Sete grandes realidades e uma cura

Marcos 9.14-29; Mateus 17.14-21; Lucas 9.37-43a

1ª) Um grande pastor
     Que se aproximava de Deus e do povo.

37  No dia seguinte, ao descerem eles do monte, veio ao encontro de Jesus grande multidão. (Lc 9)
14  Quando eles se aproximaram dos discípulos, viram numerosa multidão ao redor e que os escribas discutiam com eles. (Mc 9)
15  E logo toda a multidão, ao ver Jesus, tomada de surpresa, correu para ele e o saudava. (Mc 9)
16  Então, ele interpelou os escribas: Que é que discutíeis com eles? (Mc 9)

Jesus acabara de passar por um singular momento de glória, no monte da transfiguração (Mc 9.2-13). Ali o céu baixara à terra para o honrar. Diante da aparição de dois grandes vultos do passado, Moisés (representando a Lei) e Elias (representando os Profetas) e dos dignos discípulos ali presentes (representando a Igreja), o Pai se manifestou e revelou o Filho, distinguindo-o e apontando-o como aquele que deveria ser ouvido.

Não havia melhor lugar para se estar. No entendimento de Pedro, o tempo podia até parar e, assim eles desfrutariam ao máximo aquele pedacinho de céu. Entretanto, o grande pastor de almas – Jesus – sabia que lá embaixo havia um rebanho aflito necessitado da sua presença.

Ao pé do monte estavam os demais discípulos, e com eles uma grande multidão. Na ausência de Jesus, algo havia acontecido que ocasionou uma grande discussão entre os discípulos que ficaram e os escribas. De tal forma estavam todos envolvidos com a discussão que a multidão se surpreendeu com a chegada de Jesus. Aqui reside um interessante elemento profético: aqueles que se detêm em tantas discussões teológicas e/ou doutrinárias correm o risco de serem tomados de surpresa quando da segunda vinda de Cristo.

É interessante observar que quando Jesus chegou, imediatamente o foco de interesse passou para ele. Entretanto, para Jesus, o foco de interesse era o objeto da discussão: “Que é que discutíeis com eles?”

2ª) Um grande problema
     De dimensões física e espiritual.

17  E um, dentre a multidão, respondeu: Mestre, trouxe-te o meu filho, possesso de um espírito mudo; (Mc 9)
18a  e este, onde quer que o apanha, lança-o por terra, e ele espuma, rilha os dentes e vai definhando. (Mc 9)
14  E, quando chegaram para junto da multidão, aproximou-se dele um homem, que se ajoelhou e disse: (Mt 17)
15  Senhor, compadece-te de meu filho, porque é lunático e sofre muito; pois muitas vezes cai no fogo e outras muitas, na água. (Mt 17)
38  E eis que, dentre a multidão, surgiu um homem, dizendo em alta voz: Mestre, suplico-te que vejas meu filho, porque é o único; (Lc 9)
39  um espírito se apodera dele, e, de repente, o menino grita, e o espírito o atira por terra, convulsiona-o até espumar; e dificilmente o deixa, depois de o ter quebrantado. (Lc 9)

A resposta à indagação de Jesus vem logo, do meio da multidão. Um pai desesperado se aproxima de Jesus e lhe conta o grande e grave problema vivido por seu filho único. Ele descreve, com detalhes, todo o sofrimento passado pelo filho quando o espírito imundo se apodera dele. Lunático, surdo-mudo e com sintomas que se assemelhavam aos da epilepsia (descarga cerebral), no seu estado mais grave.  Mateus revela que esse pai se ajoelha diante de Jesus e lhe suplica compaixão.

3ª) Uma grande decepção
     Tentar fazer aquilo que só Jesus pode fazer.

18b  Roguei a teus discípulos que o expelissem, e eles não puderam. (Mc 9)
16  Apresentei-o a teus discípulos, mas eles não puderam curá-lo. (Mt 17)
40  Roguei aos teus discípulos que o expelissem, mas eles não puderam. (Lc 9)

O pai declara inicialmente que tinha trazido o filho para que Jesus curasse (Mc 9.17). Naturalmente, não encontrando Jesus ali, pediu ajuda aos discípulos que não haviam subido ao monte. É difícil concluir quem ficou mais decepcionado com a fracassada tentativa dos discípulos:

🔹 O pai, que não conseguiu a tão necessitada solução para o problema.
🔹 Os discípulos, que não foram capazes de fazer o que já tinham feito antes.
🔹 A multidão, que certamente esperava muito mais dos discípulos.

Quanto aos escribas, é provável que estivessem procurando tirar proveito do fracasso dos seguidores de Cristo para levar vantagem e desconstruir a imagem e a doutrina de Jesus.

4ª) Um grande desabafo
     Somos poupados pela misericórdia de Deus.

19  Então, Jesus lhes disse: Ó geração incrédula, até quando estarei convosco? Até quando vos sofrerei? Trazei-mo. (Mc 9)
17  Jesus exclamou: Ó geração incrédula e perversa! Até quando estarei convosco? Até quando vos sofrerei? Trazei-me aqui o menino. (Mt 17)
41  Respondeu Jesus: Ó geração incrédula e perversa! Até quando estarei convosco e vos sofrerei? Traze o teu filho. (Lc 9)

A quem Jesus dirigiu o seu desabafo: aos discípulos, aos escribas, ao pai ou à multidão?

Suposições, para debate.

– Aos discípulos:

✔👍Porque o fracasso dos discípulos expunha Jesus ao ridículo.

✔👍Porque eles tentaram aproveitar a oportunidade da ausência de Jesus para exibirem poder diante da multidão e Deus não os atendeu.

✔👍Porque eles ficaram com ciúme por não terem sido convidados a subir o monte com Jesus.

✔👍Porque em casa Jesus confirmou que eles não conseguiram por causa da pequenez de sua fé;

❌👎Porque Jesus não seria capaz de acrescentar à tamanha humilhação porque estavam passando, o rótulo de incredulidade e de perversidade, diante de todos;

❌👎Porque eles agiram por solidariedade à aflição daquele pai e tentaram libertar aquele jovem de tamanho sofrimento, cooperando assim com o ministério de Jesus;

❌👎Porque Jesus não chamaria seus discípulos, a quem ele mesmo escolheu, de perversos.

❌👎Porque em casa Jesus confirmou que eles não conseguiram por se tratar de uma casta de demônios diferente, que exige muita oração e jejum;

❌👎Porque o Espírito Santo ainda não havia sido derramado sobre eles, para habitação permanente e unção com poder.

– Aos escribas:

✔👍Porque é provável que estivessem procurando tirar proveito do fracasso dos seguidores de Cristo para levar vantagem e desconstruir a imagem e a doutrina de Jesus.

❌👎Porque a discussão girava em torno de encontrar uma solução para o problema. Eles também queriam ajudar.

– Ao pai:

✔👍Porque ele não tinha certeza de que Jesus poderia fazer aquele milagre, pois falou “se podes…”

❌👎Porque Jesus não seria capaz de humilhar uma alma aflita que se chega a ele suplicando por ajuda.

– À multidão:

✔👍Porque ela seguia a Jesus só por interesse material e Jesus já estava cansado dessa hipocrisia.

❌👎Porque Jesus tinha o interesse de aproximá-la para a orientar e não de despedi-la.

Não podemos afirmar com convicção quem era o destinatário dessa palavra dura de Jesus. Entretanto, temos certeza de que cada um que a ouviu e a ouvir ainda hoje, podia e poderá tomá-la como para si próprio, pois todos temos alguma incredulidade.

5ª) Um grande confronto
    Cósmico e humano.

42a  Quando se ia aproximando, o demônio o atirou no chão e o convulsionou;(Lc 9)
20  E trouxeram-lho; quando ele viu a Jesus, o espírito imediatamente o agitou com violência, e, caindo ele por terra, revolvia-se espumando. (Mc 9)
21  Perguntou Jesus ao pai do menino: Há quanto tempo isto lhe sucede? Desde a infância, respondeu; (Mc 9)
22  e muitas vezes o tem lançado no fogo e na água, para o matar; mas, se tu podes alguma coisa, tem compaixão de nós e ajuda-nos. (Mc 9)
23  Ao que lhe respondeu Jesus: Se podes! Tudo é possível ao que crê. (Mc 9)
24  E imediatamente o pai do menino exclamou, com lágrimas: Eu creio! Ajuda-me na minha falta de fé! (Mc 9)

Há dois confrontos sendo travados aqui:

1º) Jesus com o demônio.
Finalmente o jovem foi trazido à presença de Jesus. Ao aproximar-se de Jesus o demônio ficou transtornado e promoveu um terrível espetáculo. Jesus reage com tranquilidade a toda a agitação do demônio. Ele não se deixa impressionar com aquela aparente demonstração de poder. Jesus deixa de lado o demônio e concentra-se naquele pai.

2º) O pai com sua (falta de) fé.
Jesus conversa com aquele pai sobre o histórico do problema. Aquele pai, demonstra estar totalmente focado no problema e em qualquer tipo de solução, ainda que paliativa: “se tu podes alguma coisa…”.

▶ Ele se contentava com qualquer coisa, porém, Jesus só se contentava com uma fé integral. Jesus dá a entender que só prosseguiria se ele declarasse sua fé no poder de Deus.  

▶ Ele buscava uma solução sem ter que assumir qualquer compromisso. Conhece gente assim? Jesus o insere como corresponsável para a solução do problema. A fé dele era elemento indispensável para a realização do milagre. Jesus devolve o “se podes” e acrescenta, “tudo é possível ao que crê”. No ápice da crise, em lágrimas, ele, finalmente, declara sua fé ao mesmo tempo em que suplica ajuda pela sua incredulidade.

▶ Ele oferece o que tem e pede ajuda pelo que falta. Essa demonstração de sinceridade e humildade foi aceita por Jesus.

6ª) Uma grande libertação
    Nada pode resistir à ordem de Jesus!

25  Vendo Jesus que a multidão concorria, repreendeu o espírito imundo, dizendo-lhe: Espírito mudo e surdo, eu te ordeno: Sai deste jovem e nunca mais tornes a ele. (Mc 9)
26  E ele, clamando e agitando-o muito, saiu, deixando-o como se estivesse morto, a ponto de muitos dizerem: Morreu. (Mc 9)
27  Mas Jesus, tomando-o pela mão, o ergueu, e ele se levantou. (Mc 9)
18  E Jesus repreendeu o demônio, e este saiu do menino; e, desde aquela hora, ficou o menino curado. (Mt 17)
42b mas Jesus repreendeu o espírito imundo, curou o menino e o entregou a seu pai. (Lc 9)
43a  E todos ficaram maravilhados ante a majestade de Deus. (Lc 9)

Era hora de agir. A multidão já se agitava. Jesus não fala ao demônio, ele ordena a sua retirada definitiva. A reação demoníaca é muito espalhafatosa, como que para dar a entender que a ordem não funcionara, como que para testar a fé e convicção de quem ordena. Nessa hora, não se pode vacilar. O jovem, após ser liberto, fica inerte, como se estivesse morto. Fazia tempo que o seu espírito não dirigia o próprio corpo. Mas Jesus o tomou pela mão e ele se levantou e reassumiu o controle de sua própria vida. Assim restaurado, Jesus o entregou ao seu pai. O milagre estava feito. A fé do pai foi contemplada e recompensada. A multidão teve mais uma prova da divindade de Jesus.

7ª) Uma grande questão
     Como prevalecer sobre Satanás?

28  Quando entrou em casa, os seus discípulos lhe perguntaram em particular: Por que não pudemos nós expulsá-lo? (Mc 9)
29  Respondeu-lhes: Esta casta não pode sair senão por meio de oração e jejum. (Mc 9)
19  Então, os discípulos, aproximando-se de Jesus, perguntaram em particular: Por que motivo não pudemos nós expulsá-lo? (Mt 17)
20  E ele lhes respondeu: Por causa da pequenez da vossa fé. Pois em verdade vos digo que, se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a este monte: Passa daqui para acolá, e ele passará. Nada vos será impossível. (Mt 17)
21  Mas esta casta não se expele senão por meio de oração e jejum. (Mt 17)

A prioridade máxima deve ser resolver o problema; as dúvidas ficam para depois. É na intimidade da vida privada que se tratam determinadas questões. Os discípulos estavam confusos e inseguros. Quem não estaria? Ao chegarem em casa perguntaram ao Mestre: por que não conseguimos? O que faltou? A resposta de Jesus registrada por Marcos parece contradizer a revelada por Mateus. Marcos coloca a questão em termos de uma casta ou categoria de demônios mais difícil de ser exorcizada, o que requereria maior preparação espiritual (oração e jejum) para lidar com ela. Mateus diz que a causa foi “pouca fé”. Na verdade, as duas coisas são complementares e essenciais: preparação ou consagração, e fé. 

Uma outra razão de não terem conseguido é que aquele momento estava reservado para que se manifestasse a glória de Deus, em Jesus.

Conclusão

A narrativa da cura do jovem possesso revela que, diante das grandes lutas espirituais e humanas, apenas a presença e a ação de Jesus trazem solução plena. O episódio expõe a limitação dos discípulos, a angústia de um pai, o poder opressor do mal e, sobretudo, a necessidade de fé genuína, oração e dependência profunda de Deus. Ao final, fica claro que nenhuma força pode resistir à autoridade de Cristo, e que a vitória espiritual nasce da comunhão com ele e da confiança rendida no seu poder.

Que Deus nos ajude!


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Memória e Esperança

Lamentações 3.21-26

Introdução

O texto bíblico fala em trazer à memória algo renovador, capaz de dar alento e esperança. Segundo estudiosos do assunto, a memória humana possui características gerais de funcionamento, mas seu desempenho varia de pessoa para pessoa.

Há a memória de curto prazo, quando as informações são armazenadas por segundos ou minutos. Também há a memória de médio prazo, que pode se converter em memória de longo prazo quando revisitamos ou realimentamos conteúdos periodicamente – seja para o bem ou para o mal.

O cérebro humano é um órgão fantástico, capaz de conectar ideias, sons, imagens, cheiros, lugares, emoções e muito mais. Ao ativar ou visitar uma lembrança na memória, essa lembrança costuma puxar outras criando uma cadeia associativa. Há também aquela “memória autônoma” que armazena habilidades automáticas, como andar, tocar um instrumento musical, andar de bicicleta, dirigir um veículo etc.

a) Memória seletiva

O cérebro humano não armazena tudo aquilo que se ouve ou se vê, mas seleciona o que a pessoa aprendeu a valorizar ou foi condicionada a considerar relevante – por exemplo, aquilo que desperta interesse especialmente naquele momento da nossa vida, ou o que tem muito a ver com a nossa ocupação diária, hobby etc. É curioso observar, por exemplo: quando um profissional do ramo gráfico está num grupo de estudo bíblico, e uma revista é distribuída a cada participante, a sua atenção se volta imediatamente para a textura do papel, a qualidade da impressão e do acabamento etc. Da mesma forma, para uma mulher grávida, caminhando numa rua movimentada, não passará despercebido a presença de outras mulheres grávidas.

b) Memória imprecisa e subjetiva    

Numa boa gravação em áudio e vídeo os fatos são registrados exatamente como aconteceram. De um modo geral a mente humana reconstrói aquilo que guardamos na memória. A cada nova consulta à memória pode acontecer uma reconstituição imprecisa daquele acontecimento, com a supressão ou esquecimento de algum detalhe, bem como, a inserção subjetiva e interpretativa de elementos que não correspondem exatamente ao ocorrido. Assim, a cada lembrança abre-se espaço para pequenas distorções, ênfases diferentes e ressignificações do fato real.

c) Memória e emoção

Está comprovado que experiências emocionalmente intensas, situações que provoquem emoções fortes, principalmente as negativas – as ameaças, as perdas, as que geram apreensão ou medo ou dor – costumam marcar profundamente a mente da pessoa. Então, pode-se afirmar que a emoção atua como uma espécie de “cola” da memória.

d) Memória e repetição

A exposição da pessoa, de forma repetitiva, a determinados estímulos externos, fará com que esses conteúdos fiquem fortemente retidos em sua memória, produzindo algum tipo de ação ou reação. A memória pode ser treinada por meio de exercícios de repetição, foco e reflexão, fortalecendo, assim, as conexões neurais (sinapses).    

Jesus afirmou: “Porque a boca fala do que está cheio o coração.” (Mt 12.34b). De fato, é necessário acumular um bom tesouro na mente e isso irá direcionar boas ações (Lc 6.45b). E, o modus operandi divino recomendado é esse: “Estas palavras que, hoje, te ordeno estarão no teu coração;  tu as inculcarás a teus filhos, e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levantar-te.” (Dt 6.6-7)

Do exposto pode-se concluir que:

A memória humana não é um “arquivo estático e não degradável”, mas uma espécie de arquivo dinâmico resultado de um processo seletivo, emocional, repetitivo, impreciso e subjetivo.   

