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Elias, no divã de Deus

Elias no divã de Deus

“Eis que Deus é o meu ajudador, o SENHOR é quem me sustenta a vida.” (Sl 54.4)

Introdução:

O Salmo 54 traduz a expressão de agonia de Davi, em tempos muito difíceis, quando se tem a convicção de que o único socorro possível é o que vem de cima, do Deus altíssimo: “Ó Deus, salva-me, pelo teu nome, e faze-me justiça, pelo teu poder. Escuta, ó Deus, a minha oração, dá ouvidos às palavras da minha boca.” (Sl 54.1-2).

Por mais tenebroso que possa parecer, não se pode deixar de afirmar que, cada ser humano, em algum momento de sua vida deverá vivenciar um ou vários desses tempos difíceis, quando parece ou se tem a certeza de que nenhuma ajuda humana poderá socorrê-lo. Há situações que são complicadas, porém não tão aterradoras, como: a perda de um emprego, a desagregação ou abandono familiar, um imbróglio, que é aquele mal-entendido ou situação confusa em que nos envolveram, um acidente com pequenas sequelas ou uma doença temporária. Entretanto, há outras situações que parecem, ou mesmo, tem-se a certeza de que fogem ao nosso controle, como: estar na mira de uma arma em um assalto, uma doença degenerativa incurável, uma sequela grave de um acidente, uma catástrofe ambiental, a perda repentina (ou não) de alguém muito querido, uma cirurgia de altíssimo risco ou quando estamos diante da nossa própria morte.

Como diz o hino (Onde tudo é feliz) de William Edwin Entzminger: “É de provação a nossa vida aqui? Vamo-la deixar um dia;”. Entretanto, enquanto esse dia não chega é confortador pensar que Deus é o nosso ajudador de todas as horas. Deixando Davi de lado, será edificante refletir sobre outro personagem bíblico – Elias  (1Rs 19). Esse extraordinário profeta de Deus, instrumento do Senhor para a realização de tantos milagres, também vivenciou momentos amargos, pois nenhum ser humano está isento destes. Ele, também, precisou contar com o ajudador divino. As circunstâncias, suas ações e reações e a ação terapêutica de Deus, nos oferecem boa oportunidade de aprendizado.

Revisitando e refletindo sobre os acontecimentos vivenciados pelo profeta chegamos às seguintes lições de vida:

1. QUANDO O CENÁRIO SE APRESENTAR CAÓTICO, PERMANEÇA FIRME NO SENHOR E FAÇA A TUA PARTE!

Durante o ministério do profeta Elias, o cenário nacional se apresentava assim:

CENÁRIO POLÍTICO:

  • O reinado de Acabe e Jezabel, por 22 anos, com um péssimo governo (1Rs 16.29-30; 1Rs 21.25).
  • Prevalecia, na corte: injustiça, falsidade ideológica, associação para o crime, suborno, mentiras e assassinato de inocentes (1Rs 21.1-16).

CENÁRIO ECONÔMICO:

  • Momentos críticos, tempos de escassez e fome, resultado do castigo divino pela rebeldia do povo (1Rs 17; 18.5).

CENÁRIO RELIGIOSO:

  • Abandono de Deus, idolatria (1Rs 16.31-33; 21.26).
  • Perseguição religiosa (1Rs 18.4).
  • Apostasia geral (1Rs 19.10, 14).

Qualquer semelhança com o que está acontecendo em nossa nação pode não ser mera coincidência. Diante de um cenário como esse, há, pelos menos, três situações a se considerar; três papéis a desempenhar:

1ª) Ser protagonista ou responsável por ele, o que sem dúvida é o pior dos casos.

2ª) Ser omisso, quer por alienação da realidade ou por decisão consciente, deixando de ser uma agente de transformação, o que também é reprovável e inaceitável.

3º) Ser instrumento de Deus para lutar contra a injustiça e desordem, lutar para restabelecer a obediência à vontade de Deus aqui na terra. Sem dúvida, esse foi o papel desempenhado por Elias e que deve ser seguido pelos servos de Deus.

