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Uma síntese da igreja local

Texto base: Jo 12.1-8 (comp. Mt 26.6-13 e Mc 14.3-9)

Introdução

Deixando a Peréia rumo a Jerusalém Jesus anuncia aos doze, pela terceira vez, que lá ele será condenado e morto (Lc 18.31-34). Atravessando o Jordão, perto de Jericó, demora-se um pouco na cidade. Cura o cego Bartimeu (Lc 18.35-43) e encontra-se com Zaqueu (Lc 19.1-10). Continua a sua viagem em companhia dos doze e das multidões de peregrinos que, em verdadeira romaria, subiam a Jerusalém para participarem da festa da páscoa.

Jesus e os doze deixam a multidão e entram numa aldeia chamada Betânia, a uns 3 km de Jerusalém, onde morava uma família muito especial para ele – Lázaro, Marta e Maria. Eles tinham as portas de sua casa sempre abertas para receber e hospedar o Mestre e seus discípulos. Jesus os amava e tinha grande prazer nesse convívio. Jesus chega na sexta-feira à tarde, passa o sábado (judaico) em Betânia e parte para Jerusalém no domingo, onde é aclamado pelas multidões. Os comentaristas bíblicos que buscam harmonizar os Evangelhos identificam esta ceia com a narrada por Mateus e Marcos, 2 dias antes da páscoa, em casa de Simão, o leproso, ali mesmo em Betânia, apesar de existirem muitas diferenças entre elas.

Uma reflexão mais demorada sobre o cenário descrito neste texto por João poderá levar a percepções variadas, como, por exemplo, UMA SÍNTESE DA IGREJA LOCAL. A ceia oferecida a Jesus, certamente com o objetivo maior de expressar gratidão pelos seus feitos, principalmente a ressurreição de Lázaro, reforça esta ideia de igreja, pois na Santa Ceia nos reunimos para estarmos em comunhão com ele, lembrando e rendendo graças pelo seu sacrifício na cruz a nosso favor.

Tomando por base este cenário e as particularidades de cada personagem envolvido, isto é, daqueles que foram mencionados nominalmente, podemos entender melhor a composição e os ministérios da igreja local. Conhecer esses aspectos da igreja é progredir na maturidade cristã.

1. O SIGNIFICADO DE JESUS

 Jesus sozinho não constitui a igreja. Da mesma forma, uma associação de pessoas, sem Jesus, pode ser qualquer coisa, menos uma igreja local. A igreja nasceu no dia do Pentecostes pela ação de Jesus, enviando sobre aquela “assembleia ou grupo de pessoas chamadas para fora (do mundo) – no grego, ekklesiaEk + Kaléo (Jo 17.14; Fp 3.20; 1Pe 2.13)”, seu alter-ego (outro igual), o Espírito Santo. Portanto, Jesus é o fundamento e o cabeça da igreja.

 2. O SIGNIFICADO DE LÁZARO

 Lázaro nos é descrito como sendo alguém que fora ressuscitado dentre os mortos e “..um dos que estavam à mesa..”, desfrutando de comunhão com Jesus. Seu nome era muito comum entre os Judeus e significa “Deus ajudou“.

Quem era este Lázaro, além de irmão de Marta e Maria?

a) Era alguém que trazia em seu corpo a sentença de morte (Jo 11.1, 14 => Rm 6.23 “o salário do pecado é a morte”);

b) Era alguém amado por Jesus (Jo 11.3,5; 33-36 => Jo 3.16);

c) Era alguém que esteve morto e reviveu, porque atendeu ao chamado de Jesus (Jo 11.44a => Ef 2.1; Jo 6.37);

d) Era alguém que recebeu a graça de Deus, sem nada fazer para isso (Jo 11.39 => Ef 2.8);

e) Era alguém que experimentou a libertação das coisas que o impedia de andar, de fazer, de ver e de ouvir, o que aponta para a santificação (Jo 11.44b => Rm 6.6);

f) Era alguém que testemunhou silenciosamente do poder vivificador de Deus, levando outros a crerem em Jesus (Jo 12.10-11 => 1 Co 6.11).

