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Posts Tagged ‘Integridade’

Limpos no meio da lama

Apocalipse 22.10-11; Efésios 5.1-17

Introdução:

Viver com integridade, diante de Deus e dos homens, é um desafio que acompanha o ser humano desde a sua criação. Será que, nos dias atuais, está mais difícil vencer este desafio? Uns acham que sim, outros acham que não e, cada um tem as suas razões para fundamentar o seu ponto de vista. No Salmo 15, Davi descreve, em termos muito práticos, o perfil ou características do cidadão dos céus: “Quem, SENHOR, habitará no teu tabernáculo? Quem há de morar no teu santo monte? O que vive com integridade, e pratica a justiça, e, de coração, fala a verdade; o que não difama com sua língua, não faz mal ao próximo, nem lança injúria contra o seu vizinho; o que, a seus olhos, tem por desprezível ao réprobo, mas honra aos que temem ao SENHOR; o que jura com dano próprio e não se retrata; o que não empresta o seu dinheiro com usura, nem aceita suborno contra o inocente. Quem deste modo procede não será jamais abalado.” O nível de exigência é muito elevado; quem poderá atende-lo, sem vacilar? Ainda bem, que não é por nossos méritos que alcançamos a salvação eterna, mas, mediante a retidão e redenção que há em Cristo Jesus, nosso Salvador!

A lama mais comum é o resultado da mistura de terra com água. Quem vive andando ou transitando sobre o asfalto, já não se dá conta do quão desagradável e complicado é fazê-lo em ruas enlameadas. Para o salmista Davi, o livramento do Senhor é poeticamente descrito assim: “Tirou-me de um poço de perdição, de um tremedal de lama; colocou-me os pés sobre uma rocha e me firmou os passos.” (Sl 40.2). O crente autêntico e consciente tem a mesma sensação de ter sido tirado do lamaçal que é uma vida sem Deus e sem Jesus, a rocha da nossa salvação.  Dali ele jamais sairá. Somente aqueles que nunca foram de Deus retornam e têm prazer em viver na lama (2Pe 2.20-22).

Neste estudo vamos considerar a importância de um viver limpo, no meio de uma geração suja e perversa (Is 57.20), com a indispensável ajuda do Senhor: “O SENHOR firma os passos do homem bom e no seu caminho se compraz; se cair, não ficará prostrado, porque o SENHOR o segura pela mão.” (Sl 37.23-24).

Desenvolvimento:

1. O INJUSTO, CONTINUE NA PRÁTICA DA INJUSTIÇA

“Continue o injusto fazendo injustiça, continue o imundo ainda sendo imundo;” (Ap 22.11a)

O leitor apressado e superficial, quando se depara com um texto como este, no último capítulo da Bíblia, pode até ficar um tanto quanto desconfortável ou, até mesmo, perplexo. Não há no texto bíblico qualquer incentivo ao injusto, quanto a este continuar no seu caminho mau. Porém, se é isso que ele quer fazer, que o faça, sem deixar de considerar as consequências dos seus atos. Não há aqui qualquer contradição bíblica e há de permanecer, até o último dia, a vontade de Deus para o pecador: “Deixe o perverso o seu caminho, o iníquo, os seus pensamentos; converta-se ao SENHOR, que se compadecerá dele, e volte-se para o nosso Deus, porque é rico em perdoar.” (Is 55.7)

Esse texto de Apocalipse foi escrito na perspectiva da consumação dos séculos e dos juízos que antecedem a volta de Cristo. Não há como negar que esse dia está muito próximo. Não é difícil perceber que o contexto de apostasia e impiedade em que vivemos é bem característico dos tempos que precederam os grandes juízos de Deus, no passado. Então, vejamos os seguintes julgamentos registrados na Bíblia e como se vivia, nessas épocas:

1.1 As circunstâncias do juízo do Dilúvio
       (maldade generalizada e desenfreada)

“Viu o SENHOR que a maldade do homem se havia multiplicado na terra e que era continuamente mau todo desígnio do seu coração; (Gn 6.5). A terra estava corrompida à vista de Deus e cheia de violência.” (Gn 6.11). A descrição da conduta humana naquele tempo é impressionante. Nos transmite a ideia de maldade desenfreada, de proporções globais; uma pandemia incontrolável. Uma espécie de metástase social que dizimava qualquer senso de piedade e moralidade de uma civilização com cerca de 1656 anos (3975–2319aC). A solução divina foi destruir a todos (Gn 6.7), pelo Dilúvio, preservando, apenas, uma família, cujo cabeça e líder, Noé, foi descrito como “homem justo e íntegro entre os seus contemporâneos; Noé andava com Deus.” (Gn 6.9). Então, a partir desta família, a terra foi repovoada. E, Jesus, emite o alerta profético: “Pois assim como foi nos dias de Noé, também será a vinda do Filho do Homem.” (Mt 24.37). Quando contemplamos o que acontece, dentro e fora da nossa nação, a sensação que temos também é de maldade generalizada e desenfreada; fora de controle.

1.2 As circunstâncias do juízo da Torre de Babel
(culto ao homem – antropocentrismo)

“Então, desceu o SENHOR para ver a cidade e a torre, que os filhos dos homens edificavam; e o SENHOR disse: Eis que o povo é um, e todos têm a mesma linguagem. Isto é apenas o começo; agora não haverá restrição para tudo que intentam fazer.” (Gn 11.5-6). Havia transcorrido cerca de 175 anos (2319–2144 aC), desde o Dilúvio, e a nova civilização humana já estava outra vez corrompida. Deixando de tributar toda a glória e honra devidas a Deus, deslocaram o seu foco para as realizações humanas (Gn 11.4). A confusão da linguagem e dispersão das pessoas foi o remédio aplicado por Deus para conter o avanço dos maus intentos humanos. Podemos dizer que estamos vivendo o tempo da reversão do fenômeno da Torre de Babel. Os meios de transportes, a tecnologia de comunicação e de informação, e o idioma inglês universal, aproximou os seres humanos de forma surpreendente. Cumpriu-se a profecia de Daniel – a ciência se multiplicou (Dn 12.4). A grande questão agora é a mesma daquela época: “Isto é apenas o começo; agora não haverá restrição para tudo que intentam fazer.”. O que temos visto, então, na civilização atual, é Deus colocado de lado, a Bíblia sendo considerada um livro antiquado e ultrapassado, e o ser humano sendo cultuado pelos seus grandes feitos.

