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Uma síntese da igreja local

Texto base: Jo 12.1-8 (comp. Mt 26.6-13 e Mc 14.3-9)

Introdução

Deixando a Peréia rumo a Jerusalém Jesus anuncia aos doze, pela terceira vez, que lá ele será condenado e morto (Lc 18.31-34). Atravessando o Jordão, perto de Jericó, demora-se um pouco na cidade. Cura o cego Bartimeu (Lc 18.35-43) e encontra-se com Zaqueu (Lc 19.1-10). Continua a sua viagem em companhia dos doze e das multidões de peregrinos que, em verdadeira romaria, subiam a Jerusalém para participarem da festa da páscoa.

Jesus e os doze deixam a multidão e entram numa aldeia chamada Betânia, a uns 3 km de Jerusalém, onde morava uma família muito especial para ele – Lázaro, Marta e Maria. Eles tinham as portas de sua casa sempre abertas para receber e hospedar o Mestre e seus discípulos. Jesus os amava e tinha grande prazer nesse convívio. Jesus chega na sexta-feira à tarde, passa o sábado (judaico) em Betânia e parte para Jerusalém no domingo, onde é aclamado pelas multidões. Os comentaristas bíblicos que buscam harmonizar os Evangelhos identificam esta ceia com a narrada por Mateus e Marcos, 2 dias antes da páscoa, em casa de Simão, o leproso, ali mesmo em Betânia, apesar de existirem muitas diferenças entre elas.

Uma reflexão mais demorada sobre o cenário descrito neste texto por João poderá levar a percepções variadas, como, por exemplo, UMA SÍNTESE DA IGREJA LOCAL. A ceia oferecida a Jesus, certamente com o objetivo maior de expressar gratidão pelos seus feitos, principalmente a ressurreição de Lázaro, reforça esta ideia de igreja, pois na Santa Ceia nos reunimos para estarmos em comunhão com ele, lembrando e rendendo graças pelo seu sacrifício na cruz a nosso favor.

Tomando por base este cenário e as particularidades de cada personagem envolvido, isto é, daqueles que foram mencionados nominalmente, podemos entender melhor a composição e os ministérios da igreja local. Conhecer esses aspectos da igreja é progredir na maturidade cristã.

1. O SIGNIFICADO DE JESUS

 Jesus sozinho não constitui a igreja. Da mesma forma, uma associação de pessoas, sem Jesus, pode ser qualquer coisa, menos uma igreja local. A igreja nasceu no dia do Pentecostes pela ação de Jesus, enviando sobre aquela “assembleia ou grupo de pessoas chamadas para fora (do mundo) – no grego, ekklesiaEk + Kaléo (Jo 17.14; Fp 3.20; 1Pe 2.13)”, seu alter-ego (outro igual), o Espírito Santo. Portanto, Jesus é o fundamento e o cabeça da igreja.

 2. O SIGNIFICADO DE LÁZARO

 Lázaro nos é descrito como sendo alguém que fora ressuscitado dentre os mortos e “..um dos que estavam à mesa..”, desfrutando de comunhão com Jesus. Seu nome era muito comum entre os Judeus e significa “Deus ajudou“.

Quem era este Lázaro, além de irmão de Marta e Maria?

a) Era alguém que trazia em seu corpo a sentença de morte (Jo 11.1, 14 => Rm 6.23 “o salário do pecado é a morte”);

b) Era alguém amado por Jesus (Jo 11.3,5; 33-36 => Jo 3.16);

c) Era alguém que esteve morto e reviveu, porque atendeu ao chamado de Jesus (Jo 11.44a => Ef 2.1; Jo 6.37);

d) Era alguém que recebeu a graça de Deus, sem nada fazer para isso (Jo 11.39 => Ef 2.8);

e) Era alguém que experimentou a libertação das coisas que o impedia de andar, de fazer, de ver e de ouvir, o que aponta para a santificação (Jo 11.44b => Rm 6.6);

f) Era alguém que testemunhou silenciosamente do poder vivificador de Deus, levando outros a crerem em Jesus (Jo 12.10-11 => 1 Co 6.11).

Lázaro, portanto, representa aqueles que compõem a igreja local. As informações sobre sua pessoa falam, figuradamente, do ingresso na igreja e, por extensão, do MINISTÉRIO DE EVANGELIZAÇÃO, operado naqueles que compõem a igreja e através destes a muitos outros, quer pelo testemunho de vida, quer pela Pregação do Evangelho.

3. O SIGNIFICADO DE MARTA

Marta é apresentada por João como aquela que participava da ceia, servindo. Em uma visita anterior de Jesus a esta família, somos informados por Lucas (Lc 10.38-42) que Marta também estava envolvida com os serviços materiais:

– hospedou-o em sua casa;

– Agitava-se de um lado para o outro, ocupada em muitos serviços.

