(Marcos 9.2-13; Mateus 17.1-13; Lucas 9.28-36)
Introdução
A transfiguração de Jesus é um evento narrado nos três evangelhos sinóticos – Mateus 17.1-13, Marcos 9.2-13 e Lucas 9.28-36 – com muitos detalhes semelhantes, mas algumas pequenas diferenças. A palavra “transfiguração” vem do verbo “transfigurar”, que significa mudar de forma ou aparência, especialmente de maneira gloriosa.
No texto original, em Mateus 17.2 e Marcos 9.2, é usada a palavra grega “μετεμορφώθη“ (metemorphothe), de onde vem a palavra “metamorfose”. Significa literalmente: “foi transformado” ou “foi mudado de forma”. Em Lucas 9.29 não foi usada a palavra “μετεμορφώθη“ (metemorphothe, “transfigurou-se”), como em Mateus e Marcos. Em vez disso, Lucas descreve o evento assim: “το ειδος του προσωπου αυτου ετερον“a aparência do seu rosto se tornou outra”, ou seja, mudou, foi alterada. Sendo ειδος (eidos) = aparência, forma; e, ετερον (heteron) = outro, diferente.
Enfim, Jesus não deixou de ser quem era, mas revelou sua glória divina oculta. A transfiguração ofereceu aos três discípulos uma manifestação visível de sua natureza celestial, uma antevisão da exaltação e glória futura que ele teria após a ressurreição, na vinda do reino.
Tal revelação impactou profundamente aqueles discípulos, sendo que Pedro, que estava presente na transfiguração, testemunha o evento da seguinte forma: “Porque não vos demos a conhecer o poder e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo seguindo fábulas engenhosamente inventadas, mas nós mesmos fomos testemunhas oculares da sua majestade, pois ele recebeu, da parte de Deus Pai, honra e glória, quando pela Glória Excelsa lhe foi enviada a seguinte voz: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo. Ora, esta voz, vinda do céu, nós a ouvimos quando estávamos com ele no monte santo.” (2Pe 1.16-18). João, o outro discípulo ali presente declarou: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai.” (Jo 1.14). Ele não relata diretamente no seu evangelho o evento da transfiguração, mas acredita-se que essa “glória” aqui mencionada pode incluir a experiência vivida por ele no monte.
1. A ocasião, os convidados, o lugar e o propósito
2a Seis dias depois, tomou Jesus consigo a Pedro, Tiago e João e levou-os sós, à parte, a um alto monte.(Mc 9)
1 Seis dias depois, tomou Jesus consigo a Pedro e aos irmãos Tiago e João e os levou, em particular, a um alto monte.(Mt 17)
28 Cerca de oito dias depois de proferidas estas palavras, tomando consigo a Pedro, João e Tiago, subiu ao monte com o propósito de orar.(Lc 9)
Quanto a ocasião, a transfiguração aconteceu a menos de 9 meses da crucificação, num tempo do ministério de Jesus denominado pelos estudiosos como a “época das retiradas” – um período de instrução especial aos doze discípulos. Mateus e Marcos nos dão conta de a transfiguração ter ocorrido 6 dias após um evento anterior, enquanto Lucas menciona um tempo aproximado de 8 dias “de proferidas estas palavras”. Os evangelhos sinóticos são unânimes em registrar os três eventos antecedentes que, do mais antigo para o mais recente, são:
1º) A CONFISSÃO DE PEDRO (Mc 8.27-30; Mt 16.13-20; Lc 9.18-21).
2º) PREDIÇÃO DA PAIXÃO (Mc 8.31-33; Lc 9.22; Mt 16.21-23).
3º) O PREÇO DO DISCIPULADO (Mc 8.34-9.1; Mt 16.24-28; Lc 9.23-27).
Jesus estava caminhando para a reta final do seu ministério e consumação da sua missão. Foi a primeira das três vezes em que Jesus revelou claramente o que estava para a acontecer – sua paixão e morte. Tempos difíceis viriam para os seus seguidores; havia um preço a pagar pelo discipulado. Assim, uma revelação especial e gloriosa da sua pessoa e divindade era muito bem-vinda!
