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A Excelência da União Fraternal (Salmo 133)

1  Oh! Como é bom e agradável viverem unidos os irmãos!
2  É como o óleo precioso sobre a cabeça, o qual desce para a barba, a barba de Arão, e desce para a gola de suas vestes.
3  É como o orvalho do Hermom, que desce sobre os montes de Sião. Ali, ordena o SENHOR a sua bênção e a vida para sempre. (Sl 133.1-3)

Como é constituído o Salmo 133?

A resposta é simples: por três números [1] [3] [3]

Se você achou a resposta simples demais, vamos aprofundar nossa análise. Este salmo contém:

  • [1] Um assunto relevante: união fraternal ou comunhão fraternal.
  • [3]Três versículos com: Uma declaração entusiástica (ou uma exclamação contagiante) – “Oh! Como é bom e agradável…” e Duas comparações aparentemente estranhas – “É como o óleo precioso…” “É como o orvalho….”.
  • [3] Três ensinos preciosos que envolvem três pessoas importantes: DEUS, VOCÊ e O OUTRO.

 

1º) União Fraternal ou Comunhão Fraternal (VOCÊ e O OUTRO).

“Oh! Como é bom e agradável viverem unidos os irmãos!” (v.1)

O salmista Davi declara aqui a excelência da união fraternal. A que irmãos ele estaria se referindo?

Ainda que todos sejamos descendentes de Adão e, mais especificamente, descendentes dos três filhos de  Noé (Gn 9.18-19), é provável que não seja a estes irmãos humanos que Davi se referia. O que não quer dizer que essa declaração não se aplique a essa categoria de irmãos. Talvez ele estivesse se referindo àqueles irmãos que vivem mais próximos, os irmãos compatriotas, especificamente o seu povo, os judeus, ou, quem sabe, os irmãos de uma mesma família. Davi viveu um verdadeiro caos no relacionamento entres seus filhos: Amnom violou sua meia irmã Tamar, irmã de Absalão e este mandou matá-lo, por vingança. Adonias disputava o trono de Davi com Salomão e este o mandou executar assim que começou a reinar.

Além e acima dessas três categorias mais consagradas de irmãos, esta declaração se aplica a um grupo especial e distinto de irmãos, a Igreja de Cristo. Esta reúne irmãos dessas três categorias e cria laços muito mais fortes e duradouros, porquanto, eternos: “Assim, já não sois estrangeiros e peregrinos, mas concidadãos dos santos, e sois da família de Deus,” (Ef 2.19). “Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz;” (1Pe 2.9). “Eles não são do mundo, como também eu não sou.” (Jo 17.16).  Às vezes nos envolvemos de tal maneira com as coisas deste mundo que não nos damos conta da nossa verdadeira identidade celestial.

O que é União ou Comunhão Fraternal?

  • É mais do que proximidade física! Podemos partilhar muitos espaços com outras pessoas, lado a lado, em nossa vivência diária e, também, nos cultos e demais programações da igreja, e, ainda assim, isso não assegura que temos comunhão com elas. Porém, estarmos juntos, na adoração e no serviço, pode ser um bom indicativo dessa comunhão: “Todos os que creram estavam juntos e tinham tudo em comum. Diariamente perseveravam unânimes no templo, partiam pão de casa em casa e tomavam as suas refeições com alegria e singeleza de coração,” (At 2.44, 46)
  • É mais do que o compartilhamento de uma mesma identidade religiosa! “- Sou cristão” ou “ – Sou presbiteriano”. O nome faz a pessoa ou a pessoa é que faz o nome?
  • É mais do que a participação comum em “práticas religiosas”! Orar, ler a bíblia, ir à igreja, cantar hinos, dar o dízimo, etc. são práticas que por si só também não asseguram que haja essa verdadeira comunhão; porém os que vivem em comunhão participam dessas práticas.
  • É mais do que uma uniformidade estereotipada imposta! Houve um tempo em que você olhava para a forma de se trajar de determinadas pessoas e podia identificar a que grupo de evangélicos elas pertenciam. Essas pessoas podiam até ter uma certa uniformidade visual, porém, também não é por causa disso que estaria assegurada a comunhão entre elas.
  • É, sim, interação íntima e visceral contínua no corpo de Cristo! “Mas, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo, de quem todo o corpo, bem ajustado e consolidado pelo auxílio de toda junta, segundo a justa cooperação de cada parte, efetua o seu próprio aumento para a edificação de si mesmo em amor.” (Ef 4.15-16)

Mas, a união fraternal é apenas algo “bom e agradável” ou vai além?

  • É essencial para a preservação da igreja: “Se vós, porém, vos mordeis e devorais uns aos outros, vede que não sejais mutuamente destruídos.” (Gl 5.15)
  • É um testemunho ao mundo sobre Jesus: “a fim de que todos sejam um; e como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti, também sejam eles em nós; para que o mundo creia que tu me enviaste.” (Jo 17.21)

Viver em comunidade é viver “com + unidade”, “como + um”. Comum é o que pertence simultaneamente a mais do que um. Assim é a fé que professamos – a fé comum (Tt 1.4).

