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Os 20 Dons Espirituais

Os Dons Espirituais

Introdução:

Enquanto os ofícios e encargos dizem respeito às atividades ou serviços desenvolvidos na igreja, os dons (naturais e espirituais) nos remetem à questão da capacitação ou habilidade ou qualificação para a realização desses serviços. Não se pode deixar de mencionar aqui a relevância, para a igreja, daqueles dons espirituais ou sobrenaturais concedidos aos crentes, pelo Espírito Santo, bem como a importância daqueles dons naturais ou talentos que cada crente possui. Ao considerarmos os apóstolos Pedro e Paulo, ambos homens de Deus e cheios do Espírito Santo, constatamos que o serviço desenvolvido por cada um deles foi, até certo ponto diferente: Pedro foi bastante usado por Deus na expansão do Evangelho, principalmente entre os judeus; enquanto Paulo, entre os gentios, sendo que coube, principalmente a Paulo, a sistematização e ensino da doutrina cristã. Certamente, porque os nossos talentos naturais e capacitações pessoais, quando submetidos a Deus, depositados ao pé da cruz de Cristo, podem e serão usados por ele.

Desenvolvimento:

1. DOM NATURAL ou TALENTO

Dom natural ou talento é a capacitação que nos permite usar, de forma excepcional, as competências que cada um de nós tem ou adquire ao longo da vida e, assim, gerar resultados diferenciados e significativos. Todos nascemos com competências, ou aptidões para certos tipos de trabalhos ou atividades. Precisamos identificá-las, desenvolvê-las e empregá-las, para o bem da família, da igreja e da sociedade.

2. DOM ESPIRITUAL ou SOBRENATURAL

“A respeito dos dons espirituais, não quero, irmãos, que sejais ignorantes.” (1Co 12.1). Não há dúvida de que precisamos conhecer as doutrinas bíblicas, tais como: da Redenção, da forma de atuação do Espírito Santo na igreja, da atualidade dos dons espirituais e a da Escatologia Bíblica ou da Doutrina das Últimas Coisas, dentre outras. Então, comecemos por não confundir “FRUTO DO ESPÍRITO”, com seus “9 gomos” (Gl 5.22-23), que são manifestações do caráter do crente regenerado pelo Espírito, com os “DONS DO ESPÍRITO” que são capacitações do Espírito Santo para as realizações na igreja. Também é necessário distinguir “dom natural ou talento”, de “dom espiritual ou sobrenatural”, em que pese o valor e utilidade de ambos a serviço de Deus, na igreja e fora dela. Os salvos (nascidos de novo) recebem o dom, que é o próprio Espírito. Os carismas do Espírito são dados para habilitar o crente – aquele que tem o Espírito Santo – a servir a Deus de modo útil.

Podemos dizer que há cerca de 20 dons espirituais, os quais são mencionados nas Escrituras Sagradas em Romanos 12.6-8, 1Coríntios 12.8-10, 1Coríntios 12.28 e Efésios 4.11. Este assunto sempre foi e será importante e sensível para igreja. Há algumas décadas atrás agitou o mundo eclesiástico e dividiu algumas igrejas. Há igrejas ou denominações que supervalorizam os dons espirituais, enquanto outras têm medo de lidar com o assunto. Há, também, crentes fascinados por tudo o que diz respeito a poder sobrenatural, mas pouco se importam com o amor cristão e com o discipulado que paga o preço de um autêntico estilo de vida cristão. Os extremos são prejudiciais à igreja.

Independentemente se todos esses dons continuam, se alguns deles cessaram ou quase não se manifestam, atualmente (Continuísmo, Cessacionismo e Cessacionismo moderado), são estes os 20 dons mencionados no Novo Testamento:

2.1 Dons Ministeriais:
(Dons que concedem capacitação sobrenatural para o exercício dos ministérios.)

1º) O dom de APÓSTOLO (Ef 4.11a; 1Co 12.28a)

No sentido de apóstolo de Jesus ficou restrito aos doze (ou treze – Paulo 1Co 9.1), conforme credenciais do apostolado (2Co 12.12; At 1.21-22). No sentido da palavra (gr, apostolov ou apostolos) é um enviado, conhecido pela igreja de hoje como um missionário.