Naquela ocasião, sua preocupação em servir bem era tanta que chegou a cobrar de Jesus sua intervenção para que Maria a ajudasse, sendo por ele advertida. Seu grande erro foi o de não fazer sua parte com moderação, satisfação e espontaneidade. Infelizmente, através dos tempos, Marta tem levado a fama de mulher materialista, por causa desse incidente com Maria. É pena que essa sua fraqueza tem chamado mais a atenção do que as suas virtudes de mulher prática e serviçal.

Agora vemos uma Marta fazendo o que melhor ela sabia fazer – servir – porém com espírito diferente, sem aquele ativismo onde o foco é “o fazer” e não “para que fazer”. Não se trata de querer colocar a sua parte como a mais importante. Entretanto, era igualmente necessária.

A quem era dedicado o serviço de Marta?

a) A Jesus. Servimos a Jesus indiretamente quando servimos ao nosso próximo (Mt 25.35-40);

b) A sua família. Servimos aos domésticos da fé, porque somos membros de um só corpo;

c) Aos demais. Servimos ao nosso próximo, porque o amamos como a nós mesmos.

Um jovem perguntou a um sábio sobre as coisas mais importantes: 1ª) Qual é o Tempo mais importante? Ele respondeu: o “agora”; 2ª) Qual a Pessoa mais importante? Ele respondeu: a que está à sua frente; 3ª) Qual a Tarefa mais importante? Ele respondeu: fazer esta pessoa feliz, agora!

Marta, portanto, representa o MINISTÉRIO DE SERVIÇOS da igreja (Social, Assistencial, Material etc.), que é um ministério de caráter horizontal, isto é, na direção do próximo, porém, indiretamente é como se o estivéssemos fazendo ao Senhor (Mt 25.40).

4. O SIGNIFICADO DE MARIA

De Maria não poderíamos esperar outra apresentação, senão como “aquela que estava aos pés de Jesus fazendo alguma coisa”. Muitos se colocaram aos pés do Senhor apenas para serem atendidos em suas necessidades; este porém não era o caso de Maria.

Maria não encontrava lugar melhor para ficar, senão aos pés de Jesus. Ela tinha, pelo menos, três razões para estar ali:

a) Ouvir os ensinamentos de Jesus (Lc 10.39)

Para aprender a respeito das coisas espirituais e da vida prática.

b) Expressar sua angústia e suplicar bênçãos (Jo 11.32)

c) Louvar e Adorar ao Senhor (Jo 12.3)

    Louvor – Por tudo o que Deus é em si mesmo, seus atributos;

    Adoração – É render-lhe um verdadeiro culto pelo que ele é e pelo que ele tem feito a nosso favor, em Cristo.

A maneira que ela encontrou de cultuar a Jesus foi ungir-lhe os pés com um perfume muito caro. E nós, como temos cultuado a Deus? Um dos indicadores da maturidade cristã é o nível de investimento na obra de Deus. A igreja, em qualquer tempo, tem muito a aprender com Maria sobre a “TEOLOGIA DOS PÉS DE JESUS”.

Maria, finalmente, representa três ministérios da igreja: MINISTÉRIO DE ENSINO, DE ORAÇÃO E DE ADORAÇÃO, que são ministérios de caráter espiritual e, de certa forma, vertical, isto é, na direção de Deus: trazendo as verdades e ensinos de Deus, até nós; conduzindo-nos à presença de Deus.

5. O SIGNIFICADO DE JUDAS ISCARIOTES

Seria bom se a igreja local pudesse ser totalmente representada pelos quatro personagens comentados anteriormente. É bom ter em mente que a igreja local se diferencia da igreja universal, invisível, por abranger aqueles que não são verdadeiros discípulos de Cristo e não incluir no seu rol aqueles que ainda não tiveram o ensejo de professar a sua fé em Jesus, além, é claro,  dos salvos que já partiram para a eternidade.

Na verdade, ainda que supostamente em menor escala, a igreja local tem os seus Judas Iscariotes. Eles estão no meio do povo de Deus, embora não façam parte dele. É o joio no meio do trigo, que um dia será separado. Quem são estes? São aqueles que jamais passaram por uma experiência de regeneração, de novo nascimento. São aqueles estão na igreja buscando a satisfação de seus próprios interesses ou porque se sentem confortáveis, protegidos e seguros no ambiente cristão. São aqueles que não permitem que Cristo viva através de suas vidas.

