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Archive for maio \15\America/Sao_Paulo 2017

A oração que Deus não quer ouvir

“Tu, pois, não intercedas por este povo, nem levantes por ele clamor ou oração, nem me importunes, porque eu não te ouvirei.” (Jr 7.16)

Introdução

Certamente este é um tema pouco comum. O mais comum, didático, lógico e apropriado é abordar os assuntos de uma forma positiva, e não negativa. Entretanto, eventualmente, tratar de um assunto, explorando aquilo que não deve ser feito, tem grande proveito, pois nos manterá mais atentos e vigilantes, inibindo ações e hábitos equivocados.

Algumas pessoas, novas convertidas ou mesmo cristãos mais antigos, sentem alguma dificuldade em orar. Acham que não sabem orar e que orar seria uma espécie de arte dominada por poucos. Entretanto, orar tem a simplicidade do ato de uma criança se dirigir aos pais e expressar alguma coisa; pedindo, agradecendo, ou simplesmente conversando. Em certa ocasião, Jesus, falando a respeito da oração, exemplificou usando a relação pais e filhos: “Ora, se vós, que sois maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai, que está nos céus, dará boas coisas aos que lhe pedirem?” (Mt 7.11). Da mesma forma que, muitas vezes, um filho não tem noção do que está pedindo aos pais, nós cristãos, filhos de Deus, também não oramos convenientemente. Felizmente, o Espírito Santo que em nós habita, entra em cena e faz aquilo que somente ele é capaz de fazer: “Também o Espírito, semelhantemente, nos assiste em nossa fraqueza; porque não sabemos orar como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós sobremaneira, com gemidos inexprimíveis. E aquele que sonda os corações sabe qual é a mente do Espírito, porque segundo a vontade de Deus é que ele intercede pelos santos.” (Rm 8.26-27; comp. Rm 8.34)

Se, por um lado, orar é tão simples, por outro tem lá suas condicionantes e especificidades. Não foi sem razão que um dos seus discípulos pediu a Jesus que lhes ensinasse a orar, a exemplo de João Batista que havia ensinado aos seus discípulos (Lc 11.1). E, este, é o tipo de aprendizado que leva toda a vida. A cada dia precisamos melhorar nosso conhecimento e prática da oração, através de uma maior intimidade com Deus e com sua Palavra.

Neste estudo, desenvolveremos o tema proposto, destacando alguns aspectos negativos que dizem respeito à pessoa que ora e, outros, à forma ou conteúdo da oração que Deus não quer ouvir.

Quem somos nós, simples mortais, para saber a oração que Deus quer ou não quer ouvir? Partindo da premissa de que Deus se revelou através do seu Filho Unigênito – Jesus Cristo – e da sua Palavra Escrita – a Bíblia – podemos, então, examinar as Escrituras Sagradas e buscar ali tais respostas. Seguindo esta linha, veremos, a seguir, de que tipos de pessoas Deus não quer ouvir a oração e quais orações ele rejeita. O assunto é vasto e fascinante; assim sendo, nos limitaremos a apenas alguns casos.

A) Orações que Deus não quer ouvir, por causa de QUEM ora:

1. Quando procede de um coração em rebeldia contra Deus (Jr 14.12)

“Quando jejuarem, não ouvirei o seu clamor e, quando trouxerem holocaustos e ofertas de manjares, não me agradarei deles; antes, eu os consumirei pela espada, pela fome e pela peste.”

Imagine você ouvir de Deus algo do tipo: – Não ore por fulano de tal porque eu não te ouvirei! Ou, – Não ore pela igreja tal porque eu não te ouvirei! Em certo momento da história do povo de Israel, o povo de Deus, Jeremias ouviu, da parte de Deus, algo assim, sem dúvida assustador (Jr 7.16). A razão da rejeição divina está claramente exposta: “Que é isso? Furtais e matais, cometeis adultério e jurais falsamente, queimais incenso a Baal e andais após outros deuses que não conheceis, e depois vindes, e vos pondes diante de mim nesta casa que se chama pelo meu nome, e dizeis: Estamos salvos; sim, só para continuardes a praticar estas abominações!” (Jr 7.9-10). Além de rejeitar a oração daquele povo rebelde, Deus proibiu Jeremias de interceder por ele.

