A Transfiguração de Jesus

(Marcos 9.2-13; Mateus 17.1-13; Lucas 9.28-36)

Introdução

A transfiguração de Jesus é um evento narrado nos três evangelhos sinóticos – Mateus 17.1-13, Marcos 9.2-13 e Lucas 9.28-36 – com muitos detalhes semelhantes, mas algumas pequenas diferenças. A palavra “transfiguração” vem do verbo “transfigurar”, que significa mudar de forma ou aparência, especialmente de maneira gloriosa.

No texto original, em Mateus 17.2 e Marcos 9.2, é usada a palavra grega μετεμορφώθη (metemorphothe), de onde vem a palavra “metamorfose”. Significa literalmente: “foi transformado” ou “foi mudado de forma”. Em Lucas 9.29 não foi usada a palavra μετεμορφώθη (metemorphothe, “transfigurou-se”), como em Mateus e Marcos. Em vez disso, Lucas descreve o evento assim: “το ειδος του προσωπου αυτου ετερον“a aparência do seu rosto se tornou outra”, ou seja, mudou, foi alterada. Sendo ειδος (eidos) = aparência, forma; e, ετερον (heteron) = outro, diferente.

Enfim, Jesus não deixou de ser quem era, mas revelou sua glória divina oculta. A transfiguração ofereceu aos três discípulos uma manifestação visível de sua natureza celestial, uma antevisão da exaltação e glória futura que ele teria após a ressurreição, na vinda do reino.

Tal revelação impactou profundamente aqueles discípulos, sendo que Pedro, que estava presente na transfiguração, testemunha o evento da seguinte forma: “Porque não vos demos a conhecer o poder e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo seguindo fábulas engenhosamente inventadas, mas nós mesmos fomos testemunhas oculares da sua majestade,  pois ele recebeu, da parte de Deus Pai, honra e glória, quando pela Glória Excelsa lhe foi enviada a seguinte voz: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo. Ora, esta voz, vinda do céu, nós a ouvimos quando estávamos com ele no monte santo.” (2Pe 1.16-18). João, o outro discípulo ali presente declarou: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai.” (Jo 1.14). Ele não relata diretamente no seu evangelho o evento da transfiguração, mas acredita-se que essa “glória” aqui mencionada pode incluir a experiência vivida por ele no monte.

1. A ocasião, os convidados, o lugar e o propósito

2a Seis dias depois, tomou Jesus consigo a Pedro, Tiago e João e levou-os sós, à parte, a um alto monte.(Mc 9)
1 Seis dias depois, tomou Jesus consigo a Pedro e aos irmãos Tiago e João e os levou, em particular, a um alto monte.(Mt 17)
28 Cerca de oito dias depois de proferidas estas palavras, tomando consigo a Pedro, João e Tiago, subiu ao monte com o propósito de orar.(Lc 9)

Quanto a ocasião, a transfiguração aconteceu a menos de 9 meses da crucificação, num tempo do ministério de Jesus denominado pelos estudiosos como a “época das retiradas” – um período de instrução especial aos doze discípulos. Mateus e Marcos nos dão conta de a transfiguração ter ocorrido 6 dias após um evento anterior, enquanto Lucas menciona um tempo aproximado de 8 dias “de proferidas estas palavras”. Os evangelhos sinóticos são unânimes em registrar os três eventos antecedentes que, do mais antigo para o mais recente, são:

1º) A CONFISSÃO DE PEDRO (Mc 8.27-30; Mt 16.13-20; Lc 9.18-21).
2º) PREDIÇÃO DA PAIXÃO (Mc 8.31-33; Lc 9.22; Mt 16.21-23).
3º) O PREÇO DO DISCIPULADO (Mc 8.34-9.1; Mt 16.24-28; Lc 9.23-27).

Jesus estava caminhando para a reta final do seu ministério e consumação da sua missão. Foi a primeira das três vezes em que Jesus revelou claramente o que estava para a acontecer – sua paixão e morte. Tempos difíceis viriam para os seus seguidores; havia um preço a pagar pelo discipulado. Assim, uma revelação especial e gloriosa da sua pessoa e divindade era muito bem-vinda!

Os convidados e acompanhantes eram aqueles que faziam parte do círculo de amigos íntimos de Jesus. Naquela ocasião que Jesus e os seus discípulos chegaram à casa de Jairo para curar sua filhinha ele distingue os que iriam com ele ao encontro da menina enferma, agora já falecida; apenas Pedro e os irmãos Tiago e João (Mc 5.37; Lc 8.51). Isso é ratificado aqui no relato da transfiguração de Jesus, num momento da sua glorificação (Mc 9.2; Mt 17.1; Lc 9.28) e, ainda,  no Getsêmani, num momento de intensa agonia e angústia (Mc 14.33).

Os três evangelhos mencionam que Jesus levou Pedro, Tiago e João a um “alto monte” ou “monte”, sem nomeá-lo. Porém, algumas tradições e estudiosos sugerem os seguintes locais prováveis: Monte Tabor (hipótese tradicional), localizado ao Sul da Galileia, próximo a Nazaré, com altura aproximada de 580 metros, segundo a tradição cristã desde o século III. Monte Hermom (hipótese moderna), localizado ao norte da Galileia, perto de Cesareia de Filipe, com altura aproximada de 2.800 metros (bem mais alto). Fica próximo ao local onde Jesus estivera com os discípulos dias antes (Mc 8.27), o que encaixa no contexto geográfico da narrativa.

Quanto ao propósito, apenas o evangelista Lucas expressa que era o de orar. Além desta ocorrência, há alguns registros de Jesus subindo ao monte para orar: (i) Antes de escolher os doze apóstolos, no início do seu ministério, sozinho, a noite inteira (Lc 6.12-13); (ii) Após a multiplicação dos pães, sozinho, ao cair da tarde (Mt 14.23; Mc 6.46; Jo 6.15); (iii) No Getsêmani (Monte das Oliveiras), com os discípulos, Jesus ora com grande angústia antes de sua prisão (Mt 26.36-44; Mc 14.32-39; Lc 22.39-46). O costume de Jesus era se afastar das multidões para ter um tempo a sós com o Pai, às vezes em montes, outras em desertos (Lc 5.16). Além desse propósito podemos acrescentar que Jesus já sabia e tinha outros propósitos em tudo o que estava para acontecer ali.  