O cenário que se observa atualmente, principalmente em nosso país, não é muito diferente daquele, ou seja:

a) O descrédito com a classe política alcançou níveis alarmantes que colocam em dúvida a manutenção da ordem democrática. Além de muitos políticos buscarem seus próprios interesses pessoais e não os da sociedade, muitos deles estão fortemente engajados em desconstruir a ética Cristã. Discursam em favor de minorias, mas investem contra a família e os valores cristãos.

b) A quebra da confiança no governo e nas instituições; a falta de idoneidade, de princípios e de valores desestabiliza toda a economia e gera desemprego.

c) A prevaricação de líderes religiosos, neste início de século 21, muitos deles mercadejadores da Palavra de Deus, bem como o alinhamento com uma teologia liberal, desassociada das exigências de santidade apregoadas na Bíblia, tem gerado uma população evangélica que:

  • Não sabe no que crê, nem se interessa por estudar a Bíblia;
  • É descomprometida com Deus, com o evangelho, com a igreja e com o próximo;
  • Está mais disposta a receber do que em dar, em servir; portanto, consumista e individualista;
  • Está sempre tentando impor a sua vontade, pois não admite se submeter à liderança eclesiástica;
  • Está altamente comprometida com os usos e costumes mundanos que desagradam a Deus; focada em aproveitar, ao máximo, o aqui e agora.

2. QUANDO FAZEMOS A NOSSA PARTE, OS ADVERSÁRIOS SE LEVANTAM!

Elias não se acovardou; enfrentou e provocou a matança dos 450 profetas de Baal, no monte Carmelo (1Rs 18.17-40). Porém, após ser confrontado com a ameaça de morte decretada por Jezabel, temeu e fugiu. O que houve com Elias? Enfrentou 450 profetas idólatras e parece ter se desestabilizado psicológica e emocionalmente com uma mulher. Elias não era muito diferente de nós: “Elias era homem semelhante a nós, sujeito aos mesmos sentimentos,…” (Tg 5.17a). As vezes cansa combater o bom combate da fé, principalmente quando achamos que estamos sozinhos nesta empreitada de trabalhar em prol de uma igreja pura e sem mácula, quando nossos esforços não são compreendidos, nem aceitos.

2.1 Quando os adversários se levantam:

a) O instinto de preservação da vida aflora.

Diante do temor provocado pela ameaça de morte, Elias fugiu. Alguns textos bíblicos nos dão conta de que, nesta fuga, Elias se deslocou bastante:

1º) Do monte Carmelo à entrada de Jezreel.

Ele correu cerca de 27 Km, quase uma meia maratona, provavelmente para confirmar a boa notícia ao rei Acabe, de que os três anos e seis meses de seca se findaram (1Rs 18.44-46); Tg 5.17). Talvez ele achasse que com essa boa notícia poderia impressionar o rei, isto é, o morticínio dos profetas idólatras teria sido necessário para aplacar a ira divina e fazer cessar os tempos de seca. Entretanto, quando soube do ocorrido, a rainha Jezabel, uma mulher infernal, não entendeu dessa forma e decretou sua vingança (1Rs 19.1-2).

2º) De Jezreel à Berseba, cerca de 160Km (1Rs 19.3).

3º) De Berseba ao Monte Horebe (Sinai), o monte de Deus, cerca de 250Km (1Rs 19.8).

b) O estresse se estabelece.

Certamente Elias ficou estressado com o episódio do enfrentamento dos profetas de Baal (1Rs 18) e com a ameaça de Jezabel (1Rs 19.3). Estresse, segundo o Dr. Hans Selye, se traduz pela seguinte fórmula:

Estresse

O estresse conduz ao medo, à fuga, ao isolamento, à entrega, à depressão!

Geograficamente e psicologicamente, Elias desceu ao “fundo do poço”. Nesses 160 Km, (depois mais 250 Km), ele se dirigiu para o sul. Ali, no fundo do poço da sua depressão, ele pediu para si a morte (1Rs 19.4 – comp. Moisés: Nm 11.15; Jó: 6.9; 7.15). A depressão retira o ânimo de vida. Foi assim que ele chegou ao divã de Deus.

c) O toque de Deus se faz sentir.

“Deitou-se e dormiu debaixo do zimbro; eis que um anjo o tocou e lhe disse: Levanta-te e come.” (1Rs 19.5)

Em algum momento difícil da vida, você já foi tocado por um anjo? Que seres são esses anjos? A Bíblia diz: “Não são todos eles espíritos ministradores, enviados para serviço a favor dos que hão de herdar a salvação?” (Hb 1.14). Nessas horas, Deus pode até usar um ser angelical, literalmente falando, porém, muitas vezes, usa um anjo humano mesmo.