Tem membro de igreja evangélica vivendo uma vida dupla; praticando toda a sorte de pecado e achando que pode cultuar e orar a Deus, confiando na suposta proteção de um templo ou de uma igreja. “O que desvia os ouvidos de ouvir a lei, até a sua oração será abominável” (Pv 28.9). Nosso Deus está com os ouvidos abertos para ouvir a confissão do mais vil pecador arrependido, como no caso do rei Acabe (1Rs 21.28-29), mas rejeita a oração e culto daqueles que banalizam e profanam o sagrado, andando de braços dados com o mundo e o pecado.

2. Quando procede de um coração soberbo e orgulhoso (Lc 18.9-14)

“O fariseu, posto em pé, orava de si para si mesmo, desta forma: Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros, nem ainda como este publicano;”

O jeito de ser de quem ora nunca está desatrelado daquilo que ele profere na sua oração. Deus sempre considera as duas coisas. Nesta parábola do fariseu e do publicano que subiram ao templo para orar, Jesus quis ensinar que aqueles que confiam no seu senso de justiça própria e nas suas obras, não são ouvidos por Deus. Aquele fariseu, zeloso da lei, orava de si para si mesmo (um círculo vicioso), como que para massagear o seu ego, exibindo suas qualidades e vangloriando-se das suas práticas religiosas (comp. Pv 27.2). Sua auto bajulação chega ao ponto de tributar gratidão a Deus por ser melhor do que os outros. Dizem que naquela época era comum se orar assim: “Bendito és tu, ó Senhor nosso Deus, rei do universo, que não me fizeste um gentio, …., um escravo, …., uma mulher, ….”. Certamente Deus não está disposto a ouvir orações de pessoas como esse fariseu. São orações que não chegam nem ao teto, quanto mais passar dele.

3. Quando procede de um coração hipócrita (Mt 6.5)

“E, quando orardes, não sereis como os hipócritas;…”

O que Jesus diz sobre os hipócritas (aqueles que manifestam fingidas virtudes, sentimentos bons, devoção religiosa, compaixão) parece ótimo à primeira vista: “gostam de orar”. Mas, infelizmente, não é da oração que eles gostam, nem do Deus a quem supostamente estão orando. Não, eles gostam de si mesmos e da oportunidade que a oração pública lhes dá de se exibirem, de fazerem seu marketing pessoal. O farisaísmo religioso não está morto. É possível ir à igreja pelos mesmos motivos errados que levavam o fariseu à sinagoga: não para adorar a Deus, mas para obter uma reputação de piedade (alguns políticos seguem essa linha). A hipocrisia nas igrejas prejudica a imagem dos crentes na sociedade. Quanto aos hipócritas, eles podem até enganar e confundir a muitos, mas não a Deus.

B) Orações que Deus não quer ouvir, por causa da SUA FORMA ou CONTEÚDO:

1. Quando há vãs repetições (Mt 6.7-8)

“E, orando, não useis de vãs repetições, como os gentios; porque presumem que pelo seu muito falar serão ouvidos.”

As “vãs repetições”, a falta de significado, a repetição mecânica são erros a serem evitados nas orações. A repetição mecânica é um abuso da própria natureza da oração, rebaixando-a de um real e pessoal acesso a Deus a uma mera recitação de palavras. Jesus não podia estar proibindo toda repetição, pois ele mesmo repetiu sua oração, notavelmente no Getsêmani, quando “foi orar pela terceira vez, repetindo as mesmas palavras” (Mt 26.39, 42 e 44). O conteúdo da oração é espontâneo, livre de qualquer formalidade e expressões decoradas. Deve nascer, emergir de um coração sincero, que deseja expressar diante de Deus suas próprias necessidades, as de outros, bem como agradecer pelas dádivas recebidas e, ainda, adorar ao Pai, na beleza da sua santidade.

