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Como ser íntegro hoje em dia

(O caso Daniel)

Introdução          

“Agora, pois, temei ao SENHOR e servi-o com integridade e com fidelidade;” (Josué 24.14a)
“Então, os presidentes e os sátrapas procuravam ocasião para acusar a Daniel a respeito do reino; mas não puderam achá-la, nem culpa alguma; porque ele era fiel, e não se achava nele nenhum erro nem culpa.” (Daniel 6.4)

Integridade é o estado ou característica de alguém ou algo que está inteiro, que não sofreu qualquer diminuição; aderência firme a um código de valores; plenitude, inteireza, completude, unidade, totalidade. A integridade, ou a falta desta, é relevante, pelas consequências, em qualquer área da nossa existência.

Nos indivíduos, temos, por exemplo, integridade física ou corporal, mental, moral, espiritual, sentimental, profissional etc. Na Tecnologia da Informação (TI) fala-se em integridade dos sistemas, dos processamentos, da segurança da informação (disponibilidade – o tempo máximo que a informação está disponível; autenticidade – quando mais próxima do texto ou situação original mais autêntica se torna a informação prestada; e, confidencialidade – a garantia de que somente pessoas autorizadas terão acesso a determinada informação. No jornalismo responsável, é preciso zelar pela integridade da fonte da informação; do informante e da própria informação. Nas redes sociais, a avalanche de “fake news” (notícias falsas) é um fenômeno preocupante nessa era da hipermodernidade em que vivemos, capaz de influenciar o ambiente social e político de forma a ameaçar o sistema democrático. Não é sem razão que muita energia tem sido dispendida pelos governos no sentido de buscar uma forma adequada de criminalizar os que se utilizam desse ilegítimo expediente.

Integridade é uma questão que nunca sai da pauta divina e nem da pauta humana. Em certas épocas e determinadas sociedades foi mais ou menos levada a sério, tanto no ambiente secular, como no religioso.

Neste artigo procuraremos estudar “o caso Daniel”, extraindo dele conceitos e ensinamentos para o nosso cotidiano, porque precisamos aplicá-los e fazermos a diferença, pois somos sal da terra e luz do mundo.

A pergunta que precisamos responder aqui é: como ser íntegro hoje, ou em qualquer tempo; e em qualquer lugar (sozinhos, na família, na igreja e na sociedade)?

1. Integridade não é uma questão de opção!

Há um bom tempo atrás assisti uma pequena animação produzida para reflexão em cursos de formação gerencial, “The Divided Man” (O Homem Dividido). O homenzinho seguia sozinho, caminhando estrada afora; nas retas, nas curvas e nas muitas subidas e descidas. Depois de muito caminhar, a estrada à sua frente apresentava uma bifurcação. Ele para, fica confuso e indeciso. Ameaça seguir pela esquerda e retorna. Ameaça seguir pela direita e retorna. Então, acontece o imprevisível: ele se divide verticalmente ao meio e cada parte segue por um dos lados do caminho. Mais adiante aparece a metade que seguiu pela direita, caminhando solitária pela estrada, até que se depara com uma nova bifurcação. Ameaça seguir, novamente, pela direita, porém recua. Aí, vem à sua mente a lembrança e saudade da outra metade que havia seguido pela esquerda. Então, resolve seguir pela esquerda. A caminhada solitária continua até que as duas estradas desembocam numa só e, as duas partes se reencontram. Se entreolham, surpresas com o reencontro, e se aproximam rapidamente na tentativa de se fundirem. Qual não foi a surpresa quando descobriram que não mais se encaixavam, pois uma das partes havia crescido muito mais do que a outra. Mesmo assim, resolvem se fundir e prosseguir, caminhando com dificuldade, como uma criatura híbrida. Quantas lições podem ser extraídas desta singela animação? Algumas, mas, talvez, a principal é que quando você “se divide” nas “bifurcações da vida” sofrerá, mais à frente, consequências sérias e danosas. Podemos destacar, pelo menos duas razões básicas para sermos íntegros, diante de Deus e dos homens:

1ª) Integridade é uma questão de demanda divina

Integridade, retidão e perfeição é o que Deus espera e exige do seu povo. A Abrão, disse: “Eu sou o Deus Todo-Poderoso; anda na minha presença e sê perfeito.” (Gn 17.1b) e a Israel “Perfeito serás para com o SENHOR, teu Deus.” (Dt 18.13). E, Jesus, ratifica: “Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste.” (Mt 5.48); “Não podeis servir a Deus e às riquezas.” (Mt 6.24b). Pode se dizer, também, que é uma imposição da fé cristã que professamos, pois foi para isso que Jesus veio ao mundo e deu a sua vida. Para gerar novas criaturas livres da condenação e do poder (domínio) do pecado. É certo que haverá muita luta interior, da carne contra o espírito e vice-versa (Gl 5.17; Rm 7.15-25; Hb 12.4). Porém, somos mais que vencedores, em Cristo.

