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Archive for dezembro \16\UTC 2018

O “padre protestante”

José Manoel da Conceição

Introdução

José Manuel da Conceição, nasceu na cidade de São Paulo em 11 de março de 1822 e faleceu no Vale do Paraíba, em 25 de dezembro de 1873. Filho de Manuel da Costa Santos (português) e de Cândida Flora de Oliveira Mascarenhas (brasileira). Foi um ex-sacerdote católico-romano que ingressou na Igreja Presbiteriana do Brasil e tornou-se o primeiro brasileiro ordenado pastor evangélico.

1. Linha do Tempo (alguns eventos importantes)

11/03/1822 – Nascimento de J. M. da Conceição (São Paulo – SP).

1840 a 1842 – [18 a 20 anos] Estudou teologia na cidade de São Paulo – SP.

29/09/1844 – [22 anos] Ordenado diácono na Igreja Católica Romana.

29/06/1845 – [23 anos] Ordenado presbítero (padre) na Igreja Católica Romana.

12/08/1859 – Chega ao Brasil, no porto do Rio de Janeiro, o Rev. A. G. Simonton e, com ele o Presbiterianismo.

24/07/1860 – Chega ao Brasil, no porto do Rio de Janeiro, o Rev. A. L. Blackford e sua esposa Elizabeth (cunhado e irmã do Rev. A. G. Simonton, respectivamente).

12/01/1862 – Neste domingo é organizada a Igreja Presbiteriana do Rio de Janeiro.

06/10/1863 – O Rev. A. L. Blackford e sua esposa deixam o Rio de Janeiro para fixar residência na cidade de São Paulo, após algumas viagens de reconhecimento e sondagem, visando à abertura de um segundo campo da missão.

22/10/1863 – [41 anos] O Rev. A. L. Blackford viaja para o interior de São Paulo e mantém o primeiro contato com o Pe. J. M. da Conceição. Seis meses depois, o Pe. J. M. da Conceição vai à cidade de São Paulo e durante cinco dias teve a oportunidade de conversar com o Rev. A. L. Blackford e, também, com o Rev. A. G. Simonton, nascendo ali uma grande amizade entre eles.

25/09/1864 – [41 anos] Neste domingo, participou pela primeira vez de um culto evangélico.

28/09/1864 – [41 anos] Entregou o cargo de padre ao Bispo de São Paulo, D. Sebastião Pinto do Rego.

09/10/1864 – [41 anos] Pregou pela primeira vez na Igreja presbiteriana do Rio, atraindo a atenção de muitos.

23/10/1864 – [41 anos] Fez a sua pública profissão de fé e foi batizado pelo Rev. A. L. Blackford, na Igreja Presbiteriana do Rio. Sendo culto e eloquente, a sua conversão causou consternação no clero católico.

05/03/1865 – É organizada a Igreja Presbiteriana em São Paulo, pelo Rev. A. L. Blackford.

13/11/1865 – É organizada a Igreja Presbiteriana de Brotas – SP, a primeira do interior do Brasil, graças ao trabalho evangelístico de J. M. da Conceição e à colaboração dos missionários.

16/12/1865 – Com três igrejas presbiterianas organizadas (Igreja do Rio, de São Paulo e de Brotas), é organizado o primeiro Presbitério no Brasil, o Presbitério do Rio de Janeiro (PRJN), na sede da Igreja Presbiteriana em São Paulo, sob a liderança de três pastores: Rev. A. G. Simonton, Rev. A. L. Blackford e Rev. Francis J. C. Schneider.

16/12/1865 – [43 anos] J. M. da Conceição é examinado pelo Presbitério, no dia da sua organização, acerca das suas convicções e considerado apto.

17/12/1865 – [43 anos] J. M. da Conceição pregou o seu sermão de prova (em Lucas 4.18-19) diante do Presbitério, sendo aprovado e ordenado ao Sagrado Ministério. Essa é a origem do Dia do Pastor Presbiteriano.

19/02/1867 – [45 anos] Foi decretada a sentença condenatória de excomunhão do ex-padre J. M. da Conceição, enviada às paróquias por uma Circular.

09/12/1867 – Falece o pioneiro Rev. A. G. Simonton, bem pouco antes de completar 35 anos, vítima de febre amarela.

25/12/1873 – [51 anos] Falece o Pastor J. M. da Conceição.