2º) O dom de PROFETA (Ef 4.11b; 1Co 12.28b)

No sentido bíblico do AT (gr. profhthv ou prophetes) os profetas eram a boca de Deus aos homens para denunciar o pecado, advertir, anunciar o julgamento divino, a restauração futura e, finalmente, o julgamento dos povos usados como instrumento divino para aplicar o castigo a Israel. E, também, para exortar, consolar, ensinar e aconselhar, com toda a autoridade de quem representa e fala em nome de Deus ao povo. Este ministério findou com João Batista, conforme as palavras de Jesus em Mt 11.13. Mas, Jesus foi e é o ápice deste ministério: “Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o universo.” (Hb 11.1-2). Portanto, em termos de igreja, os profetas de hoje são os pregadores da Palavra de Deus. “Mas o que profetiza fala aos homens, edificando, exortando e consolando.” (1Co 14.3)

3º) O dom de EVANGELISTA (Ef 4.11c)

O dom de evangelista se caracteriza pela capacitação sobrenatural concedida pelo Espírito Santo para anunciar o evangelho; expor com clareza e persuasão o caminho da salvação em Jesus. Exemplo disso é o diácono Filipe, o evangelista (At 21.8). Não podemos perder de vista que todo o cristão é chamado a pregar o evangelho e não apenas os que recebem uma capacitação especial.

4º) O dom de PASTOR (Ef 4.11d)

O dom de pastor se caracteriza pela capacitação sobrenatural concedida pelo Espírito Santo para “cuidar”, “apascentar” o rebanho de Deus. O dom de pastor não deve ser confundido com o ofício de pastor de uma igreja. Enquanto o dom de evangelista é usado para alcançar os não convertidos, o dom de pastor para cuidar dos convertidos.

5º) O dom de MESTRE (Ef 4.11; Rm12.7b; 1Co 12.28c)

O dom de mestre se caracteriza pela capacitação sobrenatural concedida pelo Espírito Santo para “ensinar” a Palavra de Deus – a Bíblia – a Sã Doutrina. O mestre é aquele que conhece e pratica a Bíblia e é apto, hábil, para transmitir aos outros as verdades bíblicas.

2.2 Dons Operacionais:
(Dons que concedem capacitação sobrenatural para o funcionamento da Igreja.)

6º) O dom de PROFECIA (Rm 12.6; 1Co 12.10b)

O dom de profecia (gr, Propheteia) é a proclamação e exposição de algo novo e importante recebido de Deus, das Sagradas Escrituras, mediante o poder do Espírito Santo, para edificar, exortar e consolar um irmão ou a igreja (1Co 14.3).

7º) O dom de EXORTAÇÃO (Rm 12.8a)

O dom de exortação se caracteriza pela capacitação sobrenatural concedida pelo Espírito Santo para convencer, persuadir, aconselhar, animar, encorajar alguém a seguir determinada conduta, principalmente os valores da vida cristã.

8º) O dom de GOVERNO (Rm 12.8c; 1Co 12.28g)

O dom de governo se caracteriza pela capacitação sobrenatural concedida pelo Espírito Santo para presidir e liderar.

9º) O dom de MINISTÉRIO ou SERVIÇO (Rm 12.7a)

O dom de ministério ou serviço (gr, diakonia) se caracteriza pela capacitação sobrenatural concedida pelo Espírito Santo para servir a igreja, os irmãos ou o próximo, nas múltiplas oportunidades e situações que se nos oferecem no cotidiano.