1.3 As circunstâncias do juízo sobre Sodoma e Gomorra
(depravação sexual, soberba, arrogância, descaso e prostituição)

“Disse mais o SENHOR: Com efeito, o clamor de Sodoma e Gomorra tem-se multiplicado, e o seu pecado se tem agravado muito.” (Gn 18.20). O texto deixa claro que os graves pecados dos seres humanos chegam aos céus, em forma de clamor por justiça, exigindo o juízo divino (ver Gn 4.10). Se houvesse ali dez justos, as cidades teriam sido poupadas (Gn 18.32). No registro bíblico da destruição de Sodoma e Gomorra (Gn 18 e 19), não se explicita quais eram os graves pecados deles. Com exceção do episódio em que os homens de Sodoma, rejeitaram as filhas virgens de Ló e preferiram abusar dos dois anjos por ele hospedados (Gn 19.4-9). E esse abuso se traduz em violência e depravação sexual. A palavra sodomia tem origem neste acontecimento e o apóstolo Paulo usa o termo “sodomita” referindo-se à homossexualidade (1Tm 1.10). Foi o profeta Ezequiel quem descreveu a iniquidade de Sodoma: soberba, descaso com o necessitado, arrogância e práticas abomináveis (Ez 16.49-50); e, Judas registra que havia ali prostituição (Jd 1.7). A homossexualidade é considerada uma abominação (Lv 18.22).

2. O JUSTO, CONTINUE NA PRÁTICA DA JUSTIÇA

“o justo continue na prática da justiça, e o santo continue a santificar-se.” (Ap 22.11b)

Por que temer a Deus e perseverar no bom caminho da justiça e da santificação?

2.1 Porque há um Deus que tudo vê

“Os olhos de Deus estão sobre os caminhos do homem e veem todos os seus passos. Não há trevas nem sombra assaz profunda, onde se escondam os que praticam a iniquidade.” (Jó 34.21-22). Ainda que a maldade humana se alastre por toda a terra e a impunidade reine em muitas sociedades, há um Deus que tudo vê, ao qual todos haverão de prestar contas. Nos três juízos divinos acima mencionados, fica claro que nada escapa aos olhos de Deus; que ele ouve o clamor da perversidade humana.

2.2 Porque há um Deus que tudo julga

Em tempos remotos, Jó, no meio do seu sofrimento, olha para a sua integridade e se sente injustamente castigado pelo Altíssimo. Ele, também olha ao seu redor e vê a perversidade dos ímpios e estes aparentemente impunes; se condói com o sofrimento dos pobres e injustiçados, sem que haja quem os socorra. Então faz um desabafo: “Por que o Todo-Poderoso não designa tempos de julgamento? E por que os que o conhecem não veem tais dias?” (Jó 24.1). A história responde a esse questionamento de Jó. São muitos os julgamentos de Deus:

a) Os julgamentos importantes relatados no Antigo Testamento, são: do Dilúvio, da Torre de Babel, de Sodoma e Gomorra, de Faraó e dos egípcios, de Israel no deserto, de Israel no exílio, de várias pessoas, reis e nações.

b) Outros julgamentos, citados no Novo Testamento, são:

– Autojulgamento, pelo qual o crente melhora suas relações tanto com Deus, como com os homens (1Co 11.31)

– Julgamento no seio da igreja, mediante a disciplina de crentes que laboram em erro (1Co 5.1-5; Mt 18.15-17);

– Julgamento das obras dos crentes (Rm 14.10; 1Co 3.11-15; 2Co 5.9-10);

– Julgamento futuro de Israel (Ez 20.33-44; Rm 11.15, 25-29; Ap 7.1-8; ver Sl 50.1-7).

– Julgamento das nações (Mt 25.31-46);

– Julgamento de Satanás (Ap 20.10);

– Julgamento dos anjos que caíram (Jd 1.6; 1Co 6.3; 2Pe 2.4);

– Julgamento dos ímpios, também chamado de Julgamento do Grande Trono Branco (Jo 5.29; Ap 11.18; 20.11-15).

2.3 Porque a intensidade da luz recebida determina o nível de rigor do julgamento divino

Sodoma e Gomorra se tornaram símbolo e referência, de pecado e juízo, na boca dos profetas: Isaías – Is 1.9-10; Jeremias – Jr 23.14; Lm 4.6; Ezequiel – Ez 16.46-48; Amós – Am 4.11; Sofonias – Sf 2.9. No Novo Testamento, isso também não passa em branco para Jesus (Lc 17.29), Paulo (Rm 9.29), Pedro (2Pe 2.6), Judas (Jd 1.7) e João (Ap 11.8). Entretanto, Jesus fez uma declaração surpreendente: “Tu, Cafarnaum, elevar-te-ás, porventura, até ao céu? Descerás até ao inferno; porque, se em Sodoma se tivessem operado os milagres que em ti se fizeram, teria ela permanecido até ao dia de hoje. Digo-vos, porém, que menos rigor haverá, no Dia do Juízo, para com a terra de Sodoma do que para contigo.” (Mt 11.23-24). Jesus mostrou que, nem mesmo Sodoma e Gomorra, mereciam julgamento tão severo, como aqueles que rejeitam o Messias, o seu Reino e os seus discípulos. O ensino de Jesus, neste ponto, inclui ideias de que a rejeição da luz, quanto mais brilhante ela for, trará julgamento mais severo; e que, quanto maior for a luz recebida, maior será a responsabilidade do indivíduo. Sodoma contou apenas com o fraco testemunho de Ló. Mas, as cidades da Galileia, gozaram do testemunho dado pelo próprio Messias. Provavelmente os pecados dos habitantes de Sodoma e Gomorra eram mais graves e numerosos do que os dos habitantes da Galileia. Mas o julgamento dos habitantes da Galileia seria mais severo, em face de terem ouvido a mensagem mais ampla do mensageiro divino. É possível que, nesses ensinos, Jesus tenha incluído a ideia de Julgamentos terrestres, isto é, tipos de juízo como os que foram sofridos por Sodoma e Gomorra, e não somente um juízo vindouro. Alguns intérpretes acham só este último sentido no texto, mas a verdade é que Jesus pode ter indicado mais do que isto.

