor)”.

Portanto, temos um grande desafio diante de nós no que se refere à comunhão – A CENTRALIDADE NA PALAVRA, NA BÍBLIA. Na era da informação em que vivemos é muito fácil um cristão, sem intimidade com a Bíblia, ser levado por ideias e conceitos chamados modernos, desprezando, assim, a Palavra de Deus como se esta fosse um escrito desatualizado e ultrapassado. É preocupante o crescente número de crentes que não leem ou não estudam a bíblia. É preocupante o número de crentes ACHANDO O QUE A BÍBLIA NÃO ACHA e NÃO ACHANDO O QUE A BÍBLIA ACHA E ENSINA! É preciso dar mais valor à sabedoria que vem do alto: “A sabedoria, porém, lá do alto é, primeiramente, pura; depois, pacífica, indulgente, tratável, plena de misericórdia e de bons frutos, imparcial, sem fingimento”.(Tg 3.17)

Conclusão:

Não podemos perder de vista que ambas as metáforas acima expostas passam a ideia de um processo continuado que se desenvolve no tempo .

Essas duas metáforas nos remetem aos seguintes textos de João:

“E três são os que testificam na terra: o Espírito, a água (Palavra) e o sangue (de Cristo no Calvário), e os três são unânimes num só propósito”. (1Jo 5.8)
“Se, porém, andarmos na luz, como ele está na luz, mantemos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado.” (1Jo 1.7)

O salmista termina dizendo:

“Ali, ordena o SENHOR a sua bênção e a vida para sempre.”

E nós, finalizamos também dizendo:

Onde há Unção Espiritual (Deus em Nós) e Convergência na Palavra (Nós em Deus), há COMUNHÃO, AMOR e SOLIDARIEDADE. Ali, neste lugar e situação, “ordena o SENHOR a sua bênção e a vida para sempre”.

Soli Deo Gloria!

………………………………………..

1] Hermom: Majestoso monte localizado no extremo Norte de Israel, perto de Cesaréia de Filipe. Era chamado de SENIR pelos amorreus e de SIRIOM pelos sidônios. Em Dt 4.48 é chamado de SIOM. Seu nome parece ter o significado de “dedicar” ou “consagrar”.


Catedral Presbiteriana do Rio
29/07/2007 – Culto Devocional (8h)
Esboço da Mensagem pregada pelo Presbítero Paulo Raposo Correia

Caiu na Rede é…..Liberto!

O que a rede de pesca tem a ver com evangelismo? Simplesmente, tudo! Jesus chamou 12 discípulos, dentre os quais 4 foram identificados como pescadores e os desafiou a se tornarem “pescadores de homens” (Mt 4.19). Na pesca convencional, os peixes apanhados morrem. Na pesca evangelística, os que caem na rede passam da morte para a vida. É como diz o cântico: “É vida que nasce da morte. É vida que traz o perdão. É muito mais que uma religião. É Cristo vivendo em você.”

O que pretendo mesmo aqui é falar dessa pesca. Pode ser “no varejo”, peixe a peixe, com anzol; ou, “por atacado”, com rede de pesca. Não é preciso entender muito de pesca para saber que o pescador precisa atrair os peixes. No caso de uso da vara de pesca, deve ser usada a isca certa para o tipo de peixe que se deseja “fisgar”. Assim acontece no evangelismo individual. Cada caso é um caso. Você terá que conviver e conhecer a pessoa para só e então descobrir qual é a abordagem certa. No caso de uso da rede de pesca, você também terá que atrair o cardume. Assim acontece no evangelismo em massa. Na hora de atrair as pessoas para o evento evangelístico vale lembrar o que dizem os mais antigos: “cautela e canja de galinha, não fazem mal a ninguém”. Vamos colocar isso de outro jeito: “moderação e canja de galinha, não fazem mal a ninguém”. Por que não uma boa e criativa decoração e ambiência; som e imagem de qualidade; bom louvor. Aí fecha com a Palavra de Deus, pregada com unção e poder, e toca profundamente o coração do pecador; não importa se de muitos ou de poucos, Deus o sabe. Se alguém faz um evento evangelístico na força do homem, confiando apenas no audiovisual ou nas “atrações artísticas”, pode lançar a rede a noite inteira que só vai dar rede molhada. Porém, quando Jesus está nessa empreitada, quando nos santificamos, confiamos na ação do Espírito Santo, oramos intensamente e Jesus é obedecido: “lançai a rede à direita do barco” (Jo 21.6). Aí, sim, é rede cheia de almas!