Os convidados e acompanhantes eram aqueles que faziam parte do círculo de amigos íntimos de Jesus. Naquela ocasião que Jesus e os seus discípulos chegaram à casa de Jairo para curar sua filhinha ele distingue os que iriam com ele ao encontro da menina enferma, agora já falecida; apenas Pedro e os irmãos Tiago e João (Mc 5.37; Lc 8.51). Isso é ratificado aqui no relato da transfiguração de Jesus, num momento da sua glorificação (Mc 9.2; Mt 17.1; Lc 9.28) e, ainda, no Getsêmani, num momento de intensa agonia e angústia (Mc 14.33).
Os três evangelhos mencionam que Jesus levou Pedro, Tiago e João a um “alto monte” ou “monte”, sem nomeá-lo. Porém, algumas tradições e estudiosos sugerem os seguintes locais prováveis: Monte Tabor (hipótese tradicional), localizado ao Sul da Galileia, próximo a Nazaré, com altura aproximada de 580 metros, segundo a tradição cristã desde o século III. Monte Hermom (hipótese moderna), localizado ao norte da Galileia, perto de Cesareia de Filipe, com altura aproximada de 2.800 metros (bem mais alto). Fica próximo ao local onde Jesus estivera com os discípulos dias antes (Mc 8.27), o que encaixa no contexto geográfico da narrativa.
Quanto ao propósito, apenas o evangelista Lucas expressa que era o de orar. Além desta ocorrência, há alguns registros de Jesus subindo ao monte para orar: (i) Antes de escolher os doze apóstolos, no início do seu ministério, sozinho, a noite inteira (Lc 6.12-13); (ii) Após a multiplicação dos pães, sozinho, ao cair da tarde (Mt 14.23; Mc 6.46; Jo 6.15); (iii) No Getsêmani (Monte das Oliveiras), com os discípulos, Jesus ora com grande angústia antes de sua prisão (Mt 26.36-44; Mc 14.32-39; Lc 22.39-46). O costume de Jesus era se afastar das multidões para ter um tempo a sós com o Pai, às vezes em montes, outras em desertos (Lc 5.16). Além desse propósito podemos acrescentar que Jesus já sabia e tinha outros propósitos em tudo o que estava para acontecer ali.
2. O fenômeno sobrenatural
2b Foi transfigurado diante deles; (Mc 9)
3 as suas vestes tornaram-se resplandecentes e sobremodo brancas, como nenhum lavandeiro na terra as poderia alvejar. (Mc 9)
2 E foi transfigurado diante deles; o seu rosto resplandecia como o sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz. (Mt 17)
29 E aconteceu que, enquanto ele orava, a aparência do seu rosto se transfigurou e suas vestes resplandeceram de brancura. (Lc 9)
Naquele monte, em algum momento, algo extraordinário começou a acontecer com o rosto e as vestes de Jesus que resplandeceram. Apenas Lucas registra que o fenômeno aconteceu enquanto Jesus orava. Na Bíblia, a luz intensa ou clarão sobrenatural, geralmente acompanha a manifestação da presença de Deus, de anjos ou de momentos de revelação espiritual. Essa luz simboliza santidade, glória, pureza e poder. Alguns registros bíblicos de clarão ou luz intensa no contato entre o divino e o humano são: Moisés e a sarça ardente (Êx 3.2-4); Moisés no Monte Sinai, na entrega da lei, com trovões e relâmpagos (Êx 19.16-18; 24.17); Após estar com Deus, no monte, o rosto de Moisés emite luz visível, a ponto de o povo ter medo de se aproximar dele (Êx 34.29-30); Anjos, na ressurreição de Jesus (Mt 28.3; Lc 24.4); Aparição de Jesus a Saulo (Paulo) (At 9.3; 22.6; 26.13); e, luz intensa acompanha a revelação celestial e o trono de Deus. A glória divina substitui qualquer outra fonte de luz (Ez 1.27-28; Ap 1.14-16; 4.3-5; 21.23).
3. As aparições e interações
4 Apareceu-lhes Elias com Moisés, e estavam falando com Jesus. (Mc 9)
3 E eis que lhes apareceram Moisés e Elias, falando com ele. (Mt 17)
30 Eis que dois varões falavam com ele: Moisés e Elias, (Lc 9)
31 os quais apareceram em glória e falavam da sua partida, que ele estava para cumprir em Jerusalém. (Lc 9)
32 Pedro e seus companheiros achavam-se premidos de sono; mas, conservando-se acordados, viram a sua glória e os dois varões que com ele estavam. (Lc 9)
No monte da transfiguração, Elias e Moisés apareceram e falavam com Jesus (Mc 9.2-8; Mt 17.1-8; Lc 9.28-35). Como Pedro, Tiago e João identificaram aqueles dois varões como sendo Elias e Moisés não nos é revelado no registro bíblico. Podemos supor pelo menos três hipóteses: a) Deus mesmo lhes revelou; b) Jesus lhes revelou; ou, c) Eles ouviram a citação dos nomes de Elias e Moisés, na saudação ou em algum momento da conversa.