2.4 Porque precisamos ter uma conduta diferenciada

O texto de Efésios 5.1-17 é autoexplicativo e nos instrui, de forma muito prática, como deve ser o nosso proceder diante do mundo caído e atolado no lamaçal do pecado.

Conclusão:

É preciso ter plena consciência de que estamos, a cada dia que passa, mais próximos da Segunda Vinda de Cristo. É preciso ter plena consciência de que o mundo vai de mal a pior (2Tm 3.13) e que as circunstâncias se tornam cada vez mais parecidas com aquelas que antecederam aqueles três grandes juízos de Deus, no passado, acima mencionados. É preciso ter plena consciência de que toda a perversidade humana, multiplicada nesses últimos tempos, não ficará impune. É preciso ter plena consciência de que, nesses dias difíceis, nos quais vivemos, muitos serão influenciados e levados pela multidão dos que desprezam a Deus, a sua Palavra, a família nos moldes por ele instituída e a sua igreja; mas haverá um remanescente que se conservará fiel ao Senhor.

Tendo plena consciência de tudo isso, vamos nos manter firmes no Senhor, nas suas promessas, alicerçados na sua Palavra, com foco na missão e nas boas práticas, sem perder tempo com questões de menor importância, unidos como igreja para resistirmos no dia mau, enquanto aguardamos a gloriosa manifestação do Senhor Jesus. Amém!

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Como ser íntegro hoje em dia

(O caso Daniel)

Introdução          

“Agora, pois, temei ao SENHOR e servi-o com integridade e com fidelidade;” (Josué 24.14a)
“Então, os presidentes e os sátrapas procuravam ocasião para acusar a Daniel a respeito do reino; mas não puderam achá-la, nem culpa alguma; porque ele era fiel, e não se achava nele nenhum erro nem culpa.” (Daniel 6.4)

Integridade é o estado ou característica de alguém ou algo que está inteiro, que não sofreu qualquer diminuição; aderência firme a um código de valores; plenitude, inteireza, completude, unidade, totalidade. A integridade, ou a falta desta, é relevante, pelas consequências, em qualquer área da nossa existência.

Nos indivíduos, temos, por exemplo, integridade física ou corporal, mental, moral, espiritual, sentimental, profissional etc. Na Tecnologia da Informação (TI) fala-se em integridade dos sistemas, dos processamentos, da segurança da informação (disponibilidade – o tempo máximo que a informação está disponível; autenticidade – quando mais próxima do texto ou situação original mais autêntica se torna a informação prestada; e, confidencialidade – a garantia de que somente pessoas autorizadas terão acesso a determinada informação. No jornalismo responsável, é preciso zelar pela integridade da fonte da informação; do informante e da própria informação. Nas redes sociais, a avalanche de “fake news” (notícias falsas) é um fenômeno preocupante nessa era da hipermodernidade em que vivemos, capaz de influenciar o ambiente social e político de forma a ameaçar o sistema democrático. Não é sem razão que muita energia tem sido dispendida pelos governos no sentido de buscar uma forma adequada de criminalizar os que se utilizam desse ilegítimo expediente.

Integridade é uma questão que nunca sai da pauta divina e nem da pauta humana. Em certas épocas e determinadas sociedades foi mais ou menos levada a sério, tanto no ambiente secular, como no religioso.

Neste artigo procuraremos estudar “o caso Daniel”, extraindo dele conceitos e ensinamentos para o nosso cotidiano, porque precisamos aplicá-los e fazermos a diferença, pois somos sal da terra e luz do mundo.

A pergunta que precisamos responder aqui é: como ser íntegro hoje, ou em qualquer tempo; e em qualquer lugar (sozinhos, na família, na igreja e na sociedade)?

1. Integridade não é uma questão de opção!

Há um bom tempo atrás assisti uma pequena animação produzida para reflexão em cursos de formação gerencial, “The Divided Man” (O Homem Dividido)(*). O homenzinho seguia sozinho, caminhando estrada afora; nas retas, nas curvas e nas muitas subidas e descidas. Depois de muito caminhar, a estrada à sua frente apresentava uma bifurcação. Ele para, fica confuso e indeciso. Ameaça seguir pela esquerda e retorna. Ameaça seguir pela direita e retorna. Então, acontece o imprevisível: ele se divide verticalmente ao meio e cada parte segue por um dos lados do caminho. Mais adiante aparece a metade que seguiu pela direita, caminhando solitária pela estrada, até que se depara com uma nova bifurcação. Ameaça seguir, novamente, pela direita, porém recua. Aí, vem à sua mente a lembrança e saudade da outra metade que havia seguido pela esquerda. Então, resolve seguir pela esquerda. A caminhada solitária continua até que as duas estradas desembocam numa só e, as duas partes se reencontram. Se entreolham, surpresas com o reencontro, e se aproximam rapidamente na tentativa de se fundirem. Qual não foi a surpresa quando descobriram que não mais se encaixavam, pois uma das partes havia crescido muito mais do que a outra. Mesmo assim, resolvem se fundir e prosseguir, caminhando com dificuldade, como uma criatura híbrida. Quantas lições podem ser extraídas desta singela animação? Algumas, mas, talvez, a principal é que quando você “se divide” nas “bifurcações da vida” sofrerá, mais à frente, consequências sérias e danosas. Podemos destacar, pelo menos duas razões básicas para sermos íntegros, diante de Deus e dos homens:

1ª) Integridade é uma questão de demanda divina

Integridade, retidão e perfeição é o que Deus espera e exige do seu povo. A Abrão, disse: “Eu sou o Deus Todo-Poderoso; anda na minha presença e sê perfeito.” (Gn 17.1b) e a Israel “Perfeito serás para com o SENHOR, teu Deus.” (Dt 18.13). E, Jesus, ratifica: “Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste.” (Mt 5.48); “Não podeis servir a Deus e às riquezas.” (Mt 6.24b). Pode se dizer, também, que é uma imposição da fé cristã que professamos, pois foi para isso que Jesus veio ao mundo e deu a sua vida. Para gerar novas criaturas livres da condenação e do poder (domínio) do pecado. É certo que haverá muita luta interior, da carne contra o espírito e vice-versa (Gl 5.17; Rm 7.15-25; Hb 12.4). Porém, somos mais que vencedores, em Cristo.

Vale lembrar o destaque dado, no registro bíblico, a pessoas consideradas íntegras: Noé (Gn 6.9), Jó (Jó 1.1) e Daniel (Ez 14.20). E, ainda, que o Senhor observa e recompensa o íntegro (Sl 18.25).

2ª) Integridade é uma questão de preservação

Jesus ensinou que um reino, uma cidade, uma casa, divididos contra si mesmos não subsistirão (Mt 12.25; Mc 3.24). Por extensão, uma igreja ou uma pessoa, divididos contra si mesmos não subsistirão (1Co 1.13). Não há emprego que resista quando se está dividido entre as tarefas submetidas pelo empregador e as ocupações extra emprego, no horário de expediente. Não há casamento que resista quando se está dividido entre o seu cônjuge e outra pessoa fora da relação. Não há fé que resista quando se está dividido entre o seguir a Cristo e ceder aos prazeres e paixões ilícitos do mundo (1Jo 2.15-17). O cristão não tem opção ou licença para tomar a decisão do tipo: “– Hoje, ou neste caso, vou abrir uma exceção; amanhã eu volto a ser íntegro.”

2. Marcas de uma vida íntegra

Ao passar os olhos no livro de Daniel, algumas marcas de sua integridade saltam aos olhos:

2.1 Não se contamina (Dn 1.5-8)

Na história de vida de Daniel fica patente a inconfundível verdade de que, mais importante do que o lugar onde você precisa estar (no caso de Daniel, na corte babilônica, por imposição do exílio; no nosso caso, na escola, no trabalho etc, por uma condição de vida na sociedade) é a sua conduta ali. Uma determinação do rei fora imposta sobre ele, mas ele resolveu não se contaminar. Percebam que ele não reagiu à aprendizagem da cultura e língua dos caldeus, mas à alimentação imposta. Em vez de abordar aqui a sua motivação, no que tange à alimentos proibidos na lei mosaica ou a sua solidariedade aos demais cativos judeus vivendo em condições precárias, aproveitemos para considerar a questão da adesão de um cristão a usos e costumes de uma sociedade pagã. Há uns 50 anos atrás, muitos crentes defendiam uma diferenciação dos descrentes a partir do estereótipo (uso de roupas, pintura de cabelo e unhas etc). Por outro lado, hoje em dia, chega-se ao outro extremo. O estereótipo, o exterior é o de menos. O mais grave mesmo é o comportamento mundano de muitos “chamados crentes”; vivem completamente dominados por um estilo mundano de vida. Gente bebendo socialmente, promovendo festas de casamento com danceteria de arrepiar e repertório de escandalizar, vivendo fornicação e adultério, com linguajar corrompido, expondo as questões internas da igreja nas redes sociais, proferindo mentiras e calúnias. Gente que não assume sua fé e se lhe perguntar, desconversa. Bem-aventurados aqueles que, como Daniel, tomam a firme decisão de se manterem puros e íntegros no meio de uma geração corrompida e corruptora!

2.2 Desfruta de íntima comunhão com Deus

Ele ora e incentiva outros a orar (Dn 2.17-18; 6.10; 9.3-23; 10.2, 12). Nessa intimidade, o Senhor lhe revela mistérios em visão à noite (Dn 2.19). Ele glorifica o Senhor reconhecendo seus atributos inigualáveis, seu domínio sobre tudo e sobre todos; como aquele que capacita os seus para toda boa obra (Dn 2.20-23).

2.3 Permanente busca da glória de Deus

Longe de querer chamar a atenção para si próprio, se vangloriando e usurpando a glória de Deus, ele faz questão de atribuir todos os créditos a quem de direito, ao Deus eterno, imortal; invisível, mas real (Dn 2.28). Ele faz isso tão naturalmente e de modo tão convincente que até os incrédulos conseguem reconhecer a majestade de Deus: “Disse o rei a Daniel: Certamente, o vosso Deus é o Deus dos deuses, e o Senhor dos reis, e o revelador de mistérios, pois pudeste revelar este mistério.” (Dn 2.47).

2.4 Presta serviço à comunidade

Quando nos afastamos do pecado, podemos buscar e desfrutar de íntima comunhão com o Altíssimo. Quando estamos em íntima comunhão com Deus ele se revela a nós e nos capacita para a realização da sua obra e para servir à comunidade. Daniel tinha plena consciência de todo o mal que os caldeus fizeram ao seu povo. Simplesmente poderia recusar-se a colaborar com os seus algozes. Entretanto, quando constituído pelo rei, como governador e chefe de toda a província de Babilônia (Dn 2.48-49), viu nessa investidura uma imperdível oportunidade de ser útil ao próximo, de servir com eficiência e justiça, inclusive sendo bênção para os cativos do seu povo. Afinal, ele sabia que o cativeiro duraria 70 anos; então, era melhor ser agente do bem do que vítima do mal. E, na hora que ele é honrado, não se esquece daqueles que o ajudaram.