Alguém dirá: mas, o templo é um espaço próprio para isso? Ora, se o templo não for lugar de louvor e evangelismo, para que servirá, então? O templo é apenas uma construção; não é nem mais, nem menos santo do que os seus frequentadores! Esses sim precisam ser santos, pois são o santuário de Deus (1Co 3.16). Havendo bom senso e moderação, qual é o problema?

O convívio e a sinergia da equipe de preparação é bênção pura! Chego a pensar que é quase tão importante quanto o próprio evento. Eventos evangelísticos promovidos por jovens (ou pelos mais velhos) são sempre pontuais; eles vêm e vão. O que realmente importa é ver jovens firmes na fé; nutridos na Palavra de Deus; gente de oração; testemunhando de Cristo com a vida, no seu cotidiano; participativos em todas as atividades da igreja, não apenas daquelas que eles mesmos promovem.

Nos meus saudosos tempos de jovem, subia comunidades juntamente com os mais velhos para evangelizar; distribuía folhetos de casa em casa. Como presidente de uma organização denominada CMC (jul/1983 a jul/1986) que reunia mocidades de mais de 20 igrejas, promovemos vários eventos. Em um deles, até com divulgação em rádio, em 21.04.1984, começou com “passeata evangelística” nas ruas de Teresópolis. Depois, reunimos mais de 8.000 pessoas no Ginásio Poliesportivo Pedro Jahara daquela cidade (Pedrão). Foi emocionante dirigir aquele evento, juntamente com a diretoria, que contou com a participação do Grupo Logos e a pregação do Evangelho pelo Dr. Jayro Gonçalves, um evangelista vocacionado por Deus, tendo ocorrido várias decisões por Cristo. Mesmo naquela época já existiam aqueles cantores e grupos de louvor, muito mais preocupados com sua performance artística e em arrancar aplausos do seu fã clube, do que em louvar a Deus. Assim, procurávamos usar de equilíbrio e moderação nesta escolha. Enfim, como é bom lançar a rede em nome de Jesus Cristo!

O experiente presbítero, João Silva, disse certa vez para o seu sobrinho Franz: “gostaria de ter a tua juventude e a minha experiência de vida.” Há algum tempo ambos se foram, o primeiro já idoso; o segundo, ainda muito jovem. Porém, aquela frase nunca foi esquecida. Hoje, bem mais maduro percebo o quanto ela é verdadeira. É como o apóstolo João registrou: “…Pais, eu vos escrevi, porque conheceis aquele que existe desde o princípio. Jovens, eu vos escrevi, porque sois fortes, e a palavra de Deus permanece em vós, e tendes vencido o Maligno.” (1Jo 2.14b e c). Sempre dei muito valor aos conselhos e à experiência dos mais velhos. Talvez, por isso, tenha errado muito menos do que poderia ter errado.

Adultos e jovens precisam caminhar juntos, procurando se entender e conviver pacificamente.

A liderança em 4 movimentos

“Então, disse Moisés ao SENHOR: O SENHOR, autor e conservador de toda vida, ponha um homem sobre esta congregação que saia adiante deles, e que entre adiante deles, e que os faça sair, e que os faça entrar, para que a congregação do SENHOR não seja como ovelhas que não têm pastor.” (Nm 27.15-17)

 

Você já ouviu aquela velha frase sobre manutenção? “Quando tudo vai bem, ninguém se lembra que ela existe. Quando vai mal, todos reclamam.” Tenho a impressão de que o mesmo se aplica às lideranças.

Na igreja, quando as lideranças são muito mais destacadas do que a coletividade, é bem provável que Deus esteja sendo usurpado da sua glória. Considerando a relevância do tema, vale a pena, pelo menos de vez em quando, resgatar a importância das lideranças nas relações e nas organizações humanas.

Liderança é, sem sombra de dúvida, um assunto relevante, interessante e inesgotável. Há uma quantidade enorme de livros e artigos no mundo sobre o tema. Na internet, há cerca de 2.500.000 (em 2006; em 2017 já são 25.700.000) ocorrências no Google, só em português, para esse verbete. Por que é relevante? Porque ela precisa estar presente em todos os agrupamentos humanos, desde a família menor, até a maior das organizações humanas globalizadas (ONU etc), passando por todas as instituições que aí estão postas neste mundo. Em algumas épocas e lugares ela foi e tem sido substituída pela dominação, que é o poder pela força das armas. Certamente esse nunca foi o projeto de Deus para os seres humanos. Homens e Mulheres foram criados por Deus para dominar sobre animais e coisas (Gn 1.28) e liderar pessoas, sendo que desde a queda coube ao homem liderar sua mulher (Gn 3.16).