Conclusão

Assim, temos aqui sintetizada a igreja local:

Jesus – Seu fundamento e cabeça

Lázaro – Composição e Ministério de Evangelização (Kerigma);

Marta  – Ministério de Serviços;

Maria  – Ministérios de Ensino, de Oração e de Adoração.

Judas Iscariotes – Os falsos crentes (o joio).


Catedral Presbiteriana do Rio
19/01/1997 – Culto Vespertino (19h)
Esboço da Mensagem pregada pelo então Diácono Paulo Raposo Correia

Um atendimento bem sucedido (2Rs 5.1-19a)

Introdução:

Cremos na “diaconia” universal dos crentes – homens e mulheres – ao lado do sacerdócio universal dos crentes. Todos os remidos foram chamados pelo Senhor para servir, para realizar as boas obras: “Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas.” (Ef 2.10). Servir, no grego, “doulos” (escravo, aquele que deve cumprir a vontade do seu Senhor, sem se importar com sua própria vontade) ou “diakonos” (aquele que realiza tarefas para ajudar os outros) é a nobre missão de cada crente, pois o Senhor Jesus é o exemplo maior. “Pois o próprio Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos.” (Mc 10.45). Para servir não é necessário ter um cargo ou um ofício. Assim é que o termo servir é empregado em todo o Novo Testamento no sentido não-técnico, referindo-se a homens e mulheres que serviam a essa ou àquela igreja local: “Recomendo-vos a nossa irmã Febe, que está servindo à igreja de Cencréia,..” (Rm 16.1). Na igreja primitiva, a pergunta que se fazia a outro cristão era: “– em qual igreja você está servindo ao Senhor?”; enquanto hoje se pergunta: “– de que igreja você é?”.

É importante destacar que nosso Senhor Jesus Cristo foi, simultaneamente, pastor, presbítero e diácono. Isso, por si só mostra o quanto esses ofícios são importantes diante de Deus e dos homens.

NÍVEIS DE ATUAÇÃO – Ilustração contada por certo pastor:

Imaginemos, naqueles tempos de escravatura, um escravo recapturado e açoitado pelo seu senhor. Há três níveis de atuação aplicáveis ao caso:

1º) ASSISTÊNCIA SOCIAL

Seria cuidar das feridas do escravo ferido pelos açoites do seu senhor.

2º) AÇÃO SOCIAL

Seria recolher donativos da comunidade para comprar a liberdade dele.

3º) AÇÃO POLÍTICA

Seria lutar pela abolição da escravatura pois o problema não é somente deste escravo.

Na história da cura de Naamã (2Rs 5.1-19a), há lições interessantes, inclusive no que diz respeito à assistência aos necessitados realizada pela Junta Diaconal. No processo de assistência, há seis elementos aqui simbolizados:

  • O necessitado: Naamã
  • O agente do encaminhamento: Menina judia
  • O agente da solução: Eliseu
  • O recurso: Rio Jordão
  • O resultado: Cura e transformação
  • A recompensa: O presente recusado?

1. O necessitado (Naamã) (v.1)

Quando pensamos no necessitado é comum vir logo à nossa mente a figura do pobre, do carente. Jesus disse: “Porque os pobres, sempre os tendes convosco…” (Mc 14.7). Eles são uma realidade na nossa sociedade e são muitos. Entretanto, é bom não perder de vista que os pobres são apenas uma parte do universo dos necessitados. Naamã era uma pessoa do alto escalão da Síria, mas um necessitado de cura física e espiritual. Todos os necessitados devem merecer nossa atenção , porém, prioritariamente, os domésticos na fé (Gl 6.10).

2. O agente do encaminhamento (Jovem judia) (vv.2-4)

Não basta existir um agente de solução, é necessário que este seja conhecido, que se saiba da sua existência. O agente de encaminhamento é a ponte entre o necessitado e o agente da solução.

Encontramos nesta jovem, pelo menos três marcas interessantes quanto ao “agente de encaminhamento”:

a) Anonimato: Certamente ela tinha um nome, mas foi aqui omitido. Esse anonimato nos conduz a pensar que há tantas pessoas e canais que podem ser usados nessa importante missão que nem há necessidade de identificação.

b) Bondade incondicional: Mesmo sendo cativa de guerra, retirada do seio de sua família e nação, talvez tendo sua família e amigos exterminados pelo inimigo invasor que agora se apoderara dela, foi capaz de ter compaixão pelo seu senhor.

c) Confiança plena (no agente da solução): Mesmo tendo saído do meio do seu povo com pouca idade, tinha uma confiança tal no profeta de Deus que impressionou e influenciou seus senhores na busca dessa solução.

