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As três faces de um Ministério Espiritual

“Partiu, pois, Elias dali e achou a Eliseu, filho de Safate, que andava lavrando com doze juntas de bois adiante dele; ele estava com a duodécima. Elias passou por ele e lançou o seu manto sobre ele. Então, deixou este os bois, correu após Elias e disse: Deixa-me beijar a meu pai e a minha mãe e, então, te seguirei. Elias respondeu-lhe: Vai e volta; pois já sabes o que fiz contigo. Voltou Eliseu de seguir a Elias, tomou a junta de bois, e os imolou, e, com os aparelhos dos bois, cozeu as carnes, e as deu ao povo, e comeram. Então, se dispôs, e seguiu a Elias, e o servia.” (1Rs 19.19-21)

 

Introdução

Deus é o Senhor da História e ele a escreve usando pessoas. Quando homens e mulheres estão a serviço de Deus, estão participando de um ministério espiritual que é uma ocupação “sobremodo excelente”. Há pelo menos três faces em um MINISTÉRIO ESPIRITUAL:

 

1. MINISTÉRIO e CHAMADO (v.19)

Analisando a narrativa bíblica contida tanto no Antigo como no Novo Testamentos, chega-se à conclusão que há basicamente três categorias de chamado de Deus aos indivíduos da raça humana. É claro que se trata de uma visão simplista da relação entre o Criador e a criatura humana. Sendo derivada de uma lógica humana não passa de uma tentativa de limitar o ilimitável – o “modus operandi” de Deus – com o fim didático de entender o que é divino, portanto insondável.

Seja qual for a categoria de chamado é evidente que há um propósito específico da parte de Deus em cada um deles. Além disso, constatamos que é desta forma que Deus administra a história, reconduzindo-a vez por outra aos trilhos da sua vontade.

1°) Chamado geral (testemunho)

Nesta categoria o chamado de Deus é dirigido a todos os crentes em Cristo tendo em vista, por exemplo, a evangelização de todos os povos, tribos, línguas e nações (Ide…- Mt 28.19). Se você não sabe expor o plano de salvação, pelo menos use o evangelismo “à la Filipe”: “vem e vê” (Jo 1.45-46).

2°) Chamado individual (dons e serviços)

Neste segundo caso, o chamado de Deus é dirigido a uma pessoa específica, visando a realização de pequenos objetivos, embora necessários e importantes. Ao chamar, Deus mesmo capacita através do seu Espírito.

Num passado mais distante ele chamou pessoas para desempenharem o papel de sacerdote, juiz, rei, etc.  Até mesmo alguns artífices foram chamados e capacitados para atuarem na construção do Tabernáculo, como Bezalel e Aoliabe (Ex 31.1-11).

O Apóstolo Paulo referindo-se aos dons espirituais e seu uso na igreja (1Co 12-14) diz que Deus estabeleceu na igreja apóstolos, profetas, mestres, operadores de milagres etc. Esclarece que os dons são diversos, há diversidade de serviços e há diversidade nas realizações (1Co 12.4-6); “mas um só e o mesmo Espírito realiza todas estas coisas, distribuindo-as, como lhe apraz, a cada um, individualmente (1Co 12.11).

Isso significa que cada cristão, como membro do corpo de Cristo, é capacitado espiritualmente para realizar um serviço específico, de acordo com a livre e soberana vontade de Deus e, “visando a um fim proveitoso” (1Co 12.7).

Portanto, é nessa categoria que se enquadram os chamados para os ofícios de presbítero e diácono.

3°) Chamado especial (missão)

É semelhante ao anterior porquanto também é um chamado individual. Entretanto, pela magnitude e alcance dos seus propósitos, fica-lhe melhor a classificação de “especial”. Destaca-se pela intensidade da intervenção divina na história humana através de pessoas especialmente escolhidas.

No contexto da história bíblica podem ser facilmente identificados três períodos de grande intervenção divina. Cada um destes períodos durou menos de um século e foi marcado por milagres, que são acontecimentos que não têm uma explicação natural. São eles:

– Quando da formação da nação de Israel, sob Moisés e Josué;

– Quando o culto a Baal ameaçava destruir toda a adoração a Deus, sob Elias e Eliseu;

– Quando do estabelecimento da igreja, sob Cristo e os apóstolos (predominantemente).