2. O fenômeno sobrenatural

2b Foi transfigurado diante deles; (Mc 9)
3  as suas vestes tornaram-se resplandecentes e sobremodo brancas, como nenhum lavandeiro na terra as poderia alvejar. (Mc 9)
2  E foi transfigurado diante deles; o seu rosto resplandecia como o sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz. (Mt 17)
29  E aconteceu que, enquanto ele orava, a aparência do seu rosto se transfigurou e suas vestes resplandeceram de brancura. (Lc 9)

Naquele monte, em algum momento, algo extraordinário começou a acontecer com o rosto e as vestes de Jesus que resplandeceram. Apenas Lucas registra que o fenômeno aconteceu enquanto Jesus orava. Na Bíblia, a luz intensa ou clarão sobrenatural, geralmente acompanha a manifestação da presença de Deus, de anjos ou de momentos de revelação espiritual. Essa luz simboliza santidade, glória, pureza e poder. Alguns registros bíblicos de clarão ou luz intensa no contato entre o divino e o humano são: Moisés e a sarça ardente (Êx 3.2-4); Moisés no Monte Sinai, na entrega da lei, com trovões e relâmpagos (Êx 19.16-18; 24.17); Após estar com Deus, no monte, o rosto de Moisés emite luz visível, a ponto de o povo ter medo de se aproximar dele (Êx 34.29-30); Anjos, na ressurreição de Jesus (Mt 28.3; Lc 24.4); Aparição de Jesus a Saulo (Paulo) (At 9.3; 22.6; 26.13); e, luz intensa acompanha a revelação celestial e o trono de Deus. A glória divina substitui qualquer outra fonte de luz (Ez 1.27-28; Ap 1.14-16; 4.3-5; 21.23).

3. As aparições e interações

4  Apareceu-lhes Elias com Moisés, e estavam falando com Jesus. (Mc 9)
3  E eis que lhes apareceram Moisés e Elias, falando com ele. (Mt 17)
30  Eis que dois varões falavam com ele: Moisés e Elias, (Lc 9)
31  os quais apareceram em glória e falavam da sua partida, que ele estava para cumprir em Jerusalém. (Lc 9)
32  Pedro e seus companheiros achavam-se premidos de sono; mas, conservando-se acordados, viram a sua glória e os dois varões que com ele estavam. (Lc 9)

No monte da transfiguração, Elias e Moisés apareceram e falavam com Jesus (Mc 9.2-8; Mt 17.1-8; Lc 9.28-35). Como Pedro, Tiago e João identificaram aqueles dois varões como sendo Elias e Moisés não nos é revelado no registro bíblico. Podemos supor pelo menos três hipóteses: a) Deus mesmo lhes revelou; b) Jesus lhes revelou; ou, c) Eles ouviram a citação dos nomes de Elias e Moisés, na saudação ou em algum momento da conversa.

Quanto a Elias, que foi trasladado, não passando pela morte, teria ele recebido um corpo glorificado? E, quanto a Moisés, como ele pôde aparecer ali se estava morto? Ou, será que Moisés não morreu, mas, também teria sido trasladado?

A Bíblia afirma que Moisés morreu e foi sepultado por Deus, mas seu fim é cercado de mistério, o que gerou questionamentos sobre o que exatamente aconteceu após sua morte. Em Deuteronômio 34.5-6, está escrito: “Assim, morreu ali Moisés, servo do SENHOR, na terra de Moabe, segundo a palavra do SENHOR. Este o sepultou num vale, na terra de Moabe, defronte de Bete-Peor; e ninguém sabe, até hoje, o lugar da sua sepultura.” O texto deixa claro que Moisés morreu, e que Deus mesmo cuidou do seu sepultamento, mas o local exato nunca foi revelado. Assim, ele foi impedido de entrar na Terra Prometida devido ao pecado em Meribá (Nm 20.12).

Na epístola de Judas 1.9 há a menção de uma disputa entre o arcanjo Miguel e o Diabo sobre o corpo de Moisés. Isso sugere que havia algo singular envolvendo o corpo de Moisés, possivelmente relacionado à sua ressurreição ou uso divino. Também contribui para o mistério em torno de seu sepultamento e possível propósito no plano divino.

Moisés aparece junto com Elias na transfiguração de Jesus. Isso levantou questões entre estudiosos e teólogos sobre como Moisés poderia estar presente, se morreu e foi sepultado. Alguns sugerem que ele foi ressuscitado e recebeu o mesmo tipo de corpo glorioso de Elias ou que Deus providenciou uma manifestação especial para esse evento da transfiguração. Portanto, não há evidências bíblicas de que ele tenha sido trasladado sem morrer, como aconteceu com Enoque e Elias.

Elias foi levado ao céu e o texto bíblico registra a forma visual como isso aconteceu, isto é, em um redemoinho, sendo que um carro e cavalos de fogo o separou de Eliseu. Elias foi um profeta relevante no seu tempo tornando-se mais conhecido em razão dos milagres que Deus realizou através dele. Há uma profecia interessante a seu respeito em Malaquias 4.5-6. De fato, não se trata de uma presença física (encarnada ou reencarnada) de Elias. Jesus nos esclarece, associando essa profecia a João Batista que viria no “espírito e poder de Elias” (Lc 1.17), e, assim cumpriria e cumpriu essa missão profética: “Porque todos os Profetas e a Lei profetizaram até João. E, se o quereis reconhecer, ele mesmo é Elias, que estava para vir.” (Mt 11.13-14; ver tb Mt 17.10-13; Mc 9.11-13).

Enfim, de acordo com as Escrituras, Moisés morreu, mas Deus teve um propósito especial para ele após a morte. Sua aparição na transfiguração, ao lado de Elias, indica que ambos, mesmo após a morte e trasladação, foram incluídos no plano divino de redenção e glorificação. Estes dois personagens bíblicos estavam ali representando a lei (Moisés) e os profetas (Elias). Ambos falam com Jesus sobre sua partida (Lc 9.31), ou seja, sua morte em Jerusalém, o ponto culminante da redenção. Há uma bela revelação e simbolismo mostrando que todo o Antigo Testamento aponta para Cristo (Lc 24.27). Portanto, explicita que o fim da lei é Cristo (Rm 10.4) e que “Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o universo.” (Hb 1.1-2). Também não se pode deixar de ressaltar a antecipação da presença da igreja ali, representada pelos três discípulos.