As quatro áreas que foram alvo do tratamento divino, são as seguintes:

1ª) Física

A primeira área a ser preservada ou restaurada é a física. O esgotamento emocional provoca a perda do apetite e, consequentemente a debilidade física. A primeira etapa do tratamento divino constituiu-se numa espécie de “coma induzido”: “Olhou ele e viu, junto à cabeceira, um pão cozido sobre pedras em brasa e uma botija de água. Comeu, bebeu e tornou a dormir.” (1Rs 19.6). Quando a etapa física é restaurada, Deus avança para a segunda etapa, a restauração mental e emocional.

2ª) Mental

“Voltou segunda vez o anjo do SENHOR, tocou-o e lhe disse: Levanta-te e come, porque o caminho te será sobremodo longo.  Levantou-se, pois, comeu e bebeu; e, com a força daquela comida, caminhou quarenta dias e quarenta noites até Horebe, o monte de Deus.” (1Rs 19.7-8)

A cura, da alma e da mente, é mais demorada. Elias estava passando por uma terrível crise existencial. Então, o psicólogo por excelência o levou para o seu monte e o deitou no seu divã para um tratamento intensivo. Iniciada a terapia, o questionamento divino convoca o profeta a uma reflexão interior quanto a Missão e Ação: “– Que fazes aqui, Elias?”. Elias abre seu coração diante do Senhor: “Ele respondeu: Tenho sido zeloso pelo SENHOR, Deus dos Exércitos, porque os filhos de Israel deixaram a tua aliança, derribaram os teus altares e mataram os teus profetas à espada; e eu fiquei só, e procuram tirar-me a vida.” (1Rs 19.10).  Sua resposta revela uma autoimagem muito generosa e uma imagem do outro muito rigorosa. Deus não lhe responde de pronto, mas avança para a próxima etapa do tratamento.

3ª) Espiritual

O psicólogo divino não refuta, imediatamente, a resposta do seu paciente. Ainda não era o momento. Ele sabia que Elias necessitava de uma nova visão do seu Deus. Jó também vivenciou essa experiência: “Eu te conhecia só de ouvir, mas agora os meus olhos te veem.”(Jó 42.5). Uma nova visão divina que o transportasse daquele cenário violento, destruidor e traumático da morte dos profetas idólatras (ventania, terremoto e fogo), para o cicio tranquilo e suave que revela um Deus amoroso e misericordioso, “o qual deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade.” (1Tm 2.4, comp. Lc 9.56). Após essa teofania – a visão de um Deus que tranquiliza o interior – o questionamento divino é renovado: “– Que fazes aqui, Elias?”. A resposta de Elias não se altera, então, o psicólogo divino avança para a próxima etapa; a reinserção social do profeta.

4ª) Social

A reinserção social começa com a ordem de retomada da missão: “vai, volta….” (1Rs 19.15). Elias era um homem solitário, lutando as lutas de Deus. Restaurado física, mental e espiritualmente era hora de prosseguir, ungindo dois reis, Hazael, rei sobre a Síria e Jeú, rei sobre Israel, bem como um profeta, Eliseu, para sucede-lo. Além disso, ele foi confrontado com a verdade de que não era o único instrumento nas mãos de Deus aqui na terra. Havia, ainda, 7000 em Israel que não se dobraram para cultuar a Baal (1Rs 19.18).

3. QUANDO DEUS SE LEVANTA, SUA OBRA CONTINUA!

Elias, que significa “Jeová é Deus”, foi usado por Deus para realizar cerca de 9 milagres. Agora Deus levanta Eliseu que significa “Deus é salvação” para sucedê-lo e realizar cerca de 11 milagres. A obra não para porque Deus levanta a quem quer, quando quer, pelo tempo que quer e para fazer o que ele quer.

Além de usá-lo para preparar o futuro, Deus quis e quer agregar à sua obra colaboradores com o perfil de Eliseu (1Rs 19.19-21):

Ocupados, mas dispostos a trocar ocupações menos nobres, por outras mais nobres.

Responsáveis e obedientes o suficiente para colocar a família no seu devido lugar.

Comprometidos com a sua nova missão, ao ponto de transformar recursos pessoais em benefício coletivo.

Conclusão:

Seja qual for o cenário, sejam quais forem as circunstâncias, “Sede fortes, e revigore-se o vosso coração, vós todos que esperais no SENHOR.” (Sl 31.24).

“Eis que Deus é o meu ajudador, o SENHOR é quem me sustenta a vida.” (Sl 54.4)

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