Considerando os principais milagres registrados na Bíblia chegamos à seguinte estatística:

PESSOAS MILAGRES REGISTRADOS Século Percentual
Moisés e Josué 31 XV a.C.
Elias e Eliseu (9+12)      21 IX  a.C.
Jesus Cristo

Apóstolos/outros

37

27

   I d.C. 90%
Diversas 13      – 10%
TOTAL 129      – 100%

S. Boyer – Pequena Enciclopédia Bíblica

No contexto da Reforma, quando a igreja oficial também ameaçava destruir o verdadeiro culto a Deus, aparecem em cena homens como: João Wyclif (1324-1384), Martinho Lutero (1483-1546), João Calvino (1509-1564) e João Knox (1515-1572).

Nos século 18 e 19, marcados por grandes avivamentos e expansão missionária destacam-se: Jônatas Edwards (1703-1758), João Wesley (1703-1791), Guilherme Carey (1761-1834), Carlos Finney (1792-1875), Jorge Müller (1805-1898), Davi Livingstone (1813-1873), Hudson Taylor (1832-1905); Carlos Spurgeon (1834-1892) e Dwight L. Moody (1837-1899).

Nas entrelinhas do versículo 19 há três aspectos relevantes sobre o chamado que devem ser considerados:

a) O chamado é um ato soberano de Deus

“..e achou a Eliseu, filho de Safate..”

Ou Deus chama diretamente a pessoa escolhida (Moisés – Ex 3.2) ou ele manda chamar, como neste caso (1Rs 19.16).

A Bíblia menciona o fato de pessoas serem separadas por Deus, para algum ministério especial, antes mesmo de nascerem (Sansão – Jz 13.5; Jeremias – Jr 1.5; João Batista – Lc 1.13-17; Paulo – Gl 1.15 ; etc).

Se a Deus pertence a escolha não cabe a nós questionar os seus critérios. Elias poderia ter argumentado: “Senhor, não há tantos discípulos na Escola de Profetas em Ramá (1Sm 19.20); ou na de Betel (2Rs 2.3); ou na de Jericó (2Rs 2.5); ou quem sabe na de Gilgal (2Rs 4.38)?  Por que escolhestes um lavrador?”.

Quem dentre nós, no lugar de Jesus, chamaria homens “iletrados e incultos” para serem seus discípulos e continuadores do Cristianismo?  Deus sabe o que faz. Pedro e João falaram com tanta intrepidez diante do Sinédrio em Jerusalém que aqueles inquiridores não só se admiraram como reconheceram terem eles estado com Jesus (At 4.13).

Em vez disso Elias entendeu que a nós basta obedecer a Deus, “achar”, reconhecer os escolhidos por Deus e encaminhá-los ao ministério (At 13.2).

b) O chamado é uma proposta de troca

“..andava lavrando com doze juntas de bois adiante dele; ele estava com a duodécima..”

Você já deve ter ouvido falar alguma vez que Deus não chama desocupados, ociosos ou preguiçosos. Eis aqui mais um caso que confirma esta regra. Deus chama gente ocupada e propõe que estes troquem suas atividades, parcial ou totalmente, por atividades “mais nobres” ou mais necessárias dentro da sua ótica. Aos irmãos pescadores – Pedro e André – Jesus propôs: “Vinde após mim, e eu vos farei Pescadores de homens” (Mt 4.19).

c) O chamado é confirmado pela outorga de Autoridade e Poder

“Elias passou por ele, e lançou o seu manto sobre ele”

O ato de “lançar o manto sobre” tinha o simbolismo de transferência de autoridade e poder, de um profeta que estava terminando a sua missão, para outro que já estava sendo escolhido para dar prosseguimento ao ministério profético.

Tal qual a vara de Arão (Ex 14.16; 17.5-6), o manto de Elias foi usado para a realização de tarefas humanamente impossíveis (Elias – 2Rs 2.8; Eliseu – 2Rs 2.14). De igual modo, os ungidos e equipados pelo Espírito Santo podem servir de canais através dos quais Deus realiza a sua vontade.