2. Destaques de sua vida

ANTES (como católico):

a) Compromisso inarredável com as Escrituras Sagradas e sentimento de que a Igreja Romana se deteriorou, desviando-se da simplicidade do Evangelho.

b) Processo crescente de inquietação, insatisfação e angústia espiritual, ao perceber o contraste e divergência entre as Escrituras Sagradas (Bíblia) e a doutrina e práticas da Igreja Católica Romana.

c) Suas pregações traziam incômodo à hierarquia católico-romana, razão pela qual era transferido de cidade em cidade.

DEPOIS (como presbiteriano):

d) Abraçou a fé reformada, pela influência dos primeiros missionários do presbiterianismo do Brasil, sendo ordenado pastor presbiteriano.

e) Não foi pastor de uma igreja fixa. Dedicou-se ao trabalho de “evangelista itinerante”, um “bandeirante da fé”, no interior da então província de São Paulo, visitando as cidades onde havia servido como padre, onde o zelo pelo ensino da Bíblia lhe rendeu o apelido de “padre protestante”. Encontrou nesses lugares o ambiente preparado para a formação de comunidades evangélicas. Nessas cidades e em muitas outras, plantou as sementes de futuras igrejas.

f) Foi bastante perseguido em suas peregrinações, não poucas vezes sendo alvo de agressões físicas.

g) Como fruto de seu trabalho, foram estabelecidas igrejas em Brotas, Americana, Santa Bárbara e várias outras cidades.

3. A síntese do seu ministério

O relato de Alderi Souza de Matos(*) sintetiza de forma eloquente e comovente o seu curto, mas impactante ministério pastoral (oito anos):

“O Rev. Conceição exerceu o seu ministério de maneira sacrificial e abnegada. Seu método era ir de vila em vila e de casa em casa, pregando, lendo e expondo a Bíblia. Vivia como um nômade, pregando em toda parte e experimentando toda sorte de privações, que lhe prejudicaram a saúde. Passava a noite em qualquer lugar que lhe oferecessem e, em sinal de reconhecimento, servia de enfermeiro a algum doente ou prestava pequenos serviços, como varrer e lavar. Alimentava-se de maneira frugal e o seu único vestuário era o que lhe cobria o corpo. Nas longas peregrinações, ocupava as horas vagas escrevendo a lápis sermões, traduzindo artigos e fazendo anotações curiosas sobre tudo o que observava. Quando se demorava por algum tempo em algum local onde podia dispor de comodidade, passava a limpo os seus sermões, hinos, notas e traduções, empregando em tudo muito método, clareza e uma bela caligrafia. Todos esses papéis ele levava consigo embrulhados em um pano, até poder dar-lhes o destino apropriado, enviando uns aos amigos e outros à redação da Imprensa Evangélica. Tinha uma presença nobre e atraente, voz harmoniosa, grande eloquência e pureza de vida. O pouco que possuía, dava aos pobres.”

(*) Alderi Souza de Matos é um professor, teólogo, historiador, pastor, escritor e apresentador televisivo presbiteriano brasileiro, que é atualmente o historiador oficial da Igreja Presbiteriana do Brasil.

4. Dia do Pastor Presbiteriano

A Palavra de Deus nos admoesta a lembrarmo-nos de algumas “coisas” que não devem ser esquecidas. O termo “lembrai-vos” ocorre cerca de 9 vezes no NT. Em uma delas: “Lembrai-vos dos vossos guias, os quais vos pregaram a palavra de Deus; e, considerando atentamente o fim da sua vida, imitai a fé que tiveram.” (Hb 13.7).

Em lembrança ao legado de José Manoel da Conceição, foi estabelecido o dia 17 de dezembro como “o Dia do Pastor Presbiteriano” sendo celebrado na Igreja Presbiteriana do Brasil no domingo mais próximo a esta data. Essa data nos remete à ordenação desse primeiro pastor presbiteriano brasileiro ao sagrado ministério, em 17/12/1865.

Um dia para os presbiterianos (pastores e pastoreados) celebrarem a bênção de poderem servir ao Supremo Pastor que nos comprou com o precioso sangue de Cristo, seu Filho. Um dia, também, para os membros da Igreja Presbiteriana do Brasil expressarem a gratidão e apreço aos seus pastores pelo trabalho realizado. Naturalmente que essa lembrança não deve ficar restrita apenas a este dia comemorativo. Em todos os dias os pastores devem ser lembrados pelo rebanho de Deus, nas suas orações. E, seus ensinamentos e conselhos, fundamentados na bíblia, devem ser guardados e praticados, para bênção individual, da família e da igreja de Cristo.