2.5 Testemunha com coragem e intrepidez

Manter-se íntegro, diante de Deus e dos homens, implica em assumir riscos e passar por provações. Tanto os amigos de Daniel (Dn 3.8-12), quanto o próprio Daniel (Dn 6.4-9; 11-13) foram vítimas de inimigos invejosos que tentaram tirar-lhes a vida, promovendo o confronto entre sua posição e sua fé e integridade para com Deus. Entretanto, eles não se deixaram intimidar pelas terríveis ameaças, testemunhando com coragem e intrepidez sua fé inabalável num Deus que tudo pode; livrar da morte ou deixar perecer (Dn 3.16-18; Dn 6.10). Ser íntegro é estar disposto a tudo perder por amor a Cristo: “Porém em nada considero a vida preciosa para mim mesmo, contanto que complete a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus para testemunhar o evangelho da graça de Deus.” (At 20.24).

2.6 Tem confiança em Deus, em qualquer situação

Não somos capazes de compreender a extensão e os desdobramentos, nos céus e na terra, quando verdadeiramente decidimos confiar em Deus, entregando nossa vida aos seus cuidados, em toda e qualquer situação. Os céus se enchem de júbilo e a terra recebe o impacto da intervenção divina: “Falou Nabucodonosor e disse: Bendito seja o Deus de Sadraque, Mesaque e Abede-Nego, que enviou o seu anjo e livrou os seus servos, que confiaram nele, pois não quiseram cumprir a palavra do rei, preferindo entregar o seu corpo, a servirem e adorarem a qualquer outro deus, senão ao seu Deus.” (Dn 3.28, ver ainda o impacto sobre Dario – Dn 6.25-27).

2.7 É muito amado por Deus

É gratificante saber que a integridade de Daniel não foi em vão; não passou despercebida diante de Deus. Jesus, o servo modelo, mesmo antes de começar seu ministério terreno, ouviu dos céus: “…: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo.” (Mt 3.17). E, Daniel, também teve o privilégio de ser fortalecido, no crepúsculo do seu ministério, com a sublime declaração angelical: “…: Daniel, homem muito amado,…” (Dn 10.11, 19).

Conclusão:

Dietrich Bonhoeffer (1906-1945)(teólogo e pastor) assim se refere à “graça barata” no seu livro Discipulado: “A graça barata é a pregação do perdão sem arrependimento do pecador, é o batismo sem disciplina eclesiástica, é a comunhão sem confissão de pecados, é a absolvição sem confissão pessoal. A graça barata é a graça sem discipulado, é a graça sem cruz, é a graça sem Jesus Cristo vivo e encarnado.” A fé que nada custa, nada vale. Integridade tem seu preço. Não é uma opção e tem marcas próprias. Somos desafiados a seguir o exemplo de Daniel e de tantos outros heróis da fé, mantendo-nos íntegros em todo o tempo e o tempo todo: “Tu, porém, segue o teu caminho até ao fim; pois descansarás e, ao fim dos dias, te levantarás para receber a tua herança.” (Dn 12.13)


(*)Veja o vídeo: The Divided Man

Dupla Identidade

Vida na igreja e vida fora da igreja

“Quem dera que eles tivessem tal coração, que me temessem e guardassem em todo o tempo todos os meus mandamentos, para que bem lhes fosse a eles e a seus filhos, para sempre!” (Deuteronômio 5.29)

Introdução          

True Lies, “Mentiras Verdadeiras” ou “A Verdade da Mentira” é um filme de ação de 1994, dirigido por James Cameron e estrelado por Arnold Schwarzenegger e Jamie Lee Curtis. Trata-se de uma história de ação e espionagem sobre um agente secreto com vida dupla espionando a própria esposa e terminando por envolvê-la numa terrível trama terrorista. Harry Tasker é um agente secreto de elite que esconde sua profissão de sua esposa Helen, que pensa que ele é um vendedor de computadores. Quando Harry descobre que sua esposa está se encontrando com outro homem, não sabe que é porque ela quer ir atrás de mais aventura em sua vida – não atrás de sexo, como ele imaginava. De alguma forma, ela acaba caindo na mão de perigosos terroristas e dessa vez ele terá que revelar quem realmente é para salvar os dois – ou, até mesmo, ser salvo por ela[1].

Vida dupla ou dupla identidade não é apenas enredo de filme ou de produção literária, mas uma lamentável e frequente realidade na igreja evangélica de todos os tempos. Mais do que dupla, às vezes consegue-se viver, pelo menos por algum tempo, múltiplas identidades, como, por exemplo: na família, na igreja e na empresa. Para não poucos crentes é muito comum dicotomizar, ou dividir a vida, em vida na igreja e vida fora da igreja; vida religiosa e vida social; vida espiritual e vida material. Assim, para estes, o comportamento, na igreja, é um e, fora dela, outro.

Certa mulher, ouvindo o pastor pregar, disse para quem estava ao seu lado: “– Esse é o homem que eu gostaria de ter lá em casa; esse é o homem que eu sempre sonhei como marido; e não aquele que vive lá em casa”. Porém, aquele pastor e pregador era o próprio marido dela. No púlpito e na igreja era amável e atencioso; porém, em casa, egoísta e agressivo. Ser íntegro é ser inteiro, ser completo, em todo o tempo e o tempo todo, como o apóstolo: “E, quando se encontraram com ele, disse-lhes: Vós bem sabeis como foi que me conduzi entre vós em todo o tempo, desde o primeiro dia em que entrei na Ásia,” (At 20.18)

Neste estudo, desenvolveremos o tema proposto, tratando das motivações, dos desdobramentos e consequências da dupla identidade, bem como das ações para se tratar tal comportamento.