Entenda-se como “vãs repetições” as repetições autômatas de palavras que só venham dos lábios e não do pensamento ou do coração, com a intenção de se fazer ouvir pela quantidade. Dependendo da forma como é usada até a chamada oração do “Pai Nosso”, ensinada por Jesus, pode se tornar uma vã repetição. Muitas rezas não têm mais valor do que as rodas usadas na Índia, sobre as quais estão escritas as orações e depois são giradas, horas a fio, para apresentá-las sem cessar a Deus! O mencionar de um assunto diante de Deus por repetidas vezes, em virtude da grande aflição que o problema tem trazido à nossa alma, não se constitui, de forma alguma, em vã repetição. Mas, também, é igualmente possível usar “palavras vazias” quando se escorrega para o “jargão religioso” enquanto a mente vagueia.

2. Quando o propósito é equivocado (Tg 4.3)

“pedis e não recebeis, porque pedis mal, para esbanjardes em vossos prazeres.”

Se o Filho de Deus se esvaziou da sua glória para viver como servo e para dar a sua vida para salvar o pecador, este pecador agora salvo, irá orar a Deus pedindo determinadas coisas e recursos para esbanjar nos prazeres efêmeros desta vida? Como pode uma nova criatura em Cristo fomentar sua ganância e investir na carnalidade? Não é pecado ser rico, nem buscar a prosperidade, o bem-estar e a boa saúde (3Jo 2). O que não se pode é colocar nisso o coração, tirando o foco da nossa verdadeira missão e propósito neste mundo. Sigamos a recomendação do nosso Mestre: “buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas.” (Mt 6.33)

3. Quando Deus já tenha determinado algo diferente (2Co 12.7-9)

“Por causa disto, três vezes pedi ao Senhor que o afastasse de mim. Então, ele me disse: A minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza….”

Quando Deus determinou, pela boca dos seus profetas, que Israel seria levado cativo para a Babilônia e ali ficaria por setenta anos (Jr 29.10; 2Cr 36.20-21), não havia mais abertura para Deus ouvir qualquer oração que alterasse essa sua soberana e explícita vontade. Quando o apóstolo Paulo rogou ao Senhor três vezes, para que Deus afastasse dele o espinho na carne e o Senhor não o quis atender, também não havia mais abertura para Deus ouvir qualquer oração que alterasse essa sua soberana e explícita vontade.

Deus declarou que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que o amam, daqueles que são chamados segundo o seu propósito (Rm 8.28). Quando estamos enfrentando determinadas adversidades, somos levados a rogar a Deus que abrevie esse tempo difícil, o que é natural. Entretanto, mais importante do que multiplicar as orações ou não entrar em desespero é ter paciência e aprender a descansar em Deus e em sua soberana vontade, que é boa, agradável e perfeita (Rm 12.2). Certamente isso não é tarefa fácil! Precisamos entender que, muitas vezes, Deus usa determinadas situações para nos aperfeiçoar, nos fazer amadurecer na fé, e, isso leva algum tempo. O vaso precisa estar nas mãos do oleiro até que esteja pronto.

4. Quando visa o mal do outro (Lc 9.51-56)

“… Senhor, queres que mandemos descer fogo do céu para os consumir?”

A oração imprecatória – aquela que suplica o castigo divino para o outro – não soa bem aos ouvidos cristãos. Entretanto, em muitos Salmos e textos do Antigo Testamento (AT) há um tom de imprecação. Diante da maldade, da opressão, da violência ou da injustiça, eles não só clamavam ao Senhor por suas vidas, mas também pediam a Deus que fizesse cair sobre os seus inimigos os piores males. Assim, se unem numa mesma oração, as súplicas mais ardentes e as mais violentas imprecações (Sl 58.6-11; 83.9-18; 109.6-19; 137.7-9). De fato, na época do AT, naquele contexto, prevalecia no âmbito do povo de Israel o conceito de que a obediência a Deus e aos seus mandamentos, deveria ser recompensada na vida presente, com longevidade e prosperidade; enquanto os transgressores da lei mosaica (judeus) e os ímpios (pagãos) deveriam receber o seu justo castigo o quanto antes, para que ficasse evidente que há um Deus vivo e presente, retribuindo a cada um conforme as suas ações (Sl 7.9; 37.28; 75.10; 58.11).