10º) O dom de MISERICÓRDIA (Rm 12.8d)

O dom de misericórdia se caracteriza pela capacitação sobrenatural concedida pelo Espírito Santo para exercer misericórdia, aliviando a aflição e o sofrimento, perdoando os faltosos.

11º) O dom de SOCORROS (1Co 12.28f)

O dom de socorros se caracteriza pela capacitação sobrenatural concedida pelo Espírito Santo para auxiliar, ajudar, suportar a carga de outros.

12º) O dom de CONTRIBUIR (Rm 12.8b)

O dom de contribuir se caracteriza pela capacitação sobrenatural concedida pelo Espírito Santo para dar, repartir, recursos financeiros e outras bênçãos recebidas de Deus. Vale lembrar que“Deus dá! O Diabo rouba! O homem retém!” (quanto ao homem, essa é a sua tendência).

2.3 Dons de Revelação:
(Dons que concedem capacitação sobrenatural para saber.)

13º) O dom da PALAVRA DE SABEDORIA (1Co 12.8a)

O dom da Palavra de Sabedoria (gr, Logos Sophia) se caracteriza pela comunicação de uma palavra (logos) de sabedoria a outros, revelada mediante a operação sobrenatural do Espírito Santo. Tal palavra aplica a sabedoria da Palavra de Deus ou a sabedoria do Espírito Santo a uma situação ou problema específicos.

14º) O dom da PALAVRA DE CONHECIMENTO (1Co 12.8b)

O dom da Palavra de Conhecimento (gr, Logos Gnôsis) se caracteriza pela comunicação de uma palavra (logos) a outros, mediante a operação sobrenatural do Espírito Santo, revelando conhecimento a respeito de pessoas, de fatos, de circunstâncias, ou de verdades bíblicas.

15º) O dom de DISCERNIMENTO DE ESPÍRITOS (1Co 12.10c)

O dom de discernimento de espíritos (gr, Diakriseis Pneumaton) é a capacidade sobrenatural, conferida pelo Espírito Santo, para identificar se determinada manifestação tem origem divina ou satânica ou humana.

2.4 Dons de Poder:
(Dons que concedem capacitação sobrenatural para agir.)

16º) O dom da FÉ (1Co 12.9a)

O dom da fé (gr, Pistis) se caracteriza por uma profunda e sobrenatural convicção e certeza, inoculadas pelo Espírito Santo, de algo a ser realizado que seja proveitoso para a igreja, para o reino de Deus ou para pessoas que Deus queira abençoar.

17º) Os dons de CURAR (1Co 12.9b; 1Co 12.28e)

Os dons de curar (gr, Carismata Iamaton) se caracterizam por um poder sobrenatural, outorgado pelo Espírito Santo, para o restabelecimento imediato da saúde de pessoas enfermas alcançadas pela misericórdia de Deus, para a glória de Deus, para testemunho do Evangelho e para bênção da Igreja de Cristo.

18º) O dom de OPERAÇÃO DE MILAGRES (1Co 12.10a; 1Co 12.28d)

O dom de operação de milagres (gr, Energemata Dynameon) é uma intervenção sobrenatural nas leis da natureza ou no mundo, mediante o poder do Espírito Santo.

2.5 Dons de Comunicação:
(Dons que concedem capacitação sobrenatural para se comunicar.)

19º) O dom de LÍNGUAS (1Co 12.10d; 1Co 12.28h)

O dom de variedade de línguas é a capacidade sobrenatural, conferida pelo Espírito Santo, para falar em outra língua desconhecida para quem fala.

20º) O dom de INTERPRETAÇÃO DE LÍNGUAS (1Co 12.10e)

O dom de interpretação de línguas é a capacidade sobrenatural, conferida pelo Espírito Santo, para se interpretar outra língua, desconhecida para quem fala e para que a interpreta.