Lázaro, portanto, representa aqueles que compõem a igreja local. As informações sobre sua pessoa falam, figuradamente, do ingresso na igreja e, por extensão, do MINISTÉRIO DE EVANGELIZAÇÃO, operado naqueles que compõem a igreja e através destes a muitos outros, quer pelo testemunho de vida, quer pela Pregação do Evangelho.

3. O SIGNIFICADO DE MARTA

Marta é apresentada por João como aquela que participava da ceia, servindo. Em uma visita anterior de Jesus a esta família, somos informados por Lucas (Lc 10.38-42) que Marta também estava envolvida com os serviços materiais:

– hospedou-o em sua casa;

– Agitava-se de um lado para o outro, ocupada em muitos serviços.

Naquela ocasião, sua preocupação em servir bem era tanta que chegou a cobrar de Jesus sua intervenção para que Maria a ajudasse, sendo por ele advertida. Seu grande erro foi o de não fazer sua parte com moderação, satisfação e espontaneidade. Infelizmente, através dos tempos, Marta tem levado a fama de mulher materialista, por causa desse incidente com Maria. É pena que essa sua fraqueza tem chamado mais a atenção do que as suas virtudes de mulher prática e serviçal.

Agora vemos uma Marta fazendo o que melhor ela sabia fazer – servir – porém com espírito diferente, sem aquele ativismo onde o foco é “o fazer” e não “para que fazer”. Não se trata de querer colocar a sua parte como a mais importante. Entretanto, era igualmente necessária.

A quem era dedicado o serviço de Marta?

a) A Jesus. Servimos a Jesus indiretamente quando servimos ao nosso próximo (Mt 25.35-40);

b) A sua família. Servimos aos domésticos da fé, porque somos membros de um só corpo;

c) Aos demais. Servimos ao nosso próximo, porque o amamos como a nós mesmos.

Um jovem perguntou a um sábio sobre as coisas mais importantes: 1ª) Qual é o Tempo mais importante? Ele respondeu: o “agora”; 2ª) Qual a Pessoa mais importante? Ele respondeu: a que está à sua frente; 3ª) Qual a Tarefa mais importante? Ele respondeu: fazer esta pessoa feliz, agora!

Marta, portanto, representa o MINISTÉRIO DE SERVIÇOS da igreja (Social, Assistencial, Material etc.), que é um ministério de caráter horizontal, isto é, na direção do próximo, porém, indiretamente é como se o estivéssemos fazendo ao Senhor (Mt 25.40).

4. O SIGNIFICADO DE MARIA

De Maria não poderíamos esperar outra apresentação, senão como “aquela que estava aos pés de Jesus fazendo alguma coisa”. Muitos se colocaram aos pés do Senhor apenas para serem atendidos em suas necessidades; este porém não era o caso de Maria.

Maria não encontrava lugar melhor para ficar, senão aos pés de Jesus. Ela tinha, pelo menos, três razões para estar ali:

a) Ouvir os ensinamentos de Jesus (Lc 10.39)

Para aprender a respeito das coisas espirituais e da vida prática.

b) Expressar sua angústia e suplicar bênçãos (Jo 11.32)

c) Louvar e Adorar ao Senhor (Jo 12.3)

    Louvor – Por tudo o que Deus é em si mesmo, seus atributos;

    Adoração – É render-lhe um verdadeiro culto pelo que ele é e pelo que ele tem feito a nosso favor, em Cristo.

A maneira que ela encontrou de cultuar a Jesus foi ungir-lhe os pés com um perfume muito caro. E nós, como temos cultuado a Deus? Um dos indicadores da maturidade cristã é o nível de investimento na obra de Deus. A igreja, em qualquer tempo, tem muito a aprender com Maria sobre a “TEOLOGIA DOS PÉS DE JESUS”.