4. A manifestação de Pedro

5 Então, Pedro, tomando a palavra, disse: Mestre, bom é estarmos aqui e que façamos três tendas: uma será tua, outra, para Moisés, e outra, para Elias. (Mc 9)
6  Pois não sabia o que dizer, por estarem eles aterrados. (Mc 9)
4  Então, disse Pedro a Jesus: Senhor, bom é estarmos aqui; se queres, farei aqui três tendas; uma será tua, outra para Moisés, outra para Elias. (Mt 17)
33  Ao se retirarem estes de Jesus, disse-lhe Pedro: Mestre, bom é estarmos aqui; então, façamos três tendas: uma será tua, outra, de Moisés, e outra, de Elias, não sabendo, porém, o que dizia. (Lc 9)

Para surpresa de zero pessoas é o impetuoso Pedro quem reage explicitando seu sentimento de satisfação por estar vivenciando aquele momento – “bom é estarmos aqui” – e apresentando uma sugestão. Pedro desejava congelar ou eternizar aquele momento, desfrutando ao máximo aquele vislumbre do céu, longe da realidade difícil que os aguardava. Quis fixar tendas e permanecer na glória do monte. Mas a missão não era ficar ali – era descer e seguir em direção à cruz. Havia um povo sofrido, carente e aflito lá embaixo, precisando de Jesus.

Essa proposta de Pedro levanta um alerta que ainda fala ao coração do crente, individualmente, e da igreja, coletivamente. Não há qualquer repreensão pelo fato de vivermos experiências espirituais profundas – elas são bênçãos que Deus concede. O problema surge quando essas experiências se tornam um fim em si mesmas, e se vive em busca constante de emoções e êxtases espirituais, enquanto se abandona o propósito maior: alcançar os perdidos com o evangelho e viver uma vida santa, coerente e comprometida diante de Deus e dos homens.

Isso acena para alguns desvios de foco e propósitos da igreja de ontem e de hoje:

  • Uma igreja voltada para si mesma, cujas atividades e programações são centradas em seus membros, e não em equipá-los para a missão no mundo.
  • Uma igreja que idolatra seus líderes, transformando pastores e pregadores em celebridades espirituais, acima da crítica e do confronto da Palavra.
  • Uma igreja que se deslumbra com a beleza de seus templos e suas acomodações, como se a glória de Deus estivesse presa à estética arquitetônica.
  • Uma igreja que vive do passado, cultuando sua própria história e tradições, mas desconectada do mover atual do Espírito.
  • Uma igreja que cultua sua inovação, organização, estrutura e projetos, mas que esquece que o Reino de Deus é maior do que qualquer modelo humano.
  • Uma igreja que cultua e absolutiza sua teologia, seus símbolos de fé e ritos, esquecendo de que a ortodoxia sem vida e sem amor pode se tornar tão vazia quanto o formalismo religioso que Jesus condenou.
  • Uma igreja centrada no “entretenimento espiritual”, na qual o culto é moldado para agradar ao seu público, mas evita confrontar o pecado, promover arrependimento e exaltar a cruz.

Cristo é o centro da igreja, não seus líderes, templos, história, símbolos, nem seus planos bem elaborados. Tudo deve apontar para ele. Quando perdemos essa centralidade, mesmo os dons mais preciosos se tornam perigosamente idolatrados. A glória do monte é bela, mas a missão está no vale. A experiência espiritual é necessária, mas o chamado é para a obediência e a cruz.

5. A manifestação divina

7  A seguir, veio uma nuvem que os envolveu; e dela uma voz dizia: Este é o meu Filho amado; a ele ouvi. (Mc 9)
5  Falava ele ainda, quando uma nuvem luminosa os envolveu; e eis, vindo da nuvem, uma voz que dizia: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo; a ele ouvi. (Mt 17)
6  Ouvindo-a os discípulos, caíram de bruços, tomados de grande medo. (Mt 17)
7  Aproximando-se deles, tocou-lhes Jesus, dizendo: Erguei-vos e não temais! (Mt 17)

34  Enquanto assim falava, veio uma nuvem e os envolveu; e encheram-se de medo ao entrarem na nuvem. (Lc 9)
35  E dela veio uma voz, dizendo: Este é o meu Filho, o meu eleito; a ele ouvi. (Lc 9)

Olhando para o alto daquele monte nós vemos três grupos: três homens do presente, dois homens do passado e um eterno, divino-humano. Entretanto, Pedro via ali três homens: Jesus e dois grandes vultos da história de Israel que muito o impressionou ao ponto de se prontificar a fazer três tendas para eles, quem sabe, esquecendo-se deles mesmos. Sua sugestão pode ser interpretada como se ele considerasse os três no mesmo nível, o que teria levado Deus a remover Moisés e Elias. Por fim, temos a manifestação da visão e resposta de Deus distinguindo apenas um dentre os seis homens: “Este é o meu Filho amado; a ele ouvi.”. Não foi necessariamente uma mensagem de repreensão, mas de direcionamento para Jesus, aquele que deveria ser ouvido, honrado e glorificado. Essa mesma voz já havia sido ouvida no batismo de Jesus (Mt 3.17; Mc 1.11; Lc 3.22).

A Transfiguração revela quem Jesus realmente é: Deus encarnado, o Filho glorioso de Deus revestido temporariamente de glória celestial diante dos discípulos. Confirma sua identidade messiânica e o distingue de Moisés e Elias. Ensina que Jesus é superior à Lei (Moisés) e aos profetas (Elias) – ele cumpre ambos os ofícios. Na nossa jornada cristã, nas nossas atividades e vivências dentro e fora da igreja, quando pensarmos que somos relevantes ou os nossos líderes nos impressionarem, precisamos abrir bem nossos ouvidos para ouvir essa mesma mensagem do alto – “Este é o meu Filho amado; a ele ouvi.” – a ele honrai e dai glória!

Além da voz de Pedro, da voz de Deus, também temos o registro da voz de Jesus: Erguei-vos e não temais!  Nessas manifestações divinas ou angelicais o ser humano estremece e teme, e o refrão tranquilizador sempre se faz ouvir – Não temais!

6. O fim do fenômeno

8  E, de relance, olhando ao redor, a ninguém mais viram com eles, senão Jesus. (Mc 9)
8  Então, eles, levantando os olhos, a ninguém viram, senão Jesus. (Mt 17)
36a  Depois daquela voz, achou-se Jesus sozinho. (Lc 9)

O sobrenatural e extraordinário sempre tem hora para começar e hora para terminar, cedendo lugar ao natural e ordinário. O propósito fora alcançado e a missão deveria prosseguir.

7. A ordem de Jesus

9  Ao descerem do monte, ordenou-lhes Jesus que não divulgassem as coisas que tinham visto, até o dia em que o Filho do Homem ressuscitasse dentre os mortos. (Mc 9)
10  Eles guardaram a recomendação, perguntando uns aos outros que seria o ressuscitar dentre os mortos. (Mc 9)
9  E, descendo eles do monte, ordenou-lhes Jesus: A ninguém conteis a visão, até que o Filho do Homem ressuscite dentre os mortos. (Mt 17)
36b Eles calaram-se e, naqueles dias, a ninguém contaram coisa alguma do que tinham visto. (Lc 9)

Findo aquele momento, Jesus orienta ou ordena aqueles discípulos a guardarem silêncio temporariamente sobre o tudo aquilo que haviam vivenciado. A ordem de Jesus pode parecer enigmática à primeira vista, mas ela revela aspectos profundos da pedagogia divina e do plano de redenção. Algumas possíveis explicações são:

1º) Jesus revela progressivamente a sua identidade, ao longo dos Evangelhos, como o Messias predito e Filho de Deus. Ele queria que essa revelação acontecesse de forma natural e orgânica, por meio dos seus atos, ensino e, por fim, sua morte, ressurreição e ascensão.