Conclusão:

A presença de sinais e prodígios não é garantia da manifestação do poder do Espírito Santo: “porque surgirão falsos cristos e falsos profetas operando grandes sinais e prodígios para enganar, se possível, os próprios eleitos.” (Mt 24.24). Por outro lado, a ausência de sinais também não é garantia de um status espiritual superior, de mais equilíbrio, de doutrina correta.  Pode ser até um sintoma de apostasia, de vida em pecado e consequente afastamento de Deus. De fato, a questão é que a igreja não pode prescindir da ação e do poder do Espírito Santo!

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Síntese: Os 20 dons do Espírito Santo.pdf

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A santidade e a misericórdia

Textos Base: Levíticos 20.26; Colossenses 1.21-23

Introdução:

O tema deste estudo é interessante e desafiador, como sempre. Mas, o que o cristão tem a ver com palavras como “santo ou santa”, “santidade”, “santificar” e “santificação”, de um lado, e, “misericórdia”, do outro?  Desde o início da história da religião, expressões como “santo” e “sagrado” denotavam, por parte do ser humano, a esfera do “poder” (superior ou divino), o que era considerado por ele, de certa forma, como algo ameaçador e temível. O oposto a “santo” era, e é, o “profano”, ou seja, aquilo que ficava fora do âmbito divino, a esfera da vida humana. Então, as raízes da religião se acham nos esforços despendidos pelo homem para agradar esse poder superior e temível, bem como para separar o que é “santo”, mediante práticas cultuais e rituais, da profanação e contaminação causadas por coisas profanas.

Os gregos empregavam três grupos de palavras diferentes para expressar aquilo que é “santo”: hieros, com seus numerosos derivados, denota aquilo que é essencialmente “santo”, o “poder divino”, ou aquilo que era consagrado àquele – “santuário”, “sacrifício” e “sacerdote”; diferentemente, hagios (o grupo de palavras mais frequente no NT e que vamos abordar aqui) contém um elemento ético; e, hosios, nesta mesma linha, de um lado, indica o mandamento e a providência divinos, do outro, a obrigação e moralidade humanas. Os gregos também empregavam três palavras diferentes para expressar misericórdia, compaixão, dó e “dor no coração”: eleos, oiktirmos e splanchna.

Neste estudo aula vamos examinar a questão da santidade, no Antigo Testamento (AT) e no Novo Testamento (NT), bem como o lugar da misericórdia no plano de Deus. Inicialmente é importante nos familiarizamos com algumas definições. Santo ou santa, como substantivos, se referem a seres e pessoas diferenciados e especiais, que se elevam acima dos demais, bem como a coisas e lugares sagrados ou consagrados ao culto ou à divindade; como adjetivos, se referem a qualidades ou virtudes. Santidade é o estado do que é santo. Santificar é tornar(-se) santo. Santificação é o ato ou efeito de santificar, de tornar(-se) santo. Santuário é o lugar sagrado, santo, dedicado ao culto ou cerimônias de uma religião (templo etc).

Desenvolvimento:

1. A SANTIDADE NO AT

Nossos primeiros pais tiveram contato direto com esse “ser santo”, o poder criador e sustentador de todas as coisas. Ao desobedece-lo, experimentaram seu poder, seu juízo e a separação dele (morte espiritual). No AT percebe-se a intenção explícita de ensinar que o “santo” deve ser tratado diferentemente do “profano”: “para fazerdes diferença entre o santo e o profano e entre o imundo e o limpo” (Lv 10.10; comp. Ez 22.26; 42.20 e 44.23). Algumas vezes, pessoas tiveram que pagar com a vida, por não distinguirem o santo do profano, como no caso dos 70 homens de Bete-Semes, que olharam para dentro da arca do Senhor. “Então, disseram os homens de Bete-Semes: Quem poderia estar perante o SENHOR, este Deus santo? E para quem subirá desde nós?” (1Sm 6.19-20). A relação sexual, no âmbito do casamento, não é imoral ou impura, em si; pelo contrário, é um presente de Deus para o casal. Entretanto, havia o entendimento de que deveria ser evitada, como forma de preparo para se entrar em contato com aquele ou aquilo que é santo (Êx 19.15; 1Sm 21.4).