Diante da recusa dos samaritanos em hospedar a Jesus e sua comitiva em sua aldeia, Tiago e João concluíram, apressadamente, que era o caso de destruir a todos esses indivíduos insensíveis. A resposta de Jesus revela e reafirma a vontade divina de salvar, e não de destruir, as almas humanas. Diante de determinadas situações perversas, protagonizadas por pessoas de índole maligna, da sociedade ou até mesmo participantes dos arraiais evangélicos, podem até passar pela mente de alguém pensamentos semelhantes aos destes apóstolos. A oração que pede a Deus para “pesar sua mão” sobre alguém é do tipo que Deus não quer ouvir. Por maior que seja o mal praticado contra nós (ou contra outros), como cristãos, o que nos resta a fazer, em termos de oração, é entregar nossa causa nas mãos de Deus. É claro que, dependendo do caso, a justiça dos homens precisa ser envolvida.

Conclusão

Enfim, poderíamos mencionar tantos outros casos, como, por exemplo, aquelas orações que dão ordens a Deus, ou que usam expressões desrespeitosas ou que não se submetem à sua vontade etc. O importante é que estejamos atentos a todos os aspectos que envolvem nosso ser, isto é, o que somos e o que sentimos quando buscamos a Deus em oração. Além disso, precisamos ter cuidado com o que proferimos em oração, para não cometermos os erros acima expostos.

Nosso papel na Santificação

“Assim, pois, amados meus, como sempre obedecestes, não só na minha presença, porém, muito mais agora, na minha ausência, desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor; porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade. Fazei tudo sem murmurações nem contendas, para que vos torneis irrepreensíveis e sinceros, filhos de Deus inculpáveis no meio de uma geração pervertida e corrupta, na qual resplandeceis como luzeiros no mundo, preservando a palavra da vida, para que, no Dia de Cristo, eu me glorie de que não corri em vão, nem me esforcei inutilmente.” (Fp 2.12-16)

No texto introdutório de Filipenses 2.12-16, há alguns elementos interessantes:

1) A salvação precisa ser desenvolvida

“… desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor;”(Fp 2.12)

Antes de tudo, é importante ressaltar que a salvação é um estado, proporcionado por uma obra realizada exclusivamente por Deus, em Cristo, na cruz do Calvário. Ou o ser humano está salvo ou está perdido. Se está perdido, enquanto estiver vivo poderá ser alcançado por essa obra redentora de Cristo e tornar-se um salvo. Uma vez salvo, salvo para sempre, na visão da teologia reformada calvinista.

Na bíblia, a pessoa salva por Cristo é considerada nascida de novo, regenerada. Então, tal qual um novo ser experimenta um processo biológico de desenvolvimento (físico, mental, emocional, social etc), o novo filho de Deus precisa desenvolver-se nesse novo estado. Caso contrário, será um eterno recém-nascido (1Co 3.1-2).  No texto, está explicito que os salvos devem realizar essa importante tarefa – “desenvolvei”.

2) Deus tem um papel relevante nesse processo

“porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade.”(Fp 2.13)

Se, no versículo anterior, parecia que a tarefa seria realizada exclusivamente pelo crente salvo; agora, o apóstolo revela que Deus participa efetivamente nesse processo. Ele age, tanto no infundir no salvo, o querer fazer, quanto na execução. Afinal, não poderia ser diferente. Se o Espírito de Deus habita nele, este mesmo Espírito irá sempre impulsioná-lo a agradar a Deus e a fazer a sua vontade.

Portanto, esse desenvolvimento da salvação, que inclui, ou até mesmo se confunde com o processo de santificação, é realizado através de uma bela parceria entre Deus e o salvo!