Vale lembrar o destaque dado, no registro bíblico, a pessoas consideradas íntegras: Noé (Gn 6.9), Jó (Jó 1.1) e Daniel (Ez 14.20). E, ainda, que o Senhor observa e recompensa o íntegro (Sl 18.25).

2ª) Integridade é uma questão de preservação

Jesus ensinou que um reino, uma cidade, uma casa, divididos contra si mesmos não subsistirão (Mt 12.25; Mc 3.24). Por extensão, uma igreja ou uma pessoa, divididos contra si mesmos não subsistirão (1Co 1.13). Não há emprego que resista quando se está dividido entre as tarefas submetidas pelo empregador e as ocupações extra emprego, no horário de expediente. Não há casamento que resista quando se está dividido entre o seu cônjuge e outra pessoa fora da relação. Não há fé que resista quando se está dividido entre o seguir a Cristo e ceder aos prazeres e paixões ilícitos do mundo (1Jo 2.15-17). O cristão não tem opção ou licença para tomar a decisão do tipo: “– Hoje, ou neste caso, vou abrir uma exceção; amanhã eu volto a ser íntegro.”

2. Marcas de uma vida íntegra

Ao passar os olhos no livro de Daniel, algumas marcas de sua integridade saltam aos olhos:

2.1 Não se contamina (Dn 1.5-8)

Na história de vida de Daniel fica patente a inconfundível verdade de que, mais importante do que o lugar onde você precisa estar (no caso de Daniel, na corte babilônica, por imposição do exílio; no nosso caso, na escola, no trabalho etc, por uma condição de vida na sociedade) é a sua conduta ali. Uma determinação do rei fora imposta sobre ele, mas ele resolveu não se contaminar. Percebam que ele não reagiu à aprendizagem da cultura e língua dos caldeus, mas à alimentação imposta. Em vez de abordar aqui a sua motivação, no que tange à alimentos proibidos na lei mosaica ou a sua solidariedade aos demais cativos judeus vivendo em condições precárias, aproveitemos para considerar a questão da adesão de um cristão a usos e costumes de uma sociedade pagã. Há uns 50 anos atrás, muitos crentes defendiam uma diferenciação dos descrentes a partir do estereótipo (uso de roupas, pintura de cabelo e unhas etc). Por outro lado, hoje em dia, chega-se ao outro extremo. O estereótipo, o exterior é o de menos. O mais grave mesmo é o comportamento mundano de muitos “chamados crentes”; vivem completamente dominados por um estilo mundano de vida. Gente bebendo socialmente, promovendo festas de casamento com danceteria de arrepiar e repertório de escandalizar, vivendo fornicação e adultério, com linguajar corrompido, expondo as questões internas da igreja nas redes sociais, proferindo mentiras e calúnias. Gente que não assume sua fé e se lhe perguntar, desconversa. Bem-aventurados aqueles que, como Daniel, tomam a firme decisão de se manterem puros e íntegros no meio de uma geração corrompida e corruptora!

2.2 Desfruta de íntima comunhão com Deus

Ele ora e incentiva outros a orar (Dn 2.17-18; 6.10; 9.3-23; 10.2, 12). Nessa intimidade, o Senhor lhe revela mistérios em visão à noite (Dn 2.19). Ele glorifica o Senhor reconhecendo seus atributos inigualáveis, seu domínio sobre tudo e sobre todos; como aquele que capacita os seus para toda boa obra (Dn 2.20-23).