São mencionados no AT como sendo “santo(s)” ou “santa(s)”:

a) O próprio Deus – “este Deus santo” (1Sm 6.19-20). Também é chamado de o “Santo de Israel” (Is 31.1). Nenhum outro deus é santo como ele (1Sm 2.2). O seu nome era santo e não devia ser pronunciado em vão (Êx 20.7; Lv 20.3).

b) Os seres celestiais são santos (Jó 5.1; Dn 4.13, 23; 8.13).

c) A terra onde se pisa, na presença divina ou celestial é santa (Ex 3.5; Js 5.15). Onde o Senhor habita é santo lugar (Sl 24.3-4).

d) O profeta Eliseu foi identificado, pela sunamita, como “santo homem de Deus” (2Rs 4.9). Arão, foi chamado “o santo do Senhor” (Sl 106.16). Sansão, como “nazireu de Deus”, neste mesmo sentido é santo (Jz 13.7; 16.17; Nm 6.5, 8).

e) O povo de Israel é considerado como o “povo santo ao Senhor”, por ele mesmo escolhido e separado dos demais (Dt 7.6; 14.2, 21; 26.19). Entretanto, nem todos, do povo, eram santos, como Coré, Datã e Abirão tentaram argumentar (Nm 16.3-5). Essa santidade demandava a guarda dos mandamentos e o andar nos caminhos do Senhor (Dt 28.9).

f) Os primogênitos (homem, gado, ovelha, cabra) são santos (Ex 13.2; Nm 18.17).

g) Havia lugares santos (Sl 74.8; Ez 7.24) e montes santos (Sl 87.1).

h) Tudo quanto pertence ao âmbito do culto ou é apresentado a Deus é santo:

  • O santo templo do Senhor (Sl 5.7).
  • O sacerdote é santo (Lv 21.7-8).
  • O pão da proposição do tabernáculo e do templo é chamado de pão sagrado ou santo (1Sm 21.4); bem como os animais e as carnes consagradas (Êx 29.34; Lv 23.20; 27.9-10).
  • A arca, os altares e seus utensílios (2Cr 8.11).
  • O óleo da unção, o incenso, a água santa (Êx 30.32; 30.34-35; Nm 5.17).
  • O dinheiro do templo é santo (Êx 28.2; Ed 8.28).
  • As vestes santas dos sacerdotes (Êx 28.2; 29.29);
  • A lâmina no peitoral do sumo sacerdote, continha a inscrição: “Santidade ao Senhor”.
  • O sábado do descanso e dedicação ao Senhor é santo (Êx 16.23; 31.14-15; 35.2). O jubileu é santo (Lv 25.120.
  • A colheita a ser ofertada ao Senhor é santa (Lv 19.24).
  • O dízimo é santo (Lv 27.32).
  • O santo jejum (Jl 1.14; 2.15).

Havia, também, o processo de se “tornar santo” ou “santificar(-se)”:

a) Após ter sido excluído da comunidade por causa da impureza (2Sm 11.4).

b) Quando se entrava em contato com Deus (Êx 19.10; 1Sm 21.5; 1Sm 16.5).

c) Na consagração de levitas ao sacerdócio (1Sm 7.1).

d) Na consagração de coisas a Deus (prata – Js 6.19; Jz 17.3; o átrio do templo – 1Rs 8.64).

e) Havia a “transferência da santidade” pelo tato (Êx 29.37; 30.29; Lv 6.18). Da mesma forma, a impureza também é transferível (Ag 2.11).