Quanto a Elias, que foi trasladado, não passando pela morte, teria ele recebido um corpo glorificado? E, quanto a Moisés, como ele pôde aparecer ali se estava morto? Ou, será que Moisés não morreu, mas, também teria sido trasladado?
A Bíblia afirma que Moisés morreu e foi sepultado por Deus, mas seu fim é cercado de mistério, o que gerou questionamentos sobre o que exatamente aconteceu após sua morte. Em Deuteronômio 34.5-6, está escrito: “Assim, morreu ali Moisés, servo do SENHOR, na terra de Moabe, segundo a palavra do SENHOR. Este o sepultou num vale, na terra de Moabe, defronte de Bete-Peor; e ninguém sabe, até hoje, o lugar da sua sepultura.” O texto deixa claro que Moisés morreu, e que Deus mesmo cuidou do seu sepultamento, mas o local exato nunca foi revelado. Assim, ele foi impedido de entrar na Terra Prometida devido ao pecado em Meribá (Nm 20.12).
Na epístola de Judas 1.9 há a menção de uma disputa entre o arcanjo Miguel e o Diabo sobre o corpo de Moisés. Isso sugere que havia algo singular envolvendo o corpo de Moisés, possivelmente relacionado à sua ressurreição ou uso divino. Também contribui para o mistério em torno de seu sepultamento e possível propósito no plano divino.
Moisés aparece junto com Elias na transfiguração de Jesus. Isso levantou questões entre estudiosos e teólogos sobre como Moisés poderia estar presente, se morreu e foi sepultado. Alguns sugerem que ele foi ressuscitado e recebeu o mesmo tipo de corpo glorioso de Elias ou que Deus providenciou uma manifestação especial para esse evento da transfiguração. Portanto, não há evidências bíblicas de que ele tenha sido trasladado sem morrer, como aconteceu com Enoque e Elias.
Elias foi levado ao céu e o texto bíblico registra a forma visual como isso aconteceu, isto é, em um redemoinho, sendo que um carro e cavalos de fogo o separou de Eliseu. Elias foi um profeta relevante no seu tempo tornando-se mais conhecido em razão dos milagres que Deus realizou através dele. Há uma profecia interessante a seu respeito em Malaquias 4.5-6. De fato, não se trata de uma presença física (encarnada ou reencarnada) de Elias. Jesus nos esclarece, associando essa profecia a João Batista que viria no “espírito e poder de Elias” (Lc 1.17), e, assim cumpriria e cumpriu essa missão profética: “Porque todos os Profetas e a Lei profetizaram até João. E, se o quereis reconhecer, ele mesmo é Elias, que estava para vir.” (Mt 11.13-14; ver tb Mt 17.10-13; Mc 9.11-13).
Enfim, de acordo com as Escrituras, Moisés morreu, mas Deus teve um propósito especial para ele após a morte. Sua aparição na transfiguração, ao lado de Elias, indica que ambos, mesmo após a morte e trasladação, foram incluídos no plano divino de redenção e glorificação. Estes dois personagens bíblicos estavam ali representando a lei (Moisés) e os profetas (Elias). Ambos falam com Jesus sobre sua partida (Lc 9.31), ou seja, sua morte em Jerusalém, o ponto culminante da redenção. Há uma bela revelação e simbolismo mostrando que todo o Antigo Testamento aponta para Cristo (Lc 24.27). Portanto, explicita que o fim da lei é Cristo (Rm 10.4) e que “Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o universo.” (Hb 1.1-2). Também não se pode deixar de ressaltar a antecipação da presença da igreja ali, representada pelos três discípulos.