2.3 Permanente busca da glória de Deus

Longe de querer chamar a atenção para si próprio, se vangloriando e usurpando a glória de Deus, ele faz questão de atribuir todos os créditos a quem de direito, ao Deus eterno, imortal; invisível, mas real (Dn 2.28). Ele faz isso tão naturalmente e de modo tão convincente que até os incrédulos conseguem reconhecer a majestade de Deus: “Disse o rei a Daniel: Certamente, o vosso Deus é o Deus dos deuses, e o Senhor dos reis, e o revelador de mistérios, pois pudeste revelar este mistério.” (Dn 2.47).

2.4 Presta serviço à comunidade

Quando nos afastamos do pecado, podemos buscar e desfrutar de íntima comunhão com o Altíssimo. Quando estamos em íntima comunhão com Deus ele se revela a nós e nos capacita para a realização da sua obra e para servir à comunidade. Daniel tinha plena consciência de todo o mal que os caldeus fizeram ao seu povo. Simplesmente poderia recusar-se a colaborar com os seus algozes. Entretanto, quando constituído pelo rei, como governador e chefe de toda a província de Babilônia (Dn 2.48-49), viu nessa investidura uma imperdível oportunidade de ser útil ao próximo, de servir com eficiência e justiça, inclusive sendo bênção para os cativos do seu povo. Afinal, ele sabia que o cativeiro duraria 70 anos; então, era melhor ser agente do bem do que vítima do mal. E, na hora que ele é honrado, não se esquece daqueles que o ajudaram.

2.5 Testemunha com coragem e intrepidez

Manter-se íntegro, diante de Deus e dos homens, implica em assumir riscos e passar por provações. Tanto os amigos de Daniel (Dn 3.8-12), quanto o próprio Daniel (Dn 6.4-9; 11-13) foram vítimas de inimigos invejosos que tentaram tirar-lhes a vida, promovendo o confronto entre sua posição e sua fé e integridade para com Deus. Entretanto, eles não se deixaram intimidar pelas terríveis ameaças, testemunhando com coragem e intrepidez sua fé inabalável num Deus que tudo pode; livrar da morte ou deixar perecer (Dn 3.16-18; Dn 6.10). Ser íntegro é estar disposto a tudo perder por amor a Cristo: “Porém em nada considero a vida preciosa para mim mesmo, contanto que complete a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus para testemunhar o evangelho da graça de Deus.” (At 20.24).

2.6 Tem confiança em Deus, em qualquer situação

Não somos capazes de compreender a extensão e os desdobramentos, nos céus e na terra, quando verdadeiramente decidimos confiar em Deus, entregando nossa vida aos seus cuidados, em toda e qualquer situação. Os céus se enchem de júbilo e a terra recebe o impacto da intervenção divina: “Falou Nabucodonosor e disse: Bendito seja o Deus de Sadraque, Mesaque e Abede-Nego, que enviou o seu anjo e livrou os seus servos, que confiaram nele, pois não quiseram cumprir a palavra do rei, preferindo entregar o seu corpo, a servirem e adorarem a qualquer outro deus, senão ao seu Deus.” (Dn 3.28, ver ainda o impacto sobre Dario – Dn 6.25-27).

2.7 É muito amado por Deus

É gratificante saber que a integridade de Daniel não foi em vão; não passou despercebida diante de Deus. Jesus, o servo modelo, mesmo antes de começar seu ministério terreno, ouviu dos céus: “…: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo.” (Mt 3.17). E, Daniel, também teve o privilégio de ser fortalecido, no crepúsculo do seu ministério, com a sublime declaração angelical: “…: Daniel, homem muito amado,…” (Dn 10.11, 19).

Conclusão:

Dietrich Bonhoeffer (1906-1945)(teólogo e pastor) assim se refere à “graça barata” no seu livro Discipulado: “A graça barata é a pregação do perdão sem arrependimento do pecador, é o batismo sem disciplina eclesiástica, é a comunhão sem confissão de pecados, é a absolvição sem confissão pessoal. A graça barata é a graça sem discipulado, é a graça sem cruz, é a graça sem Jesus Cristo vivo e encarnado.” A fé que nada custa, nada vale. Integridade tem seu preço. Não é uma opção e tem marcas próprias. Somos desafiados a seguir o exemplo de Daniel e de tantos outros heróis da fé, mantendo-nos íntegros em todo o tempo e o tempo todo: “Tu, porém, segue o teu caminho até ao fim; pois descansarás e, ao fim dos dias, te levantarás para receber a tua herança.” (Dn 12.13)

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