É no livro do profeta Isaías que encontramos a tríplice aclamação dos Serafins ao Deus três vezes Santo: “E clamavam uns para os outros, dizendo: Santo, santo, santo é o SENHOR dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória.” (Is 6.3). Diante da visão dessa perfeita santidade divina, qualquer ser humano, inclusive o profeta Isaías, não tem como deixar de reconhecer sua impureza e pequenez. Assim, resta-lhe clamar e submeter-se ao processo de purificação que procede do altar. (Is 6.3-7).  A santidade de Deus requer a santidade da pessoa que dele se aproxima e do povo chamado pelo seu nome: “Fala a toda a congregação dos filhos de Israel e dize-lhes: Santos sereis, porque eu, o SENHOR, vosso Deus, sou santo.” (Lv 19.2; comp. Lv 11.44-45; 20.7, 26). É através da Lei Mosaica que Deus outorga, também, a “Lei da Santidade”. Visto que a pureza é a característica apropriada de tudo quanto é santo, é dever de todo participante do culto ser puro (santificar-se).

2. A SANTIDADE NO NT

Quando examinamos esse assunto no NT constatamos que a ênfase na santidade continua, porém, com contornos diferentes do AT. O Deus Criador e Deus de Israel, referido no AT como “o Santo” (Is 5.16; 40.25; Os 11.9, 12 e Hc 3.3 – 5 vezes) ou o “Santo de Israel/Jacó” (33 vezes), raramente é descrito assim no NT (Jo 17.11; 1Pe 1.15-16; Ap 4.8 e 6.10 – 4 vezes). Numa dessas citações, também ele é aclamado continuamente pelos quatro seres viventes, como Santo, Santo, Santo (Ap 4.8; comp. Is 6.3). As expressões “Santo nome” ou “nome Santo”, atribuídas a Deus, ocorrem cerca de 23 vezes, no AT; enquanto nenhuma, no NT. Entretanto, no NT, Deus, a primeira pessoa da trindade, é apresentado como “Pai” (cerca de 259 vezes), contrastando com o AT, quando assim foi referido menos de 20 vezes. Da mesma forma, o “Espírito Santo”, a segunda pessoa da trindade, no NT é citado cerca de 104 vezes (Espírito Santo, Santo Espírito ou Espírito de Deus), enquanto no AT, cerca de 17 vezes. Por sua vez, Jesus, a terceira pessoa da trindade, o Deus encarnado, é mencionado no NT, como o “Santo” (de Deus) cerca de 6 vezes (Mc 1.24; Lc 4.34; Jo 6.69; At 3.14; Ap 3.7; 16.5).

Outros aspectos de contraste interessantes, envolvendo a palavra “santo” no AT e no NT, são:

a) “santo monte” ou “monte santo”, o lugar da “habitação do Deus Santo”, é citado 24 vezes, no AT e 1 vez, no NT (2Pe 18). É notável como no NT Jesus se desloca frequentemente para os montes, principalmente para orar.

b) “lugar santo” ou “santo lugar”, é mencionado 31 vezes, no AT e, 4 vezes, no NT, normalmente citando o AT.

c) “templo santo” ou “santo templo” é citado 10 vezes, no AT e nenhuma, no NT. “Santuário” é uma palavra que ocorre cerca de 161 vezes no AT, se referindo ao Tabernáculo, ao Templo de Jerusalém ou ao celestial ou a um novo templo, mas não a uma pessoa. Já no NT a palavra santuário aparece apenas 46 vezes, sendo que por 9 vezes referindo-se a pessoas (Jesus, 3 vezes e os cristãos, 6 vezes). Portanto, no NT, a principal habitação de Deus não é mais um monte, ou um lugar ou um templo físico. O lugar em que Deus deseja habitar e tornar santo é o coração humano e, por extensão a igreja, como o corpo de Cristo: “Respondeu Jesus: Se alguém me ama, guardará a minha palavra; e meu Pai o amará, e viremos para ele e faremos nele morada.” (Jo 14.23); “no qual também vós juntamente estais sendo edificados para habitação de Deus no Espírito.” (Ef 2.22); “Não sabeis que sois santuário de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?” (1Co 3.16; ver tb 1Co 3.17; 6.19; 2Co 6.16).