 

2. MINISTÉRIO E FAMÍLIA (v.20)

Seja qual for a categoria de chamado que você recebeu, esteja certo de que:

a) A família requer uma atenção adequada

“Deixa-me beijar a meu pai e a minha mãe, e então te seguirei”

A atitude de pedir permissão para despedir-se de sua família  demonstra submissão ao profeta de Deus e, ao mesmo tempo, responsabilidade e atenção para com os seus pais. Eliseu não desculpou-se como aquele “quase discípulo de Jesus” que primeiro queira “sepultar o seu pai” (Lc 9.59-60).

Tudo indica que Eliseu era um homem solteiro. Não acredito que a sua calvície tivesse algo a ver com isso (2Rs 2.23). O fato dele ser solteiro simplificava em muito a situação. Paulo diz que os não casados estão mais livres para cuidar “das coisas do Senhor” enquanto os casados estão divididos entre a família e o serviço cristão (1Co 7.32-33).

Como, sendo casado(a), conciliar família e ministério? Como distribuir adequadamente a energia e atenção com os diferentes papéis que você desempenha na sociedade, o que inclui a família?  Há uma tendência natural de aplicarmos mais energia naqueles papéis com maior retorno financeiro ou satisfação das necessidades de autoestima, ou ainda de autorrealização.

Seja qual for a importância que você, ou outros, dão ao seu ministério espiritual, este não anula a sua responsabilidade para com a família. Em contrapartida a família não tem o direito de absorver egoisticamente aquele(a) que foi chamado por Deus para abençoar muitas vidas.

É recomendável adotar-se a seguinte hierarquia de prioridades:

DEUS  =>  FAMÍLIA  =>  MINISTÉRIO

“Elias respondeu-lhe: Vai, e volta; pois já sabes o que fiz contigo”

É preciso dosar bem o ir e vir entre o ministério e a família!

 

3. MINISTÉRIO e MISSÃO (v.21)

Há profundas e significativas verdades nas atitudes de Eliseu após o seu chamado:

 a) O ministério requer comprometimento total

“Voltou Eliseu de seguir a Elias, tomou a junta de bois, e os imolou…”

Consciente de que havia recebido um chamado especial, de “tempo integral”, pela fé ele se entrega, se compromete, a ponto de desmontar a sua estrutura de trabalho anterior. Como lavrador, ele sabia muito bem o quanto é desastroso colocar as mãos no arado e olhar para trás (Lc 9.62).

O diaconato não é um ministério de tempo integral. Entretanto, como qualquer outro ministério requer um comprometimento total. Não basta participar, é preciso se comprometer!

b) O ministério requer visão do povo

“… e com os aparelhos dos bois cozeu as carnes, e as deu ao povo, e comeram”

Ele poderia ter feito um bom negócio com a sua junta de bois; em benefício próprio ou de sua família. Afinal, não era dele? Não é esta a regra mais antiga do mundo: Primeiro EU, minha FAMÍLIA, meus AMIGOS e depois os OUTROS?

Uma forma infalível de avaliação da sua maturidade cristã, ou seja, do quanto você já se aproximou da “Natureza de Cristo”, é medindo a sua liberalidade, a sua capacidade de dar e de doar-se a si mesmo. Ministério, antes de tudo, é doação de vida. Deus nos deu Jesus, o seu Filho Unigênito, que nos deu a salvação eterna e vida abundante, que deve fluir em todas as direções, sem discriminações.

Há duas palavras muito interessantes no grego, língua em que foi escrito o Novo Testamento: “doulos” e “diákonos”.

Doulos(gr), escravo, é a forma mais baixa de servidão. O escravo não tem vontade própria. Vive para cumprir a vontade do seu despótes (gr) (dono).

 Diákonos (gr), servo, implica serviço, de todas as formas. Diakonia (gr) diz respeito a distribuição de alimentos, socorro, enfim, assistência social. O nome, sem perder esta ideia, se tornou título de um dos oficiais das igrejas.

Essas duas posições, escravo e servo, nunca deram muito “ibope”. Se fossem incluídas no nosso vestibular unificado, dificilmente atrairiam algum candidato. Todos preferem as posições de Kúrios (Senhor), despótes (Dono), didáskalos (Mestre) etc.