3. O agente da solução (Eliseu) (vv.8-13)

Vejamos algumas características deste atendimento:

a)Proatividade: Sabedor da existência do necessitado, um tanto quanto desorientado nessa busca pelo agente de solução, toma a iniciativa de assumir o caso (v.8).

b) Recepção sem discriminação: Eliseu se propôs a recebê-lo sem levar em conta que se tratava de um estrangeiro, pertencente a uma nação inimiga do seu povo (v.9).

c) Recepção sem privilégios: Eliseu não se deixou impressionar pela pompa ou aparato de Naamã (v.10). Todos merecem um tratamento digno e justo.

d) Estabelecimento das condições: Quem atende estabelece as condições, que levam em conta suprir a necessidade e não o desejo da pessoa em atendimento (vv.10-13). Tais condições precisam ser estabelecidas com sabedoria de modo a produzir resultados eficazes.

4. O recurso (Rio Jordão) (v.14)

O rio é sempre símbolo de recursos: a água que rega as plantações, abastece a casa, sacia os homens e os animais etc, portanto, essencial à vida. Neste caso, não há dificuldade em se perceber que não havia qualquer potencial miraculoso nas águas do rio Jordão, muito menos no ritual de sete mergulhos. Muitos falsos profetas e pregadores, de ontem e de hoje, não se cansam de iludir seus seguidores com ritos sem qualquer valor. A grande proposta de Eliseu para Naamã nada mais era do que um desafio de fé e obediência. Incluía um “ir” e um “fazer” segundo a palavra do profeta. A lição que tiramos daqui é que os recursos são sempre limitados e devem ser vistos como soluções paliativas e provisórias para suprir temporariamente uma necessidade. Entretanto, o grande milagre vem sempre de Deus, usando ou não os insignificantes recursos dos humanos.

5. O resultado (Cura e Transformação) (vv.15a; 17-18)

O mais importante num processo de atendimento é o atendido “ir e fazer” de tal maneira que sua vida seja transformada, material e espiritualmente. Do contrário, se torna assistencialismo continuado. Não basta dar o peixe é preciso ensinar a pescar!

6. A recompensa (O presente recusado?) (vv.15b-16)

Eliseu se negou a receber qualquer presente, qualquer recompensa pela sua boa ação praticada a Naamã. Quem exerce esse ministério de servir ao próximo já sabe ou precisa saber que:

a) A recompensa não vem de algo material dado pelo atendido.

b) A recompensa vem de Deus e será dada na eternidade: “e serás bem-aventurado, pelo fato de não terem eles com que recompensar-te; a tua recompensa, porém, tu a receberás na ressurreição dos justos.” (Lc 14.14)

c) A maior recompensa é contemplar a saciedade imediata do atendido, bem como sua transformação espiritual, física e financeira.

“Assim também vós, depois de haverdes feito quanto vos foi ordenado, dizei: Somos servos inúteis, porque fizemos apenas o que devíamos fazer.” (Lc 17.10)


Nota: Mensagem por mim dirigida à Junta Diaconal da Catedral Presbiteriana do Rio em 08/09/2014.

Dupla Identidade

Vida na igreja e vida fora da igreja

“Quem dera que eles tivessem tal coração, que me temessem e guardassem em todo o tempo todos os meus mandamentos, para que bem lhes fosse a eles e a seus filhos, para sempre!” (Deuteronômio 5.29)

Introdução          

True Lies, “Mentiras Verdadeiras” ou “A Verdade da Mentira” é um filme de ação de 1994, dirigido por James Cameron e estrelado por Arnold Schwarzenegger e Jamie Lee Curtis. Trata-se de uma história de ação e espionagem sobre um agente secreto com vida dupla espionando a própria esposa e terminando por envolvê-la numa terrível trama terrorista. Harry Tasker é um agente secreto de elite que esconde sua profissão de sua esposa Helen, que pensa que ele é um vendedor de computadores. Quando Harry descobre que sua esposa está se encontrando com outro homem, não sabe que é porque ela quer ir atrás de mais aventura em sua vida – não atrás de sexo, como ele imaginava. De alguma forma, ela acaba caindo na mão de perigosos terroristas e dessa vez ele terá que revelar quem realmente é para salvar os dois – ou, até mesmo, ser salvo por ela[1].

Vida dupla ou dupla identidade não é apenas enredo de filme ou de produção literária, mas uma lamentável e frequente realidade na igreja evangélica de todos os tempos. Mais do que dupla, às vezes consegue-se viver, pelo menos por algum tempo, múltiplas identidades, como, por exemplo: na família, na igreja e na empresa. Para não poucos crentes é muito comum dicotomizar, ou dividir a vida, em vida na igreja e vida fora da igreja; vida religiosa e vida social; vida espiritual e vida material. Assim, para estes, o comportamento, na igreja, é um e, fora dela, outro.