É possível, de maneira consciente e intencional exercitar e direcionar a mente para aquilo que pode dar esperança, fortalecer a fé e promover a paz interior. A memória pode ser moldada pela atenção e dedicação a algo verdadeiramente importante. Trazer à memória exige intencionalidade, é dirigir voluntariamente o foco, a atenção, para o que edifica a vida cristã e agrada a Deus.

A ciência diz que:
• recordar eventos positivos ou de superação aumenta a resiliência,
• ativa áreas do cérebro ligadas à motivação,
• reduz ansiedade.

E, o que o profeta Jeremias nos diz?

Jeremias está mergulhado em dor, luto e sensação de abandono. O contexto é o cativeiro babilônico de 70 anos. A lamentação é a exteriorização da dor da alma, difícil de ser contida, que aperta e sufoca. Tanto faz se essa se expressa de forma escrita ou verbal. Em qualquer dos casos a tristeza e o choro são coadjuvantes sempre presentes.

A calamidade que se abateu sobre Israel foi algo pavoroso, indescritível, ao ponto de se afirmar: “Mais felizes foram as vítimas da espada do que as vítimas da fome; porque estas se definham atingidas mortalmente pela falta do produto dos campos.” (Lm 4.9).

Em resumo, o estrago foi devastador:

  • Seus palácios, suas casas e o templo foram destruídos e queimados (Lm 2.5-60);
  • Seus príncipes caíram e seu povo foi levado para o exílio sob grande escravidão (Lm 1.3-6);
  • Deram suas coisas mais estimadas em troca de mantimentos (Lm 1.11);
  • As crianças desfaleciam pelas ruas da cidade (Lm 2.11; 4.10);
  • Mães cozinharam seus filhos para comer, tamanha foi a fome durante o cerco de aproximadamente 18 meses (Lm 2.20; 4.10);
  • Os velhos, os jovens e as virgens foram mortos à espada (Lm 2.21); virgens foram estupradas (Lm. 5.11);
  • Os inimigos desprezaram e debocharam dos que restaram (Lm 2.15).

Daí a razão de tamanho lamento, muitas vezes expresso em forma de metáforas (Lm 1.1, 9, 16, 20; 2.11, 18).

Imerso nesse contexto calamitoso Jeremias não se rende, não se desespera, mas reage:

“Quero trazer à memória o que me pode dar esperança.” (Lm 3.21)

Esse é um ato intencional. Jeremias decide direcionar a mente para a memória humana que não é passiva; que é ativa, seletiva e emocionalmente construída. Não se pode controlar tudo o que acontece conosco ou ao nosso redor, mas, felizmente, podemos escolher o que lembrar. A mente pode permanecer livre mesmo quando o corpo está preso – como Paulo e Silas, que, encarcerados, oravam e louvavam ao Senhor (At 16.25).

E, o que me pode dar esperança, principalmente em dias sombrios? Certamente um conteúdo mental de valor: convicções, fatos ou lembranças, capazes de produzir em meu ser a esperança. E, o que seria isso?

Jeremias se lembra do Deus de Israel, do seu caráter, do seu poder, dos seus feitos passados e do que ele pode fazer.

1. O DEUS MISERICORDIOSO

“As misericórdias do SENHOR são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim; renovam-se cada manhã.” (Lm 3.22-23a)

A calamidade que se abateu sobre Israel era resultado do juízo divino sobre a rebeldia e desobediência do povo e dos seus líderes. O pecado destrói e tem feito um tremendo estrago na humanidade, tanto maior quanto mais se aproxima o fim de todas as coisas e a volta de Cristo. Cristãos e não cristãos sofrem as consequências da rebeldia humana contra Deus. Entretanto, calamidades pessoais nem sempre são consequência direta do pecado próprio. Na Bíblia, na história e na nossa mente há o registro de inúmeros exemplos de gente fiel e temente a Deus que passou ou está passando por situações difíceis. Jeremias olha para a calamidade e encontra misericórdia onde só se via ruínas. Sua visão não muda os fatos, mas os ressignifica.

2. O DEUS FIEL

“Grande é a tua fidelidade.” (Lm 3.23b)

O profeta não estava decepcionado com Deus, nem intencionava questioná-lo. Deus se mostrou fiel à sua palavra de advertência. Deus não tem compromisso com os desobedientes e rebeldes, mas vela por sua palavra para a cumprir. “Fez o SENHOR o que intentou; cumpriu a ameaça que pronunciou desde os dias da antiguidade; derrubou e não se apiedou;” (Lm 2.17); “Deu o SENHOR cumprimento à sua indignação, derramou o ardor da sua ira; acendeu fogo em Sião, que consumiu os seus fundamentos.” (Lm 4.11). “Justo é o Senhor, pois me rebelei contra a sua palavra;” (Lm 1.18). É extremamente proveitoso para o cristão refletir sobre o preço do afastamento de Deus e da prática do pecado. Deus não é tolerante ao pecado como muitos chamados cristão o são.

Deus Pai não é fiel, nem a mim e nem a você, mas a si mesmo. Cristo permanece fiel a si mesmo: “pois de maneira nenhuma pode negar-se a si mesmo.” (2Tm 2.13).
• Fiel à sua santidade, que repudia o pecado.
• Fiel à sua justiça, que disciplina o seu povo.
• Fiel ao seu amor, que oferece redenção ao arrependido.

Ainda que pudesse haver no povo algum sentimento de abandono, por parte de Deus, o Senhor responde: “Mas Sião diz: O SENHOR me desamparou, o Senhor se esqueceu de mim. Acaso, pode uma mulher esquecer-se do filho que ainda mama, de sorte que não se compadeça do filho do seu ventre? Mas ainda que esta viesse a se esquecer dele, eu, todavia, não me esquecerei de ti.” (Is 49.14-15)

3. O DEUS DA ESPERANÇA

“A minha porção é o SENHOR, diz a minha alma; portanto, esperarei nele. Bom é o SENHOR para os que esperam por ele, para a alma que o busca.” (Lm 3.24-25)

É muito impressionante, para não dizer bizarro, como tantas pessoas depositam sua esperança em coisas vãs e efêmeras. Já a esperança maior do cristão está no Deus único e verdadeiro.

No passado e no presente a igreja tem enfrentado perseguições severas. É difícil até imaginar o que passaram ou estão passando muitos servos de Deus, quando despojados de sua casa, de seus bens e de seus pertences, de seus familiares e de seus irmãos em Cristo e amigos, de cuidados e de um tratamento digno. Quando tudo isso lhe é tirado, o crente regenerado ainda tem o que ninguém jamais pode retirar dele – a minha porção é o SENHOR. É como disse o salmista: “Digo ao SENHOR: Tu és o meu Senhor; outro bem não possuo, senão a ti somente.” (Sl 16.2)

Essa sim é a verdadeira esperança. E, o Senhor manifesta a sua bondade para os que assim agem, para os que confiam e esperam por ele. Quando o crente enfrenta qualquer situação difícil é sempre possível encontrar, no bom depósito da memória, elementos ou mesmo uma cadeia de verdades espirituais que dão esperança.     

4. O DEUS SALVADOR

“Bom é aguardar a salvação do SENHOR, e isso, em silêncio.” (Lm 3.26)

A vida cristã não é de passividade e de inércia, em que Deus faz tudo e o cristão fica confortavelmente esperando o agir de Deus. Na verdade, a salvação sim é obra exclusiva de Deus. Em qualquer tempo, de normalidade ou dificuldade, deve prevalecer aquela parceria harmônica com Deus, em que: “Devemos orar como se tudo dependesse de Deus e agir como se tudo dependesse de nós. Só orar não! Só agir não!”  

Entretanto, precisamos considerar que, na caminhada da vida, há circunstâncias e situações que escapam ao nosso controle e capacidade de alterar, mas não da intervenção divina. Então, é preciso esperar em Deus.

Esperar em Deus é:

a) Confiar no caráter de Deus
É ancorar a alma em quem Deus é e na sua palavra (Sl 130.5), sem se deixar abater pelas circunstâncias e, mesmo antes que estas deem sinais de melhoria.

b) Ter paciência
Deus trabalha no tempo dele, no seu kairós e não no nosso chronos, o tempo do calendário e do relógio. É perseverar sem perder a confiança e a esperança no seu agir.

c) Renovar as forças
Em certas situações, quanto mais a pessoa se agita, mais perde as forças, nada consegue, tendendo a sucumbir. “mas os que esperam no SENHOR renovam as suas forças, sobem com asas como águias, correm e não se cansam, caminham e não se fatigam.” (Is 40.31)

d) Descansar em silêncio
Essa espera confiante e silenciosa significa rendição, ausência de queixa, quietude do coração, abandono da ansiedade. “Descansa no SENHOR e espera nele, não te irrites por causa do homem que prospera em seu caminho, por causa do que leva a cabo os seus maus desígnios.” (Sl 37.7)

Conclusão

“Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o coração, porque dele procedem as fontes da vida.” (Pv 4.23)

Certamente, não está em foco aqui o órgão físico – o coração –, mas, simbolicamente, a mente, que é o centro dos pensamentos, escolhas, decisões, comportamentos e, em última instância, da condução da vida. É o núcleo do conhecimento, das emoções e da espiritualidade. Guardar a mente é vigiar, selecionar e protegê-la quanto ao que nela entra; é cuidar do que nela é gestado e encaminhado para a ação; é cultivar virtudes e afastar-se do mal; é colocar Deus no centro e submeter-lhe o nosso eu.

Finalmente, é preciso fazer um alerta. A humanidade tem vivenciado cinco grandes períodos ou regimes de poder baseados nos recursos e condições de cada época. Embora, por vezes, se sobreponham e coexistam em muitos momentos, se distinguem e caminham numa direção.

1. Poder pela Força Física e Militar (Idade Tribal → Antiguidade).

2. Poder pela Riqueza e Economia (Antiguidade → Mercantilismo → Capitalismo).

3. Poder Tecnológico e Científico (Séculos XIX e XX).

4. Poder pela Informação (Final do século XX → início do XXI).

5. Poder pela Mente e Consciência (Início e avanço do século XXI → futuro próximo).

Portanto, vivemos numa época em que, mais do que nunca está acontecendo uma batalha pela conquista da mente.     É a investida no controle das emoções, desejos e decisões; são algoritmos que moldam comportamento; são as estratégias para influenciar sem que o influenciado perceba. Quem influencia a mente, controla sem resistência – o domínio é interno e sutil. Enfim, não é mais a força, a riqueza, a ciência ou a informação em si, mas a capacidade de moldar percepções, crenças e decisões. Portanto, cuide bem da sua mente e memória, porque a nossa luta, acima de tudo, é espiritual – “porque a nossa luta não é contra o sangue e a carne, e sim contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes.” (Ef 6.12)

Que Deus nos ajude!


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A supremacia de Jesus Cristo

Marcos 4.41; 5.1-43

Introdução

“Certo chinês que se tinha convertido ao cristianismo, disse:
— Estava caído num poço, quase me afogando no lodo, clamando por alguém que me ajudasse. Nisto apareceu um ancião de aspecto venerável, que me olhou lá de cima, e me disse:
— Filho, este é um lugar mui desagradável.
— Sei que é. Não pode o Senhor ajudar-me a sair?
— Filho meu. Chamo-me Confúcio. Se houvesses lido minhas obras e seguido o que elas ensinam, nunca terias caído no poço. E com isto se foi.
Logo vi que chegava outro personagem; esta vez um homem que cruzava os braços e fechava os olhos. Parecia estar distante, mui distante. Era Buda, e me disse:
— Filho meu, fecha teus olhos e esquece-te de ti mesmo. Põe-te em estado de repouso. Não penses em nenhuma coisa desagradável. Assim poderás descansar como descanso eu.
— Sim, pai, o farei quando sair do poço. Mas quando? Buda, porém, se havia ido. Eu já estava desesperado quando se me apresentou ainda outra pessoa mui distinta. Levava, em seu rosto, os traços do sofrimento, e lhe falei:
— Pai, podes-me ajudar?
E então baixou-se até onde eu estava. Me tomou em seus braços, me suspendeu e me tirou do poço. Logo me deu de comer e me fez descansar. E quando eu já estava bem, disse-me:
— Não caias mais. Agora andaremos juntos.
Assim contava o chinês a história da compaixão do nosso Senhor Jesus Cristo.”
(Extraído)

Da mesma forma Jesus estendeu a mão aos três personagens desse capítulo, sem levar em conta o passado deles. Vejamos, então, alguns exemplos da indiscutível supremacia de Jesus Cristo.

“E eles, possuídos de grande temor, diziam uns aos outros: Quem é este que até o vento e o mar lhe obedecem?” (Mc 4.41)

1. SUPREMACIA EM LIBERTAR (Mc 5.1-20)

“Entrementes, chegaram à outra margem do mar, à terra dos gerasenos. Ao desembarcar, logo veio dos sepulcros, ao seu encontro, um homem possesso de espírito imundo, o qual vivia nos sepulcros, e nem mesmo com cadeias alguém podia prendê-lo; porque, tendo sido muitas vezes preso com grilhões e cadeias, as cadeias foram quebradas por ele, e os grilhões, despedaçados. E ninguém podia subjugá-lo. Andava sempre, de noite e de dia, clamando por entre os sepulcros e pelos montes, ferindo-se com pedras. Quando, de longe, viu Jesus, correu e o adorou, exclamando com alta voz: Que tenho eu contigo, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? Conjuro-te por Deus que não me atormentes! Porque Jesus lhe dissera: Espírito imundo, sai desse homem! E perguntou-lhe: Qual é o teu nome? Respondeu ele: Legião é o meu nome, porque somos muitos. E rogou-lhe encarecidamente que os não mandasse para fora do país.   Ora, pastava ali pelo monte uma grande manada de porcos. E os espíritos imundos rogaram a Jesus, dizendo: Manda-nos para os porcos, para que entremos neles.  Jesus o permitiu. Então, saindo os espíritos imundos, entraram nos porcos; e a manada, que era cerca de dois mil, precipitou-se despenhadeiro abaixo, para dentro do mar, onde se afogaram. Os porqueiros fugiram e o anunciaram na cidade e pelos campos. Então, saiu o povo para ver o que sucedera. Indo ter com Jesus, viram o endemoninhado, o que tivera a legião, assentado, vestido, em perfeito juízo; e temeram. Os que haviam presenciado os fatos contaram-lhes o que acontecera ao endemoninhado e acerca dos porcos. E entraram a rogar-lhe que se retirasse da terra deles. Ao entrar Jesus no barco, suplicava-lhe o que fora endemoninhado que o deixasse estar com ele. Jesus, porém, não lho permitiu, mas ordenou-lhe: Vai para tua casa, para os teus. Anuncia-lhes tudo o que o Senhor te fez e como teve compaixão de ti.  Então, ele foi e começou a proclamar em Decápolis tudo o que Jesus lhe fizera; e todos se admiravam.” (Mc 5.1-20)

Temos aqui a clara descrição de um homem escravizado e dominado por Satanás.

Há, pelo menos quatro NÍVEIS ou ESTRATÉGIAS DE ATUAÇÃO DE SATANÁS na humanidade – os “4 C”:

1º) CONFUNDIR – Fundir juntamente, misturar a verdade de Deus com as suas mentiras. Ele é o pai da mentira! “Vós sois do diabo, que é vosso pai, e quereis satisfazer-lhe os desejos. Ele foi homicida desde o princípio e jamais se firmou na verdade, porque nele não há verdade. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira.” (Jo 8.44)

Ele questiona e distorce a palavra de Deus, a verdade divina. Encobre as consequências e o juízo de Deus. Oferece ilusões.

2º) CONQUISTAR – Atrair, Seduzir, com o propósito de desviar do caminho da dignidade.

3º) CONTROLAR – Exercer o controle, dirigir, exercer o domínio completo.

É o controle por possessão exercido aqui sobre esse homem geraseno, por exemplo (Mc 5.2-4) e tantos outros casos relatados na história. Também tem acontecido investidas de  tentativas de controle da mente, quer por meditação transcendental, quer por narrativas insistentemente repetidas por determinados veículos de comunicação de massa.

4º) COMBATER – Pelejar, lutar contra.

Quando lhe resistimos nas demais estratégias ou investidas só lhe resta o combate direto ou indireto. Não tem sido pouca a perseguição sofrida pelos cristãos desde o início da igreja.

Temos aqui neste primeiro caso O ENCONTRO DA FORÇA SATÂNICA COM O PODER DE JESUS. O endemoniado foi a Jesus por condução (inconsciente?). A onipotência de Cristo prevaleceu e aquele homem foi liberto e teve sua dignidade resgatada.

Quanto aos circunstantes e espectadores se mostraram indiferentes à verdade e egoístas.

Fica evidenciado nesse encontro:
JESUS – AQUELE QUE PREVALECE SOBRE O REINO DOS DEMÔNIOS!

