O pecado de Acã

Pecado de Acã

“Respondeu Acã a Josué e disse: Verdadeiramente, pequei contra o SENHOR, Deus de Israel, e fiz assim e assim.  Quando vi entre os despojos uma boa capa babilônica, e duzentos siclos de prata, e uma barra de ouro do peso de cinqüenta siclos, cobicei-os e tomei-os; e eis que estão escondidos na terra, no meio da minha tenda, e a prata, por baixo.” (Josué 7.20-21)

Assim como o escritor do Livro de Hebreus dedicou-se a fazer um registro dos homens e mulheres de fé (Hebreus 11), também conhecido como a “Galeria dos heróis da fé”, poderíamos, de igual forma e sem muita dificuldade erguer a “Galeria dos vilões insensatos”. Enquanto os primeiros deixaram um rastro luminoso a ser seguido, de fé e obediência a Deus e as suas promessas; esses últimos, por sua rebeldia e incredulidade, egoísmo, cobiça e insensatez, deixaram marcas deploráveis na história humana, servindo de exemplo daquilo que não se deve fazer e de alerta quanto às consequências do pecado, explícito ou oculto. Mesmo antes de terminar de ler a frase anterior, certamente você já estava lembrando de alguns nomes para compor essa galeria. Concorda que alguns dos mais famosos seriam: Caim, Esaú, Coré – Datã – Abirão, Balaão, os filhos do sacerdote Eli, Saul, Amnom, Roboão, Acabe – Jezabel e tantos outros reis de Israel, Sambalá – Tobias, Judas Iscariotes. E, por que não incluir Ananias e sua esposa Safira, no início da igreja? É claro que não poderíamos esquecer de Acã!

Acã é quase um ilustre desconhecido, mencionado na bíblia apenas em Josué capítulo 7 e Josué 22.20. Ao analisar a narrativa bíblica sobre ele, podemos fazer importantes reflexões e chegar a algumas conclusões.

1. Pecar é humano!

Afirmar o óbvio parece algo desnecessário e enfadonho. Entretanto, considerando a natureza humana, sempre muito atenta para enxergar o cisco que está no olho do outro e não se dar conta da trave que está no seu (Mt 7.3), é bom lembrar que todos estamos sujeitos a cair nas tentações. Pensar que determinadas coisas jamais acontecerão conosco, já é o primeiro passo para a queda: “Aquele, pois, que pensa estar em pé veja que não caia.” (1Co 10.12). Não podemos, em hipótese alguma, subestimar o inimigo de nossas almas e suas sutis seduções, nem confiar demais na nossa capacidade de resistir às tentações. “Vigiar e orar” a todo instante é o conselho da Palavra de Deus.

2. Ninguém peca por falta de aviso.

Deus sempre deixa claro o que se deve e o que não se deve fazer. Foi assim no Jardim do Éden (Gn 2.15-17) e foi assim no caso de Jericó: “Porém a cidade será condenada, ela e tudo quanto nela houver; somente viverá Raabe, a prostituta, e todos os que estiverem com ela em casa, porquanto escondeu os mensageiros que enviamos. Tão-somente guardai-vos das coisas condenadas, para que, tendo-as vós condenado, não as tomeis; e assim torneis maldito o arraial de Israel e o confundais. Porém toda prata, e ouro, e utensílios de bronze e de ferro são consagrados ao SENHOR; irão para o seu tesouro.” (Js 6.17-19). Mesmo quando a voz de Deus não se manifestar de forma explícita, ele nos falará através da nossa consciência: “Estes mostram a norma da lei gravada no seu coração, testemunhando-lhes também a consciência e os seus pensamentos, mutuamente acusando-se ou defendendo-se,” (Rm 2.15). O fato é que todos foram informados do que Deus havia determinado, inclusive Acã. O grande problema é o ser humano dar ouvidos à voz de Deus, quando tantas vozes contrárias berram em seus ouvidos. Às vezes, infelizmente, alguns que caminham com o povo de Deus, a exemplo de Acã, acabam cedendo às tentações, apegando-se às coisas e prazeres efêmeros deste mundo, rebelando-se contra Deus e sua soberana vontade: “Cobiçais e nada tendes; matais, e invejais, e nada podeis obter; viveis a lutar e a fazer guerras. Nada tendes, porque não pedis; pedis e não recebeis, porque pedis mal, para esbanjardes em vossos prazeres. Infiéis, não compreendeis que a amizade do mundo é inimiga de Deus? Aquele, pois, que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus.” (Tg 4.2-4). Há grande perigo e equívoco, em pecar em oculto, e, ficar tranquilo, achando que ninguém está vendo. Deus está vendo! Outro perigo é racionalizar, achando que aquilo que Deus fala não tem lógica, não faz sentido. Então, preferimos ficar com a nossa lógica e desconsiderar a ordem divina. Provavelmente Acã seguiu essa linha de raciocínio. Afinal, pensava ele, que mal haveria em se apossar de um pouco dessas riquezas de Jericó?