1. O que leva uma pessoa a enveredar pelo caminho da dupla identidade?

Que motivações poderiam levar uma pessoa a viver identidades diferentes?

1.1 Um nobre propósito

“Fiz-me fraco para com os fracos, com o fim de ganhar os fracos. Fiz-me tudo para com todos, com o fim de, por todos os modos, salvar alguns.” (1Co 9.22)

Não me recordo de muitas santas e recomendáveis motivações para se viver e aparentar ser aquilo que não se é. Entretanto, veio à minha mente a expressão do apóstolo Paulo, no versículo acima, que usarei como exemplo positivo de “dupla identidade”, com a devida “licença teológica”. O que exatamente ele fez? O que podemos fazer e até que limite, para viver uma outra identidade com o fim de ganhar almas para Cristo? A empatia, o colocar-se no lugar do outro, sempre será um excelente exercício para se buscar uma estratégia adequada de evangelismo. É difícil aceitar que um crente justifique estar participando de alguns eventos ou práticas, mundanos, com o fim de ganhar alguém para Cristo. Não dá para imaginar um crente se drogando, para ganhar um drogado, percebe? Há limite pra tudo! Às vezes não dá para ir muito longe com esta “identidade estratégica” pois seríamos compelidos a pecar contra Deus, o que não nos é lícito.

Às vezes esse nobre propósito pode ser o de salvar um reino, evitar uma tragédia gigantesca. Não consigo me imaginar fazendo o que Husai, amigo e conselheiro do rei Davi fez, quando Absalão se rebelou contra o rei, seu próprio pai, e pretendia matá-lo. Reconheço, entretanto, que as circunstâncias extremamente graves demandaram dele tal procedimento. Em vez de fugir com Davi, abandonando o palácio real, por sugestão deste (2Sm 15.32-37) Husai retornou ao palácio e apresentou-se astutamente a Absalão com o fim de servi-lo e ao povo, obtendo êxito nessa sua primeira investida (2Sm 16.15-19). Tendo ouvido que Aitofel, o conselheiro oficial de Absalão, havia dado um conselho que certamente provocaria a destruição de Davi e do povo que com ele estava, Husai apresentou-se, outra vez, a Absalão para confundi-lo, dando outro conselho que acabou prevalecendo. Assim, Husai salvou a Davi e provocou a derrota e morte de Absalão (2Sm 17).

1.2 Medo de ser discriminado pelo grupo

“O julgamento é este: que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz; porque as suas obras eram más.” (Jo 3.19)

Jesus nunca alimentou falsas esperanças de que os de fora da igreja nos amariam e nos aceitariam como somos e com o que defendemos e praticamos, pelo contrário: “Se vós fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu; como, todavia, não sois do mundo, pelo contrário, dele vos escolhi, por isso, o mundo vos odeia.” (Jo 15.19). Ainda que usando de mordaz ironia, com a intenção de confrontar a presunção dos coríntios, o apóstolo expressa uma dura e inevitável realidade: ”… até agora, temos chegado a ser considerados lixo do mundo, escória de todos.” (1Co 4.13b)

Se Jesus deu sua vida para nos libertar das práticas pecaminosas em que vivem os de fora da igreja, por que tanta preocupação de não ser rejeitado pelos tais? “o qual se entregou a si mesmo pelos nossos pecados, para nos desarraigar deste mundo perverso, segundo a vontade de nosso Deus e Pai,” (Gl 1.4). Há um divisor de águas entre o viver cristão e o viver do não cristão. Necessariamente, o seguir a Cristo, nos conecta a um padrão moral e ético nos termos daquele apresentado por Jesus no Sermão do Monte; nos faz ter usos e costumes diferenciados, nos faz repelir toda sorte de sincretismo. Por isso, nesses novos tempos, evangelizar se tornou um tremendo desafio; pode ser visto como invasão de privacidade e, na empresa, descumprimento de código de ética.

Um tipo característico de dupla identidade é o que popularmente e em tom de brincadeira se apelida de “crente camaleão”. É interessante observar algumas das características dos camaleões, aplicando-as a esse tipo de crente: a) Este réptil se adapta facilmente ao ambiente em que está, tendo a capacidade de mudar de cor e, assim, se camuflar.  Tal crente se amolda facilmente ao ambiente da igreja, quando está na igreja, e ao mundanismo, quando fora da igreja. b) Este réptil pode mover seus olhos em duas direções, ao mesmo tempo. Tal crente consegue direcionar seu olhar para o reino de Deus e para o mundanismo, ao mesmo tempo. c) Este réptil tem uma língua muito grande e rápida no gatilho para pegar suas presas. Tal crente tem muita lábia para enganar as pessoas, desfazer amizades e destruir reputações. d) Este réptil geralmente pode comer de tudo. Tal crente geralmente se alimenta de tudo que lhe é oferecido pela igreja e pelo mundo, sem a preocupação de distinguir o certo do errado, o que convém do que não convém.

Para descontrair, vejam alguns tipos estranhos de crente:

  • Crente 190: só busca a Deus em caso de emergência.
  • Crente Abacaxi: é casca grossa e espeta os outros.
  • Crente Açúcar: se for para a igreja com chuva, derrete.
  • Crente Agente Secreto (ou 007): ninguém sabe que ele é crente.
  • Crente Alvenaria: acha que Deus é pedreiro e só o busca quando a casa cai.
  • Crente Aranha: vive na rede social.
  • Crente Avestruz: vive escondendo a cabeça em baixo da terra quando tem um problema.
  • Crente bom de Canto: vive no canto, não quer saber de trabalhar!
  • Crente Bule: aquele de “pô café” (pouca fé).
  • Crente Cabeleireiro: vive só para fazer a cabeça dos outros.
  • Crente Camaleão: vive camuflado, se amolda ao ambiente onde está.
  • Crente Carrinho-de-mão: só anda se alguém empurrar.
  • Crente Chiclete: só mastiga a Palavra, mas não a engole.
  • Crente Crocodilo: tem uma boquinha…
  • Crente Elevador: está sempre subindo e descendo na vida espiritual.
  • Crente Escoteiro: só aparece em acampamento.
  • Crente Fantástico: só aparece no domingo à noite.
  • Crente Gabriela: “eu nasci assim, eu cresci assim, e eu sou assim, vou ser sempre assim, Gabriela.
  • Crente Iô-Iô: está sempre saindo e voltando da igreja.
  • Crente Leão: se acha o Rei da igreja.
  • Crente Macaco: vive pulando de igreja em igreja.
  • Crente Mamadeira: nunca cresce, está sempre bebendo leitinho.
  • Crente Miojo: só presta atenção na pregação por 3 minutos.
  • Crente Noé: nunca as coisas são com ele –“noécomigo, irmão”.
  • Crente Noiva: só chega atrasado.
  • Crente Nutella: é o crente moderninho, descolado e liberal.
  • Crente Oba-Oba: “tudo é festa”.
  • Crente Pão de Forma: casca grossa, miolo mole, chato e quadrado.
  • Crente Papagaio: só sabe repetir o que ouve.
  • Crente Piolho: vai pela cabeça dos outros.
  • Crente Pipoca: quando a coisa esquenta ele pula.
  • Crente Quiabo: vive escorregando.
  • Crente Rexona: Bíblia, só debaixo do braço.
  • Crente Rocambole: vive enrolado.
  • Crente Sanguessuga: vive sugando os irmãos.
  • Crente Seis horas: vive pedindo a oração dos irmãos: “seisora” por mim?
  • Crente Submarino: vive sumido, mas de vez em quando aparece.
  • Crente Tesoura: qualquer ideia, ele já corta.
  • Crente Turista: vive passeando e não se envolve na igreja.

Porém, também há esses tipos interessantes de crentes:

  • Crente Avental: em que posso ajudar? (prestativo)
  • Crente Novalgina: vive aliviando a dor do próximo (solidário).
  • Crente Bombril: tem mil e uma utilidades (útil).
  • Crente Corega: está sempre promovendo a união (agregador).
  • Crente Esponja: absorve bem os ensinamentos bíblicos.
  • Crente Peneira: só retém o que é bom.
  • Crente Raiz: é o crente tradicional que ora, lê a bíblia, frequenta a igreja, dá o dízimo e dá bom testemunho.

1.3 Pecado oculto

“Ocultar-se-ia alguém em esconderijos, de modo que eu não o veja? —diz o SENHOR; porventura, não encho eu os céus e a terra? —diz o SENHOR.” (Jr 23.24)

a) O que levaria alguém a praticar e esconder o pecado?

Podemos facilmente identificar pelo menos três causas:

– Vantagens financeiras.

Para muitos, a riqueza e tudo o que o dinheiro pode comprar é verdadeira fonte de felicidade, não importando se os meios de obtenção forem ilícitos.

– Realizações pessoais, superar o outro e exercer poder.

Para outros, exercer poder sobre os outros, realizar os projetos da sua mente e vontade, deixando sua marca pessoal na história da humanidade é tudo o que importa na vida, a que custo for.

– Prazeres carnais e sexuais.

Para não poucos, não há nada mais importante do que dar vazão aos desejos carnais e sexuais ilícitos.

Essas coisas exercem um fascínio implacável sobre aqueles que não têm domínio sobre o pecado e farão qualquer coisa para obtê-las: “Ao contrário, cada um é tentado pela sua própria cobiça, quando esta o atrai e seduz. Então, a cobiça, depois de haver concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, uma vez consumado, gera a morte.” (Tg 1.14-15). O problema do crente com dupla identidade é que ele pretende ganhar o céu, a salvação eterna, sem abrir mão dos seus pecados ocultos que, aparentemente podem lhe conferir certas vantagens ou prazeres. Foi o que aconteceu com Acã (Josué 7). Ele (e todo o povo) estava avisado da proibição divina quanto aos despojos de Jericó, mas achou que poderia dissimular, como se fosse possível esconder algo de Deus (Js 6.17-19).  A cobiça por riquezas ilícitas o atraiu e seduziu (Js 7.21), levando-o à morte (Js 7.25).

O verdadeiro crente, nascido de novo, tem no Senhor e não nas coisas efêmeras desta vida, a sua verdadeira fonte de prazer: “Porque nada temos trazido para o mundo, nem coisa alguma podemos levar dele.” (1Tm 6.7)

b) Que consequências o pecado oculto tem na vida pessoal?

Ninguém peca por falta de aviso. Deus sempre deixa claro, através da sua Palavra e dos seus mensageiros, o que lhe agrada e o que não lhe agrada. Mesmo quando a voz de Deus não se manifestar de forma explícita, ele nos falará através da nossa consciência: “Estes mostram a norma da lei gravada no seu coração, testemunhando-lhes também a consciência e os seus pensamentos, mutuamente acusando-se ou defendendo-se,” (Rm 2.15). O fato é que todos foram informados do que Deus havia determinado, inclusive Acã. O grande problema é o ser humano dar ouvidos à voz de Deus quando a sedução da cobiça berra em seus ouvidos.

Pecados ocultos trazem consequências desastrosas na vida do crente. Quebra a sua comunhão com Deus e provoca a sua ira. Afeta, inevitavelmente, a sua família, podendo desestruturá-la ou destruí-la. Quando os membros da família tomam conhecimento e nada fazem, tornam-se coniventes ou cúmplices desse pecado oculto e assumem, coletivamente, o ônus das consequências de seus atos. Há situações que também afetam a vida profissional do crente, podendo ocasionar problemas no rendimento do trabalho, nos relacionamentos, quebra de confiança e demissão.

c) Que consequências o pecado oculto tem na igreja?