2. SUPREMACIA EM CURAR (Mc 5.25-34)

“Aconteceu que certa mulher, que, havia doze anos, vinha sofrendo de uma hemorragia  e muito padecera à mão de vários médicos, tendo despendido tudo quanto possuía, sem, contudo, nada aproveitar, antes, pelo contrário, indo a pior, tendo ouvido a fama de Jesus, vindo por trás dele, por entre a multidão, tocou-lhe a veste. Porque, dizia: Se eu apenas lhe tocar as vestes, ficarei curada. E logo se lhe estancou a hemorragia, e sentiu no corpo estar curada do seu flagelo. Jesus, reconhecendo imediatamente que dele saíra poder, virando-se no meio da multidão, perguntou: Quem me tocou nas vestes? Responderam-lhe seus discípulos: Vês que a multidão te aperta e dizes: Quem me tocou? Ele, porém, olhava ao redor para ver quem fizera isto. Então, a mulher, atemorizada e tremendo, cônscia do que nela se operara, veio, prostrou-se diante dele e declarou-lhe toda a verdade. E ele lhe disse: Filha, a tua fé te salvou; vai-te em paz e fica livre do teu mal.” (Mc 5.25-34)

Temos aqui a história de vida de uma mulher desenganada.

Podemos enumerar pelo menos três ASPECTOS DO SOFRIMENTO:

1º) Físico
Aquela mulher padecia de uma hemorragia há doze anos. Seu corpo estava debilitado, provavelmente anêmico, fraco, e constantemente impuro segundo a lei judaica (Lv 15.25-27). Ela convivia com doze anos de dor, fraqueza e exaustão corporal, sem cura nem melhora — pelo contrário, “indo a pior”.

2º) Moral
Havia um sofrimento moral (social e religioso). Por causa da sua condição, era considerada ritualmente impura segundo a Lei mosaica. Isso a impedia de participar do culto, do convívio familiar e da vida comunitária. Os efeitos morais e sociais eram: a) Isolamento social e religioso; b) Estigma moral de “impureza”; c) Possível rejeição da família e da comunidade; c) Perda de dignidade, pois tocá-la ou ser tocado por ela tornava alguém “impuro”. Portanto, ela era vista como vergonhosa ou indigna, o que fere o senso de valor e honra pessoal — sofrimento moral.

3º) Psicológico.
Foram doze anos de tentativas frustradas (“sofrido muito com muitos médicos”). Ela gastou tudo o que tinha, ocasionando assim, desespero e sentimento de inutilidade.

Temos aqui O ENCONTRO DA DESILUSÃO COM A SOLUÇÃO. Ela foi a Jesus por conveniência pessoal. Aproxima-se de Jesus com medo e tremor, o que revela insegurança e culpa. Podemos enumerar aqui alguns aspectos emocionais e mentais envolvidos: a) Ansiedade, medo de ser descoberta, vergonha da condição; b) Esperança misturada com temor; c) Sentimento de desvalorização e fracasso.

A onisciência de Cristo se manifesta “Quem me tocou…”. Aquilo que parecia impossível, sem solução, foi resolvido pelo poder de Jesus. Sua saúde foi restaurada! Finalmente ela obteve alívio e paz após a cura (“Vai-te em paz”). A cura de Jesus abrange corpo e alma — restauração emocional, espiritual e social.

Os Circunstantes se mostraram curiosos e aproveitadores.

Fica evidenciado nesse encontro:
JESUS – AQUELE QUE PREVALECE SOBRE AS ENFERMIDADES!

3. SUPREMACIA EM RESSUSCITAR (Mc 5.21-24; 35-43)

“Tendo Jesus voltado no barco, para o outro lado, afluiu para ele grande multidão; e ele estava junto do mar. Eis que se chegou a ele um dos principais da sinagoga, chamado Jairo, e, vendo-o, prostrou-se a seus pés e insistentemente lhe suplicou: Minha filhinha está à morte; vem, impõe as mãos sobre ela, para que seja salva, e viverá. Jesus foi com ele. Grande multidão o seguia, comprimindo-o.” (Mc 5.21-24)

“Falava ele ainda, quando chegaram alguns da casa do chefe da sinagoga, a quem disseram: Tua filha já morreu; por que ainda incomodas o Mestre? Mas Jesus, sem acudir a tais palavras, disse ao chefe da sinagoga: Não temas, crê somente. Contudo, não permitiu que alguém o acompanhasse, senão Pedro e os irmãos Tiago e João. Chegando à casa do chefe da sinagoga, viu Jesus o alvoroço, os que choravam e os que pranteavam muito. Ao entrar, lhes disse: Por que estais em alvoroço e chorais? A criança não está morta, mas dorme. E riam-se dele. Tendo ele, porém, mandado sair a todos, tomou o pai e a mãe da criança e os que vieram com ele e entrou onde ela estava. Tomando-a pela mão, disse: Talitá cumi!, que quer dizer: Menina, eu te mando, levanta-te! Imediatamente, a menina se levantou e pôs-se a andar; pois tinha doze anos. Então, ficaram todos sobremaneira admirados. Mas Jesus ordenou-lhes expressamente que ninguém o soubesse; e mandou que dessem de comer à menina.” (Mc 5.35-43)

Temos aqui o caso de uma menina agonizando que acabou indo a óbito. Ela era a filha única de um pai desesperado

Podemos considerar que há três TIPOS DE MORTE:

1º) Morte Física (separação entre corpo e alma)
“E, assim como aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo, depois disto, o juízo,” (Hb 9.27)

✝️ Supremacia de Cristo:

a) Jesus morreu fisicamente, mas ressuscitou corporalmente provando seu poder sobre a morte física. “Mas de fato Cristo ressuscitou dentre os mortos, sendo ele as primícias dos que dormem.” (1Co 15.20)

b) Ele ressuscitou outros mostrando autoridade sobre a morte dos corpos:
. O filho da viúva de Naim (Lc 7.11-17);
. A filha de Jairo (Mc 5.35-43);
. Lázaro (Jo 11.43-44).

c) Ele promete ressurreição aos que creem: “Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que morra, viverá.” (Jo 11.25)

Jesus venceu a morte física em si mesmo e provou o seu poder sobre a morte.

2º) Morte Espiritual (separação entre homem e Deus pelo pecado)
“e estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo, – pela graça sois salvos,” (Ef 2.5)

✝️ Supremacia de Cristo:

a) Jesus é a própria vida espiritual: “Respondeu-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida;” (Jo 14.6)

b) Ele vivifica o espírito humano morto pelo pecado: “Em verdade, em verdade vos digo que vem a hora e já chegou, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus; e os que a ouvirem viverão.” (Jo 5.25)

c) Por sua morte e ressurreição, o crente é reconciliado com Deus, deixando o estado de morte espiritual: “E a vós outros, que estáveis mortos pelas vossas transgressões e pela incircuncisão da vossa carne, vos deu vida juntamente com ele, perdoando todos os nossos delitos;” (Cl 2.13)

Jesus vence a morte espiritual trazendo nova vida interior e comunhão com Deus ao regenerar o pecador.

3º) Segunda morte ou Lago de Fogo (condenação eterna)
“Então, a morte e o inferno foram lançados para dentro do lago de fogo. Esta é a segunda morte, o lago de fogo.” (Ap 20.14)

✝️ Supremacia de Cristo:

a) Cristo tem as chaves da morte e do inferno: “… estive morto, mas eis que estou vivo pelos séculos dos séculos, e tenho as chaves da morte e do inferno.” (Ap 1.18)

b) Quem crê em Jesus não sofrerá a segunda morte: “O vencedor de nenhum modo sofrerá dano da segunda morte.” (Ap 2.11b)

c) A obra de Cristo na cruz e sua vitória final eliminam o poder do inferno: “E, quando este corpo corruptível se revestir de incorruptibilidade, e o que é mortal se revestir de imortalidade, então, se cumprirá a palavra que está escrita: Tragada foi a morte pela vitória.” (1Co 15.54)

d) Na eternidade, não haverá mais morte: “E lhes enxugará dos olhos toda lágrima, e a morte já não existirá, já não haverá luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras coisas passaram.” (Ap 21.4)

Jesus tem autoridade para livrar seus redimidos da condenação eterna, anulando o poder da segunda morte.

Temos aqui o ENCONTRO DA MORTE COM A VIDA. Jairo foi a Jesus por convicção naquele que é o doador da vida.

Os Circunstantes se mostraram incrédulos e hipócritas.

Fica evidenciado nesse encontro:
JESUS – AQUELE QUE PREVALECE SOBRE A MORTE!

Conclusão

A síntese desses três encontros pode ser assim expressa:

⚠️De um lado: os três maiores inimigos do homem, consequência da queda, do pecado no mundo (Satanás, Doença e Morte).

✝️Do outro lado: o poder infinito, útil e ao dispor de todos aqueles que se chegam a Jesus Cristo com fé e singeleza de coração.

Um homem, uma mulher e uma criança encontraram em Jesus a resposta a altura das suas necessidades. Qual é o teu problema? Você pode ainda não ter se dado conta, mas é – de Perdão, de Regeneração e de Comunhão com Deus. Desde há muito tempo pesa sobre a humanidade a triste sentença de Deus: “A alma que pecar esta morrerá”. Não foi a vida de Cristo, exemplar e cheia de manifestações de poder que resolveu o maior problema do ser humano, mas sim a sua morte (Hb 9.22). Sua vida autenticou sua divindade; sua morte abriu-nos caminho para Deus! A sua morte foi sem dúvida o maior milagre de todos, pois resolveu o maior problema de cada ser humano – a sua reconciliação com Deus, a sua salvação eterna!

Soli Deo gloria!

PLAN DE LECTURA BÍBLICA 2 AÑOS

(Orientación del papel PAISAJE)

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Ahora es solo doblar al medio, la capa y las hojas del Plan, para montar el CUADERNO y buena lectura.

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Colaboración voluntaria en la traducción de Gustavo da Silva Sevilha.
Creación, ajuste final, edición y distribución exclusiva por Paulo Raposo Correia.
2025

Caráter e Reputação

Introdução

“Quem anda em integridade anda seguro, mas o que perverte os seus caminhos será conhecido.” (Pv 10.9)

Caráter e reputação são temas que jamais se tornarão dispensáveis ou irrelevantes, seja no contexto da igreja de Cristo, seja na esfera da sociedade secular.

Ao longo da história, em alguns momentos e lugares, percebe-se lampejos de moralidade, de respeito ao próximo e reverência a Deus. Contudo, a natureza humana caída e pecadora sempre se manifesta de maneira avassaladora e repugnante, manchando a bela criação divina.

Houve ocasiões em que a corrupção moral atingiu tamanha gravidade que o próprio Deus precisou intervir com juízos radicais: o “reset” da humanidade por meio do Dilúvio nos dias de Noé, e o “delete” pontual de Sodoma e Gomorra nos dias de Abraão.

Nos tempos atuais, a degradação dos princípios e valores judaico-cristãos segue avançando em velocidade alarmante. A imoralidade e a corrupção parecem se multiplicar, mas é somente pela blindagem da misericórdia divina que ainda não fomos consumidos pelo fogo do justo juízo de Deus. Que ninguém se engane, pois o juízo divino há de alcançar os perversos/ímpios. “Mas, segundo a tua dureza e coração impenitente, acumulas contra ti mesmo ira para o dia da ira e da revelação do justo juízo de Deus, que retribuirá a cada um segundo o seu procedimento: a vida eterna aos que, perseverando em fazer o bem, procuram glória, honra e incorruptibilidade; mas ira e indignação aos facciosos, que desobedecem à verdade e obedecem à injustiça.” (Rm 2.5-8)

Caráter é aquele conjunto de traços psicológicos e morais que caracterizam cada indivíduo; porém, no nosso agir e fazer cotidianos, manifestamos aos outros o que realmente somos, o que se convencionou denominar de reputação, isto é, conceito que os outros formam a nosso respeito.

Deus quis ser identificado como “EU SOU O QUE SOU” (Êx 3.14). Diferentemente do ser humano, que pode pensar de si mesmo de uma forma e agir de outra, o Senhor é imutável: Ele é sempre o mesmo, e o seu agir jamais entra em conflito com o seu ser. Pouco importa a reputação que nós, meros mortais, atribuímos a ele – sua essência e seus atributos permanecem inalteráveis e perfeitos.

Jesus também se revelou como o EU SOU (o Eterno – Jo 8.24, 28, 58; 13.19), e ainda: o Cristo, o Filho de Deus (Mc 14.61-62); o Filho do homem (Jo 9.35); o Messias prometido (Jo 4.26); aquele que veio cumprir a profecia (Lc 4.17-21); a luz do mundo (Jo 8.12; 12.46); a porta das ovelhas (Jo 10.7, 9); o bom pastor (Jo 10.11, 14); o pão da vida, o pão vivo que desceu do céu (Jo 6.35, 48; Jo 6.41, 51); a ressurreição e a vida (Jo 11.24); o caminho, e a verdade, e a vida (Jo 14.6); a videira verdadeira (Jo 15.1, 5). Esse é Jesus e o seu caráter; os seus milagres deveriam testemunhar sua procedência divina (Mt 11.4-6; Lc 7.22). Entretanto, como ele foi visto pelas pessoas do seu tempo, a sua reputação? Alguns o reconheceram como profeta (Jo 4.19; 6.14; 9.17; Lc 7.16), como quem tinha e ensinava com autoridade (Mc1.22; Lc 4.32). Os religiosos o viam como Belzebu, o maioral dos demônios (Mc 3.22; Mt 12.24; Lc 11.15). As multidões divergiam: uns o viam como bom, outros como um enganador (Jo 7.12-13; 10.19-21). Em certa ocasião Jesus perguntou aos seus discípulos: “…: Quem dizem os homens que sou eu? E responderam: João Batista; outros: Elias; mas outros: Algum dos profetas. Então, lhes perguntou: Mas vós, quem dizeis que eu sou? Respondendo, Pedro lhe disse: Tu és o Cristo.” (Mc 8.27b-30; comp. Mt 16.13-16; Lc 9.18-20).  Certamente Jesus já sabia a resposta, mas provocou a pergunta para que a resposta ficasse registrada. Assim, os discípulos creram e confessaram ser Jesus, o Cristo, o Messias, o enviado de Deus (Jo 16.30; 17.8).

Enfim, independentemente do que diziam ou pensavam a seu respeito, a verdade é que Jesus é o Filho de Deus encarnado, que habitou entre nós com caráter irrepreensível e vida sem pecado. Ainda assim, foi rejeitado por aqueles que não discerniram a visitação divina e, por suas mãos, crucificado. Assim também nós, pecadores regenerados e justificados, mesmo buscando viver de forma íntegra e piedosa diante de Deus e dos homens, não devemos esperar destino diferente do de nosso Mestre (Jo 15.18-20).

1. O QUE DIZEM SOBRE CARÁTER E REPUTAÇÃO?

Há um dito popular que assim define esses dois termos:

“Caráter é o que você é quando ninguém está olhando; reputação é o que os outros pensam de você.”

Outra versão bastante citada:

“Caráter é o que você é; reputação é o que dizem que você é.”

Em resumo:
👉 Caráter → essência, quem a pessoa realmente é.
👉 Reputação → aparência, como os outros a percebem.

🟪 Caráter e Reputação – Transitando entre a Essência e a Imagem

Poucos temas são tão universais e atemporais quanto a distinção entre quem realmente somos e como somos vistos. Essa tensão entre essência e aparência atravessa culturas, épocas e tradições. Não é à toa que grandes pensadores, líderes e pregadores se debruçaram sobre o assunto, deixando frases que se tornaram provérbios para a vida prática.

🗣️Abraham Lincoln (O 16º presidente dos Estados Unidos)
“Character is like a tree and reputation like its shadow. The shadow is what we think of it; the tree is the real thing.”

A metáfora da árvore e da sombra
Abraham Lincoln foi um dos que melhor sintetizou a diferença:
 “O caráter é como uma árvore, e a reputação é como sua sombra. A sombra é o que pensamos dela; a árvore é a coisa real.”

Aqui, a metáfora é clara: a árvore (caráter) existe em si, sólida, enraizada na realidade. A sombra (reputação), embora derive da árvore, é instável, muda de forma conforme a luz incide e o olhar de quem a observa. Ou seja, a reputação nunca é totalmente fiel ao caráter; ela é apenas reflexo, projeção.
📖 Pensamento bíblico: “O justo anda na sua integridade; felizes lhe são os filhos depois dele.” (Pv 20.7)

🗣️John Wooden (técnico de basquete e escritor)
“Be more concerned with your character than with your reputation, because your character is what you really are, while your reputation is merely what others think you are.” 

A ordem de prioridades
O lendário técnico John Wooden reforçou essa distinção ao aconselhar:

“Preocupe-se mais com seu caráter do que com sua reputação, porque o caráter é o que você realmente é, enquanto a reputação é apenas o que os outros pensam que você é.”

Na era da visibilidade constante, em que cada gesto pode se tornar público, é tentador valorizar mais a “sombra” do que a árvore. Porém, Wooden inverte a lógica comum: reputação é consequência, caráter é fundamento. Um pode ser destruído por boatos, o outro se mantém de pé quando a integridade é cultivada.
📖 Pensamento bíblico: “Mais vale o bom nome do que as muitas riquezas; e o ser estimado é melhor do que a prata e o ouro.” (Pv 22.1)

🗣️Dwight L. Moody (pregador cristão)
“If I take care of my character, my reputation will take care of me.”