2º) Evitar fortalecer uma compreensão distorcida da missão de Jesus, como um libertador político do império romano (Lc 24.21; 1.68). A transfiguração revelava a glória do Messias,  mas sem o contexto da cruz e da ressurreição, isso poderia fortalecer visões erradas sobre Jesus, incentivando movimentos nacionalistas ou triunfalistas prematuros. A divulgação imediata poderia promover certa agitação popular, precipitando perseguição pelas autoridades religiosas e romanas, antecipando os eventos da paixão e morte fora do tempo determinado por Deus.

3º) A sua glória deveria ser vista e entendida à luz da cruz e da ressurreição. Jesus queria que a visão gloriosa do monte só fosse divulgada após a ressurreição, quando os discípulos compreenderiam plenamente que o caminho da glória passa pela cruz. Antes disso, até os próprios discípulos não conseguiam compreender bem o que significava “ressuscitar dentre os mortos” (Mc 9.10). Jesus queria manter os discípulos centrados na missão e no ensino do Reino de Deus, sem confusões e distrações.

8. A dúvida quanto a Elias

11  E interrogaram-no, dizendo: Por que dizem os escribas ser necessário que Elias venha primeiro? (Mc 9)
12  Então, ele lhes disse: Elias, vindo primeiro, restaurará todas as coisas; como, pois, está escrito sobre o Filho do Homem que sofrerá muito e será aviltado? (Mc 9)
13  Eu, porém, vos digo que Elias já veio, e fizeram com ele tudo o que quiseram, como a seu respeito está escrito. (Mc 9)
10  Mas os discípulos o interrogaram: Por que dizem, pois, os escribas ser necessário que Elias venha primeiro? (Mt 17)
11  Então, Jesus respondeu: De fato, Elias virá e restaurará todas as coisas. (Mt 17)
12  Eu, porém, vos declaro que Elias já veio, e não o reconheceram; antes, fizeram com ele tudo quanto quiseram. Assim também o Filho do Homem há de padecer nas mãos deles. (Mt 17)
13  Então, os discípulos entenderam que lhes falara a respeito de João Batista. (Mt 17)

Apenas os evangelistas Mateus e Marcos registram essa dúvida dos discípulos quanto a vinda de Elias. Circulava entre os escribas, que eram os intérpretes credenciados das Escrituras hebraicas na religião oficial daquela época, essa profecia baseada em Malaquias 4.5-6. Este grande profeta do passado estava fortemente ligado à esperança messiânica. Além de não ter experimentado a morte, é mencionado como o precursor do Messias: “Eis que eu vos enviarei o profeta Elias, antes que venha o grande e terrível Dia do SENHOR; ele converterá o coração dos pais aos filhos e o coração dos filhos a seus pais, para que eu não venha e fira a terra com maldição.” (Ml 4.5-6). Para evitar qualquer mal-entendido, Jesus procurou relacioná-lo a João Batista: “E, se o quereis reconhecer, ele mesmo é Elias, que estava para vir.” (Mt 11.14). Ele ratifica aqui uma das nove predições do anjo Gabriel a Zacarias sobre o seu filho João Batista: “E irá adiante do Senhor no espírito e poder de Elias, para converter o coração dos pais aos filhos, converter os desobedientes à prudência dos justos e habilitar para o Senhor um povo preparado.” (Lc 1.17). A bíblia deixa claro que não se trata de reencarnação, como defendido por alguns segmentos religiosos.  

Conclusão

O Senhor Jesus, que até então havia sido visto e conhecido por seus discípulos “na forma de Servo” (Fp 2.7), agora se revela, de modo singular, em sua glória essencial como o Filho de Deus. A Transfiguração foi uma manifestação extraordinária da sua divindade, concedida a três de seus discípulos, na medida em que olhos humanos podiam contemplar. Não foi apenas um milagre entre outros, mas uma revelação do próprio Cristo em sua verdadeira natureza.

O propósito dessa experiência gloriosa foi múltiplo e profundo:

  • Confirmar, por meio da visão, a identidade de Jesus – que ele não era apenas o Messias esperado, mas Deus encarnado, plenamente divino e humano.
  • Fortalecer os discípulos diante da iminente cruz – preparando seus corações para o escândalo da morte de Jesus, com um vislumbre da glória futura.
  • Antecipar a glória do Reino vindouro – uma amostra do que seria revelado plenamente em sua segunda vinda e no Reino eterno.
  • Receber o testemunho celestial do Pai – com a solene declaração: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo; a ele ouvi”, apontando para a autoridade suprema de Cristo sobre todas as coisas.
  • Estabelecer a supremacia de Cristo sobre Moisés e Elias – representantes da Lei e dos Profetas, indicando que em Jesus se cumpre toda a revelação divina e que ele é o centro da Escritura e da fé.

Quanto à experiência vivida no monte, por aqueles três discípulos, nos faz pensar que a jornada cristã é feita de montes e vales:

  • A transfiguração acontece no monte (glória), mas logo depois os discípulos descem e enfrentam problemas, dúvidas, e o desafio de um menino possesso e um pai aflito (Mc 9.14-29; Mt 17.14-21; Lc 9.37-43a).
  • Isso ensina que a vida cristã alterna entre comunhão íntima com Deus e confronto com a realidade do sofrimento humano.
  • Precisamos levar a glória do monte para a realidade do vale.

Que Deus nos ajude! Jesus é o centro de tudo o que há


Cronologia Pastoral da IPRJ

O presbiterianismo no Brasil tem nomes e datas importantes na sua história em solo brasileiro.

A Igreja Presbiteriana do Brasil tem como marco inicial, a chegada de Ashbel Green Simonton ao Rio de Janeiro, no dia 12 de agosto de 1859. O outro marco importante é a organização da sua primeira igreja, a Igreja Presbiteriana do Rio de Janeiro, também conhecida como Catedral Presbiteriana do Rio de Janeiro, em 12 de janeiro de 1862.  

Há uma grande quantidade de material historiando esse início do presbiterianismo brasileiro. Nosso objetivo aqui é focar a igreja mãe, apresentando a “Linha do Tempo” dos seus pastores. Os pastores que fazem parte dessa história são aqueles que foram pioneiros, os eleitos pela igreja e os designados pelo Presbitério para exercer o ministério pastoral efetivo na igreja.