3. O pecado de alguns, contamina o todo.

“Prevaricaram os filhos de Israel nas coisas condenadas; porque Acã, filho de Carmi, filho de Zabdi, filho de Zera, da tribo de Judá, tomou das coisas condenadas. A ira do SENHOR se acendeu contra os filhos de Israel.” (Js 7.1). Um pecou, porém o texto bíblico afirma que todos prevaricaram. Uma laranja podre, espremida no suco, estraga todo o suco. A laranja podre do cesto tem que ser removida antes que ela contamine todo o cesto. Quando o pecador contamina o todo, a ira de Deus vem sobre todos. Não é sem razão que as Escrituras enfatizam tanto a necessidade de se tratar o pecador.  O grande desafio é convencer, líderes e liderados, da relevância disso.

4. A quebra da comunhão com Deus tem consequências.

Acã pecou e fez todo o povo de Israel prevaricar, ou seja, faltar ao dever (Js 6.18-19). A nossa conduta particular, fora do alcance da igreja, não é só problema nosso, desde que ela possa afetar a relação de Deus com a sua igreja, isto é, no momento em que ela se torna incompatível com a vontade de Deus.

Algumas consequências dessa quebra de comunhão, são:

a) Falsa confiança (Js 7.2-3):

Josué não sabia o que estava acontecendo de errado e agia normalmente, mas a ira de Deus era qual fogo ardente sobre todo o povo. Ele estava acostumado a contar com o agir sobrenatural de Deus para vencer as batalhas, mas não fazia a menor ideia de que sua maior “arma” e fonte de poder havia se retirado. Ele estava por sua própria conta, ou pior do que isso, Deus estava do lado do inimigo para dar-lhes uma lição. Ele estava tão autoconfiante que ouviu as sugestões dos espias, mas não consultou a vontade de Deus e enviou parte do exército para a batalha.

b) Derrota e frustração (Js 7.4-9):

A derrota na batalha contra Ai foi realmente inesperada e frustrante. Quantas vezes, grandes programações e projetos fracassam porque há pecado encoberto no nosso meio ou há confiança exagerada na capacidade humana? Alguns desdobramentos disso são:

– Decepção com Deus (Js 7.7)

– Humilhação diante do inimigo (Js 7.8)

– Temor e insegurança (Js 7.9)

Quantas vezes temos nos sentido no direito de argumentar com Deus sobre a falta de poder espiritual na nossa vida ou mesmo na igreja? Quantas vezes temos pedido provas ao Senhor, com a intenção de manter nossa fé em bom nível? Será que podemos culpar a Deus quando existe frieza espiritual em nosso meio, mesmo sabendo que em outras igrejas há fervor espiritual, há muitas conversões etc? Será que o Senhor não é o mesmo? Resta, então, a cada um de nós, e a todos nós, fazer como Josué (7.6). Humilhou-se e buscou a explicação e orientação divinas para o caso. Não adianta somente nos prostrarmos diante de Deus e simplesmente dizer: “– Senhor, se tenho pecado perante ti, perdoa-me”. A Bíblia é o padrão de conduta do crente. A nossa conduta perante o Senhor só pode melhorar se nos moldarmos segundo o padrão apresentado em sua Palavra.

5. A restauração da comunhão exige providências

As muitas misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos e nos permitem o retorno à normalidade, isto é, a restauração da comunhão com Deus. Há três passos claramente indicados no texto (Js 7.10-15):

a) Ouvir a voz de Deus (Js 7.10-12)

A frustração, lamentação e clamor de Josué não ficaram sem resposta. Deus lhe revelou o que estava acontecendo. A Palavra de Deus está expressa na Bíblia. Ela deve atuar preventivamente (Sl 119.11) e corretivamente (2Tm 3.16-17).

b) Buscar a santificação (Js 7.13)

“Dispõe-te, santifica o povo e dize: Santificai-vos para amanhã, porque assim diz o SENHOR, Deus de Israel: Há coisas condenadas no vosso meio, ó Israel; aos vossos inimigos não podereis resistir, enquanto não eliminardes do vosso meio as coisas condenadas.”

Sem santificação não há comunhão; sem comunhão não há poder. Todo o povo deveria se santificar e manter-se santificado se quisesse contar com o poder de Deus agindo a seu favor. Esse também é hoje o grande desafio da igreja.

Para nossa reflexão:

  • Até que ponto seria utopia, idealismo, pensar numa igreja sem mácula? Não podemos aceitar que isso seja utopia! Para esse fim Cristo se entregou por ela (Ef 5.25b-27). Entendemos que isso não significa que os membros da igreja deixarão de pecar. Mas sim, que os remidos do Senhor terão o ardente desejo de não pecar (Hb 10.22-24).
  • Se é necessária a santificação de todos os membros da igreja, para que haja poder e manifestação do Espírito Santo, então é quase impossível que isso ocorra? Mesmo que seja tão difícil, esta unidade de propósito, não é impossível. Já tem ocorrido muitas vezes, em vários lugares. No entanto, isto é tão importante que o apóstolo, quando se dirigia às igrejas sobre este assunto, usava a expressão “Rogo-vos…” (Rm 12.1; 1Co 1.10; Ef 4.1; Fp 4.2). É por isso que damos tanta ênfase a este assunto.
  • Mas, se o joio está semeado entre o trigo, como é possível, então, a santificação da igreja? Quanto ao joio, embora atrapalhe bastante, não faz parte da igreja. Entendemos que o “rogo-vos” do apóstolo Paulo não foi e não é dirigido ao joio. Estes são parasitas que, a seu tempo, serão cortados pelo Senhor.

c) Exercer a disciplina (Js 7.14-15)

A disciplina não é uma opção, é uma necessidade; quer na família, quer na igreja, quer em qualquer outra instituição da sociedade. É interessante a abordagem que considera a disciplina eclesiástica em três níveis: preventiva, corretiva e cirúrgica ablativa1.

