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O pastoreio da igreja na atualidade

pastoreio atual

Nos últimos três artigos e no atual, estamos tratando da seguinte temática e tópicos:

Pastoreando o Rebanho de Deus (1Pe 5.1-4).

Parte 1: A paridade entre apóstolos e presbíteros (1Pe 5.1)

Parte 2: O jeito errado e o certo de pastorear (1Pe 5.2-3)

Parte 3: A recompensa do bom pastoreio (1Pe 5.4)

Parte 4: O pastoreio da igreja na atualidade

Nos três primeiros artigos trouxemos a visão da igreja primitiva ou neotestamentária sobre o assunto, tomando por base a Primeira Epístola de Pedro, conforme o texto mencionado. Neste quarto artigo, faremos uma ponte daquele tempo inicial para o tempo atual. Abra a sua mente e coração para refletir mais profundamente sobre a visão bíblica quanto ao pastoreio do rebanho de Deus, a sua igreja militante.

Parte 4: O pastoreio da igreja na atualidade

Os termos usados

Ao fazermos a ponte entre os primeiros tempos da igreja e a época atual, vamos começar apresentando os nomes dados a esses líderes da igreja que sucederam os apóstolos. Todos os nomes se aplicam ao mesmo tipo de oficial e líder da igreja, sendo que cada um destaca e ressalta um aspecto peculiar da pessoa ou do ofício.

i. PRESBÍTERO ou ANCIÃO (At 11.30 – 1ª vez)

Termo de Dignidade: sugere Maturidade e Experiência
Homem maduro, experimentado, criterioso e respeitado que dá sábios conselhos para orientação dos membros da igreja.

ii. BISPO (“episkopos”, grego) (At 20.28; Fp 1.1)

Termo de Superintendência: sugere Direção
Homem diligente que preside os trabalhos, as reuniões, organiza e supervisiona tudo

iii. PASTOR

Termo de Ternura: sugere Cuidado
Homem zeloso que apascenta o rebanho de Deus, preparando-lhe pastagens verdejantes (mensagens espirituais e práticas vitais) e guiando-o às águas tranquilas, isto é, proporcionando-lhe um ambiente espiritual, agradável e alegre.

Tais termos frequentemente aparecem no plural, fazendo referência à liderança plural de cada igreja local.

Ofício e Dom

Em segundo lugar é importante reafirmar que este ofício de Presbítero ou Ancião ou Bispo ou Pastor (1Pe 5.2) é diferente do Dom de Pastor (Ef 4.11).

O significado de ofício é o mesmo de profissão, ou seja, “Profissão é um trabalho ou atividade especializada dentro da sociedade, geralmente exercida por um profissional. Algumas atividades requerem estudos extensivos e a masterização de um dado conhecimento, tais como advocacia, biomedicina ou engenharia, por exemplo. Outras dependem de habilidades práticas e requerem apenas formação básica (ensino fundamental ou médio), como as profissões de faxineiro, ajudante, jardineiro. No sentido mais amplo da palavra, o conceito de profissão tem a ver com ocupação, ou seja, que atividade produtiva o indivíduo desempenha perante a sociedade onde está inserido.” (Wikipédia)

Já o significado de dom pode ser expresso na sociedade como aquela capacitação ou talento natural; e, na igreja, como aquela capacitação ou habilidade especial concedida pelo Espírito Santo, “… com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo,” (Ef 4.12). O que o apóstolo Paulo menciona em Efésios são os cinco dons ministeriais, dons que concedem capacitação sobrenatural para o exercício dos ministérios: Apóstolo / Profeta / Evangelista / Pastor / Mestre.

As etapas do planejamento divino

O que Deus planejou para a liderança e governo da sua igreja?

Tudo começou com o “Seminário de Jesus” treinando e preparando os apóstolos para a era da igreja. Se considerarmos 10h/dia, 365 dias/ano e 3 anos teremos uma carga horária de 10.950h/aula. Se considerarmos um curso de teologia de 4h/dia, 20 dias/mês, 9 meses/ano e 5 anos teremos 3.600h/aula. Portanto, o “Seminário de Jesus” teve a carga horária mais do que o triplo de um curso de teologia convencional. Os apóstolos foram treinados pelo Mestre dos mestres, com aulas teóricas e práticas insuperáveis.

Na segunda fase do planejamento divino, tudo isso foi potencializado no Pentecostes, com a unção e capacitação dos apóstolos e dos primeiros discípulos pelo Espírito Santo. Também o apóstolo Paulo foi chamado e designado por Deus para fortalecer o grupo.

Na terceira fase, a liderança da igreja foi assumida apenas por presbíteros, eleitos em cada igreja local, sempre no plural (At 14.23). Os primeiros foram instruídos, pessoalmente, pelos apóstolos, e pelas cartas doutrinárias ou epístolas que percorriam as igrejas, pois as Escrituras do NT ainda estavam sendo escritas.

As características das igrejas locais do primeiro século

A simples leitura do NT nos mostra que tais igrejas locais:

i. Se reuniam com simplicidade nos espaços e locais onde pudessem ser acomodados, até mesmo nas casas (Rm 16.5; 1Co 16.19; Cl 4.15; Fm 1.2).

ii. Naturalmente começaram com poucos membros e foram crescendo dia após dia.

iii. Tinham governo próprio e independente, porém com o compromisso de manter a doutrina: “E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações.” (At 2.42)

iv. Também estavam comprometidas com evangelismo, missões e ação social.

Os desafios das igrejas locais de ontem, de hoje e de sempre

Enquanto o número de membros é pequeno, a organização e governo da igreja local é mais simples. Na medida em que o grupo local cresce, dois caminhos podem ser trilhados. O primeiro é o de dividir o grupo, formando novas igrejas locais, o que possibilitará manter a simplicidade de organização e governo. O desafio desse caminho é encontrar um novo espaço e convencer parte do grupo a migrar para a nova igreja local. O segundo caminho é manter todo o grupo junto e partir para um novo espaço, capaz de acomodar o grupo atual e com folga suficiente para acomodar muitos outros membros, no caso do espaço atual não poder ser ampliado. O desafio desse segundo caminho passa a ser organização, administração e governo de uma igreja tão numerosa. Para dar conta de tudo isso, é preciso criar uma estrutura de pessoal para cuidar das questões administrativas e atividades meio da igreja. Por outro lado, é preciso estabelecer uma estrutura de pessoal para orientar e liderar a atividade fim da igreja.

Na história da igreja, ambos os caminhos ou modelos têm sido trilhados ou adotados. Isso tem gerado dois grandes e permanentes desafios para a Igreja de Cristo, a saber:

  1. Manter as igrejas locais no trilho da sã doutrina bíblica, considerando a multiplicidade de igrejas locais e de líderes.
  2. Manter uma estrutura de pessoal e liderança que dê conta de todas as demandas “materiais” e “espirituais” de uma igreja local mais numerosa.

O que parecia tão simples: um só Deus e Pai; um só Mediador e Salvador, Jesus Cristo; um só Espírito Santo, unindo, ungindo e capacitando todos os remidos; uma única igreja, a de Cristo; com um só livro, a Bíblia, Única Regra Infalível de fé e prática; sim, o que parecia tão simples tem se tornado um grande desafio de unidade.

Entendo que, por conta disso e com a vontade permissiva de Deus, surgiram as denominações, tentando, cada uma, estabelecer sua solução para esses dois grandes desafios. Cada uma, então, apresenta a sua própria visão doutrinária da Bíblia e sua forma de governo (episcopal, presbiteriano ou congregacional).

As pequenas igrejas não teriam dificuldade para manter o modelo de liderança da igreja primitiva, através de presbíteros. Aliás, no mundo inteiro, ainda hoje existem muitas igrejas locais que seguem esse modelo, isto é, são lideradas por presbíteros e não têm a figura de um pastor como oficial líder. Certamente esses líderes deveriam ter o preparo necessário para o exercício do ofício, ou seja, atender as qualificações neotestamentárias estabelecidas. Entretanto, parece que já no segundo século da igreja surgiu a necessidade de líderes de igrejas locais que dedicassem mais tempo ao ministério eclesiástico. Afinal, os presbíteros tinham suas famílias e suas obrigações de trabalho secular para sustenta-las. É, assim, que surgem os pastores das igrejas locais para assumirem maior responsabilidade de liderança, compartilhando o governo da igreja com os presbíteros, dependendo da forma de governo adotada. É interessante verificar a defesa de Paulo a favor do sustento dos que vivem para o evangelho (1Co 9.1-14).