A lei do reflexo
O pregador Dwight L. Moody ofereceu um conselho prático:

“Se eu cuidar do meu caráter, minha reputação cuidará de mim.”

Moody entendia que reputação, por mais frágil que seja, costuma acompanhar o caráter com o tempo. É uma espécie de lei do reflexo: a imagem projetada será, cedo ou tarde, a consequência do que realmente somos. O contrário, porém, não é verdadeiro – quem busca apenas preservar a reputação, sem cuidar do caráter, cedo ou tarde será desmascarado.
📖 Pensamento bíblico: “Servos, obedecei em tudo ao vosso senhor segundo a carne, não servindo apenas sob vigilância, visando tão-somente agradar homens, mas em singeleza de coração, temendo ao Senhor.” (Cl 3.22)

🗣️Thomas Paine (filósofo e revolucionário)
“Reputation is what men and women think of us; character is what God and angels know of us.”

A visão de Deus
Já o filósofo Thomas Paine amplia a reflexão para além da sociedade humana:

“A reputação é o que homens e mulheres pensam de nós; o caráter é o que Deus e os anjos sabem de nós.”

Essa frase nos leva a uma dimensão espiritual e transcendente. Enquanto a reputação é relativa, varia conforme os critérios culturais e sociais, o caráter é absoluto diante de Deus. Assim, o caráter não é apenas questão de moralidade pública, mas de verdade última: aquilo que permanece quando todas as máscaras caem.
📖 Pensamento bíblico: “Porque, quanto ao SENHOR, seus olhos passam por toda a terra, para mostrar-se forte para com aqueles cujo coração é totalmente dele;” (2Cr 16.9a)

🗣️John Bartholomew Gough (pensador)
“Reputation is for time; character is for eternity.”

O valor eterno do caráter
Outro pensador, John Bartholomew Gough, resumiu de forma lapidar:

“A reputação é para o tempo; o caráter é para a eternidade.”

A reputação pode abrir portas ou fechá-las nesta vida, mas o caráter define o destino  final, seja na memória das pessoas, seja diante de Deus. Essa diferença entre o transitório e o eterno nos obriga a refletir sobre o que realmente importa: não apenas ser bem falado, mas ser verdadeiramente íntegro.
📖 Pensamento bíblico: “Melhor é o pobre que anda na sua integridade do que o perverso, nos seus caminhos, ainda que seja rico.” (Pv 28.6)

🟪 Entre essência e aparência

Todas essas vozes apontam para a mesma direção:

  • Caráter é aquilo que somos no íntimo, mesmo quando ninguém observa.
  • Reputação é aquilo que os outros percebem, julgam e comentam.

Ambos se relacionam, mas não se confundem. Uma reputação manchada pode ser injustiça, mas um caráter íntegro permanece firme. Por outro lado, uma reputação brilhante sem caráter verdadeiro é como fachada sem alicerce: cedo ou tarde desmorona.

🟪 Reflexão

Na sociedade atual, marcada por redes sociais, curtidas e aparências digitais, a lição desses antigos ditos é mais necessária do que nunca. Investir no caráter é cuidar daquilo que é permanente, sólido e invisível aos olhos. A reputação pode oscilar como sombra ao sol, mas o caráter, uma vez firmado, permanece.

Talvez o conselho de Moody resuma com sabedoria prática todo o debate:
“Cuide do seu caráter e a reputação cuidará de si mesma.”

2. O QUE JESUS FALOU SOBRE CARÁTER E REPUTAÇÃO?

Embora Jesus não tenha usado diretamente os termos “caráter” e “reputação” como nós falamos atualmente, ele tratou exatamente da diferença entre quem a pessoa é no íntimo e como é vista pelos outros. Isso está contemplado em muitos de seus ensinos.

2.1 O valor do caráter (o interior)

Foi dessa maneira que Deus orientou o profeta Samuel na escolha do novo rei de Israel, em substituição a Saul. Ao entrar na casa de Jessé, Samuel logo se impressionou com a aparência de Eliabe, mas o Senhor tinha o seu escolhido – Davi.  “Porém o SENHOR disse a Samuel: Não atentes para a sua aparência, nem para a sua altura, porque o rejeitei; porque o SENHOR não vê como vê o homem. O homem vê o exterior, porém o SENHOR, o coração.” (1Sm 16.7)

Jesus sempre destacou que Deus olha para o coração, não para as aparências: “Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus.” (Mt 5.8). E, adverte: “Não julgueis segundo a aparência, e sim pela reta justiça.” (Jo 7.24)

Jesus também ensina que o verdadeiro caráter gera frutos coerentes, pois a essência tem um modo próprio de se revelar, de revelar o caráter: “Pelos seus frutos os conhecereis. Colhem-se, porventura, uvas dos espinheiros ou figos dos abrolhos? Assim, toda árvore boa produz bons frutos, e toda árvore má produz frutos maus.” (Mt 7.16-17; 12.33). Em outra metáfora ele acrescenta: “O homem bom do bom tesouro do coração tira o bem, e o mau do mau tesouro tira o mal; porque a boca fala do que está cheio o coração.” (Lc 6.45; Mt 12.35). As obras revelam quem a pessoa é (Jo 10.25), e é do coração que procedem coisas más e repugnantes que a contaminam (Mc 7.21-23; Mt 15.18-20).  

2.2 A futilidade da reputação sem caráter

Jesus denunciou com firmeza a hipocrisia dos fariseus, que se importavam com uma boa aparência exterior (reputação religiosa), mas tinham um caráter corrompido: “Ai de vocês, escribas e fariseus, hipócritas, porque vocês são semelhantes aos sepulcros pintados de branco, que, por fora, se mostram belos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda podridão! Assim também vocês, por fora, parecem justos aos olhos dos outros, mas, por dentro, estão cheios de hipocrisia e de maldade.” (Mt 23.27-28 NAA). De que vale essa reputação farisaica de piedoso se seu caráter for reprovado por Deus?

2.3 O ensino sobre integridade no secreto

Jesus ensinou que as práticas espirituais (justiça, oração, jejum e esmolas) devem ser feitas com sinceridade diante de Deus, e não como pretexto para propagandear uma falsa reputação de piedade:

⚖️Justiça: “Guardai-vos de exercer a vossa justiça diante dos homens, com o fim de serdes vistos por eles; doutra sorte, não tereis galardão junto de vosso Pai celeste.” (Mt 6.1)

🙏Oração: “E, quando orardes, não sereis como os hipócritas; porque gostam de orar em pé nas sinagogas e nos cantos das praças, para serem vistos dos homens. Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa.” (Mt 6.5)

🍽️Jejum: “Quando jejuardes, não vos mostreis contristados como os hipócritas; porque desfiguram o rosto com o fim de parecer aos homens que jejuam. Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa.” (Mt 6.16)

🪙Esmolas: “Quando, pois, deres esmola, não toques trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas, nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa.” (Mt 6.2)

“e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará.” (Mt 6.4b). O verdadeiro caráter não se revela na busca de aprovação ou reputação diante dos homens, mas em viver para agradar a Deus.

2.4 O peso da palavra e da coerência

O caráter íntegro se revela na coerência entre o que se fala e o que se faz, sem duplicidade:  “Seja, porém, a tua palavra: Sim, sim; não, não; porque o que passa disto é de procedência maligna.” (Mt 5.37)

2.5 O juízo final revelará caráter acima da reputação

No juízo final, não importa a reputação ministerial ou as obras aparentes; o que conta é o caráter obediente e verdadeiro: “Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus. Muitos, naquele dia, hão de dizer-me: Senhor, Senhor! Porventura, não temos nós profetizado em teu nome, e em teu nome não expelimos demônios, e em teu nome não fizemos muitos milagres? Então, lhes direi explicitamente: nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniquidade.” (Mt 7.21-23)

Conclusão

Vivemos em um mundo cada vez mais tecnológico, onde o desafio de discernir entre o falso e o verdadeiro se torna constante e crescente – especialmente no que se divulga e compartilha nas redes sociais por meio de imagens, áudios e vídeos. Esse cenário se agrava com o avanço das ferramentas de Inteligência Artificial, capazes de criar produções tão realistas que simulam, sem limites, pessoas vivas ou já falecidas. Diante disso, é inegável: a tecnologia, como qualquer outro recurso humano, pode ser usada tanto para o bem quanto para o mal.

Entretanto, apesar desse contexto moderno tão desafiador, é preciso ressaltar que a humanidade sempre precisou e continuará precisando lidar com a questão da visão e conhecimento do outro, de identificar nele aquela reputação que mais se aproxima do seu real caráter.  Vale lembrar que o cristão autêntico deve refletir, em sua aparência e conduta, aquilo que de fato é em essência – e sua essência precisa, cada vez mais, conformar-se à imagem de Cristo.

Enfim, a Bíblia nos ensina que:

✅O caráter (coração íntegro, sincero, temente e obediente a Deus) é o que importa.

✅A reputação (como os outros nos veem) pode enganar, e até ser construída artificialmente, mas não prevalece diante de Deus.

✅A vida cristã deve ser vivida no secreto, na autenticidade, de modo que a reputação seja apenas reflexo do caráter – e não o contrário.

Que assim Deus nos ajude! 🙏

O Deus da Renovação

Isaías 40.28-31

Introdução

Isaías, filho de Amoz, o escritor deste livro, nasceu em uma família de destaque no Reino de Judá e, por isso, teve acesso à corte, à realeza, atuando como conselheiro em tempos de grandes decisões políticas. Ainda assim, não se deixou seduzir pelo poder ou pela influência. Seu chamado profético o levou a confrontar reis e líderes, advertindo-os contra alianças humanas políticas, com povos vizinhos, e lembrando a nação de que sua única segurança estava no Senhor.

Ele também levantou a voz contra as injustiças sociais e desvios espirituais, denunciando os pecados de seu povo não como um ativista, mas como alguém que via nessas práticas a evidência de um coração distante de Deus – sintomas de apostasia espiritual. Judá parecia estar seguindo o mau exemplo de apostasia e idolatria das dez tribos de Israel (Reino do Norte), que viriam a ser capturadas pela Assíria em 722 a.C.). Isaías dedicou sua vida a proclamar a verdade divina em meio a zombarias e rejeições. “A sua mensagem é constituída de acusações, condenações e julgamentos, pois ele declara a maldição de Deus sobre Israel, Judá e as nações (Is 1.2-31; 13 a 23; 56 a 57; 65)

Segundo a tradição judaica, sua fidelidade a Deus lhe custou a vida: durante o reinado de Manassés (696-642 a.C.), foi martirizado, serrado ao meio dentro de um tronco oco (Hb 11.37). Sua vida e morte testemunham que confiar no Senhor, mesmo diante da oposição, é a marca de um verdadeiro servo de Deus.

O livro do profeta Isaías é geralmente dividido em duas grandes (macro) partes, cada uma com características próprias:

📖 a) Primeira divisão (Isaías 1 a 39)
             Também chamada de “Livro da Denúncia, ou Condenação, ou do Juízo”.

Características principais:

  • Enfatiza a justiça e a santidade de Deus.
  • Contém predições de juízo contra Judá, Israel e, também, contra nações estrangeiras (Assíria, Babilônia, Egito etc.).
  • Mostra a corrupção moral, social e espiritual do povo, chamando-o ao arrependimento.
  • Retrata a ameaça assíria e o perigo que Jerusalém enfrentava nesse período histórico.
  • Apresenta, contudo, lampejos de esperança messiânica (Ex.: Isaías 7.14; 9.6; 11.1-9).

Resumindo, é a parte que destaca o pecado do povo e o juízo de Deus, mas também aponta para a promessa de um futuro Rei justo.

📖 b) Segunda divisão (Isaías 40 a 66)
             Também chamada de “Livro da Consolação”.

Características principais:

  • Ênfase no consolo e na esperança após o período de juízo.
  • Apresenta o poder e a soberania de Deus sobre a história.
  • Profecias relacionadas ao cativeiro babilônico (mesmo antes de acontecer) e à promessa de restauração.
  • Anúncio do Servo do Senhor e Salvador (Isaías 42; 49; 50; 52–53), que traz redenção não apenas para Israel, mas para todas as nações.
  • Termina com a visão do novo céu e nova terra (Isaías 65–66).

Resumindo, é a parte que destaca o consolo, a restauração e a esperança messiânica.

Em síntese:

  • Isaías 1 a 39   👉 Juízo (Deus santo julga o pecado).
  • Isaías 40 a 66 👉 Consolação (Deus gracioso restaura seu povo).

📖 Curiosidade Bíblica

O livro de Isaías traz uma correspondência impressionante com a estrutura da Bíblia:

  • A Bíblia possui 66 livros, sendo 39 do Antigo Testamento (AT) e 27 do Novo Testamento (NT).
  • O livro de Isaías também possui 66 capítulos, divididos em duas grandes partes:
    • 39 Capítulos (1–39) → Juízo (correspondendo ao AT)
    • 27 Capítulos (40–66) → Consolação (correspondendo ao NT)

Essa divisão reflete até mesmo a mensagem espiritual de cada parte:

  • No Antigo Testamento, prevalece a Antiga Aliança, marcada pelo rigor da Lei Mosaica e pelo princípio: “Pecou? Pagou!”
  • No Novo Testamento, entra em vigor a Nova Aliança da graça, não anulando o juízo, mas adiando-o com misericórdia: “Pecou? Vai pagar… um dia – se não se arrepender e receber o perdão em Cristo.”

Da mesma forma:

  • Na primeira parte de Isaías, o foco está no juízo contra os transgressores, enfatizando a santidade de Deus.
  • Na segunda parte, o foco se desloca para a restauração do pecador, através da obra redentora de Cristo, revelando um Deus igualmente santo, mas agora manifestando sua misericórdia e longanimidade (2Pe 3.9).

O profeta Isaías exerceu seu ministério por mais de 40 anos, a partir de 740 a.C., no Reino do Sul (Judá), no reinado de vários reis (Uzias, Jotão, Acaz e Ezequias – Is 1.1). Considerando que o cativeiro de Israel (Reino do Norte), pela Assíria, ocorreu em 722 a.C., ele vivenciou o período imediatamente anterior e posterior ao exílio. Parece fazer sentido a mensagem divina principiar com foco na razão do julgamento e cativeiro iminentes de Israel, porém, finalizando com promessas animadoras de bênçãos e restauração, para estes de Israel e para os futuros exilados de Judá. Esse é o contexto do livro de Isaías.

O nosso texto base está inserido exatamente na segunda parte do livro, no capítulo 40, que inicia com uma palavra de consolo e esperança: “Consolai, consolai o meu povo, diz o vosso Deus. Falai ao coração de Jerusalém, bradai-lhe que já é findo o tempo da sua milícia, que a sua iniquidade está perdoada e que já recebeu em dobro das mãos do SENHOR por todos os seus pecados.” (Is 40.1-2). É uma referência ao retorno do remanescente de Judá do exílio na Babilônia (ocorrido em 586 a.C.) e sua libertação final em um futuro distante (Is 44.28; 45.1-18)

O povo de Israel (Reino do Norte) enfrentava cativeiro, fadiga espiritual e desânimo. Isaías traz uma palavra de consolo e esperança, destacando a vinda do precursor do Messias (João Batista) (Is 40.3-5; Mt 3.3) e do estabelecimento do Reino de Deus a partir de Jesus Cristo (Is 40.9-11). Na sequência, faz uma bela exposição da grandeza do Deus Criador, Soberano e inigualável (Is 40.12-26). Finalmente, o profeta expõe a murmuração do povo ao suposto esquecimento ou abandono da parte de Deus: “Por que, pois, dizes, ó Jacó, e falas, ó Israel: O meu caminho está encoberto ao SENHOR, e o meu direito passa despercebido ao meu Deus?” (Is 40.27). Assim, os versículos finais desse capítulo soam como uma resposta ao povo, lembrando-o de que o Deus Criador é eterno, soberano e capaz de renovar os abatidos.

1. O Deus que nunca se cansa (v.28)

“Não sabes, não ouviste que o eterno Deus, o SENHOR, o Criador dos fins da terra, nem se cansa, nem se fatiga? Não se pode esquadrinhar o seu entendimento.”

  • Diferentemente de nós, Deus nunca se cansa, suas energias nunca exaurem. Ele mesmo faz o desafio, principalmente aos idólatras e incrédulos: “A quem, pois, me comparareis para que eu lhe seja igual? – diz o Santo”. (Is 40.25)
  • “Levantai ao alto os olhos e vede” (Is 40.26a). Vede que ele é o Criador e Sustentador da sua criação. Vede que  seu poder é eterno e ilimitado. Vede a manifestação do seu poder ao longo da história.
  • Seu entendimento é insondável. Você pode até não entender quando ele age, ou quando parece que ele não está agindo, ou não está fazendo o que se esperava que fizesse. Entretanto, ele sabe exatamente o que enfrentamos e como nos sustentar, nos renovar.