Certa mulher, ouvindo o pastor pregar, disse para quem estava ao seu lado: “– Esse é o homem que eu gostaria de ter lá em casa; esse é o homem que eu sempre sonhei como marido; e não aquele que vive lá em casa”. Porém, aquele pastor e pregador era o próprio marido dela. No púlpito e na igreja era amável e atencioso; porém, em casa, egoísta e agressivo. Ser íntegro é ser inteiro, ser completo, em todo o tempo e o tempo todo, como o apóstolo: “E, quando se encontraram com ele, disse-lhes: Vós bem sabeis como foi que me conduzi entre vós em todo o tempo, desde o primeiro dia em que entrei na Ásia,” (At 20.18)

Neste estudo, desenvolveremos o tema proposto, tratando das motivações, dos desdobramentos e consequências da dupla identidade, bem como das ações para se tratar tal comportamento.

1. O que leva uma pessoa a enveredar pelo caminho da dupla identidade?

Que motivações poderiam levar uma pessoa a viver identidades diferentes?

1.1 Um nobre propósito

“Fiz-me fraco para com os fracos, com o fim de ganhar os fracos. Fiz-me tudo para com todos, com o fim de, por todos os modos, salvar alguns.” (1Co 9.22)

Não me recordo de muitas santas e recomendáveis motivações para se viver e aparentar ser aquilo que não se é. Entretanto, veio à minha mente a expressão do apóstolo Paulo, no versículo acima, que usarei como exemplo positivo de “dupla identidade”, com a devida “licença teológica”. O que exatamente ele fez? O que podemos fazer e até que limite, para viver uma outra identidade com o fim de ganhar almas para Cristo? A empatia, o colocar-se no lugar do outro, sempre será um excelente exercício para se buscar uma estratégia adequada de evangelismo. É difícil aceitar que um crente justifique estar participando de alguns eventos ou práticas, mundanos, com o fim de ganhar alguém para Cristo. Não dá para imaginar um crente se drogando, para ganhar um drogado, percebe? Há limite pra tudo! Às vezes não dá para ir muito longe com esta “identidade estratégica” pois seríamos compelidos a pecar contra Deus, o que não nos é lícito.

Às vezes esse nobre propósito pode ser o de salvar um reino, evitar uma tragédia gigantesca. Não consigo me imaginar fazendo o que Husai, amigo e conselheiro do rei Davi fez, quando Absalão se rebelou contra o rei, seu próprio pai, e pretendia matá-lo. Reconheço, entretanto, que as circunstâncias extremamente graves demandaram dele tal procedimento. Em vez de fugir com Davi, abandonando o palácio real, por sugestão deste (2Sm 15.32-37) Husai retornou ao palácio e apresentou-se astutamente a Absalão com o fim de servi-lo e ao povo, obtendo êxito nessa sua primeira investida (2Sm 16.15-19). Tendo ouvido que Aitofel, o conselheiro oficial de Absalão, havia dado um conselho que certamente provocaria a destruição de Davi e do povo que com ele estava, Husai apresentou-se, outra vez, a Absalão para confundi-lo, dando outro conselho que acabou prevalecendo. Assim, Husai salvou a Davi e provocou a derrota e morte de Absalão (2Sm 17).

1.2 Medo de ser discriminado pelo grupo

“O julgamento é este: que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz; porque as suas obras eram más.” (Jo 3.19)

Jesus nunca alimentou falsas esperanças de que os de fora da igreja nos amariam e nos aceitariam como somos e com o que defendemos e praticamos, pelo contrário: “Se vós fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu; como, todavia, não sois do mundo, pelo contrário, dele vos escolhi, por isso, o mundo vos odeia.” (Jo 15.19). Ainda que usando de mordaz ironia, com a intenção de confrontar a presunção dos coríntios, o apóstolo expressa uma dura e inevitável realidade: ”… até agora, temos chegado a ser considerados lixo do mundo, escória de todos.” (1Co 4.13b)

Se Jesus deu sua vida para nos libertar das práticas pecaminosas em que vivem os de fora da igreja, por que tanta preocupação de não ser rejeitado pelos tais? “o qual se entregou a si mesmo pelos nossos pecados, para nos desarraigar deste mundo perverso, segundo a vontade de nosso Deus e Pai,” (Gl 1.4). Há um divisor de águas entre o viver cristão e o viver do não cristão. Necessariamente, o seguir a Cristo, nos conecta a um padrão moral e ético nos termos daquele apresentado por Jesus no Sermão do Monte; nos faz ter usos e costumes diferenciados, nos faz repelir toda sorte de sincretismo. Por isso, nesses novos tempos, evangelizar se tornou um tremendo desafio; pode ser visto como invasão de privacidade e, na empresa, descumprimento de código de ética.