Santificação – Não agir ou agir, eis a questão!

“O quietismo é uma doutrina e prática espiritual cujas origens remontam ao século XVII e a figura mais representativa desta controvertida corrente da mística cristã, o sacerdote espanhol Miguel de Molinos. O quietismo se difundiu na Europa, especialmente na França, Itália e Espanha. Segundo a doutrina quietista, o fiel alcançaria a Deus mediante a oração contemplativa e a passividade da alma. No estado de quietude, a mente humana se torna inativa, já não apresenta vontade própria, mas permanece passiva, sendo Deus mesmo quem opera nela. Para os críticos do quietismo, ele reduz ou elimina por completo toda responsabilidade moral do ser humano.” (Wikipédia)

Se, por um lado, o quietismo leva a pessoa a um estado de reclusão e passividade, deixando tudo por conta de Deus, o pietismo se coloca no sentido do outro extremo. “O pietismo é um movimento oriundo do luteranismo que valoriza as experiências individuais do crente. Tal movimento surgiu no final do século XVII, como oposição à negligência da ortodoxia luterana para com a dimensão pessoal da religião, e teve seu auge entre 1650-1800.” (Wikipédia)

Nada acontece por acaso. No ápice da Idade Média (séculos 13 a 15), a Igreja Católica já havia acolhido e institucionalizado muitas crenças e práticas oriundas do paganismo e, muitas outras, estranhas à bíblia. A igreja estava deteriorada na sua essência. Então, a reforma aconteceu (século 16). Como era de se esperar, no período pós-reforma, principalmente no século 17, houve grande preocupação e interesse pelo rigor doutrinário – ortodoxia protestante. Era necessário produzir material contendo um novo posicionamento teológico para a igreja que emergia da reforma, lastreado na revelação bíblica. Certamente a ênfase e foco acentuados numa teologia que deveria se distinguir da teologia e tradição da igreja romana deixou alguma lacuna na prática da fé cristã. A ênfase na fidelidade doutrinária tirou um pouco o foco da piedade cristã. Surge, então, o movimento pietista alemão, também visto como “a fuga da ortodoxia morta”, cujo mentor e pioneiro é Philip Jacob Spener (1635-1705), de Confissão Luterana, conhecido pela sua obra Pia desideria (1676). “Em suas obras e comportamento Spener revela estar preocupado com a piedade prática dos cristãos, resgatando o sentido de uma experiência viva com Deus. Deste princípio fundamental, outros pontos parecem ser decorrentes:[1]

a) Sacerdócio universal dos crentes Todos os crentes devem participar dos serviços religiosos, ensinando e ajudando uns aos outros, sendo assíduos nos estudos bíblicos etc.
b) Cultivo da vida espiritual Leitura sistemática da bíblia, oração e abstinência – combate ao jogo, bebedeira, bailes e teatro, enfatizando a moderação nas vestes, na bebida e nos alimentos, bem como um comportamento cristão nos negócios, tendo o amor como parâmetro visível da piedade cristã.
c) Rigor na disciplina da igreja Santidade de vida: “Um comportamento santo contribui em muito para a conversão das pessoas, conforme o ensinamento de 1Pedro 3.12.”
d) Teologia com ênfase na vida prática Em detrimento da especulação.
e) A bíblia tem autoridade superior às Confissões Contudo, estas são relevantes, devendo ser ensinadas.
f) A experiência é o fundamento de toda certeza Por isso, apenas um cristão regenerado pode ser um verdadeiro teólogo e possuir um conhecimento real da verdade revelada. Entretanto, Deus fala a sua Palavra mesmo através dos ímpios.