Não é fácil e nem tentaremos interpretar o que exatamente estava no coração de Davi quando ele expressou as metáforas dos versículos 2 e 3 do Salmo 133.  Entretanto, aproveitando as ideias por ele apresentadas e à luz do contexto atual de Igreja de Cristo, podemos ser grandemente abençoados com os seguintes ensinos:

 

2) Unção Espiritual (Deus em Nós).

“É como o óleo precioso sobre a cabeça, o qual desce para a barba, a barba de Arão, e desce para a gola de suas vestes.” (v.2)

O óleo aqui mencionado não é um óleo qualquer, um composto aromático comum. Trata-se do óleo sagrado da unção (Ex 30.25), composto com exclusividade para ungir o Tabernáculo e sua mobília, e para ungir os Sacerdotes. Qualquer fabricação independente ou qualquer aplicação diferente da prescrita na lei seria punida com a morte. Por que? Porque esse óleo é tipo do Espírito Santo – único e exclusivo. Conta-se que um cientista produziu uma semente de feijão exatamente igual a uma verdadeira e desafiou certo homem a descobrir qual a verdadeira e qual a falsa. O homem desafiado disse: “- Dá-me as duas sementes e depois de três dias te direi.” Passados os três dias o homem voltou com as sementes e respondeu ao cientista: “- A verdadeira é a que tem vida, veja como está brotando.” Ele havia plantado ambas as sementes; porém, apenas uma brotou. A verdadeira Igreja de Cristo é comparada a um corpo vivo, a um organismo; a falsa é apenas uma organização. No corpo vivo os membros estão intrinsecamente ligados e sob o comando da cabeça desenvolvem suas funções específicas.

Observem que a analogia não se restringe ao óleo, porém, ao óleo aplicado, ou seja, à unção sobre a cabeça de Arão.

  • A igreja foi instituída por Deus e subsiste pela ação e poder do Espírito de Deus; invisível, porém, real e essencial. “E, havendo dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo” (Jo 20.22).
  • É o Espírito Santo de Deus que nos regenera e nos possibilita uma autêntica comunhão com o corpo de Cristo – a Igreja.
  • Sem o poder de Deus nada somos e nada podemos fazer. “Eu sou a videira, vós, os ramos. Quem permanece em mim, e eu, nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer.” (Jo 15.5).

Não há esforço humano capaz produzir a verdadeira união entre os membros do corpo; só o Espírito de Deus é capaz disso.

 

3) Convergência na Palavra (Nós em Deus).

“É como o orvalho do Hermom, que desce sobre os montes de Sião. Ali, ordena o SENHOR a sua bênção e a vida para sempre.” (v.3)

A outra comparação é com o orvalho do monte Hermom[1]. O Hermom era, e é, uma preciosidade incalculável para os judeus. O Hermon está para Israel assim como a água está para a vida. Esse majestoso monte, localizado no extremo Norte de Israel, perto de Cesaréia de Filipe, tem quase três mil metros de altitude. Quando a seca assola as outras regiões de Israel e países vizinhos, no Hermon faz frio e nos seus picos predomina a neve o ano todo. O calor do dia derrete grande parte desse gelo, transformando-o em água líquida que escorre pelas superfícies ou pelas entranhas do famoso monte e vai formar as nascentes do rio Jordão. “Quando as três vertentes se encontram, a 14km ao norte do lago de Hula, ou Hulé, ou Merom, o Jordão está a 150m acima do nível do mar (Mediterrêneo)”. Passando pelo lago do Merom, que está a 68m, o rio continua descendo vertiginosamente por um vale estreito e acidentado, entrando ruidosamente no Mar ou Lago da Galiléia, a 212m abaixo do Mar Mediterrâneo. O Lago da Galiléia tem cerca de 27km no sentido Norte-Sul. O Jordão entra nele pelo norte e sai dele pelo sul em direção ao Mar Morto.  Do sul do Lago da Galiléia até ao Mar Morto são cerca de 117km em linha reta, mas o seu curso é sinuoso e acidentado, por 351km percorridos sempre abaixo do nível do Mar. Tem mais de 100 corredeiras, que tornam suas águas barrentas e suas margens perigosas, terminando no Mar Morto, a 400m negativos.

O monte Hermom é, portanto, o grande responsável pela fertilidade das terras na sua base e por toda a extensão do rio Jordão, que dele nasce. Era uma montanha sagrada para muitos povos pagãos da antiguidade.  Ali eles cultuavam e festejavam seus deuses. Construíam templos no sopé do monte. O deus principal do Hermom foi Baal, daí o nome de Baal-Hermom (Jz 3.3 e 1Cr 5.23).