Ilustração:
Como o sol que ilumina todos os dias sem se apagar, sem diminuir o seu fulgor, sua capacidade de produzir luz e calor, assim é o Senhor: fonte eterna e inesgotável de poder e vigor. Quando nossas forças falham ou o desânimo chega, podemos nos lançar no Deus que não se cansa, nem desampara os que o temem.

2. O Deus que dá forças ao fraco (vv.29-30)

“Faz forte ao cansado e multiplica as forças ao que não tem nenhum vigor.
 Os jovens se cansam e se fatigam, e os moços de exaustos caem,”

  • Até os jovens, no auge da vitalidade, se esgotam, física e emocionalmente, principalmente quando exageram.
  • Deus, porém, surge como a esperança dos que esgotam as limitações da natureza humana. Ele fortalece os cansados e restaura os que não têm mais vigor.
  • Nós não estamos sozinhos! Ele conhece o nosso estado, a nossa situação, aquilo de que necessitamos.
  • Deus não permitirá que as coisas cheguem a um ponto que não possamos suportar (1Co 10.13). A promessa não é de que nunca enfrentaremos dificuldades, mas de que Deus, em sua fidelidade, não permitirá que passemos por algo sem o auxílio de sua graça. A ênfase está no livramento providenciado por Deus e não apenas na resistência humana. 

Ilustração:
Até mesmo um celular sofisticado e caro, cheio de funções, torna-se inútil sem a energia da bateria. Quanto mais é utilizado, mais necessita de recarga. Assim também nós, por mais capazes que sejamos, precisamos estar conectados e constantemente recarregados na fonte de energia divina. Nossa pretensa autossuficiência tem limites. Somente em Deus encontramos renovação verdadeira.

3. O Deus que renova os que esperam nele (v.31)

“mas os que esperam no SENHOR renovam as suas forças, sobem com asas como águias, correm e não se cansam, caminham e não se fatigam.”

  • Esperar no Senhor não é passividade, mas confiança ativa, paciência e entrega. É permanecer em comunhão com ele, a despeito de todas as dificuldades, e, assim, ele nos contemplará com a força divina.
  • A promessa aqui proferida tem três dimensões:
    • Voarão e subirão como águias – visão elevada, acima das tempestades.
    • Correrão e não se cansarão – energia para enfrentar momentos de turbulência.
    • Caminharão e não se fatigarão – perseverança na jornada diária, na fidelidade a Deus e no cumprimento da missão.

Ilustração:
Alguns pregadores usam a ideia de que a águia “renova-se” arrancando penas, unhas e bico, passando por um período de sofrimento e depois ressurgindo mais forte. Mas, na verdade, isso é um mito – não há registro científico de que a águia passe por um processo biológico tão radical.

O que é real:
– As águias, como todas as aves, passam por um processo natural chamado “muda”, em que trocam gradualmente as penas desgastadas por novas.
– Esse processo é progressivo e necessário para que continuem voando com eficiência.

O texto bíblico não fala de um processo biológico da águia, mas usa a metáfora do voo:

A águia não evita as tempestades. Quando os ventos fortes chegam, ela abre as asas e aproveita a corrente de ar para subir acima das nuvens. Enquanto outras aves se escondem, ela voa mais alto. Assim, também, quem espera em Deus: não é poupado das tempestades, mas recebe força para passar por elas em uma posição mais elevada.

Portanto, esperar em Deus é encontrar nele a força para enfrentar a vida, seja nos grandes desafios (voar ou correr), seja nas rotinas diárias (caminhar).

4. O caminho para a renovação em Deus

a) Contemplar quem Deus é – Eterno, Criador e Soberano – reconhecendo o seu poder e grandeza.
Exemplo: Uma criança pequena não teme porque confia na força dos pais.

b) Reconhecer nossa limitação – admitir o cansaço.
Exemplo: Um carro sem combustível, por mais moderno que seja, não anda.

c) Esperar em Deus – confiar e depender dele, diariamente.

Ilustração:
Assim como uma árvore de raízes profundas alcança água mesmo em tempos de seca, também precisamos firmar nossas raízes em Deus. É na comunhão com os irmãos da comunidade de fé, na leitura diária da Palavra e na prática da oração que encontramos o sustento necessário para enfrentar as situações mais difíceis.

d) Experimentar a renovação – força espiritual, coragem emocional e perseverança prática.
Exemplo: Como um atleta que se hidrata e recupera o fôlego, o cristão encontra em Deus a renovação necessária para continuar.

Conclusão

O povo de Israel estava desanimado no cativeiro, mas Isaías aponta para um Deus que renova as nossas forças, a nossa vida, nos enche de esperança.

Todos nós enfrentamos cansaço físico, mental, emocional e espiritual. Onde buscar forças quando tudo parece esgotado?

Isaías apresenta o Senhor como o Deus da Renovação:

  • Ele não se cansa, nem se fatiga,
  • Ele fortalece os fracos,
  • Ele renova os que esperam nele.

Nossa força é finita, mas em Deus há renovação constante. Ele nos faz voar acima das tempestades, correr sem esgotar e caminhar sem desfalecer:

  • Deus não promete ausência de lutas, mas forças renovadas para enfrentá-las.
  • O Deus da renovação está sempre pronto para fortalecer seus filhos.
  • Em nossa fraqueza, ele se manifesta com poder.
  • Você está cansado? Entregue-se hoje ao Senhor da renovação.
  • Ele promete forças novas para voar, correr e caminhar.

 Para reflexão:

  1. O que significa para você saber que Deus nunca se cansa nem se fatiga (v.28)?
  2. Por que é importante reconhecer nossa limitação antes de buscar a renovação de Deus?
  3. Em sua opinião, por que Isaías usa a figura da águia para descrever os que esperam no Senhor?
  4. Que diferenças você percebe entre voar, correr e caminhar na vida cristã? Qual desses momentos você está vivendo hoje?
  5. Na prática, como você pode aprender a “esperar no Senhor” no seu dia a dia?

Recomendações:

  • Não lute contra e nem se entregue ao cansaço, busque forças e renovação em Deus.
  • Compartilhe com outros uma experiência pessoal em que você sentiu Deus renovando suas forças.
  • Oremos uns pelos outros, pedindo que o Senhor renove as forças dos cansados e enfraquecidos pelas lutas do cotidiano.

Que Deus nos ajude e renove!

O Peso do Governo

1Samuel 8.1-18; Deuteronômio 17.14-20

Introdução

Libertado do Egito, o povo de Israel fora conduzido para a Terra Prometida – Canaã – sob a liderança de Moisés. Durante aqueles quarenta anos de travessia do deserto toda aquela gente anteriormente submetida a escravidão durante tanto tempo começou a ser forjada como uma nação. Em cerca de 1423 a.C. termina a liderança de Moisés. Ele não teve o privilégio de entrar na terra prometida, bem como toda uma geração pecadora (homens com mais de 20 anos na ocasião da sentença divina – Números 14.29-30), exceto Josué e Calebe. Assim, Josué assume a liderança de Israel (Dt 34.9). Na sequência se desenvolve o período dos juízes. Somente em 1065 a.C. começa o período da Monarquia, com o reinado de Saul, depois de quase 400 anos do êxodo (1462-1065 a.C.). Até então havia vigorado o sistema de governo Teocrático em Israel.

A transição de sistema de governo é assim registrada em 1Samuel 8.1-9:     

1  Tendo Samuel envelhecido, constituiu seus filhos por juízes sobre Israel.
2  O primogênito chamava-se Joel, e o segundo, Abias; e foram juízes em Berseba.
3  Porém seus filhos não andaram pelos caminhos dele; antes, se inclinaram à avareza, e aceitaram subornos, e perverteram o direito.
4  Então, os anciãos todos de Israel se congregaram, e vieram a Samuel, a Ramá,
5  e lhe disseram: Vê, já estás velho, e teus filhos não andam pelos teus caminhos; constitui-nos, pois, agora, um rei sobre nós, para que nos governe, como o têm todas as nações.
6  Porém esta palavra não agradou a Samuel, quando disseram: Dá-nos um rei, para que nos governe. Então, Samuel orou ao SENHOR.
7  Disse o SENHOR a Samuel: Atende à voz do povo em tudo quanto te diz, pois não te rejeitou a ti, mas a mim, para eu não reinar sobre ele.
8  Segundo todas as obras que fez desde o dia em que o tirei do Egito até hoje, pois a mim me deixou, e a outros deuses serviu, assim também o faz a ti.
9  Agora, pois, atende à sua voz, porém adverte-o solenemente e explica-lhe qual será o direito do rei que houver de reinar sobre ele.

1. A TEOCRACIA EM ISRAEL

A teocracia de Israel (período do êxodo, conquista e juízes), antes da monarquia, não seguia a divisão moderna dos três poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário). Ainda assim, podemos identificar funções equivalentes, a saber:

“Legislativo” – A Lei

Na teocracia de Israel, a Torá não era apenas um código religioso, mas um conjunto de normas abrangentes que regulava toda a vida do povo. Podemos classificá-la em três dimensões principais:

1ª) Lei Moral
2ª) Lei Civil / Social
3ª) Lei Religiosa / Cerimonial

  • Não havia parlamento, nem legisladores humanos.
    A Torá (Lei ) dada por Deus a Moisés, no Sinai, era a constituição do povo.
  • Moisés foi o mediador da revelação e organizador da aplicação.
  • Os sacerdotes e levitas tinham o dever de ensinar a Lei (Lv 10.11; Dt 33.10).
  • Portanto, a legislação não era fruto de debate humano, mas de revelação divina.

✍️ Função legislativa = Deus como Legislador; Moisés e depois os sacerdotes como transmissores/intérpretes.

“Executivo” – Governo e liderança

  • Moisés exerceu função de chefe de governo durante o êxodo.
  • Josué foi seu sucessor, liderando militarmente a conquista da terra.
  • No período dos Juízes, líderes eram levantados por Deus para governar, organizar, libertar e proteger o povo.
  • As tribos tinham certa autonomia, mas se reuniam em momentos de crise sob um juiz ou líder.

✒️ Função executiva = Moisés, Josué e os Juízes (liderança prática, política e militar).

“Judiciário” – Administração da justiça

  • Moisés inicialmente julgava todas as causas, mas sobrecarregado, instituiu juízes auxiliares por orientação de Jetro, seu sogro (Êx 18.13-26).
  • Esses juízes atuavam em diferentes níveis: líderes de mil, de cem, de cinquenta e de dez.
  • Casos mais difíceis eram levados a Moisés e, posteriormente, ao sumo sacerdote ou ao juiz principal.
  • A justiça deveria ser baseada exclusivamente na Lei de Deus, sem suborno ou parcialidade (Dt 16.18-20).

⚖ Função judiciária = juízes locais + Moisés (ou líderes principais) + sacerdotes para casos complexos.

A Estrutura da Teocracia em Israel (antes da monarquia) pode ser assim resumida:

Poder ModernoEquivalente na Teocracia de IsraelCaracterísticas
LegislativoDeus como Legislador. Lei entregue a Moisés (Torá). Sacerdotes e levitas ensinavam a Lei.A lei não era criada por homens, mas revelada por Deus. Cabia aos sacerdotes transmiti-la e instruir o povo (Dt 33.10).
ExecutivoMoisés, depois Josué, e mais tarde os Juízes.Função de liderança, governo, defesa militar, organização da vida civil e religiosa – liderança levantada por Deus.
JudiciárioJuízes locais nomeados (Êx 18.13-26). Casos difíceis eram encaminhados a Moisés, ao sumo sacerdote ou ao juiz principal.Justiça descentralizada e escalonada. Julgamentos baseados na Torá. Proibição de suborno e parcialidade (Dt 16.18-20).

2.  A ORIENTAÇÃO DIVINA QUANTO AO REI

O pedido de um rei não agradou a Samuel que compartilhou tal situação com o Senhor seu Deus (1Sm 8.6-9). Sobre essa demanda há duas considerações a serem feitas.

Primeiramente, quanto às razões que levaram os anciãos a fazerem tal pedido. O texto bíblico explicita as seguintes:

a) O fato do líder maior – Samuel – ter envelhecido. Ele exercia múltiplos papeis e funções essenciais na condução da nação, tanto na esfera espiritual, quanto material, isto é, típicas de governança. Então, fazia-se necessário providenciar seu substituto.

b) O próprio Samuel teve a iniciativa de constituir a seus filhos como juízes sobre Israel. Entretanto, esses seus filhos, Joel e Abias, não corresponderam, tornando-se avarentos, corruptos e injustos no exercício do ofício. Não se pode afirmar que a culpa desse desvio de caráter e conduta tenha sido do pai, “um ponto fraco de Samuel”, que teria se dedicado tanto ao ministério, aos de fora, que teria se descuidado dos de casa. Pode-se constatar, na atualidade, que esse tem sido o ponto fraco de muitos pastores e líderes. O fato é que, lamentavelmente, os filhos de Samuel reproduziram o mesmo mau padrão de conduta dos filhos do sacerdote Eli (1Sm 2.12-17; 22-25).

c) Eles manifestaram o desejo de adotar o mesmo sistema monárquico das outras nações. Eles queriam um rei e comandante militar; alguém que os governasse e, também, os liderasse nas batalhas e guerras (1Sm 8.20).

Qual o erro deles? Eles poderiam ter levado essa situação a Samuel, demandando que ele buscasse diante de Deus a solução. Tal posicionamento dos anciãos foi claramente explicitado por Deus como uma rejeição a ele, e não a Samuel (1Sm 8.7). Eles não estavam reconhecendo a Deus como o seu Rei.

A segunda consideração é que, além de Deus nunca ser pego de surpresa com as demandas, ações ou reações humanas, ele já havia provido na outorga da Lei, em Deuteronômio 17.14-20, mandamentos específicos para os futuros reis, a começar sobre a escolha:  “Quando entrares na terra que te dá o SENHOR, teu Deus, e a possuíres, e nela habitares, e disseres: Estabelecerei sobre mim um rei, como todas as nações que se acham em redor de mim, estabelecerás, com efeito, sobre ti como rei aquele que o SENHOR, teu Deus, escolher; homem estranho, que não seja dentre os teus irmãos, não estabelecerás sobre ti, e sim um dentre eles.”

O referido texto traz instruções de Deus para o futuro rei de Israel:

✍ Escolha do rei – Quando o povo desejar um rei, ele deve ser escolhido por Deus, dentre os israelitas, e não pode ser estrangeiro (vv. 14-15).

✍ Restrições – O rei não deve multiplicar cavalos (poder militar), nem acumular muitas mulheres (luxúria e alianças políticas), nem juntar riquezas em excesso (vv. 16-17).

✍ Deveres – O rei deve escrever para si uma cópia da Lei, ler esta cópia todos os dias, temer a Deus, obedecer aos seus mandamentos, não se exaltar sobre o povo e não se desviar da Lei (vv. 18-20).

3.  A MONARQUIA DE ISRAEL vs GOVERNO ATUAL

O texto de 1Samuel 8.10-17 apresenta a transmissão da mensagem divina, por Samuel a Israel, advertindo sobre o que um rei humano – em lugar de Deus – faria ao povo. A partir dessas “advertências”, podemos traçar paralelos e ver como muitos elementos persistem, em formas reguladas e legitimadas, nos sistemas de governo modernos.

10  Referiu Samuel todas as palavras do SENHOR ao povo, que lhe pedia um rei,
11a  e disse: Este será o direito do rei que houver de reinar sobre vós:

a) Servidores públicos (militares e civis)

11b ele tomará os vossos filhos e os empregará no serviço dos seus carros e como seus cavaleiros, para que corram adiante deles;
12  e os porá uns por capitães de mil e capitães de cinquenta; outros para lavrarem os seus campos e ceifarem as suas messes; e outros para fabricarem suas armas de guerra e o aparelhamento de seus carros.

👑Rei: Recrutamento forçado para serviço militar (cavalaria) e trabalhos reais.

🗓️Hoje:   
– Serviço militar obrigatório (em países que o mantêm).
– Corpo de funcionários financiados e recrutados pelo Estado.

b) Servidoras públicas (civis)

13 Tomará as vossas filhas para perfumistas, cozinheiras e padeiras.

👑Rei: Recrutamento de mão de obra feminina para funções domésticas na corte.

🗓️Hoje: Recrutamento de servidores (ambos os sexos) para todo tipo de instituição pública.

Além disso, regulação do trabalho assalariado do povo, com o estabelecimento de leis trabalhistas e encargos sociais.

c) Domínio sobre propriedades

14  Tomará o melhor das vossas lavouras, e das vossas vinhas, e dos vossos olivais e o dará aos seus servidores.

👑Rei: Confisco e redistribuição de terras às elites reais.

🗓️Hoje:   
– Desapropriação compulsória, para obras públicas (rodovias, aeroportos), mediante indenização.
– Política agrária e urbana, com zoneamento, concessões de uso e incentivos fiscais para grandes investidores.

d) Tributos e Impostos sobre a produção privada

15  As vossas sementeiras e as vossas vinhas dizimará, para dar aos seus oficiais e aos seus servidores.

👑Rei:
– Imposto fixo de 10% sobre colheitas, destinado ao custeio da administração real.