Finalmente, concluímos estes quatro artigos dizendo que Pastorear o Rebanho de Deus” é simples assim! É preciso ter muito cuidado com a perigosa TEOLOGIA REVERSA; aquela que parte do HOJE para a BÍBLIA, isto é, estabelece hoje algumas linhas de pensamento, conceitos, estruturas e doutrinas, muitas vezes copiando e acompanhando a sociedade secular, o mundo, e, então, tentam construir algum respaldo bíblico para isso, normalmente bizarro e fora do contexto. Os defensores da TEOLOGIA LIBERAL se encaixam nesta mesma linha de ação. Por outro lado, o que apresentamos aqui e o que defendemos é a TEOLOGIA DIRETA, onde procuramos partir da Bíblia para estabelecer o que fazer e como fazer HOJE. Se, por conta disso, os liberais quiserem nos taxar de fundamentalistas, fiquem à vontade. O que mais nos importa é viver e “defender” as Sagradas Escrituras!

 

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O jeito errado e o certo de pastorear (1Pe 5.2-3)

Jeito errado-certo

No último artigo, no atual e nos próximos dois, estamos tratando da seguinte temática e tópicos:

Pastoreando o Rebanho de Deus (1Pe 5.1-4).

Parte 1: A paridade entre apóstolos e presbíteros (1Pe 5.1)

Parte 2: O jeito errado e o certo de pastorear (1Pe 5.2-3)

Parte 3: A recompensa do bom pastoreio (1Pe 5.4)

Parte 4: O pastoreio da igreja na atualidade

Nos três primeiros artigos traremos a visão da igreja primitiva ou neotestamentária sobre o assunto, tomando por base a Primeira Epístola de Pedro, conforme o texto mencionado. No quarto artigo, faremos uma ponte daquele tempo inicial para o tempo atual. Abra a sua mente e coração para refletir mais profundamente sobre a visão bíblica quanto ao pastoreio do rebanho de Deus, a sua igreja militante. Vejamos, agora, o segundo artigo.

 

Parte 2: O jeito errado e o certo de pastorear (1Pe 5.2-3)

 2 pastoreai o rebanho de Deus que há entre vós, não por constrangimento, mas espontaneamente, como Deus quer; nem por sórdida ganância, mas de boa vontade;

3 nem como dominadores dos que vos foram confiados, antes, tornando-vos modelos do rebanho.

 

O texto não só expressa o anseio e apelo de Pedro, mas também alguns ensinamentos importantes:

1º) Era tarefa e função dos presbíteros de cada igreja pastorear, ou seja, guiar, alimentar e cuidar do rebanho.

2º) Nunca se pode perder de vista que o rebanho é de Deus e não de algum líder. O recado velado é simples, preventivo e oportuno.

3º) O rebanho de Deus está espalhado por toda a parte, mas não está disperso, nem perdido. Está distribuído por aí em pequenos rebanhos que precisam ser pastoreados por seus respectivos presbíteros.

A tarefa de pastorear traz a reboque alguns requisitos e desafios. Três deles são aqui mencionados:

 

1. “não por constrangimento, mas espontaneamente, como Deus quer”

A palavra “constrangimento” traz em si mesma uma carga negativa; não combina com o ser humano e nem com o verbo fazer. Fazer algo por constrangimento é ser forçado a fazer, quando não se queria fazer; é fazer por obrigação. Isso nunca é bom para quem faz e produtivo para a missão ou tarefa ou obra a ser realizada. A tarefa de pastorear é verdadeiramente preciosa aos olhos de Deus e nobre diante dos olhos humanos; mas não é para qualquer pessoa. O apóstolo Paulo afirma: “Fiel é a palavra: se alguém aspira ao episcopado, excelente obra almeja” (1Tm 3.1). A obra é excelente, mas nem todos são vocacionados para realiza-la. Daí a probabilidade real de alguém ser constrangido ou “forçado” a realiza-la. Muitas são as razões ou circunstâncias que podem levar alguém a esse pastorear por constrangimento. Podemos citar aqui algumas delas, para exemplificar:

a) – Não tem ninguém melhor para fazer, então assuma você (necessidade);

b) – Isso pode me colocar numa posição de destaque e visibilidade, então vou assumir, mesmo não gostando (vaidade);

c) – Isso é uma tradição de família, então você tem que assumir (tradição);

d) etc etc

O pastorear não pode ser determinado pela imposição das circunstâncias, nem pela vontade dos outros, nem pela ambição humana, nem pelos caprichos do tradicionalismo. Antes, porém, precisa ser exercido espontaneamente, em atendimento ao nítido e inconfundível chamado de Deus. O padrão não é humano e nem negociável; tem que ser exatamente como Deus quer!

2. “nem por sórdida ganância, mas de boa vontade”

 Outra forma errada de pastorear é fazê-lo de forma gananciosa; aquele jeito sujo, nojento de se obter alguma vantagem financeira do rebanho de Deus se aproveitando do ofício. Imaginem o acerto de Pedro, inspirado pelo Espírito Santo, é claro, prescrevendo algo que na história da igreja tem sido uma lamentável realidade, principalmente neste século 21. Quantos falsos pastores, verdadeiros mercenários, estelionatários da fé, mercadejadores da Palavra de Deus, têm enriquecido manipulando e despojando aquelas ovelhas ingênuas do Senhor. Paulo insere este aspecto na qualificação de presbíteros, “… não cobiçoso de torpe ganância,…”(1Tm 3.3; Tt 1.7) e, também, na qualificação dos diáconos: “…, não cobiçosos de sórdida ganância,…” (1Tm 3.8). Na ocasião já havia indícios de que isso seria problema para a igreja (Tt 1. 10-12).

Ao contrário disso, o apelo do apóstolo é que o pastoreio seja exercido de boa vontade, sem exigir nada em troca. Pedro conhecia bem o exemplo do Mestre, que deu muito e pediu muito pouco. Deu pães e peixes com fartura e pediu apenas cinco pães e dois peixes (Mc 6.35-44). Nem para pagar o imposto de meio estáter (duas dracmas) pediu, antes, porém, enviou Pedro a pescar um estáter que estaria na boca do primeiro peixe fisgado (Mt 17.24-27). E, também disse: “Mais bem-aventurada coisa é dar do que receber” (At 20.35).

 

3. “nem como dominadores dos que vos foram confiados, antes, tornando-vos modelos do rebanho”

A figura que salta aos olhos neste terceiro caso é a de um mordomo. Aquele que pastoreia se assemelha ao mordomo a quem o dono da casa confia a administração dos seus bens e dos seus servos. O grande risco e equívoco de ambos, é pensar e agir como se fossem donos e não servos. Aquele que pastoreia não é dono do rebanho e o rebanho não é de animais, mas de gente. Gente salva por Cristo, com todo o direito de pensar com sua própria cabeça. Gente que não precisa ser dominada, nem mentalmente manipulada, mas que precisa ser orientada. Gente que, se não seguir a orientação de seus líderes, segundo a Palavra de Deus, colherá as consequências na sua vida e família. Gente que um dia terá que prestar contas dos seus atos diretamente a Deus. Aliás, também os presbíteros hão de prestar contas a Deus do seu ministério: “Obedecei aos vossos guias e sede submissos para com eles; pois velam por vossa alma, como quem deve prestar contas, para que façam isto com alegria e não gemendo; porque isto não aproveita a vós outros.” (Hb 13.17)

Em vez de dominar, o que se recomenda aos presbíteros é agir de tal forma que mais do que as palavras, suas vidas sirvam de modelo e exemplo a ser seguido pelos irmãos.

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Leia no artigo anterior:

Parte 1: A paridade entre apóstolos e presbíteros (1Pe 5.1)

 

Leia nos próximos artigos:

Parte 3: A recompensa do bom pastoreio (1Pe 5.4)

Parte 4: O pastoreio da igreja na atualidade

 

A paridade entre apóstolos e presbíteros (1Pe 5.1)

Apóstolos-Presbíteros

Nestes próximos quatro artigos estaremos tratando da seguinte temática e tópicos:

Pastoreando o Rebanho de Deus (1Pe 5.1-4).

Parte 1: A paridade entre apóstolos e presbíteros (1Pe 5.1)

Parte 2: O jeito errado e o certo de pastorear (1Pe 5.2-3)

Parte 3: A recompensa do bom pastoreio (1Pe 5.4)

Parte 4: O pastoreio da igreja na atualidade

Nos três primeiros artigos traremos a visão da igreja primitiva ou neotestamentária sobre o assunto, tomando por base a Primeira Epístola de Pedro, conforme o texto mencionado. No quarto artigo, faremos uma ponte daquele tempo inicial para o tempo atual. Abra a sua mente e coração para refletir mais profundamente sobre a visão bíblica quanto ao pastoreio do rebanho de Deus, a sua igreja militante.