Os Pioneiros são os primeiros pastores que organizaram a igreja ou desempenharam um papel fundamental em seu estabelecimento.

Os Pastores Eleitos são aqueles que foram eleitos pelos seus membros, reunidos em Assembleia Geral Extraordinária (AGE), para liderar a igreja como Pastor Titular ou Efetivo.

Os Pastores Designados são aqueles que foram designados oficialmente pelo Concílio de governo da denominação com jurisdição sobre a igreja, para servir na igreja local, por um determinado período.

1 – PASTORES PIONEIROS

São considerados Pastores Pioneiros os seguintes pastores que foram recebidos no Presbitério do Rio de Janeiro (PRJN), na data da sua organização, em 16/12/18651:

a) Rev. Ashbel Green Simonton (✰1833  ✞1867)

Pastorado: 12/01/1862 até 09/12/1867 (data do seu falecimento)

Primeiro missionário enviado pela Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos, com 26 anos, que chegou ao Brasil, na cidade do Rio de Janeiro, em 12 de agosto de 1859. Organizou e pastoreou a Igreja Presbiteriana do Rio de Janeiro no período de 12 de janeiro de 1862 a 09 de dezembro de 1867. Nasceu nos Estados Unidos da América em 20/01/1833, na cidade de West Hanover, Estado da Pensilvania. Faleceu, de febre amarela em São Paulo, em 09/12/1867, aos 34 anos de idade. Foi o primeiro pastor da Igreja Presbiteriana do Rio de Janeiro.

b) Rev. Alexander Latimer Blackford (1829  1890)

Pastorado: 31/03/1862 até 17/07/1863 || 10/12/1867 até 27/10/1875

O Rev. Alexander Latimer Blackford e a esposa Sra. Elizabeth S. Blackford (irmã do Rev. Simonton) embarcaram para o Brasil a fim de colaborar com Simonton. A viagem durou 90 dias (25/04/1860 a 24/07/1860) devido aos contratempos e perigos da viagem. Deus preservou o casal para o trabalho missionário e para apoio ao próprio Rev. Simonton.

c) Rev. Francis Joseph Christopher Schneider (1932 1910)

Pastorado: 1862 até 1867

“Em 1861, ao concluir seus estudos no ´Western Theological Seminary` e ser ordenado pastor pelo Presbitério de Saltsburg, foi enviado ao Brasil para uma missão evangelística em auxílio à obra iniciada pelo rev. Ashbel Green Simonton em 1859. Chegou ao Rio de Janeiro em 7 de dezembro de 1861”2. Além de colaborar com Simonton na Igreja do Rio, foi professor do Primeiro Seminário Teológico Presbiteriano no Brasil, criado e organizado pelo Rev. Simonton, no Rio de Janeiro.


2 – PASTORES EFETIVOS ELEITOS

São considerados os seguintes Pastores Efetivos Eleitos pela igreja:

a) Rev. Antonio Bandeira Trajano (1843 1922)

Pastorado: 27/11/1876 até 04/1893 (com diversos afastamentos por enfermidade e tratamento de saúde).

b) Rev. Álvaro Emygdio Gonçalves dos Reis (1864 1925)

Pastorado: 05/1897 até 04/06/1925 (data do seu falecimento)

c) Rev. Mattathias Gomes dos Santos (1879 1950)

Pastorado: 08/1926 até 08/1946

d) Rev. Amantino Adorno Vassão (1910 1997)

Pastorado: 07/01/1945 até 27/09/1980

e) Rev. Zaqueu Ribeiro (1924 2002)

Pastorado:  1953 até 22/01/1954  (Atuou auxiliando o Rev. Amantino)

Pastorado: 22/01/1954 até 1968 (Em 22/01/1954 foi recebido, por transferência, no PRJN que aprovou sua eleição para Pastor Efetivo, concomitantemente com o Rev. Amantino Adorno Vassão. Portanto, a IPRJ manteve dois Pastores Efetivos neste período).

f) Rev. Guilhermino Silva da Cunha (1942- )

Pastorado: 10/01/1981 até 28/11/1981 (designado pelo PRJN)

Pastorado: 29/11/1981 até 11/01/2015 (eleito pela igreja)

g) Rev. Jorge Luiz Patrocinio (1966- )

Pastorado: 31/05/2015 até 31/05/2018

h) Rev. Renato Lopes Porpino (1975- )

Pastorado: 05/05/2019 até a presente data


3 – PASTORES EFETIVOS DESIGNADOS

São considerados os seguintes Pastores Efetivos Designados pelo Presbitério:

a) Rev. Leonardo Sahium (1967- )

Pastorado: 12/01/2015 até 30/05/2015

b) Rev. Isaías Cavalcanti da Silva (1952- )

Pastorado: 31/05/2018 até 05/05/2019


  1. Fonte: Pereira, Nelson de Paula – BREVE HISTÓRICO DOS 150 ANOS – PRESBITÉRIO DO RIO DE JANEIRO. ↩︎
  2. Fonte: Wikipédia ↩︎

Soli Deo gloria!


Nota: A maior parte das informações históricas incluídas aqui foram extraídas do livro “HISTÓRIA DA IGREJA PRESBITERIANA DO RIO DE JANEIRO – 1862-2012”, elaborado pela IPRJ por ocasião do seu Sesquicentenário. Lista de Pastores na página 354.


Retrocedendo para avançar!

Êxodo 14.1-31

Introdução

🔹O tema central

A ordem de Deus para o povo de Israel marchar diante do Mar Vermelho é um convite à fé diante dos desafios.

🔹O contexto (Êx 12.37 – 13.22)

A partir de Êxodo 12.37 começa a jornada do povo de Israel, saindo do Egito em direção à Canaã, a Terra prometida. Estima-se em cerca de 2 a 2,5 milhões o quantitativo de  pessoas que saíram do Egito (Êx 1.7; 12.37; Nm 1.46). Na história há alguns eventos comparáveis ao Êxodo em termos de migração em massa de povos inteiros para outra região, entretanto,  nenhum deles se assemelha, no aspecto sobrenatural e simbólico ao Êxodo bíblico. Alguns estudiosos liberais argumentam que 2 milhões de pessoas seria um número logisticamente difícil de sustentar no deserto. Porém, o fato incontestável é que Deus os supria sobrenaturalmente (maná, água, proteção). A coluna de nuvem os guiava durante o dia e a coluna de fogo durante a noite e, assim, manifestava a presença e direção direta de Deus (Êx 13.21-22).