Um tipo característico de dupla identidade é o que popularmente e em tom de brincadeira se apelida de “crente camaleão”. É interessante observar algumas das características dos camaleões, aplicando-as a esse tipo de crente: a) Este réptil se adapta facilmente ao ambiente em que está, tendo a capacidade de mudar de cor e, assim, se camuflar.  Tal crente se amolda facilmente ao ambiente da igreja, quando está na igreja, e ao mundanismo, quando fora da igreja. b) Este réptil pode mover seus olhos em duas direções, ao mesmo tempo. Tal crente consegue direcionar seu olhar para o reino de Deus e para o mundanismo, ao mesmo tempo. c) Este réptil tem uma língua muito grande e rápida no gatilho para pegar suas presas. Tal crente tem muita lábia para enganar as pessoas, desfazer amizades e destruir reputações. d) Este réptil geralmente pode comer de tudo. Tal crente geralmente se alimenta de tudo que lhe é oferecido pela igreja e pelo mundo, sem a preocupação de distinguir o certo do errado, o que convém do que não convém.

Para descontrair, vejam alguns tipos estranhos de crente:

  • Crente 190: só busca a Deus em caso de emergência.
  • Crente Abacaxi: é casca grossa e espeta os outros.
  • Crente Açúcar: se for para a igreja com chuva, derrete.
  • Crente Agente Secreto (ou 007): ninguém sabe que ele é crente.
  • Crente Alvenaria: acha que Deus é pedreiro e só o busca quando a casa cai.
  • Crente Aranha: vive na rede social.
  • Crente Avestruz: vive escondendo a cabeça em baixo da terra quando tem um problema.
  • Crente bom de Canto: vive no canto, não quer saber de trabalhar!
  • Crente Bule: aquele de “pô café” (pouca fé).
  • Crente Cabeleireiro: vive só para fazer a cabeça dos outros.
  • Crente Camaleão: vive camuflado, se amolda ao ambiente onde está.
  • Crente Carrinho-de-mão: só anda se alguém empurrar.
  • Crente Chiclete: só mastiga a Palavra, mas não a engole.
  • Crente Crocodilo: tem uma boquinha…
  • Crente Elevador: está sempre subindo e descendo na vida espiritual.
  • Crente Escoteiro: só aparece em acampamento.
  • Crente Fantástico: só aparece no domingo à noite.
  • Crente Gabriela: “eu nasci assim, eu cresci assim, e eu sou assim, vou ser sempre assim, Gabriela.
  • Crente Iô-Iô: está sempre saindo e voltando da igreja.
  • Crente Leão: se acha o Rei da igreja.
  • Crente Macaco: vive pulando de igreja em igreja.
  • Crente Mamadeira: nunca cresce, está sempre bebendo leitinho.
  • Crente Miojo: só presta atenção na pregação por 3 minutos.
  • Crente Noé: nunca as coisas são com ele –“noécomigo, irmão”.
  • Crente Noiva: só chega atrasado.
  • Crente Nutella: é o crente moderninho, descolado e liberal.
  • Crente Oba-Oba: “tudo é festa”.
  • Crente Pão de Forma: casca grossa, miolo mole, chato e quadrado.
  • Crente Papagaio: só sabe repetir o que ouve.
  • Crente Piolho: vai pela cabeça dos outros.
  • Crente Pipoca: quando a coisa esquenta ele pula.
  • Crente Quiabo: vive escorregando.
  • Crente Rexona: Bíblia, só debaixo do braço.
  • Crente Rocambole: vive enrolado.
  • Crente Sanguessuga: vive sugando os irmãos.
  • Crente Seis horas: vive pedindo a oração dos irmãos: “seisora” por mim?
  • Crente Submarino: vive sumido, mas de vez em quando aparece.
  • Crente Tesoura: qualquer ideia, ele já corta.
  • Crente Turista: vive passeando e não se envolve na igreja.

Porém, também há esses tipos interessantes de crentes:

  • Crente Avental: em que posso ajudar? (prestativo)
  • Crente Novalgina: vive aliviando a dor do próximo (solidário).
  • Crente Bombril: tem mil e uma utilidades (útil).
  • Crente Corega: está sempre promovendo a união (agregador).
  • Crente Esponja: absorve bem os ensinamentos bíblicos.
  • Crente Peneira: só retém o que é bom.
  • Crente Raiz: é o crente tradicional que ora, lê a bíblia, frequenta a igreja, dá o dízimo e dá bom testemunho.