 

Parte 1: A paridade entre apóstolos e presbíteros (1Pe 5.1)

“Rogo, pois, aos presbíteros que há entre vós, eu, presbítero como eles, e testemunha dos sofrimentos de Cristo, e ainda co-participante da glória que há de ser revelada:”

O apelo é dirigido “aos presbíteros que há entre vós”. A igreja neotestamentária era governada e pastoreada pelos presbíteros, que, por sua vez, eram auxiliados pelos diáconos. Os presbíteros eram os oficiais da igreja que se dedicavam prioritariamente à pregação, ao ensino da Palavra e à oração; enquanto os diáconos cuidavam em atender às necessidades materiais dos santos (At 6.2-4). E, todos os crentes, inclusive presbíteros e diáconos, tinham a responsabilidade e privilégio de testemunhar, falar da salvação em Jesus e, além disso, de praticar o amor e procurar com zelo os dons espirituais (1Co 14.1) para serem aplicados no serviço cristão: “… com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo,” (Ef 4.12). A expressão “que há entre vós”, isto é, nas diversas igrejas locais para as quais a epístola foi escrita (1Pe 1.1), nos revela a normalidade do uso de tal ofício. Paulo, o apóstolo dos gentios e responsável pela organização da maioria dessas igrejas locais, não descuidava desse importantíssimo aspecto: “E, promovendo-lhes, em cada igreja, a eleição de presbíteros, depois de orar com jejuns, os encomendaram ao Senhor em quem haviam crido.” (At 14.23); “Por esta causa, te deixei em Creta, para que pusesses em ordem as coisas restantes, bem como, em cada cidade, constituísses presbíteros, conforme te prescrevi:” (Tt 1.5). Ressalte-se a preferência pela pluralidade de oficiais presbíteros em cada igreja. De certa forma, isso tinha em vista a garantia de continuidade e da ordem institucional e eclesiástica.

É interessante observar o posicionamento de Pedro ao se expressar assim: “…eu, presbítero como eles,…”. Há quem valorize a existência de hierarquia, castas, divisões, na sociedade e, até mesmo, na igreja. Parece que tal ideia não tinha muitos defensores entre os apóstolos. Pedro revela isso aqui e o apóstolo João prefere se identificar como “o presbítero” (2Jo 1.1; 3Jo 1.1). Em certos textos, nota-se que eles preferiam se identificar, prioritariamente, como servos: Paulo, servo de Jesus Cristo, chamado para ser apóstolo, separado para o evangelho de Deus,” (Rm 1.1; Tt 1.1; 1Pe 2.1). Qual a diferença entre apóstolos e presbíteros?

a) Os apóstolos

A palavra “apóstolo” (gr. apostolov) significa “alguém enviado”, como um embaixador que leva uma mensagem e representa aquele que o enviou. O termo é composto do prefixo “apo” (afastamento, separação), mais gr. stelw (enviar). Entretanto, esse termo é empregado no Novo Testamento para qualificar dois grupos distintos de pessoas:

Como título oficial, que dá a entender poderes e autoridade especiais em referência aos alicerces da igreja (ver Ef 2.20), aplicava-se exclusivamente aos doze apóstolos originais, a Matias e a Paulo. São os doze mencionados em Apocalipse 21.14. As qualificações ou credenciais (ver 2Co 12.12) de um apóstolo incluem:

 i. Ter sido escolhido pessoalmente pelo Senhor ou pelo Espírito Santo (Mt 10.1-2; At 1.26; Gl 1.1);

 ii. Ter visto o Senhor e ser testemunha de sua ressurreição (At 1.22; 1 Co 9.1);

 iii. Ser investido com dons miraculosos, os “sinais”, “prodígios” e “maravilhas” (At 5.15-16; Hb 2.3- 4).

Contudo, há também um sentido não-técnico, secundário, da palavra “apóstolo”. Trata-se de uma aplicação mais abrangente do termo. Esse sentido secundário dá a entender essencialmente o que denominamos hoje de “missionários”, pessoas enviadas e dotadas de poder e autoridade especiais. Vale lembrar que o termo “missionário” não se encontra no NT. É desta forma que Barnabé é referido como “apóstolo”, juntamente com Paulo em Atos 14.4. O apóstolo Paulo aplica essa palavra, neste mesmo sentido, a Tiago, irmão do Senhor (Gl 1.19). Neste mesmo sentido Epafrodito é citado, por ser “mensageiro” (gr. apostolon) da igreja em Filipos (Fp 2.25, ver ainda a citação de “mensageiros”, gr. apostoloi, em 2Co 8.23). Não se pode deixar de mencionar os falsos apóstolos mencionados e denunciados no NT (2Co 11.13 e Ap 2.2).

 

Na verdade, o ministério apostólico dos doze era temporário e transitório. Na Antiga Aliança, Deus chamou a Abraão e, através de seu neto Jacó (ou Israel), elegeu para si um povo, Israel, formado por doze tribos, que levavam os nomes dos seus filhos. Na Nova Aliança, Jesus foi enviado por Deus para reunir um novo povo eleito, os remidos pelo seu sangue. Assim como Moisés foi usado por Deus com autoridade e poder (Ex 7.3), para dar corpo e forma a este povo, Jesus, também foi usado e aprovado por Deus diante de todos para inaugurar um novo tempo (At 2.22). Como ele havia de morrer, ressuscitar e retornar ao pai, para que o Espírito Santo de Deus fosse derramado sobre todos os remidos, ele mesmo escolheu, chamou e capacitou doze discípulos, aos quais deu o nome de apóstolos (Lc 6.13), sendo um deles (Judas Iscariotes) posteriormente substituído, para dar corpo e forma a este novo povo, que lhe aprouve chamar de sua igreja. Como o próprio nome indica, o livro de “Atos dos Apóstolos” registra um pouco do muito que o Espírito Santo realizou através deles.

Resumidamente, podemos dizer que os apóstolos:

  • Receberam mandamentos por intermédio do Espírito Santo (At 1.2);
  • Ensinaram a doutrina do Senhor (At 2.42; 2Pe 3.2; Jd 1.17);
  • Juntamente com os profetas do Antigo Testamento estabeleceram o fundamento sobre o qual a igreja seria edificada (Ef 2.20);
  • Realizaram muitos prodígios e milagres (At 2.43; 5.12);
  • Com grande poder, davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus (At 4.33);
  • Recebiam doações e providenciavam a distribuição aos mais necessitados (At 4.34-35);
  • Foram presos e castigados para que não falassem em o nome de Jesus (At 5.18; 5.40);
  • Orientaram a igreja a escolher homens para servir, os futuros diáconos, e impôs as mãos sobre eles (At 6.1-6);
  • Exerciam, juntamente com os presbíteros, o governo da igreja (At 15.2).

 b) Os presbíteros

O texto de Atos 8.1 nos apresenta um divisor de águas do ministério apostólico. A partir daquele momento a atuação apostólica ficou praticamente circunscrita a Jerusalém, com poucas incursões fora destes termos, realizadas principalmente pelo apóstolo Pedro (At 9.32) e, eventualmente, acompanhado por João (At 8.14); sendo Pedro aquele que havia recebido do Senhor as chaves para abrir a porta do Evangelho aos judeus e gentios (Mt 16.19). Entretanto, a partir de Atos 9, entra em cena o apóstolo Paulo, um “nascido fora de tempo” (1Co 15.8), o “apóstolo dos gentios” (Rm 11.13). Em tempo de muita perseguição aos apóstolos e a igreja de Jerusalém, ele se encarregou de levar o evangelho até aos confins da terra (At 1.8).