Um pecou, porém, o texto bíblico afirma que todos prevaricaram: “Prevaricaram os filhos de Israel nas coisas condenadas; porque Acã, filho de Carmi, filho de Zabdi, filho de Zera, da tribo de Judá, tomou das coisas condenadas. A ira do SENHOR se acendeu contra os filhos de Israel.” (Js 7.1). Uma laranja podre, espremida no suco, estraga todo o suco. A nossa conduta particular, fora do alcance da igreja, não é só problema nosso, quando pode afetar a relação de Deus com a sua igreja, isto é, no momento em que se torna transgressão a Deus. Assim, Deus se afasta, ficamos por nossa conta e a derrota é certa, como no caso de Israel, na guerra contra Ai.

Algumas consequências dessa quebra de comunhão, são:

– Falsa confiança (Js 7.2-3)
– Decepção com Deus (Js 7.7)
– Humilhação diante do inimigo (Js 7.8)
– Temor e insegurança (Js 7.9)

A derrota na batalha contra Ai foi realmente inesperada e frustrante. Quantas vezes, grandes programações e projetos fracassam porque há pecado encoberto no nosso meio ou há confiança exagerada na capacidade humana? Quantas vezes temos nos sentido no direito de argumentar com Deus sobre a falta de poder espiritual na nossa vida ou mesmo na igreja, quando a culpa está nessa dupla identidade que se alastra pelas igrejas?

 

2. Como a igreja deve lidar com o assunto?

Efetivamente o que ela não pode é se omitir! A restauração da comunhão exige providências: “…já não serei convosco, se não eliminardes do vosso meio a coisa roubada.” (Js 7.12b). Não é sem razão que as Escrituras enfatizam tanto a necessidade de se tratar aquele que está em pecado.  O grande desafio é convencer, líderes e liderados, da relevância disso.

As muitas misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos e nos permitem o retorno à normalidade, isto é, a restauração da comunhão com Deus. Há três passos claramente indicados no texto (Js 7.10-15):

a) Buscar e ouvir a voz de Deus (Js 7.10-12)
b) Buscar a santificação (Js 7.13)
c) Exercer a disciplina (Js 7.14-15)

A disciplina não é uma opção, é uma necessidade; quer na família, quer na igreja, quer em qualquer outra instituição da sociedade: “Mas, quando julgados, somos disciplinados pelo Senhor, para não sermos condenados com o mundo.” (1Co 11.32). É interessante a abordagem que considera a disciplina eclesiástica em três níveis: preventiva, corretiva e cirúrgica ablativa[2]. Esse terceiro nível – cirúrgica ablativa – foi o caso da disciplina aplicada a Acã, seus filhos, suas filhas, seus animais, sua tenda e tudo o que possuía. Eles foram apedrejados e, depois, tudo foi queimado, no vale de Acor (Js 7.22-26). A Lei Mosaica previa meios de perdão e restauração do transgressor. Entretanto, neste caso, a soberania divina determinou, de imediato, a sentença de morte. A família de Acã também foi punida, pois, provavelmente foi cúmplice de seu pecado (Dt 24.16). Em alguns casos narrados na bíblia, a punição divina pode parecer ser excessiva, mas tem a explícita intenção de ser exemplar, como neste caso ou no caso de Ananias e Safira, por exemplo.

 

Conclusão

Pode-se dizer que essa ideia de levar vantagem em tudo não é coisa tão recente assim, nem é marca registrada do povo brasileiro. Acã, no Antigo Testamento; e, Ananias e Safira, no Novo Testamento, são bons exemplos disso. É sempre oportuno cada um avaliar como tem sido sua vida e suas práticas, dentro e fora da igreja. É preciso ser íntegro e inteiro, ter uma só cara, diante de Deus e diante dos homens!

Finalmente, podemos concluir que os efeitos do pecado em nossa vida hoje são tão maléficos como nos dias de Jericó. Quando o Espírito Santo é persistentemente ofendido, mostrará a sua tristeza, retirando primeiramente o seu poder e, depois, o seu testemunho. Se isso não for o suficiente para trazer de volta o crente inconstante, então é certo que virá o açoite da correção divina.

Para nossa reflexão:

  • Até que ponto seria utopia, idealismo, pensar numa igreja sem mácula? Não podemos aceitar que isso seja utopia! Para esse fim Cristo se entregou por ela (Ef 5.25b-27). Entendemos que isso não significa que os membros da igreja deixarão de pecar. Mas sim, que os remidos do Senhor terão o ardente desejo de não pecar (Hb 10.22-24).

 

  • Se é necessária a santificação de todos os membros da igreja, para que haja poder e manifestação do Espírito Santo, então é quase impossível que isso ocorra? Mesmo que seja tão difícil, esta unidade de propósito, não é impossível. Já tem ocorrido muitas vezes, em vários lugares. No entanto, isto é tão importante que o apóstolo, quando se dirigia às igrejas sobre este assunto, usava a expressão “Rogo-vos…” (Rm 12.1; 1Co 1.10; Ef 4.1; Fp 4.2). É por isso que damos tanta ênfase a este assunto.

 

  • Mas, se o joio está semeado entre o trigo, como é possível, então, a santificação da igreja? Quanto ao joio, embora atrapalhe bastante, não faz parte da igreja. Entendemos que o “rogo-vos” do apóstolo Paulo não foi e não é dirigido ao joio. Estes são parasitas que, a seu tempo, serão cortados pelo Senhor.

 

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Veja também o artigo: O pecado de Acã

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[1] Fonte: Wikipédia
[2] CIRURGIA ABLATIVA:  Tipo de cirurgia em que se remove parte, ou todo, do órgão afetado pelo câncer.


Nota: esboço pessoal de aula, preparado por mim, para facilitar a ministração da Aula 5 (Dupla Identidade) – Módulo 3 – Classe de Casais – EBD Catedral 2017, de modo a atender a temática proposta no material elaborado por colaboradores para os alunos.

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