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Bibliografia:

(1) Lições da História da Igreja 3. Revista expressão. Lição 7. Editora Cultura Cristã.
(2) História da Igreja Presbiteriana do Rio de Janeiro (1862-2012). Livro comemorativo do Sesquicentenário.
(3) Matos, Alderi Souza de.  Instituto Presbiteriano Mackenzie.
      https://web.archive.org/web/20130117115941/http://www.mackenzie.br/10177.html
(4) Wikipédia.

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Os pioneiros:

Rev. Ashbel Green Simonton (20/01/1833 – 09/12/1867)(34 anos)
     Esposa: Helen Murdoch  (1834–1864)(30 anos)
     Filha: Helen Murdoch Simonton (1864–1952)(88 anos)

Rev. Alexander Latimer Blackford (09/01/1829 – 14/05/1890)(61 anos)
     Esposa: Elizabeth Wiggins Simonton (1822–1879)(56 anos)

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Ofícios, Encargos e Ministérios

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Introdução:

O termo “ofício” pode ser definido como a atividade específica que se exerce em instituições, que pode ser ou não temporária; “trabalho”, “ocupação”, “cargo”, “função”. Enquanto “cargo” diz respeito a posição da pessoa na organização, o termo “encargo” tem mais a ver com a “tarefa”, o “dever”: “Pois pareceu bem ao Espírito Santo e a nós não vos impor maior encargo além destas coisas essenciais:” (At 15.28). Nesta mesma linha temos os termos “incumbência”, “missão”: “Barnabé e Saulo, cumprida a sua missão, voltaram de Jerusalém, levando também consigo a João, apelidado Marcos.” (At 12.25). E, de certa forma, o termo “obrigação”: “Se anuncio o evangelho, não tenho de que me gloriar, pois sobre mim pesa essa obrigação; porque ai de mim se não pregar o evangelho!” (1Co 9.16). Outro termo muito familiar no meio eclesiástico é “ministério”, frequentemente usado como tradução do grego “diakonia” (diaconia). Trata-se do desempenho de um serviço, neste caso, um serviço religioso, como, por exemplo, o do apóstolo Paulo: “Sou grato para com aquele que me fortaleceu, Cristo Jesus, nosso Senhor, que me considerou fiel, designando-me para o ministério,” (1Tm 1.12). De fato, Deus tem um ministério ou serviço para cada crente, na igreja local e fora dela.

Na igreja presbiteriana, “o Ministro do Evangelho é o oficial consagrado pela Igreja, representada no Presbitério, para dedicar-se especialmente à pregação da Palavra de Deus, administrar os sacramentos, edificar os crentes e participar, com os presbíteros regentes, do governo e disciplina da comunidade.” (CI/IPB, Art. 30). Há que se falar, também, em designações ou títulos atribuídos aos que servem a Cristo na igreja, encontrados no Novo Testamento: apóstolo, presbítero ou ancião ou bispo, pastor, diácono, embaixador de Cristo, evangelista, pregador, mestre, despenseiro dos mistérios de Deus etc.

1. Presbíteros ou anciãos (pastores / bispos)

Além dos apóstolos, havia dois outros ofícios importantes na igreja primitiva: o de presbítero e o de diácono.

a) Havia três títulos, mas um só ofício: i) Presbítero ou ancião: termo que expressava dignidade e maturidade na fé; ii) Bispo(1): termo que expressava direção, superintendência; e, iii) Pastor: termo que expressava ternura, cuidado do rebanho.

b) A pluralidade de presbíteros era o padrão do NT (At 14.23; 20.7; Tt 1.5; Tg 5.14; 1Pe 5.1-2). Na epístola aos Hebreus estes são chamados de Guias (Hb 13.17). Não importava quão pequena fosse a igreja, esse era o padrão.

c) Esses presbíteros tinham a responsabilidade de dirigir / governar e ensinar a igreja, pastorear e zelar por ela (At 20.28; Tt 1.9; 1Tm 5.17; Hb 13.17; 1Pe 5.2-5).

d) Para poderem desempenhar bem o seu ofício, os presbíteros precisam ter algumas qualificações. São listados cerca de 21 requisitos, sendo cinco apenas em 1 Timóteo 3.1-7, sete em Tito 1.5-9 e, nove comuns aos dois textos.

e) Embora o NT não especifique um processo de seleção de presbíteros, pode-se dizer que Deus constitui os presbíteros (At 20.28), a igreja os reconhece e elege (At 14.23) e os mesmos desempenham o ofício.