Assim, enquanto a participação dos onze, juntamente com Matias (At 1.26) diminuía, encerrando o ciclo apostólico, a presença dos novos líderes da igreja, os presbíteros, crescia. A primeira menção a eles, no NT, ocorre em Atos 11.30. Resumidamente podemos dizer do presbítero:

  • É um ofício plural exercido por homens, com ação no âmbito da própria igreja, a qual reconhece aqueles a quem Deus escolheu, debaixo de muita oração e jejuns (At 14.23). Diz o sábio: “Não havendo sábia direção, cai o povo, mas na multidão de conselheiros há segurança.” (Pv 11.14);
  • Juntamente com os apóstolos tinham a responsabilidade de analisar e deliberar sobre questões doutrinárias (At 15.2, 4, 6, 22), emitindo documento sobre a decisão tomada, para orientação da igreja (At 15.23; 16.4);
  • O apóstolo Paulo dedicou atenção especial a eles, pois os via como líderes e pastores do rebanho de Deus (At 20.17, 28; 21.17);
  • Há dois textos bíblicos principais que apresentam, em forma de instrução e prescrição, as qualificações necessárias dos presbíteros: 1 Timóteo 3.1-7 e Tito 1.5-9. São listados ali cerca de 21 requisitos ou qualificações, sendo 5 apenas em 1 Timóteo 3.1-7, 7 em Tito 1.5-9 e, 9 comuns aos dois textos. Para propiciar uma melhor visão didática, essas qualificações individuais e familiares, podem ser agrupadas sob os seguintes aspectos/segmentos: “caráter / temperamento”, “comportamento / hábito”, “habilidade / competência / maturidade” e, “situação conjugal e familiar”. Portanto, cada presbítero deve atender a essas qualificações, sendo que em algumas delas precisará contar com a colaboração da família (esposa e filhos).
  • Paulo escreve algo que tem a ver com honra, mas também com o eventual sustento financeiro desses líderes: “Devem ser considerados merecedores de dobrados honorários os presbíteros que presidem bem, com especialidade os que se afadigam na palavra e no ensino.” (1Tm 5.17)
  • Tiago destaca a importância dos presbíteros, orando e atendendo as necessidades da igreja (Tg 5.14).

Por que em Efésios 4.11 o apóstolo Paulo mencionou apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres, e omitiu presbíteros e diáconos? Não me passa pela mente outra resposta senão que as cinco palavras citadas se referem aos cinco dons ministeriais concedidos pelo Espírito Santo. O texto diz assim: “E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo,” (Ef 4.11-12). Já as palavras presbíteros e diáconos se referem a ofícios ou cargos instituídos desde os primórdios da igreja, para zelarem pelo seu bom funcionamento e ordem. Vale ressaltar que até mesmo o ofício de “pastor ou ministro do evangelho“, tão comum na igreja evangélica de hoje, é posterior ao primeiro século, não ocorrendo ainda na igreja neotestamentária. Assim sendo, os pastores mencionados em Efésios 4.11 se referem ao dom e não ao ofício de ministro do evangelho. Paulo considerava-se designado por Deus como pregador, apóstolo e Mestre (2Tm 1.11). Então, o melhor dos mundos seria aquele em que ministros do evangelho, presbíteros e diáconos exercessem seus respectivos ofícios cheios do Espírito Santo, manifestando os vários dons por ele concedidos.

Enfim, o que se via na igreja primitiva era a paridade entre apóstolos e presbíteros, ocorrendo o que sempre acontece quando pares conciliares se reúnem; uns se destacam mais do que outros. No famoso Concílio de Jerusalém, reunido para tratar da questão da circuncisão dos gentios (At 15), houve grande debate (At 15.7), o que sugere que muitos apóstolos e presbíteros expuseram suas opiniões. Lucas, inspirado pelo Espírito, de uma forma inteligente e objetiva, teve o cuidado de destacar a presença de uma multidão acompanhando os debates (At 15.12) e, a fala de quatro oradores, dentre tantos outros: Pedro (At 15.7), Barnabé e Paulo (At 15.12) e Tiago, irmão do Senhor (At 15.13). É fácil entender o porquê do registro desses quatro. Um eficiente secretário de atas de um concílio também teria seguido a linha de Lucas. Pedro, por sua proeminência entre os apóstolos, por ter sido designado pelo Mestre aquele que tinha a chave para abrir a porta do evangelho aos gentios e, como já vimos antes, pela sua experiência alcançada nas incursões que fazia entre os gentios. Barnabé e Paulo, porque na ocasião eram as maiores autoridades na evangelização e plantação de igrejas no mundo gentio. Esses três oradores defenderam muito bem a ideia de que na Nova Aliança não havia mais distinção entre judeus e gentios e espaço para as ordenanças da Antiga Aliança. Por fim, Tiago, porque ratificou o que os três anteriores falaram, acrescentando a citação do profeta Amós (Am 9.11-12); essa é a vantagem de quem fala por último, num concílio. A grande contribuição dele, como alguns conciliares que conheço costumam fazer, foi a de, com sabedoria, já encaminhar o debate para a decisão final, apresentando uma proposta que previa até a forma de comunicação e o texto a ser encaminhado para orientação dos irmãos. É digno de nota que a decisão final foi tomada pelos apóstolos e presbíteros, com toda a igreja ali reunida. Afirmar que, por conta dessa proposta final, pode-se considerar que Tiago era o “pastor da igreja de Jerusalém” é muita leviandade. Podemos, no máximo, supor que Tiago tinha alguma liderança entre seus pares, lucidez de raciocínio, facilidade de comunicação, conhecimento das Escrituras e, provavelmente, desfrutava de um certo prestígio por ser um meio-irmão do Senhor Jesus Cristo.

Leia nos próximos artigos:

Parte 2: O jeito errado e o certo de pastorear (1Pe 5.2-3)

Parte 3: A recompensa do bom pastoreio (1Pe 5.4)

Parte 4: O pastoreio da igreja na atualidade

ISRAEL E A IGREJA – Uma Síntese Comparativa

Israel e a Igreja

É edificante observar esses doze aspectos distintivos entre Israel e a Igreja; entre o povo de Deus da Antiga Aliança e o povo de Deus da Nova Aliança. Esses doze aspectos não esgotam o assunto, mas escolhemos este número porque ele é muito significativo: doze foram as tribos de Israel e doze foram os apóstolos de Jesus Cristo usados pelo Espírito Santo no início da Igreja. Na simbologia bíblica, “3” é o número da Trindade (Pai, Filho e Espírito Santo – Mt 28.19; 2Co 13.13); “4” é o número para o Mundo ou Terra (Ap 7.1; 20.8; Pontos cardeais, Estações); “12” (3 x 4) expressa a Aliança de Deus com os homens (Ap 21.12, 14, 21), com Israel e depois com a Igreja.

ISRAEL

01. COMPOSIÇÃO

IGREJA

Uma FAMÍLIA chamada em ABRAÃO para formar um POVO, O POVO DE DEUS. Vários POVOS chamados em JESUS CRISTO para formarem uma FAMÍLIA, A FAMÍLIA DA FÉ.

 

ISRAEL 02. MISSÃO – JESUS CRISTO IGREJA
Um povo que recebeu a MISSÃO de TRAZER ao mundo o JESUS DA HISTÓRIA (Gn 3.15)[Encarnação]. Um povo que recebeu a MISSÃO de LEVAR ao mundo o CRISTO DA FÉ.[Evangelização]

 

ISRAEL 03. ÊNFASE IGREJA
Um povo convocado por Deus para OUVIR e OBEDECER: “Ouve, Israel, o SENHOR, nosso Deus, é o único SENHOR.” (Ver Dt 6.4-5) Um povo convocado por Deus para IR e PREGAR: “Ide por todo mundo e pregai o Evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo; quem, porém, não crer será condenado.” (Mc 16.15-16)

 

ISRAEL 04. TERRITÓRIO IGREJA
Um povo chamado a sair temporariamente (para o EGITO) e, posteriormente, orientado a ficar e habitar definitivamente em outra terra, em Canaã. Quando saía dessa terra era por castigo divino pelo seu pecado (exílio). “Disse ainda o SENHOR: Certamente, vi a aflição do meu povo, que está no Egito, e ouvi o seu clamor por causa dos seus exatores. Conheço-lhe o sofrimento; por isso, desci a fim de livrá-lo da mão dos egípcios e para fazê-lo subir daquela terra a uma terra boa e ampla, terra que mana leite e mel; ….” (Ex 3.7-8) Um povo chamado a ficar temporariamente (em JERUSALÉM) e, posteriormente orientado a sair e alcançar todo o mundo; todas as tribos, línguas e nações. “E, comendo com eles, determinou-lhes que não se ausentassem de Jerusalém, mas que esperassem a promessa do Pai, a qual, disse ele, de mim ouvistes.” (At 1.4). “mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria e até aos confins da terra.” (At 1.8)

 

ISRAEL

05. ALIANÇA COM DEUS

IGREJA

Um povo chamado a viver sob o Regime da LEI, em que o pecado do ser humano gerava a MORTE FÍSICA. “No entanto, quem estiver imundo e não se purificar, esse será eliminado do meio da congregação, …” (Nm 19.20) Um povo chamado a viver sob o Regime da GRAÇA, em que a morte de Cristo gera a VIDA ETERNA do pecador justificado. O legado de Israel no Antigo Testamento foi o símbolo, a figura, a sombra das coisas vindouras; a realidade vivenciada pela igreja a partir do Novo Testamento (Hb 10.1).