O que vem a ser liderança? Uma conceituação interessante diz que:

Liderança é a arte ou habilidade, de influenciar um indivíduo[1] ou grupo, a fazer algo, entusiasticamente ou de boa vontade, em prol do bem comum.

O que é um grupo?

Um conjunto de pessoas sob a mesma liderança e com os mesmos ideais.

É interessante observar nesta definição que, liderança comum e ideais comuns são elementos indispensáveis na caracterização do grupo.

Quais são as funções básicas de um grupo?

A realização de objetivos específicos do grupo; a manutenção ou fortalecimento do próprio grupo.

A igreja[2] é um grupo com liderança e objetivos bem definidos!

Seu líder e cabeça, seu fundador e fundamento, é Jesus Cristo (Mt 16.18; Ef 2.19-22).

Seus membros, os regenerados desde o Pentecostes até o arrebatamento. No sentido local, os crentes professos e batizados em nome de Jesus Cristo.

Seus ideais comuns: Adoração, Comunhão, Evangelização, Educação Cristã e Ação Social.

O conceito de liderança segundo Moisés apresentado no texto, parece tão rudimentar quanto restrito a um comando militar. Ainda que não tenha sido explicitamente citado e aplicado à igreja pelos escritores do NT, sua essência pode ser percebida nas lideranças neotestamentárias, a começar por Jesus.

A fala de Moisés revela sua capacidade de síntese de algo extremamente complexo, como liderar um povo naquelas circunstâncias. Vejam o contexto:

O povo Israel havia passado por todas as fases porque passa um ser humano, da concepção até alcançar a idade adulta (Nm 11.12): FECUNDAÇÃO, GESTAÇÃO, TRABALHO DE PARTO, NASCIMENTO, CORTE DO CORDÃO UMBILICAL, FESTEJO, CHORO/AMAMENTAÇÃO, INSTRUÇÃO, DISCIPLINA ETC.

1º) Depois de 40 anos conduzindo o povo de Israel, do Egito para a terra de Canaã, Moisés os faz acampar do lado oriental do rio Jordão.

2º) Dos 603.550 homens com mais de 20 anos, segundo o censo de Números 1.46, apenas Josué e Calebe foram preservados. Os demais morreram no deserto como castigo pela incredulidade quando os 12 espias foram enviados para observar a terra (Nm 14.26-35; 26.64-65).

3º) Um novo censo é feito e contados agora 601.730 homens com mais de 20 anos, segundo registro de Números 26.51, o que equivale a um total entre 2 e 3 milhões de pessoas.

4º) Moisés, já com seus 120 anos (Dt 34.7), à entrada da terra de Canaã, sem seus irmãos Arão e Miriã, mortos durante a caminhada, recebe palavras duras da parte do Senhor, de que sua carreira se encerraria ali mesmo. Isto significava que outro tomaria o seu lugar a partir daquele ponto.

Consciente da importância de um líder e dos tremendos desafios que esse novo líder teria que enfrentar, a começar pela travessia do Jordão, depois derrotar todos os povos que ocupavam aquela terra, distribuir a terra conquistada e governar a nação; volta-se para o Senhor e descreve em linhas gerais o perfil desse novo líder.

Nessa conceituação de liderança em quatro movimentos formulada por Moisés, pode-se identificar as quatro principais bases de poder e autoridade que sustentam a liderança na igreja de nosso Senhor Jesus Cristo. Vejamos esses 4 movimentos:

 

1. PODER LEGÍTIMO (autêntico, genuíno, legal etc)

“que saia adiante deles”

Então, Moisés está dizendo que um líder é alguém que sai do meio do povo de Deus e se posiciona a frente desse povo? É quase isso. Precisamos apenas consertar o final da frase: ele não se posiciona, ele é posicionado por Deus. Se assim não for é quebrada a primeira base de sustentação da liderança. O movimento do banco da igreja para o púlpito não é tão simples assim! Não se dá porque eu quero, mas porque Deus quer! Não se dá apenas porque eu fiz um curso de teologia e fui ordenado. Não se dá por sucessão hereditária, vínculo de parentesco ou vínculo conjugal. Também não se dá porque o mercado de trabalho está difícil ou porque aquele ofício pode me levar a uma posição de destaque, de visibilidade etc.