4. A manifestação de Pedro
5 Então, Pedro, tomando a palavra, disse: Mestre, bom é estarmos aqui e que façamos três tendas: uma será tua, outra, para Moisés, e outra, para Elias. (Mc 9)
6 Pois não sabia o que dizer, por estarem eles aterrados. (Mc 9)
4 Então, disse Pedro a Jesus: Senhor, bom é estarmos aqui; se queres, farei aqui três tendas; uma será tua, outra para Moisés, outra para Elias. (Mt 17)
33 Ao se retirarem estes de Jesus, disse-lhe Pedro: Mestre, bom é estarmos aqui; então, façamos três tendas: uma será tua, outra, de Moisés, e outra, de Elias, não sabendo, porém, o que dizia. (Lc 9)
Para surpresa de zero pessoas é o impetuoso Pedro quem reage explicitando seu sentimento de satisfação por estar vivenciando aquele momento – “bom é estarmos aqui” – e apresentando uma sugestão. Pedro desejava congelar ou eternizar aquele momento, desfrutando ao máximo aquele vislumbre do céu, longe da realidade difícil que os aguardava. Quis fixar tendas e permanecer na glória do monte. Mas a missão não era ficar ali – era descer e seguir em direção à cruz. Havia um povo sofrido, carente e aflito lá embaixo, precisando de Jesus.
Essa proposta de Pedro levanta um alerta que ainda fala ao coração do crente, individualmente, e da igreja, coletivamente. Não há qualquer repreensão pelo fato de vivermos experiências espirituais profundas – elas são bênçãos que Deus concede. O problema surge quando essas experiências se tornam um fim em si mesmas, e se vive em busca constante de emoções e êxtases espirituais, enquanto se abandona o propósito maior: alcançar os perdidos com o evangelho e viver uma vida santa, coerente e comprometida diante de Deus e dos homens.
Isso acena para alguns desvios de foco e propósitos da igreja de ontem e de hoje:
- Uma igreja voltada para si mesma, cujas atividades e programações são centradas em seus membros, e não em equipá-los para a missão no mundo.
- Uma igreja que idolatra seus líderes, transformando pastores e pregadores em celebridades espirituais, acima da crítica e do confronto da Palavra.
- Uma igreja que se deslumbra com a beleza de seus templos e suas acomodações, como se a glória de Deus estivesse presa à estética arquitetônica.
- Uma igreja que vive do passado, cultuando sua própria história e tradições, mas desconectada do mover atual do Espírito.
- Uma igreja que cultua sua inovação, organização, estrutura e projetos, mas que esquece que o Reino de Deus é maior do que qualquer modelo humano.
- Uma igreja que cultua e absolutiza sua teologia, seus símbolos de fé e ritos, esquecendo de que a ortodoxia sem vida e sem amor pode se tornar tão vazia quanto o formalismo religioso que Jesus condenou.
- Uma igreja centrada no “entretenimento espiritual”, na qual o culto é moldado para agradar ao seu público, mas evita confrontar o pecado, promover arrependimento e exaltar a cruz.
Cristo é o centro da igreja, não seus líderes, templos, história, símbolos, nem seus planos bem elaborados. Tudo deve apontar para ele. Quando perdemos essa centralidade, mesmo os dons mais preciosos se tornam perigosamente idolatrados. A glória do monte é bela, mas a missão está no vale. A experiência espiritual é necessária, mas o chamado é para a obediência e a cruz.
5. A manifestação divina
7 A seguir, veio uma nuvem que os envolveu; e dela uma voz dizia: Este é o meu Filho amado; a ele ouvi. (Mc 9)
5 Falava ele ainda, quando uma nuvem luminosa os envolveu; e eis, vindo da nuvem, uma voz que dizia: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo; a ele ouvi. (Mt 17)
6 Ouvindo-a os discípulos, caíram de bruços, tomados de grande medo. (Mt 17)
7 Aproximando-se deles, tocou-lhes Jesus, dizendo: Erguei-vos e não temais! (Mt 17)
34 Enquanto assim falava, veio uma nuvem e os envolveu; e encheram-se de medo ao entrarem na nuvem. (Lc 9)
35 E dela veio uma voz, dizendo: Este é o meu Filho, o meu eleito; a ele ouvi. (Lc 9)
Olhando para o alto daquele monte nós vemos três grupos: três homens do presente, dois homens do passado e um eterno, divino-humano. Entretanto, Pedro via ali três homens: Jesus e dois grandes vultos da história de Israel que muito o impressionou ao ponto de se prontificar a fazer três tendas para eles, quem sabe, esquecendo-se deles mesmos. Sua sugestão pode ser interpretada como se ele considerasse os três no mesmo nível, o que teria levado Deus a remover Moisés e Elias. Por fim, temos a manifestação da visão e resposta de Deus distinguindo apenas um dentre os seis homens: “Este é o meu Filho amado; a ele ouvi.”. Não foi necessariamente uma mensagem de repreensão, mas de direcionamento para Jesus, aquele que deveria ser ouvido, honrado e glorificado. Essa mesma voz já havia sido ouvida no batismo de Jesus (Mt 3.17; Mc 1.11; Lc 3.22).