Maria, finalmente, representa três ministérios da igreja: MINISTÉRIO DE ENSINO, DE ORAÇÃO E DE ADORAÇÃO, que são ministérios de caráter espiritual e, de certa forma, vertical, isto é, na direção de Deus: trazendo as verdades e ensinos de Deus, até nós; conduzindo-nos à presença de Deus.

5. O SIGNIFICADO DE JUDAS ISCARIOTES

Seria bom se a igreja local pudesse ser totalmente representada pelos quatro personagens comentados anteriormente. É bom ter em mente que a igreja local se diferencia da igreja universal, invisível, por abranger aqueles que não são verdadeiros discípulos de Cristo e não incluir no seu rol aqueles que ainda não tiveram o ensejo de professar a sua fé em Jesus, além, é claro,  dos salvos que já partiram para a eternidade.

Na verdade, ainda que supostamente em menor escala, a igreja local tem os seus Judas Iscariotes. Eles estão no meio do povo de Deus, embora não façam parte dele. É o joio no meio do trigo, que um dia será separado. Quem são estes? São aqueles que jamais passaram por uma experiência de regeneração, de novo nascimento. São aqueles estão na igreja buscando a satisfação de seus próprios interesses ou porque se sentem confortáveis, protegidos e seguros no ambiente cristão. São aqueles que não permitem que Cristo viva através de suas vidas.

Conclusão

Assim, temos aqui sintetizada a igreja local:

Jesus – Seu fundamento e cabeça

Lázaro – Composição e Ministério de Evangelização (Kerigma);

Marta  – Ministério de Serviços;

Maria  – Ministérios de Ensino, de Oração e de Adoração.

Judas Iscariotes – Os falsos crentes (o joio).


Catedral Presbiteriana do Rio
19/01/1997 – Culto Vespertino (19h)
Esboço da Mensagem pregada pelo então Diácono Paulo Raposo Correia

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Parece JOSÉ, mas é JUDAS !

Já se foi o tempo em que alguém se apresentava como crente, membro de uma igreja Evangélica, e você ficava tranquilo, porque podia confiar. Não hesitaria em indicá-lo ou contratá-lo como empregado(a), ou para ser uma trabalhadora doméstica. Emprestava e era certo receber de volta. Os tempos mudaram. Já ouvi casos de crentes, até mesmo oficiais de igreja (diáconos) furtando dinheiro das ofertas de suas igrejas. A que ponto chegamos! Muita atenção ao lidar com pessoas chamadas cristãs, mesmo que sejam seus parentes, porque algumas tentam aparentar uma coisa, quando na realidade são outra. Parecem José, mas são Judas. Fazem questão de se aproximar de qualquer atividade que mexa com dinheiro. Por que será? E, como o velho Judas, acham que nunca serão descobertas….

Veja só as semelhanças e diferenças entre José e Judas e não caia numa boa conversa!

José, o décimo primeiro filho de Jacó é conhecido como o Estadista do Egito. Seu nome hebraico significa: “possa ele (Deus) acrescentar”. Ele foi o mais completo tipo de Jesus Cristo. Foi o salvador de povos em sua época.

Judas Iscariotes, o homem de Queriote. Nada é dito na Bíblia do seu passado além da sua cidade natal vinculada ao seu nome. Uma frase pode resumir a sua vida: Tão perto do Salvador, mas tão longe da Salvação. O seu título maior – o traidor do Messias. Isso foi conquistado não por determinação ou predestinação divina; porém, por sua própria e deliberada vontade.

ALGUMAS SEMELHANÇAS E DIFERENÇAS:

a) Ambos se tornaram personalidades famosas, conhecidas no mundo inteiro. Chamaram a atenção pelos seus feitos.

José, como símbolo do bem e Judas, como a própria encarnação do mal!

b) Ambos fizeram parte de projetos especialíssimos e estratégicos de salvação de pessoas:

José, de um projeto de salvação do mundo Egípcio e nações vizinhas fadados ao aniquilamento e extinção, pela fome.