Do exposto acima, já se pode deduzir que o conceito neotestamentário de santidade é determinado em conformidade com o Espírito Santo, a dádiva da Nova Aliança. Em decorrência disso, a esfera apropriada daquilo que é santo, no NT, não é a ritual e física. O sagrado já não pertence a coisas, a lugares ou a ritos, mas, sim, às manifestações da vida que o Espírito Santo produz. A santificação, no NT, não se dá pelo “tato” (tocar objetos “santos”), mas, pode ocorrer pelo convívio com pessoas santas (1Co 7.14). Tudo isso porque o AT serviu como figura e sombra das coisas que haviam de vir (Cl 2.16-17).

São mencionados no NT como sendo “santo(s)” ou “santa(s)”, quando não estão se referindo ao AT:

a) O nome de Deus é chamado “santo” (Lc 1.49).

b) Os anjos são santos (Mc 8.38; Lc 9.26; At 10.22; Jd 14; Ap 14.10).

c) Os profetas são santos (Lc 1.70; At 3.21; 2Pe 3.2).

d) Os apóstolos são santos (Ef 3.5).

e) A sua Aliança é santa (Lc 1.72). A lei é santa (Rm 7.12).

f) As Escrituras são sagradas (santas) (Rm 1.2; 2Tm 3.15).

g) Mãos santas (1Tm 2.8).

h) Igreja santa (Ef 5.27).

i) Santa vocação (2Tm 1.9).

A Igreja Católica Romana preserva muito da tradição vétero-testamentária (judaísmo), dando ênfase a santificação de coisas e determinadas pessoas; canonizando “santos” em face das suas obras e enfatizando as obras como meio de graça (sacramentos, confissão auricular, penitências, indulgências, relíquias, formas de piedade e purgatório). Contrariamente a tudo isso, no NT, o Deus Santo e quase inatingível, que está no seu alto e sublime trono, vem ao encontro e se aproxima do pecador, em Cristo, o Deus encarnado. Este traz o Evangelho, as boas novas de salvação e graça. Assim, através da redenção e dos méritos de Cristo, os pecadores arrependidos são regenerados e habitados pelo Espírito Santo, tornando-se santos. Além da designação de “irmãos” (225 vezes), é significativo que os remidos por Cristo são mencionados, predominantemente, no NT (a partir do Livro de Atos), individualmente ou coletivamente, não como os “do caminho” (1 vez), ou “cristãos” (3 vezes), ou “fiéis” (7 vezes), ou “eleitos” (8 vezes), ou “crentes” (9 vezes), ou “chamados” (14 vezes), ou “servos” (30 vezes), ou “amados” (31 vezes) mas, para surpresa de muitos, como “santos” (66 vezes)! E, Jesus, foi chamado “santo Servo” (At 4.27, 30), tornando-se, assim, o nosso paradigma.

Infelizmente, alguns grupos chamados de cristãos, ainda não entenderam a eclesiologia do NT, alicerçada no sacerdócio universal dos crentes (santos), cuja governança é exercida pelos presbíteros (docentes e regentes). Antes, preservam a estrutura “hierárquica” do judaísmo do AT, com seu “sumo sacerdote” (“o santíssimo”), os sacerdotes (“os super santos”), os levitas (“os mais santos”) e o povo de Deus (“os santos”). É relevante assinalar aqui, que no Apocalipse, os crentes são considerados sacerdotes no reino de Deus (Ap 1.6; 5.10; 20.6). Fala-se da Nova Jerusalém, a cidade santa, onde não há templo: “Nela, não vi santuário, porque o seu santuário é o Senhor, o Deus Todo-Poderoso, e o Cordeiro.” (Ap 21.22).