🗓️Hoje:

– Impostos diretos e indiretos (renda, propriedade, consumo, contribuição social).
– Orçamento público distribuído entre ministérios, servidores civis, programas sociais e infraestrutura.

e) Serviços Terceirizados

16  Também tomará os vossos servos, e as vossas servas, e os vossos melhores jovens, e os vossos jumentos e os empregará no seu trabalho.

👑Rei:
– Requisição de mão de obra e dos melhores animais para serviço régio.

🗓️Hoje:

– Contratação de empresas para a prestação de certos serviços ao Estado.
– Requisição em casos de calamidade pública (uso de veículos privados, exército em auxílio civil).

f) Tributos e Impostos sobre propriedades

17  Dizimará o vosso rebanho, e vós lhe sereis por servos.

👑Rei Imposto sobre pequena propriedade rural.

🗓️Hoje:
– Impostos progressivos sobre propriedades rurais e urbanas.
– Taxas e taxas anuais que recaem sobre proprietários de imóveis e pecuaristas.
– Tributos sobre propriedade de bens (veículos, embarcações, aeronaves) via impostos específicos.

Conclusão

O povo sabe da importância das instituições governamentais e públicas. A grande questão que se coloca é se elas sabem da importância do povo e trabalham para o seu bem-estar. Governos e instituições públicas são necessários numa nação. Eles não têm receita própria e se sustentam, essencialmente, com o que arrecadam dos pagadores de tributos e impostos, pessoas físicas e jurídicas.

Cada vez mais o cidadão de bem questiona o fato de pagar tantos impostos, tributos e taxas:

💰 Paga-se o Imposto de Renda (IR), na fonte, sobre o trabalho assalariado.
💰 Paga-se o imposto pelo serviço prestado.
💰 Paga-se o imposto quando se compra um bem móvel ou imóvel.
💰 Paga-se imposto, anualmente, por ter a propriedade de um bem móvel ou imóvel.
💰 Paga-se imposto pelo que se consome – Energia Elétrica, Água, Gás, Telefone, Internet etc.
💰 Paga-se imposto na compra de produtos, materiais, alimentos, vestuário etc.
💰 Paga-se imposto quando se faz certos investimentos/aplicações de capital.
💰 Paga-se imposto federal (IPI), Estadual (ICMS) e Municipal (ISS), IOF, IPTU, IPVA, ITBI, dentre outros.

Para um cidadão assalariado médio no Brasil, trabalhando o ano inteiro, ele provavelmente trabalha algo entre 3,5 a 5 meses apenas para pagar todos os impostos e tributos (diretos + indiretos). Tudo isso para sustentar os governos e instituições públicas. E, a carga tributária total brasileira só vem crescendo, chegando atualmente a cerca de 33% do PIB. Isso coloca o Brasil como o país com maior carga tributária entre 26 economias da América Latina. A média de tributação na América Latina está em torno de 21,5% do PIB.

Os capitalistas e liberais defendem o enxugamento da máquina pública, visando reduzir a carga tributária que recai sobre o cidadão – em síntese, defendem menos Estado e mais liberdade para o setor produtivo.

Em contrapartida, os socialistas e populistas costumam defender o inchaço do Estado, apresentando como justificativa a suposta redução da desigualdade social, bandeira amplamente utilizada em discursos eleitorais. Na prática, porém, tal modelo serve para conquistar e perpetuar-se no poder, ampliando cargos e estruturas públicas para favorecer aliados e grupos de interesse.

Enquanto os líderes desfrutam dos privilégios e regalias do poder, o povo permanece em condições de dependência e vulnerabilidade, útil apenas enquanto garantir votos. Nesse processo, empresários e geradores de emprego são frequentemente hostilizados, enquanto se propaga aquele velho discurso de defesa dos trabalhadores.

O povo – especialmente os mais simples – não precisa de bolsas assistenciais permanentes que os mantenham em dependência do governo. O que realmente necessitam é de respeito e de investimentos efetivos do Estado em Educação e Formação Profissional, para que conquistem bons empregos, recebam salários justos e possam viver com dignidade.

Para isso, é indispensável que os governantes e agentes públicos abandonem a corrupção e seus interesses pessoais, e passem a gerir com responsabilidade os vastos recursos do orçamento público. Ao invés de servir unicamente ao luxo e deleite do governante e seus coligados, os recursos públicos precisam financiar educação, saúde, segurança, infraestrutura e programas sociais essenciais (com porta de entrada e de saída). Só assim será possível promover o verdadeiro desenvolvimento da nação e garantir ao pagador de impostos o retorno legítimo em forma de serviços e benefícios de qualidade. Por mais óbvio que isso possa parecer é preciso sempre lembrar!

Que Deus nos ajude!

Bibliografia

1. Bíblia Sagrada (SBB – Versão Revista e Atualizada).
2. Bíblia Online (SBB).
3. Internet / ChatGPT / IA.


Veja como o populismo eleitoreiro irresponsável desestimula o trabalho e colapsa a economia de uma nação, colocando em risco a aposentadoria exatamente dos que trabalham e não vivem à custa do Estado.

A Transfiguração de Jesus

(Marcos 9.2-13; Mateus 17.1-13; Lucas 9.28-36)

Introdução

A transfiguração de Jesus é um evento narrado nos três evangelhos sinóticos – Mateus 17.1-13, Marcos 9.2-13 e Lucas 9.28-36 – com muitos detalhes semelhantes, mas algumas pequenas diferenças. A palavra “transfiguração” vem do verbo “transfigurar”, que significa mudar de forma ou aparência, especialmente de maneira gloriosa.

No texto original, em Mateus 17.2 e Marcos 9.2, é usada a palavra grega “μετεμορφώθη“ (metemorphothe), de onde vem a palavra “metamorfose”. Significa literalmente: “foi transformado” ou “foi mudado de forma”. Em Lucas 9.29 não foi usada a palavra “μετεμορφώθη“ (metemorphothe, “transfigurou-se”), como em Mateus e Marcos. Em vez disso, Lucas descreve o evento assim: “το ειδος του προσωπου αυτου ετερον“a aparência do seu rosto se tornou outra”, ou seja, mudou, foi alterada. Sendo ειδος (eidos) = aparência, forma; e, ετερον (heteron) = outro, diferente.

Enfim, Jesus não deixou de ser quem era, mas revelou sua glória divina oculta. A transfiguração ofereceu aos três discípulos uma manifestação visível de sua natureza celestial, uma antevisão da exaltação e glória futura que ele teria após a ressurreição, na vinda do reino.

Tal revelação impactou profundamente aqueles discípulos, sendo que Pedro, que estava presente na transfiguração, testemunha o evento da seguinte forma: “Porque não vos demos a conhecer o poder e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo seguindo fábulas engenhosamente inventadas, mas nós mesmos fomos testemunhas oculares da sua majestade,  pois ele recebeu, da parte de Deus Pai, honra e glória, quando pela Glória Excelsa lhe foi enviada a seguinte voz: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo. Ora, esta voz, vinda do céu, nós a ouvimos quando estávamos com ele no monte santo.” (2Pe 1.16-18). João, o outro discípulo ali presente declarou: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai.” (Jo 1.14). Ele não relata diretamente no seu evangelho o evento da transfiguração, mas acredita-se que essa “glória” aqui mencionada pode incluir a experiência vivida por ele no monte.

1. A ocasião, os convidados, o lugar e o propósito

2a Seis dias depois, tomou Jesus consigo a Pedro, Tiago e João e levou-os sós, à parte, a um alto monte.(Mc 9)
1 Seis dias depois, tomou Jesus consigo a Pedro e aos irmãos Tiago e João e os levou, em particular, a um alto monte.(Mt 17)
28 Cerca de oito dias depois de proferidas estas palavras, tomando consigo a Pedro, João e Tiago, subiu ao monte com o propósito de orar.(Lc 9)

Quanto a ocasião, a transfiguração aconteceu a menos de 9 meses da crucificação, num tempo do ministério de Jesus denominado pelos estudiosos como a “época das retiradas” – um período de instrução especial aos doze discípulos. Mateus e Marcos nos dão conta de a transfiguração ter ocorrido 6 dias após um evento anterior, enquanto Lucas menciona um tempo aproximado de 8 dias “de proferidas estas palavras”. Os evangelhos sinóticos são unânimes em registrar os três eventos antecedentes que, do mais antigo para o mais recente, são:

1º) A CONFISSÃO DE PEDRO (Mc 8.27-30; Mt 16.13-20; Lc 9.18-21).
2º) PREDIÇÃO DA PAIXÃO (Mc 8.31-33; Lc 9.22; Mt 16.21-23).
3º) O PREÇO DO DISCIPULADO (Mc 8.34-9.1; Mt 16.24-28; Lc 9.23-27).

Jesus estava caminhando para a reta final do seu ministério e consumação da sua missão. Foi a primeira das três vezes em que Jesus revelou claramente o que estava para a acontecer – sua paixão e morte. Tempos difíceis viriam para os seus seguidores; havia um preço a pagar pelo discipulado. Assim, uma revelação especial e gloriosa da sua pessoa e divindade era muito bem-vinda!

Os convidados e acompanhantes eram aqueles que faziam parte do círculo de amigos íntimos de Jesus. Naquela ocasião que Jesus e os seus discípulos chegaram à casa de Jairo para curar sua filhinha ele distingue os que iriam com ele ao encontro da menina enferma, agora já falecida; apenas Pedro e os irmãos Tiago e João (Mc 5.37; Lc 8.51). Isso é ratificado aqui no relato da transfiguração de Jesus, num momento da sua glorificação (Mc 9.2; Mt 17.1; Lc 9.28) e, ainda,  no Getsêmani, num momento de intensa agonia e angústia (Mc 14.33).

Os três evangelhos mencionam que Jesus levou Pedro, Tiago e João a um “alto monte” ou “monte”, sem nomeá-lo. Porém, algumas tradições e estudiosos sugerem os seguintes locais prováveis: Monte Tabor (hipótese tradicional), localizado ao Sul da Galileia, próximo a Nazaré, com altura aproximada de 580 metros, segundo a tradição cristã desde o século III. Monte Hermom (hipótese moderna), localizado ao norte da Galileia, perto de Cesareia de Filipe, com altura aproximada de 2.800 metros (bem mais alto). Fica próximo ao local onde Jesus estivera com os discípulos dias antes (Mc 8.27), o que encaixa no contexto geográfico da narrativa.

Quanto ao propósito, apenas o evangelista Lucas expressa que era o de orar. Além desta ocorrência, há alguns registros de Jesus subindo ao monte para orar: (i) Antes de escolher os doze apóstolos, no início do seu ministério, sozinho, a noite inteira (Lc 6.12-13); (ii) Após a multiplicação dos pães, sozinho, ao cair da tarde (Mt 14.23; Mc 6.46; Jo 6.15); (iii) No Getsêmani (Monte das Oliveiras), com os discípulos, Jesus ora com grande angústia antes de sua prisão (Mt 26.36-44; Mc 14.32-39; Lc 22.39-46). O costume de Jesus era se afastar das multidões para ter um tempo a sós com o Pai, às vezes em montes, outras em desertos (Lc 5.16). Além desse propósito podemos acrescentar que Jesus já sabia e tinha outros propósitos em tudo o que estava para acontecer ali.  

2. O fenômeno sobrenatural

2b Foi transfigurado diante deles; (Mc 9)
3  as suas vestes tornaram-se resplandecentes e sobremodo brancas, como nenhum lavandeiro na terra as poderia alvejar. (Mc 9)
2  E foi transfigurado diante deles; o seu rosto resplandecia como o sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz. (Mt 17)
29  E aconteceu que, enquanto ele orava, a aparência do seu rosto se transfigurou e suas vestes resplandeceram de brancura. (Lc 9)

Naquele monte, em algum momento, algo extraordinário começou a acontecer com o rosto e as vestes de Jesus que resplandeceram. Apenas Lucas registra que o fenômeno aconteceu enquanto Jesus orava. Na Bíblia, a luz intensa ou clarão sobrenatural, geralmente acompanha a manifestação da presença de Deus, de anjos ou de momentos de revelação espiritual. Essa luz simboliza santidade, glória, pureza e poder. Alguns registros bíblicos de clarão ou luz intensa no contato entre o divino e o humano são: Moisés e a sarça ardente (Êx 3.2-4); Moisés no Monte Sinai, na entrega da lei, com trovões e relâmpagos (Êx 19.16-18; 24.17); Após estar com Deus, no monte, o rosto de Moisés emite luz visível, a ponto de o povo ter medo de se aproximar dele (Êx 34.29-30); Anjos, na ressurreição de Jesus (Mt 28.3; Lc 24.4); Aparição de Jesus a Saulo (Paulo) (At 9.3; 22.6; 26.13); e, luz intensa acompanha a revelação celestial e o trono de Deus. A glória divina substitui qualquer outra fonte de luz (Ez 1.27-28; Ap 1.14-16; 4.3-5; 21.23).

3. As aparições e interações

4  Apareceu-lhes Elias com Moisés, e estavam falando com Jesus. (Mc 9)
3  E eis que lhes apareceram Moisés e Elias, falando com ele. (Mt 17)
30  Eis que dois varões falavam com ele: Moisés e Elias, (Lc 9)
31  os quais apareceram em glória e falavam da sua partida, que ele estava para cumprir em Jerusalém. (Lc 9)
32  Pedro e seus companheiros achavam-se premidos de sono; mas, conservando-se acordados, viram a sua glória e os dois varões que com ele estavam. (Lc 9)

No monte da transfiguração, Elias e Moisés apareceram e falavam com Jesus (Mc 9.2-8; Mt 17.1-8; Lc 9.28-35). Como Pedro, Tiago e João identificaram aqueles dois varões como sendo Elias e Moisés não nos é revelado no registro bíblico. Podemos supor pelo menos três hipóteses: a) Deus mesmo lhes revelou; b) Jesus lhes revelou; ou, c) Eles ouviram a citação dos nomes de Elias e Moisés, na saudação ou em algum momento da conversa.

Quanto a Elias, que foi trasladado, não passando pela morte, teria ele recebido um corpo glorificado? E, quanto a Moisés, como ele pôde aparecer ali se estava morto? Ou, será que Moisés não morreu, mas, também teria sido trasladado?

A Bíblia afirma que Moisés morreu e foi sepultado por Deus, mas seu fim é cercado de mistério, o que gerou questionamentos sobre o que exatamente aconteceu após sua morte. Em Deuteronômio 34.5-6, está escrito: “Assim, morreu ali Moisés, servo do SENHOR, na terra de Moabe, segundo a palavra do SENHOR. Este o sepultou num vale, na terra de Moabe, defronte de Bete-Peor; e ninguém sabe, até hoje, o lugar da sua sepultura.” O texto deixa claro que Moisés morreu, e que Deus mesmo cuidou do seu sepultamento, mas o local exato nunca foi revelado. Assim, ele foi impedido de entrar na Terra Prometida devido ao pecado em Meribá (Nm 20.12).

Na epístola de Judas 1.9 há a menção de uma disputa entre o arcanjo Miguel e o Diabo sobre o corpo de Moisés. Isso sugere que havia algo singular envolvendo o corpo de Moisés, possivelmente relacionado à sua ressurreição ou uso divino. Também contribui para o mistério em torno de seu sepultamento e possível propósito no plano divino.

Moisés aparece junto com Elias na transfiguração de Jesus. Isso levantou questões entre estudiosos e teólogos sobre como Moisés poderia estar presente, se morreu e foi sepultado. Alguns sugerem que ele foi ressuscitado e recebeu o mesmo tipo de corpo glorioso de Elias ou que Deus providenciou uma manifestação especial para esse evento da transfiguração. Portanto, não há evidências bíblicas de que ele tenha sido trasladado sem morrer, como aconteceu com Enoque e Elias.

Elias foi levado ao céu e o texto bíblico registra a forma visual como isso aconteceu, isto é, em um redemoinho, sendo que um carro e cavalos de fogo o separou de Eliseu. Elias foi um profeta relevante no seu tempo tornando-se mais conhecido em razão dos milagres que Deus realizou através dele. Há uma profecia interessante a seu respeito em Malaquias 4.5-6. De fato, não se trata de uma presença física (encarnada ou reencarnada) de Elias. Jesus nos esclarece, associando essa profecia a João Batista que viria no “espírito e poder de Elias” (Lc 1.17), e, assim cumpriria e cumpriu essa missão profética: “Porque todos os Profetas e a Lei profetizaram até João. E, se o quereis reconhecer, ele mesmo é Elias, que estava para vir.” (Mt 11.13-14; ver tb Mt 17.10-13; Mc 9.11-13).