 

ISRAEL 06. PECADO IGREJA
Na Aliança de Deus com Israel era levado em conta o pecado consumado. A regra era:PECOU -> PAGOU Na Aliança de Deus com a Igreja, a intenção má da mente já é pecado. A regra é:PECOU -> VAI PAGAR UM DIA

 

ISRAEL 07. PURIFICAÇÃO DE PECADO – SACRIFÍCIO IGREJA
Um povo que dependia da realização de frequentes e repetitivos sacrifícios de animais para prover a sua purificação do pecado. Um povo justificado diante de Deus, de uma vez por todas, pelo precioso sacrifício de Jesus na cruz do Calvário: “Porque, com uma única oferta, aperfeiçoou para sempre quantos estão sendo santificados.” (Hb 10.14)

 

ISRAEL 08. ESPÍRITO SANTO IGREJA
Um povo em que apenas uns poucos indivíduos, pontual e temporariamente, foram tomados e usados pelo Espírito Santo de Deus, em missões específicas. Um povo herdeiro da promessa, que recebeu o selo e a marca no derramamento do Espírito Santo sobre toda a carne: “Mas o que ocorre é o que foi dito por intermédio do profeta Joel: E acontecerá nos últimos dias, diz o Senhor, que derramarei do meu Espírito sobre toda a carne; vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos jovens terão visões, e sonharão vossos velhos;” (At 2.16-17).

 

ISRAEL 09. ACESSIBILIDADE IGREJA
Um povo que vivia aquém do véu (do Tabernáculo ou do Templo). Apenas alguns poucos sumo sacerdotes e sacerdotes privilegiados tinham acesso a Deus e o representava. (Nm 3.10) Um povo que vai além do véu, pois tem acesso direto ao Pai Celestial: “Tendo, pois, irmãos, intrepidez para entrar no Santo dos Santos, pelo sangue de Jesus,” (Hb 10.19). Um povo de sacerdotes: “Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz;” (1Pe 2.9)

 

ISRAEL 10. LUGAR DE CULTO IGREJA
Um povo que tinha um lugar físico como centro de culto (Tabernáculo, depois o Templo). “Ouve, pois, a súplica do teu servo e do teu povo de Israel, quando orarem neste lugar;” (1Rs 8.30a) Mais importante do que um templo suntuoso para se reunir é o fato de que cada crente-sacerdote é o Templo do Espírito Santo e “lugar” de permanente culto a Deus. “Mas vem a hora e já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque são estes que o Pai procura para seus adoradores.” (Jo 4.23)

 

ISRAEL 11. RECOMPENSA IGREJA
Um povo que, se fosse obediente a Deus, receberia deste a recompensa da prosperidade NESTE MUNDO [RECOMPENSAS TERRENAS]. “Se quiserdes e me ouvirdes, comereis o melhor desta terra.” (Is 1.19). “se guardares o mandamento que hoje te ordeno, que ames o SENHOR, teu Deus, andes nos seus caminhos, e guardes os seus mandamentos, e os seus estatutos, e os seus juízos, então, viverás e te multiplicarás, e o SENHOR, teu Deus, te abençoará na terra à qual passas para possuí-la.” (Dt 30.16) (Ver também Ex 23.20-33) Um povo que, se for obediente a Deus, experimentará sofrimento e perseguição, mas receberá deste a recompensa no MUNDO PORVIR [RECOMPENSAS ETERNAS]. “Estas coisas vos tenho dito para que tenhais paz em mim. No mundo, passais por aflições; mas tende bom ânimo; eu venci o mundo.” (Jo 16.33). “fortalecendo a alma dos discípulos, exortando-os a permanecer firmes na fé; e mostrando que, através de muitas tribulações, nos importa entrar no reino de Deus.” (At 14.22)

 

ISRAEL 12. MENSAGEM IGREJA
Um povo que trouxe ao mundo a mensagem:O MESSIAS VIRÁ! Um povo que deve anunciar ao mundo a mensagem:O MESSIAS JÁ VEIO E VOLTARÁ!

 

“Porque não quero, irmãos, que ignoreis este mistério (para que não sejais presumidos em vós mesmos): que veio endurecimento em parte a Israel, até que haja entrado a plenitude dos gentios.” (Rm 11.25)

O cristão e a idolatria

Idolatria

Creio que o mais grave pecado que o ser humano pode cometer é aquele contra o Deus único e verdadeiro, contra a Trindade Santa: Deus-Pai, Deus-Filho e Deus-Espírito Santo. O segundo é aquele pecado cometido contra outro ser humano (e contra si mesmo, também). Não é sem razão que Jesus resumiu toda a lei mosaica da seguinte forma: “Mestre, qual é o grande mandamento na Lei? Respondeu-lhe Jesus: Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento.  Este é o grande e primeiro mandamento. O segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo.” (Mt 22.36-39).

Não crer na existência de Deus é ateísmo; não prestar adoração exclusivamente a Deus, mas voltar-se para outros “objetos” de culto, isto é “coisas ou astros ou animais ou pessoas etc” é idolatria. Idolatria é o ato de adorar, que tem os seguintes significados no dicionário:

Adorar: (lat adorare) vtd 1 Reverenciar, venerar. 2 Amar extremamente, idolatrar. 3 Gostar muito de. 4 Prestar culto a; cultuar. (Dicionário de Português Online – Michaelis)

Idolatria é o ato de adorar, ou reverenciar, ou cultuar, ou amar extremamente, a esses objetos,  ou “ídolos”, ou “imagens”, ou “seres”, ou “pessoas”, ou a algum elemento da natureza como se estes fossem deuses, e, não exclusivamente ao Deus único e verdadeiro, criador dos céus e da terra.

1)  Há quanto tempo há idolatria?

Desde os tempos mais remotos, há notícias de que os povos se curvavam diante de algo que consideravam ser deus. A Bíblia menciona o pai de Abraão (Terá) como alguém que servia a outros deuses (Js 24.2). Abraão foi tirado do meio dessa idolatria que era praticada não só pelos seus antecessores mas também pelos povos antigos, para servir a um Deus único e verdadeiro e ser o pai de uma grande nação, depositária da revelação divina – Israel. Os descendentes do seu tio Naor continuaram nessa prática pecaminosa, o que é revelado no incidente do furto dos “ídolos do lar”, por Raquel, filha de Labão, filho de Betuel, filho de Naor (Gn 31. 19, 30, 32-35).

Desde de sua origem, na chamada de Abraão (cerca de 2000 aC), o povo de Israel deveria ser diferente, isto é, monoteísta, enquanto os demais povos eram politeístas. Deus travou permanente batalha com o povo judeu, desde sua formação efetiva, após a saída do Egito, até o exílio (586 aC), para demovê-lo da prática do pecado da idolatria. Para que não houvesse dúvida, deixou registrado na Lei máxima, nos Dez Mandamentos, os dois primeiros mandamentos, nestes termos:

1º) “Não terás outros deuses diante de mim.” (Ex 20.3)

2º) “Não farás para ti imagem de escultura, nem semelhança alguma do que há em cima nos céus, nem embaixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não as adorarás, nem lhes darás culto; porque eu sou o SENHOR, teu Deus, Deus zeloso, ….. (Ex 20.4-5)

A história do Antigo Testamento (AT) é a história da luta de Deus, através dos seus profetas, contra a idolatria.

2)  O que Deus pensa dos deuses e dos ídolos?

−  Os deuses dos povos não passam de ídolos, objetos sem qualquer valor (1Cr 16.26; Sl 96.5);

−  São apenas prata e ouro, obra das mãos dos homens (Sl 115.4; 135.15; Os 13.2);

−  São cargas mortas que só fazem cansar os animais de carga (Is 46.1-2);

−  Não podem livrar o homem, pois são tão frágeis que até o vento os carrega  (Is 57.13);

−  Os ídolos, seus artífices e os seus seguidores formam a “comunidade da nulidade” (Jr 2.5; Is 44.9; Hc 2.18-19).

3)  A quem Deus pode ser comparado?

Alguns profetas apresentaram uma comparação entre os ídolos e Deus para que o povo caísse em si e visse o quão insensata e ridícula é a adoração de ídolos (Is 40; 46; Jr 10, etc).