Sabedor dessa preferência humana, Jesus, ao estabelecer o seu reino neste mundo, tratou de reformular o conceito de servir:

1°) Ele não pregou a eliminação de todas as posições hierárquicas estabelecidas pela sociedade (Jo 13.16).

2°) Ele estabeleceu um sistema de compensação entre líderes e liderados introduzindo um revolucionário conceito de grandeza: “..quem quiser tornar-se grande entre vós será esse o que vos sirva” (Jo 20.26). Ele quebra os paradigmas existentes onde os governantes dos povos os dominavam e exploravam (Jo 20.25) e estabelece as bases da verdadeira democracia.

Jesus não apenas ensinou mas vivenciou o papel de “doulos” (Fp 2.7) e “diákonos” (Mt 20.28) e, acrescentou: “Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também” (Jo 13.15).

O apóstolo dos gentios, Paulo, assimilou bem estes dois conceitos e usa-os a respeito de si, seu ministério e serviço cristão: “doulos” (de Jesus – Rm 1.1; dos irmãos – 2Co 4.5); e, “diákonos” (servo – 1Co 3.5; ministro – 2Co 3.6; 6.4; 11.23; Ef 3.7).

Os ministérios de Elias e Eliseu visaram prioritariamente o sofrido povo de Israel do Reino do Norte, “os domésticos da fé”, mas transpuseram barreiras raciais e abençoaram pessoas de outras nações, podendo ser considerados como precursores do ministério cristão (Lc 4.25-27).

  c) O ministério requer humildade e perseverança

“Então se dispôs e seguiu a Elias, e o servia”

Os serviços mais simples, repetitivos, raramente são percebidos quando funcionam bem. A dona de casa que o diga. Isso sempre foi assim e sempre o será. Quem serve na casa de Deus deve fazê-lo com satisfação e dedicação, não esperando qualquer tipo de reconhecimento. Deve-se ter o cuidado de fazer as coisas “como para o Senhor e não para os homens” (Cl 3.23).

Eliseu não via qualquer problema em ser um auxiliar de Elias, em executar tarefas tão simples como “deitar água sobre as mãos de Elias” (2Rs 3.11). Eliseu foi fiel no “pouco”, e depois da morte de Elias, foi colocado sobre o “muito”, pois Deus o usou de uma forma tremenda.

Já repararam que entre os oficiais diáconos há muitos que desempenham papel relevante no mundo dos negócios? Há funcionários graduados, gerentes, empresários etc. Entretanto, sem qualquer constrangimento, se empenham o máximo para servir bem aos irmãos e visitantes. Particularmente defendo aquela opinião de que na igreja de Cristo não deve haver distinção de pessoas por causa de títulos ou sobrenomes. Todos devem ser recebidos e tratados como membros de um mesmo corpo (1Co 12.27), ramos de uma mesma videira (Jo 15) e pedras de um mesmo edifício espiritual (1Co 3.9) – a igreja de Cristo.

A humildade e perseverança no servir são virtudes essenciais à eficácia de um ministério espiritual.

 

Conclusão

1. O chamado é:

– Um ato soberano de Deus.

– Uma proposta de troca.

– Confirmado pela outorga de Autoridade e Poder.

2. A família requer uma atenção adequada.

3. O ministério requer:

– Comprometimento total.

– Visão do povo.

– Humildade e Perseverança.

Que Deus nos ajude a entender e praticar esses princípios básicos.


Catedral Presbiteriana do Rio
16/07/1995 – Culto Vespertino (19h)
Aniversário da Junta Diaconal
Esboço da Mensagem pregada pelo então Diácono Paulo Raposo Correia

Elias, no divã de Deus

Elias no divã de Deus

“Eis que Deus é o meu ajudador, o SENHOR é quem me sustenta a vida.” (Sl 54.4)

Introdução:

O Salmo 54 traduz a expressão de agonia de Davi, em tempos muito difíceis, quando se tem a convicção de que o único socorro possível é o que vem de cima, do Deus altíssimo: “Ó Deus, salva-me, pelo teu nome, e faze-me justiça, pelo teu poder. Escuta, ó Deus, a minha oração, dá ouvidos às palavras da minha boca.” (Sl 54.1-2).