🔹A rota (Êx 13.17)

Havia uma rota direta para Canaã que Deus não permitiu que os israelitas tomassem, mencionada em Êxodo 13.17: “Tendo Faraó deixado ir o povo, Deus não o levou pelo caminho da terra dos filisteus, posto que mais perto, pois disse: Para que, porventura, o povo não se arrependa, vendo a guerra, e torne ao Egito.”

Uma curiosidade inevitável é saber qual seria a distância e o tempo de caminhada até Canaã, caso o povo de Israel tivesse seguido pela rota direta.

Essa rota mais curta seria a Via Maris (“Caminho do Mar”), uma antiga estrada militar e comercial que ligava o Egito à região da Filístia (atual Gaza) e seguia até Canaã e a Síria pela costa do Mediterrâneo. A distância estimada pela rota direta (Via Maris), de Ramsés (Egito) até Gaza/Canaã seria de aproximadamente 250 a 300 km. Essa rota poderia ser percorrida por caravanas em cerca de 10 a 15 dias, dependendo do ritmo e das condições climáticas, do terreno e logísticas.

🔹Comparativo com a rota pelo deserto

RotaDistância estimadaTempo aproximado (sem milagres)Características
Via Maris (direta)250–300 km10 a 15 diasPassava por territórios filisteus armados
Via do Deserto (Êxodo)1.000–1.200 km1–2 meses (em ritmo normal)Passando por áreas inóspitas e montanhosas
Êxodo realDurou 40 anosPor causa da rebeldia e juízo divino (Nm 14.26–34)Formação espiritual no deserto

🔹Por que Deus evitou a rota curta?

As explicações seriam, entre outras:

  • Cumprimento profético: no chamado de Moisés, Deus lhe deu um futuro sinal confirmador de que o havia enviado, a saber, que depois de tirar o povo do Egito ele o serviria (servir = adorar, sacrificar, obedecer etc.) naquele mesmo monte (Horebe ou Sinai) onde ele estava (Êx 3.1, 12).
  • Estratégia divina: os filisteus eram guerreiros bem armados e hostis. Um confronto logo no início poderia causar pânico, arrependimento e desistência entre os israelitas (Êx 13.17).
  • Propósito pedagógico: Deus queria provar, disciplinar e formar espiritualmente seu povo antes de levá-lo à Terra Prometida (Dt 8.2–3).
  • Necessidade de revelação: foi no deserto que Israel recebeu a Lei, a aliança, e a identidade como nação santa.

🔹O retrocesso (Êx 14.1-4)

O povo de Israel, recém-liberto do Egito, encontrava-se encurralado entre o exército de Faraó e o Mar Vermelho. Isso não foi por acaso, foi intencional ou “premeditado” por Deus. De fato, Êxodo 14.2 registra uma ordem divina estratégica de um retrocesso geográfico. Israel, depois de ter saído de Etã (Êx 13.20), recebeu de Deus, através de Moisés, uma ordem de recuar e acampar em frente ao Mar Vermelho, numa posição aparentemente vulnerável e sem saída. Esse “retrocesso” foi ordenado propositadamente por Deus e visava confundir Faraó, que pensaria: “Estão desorientados no deserto” (Êx 14.3). Desta forma, seria criada a oportunidade necessária: para o milagre da travessia, para a derrota final do exército egípcio, para que Deus fosse glorificado e conhecido pelos egípcios que o Senhor é o único e verdadeiro Deus, bem como para, na propagação, infundir temor entre os povos vizinhos.

Quanto a este último aspecto, a Bíblia registra que os milagres do Êxodo provocaram temor nos povos vizinhos, especialmente a travessia do Mar Vermelho e os livramentos sobrenaturais de Israel. Isso foi uma parte estratégica da ação divina para proteger Israel e preparar o caminho para a conquista da Terra Prometida. Alguns textos bíblicos que afirmam isso, são:

📖 Êxodo 15.14-16 – Cântico de Moisés, logo após a travessia.

Os povos ao redor ouviram falar do livramento de Israel no Mar Vermelho e ficaram aterrorizados.

“Os povos o ouviram, eles estremeceram; agonias apoderaram-se dos habitantes da Filístia. Ora, os príncipes de Edom se perturbam, dos poderosos de Moabe se apodera temor, esmorecem todos os habitantes de Canaã. Sobre eles cai espanto e pavor; pela grandeza do teu braço, emudecem como pedra; até que passe o teu povo, ó SENHOR, até que passe o povo que adquiriste.”

📖 Josué 2.9-11 – Declaração de Raabe, em Jericó.

Mais de 40 anos depois do Êxodo, os povos de Canaã ainda temiam os israelitas por causa dos milagres que Deus operara em favor deles.

“e lhes disse: Bem sei que o SENHOR vos deu esta terra, e que o pavor que infundis caiu sobre nós, e que todos os moradores da terra estão desmaiados. Porque temos ouvido que o SENHOR secou as águas do mar Vermelho diante de vós, quando saíeis do Egito; e também o que fizestes aos dois reis dos amorreus, Seom e Ogue, que estavam além do Jordão, os quais destruístes.”

Enfim, quando ordenado por Deus, esse “retroceder” é importante espiritualmente:

📍➡ Mostra que obedecer a Deus nem sempre parece humanamente “lógico”
📍➡ Ensina que, às vezes, Deus nos conduz para situações que parecem retrocesso, mas são, na verdade, plataformas para o milagre;
📍➡ Expõe como a vitória final muitas vezes exige humildade e confiança total.

🔹A revolta dos egípcios contra Israel (Êx 14.5-9)

Tornou-se incontrolável a ira da corte egípcia para com Israel. Foram muitas as  perdas materiais e humanas do lado egípcio, e por último a perda da mão-de-obra escrava, saindo impunemente e feliz. O descontrole de Faraó bloqueou sua capacidade de raciocinar e perceber o risco de uma nova investida contra o povo de Deus, ou seja, seu coração ficou insensível e endurecido em referência às manifestações do poder de Deus. Faraó então reuniu sua força máxima para a captura dos escravos em fuga.

🔹Medo e murmuração (Êx 14.10-12)

Encurralados, tendo atrás de si os egípcios e adiante o mar, os filhos de Israel também perderam o controle emocional. Dois sentimentos tomaram conta dos seus corações: pavor, que os levou a clamar por aquele que não conheciam bem, e revolta, que levou os líderes insatisfeitos a protestarem contra Moisés. A provação tinha o grande propósito de revelar os corações dos libertos, evidenciando os aprovados e os reprovados.