A Transfiguração revela quem Jesus realmente é: Deus encarnado, o Filho glorioso de Deus revestido temporariamente de glória celestial diante dos discípulos. Confirma sua identidade messiânica e o distingue de Moisés e Elias. Ensina que Jesus é superior à Lei (Moisés) e aos profetas (Elias) – ele cumpre ambos os ofícios. Na nossa jornada cristã, nas nossas atividades e vivências dentro e fora da igreja, quando pensarmos que somos relevantes ou os nossos líderes nos impressionarem, precisamos abrir bem nossos ouvidos para ouvir essa mesma mensagem do alto – “Este é o meu Filho amado; a ele ouvi.” – a ele honrai e dai glória!
Além da voz de Pedro, da voz de Deus, também temos o registro da voz de Jesus: Erguei-vos e não temais! Nessas manifestações divinas ou angelicais o ser humano estremece e teme, e o refrão tranquilizador sempre se faz ouvir – Não temais!
6. O fim do fenômeno
8 E, de relance, olhando ao redor, a ninguém mais viram com eles, senão Jesus. (Mc 9)
8 Então, eles, levantando os olhos, a ninguém viram, senão Jesus. (Mt 17)
36a Depois daquela voz, achou-se Jesus sozinho. (Lc 9)
O sobrenatural e extraordinário sempre tem hora para começar e hora para terminar, cedendo lugar ao natural e ordinário. O propósito fora alcançado e a missão deveria prosseguir.
7. A ordem de Jesus
9 Ao descerem do monte, ordenou-lhes Jesus que não divulgassem as coisas que tinham visto, até o dia em que o Filho do Homem ressuscitasse dentre os mortos. (Mc 9)
10 Eles guardaram a recomendação, perguntando uns aos outros que seria o ressuscitar dentre os mortos. (Mc 9)
9 E, descendo eles do monte, ordenou-lhes Jesus: A ninguém conteis a visão, até que o Filho do Homem ressuscite dentre os mortos. (Mt 17)
36b Eles calaram-se e, naqueles dias, a ninguém contaram coisa alguma do que tinham visto. (Lc 9)
Findo aquele momento, Jesus orienta ou ordena aqueles discípulos a guardarem silêncio temporariamente sobre o tudo aquilo que haviam vivenciado. A ordem de Jesus pode parecer enigmática à primeira vista, mas ela revela aspectos profundos da pedagogia divina e do plano de redenção. Algumas possíveis explicações são:
1º) Jesus revela progressivamente a sua identidade, ao longo dos Evangelhos, como o Messias predito e Filho de Deus. Ele queria que essa revelação acontecesse de forma natural e orgânica, por meio dos seus atos, ensino e, por fim, sua morte, ressurreição e ascensão.
2º) Evitar fortalecer uma compreensão distorcida da missão de Jesus, como um libertador político do império romano (Lc 24.21; 1.68). A transfiguração revelava a glória do Messias, mas sem o contexto da cruz e da ressurreição, isso poderia fortalecer visões erradas sobre Jesus, incentivando movimentos nacionalistas ou triunfalistas prematuros. A divulgação imediata poderia promover certa agitação popular, precipitando perseguição pelas autoridades religiosas e romanas, antecipando os eventos da paixão e morte fora do tempo determinado por Deus.
3º) A sua glória deveria ser vista e entendida à luz da cruz e da ressurreição. Jesus queria que a visão gloriosa do monte só fosse divulgada após a ressurreição, quando os discípulos compreenderiam plenamente que o caminho da glória passa pela cruz. Antes disso, até os próprios discípulos não conseguiam compreender bem o que significava “ressuscitar dentre os mortos” (Mc 9.10). Jesus queria manter os discípulos centrados na missão e no ensino do Reino de Deus, sem confusões e distrações.