Por mais tenebroso que possa parecer, não se pode deixar de afirmar que, cada ser humano, em algum momento de sua vida deverá vivenciar um ou vários desses tempos difíceis, quando parece ou se tem a certeza de que nenhuma ajuda humana poderá socorrê-lo. Há situações que são complicadas, porém não tão aterradoras, como: a perda de um emprego, a desagregação ou abandono familiar, um imbróglio, que é aquele mal-entendido ou situação confusa em que nos envolveram, um acidente com pequenas sequelas ou uma doença temporária. Entretanto, há outras situações que parecem, ou mesmo, tem-se a certeza de que fogem ao nosso controle, como: estar na mira de uma arma em um assalto, uma doença degenerativa incurável, uma sequela grave de um acidente, uma catástrofe ambiental, a perda repentina (ou não) de alguém muito querido, uma cirurgia de altíssimo risco ou quando estamos diante da nossa própria morte.

Como diz o hino (Onde tudo é feliz) de William Edwin Entzminger: “É de provação a nossa vida aqui? Vamo-la deixar um dia;”. Entretanto, enquanto esse dia não chega é confortador pensar que Deus é o nosso ajudador de todas as horas. Deixando Davi de lado, será edificante refletir sobre outro personagem bíblico – Elias  (1Rs 19). Esse extraordinário profeta de Deus, instrumento do Senhor para a realização de tantos milagres, também vivenciou momentos amargos, pois nenhum ser humano está isento destes. Ele, também, precisou contar com o ajudador divino. As circunstâncias, suas ações e reações e a ação terapêutica de Deus, nos oferecem boa oportunidade de aprendizado.

Revisitando e refletindo sobre os acontecimentos vivenciados pelo profeta chegamos às seguintes lições de vida:

1. QUANDO O CENÁRIO SE APRESENTAR CAÓTICO, PERMANEÇA FIRME NO SENHOR E FAÇA A TUA PARTE!

Durante o ministério do profeta Elias, o cenário nacional se apresentava assim:

CENÁRIO POLÍTICO:

  • O reinado de Acabe e Jezabel, por 22 anos, com um péssimo governo (1Rs 16.29-30; 1Rs 21.25).
  • Prevalecia, na corte: injustiça, falsidade ideológica, associação para o crime, suborno, mentiras e assassinato de inocentes (1Rs 21.1-16).

CENÁRIO ECONÔMICO:

  • Momentos críticos, tempos de escassez e fome, resultado do castigo divino pela rebeldia do povo (1Rs 17; 18.5).

CENÁRIO RELIGIOSO:

  • Abandono de Deus, idolatria (1Rs 16.31-33; 21.26).
  • Perseguição religiosa (1Rs 18.4).
  • Apostasia geral (1Rs 19.10, 14).

Qualquer semelhança com o que está acontecendo em nossa nação pode não ser mera coincidência. Diante de um cenário como esse, há, pelos menos, três situações a se considerar; três papéis a desempenhar:

1ª) Ser protagonista ou responsável por ele, o que sem dúvida é o pior dos casos.

2ª) Ser omisso, quer por alienação da realidade ou por decisão consciente, deixando de ser uma agente de transformação, o que também é reprovável e inaceitável.

3º) Ser instrumento de Deus para lutar contra a injustiça e desordem, lutar para restabelecer a obediência à vontade de Deus aqui na terra. Sem dúvida, esse foi o papel desempenhado por Elias e que deve ser seguido pelos servos de Deus.

O cenário que se observa atualmente, principalmente em nosso país, não é muito diferente daquele, ou seja:

a) O descrédito com a classe política alcançou níveis alarmantes que colocam em dúvida a manutenção da ordem democrática. Além de muitos políticos buscarem seus próprios interesses pessoais e não os da sociedade, muitos deles estão fortemente engajados em desconstruir a ética Cristã. Discursam em favor de minorias, mas investem contra a família e os valores cristãos.

b) A quebra da confiança no governo e nas instituições; a falta de idoneidade, de princípios e de valores desestabiliza toda a economia e gera desemprego.

c) A prevaricação de líderes religiosos, neste início de século 21, muitos deles mercadejadores da Palavra de Deus, bem como o alinhamento com uma teologia liberal, desassociada das exigências de santidade apregoadas na Bíblia, tem gerado uma população evangélica que:

  • Não sabe no que crê, nem se interessa por estudar a Bíblia;
  • É descomprometida com Deus, com o evangelho, com a igreja e com o próximo;
  • Está mais disposta a receber do que em dar, em servir; portanto, consumista e individualista;
  • Está sempre tentando impor a sua vontade, pois não admite se submeter à liderança eclesiástica;
  • Está altamente comprometida com os usos e costumes mundanos que desagradam a Deus; focada em aproveitar, ao máximo, o aqui e agora.