ÍDOLOS

DEUS

“Um homem corta para si cedros, toma um cipreste ou um carvalho, fazendo escolha entre as árvores do bosque; planta um pinheiro, e a chuva o faz crescer. Tais árvores servem ao homem para queimar; com parte de sua madeira se aquenta, e coze o pão, e também faz um deus e se prostra diante dele, esculpe uma imagem e se ajoelha diante dela…Nada sabem, nem entendem; porque se lhes grudaram os olhos, para que não vejam, e os seus corações já não podem entender” (Is 44.14,15,18)“Os que gastam o ouro da bolsa, e pesam a prata nas balanças, assalariam os ourives para que façam um deus, e diante deste se prostram e se inclinam. Sobre os ombros o tomam, levam-no e o põem no seu lugar, e aí ele fica; do seu lugar não se move; recorrem a ele, mas nenhuma resposta ele dá, e a ninguém livra da sua tribulação” (Is 46.5-7)“Os ídolos são como um espantalho em pepinal, e não podem falar; necessitam de quem os leve, porquanto não podem andar. Não tenhais receio deles, pois não podem fazer mal, e não está neles o fazer o bem “ (Jr 10.5). “Ó Senhor, quem é como tu entre os deuses? Quem é como tu glorificado em santidade, terrível em feitos gloriosos, que operas maravilhas?” (Ex 15.11)“A quem me comparareis para que eu lhe seja igual? E que coisa semelhante confrontareis comigo?…Lembrai-vos das coisas passadas da antiguidade; que eu sou Deus e não há outro semelhante a mim; que desde o princípio anuncio o que há de acontecer, e desde a antiguidade as coisas que ainda não sucederam..” (Is 46.5, 9,10a)“Ninguém há semelhante a ti, ó Senhor; tu és grande e grande é o  poder do teu nome. Quem te não temeria a ti, ó Rei das nações? Pois isto é a ti devido; porquanto entre todos os sábios das nações, em todo o seu reino, ninguém há semelhante a ti…Mas o Senhor é verdadeiramente Deus; ele é o Deus vivo e o rei eterno; do seu furor treme a terra, e as nações não podem suportar a sua indignação…O Senhor fez a terra pelo seu poder; estabeleceu o mundo por sua sabedoria, e com a sua inteligência estendeu os céus. Fazendo ele ribombar o trovão, logo há tumulto de águas no céu, e sobem os vapores da terra; ele cria os relâmpagos para a chuva, e dos seus depósitos faz sair o vento.” (Jr 10.6,7,10,12,13)

 −  Adorar a ídolos é trocar Deus por algo ridículo e desprezível (Sl 106.19-20).

 −  Os que carregam ídolos em procissões são ignorantes (Is 45.20).

 −  Os idólatras serão envergonhados (Is 45. 16).

 −  O ídolo do deus Dagom (filisteus) caiu duas vezes diante da arca (1Sm 5.1-5).

−  As vezes os ídolos “servem para alguma coisa” (1Sm 19.12-17).

−  As predições foram feitas por Deus para que o povo não atribuísse determinadas situações aos ídolos (Is 48.1-5).

−  Só o Criador tem poder sobre a criação (Jr 14.22).

4)  O que Deus ordenou a respeito de outros deuses e imagens?

A fabricação de qualquer escultura era proibida (Ex 20.23; 34.17; Lv 19.4; 26.1).  Apesar dessa proibição Deus mandou que se fizesse querubins de ouro (Ex 25.17-22; 1Rs 6.23-26) e uma serpente de bronze, para teste de obediência (Nm 21.8-9; comp. Jo 3.14-15) e não para adoração como o povo acabou fazendo (2Rs 18.4 – Neustã).

Nenhuma aparência de Deus foi vista quando o Senhor falou ao povo no monte Horebe, para que não se corrompessem, fazendo imagem na forma de ídolo (Dt 4.15-19).

Diante do segundo mandamento (Ex 20.4-6), como determinar a fronteira entre a Arte e a Idolatria?

5)  Como a idolatria era tratada no Antigo Testamento?

− Os reis idólatras foram avaliados como maus reis (1Rs 16.13 – Baasa, Elá; 16.26 – Onri; 1Rs 21.25-26 – Acabe; 2Rs 21.10-18 – Manassés; 2Rs 21.21; 2Cr 33.21-25 – Amon).

− A idolatria era considerada prostituição (espiritual) (Ez 16.35-52; 23.5-48; 36.16-21).

− O perigo dos ídolos levantados dentro do coração (Ez 14.1-11).

− Os ídolos profanavam o templo (Jr 7.30; Ez 8.10).

− O cativeiro de Israel teve como causa a quebra da Aliança, principalmente a idolatria (2Rs 17.7-23).

− Os idólatras são amaldiçoados por Deus (Sl 97.7).

− Os profetas denunciaram veementemente a idolatria e anunciaram a  consequente destruição da nação de Israel  e  de outras nações  por causa deste grave pecado contra a glória de Deus (Is 2.5-21; 10.10-11; Jr 9.13-16; 18.15-17; Ez 6.1-14; 7.20-21; 8.17-18; 20.1-32; 22.1-31; Os 13.1-3; Am 8.14; Mq 1.7; Sf 1.2-18 – Israel e Judá;  Is 19.1-3; Jr 43.12; Ez 30.13 – Egito;  Jr 50.2 – Babilônia).

− A renovação da Aliança exigia a remoção dos ídolos (Gn 35. 1-15;  1Rs 15.12-13 – A reforma de Asa; 2Rs 23.24  – A reforma de Josias; 2Cr 33.1-20 – Profanação e restauração por Manassés).

− Predição de uma reforma após o cativeiro (Ez 11.17-21; Ez 37.23; Zc 13.2). Pode-se dizer que após o cativeiro o povo de Israel abandonou os ídolos.

6)  Como Deus reagiu diante da idolatria?

− Os ídolos provocam a ira de Deus (Dt 32.16-21; Jr 8.19; 16.18).

− Deus executou juízo sobre os deuses do Egito (Ex 12.12).

− É tido por justo o matador de idólatras (Nm 25.1-18; comp. Sl 106.28-31).

− Deus mandou derrubar os altares dos povos dominados por Israel (Ex 34. 12-16; Nm 33.51-52; Dt 7.5; Jz 2.2).

− Deus mandou e Gideão derrubou o altar de Baal, do seu próprio pai, o que colocou em risco a sua vida (Jz 6.25-32).

− O Espírito do Senhor incitou Zacarias a reagir contra a idolatria. Este obedeceu e acabou sendo morto por mandado do rei Joás (2Cr 24.17-22).

7)  Como a Igreja primitiva se relacionou com as comunidades idólatras?

Paulo, em Atenas, se revoltava intimamente com a idolatria reinante na cidade (At 17.16). Ele não pregava diretamente contra os deuses gregos, mas a Jesus e a ressurreição (At 17.18). Teve a ousadia de dizer que o Deus que ele anunciava não era como o deles (At 17.24-28); nem era um ídolo fabricado pelos homens (At 17.29).

A mensagem de Paulo, em toda parte, era a respeito de um Deus vivo em contraste com a nulidade dos deuses feitos por mãos humanas. A repercussão disso era que muitos se convertiam e deixavam os ídolos. Isto chegou a provocar a reação violenta do ourives Demétrio, em Éfeso, e dos demais fabricantes de nichos de Diana. (At 19.23-40).

Uma questão que preocupava a igreja primitiva era a comida sacrificada aos ídolos (At 15.20; Rm 14.15-21; 1Co 8; 10.25-33).

Falando aos crentes de Corinto ele afirma que os ídolos nada são (1Co 8.4). Entretanto, a carne sacrificada a ídolos deveria ser evitada por causa da consciência dos irmãos mais fracos (1Co 8.10-13).

8)  Há idolatria na Igreja Cristã?

Depois de Constantino (323dC), o cristianismo passou a assimilar práticas pagãs; isso porque muitos pagãos entraram na igreja sem conversão, passando a exercer grande influência no culto. O culto aos santos e a veneração aos mártires e a outros homens e mulheres famosos, passaram a ter plena aceitação. Foram criados rituais que eram um misto de cerimônias pagãs, herdadas de diversas religiões, com as cerimônias sacerdotais do Antigo Testamento. Os santos passaram a ser considerados como pequenas divindades, cuja intercessão era valiosa diante de Deus. Surgiu a veneração de relíquias e até mesmo de lugares. Antes do ano 500dC o culto da virgem Maria já estava vitorioso. O paganismo romano teve grande influência na formação do culto católico; daí dizer-se católico-romano.” (Religiões, Seitas e Heresias – J. Cabral)

Ainda que a igreja católica romana não queira admitir que os(as) santos(as) por ela canonizados(as), bem como as suas imagens, sejam ídolos, na realidade são assim tratados pelos seus fiéis. Os líderes católicos se tornam cúmplices desta idolatria na medida que promovem procissões e romarias para veneração e adoração aos(as)  santos(as)  e ainda incentivam as intercessões a estas “pequenas divindades”.