2. Diáconos

a) A palavra “diácono” é a transliteração da palavra grega diákonos, que significa “servo”. Se considerarmos que Jesus enalteceu o servir, temos aqui um ofício efetivamente nobre (Mt 20.28; Jo 12.26).

b) A pluralidade de diáconos era o padrão do NT (Fp 1.1; 1Tm 3.8). Na comunidade de Jerusalém foram escolhidos 7 homens para “servir às mesas” (At 6.5). Ainda que ali não estivesse plenamente caracterizado o ofício de diácono, certamente foi o seu embrião.

c) No NT não há uma clara especificação de sua função na igreja, exceto que sua função é diferente da do presbítero. Inicialmente eles absorveram, por delegação dos apóstolos, algumas responsabilidades administrativas ou materiais (At 6.2), enquanto aqueles se consagrariam à oração e ao ministério da palavra (At 6.4). Estariam mais voltados a atender às necessidades físicas da comunidade cristã, a algum tipo de visitação e ação social, juntamente com suas esposas, daí terem sido estabelecidas algumas qualificações para as esposas destes (1Tm 3.11). Portanto, os diáconos não têm autoridade de liderança e governança sobre a igreja, como tem os presbíteros e devem atuar sob sua orientação e direção.

d) Para poderem desempenhar bem o seu ofício, os diáconos precisam ter algumas qualificações. Cremos que os ofícios de diácono e de presbítero, devem ser exercidos por homens, cujas qualificações são descritas na Bíblia em duas únicas listas: 1Timóteo 3.1-13 e Tito 1.5-9. E não é por acaso que tais instruções aparecem na Bíblia, lado a lado: “Semelhantemente…” (1Tm 3.8). Vale observar que não há que se exigir que os diáconos sejam aptos a ensinar a Bíblia ou a sã doutrina. Se o forem, tanto melhor!

3. A escolha de oficiais

Existem duas práticas principais sendo utilizadas para a seleção dos oficiais da igreja: por uma autoridade superior, ou pela igreja reunida em assembleia. No NT há diversas ocasiões em que os oficiais foram, aparentemente, escolhidos por toda a congregação. Embora o NT não especifique um processo de seleção de oficiais, pode-se dizer que Deus constitui os presbíteros e diáconos (At 20.28), a igreja os reconhece e elege (At 6.3; 14.23) e os mesmos desempenham os seus respectivos ofícios. Não deve haver precipitação nas indicações de oficiais (1Tm 5.22) e a igreja deve cumprir o seu papel, observando o exemplo de vida e as qualificações(2) dos candidatos.

Conclusão:

Cremos na diaconia universal dos crentes, homens e mulheres, ao lado do sacerdócio universal dos crentes. Todos os remidos foram chamados pelo Senhor para servir, para realizar as boas obras: “Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas.” (Ef 2.10). Servo, no grego, “doulos” (escravo, aquele que deve cumprir a vontade do seu Senhor, sem se importar com sua própria vontade) ou “diakonos” (aquele que realiza tarefas para ajudar os outros) é a nobre missão de cada crente, pois o Senhor Jesus é o exemplo maior. “Pois o próprio Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos.” (Mc 10.45). Para servir não é necessário ter um cargo ou um ofício. Assim é que o termo servir é empregado em todo o NT no sentido não-técnico, referindo-se a homens e mulheres que serviam a essa ou àquela igreja local.

Referências:

(1)  “Embora em algumas partes da igreja, do segundo século em diante, a palavra bispo tenha sido usada para referir-se a um indivíduo com autoridade sobre diversas igrejas, este é um desdobramento do termo e não é encontrado no Novo Testamento.” (Wayne Grudem)

(2)  “Aqueles que escolhem presbíteros nas igrejas de hoje fariam bem se analisassem os candidatos à luz dessas qualificações e procurassem esses traços de caráter e padrões de vida piedosa e não realizações terrenas, fama ou sucesso.” (Wayne Grudem). Cremos que o mesmo se aplica na escolha de diáconos.

Bibliografia:

. Constituição da Igreja Presbiteriana do Brasil (CI/IPB).
. GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática. Vida Nova, 1999.


Veja também: As qualificações dos presbíteros

Veja também: As qualificações dos diáconos

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