1º) Disciplina preventiva

A disciplina eclesiástica preventiva é aquela que se esforça para ensinar os referenciais bíblicos, portanto seguros e confiáveis, de conduta e comportamento, de modo que o crente tenha onde se ancorar. Isso é feito através da ministração da Palavra de Deus e de bons exemplos de vida dos líderes. O apóstolo Paulo se ocupava e se empenhava diuturnamente nessa lida, diante de tantas igrejas emergentes. Esse precisa ser um trabalho contínuo com vistas a construir alicerces inabaláveis de princípios e padrões morais e espirituais, na tentativa de prevenir a prática do pecado.

2º) Disciplina corretiva

A disciplina corretiva se impõe como necessária quando a prática do pecado é verificada. No ensino do Senhor Jesus Cristo, em Mateus 18.15-20, ela pode e dever ser exercida de forma equilibrada e curativa, respeitando-se três estágios de poder de persuasão crescentes e progressivos: o ofendido e o ofensor; o ofendido e algumas testemunhas e o ofensor; a igreja e o ofensor.

3º) Disciplina cirúrgica ablativa

A disciplina eclesiástica cirúrgica ablativa é o nível extremo e, portanto, mais traumática e se impõe quando todas as tentativas anteriores não surtiram efeito e o infrator mantém-se impenitente. O termo “cirúrgico ablativo” se aplica pela similaridade figurada entre se extirpar do corpo humano um tumor e se desligar do corpo de Cristo, a Igreja, um membro que se recusa a arrepender-se e a deixar o pecado.

A responsabilidade de julgar, disciplinar, cassar privilégios e excluir do rol de membros é prerrogativa da igreja ou de sua liderança formalmente constituída e por delegação desta, fundamentado nas Escrituras e na autoridade delegada do Senhor e cabeça da Igreja (Mt 18.17-20).

Esse terceiro nível foi o caso da disciplina aplicada a Acã, seus filhos, suas filhas, seus animais, sua tenda e tudo o que possuía. Eles foram apedrejados e, depois, tudo foi queimado, no vale de Acor (Js 7.22-26). A Lei Mosaica previa meios de perdão e restauração do transgressor. Entretanto, neste caso, a soberania divina determinou, de imediato, a sentença de morte. A família de Acã também foi punida, pois, provavelmente foi cúmplice de seu pecado (Dt 24.16). Em alguns casos narrados na bíblia, a punição divina pode parecer ser excessiva, mas tem a explícita intenção de ser exemplar, como neste caso ou no caso de Ananias e Safira, por exemplo.

Conclusão:

Pode-se dizer que essa ideia de levar vantagem em tudo não é coisa tão recente assim, nem é marca registrada do povo brasileiro. Acã, no Antigo Testamento; e,  Ananias e Safira, no Novo Testamento, são bons exemplos disso.

Finalmente, podemos concluir que os efeitos do pecado em nossa vida hoje são tão maléficos como nos dias de Jericó. Quando o Espírito Santo é persistentemente ofendido, mostrará a sua tristeza, retirando primeiramente o seu poder e, depois, o seu testemunho. Se isso não for o suficiente para trazer de volta o crente inconstante, então é certo que virá o açoite da correção.

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1 CIRURGIA ABLATIVA:  Tipo de cirurgia em que se remove parte, ou todo, do órgão afetado pelo câncer.

Autor: Paulo Raposo Correia

Um servo de Deus empenhado em fazer a sua vontade.

3 comentários em “O pecado de Acã”

  1. Gostei muito da mensagem.
    Vivemos num momento muito parecido com os tempos passados, com a agravante de que existem muito mais Acãs e Ananias.
    Recentemente irmão Paulo, li um livro do saudadoso irmão William Macdonald, entitulado:
    O mandamento esquecido: “Sejam Santos”
    A mensagem de hoje, e o livro, refletem o grave momento no meio do povo de Deus.
    Abraços.

  2. VERDADES QUE HOJE NAO OUVIMOS MAIS EM NOSSOS PULPITOS INFELISMENTE,E QUE POR CONTA DISSO ,CENTENAS DE ALMAS TEM SE PERDIDO,PORQUE NAO DOAM SEU TEMPO PRA LER A PALAVRA DE DEUS,E PORQUE MUITOS PASTORES POR CAUSA DE DINHEIRO TEM SE CALADO ,MUITOS TEM FEITO VISTA GROSSA PARA O PECADO MAIS UM DIA AO DE PRESTAR CONTAS DIANTE DE DEUS

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