A Bíblia deixa muito claro que Jesus é o único mediador entre Deus e os homens (1Tm 2.5). Nenhum ser humano, já morto, poderá interceder por nós, os vivos, diante de Deus. Os que morreram estão simplesmente aguardando a ressurreição. É total insensatez e pecado gravíssimo recorrer a qualquer ser humano já morto, inclusive a Maria, a mãe humana de Jesus Cristo. Esta doutrina é básica e elementar na Bíblia. O único que pode interceder por nós é o Espírito Santo, conforme diz o apóstolo Paulo: “Também o Espírito, semelhantemente, nos assiste em nossa fraqueza; porque não sabemos orar como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós sobremaneira, com gemidos inexprimíveis.” (Rm 8.26)

9)  O que está acontecendo hoje?

Na antiguidade, os povos pagãos se apegavam intensamente aos ídolos, inclusive confiando e creditando a eles o sucesso de suas vitórias nas batalhas, o que por vezes influenciava o povo escolhido de Deus, Israel.

Hoje em dia, muitas pessoas não cristãs ainda continuam se apegando a todo tipo de amuleto, crendice e idolatria; outras, porém, preferem seguir seu caminho de descrença total no mundo espiritual, apegando-se ao materialismo. Nada disso nos surpreende, em se tratando de não cristãos.

E, quanto aos cristãos? O que se percebe na chamada igreja cristã de hoje é aquela forma de idolatria que se expressa no culto, veneração, apego excessivo a pessoas, a personalidades humanas. Podemos nos referir a isso como antropolatria. Na igreja católica romana isso começa com a “virgem Maria”, e continua com “os apóstolos”, “os santos canonizados”, “os papas” etc etc. Na igreja evangélica, também há uma tendência de quase idolatria de ícones do passado e do presente, tais como Martinho Lutero, João Calvino, John Knox etc etc.

Os cristãos precisam entender e atender à voz de Deus quando diz: “Eu sou o SENHOR, este é o meu nome; a minha glória, pois, não a darei a outrem, nem a minha honra, às imagens de escultura.” (Is 42.8). Deus jamais dividirá com outro a honra e glória que lhe são devidas! O Senhor Jesus Cristo é a expressão máxima da glória de Deus entre os homens! Quando ele falou em retornar ao Pai, jamais disse aos seus discípulos que deixaria em seu lugar, para conduzir a sua igreja e operar milagres, determinadas celebridades humanas que deveriam ser veneradas e buscadas como mediadores entre sua igreja e o Pai Celestial. Simplesmente ele anunciou a vinda do Espírito Santo, que habitaria em cada remido, para, desta forma, habilitá-los ao sacerdócio universal ­– sacerdócio santo e sacerdócio real (Jo 14.16-18).

Finalmente, vale enfatizar o ensino bíblico de que nenhuma figura humana morta, canonizada ou não, tem qualquer influência neste mundo a partir do mundo espiritual. Neste mundo físico, atuam somente duas forças provenientes do mundo espiritual: 1ª) Deus e seus anjos; e, 2ª) Satanás e seus demônios, que atuam sob a permissão de Deus (Jó 1.12). Portanto, se alguém recorrer, em oração, a essas figuras do passado, canonizadas ou não, e algo efetivamente milagroso e sobrenatural acontecer, fique certo de que isso teve origem em uma dessas duas forças do mundo espiritual!

Diga não a qualquer tipo de idolatria ou antropolatria! Curve-se apenas diante de Jesus Cristo, o nosso Senhor e Salvador!

Há alarido no arraial

Bezerro de Ouro

“Ouvindo Josué a voz do povo que gritava, disse a Moisés: Há alarido de guerra no arraial. Respondeu-lhe Moisés: Não é alarido dos vencedores nem alarido dos vencidos, mas alarido dos que cantam é o que ouço.” (Ex 32.17-18)

O capítulo 32 de Êxodo descreve um episódio desastroso na história do povo de Israel, ocorrido após uns três meses da saída do Egito. Foram 430 anos plantados no meio de um povo pagão e idólatra. Ao serem libertados dali tiveram o privilégio de presenciar manifestações extraordinárias – sinais, prodígios e maravilhas –  da parte do Deus único e verdadeiro, sob a mediação de Moisés e Arão: as dez pragas enviadas sobre os egípcios, enquanto eles foram poupados; a travessia, a pé enxuto, do Mar Vermelho que se abriu; a destruição dos exércitos egípcios no mesmo mar; a condução de Deus através da nuvem, durante o dia, e da coluna de fogo, durante a noite; a restauração das águas amargas de Mara; o pão que “chovia” diariamente do céu (maná e codornizes);  a vitória na guerra contra Amaleque etc etc. Entretanto, bastou que Moisés se demorasse um pouco no monte para que a descrença e a insensatez dominassem os corações. Desta narrativa podemos extrair alguns ensinamentos:

1º) A cumplicidade da liderança (Ex 32.1-4a)

O povo de Israel estava sendo guiado por dois líderes, Moisés, o principal, e Arão, seu auxiliar. Estes dois líderes tipificam e representam dois tipos de liderança, duas posturas bem distintas. Moisés, tipifica aquele líder de igreja chamado por Deus para cumprir uma missão, que investe tempo na presença de Deus, para conhecer a sua vontade e para receber do Senhor a mensagem que deve transmitir para o povo. Arão, tipifica aquele líder de igreja que, de alguma forma, chegou àquela posição, mas está longe de agradar a Deus. É o tipo de líder que prefere ceder às pressões dos liderados a defender o Senhor e a sua Palavra: “Respondeu-lhe Arão: Não se acenda a ira do meu senhor; tu sabes que o povo é propenso para o mal. Pois me disseram: Faze-nos deuses que vão adiante de nós; pois, quanto a este Moisés, o homem que nos tirou da terra do Egito, não sabemos o que lhe terá acontecido. Então, eu lhes disse: quem tem ouro, tire-o. Deram-mo; e eu o lancei no fogo, e saiu este bezerro.” (Ex 32.22-24). O rei Saul também era desta mesma escola: “Então, disse Saul a Samuel: Pequei, pois transgredi o mandamento do SENHOR e as tuas palavras; porque temi o povo e dei ouvidos à sua voz.” (1Sm 15.24).  Também é do estilo desse tipo de líder ceder às pressões das circunstâncias: “…. e, forçado pelas circunstâncias, ofereci holocaustos.” (1Sm 13.12b – Saul). E, ainda, prefere ceder às pressões do seu bom senso, desobedecendo deliberadamente às ordens de Deus (1Sm 15.3, 9, 15, 22 – Saul). É assim que agem os líderes progressistas de ontem e de hoje. Eles têm mais temor às pressões dos liderados, às circunstâncias e ao seu bom senso, do que a Deus e sua Palavra. Se consideram pequenos deuses aqui na terra. E mais, são capazes de rotular as lideranças do estilo de Moisés de fundamentalistas! Se buscar a direção do Senhor e obedecer à sua Palavra é ser fundamentalista, então eu sou um deles.

2º) A vulnerabilidade da natureza humana (Ex 32.4b-6)

Deus elegeu a Israel e Israel é chamado de povo de Deus. Até aí nenhuma novidade. Entretanto, é bom lembrar que esta eleição está circunscrita ao plano terreno. Deus tinha um plano, uma missão a ser cumprida através deste povo. O ápice desta missão era trazer Jesus Cristo ao mundo. Portanto, nascer judeu não significava receber passaporte com visto de entrada no céu ou direito à salvação eterna. Muitos israelitas saíram do Egito, mas não entraram em Canaã, tendo sido condenados e mortos pelos seus pecados. Somente neste episódio foram mortos uns 3000 homens (Ex 32.28). Deus também elegeu a igreja, mas muitos da igreja militante não entrarão na Canaã Celestial. Pois, “o Céu tem muitas almas que a igreja não tem e a igreja tem muitas almas que o Céu não tem.” (Sto. Agostinho). A vulnerabilidade da natureza humana pode ser vista nas constantes recaídas do povo: a) murmuravam a cada dificuldade (Ex 14.11-12; 15.24 etc); b) tiveram saudade das comidas do Egito, apesar de toda a opressão e sofrimento (Ex 16.2-3). No episódio em análise, verifica-se que eles também tiveram saudade dos ídolos egípcios e das festas idólatras. O povo não apenas sacrificou ao bezerro fundido por Arão, como assentou-se para comer e beber e “levantou-se para divertir-se” (v.6).  O que aconteceu ali foi muita bebedice e orgia sexual, como nos velhos tempos. De fato, os israelitas saíram do Egito, mas o Egito não saiu do coração de muitos deles.