O movimento pietista começou em 1670, quando Spener, a pedido de alguns irmãos, estabeleceu em sua casa, aos domingos e às quartas-feiras, um grupo de estudo da bíblia, oração e discussão do sermão do domingo anterior. Este trabalho, aparentemente despretensioso, proliferou grandemente, recebendo o nome de Collegia Pietatis, de onde proveio a denominação “Pietismo”. Parece que, com o passar do tempo, os Collegia Pietatis ganharam para os seus participantes o status de “igrejas dentro da igreja” (Ecclesiolae in ecclesia), tornando-se exclusivistas e cismáticos[2], fugindo ao propósito de sua criação. Por fim, o pietismo teria se esfacelado em seitas, dentro e fora da Alemanha. Entretanto, o pietismo deixou um legado interessante. Foi responsável pela fundação da Universidade de Halle, na Alemanha, que tornou-se um centro missionário, arrecadando fundos para as missões, bem como preparando missionários para enviá-los a diversas partes do mundo.

As ambivalências da fé cristã

“Um dos grandes desafios da igreja é viver de forma plena a integralidade da fé cristã: profundidade e simplicidade; erudição e piedade.” É preciso conhecer a doutrina que abraçamos, mas também praticá-la: “Paulo, servo de Deus e apóstolo de Jesus Cristo, para promover a fé que é dos eleitos de Deus e o pleno conhecimento da verdade segundo a piedade, na esperança da vida eterna que o Deus que não pode mentir prometeu antes dos tempos eternos.” (Tt 1.1-2). Na vida cristã, na eclesiologia e na teologia temos alguns permanentes confrontos:

Teoria x Prática

Saber x Fazer

Razão x Emoção (emocionalismo exagerado)

Bíblia x Experiência (mística individual)

Fidelidade doutrinária x Piedade cristã

Assentimento intelectual x Fé

Intelectualismo x Misticismo

Ortodoxia x Ortopraxia

Ascetismo[3] x Materialismo

Monasticismo[4] x Mundanismo

Por falar em monasticismo, outro aspecto a se considerar é a diferença entre separar-se e isolar-se. Santificação tem a ver com separação ou com isolamento? Qual o exemplo que Jesus nos deixou? O que a bíblia nos ensina?

Inicialmente é preciso deixar claro que o monasticismo não tem base bíblica. Como ser sal da terra e luz do mundo se nos isolarmos dele? No seu viver diário, no meio do povo, Jesus nos deu o exemplo do que significa estar no mundo sem ser do mundo.

Houve uma época, nem tão distante assim, em que o verdadeiro cristão deveria se distinguir do não cristão – principalmente as mulheres – em suas vestimentas, não usando de pinturas (unhas, lábios, cabelos etc), no linguajar, não frequentando determinados lugares, não participando de determinadas festas (carnaval, festa junina etc), não fumando, não consumindo bebida alcoólica etc. Era uma santidade exteriorizada e estereotipada (clichê), para ser vista. A bíblia não se omite em relação a como se deve trajar e se portar em público. O recomendado sempre foi a decência e moderação, evitando-se a ostentação: “Quero, portanto, que os varões orem em todo lugar, levantando mãos santas, sem ira e sem animosidade. Da mesma sorte, que as mulheres, em traje decente, se ataviem com modéstia e bom senso, não com cabeleira frisada e com ouro, ou pérolas, ou vestuário dispendioso, porém com boas obras (como é próprio às mulheres que professam ser piedosas).”(1Tm 2.8-10). Sem dúvida, o ensino bíblico traz orientação quanto a aspectos exteriores, porém destaca a santidade interior, a que é do coração: “Não seja o adorno da esposa o que é exterior, como frisado de cabelos, adereços de ouro, aparato de vestuário; seja, porém, o homem interior do coração, unido ao incorruptível trajo de um espírito manso e tranquilo, que é de grande valor diante de Deus.” (1Pe 3.3-4). Tudo o que a igreja não precisa e não deve ser é um povo esquisito e alienado, isolado da sociedade em que vive.

Entretanto, há muito que aprender no que diz respeito a viver separado do mundanismo que nos cerca. Tem muito “agente secreto de Deus” por aí. Você convive com ele na escola ou no trabalho durante anos e não percebe que se trata de um crente. Não difere em nada dos demais. Tem muito chamado crente com um pé na igreja e o outro no mundo. Estão muito mais empenhados em curtir as trevas do que ser sal da terra e luz do mundo! Os outros estão vendo Cristo em você? O Espírito Santo tem encontrado espaço para agir em e através de você? Ele é o Senhor da tua vida ou um hóspede incômodo, vivendo num cantinho reservado?