Judas, de um projeto de salvação do mundo Judeu e nações gentílicas fadados à perdição eterna, pelo resultado do pecado. Notadamente, o projeto do qual José participou era de natureza material. Por outro lado, o projeto do qual Judas participou era de natureza espiritual. Entretanto, José teve um comportamento espiritual e Judas, um comportamento carnal.

c) Ambos integraram grupos, com lideranças definidas.

José integrou o grupo dos doze filhos de Jacó, liderado por Jacó, que é a base e fundamento da nação de Israel, o povo escolhido de Deus.

Judas integrou o grupo dos doze apóstolos, liderados por Jesus, que é a base e fundamento da Igreja (Ef 2.20), o novo povo escolhido de Deus.

d) Ambos trilharam seus próprios caminhos, mapeados pela narrativa bíblica:

José, um adolescente mimado, confuso e protegido do pai, precisou perder tudo, para parar de se preocupar apenas com o seu próprio status, conforto e bem-estar pessoal, para aprender a depender somente de Deus e para aprender a distribuir os bens materiais por todos os seus irmãos e demais seres humanos.

Judas, um homem feito, determinado, egoísta, sonso, teve toda a oportunidade possível para aprender com o Mestre dos mestres sobre o amor ao próximo, a solidariedade humana e a compaixão. Entretanto, preferiu se aproveitar materialmente de uns poucos trocados pertencentes ao seu grupo em benefício próprio. Triste escolha. Valiosa oportunidade perdida.

e) Ambos exerceram um papel, desempenharam uma função que tinha tudo a ver com provimento e administração de recursos materiais. Recursos esses que deveriam ser bem geridos em prol do bem-estar de todo o grupo.

José, orientado e dependente de Deus, na qualidade de administrador de Faraó, demonstrou algumas das mais importantes qualidades de um mordomo dos bens alheios:

– Humildade: “… escolha Faraó um homem ajuizado e sábio e o ponha sobre a terra do Egito.” (41.33)

– Temor e convicção: “Deus dará resposta….” (41.16)

– Propriedade e clareza: “O sonho de Faraó é….” (41.25)

– Senso de urgência: “… e Deus se apressa a fazê-la.” (41.32)

– Competência de administrador: “Faça isso Faraó…” (41.34)

– Transparência administrativa: “Assim, ajuntou José muitíssimo cereal, como a areia do mar, até perder a conta, porque ia além das medidas.” (41.49). O resultado da sua boa administração foi armazenado nos celeiros de Faraó e era visível a todos.

Judas, movido pela ganância e pela intenção de levar vantagem em tudo, na qualidade de “gerente financeiro” do grupo de Jesus, demonstrou algumas das mais características marcas de um péssimo, interesseiro e defraudador mordomo dos bens alheios:

– Traidor, infiel, que age premeditadamente contra o seu “patrão”: “Mas Judas Iscariotes, um dos seus discípulos, o que estava para traí-lo, disse:” (Jo 12.4).

– Desprezo ao seu “patrão” reduzindo-o ao valor de um escravo: “Que me quereis dar, e eu vo-lo entregarei? E pagaram-lhe trinta moedas de prata.” (Mt 26.15)

– Falso interesse pelo próximo: “Por que não se vendeu este perfume por trezentos denários e não se deu aos pobres? Isto disse ele, não porque tivesse cuidado dos pobres;” (Jo 12.5). Na verdade, o que lhe interessava era o próprio umbigo.

– Falta de transparência, ausência de prestação de contas; pois fazia retiradas sem autorização: “Mas porque era ladrão e, tendo a bolsa, tirava o que nela se lançava. (Jo 12.6)

– Aparente afetividade e carinho, porém com fins escusos. “E, logo que chegou, aproximando-se, disse-lhe: Mestre! E o beijou.  Então, lhe deitaram as mãos e o prenderam.” (Mc 14.45-46). Administradores como Judas precisam conquistar a confiança do patrão para poder meter a mão.

Cuidado!!!!!  Parece José, mas é Judas!!!

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