Esse primeiro movimento tem a ver com indicação, chamada e vocação divinas, conforme expresso na resposta de Deus em Números 27.18-20, referindo-se a Josué:

“Toma Josué, filho de Num” – separação, identificação e reconhecimento (alguém específico);

“homem em que há o Espírito” – alguém habitado e dirigido pelo Espírito Santo;

“e impõe-lhe as mãos” – ato simbólico de consagrar alguém para um serviço especial;

“apresenta-o perante Eleazar, o sacerdote, e perante toda a congregação” – satisfação à lei (estrutura de governo espiritual) e ao povo;

“e dá-lhe, à vista deles, as tuas ordens” – transferência de responsabilidade;

“Põe sobre ele da tua autoridade…” – transferência de poder.

 

2. PODER DE ESPECIALISTA (de conhecimento)

“e que entre adiante deles”

Levantemo-nos e vão” é uma frase interessante que diz respeito a alguém que tem boa oratória, porém que não está disposto(a) a tomar a dianteira.

Carro estacionado não precisa de motorista”. Partindo dessa premissa será que é correto dizer que o Líder só tem razão de existir se há um movimento a ser feito e este a partir dele? Será que no mundo atual alguma organização ou organismo sobrevive se não se mover? Dizem por aí que “jacaré parado vira bolsa”.

Ir para onde? É simplesmente ir de uma situação atual para uma situação melhor. A resposta é óbvia, ainda que não seja facilmente assimilada, pois as pessoas tendem a se acomodar e não querer correr o risco de deixar a zona de conforto em que se encontram.

Para realizar esse movimento de entrar adiante é necessário ter algumas características que estavam presentes em Josué, tais como:

  • Sabedoria (divina e humana – juntas e misturadas ao ponto de não se saber quando acaba uma e começa a outra) (Dt 34.9 – “cheio do espírito de sabedoria”)
  • Conhecimento da lei (vontade) divina, para a cumprir (Js 1.7-8; 2Tm 2.15; 1Tm 3.6)
  • Percepção da situação atual e Visão do alvo a ser alcançado (Js 1.1-6 – por Deus)

Fé: “é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não vêem.” (Hb 11.1)

  • Experiência prática (adquirida como servidor de Moisés: Ex 17.9,10,14; Nm 33.11)

 

3. PODER DE MOBILIZAÇÃO (rompimento com a inércia)

“e que os faça sair”

Muitas são as vozes que emanam de dentro do grupo e do ambiente externo ao grupo, na tentativa de nos fazer mover do lugar onde estamos, ou para induzir-nos a fazer o que propõem. Está se desenvolvendo na sociedade globalizada em que vivemos, em proporções jamais vistas em qualquer outra época da história humana, uma batalha implacável pela conquista da minha e da sua mente, do meu e do seu bolso (dinheiro). Entre tantas vozes e apelos, Jesus, o Verbo que se fez carne, precisa ter proeminência em nossas vidas; a voz profética e bíblica dos líderes do seu rebanho precisa sobressair, com firmeza e serenidade, a todas as outras. Mais do que ouvir a voz de um líder é indispensável conferir na Bíblia o que está sendo dito, como os de Beréia faziam e, por isso foram considerados ouvintes mais nobres do que os de Tessalônica. (At 17.11). No mundo em que vivemos não há mais espaço para crente ingênuo (superficial e distraído), levado por qualquer vento de doutrina, do tipo que decidiu terceirizar o conhecimento bíblico e os serviços cristãos, com o seu pastor, seu professor de EBD etc. Não é isso que Jesus quis dizer com “ser simples como as pombas e prudentes como as serpentes”.

Há outras características em Josué que ajudam a fazer acontecer esse movimento:

  • Exemplo pessoal (Js 24.15). “As palavras convencem, os exemplos arrastam.” Nada mais triste do que pregar aquilo que não se crê e não se vive.
  • Coragem e Determinação / Amor e Sacrifício (Js 14.6-9): são dois binômios inerentes e inseparáveis do currículo de um verdadeiro líder (Josué: comandante militar, um diferencial entre os espias etc.

Walt, homem que cursara apenas até a sexta série, membro de uma pequena igreja num bairro hostil ao evangelho, na Filadélfia (USA), querendo se tornar professor da EBD e não encontrando espaço, foi “desafiado” a arranjar alunos para formar sua classe. Ele conseguiu reunir 13 garotos das ruas do bairro, sendo 9 deles filhos de pais separados. Passado algum tempo eles se tornaram adultos, sendo que 11 (85%) se engajaram no serviço cristão em tempo integral. “Para ser sincero, não seria capaz de citar muita coisa do que ele nos disse, mas dele próprio posso dizer muita coisa porque aquele homem me amou por amor a Cristo. Amou-me mais do que meus pais.” (Relato de HOWARD HENDRICKS, um desses garotos, que se tornou professor de Seminário e escritor evangélico, no livro: Ensinando para transformar vidas – Editora Betânia).