Em termos de educação familiar, mais importante do que proibir os filhos de fazer ou participar de determinadas coisas é ensiná-los a fazer boas escolhas e a tomar boas decisões. Quando você chega a um bar há inúmeros itens que você pode pedir. Você pode pedir um maço de cigarro, uma dose de cachaça; mas, também, um cafezinho, um copo de leite ou um salgado. Quando você liga uma TV, ou pretende ir ao cinema ou teatro, não é muito diferente; encontrará boas e más opções. Na vida temos muitas opções de escolha, o importante é saber tomar boas decisões, que possam ser bênção e não maldição. Jesus disse, em certa ocasião: “Entrai pela porta estreita (larga é a porta, e espaçoso, o caminho que conduz para a perdição, e são muitos os que entram por ela), porque estreita é a porta, e apertado, o caminho que conduz para a vida, e são poucos os que acertam com ela.” (Mt 7.13-14)

Consideremos, agora, quatro aspectos quanto ao nosso papel na santificação.

1º) Santidade e Crescimento Espiritual

Todos sabemos como se percebe o crescimento de um ser humano. Então, como perceber o crescimento espiritual de uma pessoa? Jesus disse, referindo-se aos falsos profetas, mas é válido para avaliar qualquer pessoa: “Assim, pois, pelos seus frutos os conhecereis.” (Mt 7.20). Aquilo que somos é revelado aos outros através daquilo que falamos e fazemos. Quando o apóstolo Paulo se dirige aos crentes de Corinto (1Co 3.1-2) deixa claro que aquele que cresce espiritualmente torna-se um crente espiritual, amadurecido ou adulto na fé. Quem não cresce espiritualmente, continua uma criança na fé, um crente carnal, isto é, focado nas coisas materiais. É como alguém vivendo uma espécie de Síndrome de Peter Pan[5]:

“A Síndrome de Peter Pan foi aceita em psicologia desde a publicação de um livro escrito em 1983 The Peter Pan Syndrome: Men Who Have Never Grown Up ou “síndrome do homem que nunca cresce”, escrito pelo Dr. Dan Kiley.

No entanto não há evidências de que esta síndrome seja uma doença psicológica real, e por isso não está referenciada nos manuais de transtornos mentais. Não consta, por exemplo, no DSM IV (Diagnostic and Statistical Manual). Esta síndrome caracteriza-se por determinados comportamentos imaturos em aspectos comportamentais, psicológicos, sexuais ou sociais. Segundo Kiley, o indivíduo tende a apresentar rasgos de irresponsabilidade, rebeldia, cólera, narcisismo, dependência e negação ao envelhecimento. Geralmente crianças superprotegidas adquirem este distúrbio que podem levar para vida toda.” (Wikipédia)

2º) Santidade e Missão

Outra forma de perceber o progresso na santificação é através do engajamento do crente na missão a ele confiada por Deus. Somos parte do corpo de Cristo, temos todos um comissionamento geral (Ide por todo o mundo e pregai o evangelho), somos embaixadores de Cristo neste mundo (2Co 5.20). Além disso, como membros deste corpo, precisamos encontrar, aceitar e desempenhar a nossa função e missão específicas (Ef 4.15-16; comp. Rm 12.4-5; 1Co 12.18). Isso, certamente nos fará crescer em santidade.