🔹Confiança e encorajamento (Êx 14.13-14)

O líder precisa estar em plena sintonia com Deus, ter confiança nele e convicção da missão, para servir de exemplo e encorajar os liderados. O líder Moisés cumpriu bem o seu papel! O povo de Deus precisa estar sempre consciente de que: “…; Deus é fiel, e não permitirá que sejais tentados além das vossas forças; pelo contrário, juntamente com a tentação, vos proverá livramento, de sorte que possais suportar” (1Co 10.13). Existem aqueles que só veem a crise e outros que olham para o Deus que está acima de qualquer crise. Uns veem os inimigos como gigantes (Nm 13.32b-33), outros como pão (Nm 14.9).

 Há aqui cinco conselhos para os dias de crise:

😇🔊 “Não temais”
😇🔊 “Aquietai-vos” (permanecei firmes)
😇🔊 “Vede o livramento do Senhor”
😇🔊 “Que hoje vos fará”
😇🔊 “O Senhor pelejará por vós”

🔹Oração temporã (fora de época) (Êx 14.15)

Não era momento de clamar, mas de marchar. A vara/cajado já estava nas mãos de Moisés há muito tempo; ela era a resposta, embora ele não soubesse. Quantas vezes Deus já respondeu, mas ainda permanecemos clamando; não porque ele se calou, mas porque não percebemos a resposta.

Muitas vezes, o caminho que Deus preparou está encoberto aos nossos olhos. Só conseguimos vê-lo pela fé. Moisés via apenas água, mas não o caminho que Deus já tinha aberto debaixo dela.

É preciso marchar, mesmo sem ver o que nos aguarda adiante. A fé nos leva a dar o passo antes que o mar se abra e o caminho se torne visível. Muitas vezes, os recursos de que precisamos já estão em nossas mãos, só falta perceber e obedecer. Se Deus já falou, não precisamos de uma nova revelação, e sim de obediência. E é o líder quem dá o primeiro passo.

✳️ Desenvolvimento:

Em meio ao medo e reclamação, Deus ordena: “Diga ao povo que marche” (Êx 14.15). Neste  estudo refletiremos sobre a importância de obedecer pela fé mesmo quando as circunstâncias parecem desfavoráveis ou, até mesmo, impossíveis.

Três verdades fundamentais:

1. A fé vê além do visível (Êx 14.16-18)

O povo olhava para o perigo visível (Faraó e seu exército de um lado e o Mar Vermelho do outro), mas a verdadeira confiança precisa estar em Deus, sejam quais forem as circunstâncias. Alguém já disse: “Não diga para Deus que você tem um grande problema, mas diga para o seu problema que você tem um grande Deus.”

Há uma analogia interessante que pode ser feita entre a libertação de Israel do Egito e a conversão do pecador. Ao deixar sua antiga vida, o novo convertido também encontra muitos desafios, mas a ordem de  Deus é marchar, seguir adiante. A conversão é mais do que uma mudança de comportamento – é uma libertação sobrenatural, uma mudança de senhorio. O Egito simboliza a velha vida, a escravidão espiritual, e a saída simboliza a graça salvadora de Deus, não por obras, mas por fé. Assim como Israel foi tirado do Egito para adorar a Deus, o crente é liberto do pecado para servir a Deus, em santidade de vida (Rm 6.22). Na jornada da vida seguimos adiante todos os dias – movidos por nossas obrigações, decisões, metas, propósitos e planos. O próximo passo, quase sempre, é o mais desafiador. Muitas vezes conseguimos dar o primeiro passo, mas hesitamos diante dos obstáculos que surgem. É nesses momentos que precisamos reanimar o coração, renovar a fé e continuar avançando, confiando que Deus caminha conosco. Enfim: “Andamos por fé, e não pelo que vemos” (2Co 5.7).

2. Deus age de forma surpreendente (Êx 14.19-22)

Em algumas situações a expressão “Anjo do Senhor” (Gn 22.11-12) diz respeito a uma teofania, ou seja, uma auto manifestação de Deus. Ele fala como o próprio Deus e é considerado como a segunda pessoa da trindade numa aparição pré-encarnada. Neste caso aqui narrado, não há evidências suficientes para que se possa fazer qualquer afirmação. O mais importante é que se trata da manifestação da presença divina e do seu poder.

Os críticos da Bíblia recusam-se a aceitar os milagres de Deus recorrendo sempre a tentativas de explicação tiradas da natureza. Eis que estamos diante de um desses tremendos milagres. Não se trata de um fenômeno natural, mas de Deus agindo na natureza e através dela conforme o seu propósito. Jesus, igualmente, exerceu seu poder sobre a natureza.

O milagre da travessia mostra o poder de Deus agindo de forma inesperada e soberana: vento, mar aberto, colunas de nuvem e fogo, e a destruição do exército egípcio. Deus nunca é surpreendido, ao contrário, ele pode nos surpreender. Ele detém o controle absoluto sobre todas as coisas. Quando nossas limitações e incapacidades se tornam evidentes, Deus revela seu poder soberano, realizando milagres onde parece não haver solução.

3. Nada pode impedir a realização dos planos de Deus (Êx 14.23-31)

É nos momentos de maior aperto que os filhos de Deus têm o privilégio de experimentar as mais profundas manifestações da sua misericórdia. Deus poderia ter feito o povo atravessar o mar, muito antes da chegada de Faraó, mas assim não teria sido glorificado na derrota do inimigo. Ele livra o seu povo no tempo certo e, ao mesmo tempo, executa justiça contra os opressores, fazendo com que o inimigo receba o justo castigo, revelando seu poder e soberania para todas as nações.

Em 1Coríntios 10.2 lemos que eles foram batizados na nuvem e no mar com respeito a Moisés. Temos aqui um dos significados do batismo: identificação e união. Até então havia certa desconfiança em relação à liderança de Moisés. Após vivenciarem aquela experiência, eles se identificaram com Moisés. Enfim, os seus corações pulsaram com o de Moisés. De igual forma, os crentes são identificados com Jesus, o seu líder, no batismo espiritual.

Os exércitos egípcios pereceram no Mar Vermelho. O povo de Deus não foi alcançado, pois havia uma promessa do Senhor que os inimigos não prevaleceriam (Êx 14.13-14). A travessia do mar representa a vitória definitiva de Deus sobre os opressores do seu povo.

🧩Aplicações Práticas

🙋1. Obedeça, mesmo diante dos obstáculos – A ordem de Deus é seguir adiante.
🙋2. Confie mais na fé do que nos seus olhos naturais – A fé enxerga o invisível.
🙋3. Creia que Deus está no controle, mesmo em situações ou cenários adversos.
🙋4. Deus continua testando nossa fé, permitindo obstáculos.

Conclusão

Marchar, para o cristão, é viver pela fé, mesmo quando o caminho à frente parece fechado. O milagre acontece depois do passo de obediência.