2. QUANDO FAZEMOS A NOSSA PARTE, OS ADVERSÁRIOS SE LEVANTAM!

Elias não se acovardou; enfrentou e provocou a matança dos 450 profetas de Baal, no monte Carmelo (1Rs 18.17-40). Porém, após ser confrontado com a ameaça de morte decretada por Jezabel, temeu e fugiu. O que houve com Elias? Enfrentou 450 profetas idólatras e parece ter se desestabilizado psicológica e emocionalmente com uma mulher. Elias não era muito diferente de nós: “Elias era homem semelhante a nós, sujeito aos mesmos sentimentos,…” (Tg 5.17a). As vezes cansa combater o bom combate da fé, principalmente quando achamos que estamos sozinhos nesta empreitada de trabalhar em prol de uma igreja pura e sem mácula, quando nossos esforços não são compreendidos, nem aceitos.

2.1 Quando os adversários se levantam:

a) O instinto de preservação da vida aflora.

Diante do temor provocado pela ameaça de morte, Elias fugiu. Alguns textos bíblicos nos dão conta de que, nesta fuga, Elias se deslocou bastante:

1º) Do monte Carmelo à entrada de Jezreel.

Ele correu cerca de 27 Km, quase uma meia maratona, provavelmente para confirmar a boa notícia ao rei Acabe, de que os três anos e seis meses de seca se findaram (1Rs 18.44-46); Tg 5.17). Talvez ele achasse que com essa boa notícia poderia impressionar o rei, isto é, o morticínio dos profetas idólatras teria sido necessário para aplacar a ira divina e fazer cessar os tempos de seca. Entretanto, quando soube do ocorrido, a rainha Jezabel, uma mulher infernal, não entendeu dessa forma e decretou sua vingança (1Rs 19.1-2).

2º) De Jezreel à Berseba, cerca de 160Km (1Rs 19.3).

3º) De Berseba ao Monte Horebe (Sinai), o monte de Deus, cerca de 250Km (1Rs 19.8).

b) O estresse se estabelece.

Certamente Elias ficou estressado com o episódio do enfrentamento dos profetas de Baal (1Rs 18) e com a ameaça de Jezabel (1Rs 19.3). Estresse, segundo o Dr. Hans Selye, se traduz pela seguinte fórmula:

Estresse

O estresse conduz ao medo, à fuga, ao isolamento, à entrega, à depressão!

Geograficamente e psicologicamente, Elias desceu ao “fundo do poço”. Nesses 160 Km, (depois mais 250 Km), ele se dirigiu para o sul. Ali, no fundo do poço da sua depressão, ele pediu para si a morte (1Rs 19.4 – comp. Moisés: Nm 11.15; Jó: 6.9; 7.15). A depressão retira o ânimo de vida. Foi assim que ele chegou ao divã de Deus.

c) O toque de Deus se faz sentir.

“Deitou-se e dormiu debaixo do zimbro; eis que um anjo o tocou e lhe disse: Levanta-te e come.” (1Rs 19.5)

Em algum momento difícil da vida, você já foi tocado por um anjo? Que seres são esses anjos? A Bíblia diz: “Não são todos eles espíritos ministradores, enviados para serviço a favor dos que hão de herdar a salvação?” (Hb 1.14). Nessas horas, Deus pode até usar um ser angelical, literalmente falando, porém, muitas vezes, usa um anjo humano mesmo.