Enfim, de acordo com as Escrituras, Moisés morreu, mas Deus teve um propósito especial para ele após a morte. Sua aparição na transfiguração, ao lado de Elias, indica que ambos, mesmo após a morte e trasladação, foram incluídos no plano divino de redenção e glorificação. Estes dois personagens bíblicos estavam ali representando a lei (Moisés) e os profetas (Elias). Ambos falam com Jesus sobre sua partida (Lc 9.31), ou seja, sua morte em Jerusalém, o ponto culminante da redenção. Há uma bela revelação e simbolismo mostrando que todo o Antigo Testamento aponta para Cristo (Lc 24.27). Portanto, explicita que o fim da lei é Cristo (Rm 10.4) e que “Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o universo.” (Hb 1.1-2). Também não se pode deixar de ressaltar a antecipação da presença da igreja ali, representada pelos três discípulos.

4. A manifestação de Pedro

5 Então, Pedro, tomando a palavra, disse: Mestre, bom é estarmos aqui e que façamos três tendas: uma será tua, outra, para Moisés, e outra, para Elias. (Mc 9)
6  Pois não sabia o que dizer, por estarem eles aterrados. (Mc 9)
4  Então, disse Pedro a Jesus: Senhor, bom é estarmos aqui; se queres, farei aqui três tendas; uma será tua, outra para Moisés, outra para Elias. (Mt 17)
33  Ao se retirarem estes de Jesus, disse-lhe Pedro: Mestre, bom é estarmos aqui; então, façamos três tendas: uma será tua, outra, de Moisés, e outra, de Elias, não sabendo, porém, o que dizia. (Lc 9)

Para surpresa de zero pessoas é o impetuoso Pedro quem reage explicitando seu sentimento de satisfação por estar vivenciando aquele momento – “bom é estarmos aqui” – e apresentando uma sugestão. Pedro desejava congelar ou eternizar aquele momento, desfrutando ao máximo aquele vislumbre do céu, longe da realidade difícil que os aguardava. Quis fixar tendas e permanecer na glória do monte. Mas a missão não era ficar ali – era descer e seguir em direção à cruz. Havia um povo sofrido, carente e aflito lá embaixo, precisando de Jesus.

Essa proposta de Pedro levanta um alerta que ainda fala ao coração do crente, individualmente, e da igreja, coletivamente. Não há qualquer repreensão pelo fato de vivermos experiências espirituais profundas – elas são bênçãos que Deus concede. O problema surge quando essas experiências se tornam um fim em si mesmas, e se vive em busca constante de emoções e êxtases espirituais, enquanto se abandona o propósito maior: alcançar os perdidos com o evangelho e viver uma vida santa, coerente e comprometida diante de Deus e dos homens.

Isso acena para alguns desvios de foco e propósitos da igreja de ontem e de hoje:

  • Uma igreja voltada para si mesma, cujas atividades e programações são centradas em seus membros, e não em equipá-los para a missão no mundo.
  • Uma igreja que idolatra seus líderes, transformando pastores e pregadores em celebridades espirituais, acima da crítica e do confronto da Palavra.
  • Uma igreja que se deslumbra com a beleza de seus templos e suas acomodações, como se a glória de Deus estivesse presa à estética arquitetônica.
  • Uma igreja que vive do passado, cultuando sua própria história e tradições, mas desconectada do mover atual do Espírito.
  • Uma igreja que cultua sua inovação, organização, estrutura e projetos, mas que esquece que o Reino de Deus é maior do que qualquer modelo humano.
  • Uma igreja que cultua e absolutiza sua teologia, seus símbolos de fé e ritos, esquecendo de que a ortodoxia sem vida e sem amor pode se tornar tão vazia quanto o formalismo religioso que Jesus condenou.
  • Uma igreja centrada no “entretenimento espiritual”, na qual o culto é moldado para agradar ao seu público, mas evita confrontar o pecado, promover arrependimento e exaltar a cruz.

Cristo é o centro da igreja, não seus líderes, templos, história, símbolos, nem seus planos bem elaborados. Tudo deve apontar para ele. Quando perdemos essa centralidade, mesmo os dons mais preciosos se tornam perigosamente idolatrados. A glória do monte é bela, mas a missão está no vale. A experiência espiritual é necessária, mas o chamado é para a obediência e a cruz.

5. A manifestação divina

7  A seguir, veio uma nuvem que os envolveu; e dela uma voz dizia: Este é o meu Filho amado; a ele ouvi. (Mc 9)
5  Falava ele ainda, quando uma nuvem luminosa os envolveu; e eis, vindo da nuvem, uma voz que dizia: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo; a ele ouvi. (Mt 17)
6  Ouvindo-a os discípulos, caíram de bruços, tomados de grande medo. (Mt 17)
7  Aproximando-se deles, tocou-lhes Jesus, dizendo: Erguei-vos e não temais! (Mt 17)

34  Enquanto assim falava, veio uma nuvem e os envolveu; e encheram-se de medo ao entrarem na nuvem. (Lc 9)
35  E dela veio uma voz, dizendo: Este é o meu Filho, o meu eleito; a ele ouvi. (Lc 9)

Olhando para o alto daquele monte nós vemos três grupos: três homens do presente, dois homens do passado e um eterno, divino-humano. Entretanto, Pedro via ali três homens: Jesus e dois grandes vultos da história de Israel que muito o impressionou ao ponto de se prontificar a fazer três tendas para eles, quem sabe, esquecendo-se deles mesmos. Sua sugestão pode ser interpretada como se ele considerasse os três no mesmo nível, o que teria levado Deus a remover Moisés e Elias. Por fim, temos a manifestação da visão e resposta de Deus distinguindo apenas um dentre os seis homens: “Este é o meu Filho amado; a ele ouvi.”. Não foi necessariamente uma mensagem de repreensão, mas de direcionamento para Jesus, aquele que deveria ser ouvido, honrado e glorificado. Essa mesma voz já havia sido ouvida no batismo de Jesus (Mt 3.17; Mc 1.11; Lc 3.22).

A Transfiguração revela quem Jesus realmente é: Deus encarnado, o Filho glorioso de Deus revestido temporariamente de glória celestial diante dos discípulos. Confirma sua identidade messiânica e o distingue de Moisés e Elias. Ensina que Jesus é superior à Lei (Moisés) e aos profetas (Elias) – ele cumpre ambos os ofícios. Na nossa jornada cristã, nas nossas atividades e vivências dentro e fora da igreja, quando pensarmos que somos relevantes ou os nossos líderes nos impressionarem, precisamos abrir bem nossos ouvidos para ouvir essa mesma mensagem do alto – “Este é o meu Filho amado; a ele ouvi.” – a ele honrai e dai glória!

Além da voz de Pedro, da voz de Deus, também temos o registro da voz de Jesus: Erguei-vos e não temais!  Nessas manifestações divinas ou angelicais o ser humano estremece e teme, e o refrão tranquilizador sempre se faz ouvir – Não temais!

6. O fim do fenômeno

8  E, de relance, olhando ao redor, a ninguém mais viram com eles, senão Jesus. (Mc 9)
8  Então, eles, levantando os olhos, a ninguém viram, senão Jesus. (Mt 17)
36a  Depois daquela voz, achou-se Jesus sozinho. (Lc 9)

O sobrenatural e extraordinário sempre tem hora para começar e hora para terminar, cedendo lugar ao natural e ordinário. O propósito fora alcançado e a missão deveria prosseguir.

7. A ordem de Jesus

9  Ao descerem do monte, ordenou-lhes Jesus que não divulgassem as coisas que tinham visto, até o dia em que o Filho do Homem ressuscitasse dentre os mortos. (Mc 9)
10  Eles guardaram a recomendação, perguntando uns aos outros que seria o ressuscitar dentre os mortos. (Mc 9)
9  E, descendo eles do monte, ordenou-lhes Jesus: A ninguém conteis a visão, até que o Filho do Homem ressuscite dentre os mortos. (Mt 17)
36b Eles calaram-se e, naqueles dias, a ninguém contaram coisa alguma do que tinham visto. (Lc 9)

Findo aquele momento, Jesus orienta ou ordena aqueles discípulos a guardarem silêncio temporariamente sobre o tudo aquilo que haviam vivenciado. A ordem de Jesus pode parecer enigmática à primeira vista, mas ela revela aspectos profundos da pedagogia divina e do plano de redenção. Algumas possíveis explicações são:

1º) Jesus revela progressivamente a sua identidade, ao longo dos Evangelhos, como o Messias predito e Filho de Deus. Ele queria que essa revelação acontecesse de forma natural e orgânica, por meio dos seus atos, ensino e, por fim, sua morte, ressurreição e ascensão.

2º) Evitar fortalecer uma compreensão distorcida da missão de Jesus, como um libertador político do império romano (Lc 24.21; 1.68). A transfiguração revelava a glória do Messias,  mas sem o contexto da cruz e da ressurreição, isso poderia fortalecer visões erradas sobre Jesus, incentivando movimentos nacionalistas ou triunfalistas prematuros. A divulgação imediata poderia promover certa agitação popular, precipitando perseguição pelas autoridades religiosas e romanas, antecipando os eventos da paixão e morte fora do tempo determinado por Deus.

3º) A sua glória deveria ser vista e entendida à luz da cruz e da ressurreição. Jesus queria que a visão gloriosa do monte só fosse divulgada após a ressurreição, quando os discípulos compreenderiam plenamente que o caminho da glória passa pela cruz. Antes disso, até os próprios discípulos não conseguiam compreender bem o que significava “ressuscitar dentre os mortos” (Mc 9.10). Jesus queria manter os discípulos centrados na missão e no ensino do Reino de Deus, sem confusões e distrações.

8. A dúvida quanto a Elias

11  E interrogaram-no, dizendo: Por que dizem os escribas ser necessário que Elias venha primeiro? (Mc 9)
12  Então, ele lhes disse: Elias, vindo primeiro, restaurará todas as coisas; como, pois, está escrito sobre o Filho do Homem que sofrerá muito e será aviltado? (Mc 9)
13  Eu, porém, vos digo que Elias já veio, e fizeram com ele tudo o que quiseram, como a seu respeito está escrito. (Mc 9)
10  Mas os discípulos o interrogaram: Por que dizem, pois, os escribas ser necessário que Elias venha primeiro? (Mt 17)
11  Então, Jesus respondeu: De fato, Elias virá e restaurará todas as coisas. (Mt 17)
12  Eu, porém, vos declaro que Elias já veio, e não o reconheceram; antes, fizeram com ele tudo quanto quiseram. Assim também o Filho do Homem há de padecer nas mãos deles. (Mt 17)
13  Então, os discípulos entenderam que lhes falara a respeito de João Batista. (Mt 17)

Apenas os evangelistas Mateus e Marcos registram essa dúvida dos discípulos quanto a vinda de Elias. Circulava entre os escribas, que eram os intérpretes credenciados das Escrituras hebraicas na religião oficial daquela época, essa profecia baseada em Malaquias 4.5-6. Este grande profeta do passado estava fortemente ligado à esperança messiânica. Além de não ter experimentado a morte, é mencionado como o precursor do Messias: “Eis que eu vos enviarei o profeta Elias, antes que venha o grande e terrível Dia do SENHOR; ele converterá o coração dos pais aos filhos e o coração dos filhos a seus pais, para que eu não venha e fira a terra com maldição.” (Ml 4.5-6). Para evitar qualquer mal-entendido, Jesus procurou relacioná-lo a João Batista: “E, se o quereis reconhecer, ele mesmo é Elias, que estava para vir.” (Mt 11.14). Ele ratifica aqui uma das nove predições do anjo Gabriel a Zacarias sobre o seu filho João Batista: “E irá adiante do Senhor no espírito e poder de Elias, para converter o coração dos pais aos filhos, converter os desobedientes à prudência dos justos e habilitar para o Senhor um povo preparado.” (Lc 1.17). A bíblia deixa claro que não se trata de reencarnação, como defendido por alguns segmentos religiosos.  

Conclusão

O Senhor Jesus, que até então havia sido visto e conhecido por seus discípulos “na forma de Servo” (Fp 2.7), agora se revela, de modo singular, em sua glória essencial como o Filho de Deus. A Transfiguração foi uma manifestação extraordinária da sua divindade, concedida a três de seus discípulos, na medida em que olhos humanos podiam contemplar. Não foi apenas um milagre entre outros, mas uma revelação do próprio Cristo em sua verdadeira natureza.

O propósito dessa experiência gloriosa foi múltiplo e profundo:

  • Confirmar, por meio da visão, a identidade de Jesus – que ele não era apenas o Messias esperado, mas Deus encarnado, plenamente divino e humano.
  • Fortalecer os discípulos diante da iminente cruz – preparando seus corações para o escândalo da morte de Jesus, com um vislumbre da glória futura.
  • Antecipar a glória do Reino vindouro – uma amostra do que seria revelado plenamente em sua segunda vinda e no Reino eterno.
  • Receber o testemunho celestial do Pai – com a solene declaração: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo; a ele ouvi”, apontando para a autoridade suprema de Cristo sobre todas as coisas.
  • Estabelecer a supremacia de Cristo sobre Moisés e Elias – representantes da Lei e dos Profetas, indicando que em Jesus se cumpre toda a revelação divina e que ele é o centro da Escritura e da fé.

Quanto à experiência vivida no monte, por aqueles três discípulos, nos faz pensar que a jornada cristã é feita de montes e vales:

  • A transfiguração acontece no monte (glória), mas logo depois os discípulos descem e enfrentam problemas, dúvidas, e o desafio de um menino possesso e um pai aflito (Mc 9.14-29; Mt 17.14-21; Lc 9.37-43a).
  • Isso ensina que a vida cristã alterna entre comunhão íntima com Deus e confronto com a realidade do sofrimento humano.
  • Precisamos levar a glória do monte para a realidade do vale.

Que Deus nos ajude! Jesus é o centro de tudo o que há


Cronologia Pastoral da IPRJ

O presbiterianismo no Brasil tem nomes e datas importantes na sua história em solo brasileiro.

A Igreja Presbiteriana do Brasil tem como marco inicial, a chegada de Ashbel Green Simonton ao Rio de Janeiro, no dia 12 de agosto de 1859. O outro marco importante é a organização da sua primeira igreja, a Igreja Presbiteriana do Rio de Janeiro, também conhecida como Catedral Presbiteriana do Rio de Janeiro, em 12 de janeiro de 1862.  

Há uma grande quantidade de material historiando esse início do presbiterianismo brasileiro. Nosso objetivo aqui é focar a igreja mãe, apresentando a “Linha do Tempo” dos seus pastores. Os pastores que fazem parte dessa história são aqueles que foram pioneiros, os eleitos pela igreja e os designados pelo Presbitério para exercer o ministério pastoral efetivo na igreja.

Os Pioneiros são os primeiros pastores que organizaram a igreja ou desempenharam um papel fundamental em seu estabelecimento.

Os Pastores Eleitos são aqueles que foram eleitos pelos seus membros, reunidos em Assembleia Geral Extraordinária (AGE), para liderar a igreja como Pastor Titular ou Efetivo.

Os Pastores Designados são aqueles que foram designados oficialmente pelo Concílio de governo da denominação com jurisdição sobre a igreja, para servir na igreja local, por um determinado período.

1 – PASTORES PIONEIROS

São considerados Pastores Pioneiros os seguintes pastores que foram recebidos no Presbitério do Rio de Janeiro (PRJN), na data da sua organização, em 16/12/18651:

a) Rev. Ashbel Green Simonton (✰1833  ✞1867)

Pastorado: 12/01/1862 até 09/12/1867 (data do seu falecimento)

Primeiro missionário enviado pela Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos, com 26 anos, que chegou ao Brasil, na cidade do Rio de Janeiro, em 12 de agosto de 1859. Organizou e pastoreou a Igreja Presbiteriana do Rio de Janeiro no período de 12 de janeiro de 1862 a 09 de dezembro de 1867. Nasceu nos Estados Unidos da América em 20/01/1833, na cidade de West Hanover, Estado da Pensilvania. Faleceu, de febre amarela em São Paulo, em 09/12/1867, aos 34 anos de idade. Foi o primeiro pastor da Igreja Presbiteriana do Rio de Janeiro.

b) Rev. Alexander Latimer Blackford (✰1829  ✞1890)

Pastorado: 31/03/1862 até 17/07/1863 || 10/12/1867 até 27/10/1875

O Rev. Alexander Latimer Blackford e a esposa Sra. Elizabeth S. Blackford (irmã do Rev. Simonton) embarcaram para o Brasil a fim de colaborar com Simonton. A viagem durou 90 dias (25/04/1860 a 24/07/1860) devido aos contratempos e perigos da viagem. Deus preservou o casal para o trabalho missionário e para apoio ao próprio Rev. Simonton.

c) Rev. Francis Joseph Christopher Schneider (✰1932 ✞1910)

Pastorado: 1862 até 1867

“Em 1861, ao concluir seus estudos no ´Western Theological Seminary` e ser ordenado pastor pelo Presbitério de Saltsburg, foi enviado ao Brasil para uma missão evangelística em auxílio à obra iniciada pelo rev. Ashbel Green Simonton em 1859. Chegou ao Rio de Janeiro em 7 de dezembro de 1861”2. Além de colaborar com Simonton na Igreja do Rio, foi professor do Primeiro Seminário Teológico Presbiteriano no Brasil, criado e organizado pelo Rev. Simonton, no Rio de Janeiro.