3º) Santidade e Imitação a Cristo

No texto de Filipenses 2.5-8 o apóstolo Paulo descreve alguns elementos importantes vivenciados por Jesus, no cumprimento da sua missão, que nos servem de exemplo, no cumprimento da nossa missão e crescimento espiritual. É claro que há outras tantas virtudes recomendadas ao cristão.

a) Amor

“Tende em vós o mesmo sentimento que também houve em Cristo Jesus,” (v.5)

O carro chefe, o elemento primeiro e mais forte é o amor a Deus e ao próximo: “…tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim.” (Jo 13.1)

b) Humildade

“a si mesmo se humilhou” (v.8a)

Se Jesus, sendo Deus, tomou a forma humana, por que não podemos esvaziar-nos de nós mesmos e assumirmos a forma de servo?

c) Obediência

“tornando-se obediente até à morte” (v.8b; comp. Hb 5.8)

Na posição de Deus-encarnado, como ser humano, ele experimentou a prática da obediência. No caso, obediência extrema que lhe custaria a entrega da própria vida (Jo 10.18).

d) Sofrimento

“e morte de cruz.” (v.8c)

Não quer dizer, necessariamente, que tenhamos que enfrentar sofrimento e martírio. Entretanto, o ápice da santificação pode ser demonstrado quando nos dispomos a abrir mãos da própria vida por amor a Deus e à salvação dos perdidos: “Porém em nada considero a vida preciosa para mim mesmo, contanto que complete a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus para testemunhar o evangelho da graça de Deus.” (At 20.24)

4º) Santidade e dedicação

Quanto de nossa energia e de nosso tempo estamos dispostos a empregar no desenvolvimento da nossa salvação ou santificação? Em termos práticos isso implica em dedicação (dentre outros):

a) Na leitura diária da Bíblia.
b)Na prática diária e contínua da oração (orai sem cessar).
c) Na adoração e culto a Deus: com a vida, palavra e ações.
d) Na participação das atividades da igreja e do Reino.
e) No testemunho de Cristo e evangelização dos perdidos.
f) Na assistência aos necessitados (Tg 1.27 – a verdadeira religião).

Conclusão

Em que pese todas as circunstâncias desfavoráveis que possam surgir, inclusive o fato de vivermos na contracultura desse mundo, com o auxílio de Deus e do Espírito Santo que em nós habita, continuemos na nossa caminhada, fazendo como o apóstolo: “prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus.” (Fp 3.14)
…………………………………………..

[1] Revista Expressão – Lições da História da Igreja – Editora Cultura Cristã – pg 8.

[2] O cisma é uma separação de uma pessoa ou grupo de pessoas do seio de uma organização ou movimento, geralmente religioso.

[3] Ascetismo é uma doutrina filosófica que defende a abstenção dos prazeres físicos e psicológicos, acreditando ser o caminho para atingir a perfeição e equilíbrio moral e espiritual.

[4] Monasticismo (do grego monachos, uma pessoa solitária) é a prática da abdicação dos objetivos comuns dos homens em prol da prática religiosa. Várias religiões têm elementos monásticos, embora usando expressões diferentes: budismo, cristianismo, hinduísmo e islamismo. Assim, os indivíduos que praticam o monasticismo são classificados como monges (no caso dos homens) e monjas (no caso das mulheres). Ambos podem ser referidos como monásticos e, por norma, vivem na chamada clausura monástica. É uma forma de ascetismo organizado.

[5] Peter Pan é um personagem criado por J. M. Barrie para sua notória peça de teatro intitulada Peter and Wendy, que originou um livro homônimo para crianças publicado em 1911, e de várias adaptações destes para o cinema. O personagem é um pequeno rapaz que se recusa a crescer e que passa a vida a ter aventuras mágicas. James Matthew Barrie, mais conhecido simplesmente como J. M. Barrie, inventou Peter Pan quando contava histórias aos filhos da sua amiga Sylvia Liewelyn Davies, os Liewelyn Davies boys, com quem mantinha uma relação de amizade muito especial. O nome provém de duas fontes: Peter Liewelyn Davies, o mais novo dos rapazes naquela época e de Pan, o deus grego das florestas. (Wikipédia)


Nota: esboço pessoal de aula, preparado por mim, para facilitar a ministração da Aula 4 (Nosso papel na santificação) – Módulo 1 – EBD Catedral 2017, de modo a atender a temática proposta no material elaborado por colaboradores para os alunos.

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