1.3 Pecado oculto

“Ocultar-se-ia alguém em esconderijos, de modo que eu não o veja? —diz o SENHOR; porventura, não encho eu os céus e a terra? —diz o SENHOR.” (Jr 23.24)

a) O que levaria alguém a praticar e esconder o pecado?

Podemos facilmente identificar pelo menos três causas:

– Vantagens financeiras.

Para muitos, a riqueza e tudo o que o dinheiro pode comprar é verdadeira fonte de felicidade, não importando se os meios de obtenção forem ilícitos.

– Realizações pessoais, superar o outro e exercer poder.

Para outros, exercer poder sobre os outros, realizar os projetos da sua mente e vontade, deixando sua marca pessoal na história da humanidade é tudo o que importa na vida, a que custo for.

– Prazeres carnais e sexuais.

Para não poucos, não há nada mais importante do que dar vazão aos desejos carnais e sexuais ilícitos.

Essas coisas exercem um fascínio implacável sobre aqueles que não têm domínio sobre o pecado e farão qualquer coisa para obtê-las: “Ao contrário, cada um é tentado pela sua própria cobiça, quando esta o atrai e seduz. Então, a cobiça, depois de haver concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, uma vez consumado, gera a morte.” (Tg 1.14-15). O problema do crente com dupla identidade é que ele pretende ganhar o céu, a salvação eterna, sem abrir mão dos seus pecados ocultos que, aparentemente podem lhe conferir certas vantagens ou prazeres. Foi o que aconteceu com Acã (Josué 7). Ele (e todo o povo) estava avisado da proibição divina quanto aos despojos de Jericó, mas achou que poderia dissimular, como se fosse possível esconder algo de Deus (Js 6.17-19).  A cobiça por riquezas ilícitas o atraiu e seduziu (Js 7.21), levando-o à morte (Js 7.25).

O verdadeiro crente, nascido de novo, tem no Senhor e não nas coisas efêmeras desta vida, a sua verdadeira fonte de prazer: “Porque nada temos trazido para o mundo, nem coisa alguma podemos levar dele.” (1Tm 6.7)

b) Que consequências o pecado oculto tem na vida pessoal?

Ninguém peca por falta de aviso. Deus sempre deixa claro, através da sua Palavra e dos seus mensageiros, o que lhe agrada e o que não lhe agrada. Mesmo quando a voz de Deus não se manifestar de forma explícita, ele nos falará através da nossa consciência: “Estes mostram a norma da lei gravada no seu coração, testemunhando-lhes também a consciência e os seus pensamentos, mutuamente acusando-se ou defendendo-se,” (Rm 2.15). O fato é que todos foram informados do que Deus havia determinado, inclusive Acã. O grande problema é o ser humano dar ouvidos à voz de Deus quando a sedução da cobiça berra em seus ouvidos.

Pecados ocultos trazem consequências desastrosas na vida do crente. Quebra a sua comunhão com Deus e provoca a sua ira. Afeta, inevitavelmente, a sua família, podendo desestruturá-la ou destruí-la. Quando os membros da família tomam conhecimento e nada fazem, tornam-se coniventes ou cúmplices desse pecado oculto e assumem, coletivamente, o ônus das consequências de seus atos. Há situações que também afetam a vida profissional do crente, podendo ocasionar problemas no rendimento do trabalho, nos relacionamentos, quebra de confiança e demissão.

c) Que consequências o pecado oculto tem na igreja?

Um pecou, porém, o texto bíblico afirma que todos prevaricaram: “Prevaricaram os filhos de Israel nas coisas condenadas; porque Acã, filho de Carmi, filho de Zabdi, filho de Zera, da tribo de Judá, tomou das coisas condenadas. A ira do SENHOR se acendeu contra os filhos de Israel.” (Js 7.1). Uma laranja podre, espremida no suco, estraga todo o suco. A nossa conduta particular, fora do alcance da igreja, não é só problema nosso, quando pode afetar a relação de Deus com a sua igreja, isto é, no momento em que se torna transgressão a Deus. Assim, Deus se afasta, ficamos por nossa conta e a derrota é certa, como no caso de Israel, na guerra contra Ai.

Algumas consequências dessa quebra de comunhão, são:

– Falsa confiança (Js 7.2-3)
– Decepção com Deus (Js 7.7)
– Humilhação diante do inimigo (Js 7.8)
– Temor e insegurança (Js 7.9)

A derrota na batalha contra Ai foi realmente inesperada e frustrante. Quantas vezes, grandes programações e projetos fracassam porque há pecado encoberto no nosso meio ou há confiança exagerada na capacidade humana? Quantas vezes temos nos sentido no direito de argumentar com Deus sobre a falta de poder espiritual na nossa vida ou mesmo na igreja, quando a culpa está nessa dupla identidade que se alastra pelas igrejas?