As quatro áreas que foram alvo do tratamento divino, são as seguintes:

1ª) Física

A primeira área a ser preservada ou restaurada é a física. O esgotamento emocional provoca a perda do apetite e, consequentemente a debilidade física. A primeira etapa do tratamento divino constituiu-se numa espécie de “coma induzido”: “Olhou ele e viu, junto à cabeceira, um pão cozido sobre pedras em brasa e uma botija de água. Comeu, bebeu e tornou a dormir.” (1Rs 19.6). Quando a etapa física é restaurada, Deus avança para a segunda etapa, a restauração mental e emocional.

2ª) Mental

“Voltou segunda vez o anjo do SENHOR, tocou-o e lhe disse: Levanta-te e come, porque o caminho te será sobremodo longo.  Levantou-se, pois, comeu e bebeu; e, com a força daquela comida, caminhou quarenta dias e quarenta noites até Horebe, o monte de Deus.” (1Rs 19.7-8)

A cura, da alma e da mente, é mais demorada. Elias estava passando por uma terrível crise existencial. Então, o psicólogo por excelência o levou para o seu monte e o deitou no seu divã para um tratamento intensivo. Iniciada a terapia, o questionamento divino convoca o profeta a uma reflexão interior quanto a Missão e Ação: “– Que fazes aqui, Elias?”. Elias abre seu coração diante do Senhor: “Ele respondeu: Tenho sido zeloso pelo SENHOR, Deus dos Exércitos, porque os filhos de Israel deixaram a tua aliança, derribaram os teus altares e mataram os teus profetas à espada; e eu fiquei só, e procuram tirar-me a vida.” (1Rs 19.10).  Sua resposta revela uma autoimagem muito generosa e uma imagem do outro muito rigorosa. Deus não lhe responde de pronto, mas avança para a próxima etapa do tratamento.

3ª) Espiritual

O psicólogo divino não refuta, imediatamente, a resposta do seu paciente. Ainda não era o momento. Ele sabia que Elias necessitava de uma nova visão do seu Deus. Jó também vivenciou essa experiência: “Eu te conhecia só de ouvir, mas agora os meus olhos te veem.”(Jó 42.5). Uma nova visão divina que o transportasse daquele cenário violento, destruidor e traumático da morte dos profetas idólatras (ventania, terremoto e fogo), para o cicio tranquilo e suave que revela um Deus amoroso e misericordioso, “o qual deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade.” (1Tm 2.4, comp. Lc 9.56). Após essa teofania – a visão de um Deus que tranquiliza o interior – o questionamento divino é renovado: “– Que fazes aqui, Elias?”. A resposta de Elias não se altera, então, o psicólogo divino avança para a próxima etapa; a reinserção social do profeta.

4ª) Social

A reinserção social começa com a ordem de retomada da missão: “vai, volta….” (1Rs 19.15). Elias era um homem solitário, lutando as lutas de Deus. Restaurado física, mental e espiritualmente era hora de prosseguir, ungindo dois reis, Hazael, rei sobre a Síria e Jeú, rei sobre Israel, bem como um profeta, Eliseu, para sucede-lo. Além disso, ele foi confrontado com a verdade de que não era o único instrumento nas mãos de Deus aqui na terra. Havia, ainda, 7000 em Israel que não se dobraram para cultuar a Baal (1Rs 19.18).

3. QUANDO DEUS SE LEVANTA, SUA OBRA CONTINUA!

Elias, que significa “Jeová é Deus”, foi usado por Deus para realizar cerca de 9 milagres. Agora Deus levanta Eliseu que significa “Deus é salvação” para sucedê-lo e realizar cerca de 11 milagres. A obra não para porque Deus levanta a quem quer, quando quer, pelo tempo que quer e para fazer o que ele quer.

Além de usá-lo para preparar o futuro, Deus quis e quer agregar à sua obra colaboradores com o perfil de Eliseu (1Rs 19.19-21):

Ocupados, mas dispostos a trocar ocupações menos nobres, por outras mais nobres.

Responsáveis e obedientes o suficiente para colocar a família no seu devido lugar.

Comprometidos com a sua nova missão, ao ponto de transformar recursos pessoais em benefício coletivo.

Conclusão:

Seja qual for o cenário, sejam quais forem as circunstâncias, “Sede fortes, e revigore-se o vosso coração, vós todos que esperais no SENHOR.” (Sl 31.24).

“Eis que Deus é o meu ajudador, o SENHOR é quem me sustenta a vida.” (Sl 54.4)

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