  • Confiabilidade e Honestidade. Quem realmente está disposto a seguir um líder em quem não confia?

 

4. PODER DE REALIZAÇÃO (satisfação, coesão)

“e que os faça entrar”

Há muitas lideranças aventureiras espalhadas por aí. Pretensos líderes especializados em fazer as pessoas saírem de onde estão para não chegarem a lugar algum. É gente que só sabe fazer fumaça. Eles se aproveitam da avidez das pessoas pela mudança, para experimentar o novo, na esperança de dar algum sentido à sua triste existência.

Josué deu provas de ser um líder realizador, porque:

1º) Agia de forma organizada, com ordem e disciplina (Js 3.1-6);

2º) Atuava como um habilidoso maestro (Js 6.7-21);

3º) Zelava pela união das 12 tribos e foi respeitado todos os seus dias (Js 4.14);

4º) Alcançava vitórias sobre os adversários (Js 12.7, 24 [31 reis derrotados]; Moisés [2 reis derrotados] – é interessante a alternância de estilo na liderança: Moisés, um legislador; Josué, um desbravador);

5º) Cumpriu sua missão: conduziu o povo a conquistar a terra da promessa e promoveu a distribuição do território e despojos conquistados. (Js 12.7, 24). Duas palavrinhas importantíssimas: CONQUISTAR e DISTRIBUIR!

Fazer as coisas acontecerem é marca registrada de um verdadeiro líder. Um reparador de brechas e restaurador de veredas (Is 58.12). Ele não existe para realizar tudo sozinho; o verdadeiro líder é aquele que FAZ FAZER. Dizem que PASTOR faz PASTOR e, OVELHA, faz OVELHA. Dá gosto ver as sociedades internas de uma igreja trabalhando, com todo empenho e criatividade, afinadas com a liderança da igreja e cooperando umas com as outras, para o bem da obra. Um grupo que realiza, reforça o sentimento de PERTENCIMENTO, nos seus participantes.

 

Conclusão:

Finalmente,

Esses quatro movimentos estavam muito presentes na vida de Jesus, nosso supremo pastor e líder. Só alguns flashes, uma pequeníssima amostra:

  1. Poder legítimo: “que saia adiante deles”

“A seguir, veio uma nuvem que os envolveu; e dela uma voz dizia: Este é o meu Filho amado; a ele ouvi.”( Mc 9.7; comp. At 2.22) 

  1. Poder de especialista: “e que entre adiante deles”

“Quando Jesus acabou de proferir estas palavras, estavam as multidões maravilhadas da sua doutrina;  porque ele as ensinava como quem tem autoridade e não como os escribas.” (Mt 7.28-29)

  1. Poder de mobilização: “e que os faça sair”

“Tendo Jesus convocado os doze, deu-lhes poder e autoridade sobre todos os demônios, e para efetuarem curas. Também os enviou a pregar o reino de Deus e a curar os enfermos.” (Mt 9.1-2)

  1. Poder de realização: “e que os faça entrar”

“Então, regressaram os setenta, possuídos de alegria, dizendo: Senhor, os próprios demônios se nos submetem pelo teu nome!” (Lc 10.17)

 

Como igreja, necessitamos de uma liderança sinérgica, que potencialize e canalize os recursos e talentos do grupo e os direcione para a edificação do grupo e para a glória de Deus.

“Mas, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo, de quem todo o corpo, bem ajustado e consolidado pelo auxílio de toda junta, segundo a justa cooperação de cada parte, efetua o seu próprio aumento para a edificação de si mesmo em amor.” (Ef 4.15-16)

Que assim Deus nos ajude!

Sola Scriptura, Sola Gratia, Sola Fide, Solus Christus, Soli Deo Gloria

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[1] Seja Líder de Si Mesmo – O Maior Desafio do Ser Humano (Augusto Cury [psiquiatra] – Sextante)

[2] Igreja: Visível ou Invisível; Militante ou Gloriosa; Local ou Universal


Catedral Presbiteriana do Rio
17/12/2006 – Culto Matutino (10h 15min) – Dia do Pastor
Esboço da Mensagem pregada pelo Presbítero Paulo Raposo Correia

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