 

2. Como a igreja deve lidar com o assunto?

Efetivamente o que ela não pode é se omitir! A restauração da comunhão exige providências: “…já não serei convosco, se não eliminardes do vosso meio a coisa roubada.” (Js 7.12b). Não é sem razão que as Escrituras enfatizam tanto a necessidade de se tratar aquele que está em pecado.  O grande desafio é convencer, líderes e liderados, da relevância disso.

As muitas misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos e nos permitem o retorno à normalidade, isto é, a restauração da comunhão com Deus. Há três passos claramente indicados no texto (Js 7.10-15):

a) Buscar e ouvir a voz de Deus (Js 7.10-12)
b) Buscar a santificação (Js 7.13)
c) Exercer a disciplina (Js 7.14-15)

A disciplina não é uma opção, é uma necessidade; quer na família, quer na igreja, quer em qualquer outra instituição da sociedade: “Mas, quando julgados, somos disciplinados pelo Senhor, para não sermos condenados com o mundo.” (1Co 11.32). É interessante a abordagem que considera a disciplina eclesiástica em três níveis: preventiva, corretiva e cirúrgica ablativa[2]. Esse terceiro nível – cirúrgica ablativa – foi o caso da disciplina aplicada a Acã, seus filhos, suas filhas, seus animais, sua tenda e tudo o que possuía. Eles foram apedrejados e, depois, tudo foi queimado, no vale de Acor (Js 7.22-26). A Lei Mosaica previa meios de perdão e restauração do transgressor. Entretanto, neste caso, a soberania divina determinou, de imediato, a sentença de morte. A família de Acã também foi punida, pois, provavelmente foi cúmplice de seu pecado (Dt 24.16). Em alguns casos narrados na bíblia, a punição divina pode parecer ser excessiva, mas tem a explícita intenção de ser exemplar, como neste caso ou no caso de Ananias e Safira, por exemplo.

 

Conclusão

Pode-se dizer que essa ideia de levar vantagem em tudo não é coisa tão recente assim, nem é marca registrada do povo brasileiro. Acã, no Antigo Testamento; e, Ananias e Safira, no Novo Testamento, são bons exemplos disso. É sempre oportuno cada um avaliar como tem sido sua vida e suas práticas, dentro e fora da igreja. É preciso ser íntegro e inteiro, ter uma só cara, diante de Deus e diante dos homens!

Finalmente, podemos concluir que os efeitos do pecado em nossa vida hoje são tão maléficos como nos dias de Jericó. Quando o Espírito Santo é persistentemente ofendido, mostrará a sua tristeza, retirando primeiramente o seu poder e, depois, o seu testemunho. Se isso não for o suficiente para trazer de volta o crente inconstante, então é certo que virá o açoite da correção divina.

Para nossa reflexão:

  • Até que ponto seria utopia, idealismo, pensar numa igreja sem mácula? Não podemos aceitar que isso seja utopia! Para esse fim Cristo se entregou por ela (Ef 5.25b-27). Entendemos que isso não significa que os membros da igreja deixarão de pecar. Mas sim, que os remidos do Senhor terão o ardente desejo de não pecar (Hb 10.22-24).

 

  • Se é necessária a santificação de todos os membros da igreja, para que haja poder e manifestação do Espírito Santo, então é quase impossível que isso ocorra? Mesmo que seja tão difícil, esta unidade de propósito, não é impossível. Já tem ocorrido muitas vezes, em vários lugares. No entanto, isto é tão importante que o apóstolo, quando se dirigia às igrejas sobre este assunto, usava a expressão “Rogo-vos…” (Rm 12.1; 1Co 1.10; Ef 4.1; Fp 4.2). É por isso que damos tanta ênfase a este assunto.

 

  • Mas, se o joio está semeado entre o trigo, como é possível, então, a santificação da igreja? Quanto ao joio, embora atrapalhe bastante, não faz parte da igreja. Entendemos que o “rogo-vos” do apóstolo Paulo não foi e não é dirigido ao joio. Estes são parasitas que, a seu tempo, serão cortados pelo Senhor.

 

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Veja também o artigo: O pecado de Acã

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[1] Fonte: Wikipédia
[2] CIRURGIA ABLATIVA:  Tipo de cirurgia em que se remove parte, ou todo, do órgão afetado pelo câncer.


Nota: esboço pessoal de aula, preparado por mim, para facilitar a ministração da Aula 5 (Dupla Identidade) – Módulo 3 – Classe de Casais – EBD Catedral 2017, de modo a atender a temática proposta no material elaborado por colaboradores para os alunos.

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