3. A MISERICÓRDIA

Como nosso assunto é santidade e misericórdia, o objetivo aqui é tratar, em primeiro plano, da misericórdia de Deus para com os homens, e em segundo, a misericórdia entre os homens. Vale lembrar que:

GRAÇA – É Deus nos dar o bem que não merecemos.

MISERICÓRDIA – É Deus não nos imputar o castigo que merecemos.

“Dizer que Deus tem como atributo a santidade é dizer que ele é separado do pecado e dedica-se a buscar a sua própria honra.” (2). Essa sua santidade requer a nossa santidade, a nossa separação do pecado: “Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste.” (Mt 5.48). Sobre essa misericórdia podemos fazer as seguintes afirmações, com base na Bíblia:

a) A misericórdia é um dos atributos ou características da natureza divina (Ex 34.6; Sl 103.8): “Deus é espírito, em si e por si infinito em seu ser, glória, bem-aventurança e perfeição; todo-suficiente, eterno, imutável, insondável, onipresente, infinito em poder, sabedoria, santidade, justiça, misericórdia e clemência, longânimo e cheio de bondade e verdade.” (3)

b) Por nossos próprios esforços e obras não podemos atender as exigências da santidade divina e nos aproximarmos de Deus: “Então, Josué disse ao povo: Não podereis servir ao SENHOR, porquanto é Deus santo, Deus zeloso, que não perdoará a vossa transgressão nem os vossos pecados.” (Js 24.19); “não por obras de justiça praticadas por nós, mas segundo sua misericórdia, ele nos salvou mediante o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo,” (Tt 3.5).

c) Diante da limitação e fraqueza humanas, deixando de alcançar e se manter no padrão divino de pureza e perfeição, entra em cena a misericórdia divina: “As misericórdias do SENHOR são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim; renovam-se cada manhã. Grande é a tua fidelidade.” (Lm 3.22-23)

d) O ápice da manifestação da misericórdia divina se deu no sacrifício de Cristo, na cruz do Calvário: “No Evangelho Deus proclama o seu amor ao mundo, revela clara e plenamente o único caminho da salvação, assegura vida eterna a todos quantos verdadeiramente se arrependem e creem em Cristo, e ordena que esta salvação seja anunciada a todos os homens, a fim de que conheçam a misericórdia oferecida e, pela ação do Seu Espírito, a aceitem como dádiva da graça.” (4)

e) A misericórdia de Deus não significa sua renúncia à justiça e juízo: “mas o que se gloriar, glorie-se nisto: em me conhecer e saber que eu sou o SENHOR e faço misericórdia, juízo e justiça na terra; porque destas coisas me agrado, diz o SENHOR.” (Jr 9.24)

f) Para a alegria e consolo dos remidos do Senhor, a misericórdia de Deus dura para sempre: “Rendei graças ao SENHOR, porque ele é bom, porque a sua misericórdia dura para sempre.” (Sl 136)

g) Assim como Deus é misericordioso para com os que, em Cristo, se aproximam dele, devemos ser misericordiosos para com o nosso próximo: “Revesti-vos, pois, como eleitos de Deus, santos e amados, de ternos afetos de misericórdia, de bondade, de humildade, de mansidão, de longanimidade.” (Cl 3.12).

Conclusão:

A santidade e a misericórdia de Deus se manifestam desde a criação e acompanharão o seu povo até o final dos tempos. Somos chamados e desafiados a viver essa vida santa num mundo tão corrompido; a ser sal, fora do saleiro, e luz, em lugar alto. “Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai de misericórdias e Deus de toda consolação!” (2Co 1.3)

Bibliografia:

(1) Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. Vida Nova, 1983.
(2)  GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática. Vida Nova, 1999.
(3) O Catecismo Maior de Westminster. Editora Cultura Cristã, 2005. (Pergunta e resposta 7).
(4)  A Confissão de Fé de Westminster. Editora Cultura Cristã, 2011. (cap. 35, item II).

 

 

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