O Egito representa simbolicamente o mundo; Faraó, Satanás; Canaã, a Pátria Celestial do cristão; e a peregrinação até Canaã, a nossa caminhada neste mundo. O fenômeno ali ocorrido é recorrente na igreja atual. Como tem gente que viveu intensamente neste mundo sem Deus e, mesmo estando na igreja vez por outra tem “saudade do Egito”, de alguma coisa da sua vidinha de outrora. E, então, querem trazer algumas práticas ou festejos para dentro da igreja, muitas vezes alegando tratar-se de manifestação cultural ou folclórica. “- Que mal tem isso? Deixa de ser retrógrado!” É o discurso pronto destes. E o pior é que os líderes progressistas cedem às pressões! Não conseguem enxergar o fenômeno do efeito dominó: o mundo influencia o crente, o crente tenta influenciar a igreja. Mas, há também aqueles que efetivamente não cortaram o cordão umbilical com o “mundo pagão”; participam efetivamente de boa parte da agenda oferecida pelo mundão, pois temem assumir uma postura diferenciada diante de seu círculo de amigos incrédulos. Isso é típico do “crente equilibrista”: um pé no mundo e o outro na igreja; ou do “crente morno” ou “crente bolo alimentar”, aquele que Deus está a ponto de vomitar (Ap 3.15).

3º) Que alaridos se ouvem da sua igreja? (Ex 32.15-18)

Alertado por Deus da corrupção do povo, Moisés desceu do monte acompanhado por Josué. Este fala para Moisés de um alarido de guerra no arraial de Israel. Moisés, então, responde-lhe, citando outros três tipos de alarido. Temos aqui, portanto, quatro tipos de alarido:

a) Alarido de guerra

É o alarido ouvido de uma igreja que sai das quatro paredes e impacta o mundo: “Estes que têm transtornado o mundo chegaram também aqui,” (At 17.6b). A proposta de Deus para sua igreja é de guerra espiritual: “Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.” (Mt 16.18). O texto deixa claro que a posição da igreja é ofensiva, de ataque. E, mais: “porque a nossa luta não é contra o sangue e a carne, e sim contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes.” (Ef 6.12). O mundo clama por socorro, a situação é caótica (corrupção generalizada, violência, delinquência juvenil, bebedices e alcoolismo, uso de drogas, imposição do homossexualismo, imoralidade, banalização do sagrado, secularismo, ataque a instituição familiar etc etc) e a igreja não pode ser omissa. Precisa ser o braço do agir de Deus: orando, evangelizando, educando, fazendo ação social, protestando, denunciando, agindo e interferindo na sociedade, de todas as formas e meios legítimos disponíveis.

b) Alarido dos vencedores

Quando essa igreja combativa impacta eficazmente a sociedade, os intentos de Satanás são frustrados, os perdidos são alcançados, vidas são transformadas e assistidas, casamentos são restaurados etc. Então, o povo de Deus entrará no templo para glorificar e cultuar ao Senhor, louvá-lo e adorá-lo, com cânticos espirituais, um “alarido” de vitória que chega aos céus e agrada a Deus. É o alarido de vigílias de oração “bombando” e classes de Escola Bíblica Dominical repletas de alunos. Mas, a comunidade dos remidos não ficará estacionada no templo, sairá novamente para guerrear contra as trevas; entrará e sairá continuamente até Jesus Cristo voltar.

c) Alarido dos vencidos

Quando a igreja não está no foco da sua missão, no centro da vontade de Deus, o que se ouve ali é o alarido dos vencidos. De pastores se queixando das ovelhas, de ovelhas se queixando dos seus pastores e líderes, e das ovelhas se queixando das outras ovelhas. Do clamor das almas sedentas por mensagens ungidas, sem aquele ”teologuês” vazio e entediante que quase não chega à mente e muito menos desce ao coração. Do eco e reverberação de um templo esvaziado; do “bronze que soa, ou do címbalo que retine”; de lata vazia.

d) Alarido dos que cantam.

Não se engane, esse alarido não é aquele dos que louvam ao Senhor. É o alarido dos que promovem ou participam de shows golpel com muito fervor carnal e pouco fervor espiritual. É o alarido dos que promovem shows da fé, com farta propaganda de milagres e muito apelo financeiro. É o alarido dos que insistem em homenagens e honrarias aos homens quando deveriam focar a glória de Deus. Há líderes cristãos que estão vivendo a “Síndrome do Titanic”, isto é, estão confortavelmente curtindo a “primeira classe eclesiástica” enquanto a sociedade vai a pique e a terceira classe não tem acesso ao “bote da salvação”. É o alarido de igrejas superlotadas nos seus cultos-espetáculos, mas tolerantes a toda sorte de vícios e pecados. Já dizia o profeta Samuel: “o obedecer é melhor do que o sacrificar” (1Sm 15.22). É o alarido de igrejas tipo “casa de festas” que só pensam em festas, festividades e festejos. Oferecem muita brincadeira e entretenimento, como se a igreja fosse um parque de diversões e não um centro de recuperação.

Finalizando, deixamos uma palavra de advertência: “Deus está vendo e não deixará impune o pecado!”. Também deixamos uma palavra que vem direto do Senhor para você que é líder: “Vai, pois, agora, e conduze o povo para onde te disse; eis que o meu Anjo irá adiante de ti; porém, no dia da minha visitação, vingarei, neles, o seu pecado.” (Ex 32.34)

Um bilhete debaixo da porta

Certa igreja cristã tinha um órgão de tubos, um sistema de som sem defeito, o mais sofisticado “datashow” e duas telas grandes, uma à direita do púlpito e outra à esquerda, além de uma tela pequena voltada para o ministro oficiante. Para os membros e visitantes falantes de outras línguas havia fones de ouvido com tradução simultânea do inglês para seis diferentes idiomas (português, francês, alemão, russo, chinês e coreano). Os deficientes auditivos tinham como captar a liturgia e o sermão, graças a um simpático e jovem casal que se comunicava com eles por meio da linguagem de sinais. O coro era formado de mais ou menos cem pessoas, todas de beca, em quatro cores diferentes (branco para os sopranos, azul celeste para os contraltos, vermelho para os tenores e marrom para os baixos). Uma mulher bonita e elegante era a regente. Eles conheciam e cantavam quase todas as cantatas de Johann Sebastian Bach. Uma orquestra de câmara tocava o prelúdio, acompanhava os hinos congregacionais e, às vezes, acompanhava também o coro. O regente da orquestra era um senhor de meia-idade que usava um rabicho que combinava com as longas abas de seu fraque. Os bancos eram almofadados e espaçosos, com um confortável estrado para os pés.

O pastor titular era culto, falava com eloquência, citava de cor palavras e frases do grego e do aramaico e trechos dos mais notáveis teólogos da Europa. Usava vestes talares de cores diferentes, uma para cada ocasião do calendário litúrgico. Para evitar a mania do pecado, ele quase não pregava sobre o assunto. Como consequência natural desse escrúpulo, o reverendo omitia também qualquer referência à expiação e ao perdão de Deus, mediante Jesus.

A membresia era formada de homens e mulheres da alta sociedade. Todos estavam “bem de vida” e possuíam tudo de que precisavam e também o supérfluo. A aparência não podia ser melhor. Porém, no íntimo e aos olhos de Deus, eles, o pastor titular e os outros onze pastores (o número nunca era menor nem maior, para coincidir com os doze patriarcas e os doze apóstolos), eram todos miseráveis, infelizes, pobres, cegos e nus. De vez em quando, um ou outro membro da liderança sentia um forte arrepio e estremecia com a formalidade ostensiva da igreja e com o seu distanciamento cada vez maior do evangelho e da própria pessoa de Jesus.

Certa manhã, quase na hora do culto matutino, quando os diáconos foram abrir as portas do templo, encontraram debaixo da porta principal um bilhete no qual estava escrito:

“Eu estou [aqui do lado de fora] batendo à porta constantemente. Se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, eu entrarei e farei companhia a ele, e ele a mim”.

Era um recado endereçado ao pastor titular, da parte “daquele por meio de quem Deus criou todas as coisas!” (Ap 3.14-22).

Parece que a igreja não reagiu à altura e veio a morrer. Ela não existe mais. No quarteirão onde ficava o seu templo, hoje há um “shopping center”!

Extraído da Revista Ultimato – Nº 334 – Janeiro-Fevereiro 2012

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