8. A dúvida quanto a Elias
11 E interrogaram-no, dizendo: Por que dizem os escribas ser necessário que Elias venha primeiro? (Mc 9)
12 Então, ele lhes disse: Elias, vindo primeiro, restaurará todas as coisas; como, pois, está escrito sobre o Filho do Homem que sofrerá muito e será aviltado? (Mc 9)
13 Eu, porém, vos digo que Elias já veio, e fizeram com ele tudo o que quiseram, como a seu respeito está escrito. (Mc 9)
10 Mas os discípulos o interrogaram: Por que dizem, pois, os escribas ser necessário que Elias venha primeiro? (Mt 17)
11 Então, Jesus respondeu: De fato, Elias virá e restaurará todas as coisas. (Mt 17)
12 Eu, porém, vos declaro que Elias já veio, e não o reconheceram; antes, fizeram com ele tudo quanto quiseram. Assim também o Filho do Homem há de padecer nas mãos deles. (Mt 17)
13 Então, os discípulos entenderam que lhes falara a respeito de João Batista. (Mt 17)
Apenas os evangelistas Mateus e Marcos registram essa dúvida dos discípulos quanto a vinda de Elias. Circulava entre os escribas, que eram os intérpretes credenciados das Escrituras hebraicas na religião oficial daquela época, essa profecia baseada em Malaquias 4.5-6. Este grande profeta do passado estava fortemente ligado à esperança messiânica. Além de não ter experimentado a morte, é mencionado como o precursor do Messias: “Eis que eu vos enviarei o profeta Elias, antes que venha o grande e terrível Dia do SENHOR; ele converterá o coração dos pais aos filhos e o coração dos filhos a seus pais, para que eu não venha e fira a terra com maldição.” (Ml 4.5-6). Para evitar qualquer mal-entendido, Jesus procurou relacioná-lo a João Batista: “E, se o quereis reconhecer, ele mesmo é Elias, que estava para vir.” (Mt 11.14). Ele ratifica aqui uma das nove predições do anjo Gabriel a Zacarias sobre o seu filho João Batista: “E irá adiante do Senhor no espírito e poder de Elias, para converter o coração dos pais aos filhos, converter os desobedientes à prudência dos justos e habilitar para o Senhor um povo preparado.” (Lc 1.17). A bíblia deixa claro que não se trata de reencarnação, como defendido por alguns segmentos religiosos.
Conclusão
O Senhor Jesus, que até então havia sido visto e conhecido por seus discípulos “na forma de Servo” (Fp 2.7), agora se revela, de modo singular, em sua glória essencial como o Filho de Deus. A Transfiguração foi uma manifestação extraordinária da sua divindade, concedida a três de seus discípulos, na medida em que olhos humanos podiam contemplar. Não foi apenas um milagre entre outros, mas uma revelação do próprio Cristo em sua verdadeira natureza.
O propósito dessa experiência gloriosa foi múltiplo e profundo:
- Confirmar, por meio da visão, a identidade de Jesus – que ele não era apenas o Messias esperado, mas Deus encarnado, plenamente divino e humano.
- Fortalecer os discípulos diante da iminente cruz – preparando seus corações para o escândalo da morte de Jesus, com um vislumbre da glória futura.
- Antecipar a glória do Reino vindouro – uma amostra do que seria revelado plenamente em sua segunda vinda e no Reino eterno.
- Receber o testemunho celestial do Pai – com a solene declaração: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo; a ele ouvi”, apontando para a autoridade suprema de Cristo sobre todas as coisas.
- Estabelecer a supremacia de Cristo sobre Moisés e Elias – representantes da Lei e dos Profetas, indicando que em Jesus se cumpre toda a revelação divina e que ele é o centro da Escritura e da fé.
Quanto à experiência vivida no monte, por aqueles três discípulos, nos faz pensar que a jornada cristã é feita de montes e vales:
- A transfiguração acontece no monte (glória), mas logo depois os discípulos descem e enfrentam problemas, dúvidas, e o desafio de um menino possesso e um pai aflito (Mc 9.14-29; Mt 17.14-21; Lc 9.37-43a).
- Isso ensina que a vida cristã alterna entre comunhão íntima com Deus e confronto com a realidade do sofrimento humano.
- Precisamos levar a glória do monte para a realidade do vale.
Que Deus nos ajude! Jesus é o centro de tudo o que há