Cântico:
– Rompendo em fé.

Um Brasil Dividido⁉️

Introdução

O Brasil, os Estados Unidos e tantos outros países “ainda democráticos” amargam uma luta diária e sem tréguas por conta da divisão de pensamentos e ideologias da sua gente. São tempos difíceis e sombrios, e a palavra “democracia” está demasiadamente desgastada, usada fora de contexto e cedendo cada vez mais espaço para uma estranha “democracia relativa”. Para uns – “DEMOCRACIA é quando eu governo e mando em você; e, DITADURA, é quando você governa e manda em mim”. Não faltam investidas, estratégias e narrativas dos lados que se opõem. Sim, as divergências de opinião fazem parte da vida, porém, há muito mais em questão. Além disso, desde o início da vida humana na terra, a humanidade vivencia, cotidianamente, uma incansável luta do bem contra o mal. Isto tende a se agravar progressivamente na medida da aproximação da segunda vinda de Cristo.

O que temos vivido, principalmente nessas últimas décadas, seria tão somente uma questão de organização social e política do Estado ou a situação é muito mais complexa? Essa luta estaria inserida naquela luta mais ampla entre o bem e o mal? Os cristãos mais lastreados e fundamentados na Bíblia Sagrada diriam que sim. É pena que alguns chamados cristãos ainda não se deram conta das astutas ciladas do Diabo. Continuam sendo influenciados e defendendo os modernos encantadores de serpentes; que não se cansam de promover a divisão entre pobres e ricos, brancos e negros, maiorias e minorias, naquela velha tática de dividir para conquistar; que estão sempre repaginando e replicando aquele velho, desgastado e falso discursinho populista e eleitoreiro da igualdade e inclusão social, do combate a fome, quando não conseguem esconder de ninguém seu apego ao luxo, ao deleite dos mais pomposos imóveis, espaços e ambientes, bem como às finas iguarias da gastronomia e das bebidas.

Jesus e seus discípulos enfrentaram essa luta, sendo perseguidos pelo sistema dominante de sua época. Os crentes e a igreja de todos os tempos nunca deixaram de enfrentar essa luta. Essa não é apenas uma luta na esfera humana e material; ela tem sua fonte e impulsionamento na esfera espiritual – “porque a nossa luta não é contra o sangue e a carne, e sim contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes.” (Ef 6.12)  

Para sua análise e reflexão listamos abaixo algumas denúncias ou acusações comuns feitas por boa parte da direita à esquerda, especialmente no contexto político-cultural brasileiro e latino-americano, mas também com ecos em outras democracias ocidentais.

Organizando essa lista por categorias temáticas, agrupando as denúncias ou acusações comuns que a direita faz à esquerda, temos:

 🟥 1. Corrupção e Má Gestão Pública:

  • Cleptocracia / Gestão fraudulenta.
  • Saque à nação: Mensalão / Petrolão / Aposentão.
  • Apoio a ditaduras comunistas (Cuba, Venezuela, Nicarágua etc.).
  • Infiltração em ONGs e movimentos sociais com viés revolucionário.
  • Patrocínio ($) da Mídia Televisiva e Impressa para a promoção do governo.

⚖️ 2. Controle, Censura e Autoritarismo Ideológico:

  • Censura / Regulação das Redes Sociais.
  • Perseguição aos que pensam diferente.
  • Assassinato de reputação.
  • Ditadura do pensamento único.
  • Doutrinação ideológica nas universidades e escolas públicas.
  • Militância judicial / Ativismo de toga.
  • Criminalização da liberdade religiosa.
  • Controle cultural por meio da mídia e do entretenimento.

👨‍👩‍👧 3. Valores Morais, Família e Religião:

  • Legalização do aborto.
  • Kit gay / Erotização da Infância.
  • Adoção da ideologia de gênero nas escolas.
  • Destruição dos valores cristãos e da família tradicional.

📚 4. Sociedade, Cultura e Educação

  • Doutrinação ideológica nas universidades e escolas públicas.
  • Relativização do furto.
  • Incentivo ao ódio de classe e luta de classes.
  • Desprezo pela soberania nacional em favor do globalismo.

💰 5. Economia e Política Estatal:

  • Aumento de impostos e do tamanho do Estado.
  • Militância ambiental como desculpa para limitar desenvolvimento e propriedade privada.
  • Desprezo pela soberania nacional em favor do globalismo.
  • Alinhamento e favorecimento a potências comunistas.

🔫 6. Segurança Pública e Liberdades Individuais:

  • Descriminalização e legalização das drogas.
  • Assassinato da reputação das forças policiais.
  • Relativização do furto.
  • Vitimização do infrator e transferência da culpa para a sociedade.
  • Desarmamento da população de bem.

Conclusão

É importante ressaltar que Deus está no governo e controle de todas as coisas, em todo o tempo e em todos os lugares e nações. Tudo o que acontece está na esfera da sua vontade ativa ou permissiva. É preciso ter cuidado para não ficar aquém e nem ir além diante daquelas situações e circunstâncias que estão se desenrolando de acordo com o plano soberano e inquestionável de Deus. O nosso tempo – “chronos”(gr) (o tempo do relógio e do calendário, o tempo para todo o propósito) – de perder a paciência com o status quo em curso pode não ser o tempo de Deus – “kairós”(gr) (o tempo oportuno, o momento certo, o tempo determinado). A história é mestra em nos ensinar isso, em nos revelar o modus operandi de Deus!

O cristão consciente, sensato e iluminado pelo Espírito Santo não se apega cegamente a pessoas ou líderes políticos populares e influentes, porém a princípios e valores cristãos. Quando algum líder mais se alinha, defende e promove, sincera e verdadeiramente, tais princípios e valores também comuns ao ensino bíblico, passam a merecer sua atenção, respeito, apoio e voto, enquanto permanecer nessa linha.

O cristão não tem um chamado para a militância político-ideológica (de esquerda, de centro ou de direita), mas não deve se alienar, pensar que não é com ele, que sua pátria está nos céus e como cidadão dos céus não deve se envolver nas coisas terrenas. Se os que governam, se os que fazem as leis, se os que julgam as questões e transgressões das leis, afetam forte e diretamente a nós, a nossa família, a igreja, as instituições, enfim, a sociedade onde vivemos, não podemos deixar de exercer conscientemente a nossa cidadania e lutar, dentro das regras estabelecidas na Constituição e nas leis, para a manutenção da ordem, da harmonia, da paz, da segurança e do bem-estar social. Vale lembrar a exceção que se dá quando governantes e leis nos impõem e obrigam a renunciar a adoração a Deus e a obediência à sua palavra.

Que assim fazendo, Deus nos ajude!