2 – PASTORES EFETIVOS ELEITOS

São considerados os seguintes Pastores Efetivos Eleitos pela igreja:

a) Rev. Antonio Bandeira Trajano (✰1843 ✞1922)

Pastorado: 27/11/1876 até 04/1893 (com diversos afastamentos por enfermidade e tratamento de saúde).

b) Rev. Álvaro Emygdio Gonçalves dos Reis (✰1864 ✞1925)

Pastorado: 05/1897 até 04/06/1925 (data do seu falecimento)

c) Rev. Mattathias Gomes dos Santos (✰1879 ✞1950)

Pastorado: 08/1926 até 08/1946

d) Rev. Amantino Adorno Vassão (✰1910 ✞1997)

Pastorado: 07/01/1945 até 27/09/1980

e) Rev. Zaqueu Ribeiro (✰1924 ✞2002)

Pastorado:  1953 até 22/01/1954  (Atuou auxiliando o Rev. Amantino)

Pastorado: 22/01/1954 até 1968 (Em 22/01/1954 foi recebido, por transferência, no PRJN que aprovou sua eleição para Pastor Efetivo, concomitantemente com o Rev. Amantino Adorno Vassão. Portanto, a IPRJ manteve dois Pastores Efetivos neste período).

f) Rev. Guilhermino Silva da Cunha (✰1942- )

Pastorado: 10/01/1981 até 28/11/1981 (designado pelo PRJN)

Pastorado: 29/11/1981 até 11/01/2015 (eleito pela igreja)

g) Rev. Jorge Luiz Patrocinio (✰1966- )

Pastorado: 31/05/2015 até 31/05/2018

h) Rev. Renato Lopes Porpino (✰1975- )

Pastorado: 05/05/2019 até a presente data


3 – PASTORES EFETIVOS DESIGNADOS

São considerados os seguintes Pastores Efetivos Designados pelo Presbitério:

a) Rev. Leonardo Sahium (✰1967- )

Pastorado: 12/01/2015 até 30/05/2015

b) Rev. Isaías Cavalcanti da Silva (✰1952- )

Pastorado: 31/05/2018 até 05/05/2019


  1. Fonte: Pereira, Nelson de Paula – BREVE HISTÓRICO DOS 150 ANOS – PRESBITÉRIO DO RIO DE JANEIRO. ↩︎
  2. Fonte: Wikipédia ↩︎

Soli Deo gloria!


Nota: A maior parte das informações históricas incluídas aqui foram extraídas do livro “HISTÓRIA DA IGREJA PRESBITERIANA DO RIO DE JANEIRO – 1862-2012”, elaborado pela IPRJ por ocasião do seu Sesquicentenário. Lista de Pastores na página 354.


Retrocedendo para avançar!

Êxodo 14.1-31

Introdução

🔹O tema central

A ordem de Deus para o povo de Israel marchar diante do Mar Vermelho é um convite à fé diante dos desafios.

🔹O contexto (Êx 12.37 – 13.22)

A partir de Êxodo 12.37 começa a jornada do povo de Israel, saindo do Egito em direção à Canaã, a Terra prometida. Estima-se em cerca de 2 a 2,5 milhões o quantitativo de  pessoas que saíram do Egito (Êx 1.7; 12.37; Nm 1.46). Na história há alguns eventos comparáveis ao Êxodo em termos de migração em massa de povos inteiros para outra região, entretanto,  nenhum deles se assemelha, no aspecto sobrenatural e simbólico ao Êxodo bíblico. Alguns estudiosos liberais argumentam que 2 milhões de pessoas seria um número logisticamente difícil de sustentar no deserto. Porém, o fato incontestável é que Deus os supria sobrenaturalmente (maná, água, proteção). A coluna de nuvem os guiava durante o dia e a coluna de fogo durante a noite e, assim, manifestava a presença e direção direta de Deus (Êx 13.21-22).

🔹A rota (Êx 13.17)

Havia uma rota direta para Canaã que Deus não permitiu que os israelitas tomassem, mencionada em Êxodo 13.17: “Tendo Faraó deixado ir o povo, Deus não o levou pelo caminho da terra dos filisteus, posto que mais perto, pois disse: Para que, porventura, o povo não se arrependa, vendo a guerra, e torne ao Egito.”

Uma curiosidade inevitável é saber qual seria a distância e o tempo de caminhada até Canaã, caso o povo de Israel tivesse seguido pela rota direta.

Essa rota mais curta seria a Via Maris (“Caminho do Mar”), uma antiga estrada militar e comercial que ligava o Egito à região da Filístia (atual Gaza) e seguia até Canaã e a Síria pela costa do Mediterrâneo. A distância estimada pela rota direta (Via Maris), de Ramsés (Egito) até Gaza/Canaã seria de aproximadamente 250 a 300 km. Essa rota poderia ser percorrida por caravanas em cerca de 10 a 15 dias, dependendo do ritmo e das condições climáticas, do terreno e logísticas.

🔹Comparativo com a rota pelo deserto

RotaDistância estimadaTempo aproximado (sem milagres)Características
Via Maris (direta)250–300 km10 a 15 diasPassava por territórios filisteus armados
Via do Deserto (Êxodo)1.000–1.200 km1–2 meses (em ritmo normal)Passando por áreas inóspitas e montanhosas
Êxodo realDurou 40 anosPor causa da rebeldia e juízo divino (Nm 14.26–34)Formação espiritual no deserto

🔹Por que Deus evitou a rota curta?

As explicações seriam, entre outras:

  • Cumprimento profético: no chamado de Moisés, Deus lhe deu um futuro sinal confirmador de que o havia enviado, a saber, que depois de tirar o povo do Egito ele o serviria (servir = adorar, sacrificar, obedecer etc.) naquele mesmo monte (Horebe ou Sinai) onde ele estava (Êx 3.1, 12).
  • Estratégia divina: os filisteus eram guerreiros bem armados e hostis. Um confronto logo no início poderia causar pânico, arrependimento e desistência entre os israelitas (Êx 13.17).
  • Propósito pedagógico: Deus queria provar, disciplinar e formar espiritualmente seu povo antes de levá-lo à Terra Prometida (Dt 8.2–3).
  • Necessidade de revelação: foi no deserto que Israel recebeu a Lei, a aliança, e a identidade como nação santa.

🔹O retrocesso (Êx 14.1-4)

O povo de Israel, recém-liberto do Egito, encontrava-se encurralado entre o exército de Faraó e o Mar Vermelho. Isso não foi por acaso, foi intencional ou “premeditado” por Deus. De fato, Êxodo 14.2 registra uma ordem divina estratégica de um retrocesso geográfico. Israel, depois de ter saído de Etã (Êx 13.20), recebeu de Deus, através de Moisés, uma ordem de recuar e acampar em frente ao Mar Vermelho, numa posição aparentemente vulnerável e sem saída. Esse “retrocesso” foi ordenado propositadamente por Deus e visava confundir Faraó, que pensaria: “Estão desorientados no deserto” (Êx 14.3). Desta forma, seria criada a oportunidade necessária: para o milagre da travessia, para a derrota final do exército egípcio, para que Deus fosse glorificado e conhecido pelos egípcios que o Senhor é o único e verdadeiro Deus, bem como para, na propagação, infundir temor entre os povos vizinhos.

Quanto a este último aspecto, a Bíblia registra que os milagres do Êxodo provocaram temor nos povos vizinhos, especialmente a travessia do Mar Vermelho e os livramentos sobrenaturais de Israel. Isso foi uma parte estratégica da ação divina para proteger Israel e preparar o caminho para a conquista da Terra Prometida. Alguns textos bíblicos que afirmam isso, são:

📖 Êxodo 15.14-16 – Cântico de Moisés, logo após a travessia.

Os povos ao redor ouviram falar do livramento de Israel no Mar Vermelho e ficaram aterrorizados.

“Os povos o ouviram, eles estremeceram; agonias apoderaram-se dos habitantes da Filístia. Ora, os príncipes de Edom se perturbam, dos poderosos de Moabe se apodera temor, esmorecem todos os habitantes de Canaã. Sobre eles cai espanto e pavor; pela grandeza do teu braço, emudecem como pedra; até que passe o teu povo, ó SENHOR, até que passe o povo que adquiriste.”

📖 Josué 2.9-11 – Declaração de Raabe, em Jericó.

Mais de 40 anos depois do Êxodo, os povos de Canaã ainda temiam os israelitas por causa dos milagres que Deus operara em favor deles.

“e lhes disse: Bem sei que o SENHOR vos deu esta terra, e que o pavor que infundis caiu sobre nós, e que todos os moradores da terra estão desmaiados. Porque temos ouvido que o SENHOR secou as águas do mar Vermelho diante de vós, quando saíeis do Egito; e também o que fizestes aos dois reis dos amorreus, Seom e Ogue, que estavam além do Jordão, os quais destruístes.”

Enfim, quando ordenado por Deus, esse “retroceder” é importante espiritualmente:

📍➡ Mostra que obedecer a Deus nem sempre parece humanamente “lógico”
📍➡ Ensina que, às vezes, Deus nos conduz para situações que parecem retrocesso, mas são, na verdade, plataformas para o milagre;
📍➡ Expõe como a vitória final muitas vezes exige humildade e confiança total.

🔹A revolta dos egípcios contra Israel (Êx 14.5-9)

Tornou-se incontrolável a ira da corte egípcia para com Israel. Foram muitas as  perdas materiais e humanas do lado egípcio, e por último a perda da mão-de-obra escrava, saindo impunemente e feliz. O descontrole de Faraó bloqueou sua capacidade de raciocinar e perceber o risco de uma nova investida contra o povo de Deus, ou seja, seu coração ficou insensível e endurecido em referência às manifestações do poder de Deus. Faraó então reuniu sua força máxima para a captura dos escravos em fuga.

🔹Medo e murmuração (Êx 14.10-12)

Encurralados, tendo atrás de si os egípcios e adiante o mar, os filhos de Israel também perderam o controle emocional. Dois sentimentos tomaram conta dos seus corações: pavor, que os levou a clamar por aquele que não conheciam bem, e revolta, que levou os líderes insatisfeitos a protestarem contra Moisés. A provação tinha o grande propósito de revelar os corações dos libertos, evidenciando os aprovados e os reprovados.

🔹Confiança e encorajamento (Êx 14.13-14)

O líder precisa estar em plena sintonia com Deus, ter confiança nele e convicção da missão, para servir de exemplo e encorajar os liderados. O líder Moisés cumpriu bem o seu papel! O povo de Deus precisa estar sempre consciente de que: “…; Deus é fiel, e não permitirá que sejais tentados além das vossas forças; pelo contrário, juntamente com a tentação, vos proverá livramento, de sorte que possais suportar” (1Co 10.13). Existem aqueles que só veem a crise e outros que olham para o Deus que está acima de qualquer crise. Uns veem os inimigos como gigantes (Nm 13.32b-33), outros como pão (Nm 14.9).

 Há aqui cinco conselhos para os dias de crise:

😇🔊 “Não temais”
😇🔊 “Aquietai-vos” (permanecei firmes)
😇🔊 “Vede o livramento do Senhor”
😇🔊 “Que hoje vos fará”
😇🔊 “O Senhor pelejará por vós”

🔹Oração temporã (fora de época) (Êx 14.15)

Não era momento de clamar, mas de marchar. A vara/cajado já estava nas mãos de Moisés há muito tempo; ela era a resposta, embora ele não soubesse. Quantas vezes Deus já respondeu, mas ainda permanecemos clamando; não porque ele se calou, mas porque não percebemos a resposta.

Muitas vezes, o caminho que Deus preparou está encoberto aos nossos olhos. Só conseguimos vê-lo pela fé. Moisés via apenas água, mas não o caminho que Deus já tinha aberto debaixo dela.

É preciso marchar, mesmo sem ver o que nos aguarda adiante. A fé nos leva a dar o passo antes que o mar se abra e o caminho se torne visível. Muitas vezes, os recursos de que precisamos já estão em nossas mãos, só falta perceber e obedecer. Se Deus já falou, não precisamos de uma nova revelação, e sim de obediência. E é o líder quem dá o primeiro passo.

✳️ Desenvolvimento:

Em meio ao medo e reclamação, Deus ordena: “Diga ao povo que marche” (Êx 14.15). Neste  estudo refletiremos sobre a importância de obedecer pela fé mesmo quando as circunstâncias parecem desfavoráveis ou, até mesmo, impossíveis.

Três verdades fundamentais:

1. A fé vê além do visível (Êx 14.16-18)

O povo olhava para o perigo visível (Faraó e seu exército de um lado e o Mar Vermelho do outro), mas a verdadeira confiança precisa estar em Deus, sejam quais forem as circunstâncias. Alguém já disse: “Não diga para Deus que você tem um grande problema, mas diga para o seu problema que você tem um grande Deus.”

Há uma analogia interessante que pode ser feita entre a libertação de Israel do Egito e a conversão do pecador. Ao deixar sua antiga vida, o novo convertido também encontra muitos desafios, mas a ordem de  Deus é marchar, seguir adiante. A conversão é mais do que uma mudança de comportamento – é uma libertação sobrenatural, uma mudança de senhorio. O Egito simboliza a velha vida, a escravidão espiritual, e a saída simboliza a graça salvadora de Deus, não por obras, mas por fé. Assim como Israel foi tirado do Egito para adorar a Deus, o crente é liberto do pecado para servir a Deus, em santidade de vida (Rm 6.22). Na jornada da vida seguimos adiante todos os dias – movidos por nossas obrigações, decisões, metas, propósitos e planos. O próximo passo, quase sempre, é o mais desafiador. Muitas vezes conseguimos dar o primeiro passo, mas hesitamos diante dos obstáculos que surgem. É nesses momentos que precisamos reanimar o coração, renovar a fé e continuar avançando, confiando que Deus caminha conosco. Enfim: “Andamos por fé, e não pelo que vemos” (2Co 5.7).

2. Deus age de forma surpreendente (Êx 14.19-22)

Em algumas situações a expressão “Anjo do Senhor” (Gn 22.11-12) diz respeito a uma teofania, ou seja, uma auto manifestação de Deus. Ele fala como o próprio Deus e é considerado como a segunda pessoa da trindade numa aparição pré-encarnada. Neste caso aqui narrado, não há evidências suficientes para que se possa fazer qualquer afirmação. O mais importante é que se trata da manifestação da presença divina e do seu poder.

Os críticos da Bíblia recusam-se a aceitar os milagres de Deus recorrendo sempre a tentativas de explicação tiradas da natureza. Eis que estamos diante de um desses tremendos milagres. Não se trata de um fenômeno natural, mas de Deus agindo na natureza e através dela conforme o seu propósito. Jesus, igualmente, exerceu seu poder sobre a natureza.

O milagre da travessia mostra o poder de Deus agindo de forma inesperada e soberana: vento, mar aberto, colunas de nuvem e fogo, e a destruição do exército egípcio. Deus nunca é surpreendido, ao contrário, ele pode nos surpreender. Ele detém o controle absoluto sobre todas as coisas. Quando nossas limitações e incapacidades se tornam evidentes, Deus revela seu poder soberano, realizando milagres onde parece não haver solução.

3. Nada pode impedir a realização dos planos de Deus (Êx 14.23-31)

É nos momentos de maior aperto que os filhos de Deus têm o privilégio de experimentar as mais profundas manifestações da sua misericórdia. Deus poderia ter feito o povo atravessar o mar, muito antes da chegada de Faraó, mas assim não teria sido glorificado na derrota do inimigo. Ele livra o seu povo no tempo certo e, ao mesmo tempo, executa justiça contra os opressores, fazendo com que o inimigo receba o justo castigo, revelando seu poder e soberania para todas as nações.

Em 1Coríntios 10.2 lemos que eles foram batizados na nuvem e no mar com respeito a Moisés. Temos aqui um dos significados do batismo: identificação e união. Até então havia certa desconfiança em relação à liderança de Moisés. Após vivenciarem aquela experiência, eles se identificaram com Moisés. Enfim, os seus corações pulsaram com o de Moisés. De igual forma, os crentes são identificados com Jesus, o seu líder, no batismo espiritual.

Os exércitos egípcios pereceram no Mar Vermelho. O povo de Deus não foi alcançado, pois havia uma promessa do Senhor que os inimigos não prevaleceriam (Êx 14.13-14). A travessia do mar representa a vitória definitiva de Deus sobre os opressores do seu povo.

🧩Aplicações Práticas

🙋1. Obedeça, mesmo diante dos obstáculos – A ordem de Deus é seguir adiante.
🙋2. Confie mais na fé do que nos seus olhos naturais – A fé enxerga o invisível.
🙋3. Creia que Deus está no controle, mesmo em situações ou cenários adversos.
🙋4. Deus continua testando nossa fé, permitindo obstáculos.

Conclusão

Marchar, para o cristão, é viver pela fé, mesmo quando o caminho à frente parece fechado. O milagre acontece depois do passo de obediência.

Cântico:
– Rompendo em fé.