Já o povo de Israel o salmodiava, com alegria: “O Norte e o Sul, tu os criaste; o Tabor e o Hermom exultam em teu nome”. (Sl 89.12) ou, com saudade, quando exilados: “Sinto abatida dentro de mim a minha alma; lembro-me, portanto, de ti, nas terras do Jordão, e no monte Hermom, e no outeiro de Mizar.”(Sl 42.6). Foi, provavelmente, em algum ponto da subida deste monte alto que se deu a transfiguração de Jesus (Mt 17.1-13). Num lugar de tanta idolatria, aprouve a Deus distinguir o Senhor Jesus como único e verdadeiro Deus, acima de qualquer deus humano ou grandes vultos do AT como Moisés e Elias: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo; a ele ouvi.

Neste Salmo 133.2 o orvalho sobre o Hermon é comparado à excelência da união fraternal. O que esse orvalho tem a ver com comunhão?

O gotejar miúdo e constante da “água do céu” é o fator determinante da continuidade da vida; pela água que forma o rio (Jordão) e pelo rio que fertiliza o solo ao longo de todo o seu percurso. Se o óleo da comparação anterior era uma figura do Espírito Santo; a água é uma figura da Palavra de Deus. Jesus é o verbo de Deus, a palavra que se fez carne. A Bíblia é palavra que se fez livro. E é através da Palavra e do Espírito que somos regenerados e nos tornamos membros do corpo de Cristo, a Igreja. A Palavra regenera “pois fostes regenerados não de semente corruptível, mas de incorruptível, mediante a palavra de Deus, a qual vive e é permanente”. (1Pe 1.23) e purifica“… como também Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela, para que a santificasse, tendo-a purificado por meio da lavagem de água pela palavra, para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, porém santa e sem defeito.” (Ef 5.25-27).

E é essa mesma Palavra que nos conduz à comunhão: “completai a minha alegria, de modo que penseis a mesma coisa, tenhais o mesmo amor, sejais unidos de alma, tendo o mesmo sentimento.” (Fp 2.2). Será que o apóstolo Paulo estaria ensinando aqui que para desfrutarmos da verdadeira comunhão precisaremos pensar igual?  Certamente que não! O apelo aqui é pela convergência ou concórdia ou harmonia intelectual (de ideias e de ideais), sentimental e espiritual. “Rogo a Evódia e rogo a Síntique pensem concordemente, no Senhor.” (Fp 4.2), “para que concordemente e a uma voz glorifiqueis ao Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo.” (Rm 15.6)

Sobre a questão da convergência bíblica x comunhão, Richard Baxter apresenta uma fórmula simplificada: “Em assuntos fundamentais, unidade. Em assuntos secundários, liberdade. Em todas as coisas,  caridade  (ou amor)”.

Portanto, temos um grande desafio diante de nós no que se refere à comunhão – A CENTRALIDADE NA PALAVRA, NA BÍBLIA. Na era da informação em que vivemos é muito fácil um cristão, sem intimidade com a Bíblia, ser levado por ideias e conceitos chamados modernos, desprezando, assim, a Palavra de Deus como se esta fosse um escrito desatualizado e ultrapassado. É preocupante o crescente número de crentes que não leem ou não estudam a bíblia. É preocupante o número de crentes ACHANDO O QUE A BÍBLIA NÃO ACHA e NÃO ACHANDO O QUE A BÍBLIA ACHA E ENSINA! É preciso dar mais valor à sabedoria que vem do alto: “A sabedoria, porém, lá do alto é, primeiramente, pura; depois, pacífica, indulgente, tratável, plena de misericórdia e de bons frutos, imparcial, sem fingimento”.(Tg 3.17)

Conclusão:

Não podemos perder de vista que ambas as metáforas acima expostas passam a ideia de um processo continuado que se desenvolve no tempo .

Essas duas metáforas nos remetem aos seguintes textos de João:

“E três são os que testificam na terra: o Espírito, a água (Palavra) e o sangue (de Cristo no Calvário), e os três são unânimes num só propósito”. (1Jo 5.8)
“Se, porém, andarmos na luz, como ele está na luz, mantemos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado.” (1Jo 1.7)

O salmista termina dizendo:

“Ali, ordena o SENHOR a sua bênção e a vida para sempre.”

E nós, finalizamos também dizendo:

Onde há Unção Espiritual (Deus em Nós) e Convergência na Palavra (Nós em Deus), há COMUNHÃO, AMOR e SOLIDARIEDADE. Ali, neste lugar e situação, “ordena o SENHOR a sua bênção e a vida para sempre”.

Soli Deo Gloria!

………………………………………..

1] Hermom: Majestoso monte localizado no extremo Norte de Israel, perto de Cesaréia de Filipe. Era chamado de SENIR pelos amorreus e de SIRIOM pelos sidônios. Em Dt 4.48 é chamado de SIOM. Seu nome parece ter o significado de “dedicar” ou “consagrar”.


Catedral Presbiteriana do Rio
29/07/2007 – Culto Devocional (8h)
Esboço da Mensagem pregada pelo Presbítero Paulo Raposo Correia

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