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Desigrejado, a ovelha solitária

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“O solitário busca o seu próprio interesse e insurge-se contra a verdadeira sabedoria.” (Pv 18.1)

Introdução:

O assunto diz respeito aos chamados desigrejados, pessoas que caminhavam com a igreja, conosco, mas mudaram de ideia e passaram a trilhar uma carreira solo. Como entender esse fenômeno? Quais as causas disso? Até que ponto condenar ou aprovar tal iniciativa?

1. QUE TIPOS DE SITUAÇÕES CONSEGUIMOS IDENTIFICAR?

O apóstolo Paulo faz uma macro classificação da humanidade em “homem natural” (1Co 2.14) e “homem espiritual” (1Co 2.15). O “homem natural” é o ser humano não salvo por Cristo; o “homem espiritual” é o salvo, regenerado pelo Espírito Santo de Deus.

Ambos habitam um corpo natural, até à sua morte física; mas ressuscitarão num corpo espiritual (1Co 15.44).

Escrevendo, ainda, à igreja de Corinto, o mesmo apóstolo faz uma distinção entre os irmãos, denominando-os de espirituais e carnais (1Co 3.1-3), sendo estes últimos, pessoas que não amadureceram na fé, antes, porém, vivem na carne: “Porquanto, havendo entre vós ciúmes e contendas, não é assim que sois carnais e andais segundo o homem?” (1Co 3.3).

No que se refere ao seu vínculo, ou quebra de vínculo, com uma igreja local, podemos classifica-los, conceitual e didaticamente, como:

a) Membro “Ativo”

É o membro que participa ativamente da sua igreja local, inclusive ocupando funções e cargos, quando eleito ou indicado para tais. A CI/IPB descreve assim os deveres dos membros da igreja:

“Art.14 – São deveres dos membros da Igreja, conforme o ensino e o espírito de Nosso Senhor Jesus Cristo:

a) viver de acordo com a doutrina e prática da Escritura Sagrada;
b) honrar e propagar o Evangelho pela vida e pela palavra;
c) sustentar a Igreja e as suas instituições, moral e financeiramente;
d) obedecer às autoridades da Igreja, enquanto estas permanecerem fiéis às Sagradas Escrituras;
e) participar dos trabalhos e reuniões da sua Igreja, inclusive assembleias.”

b) Membro “Nominal”

É aquele membro que faz parte do rol, mas que não participa efetivamente do cotidiano da igreja. Raramente comparece às reuniões e está alheio a tudo o que está acontecendo. É uma espécie de “crente não praticante”, ou a versão evangélica do que ouvimos falar como “católico não praticante”. Podemos considera-los como os “desigrejados de dentro da igreja”. Se olharmos bem para as igrejas evangélicas, iremos descobrir, por exemplo, que há crentes seletivos: aparecem em determinadas atividades da igreja, selecionam o que gostam, escolhem certos tipos de culto para frequentar etc. Nosso desafio permanente é fazê-los coparticipantes da vida da igreja.

c) Desigrejados

Vamos considerar este grupo ou segmento, como sendo formado por pessoas que se declaram evangélicas, consideram-se salvas por Jesus; entretanto, por algum motivo, desligaram-se do rol de membros ou optaram por não se arrolarem como membros de uma igreja local.

Inicialmente, poderíamos identifica-los como:

  • Os sem teto da fé.
  • Mochileiros da fé.
  • Caçadores de emoções da fé.
  • Refugiados da fé (caminhantes sem destino certo).
  • Nômades religiosos.
  • As ovelhas sem curral.

O texto da lição traz a seguinte estatística do fenômeno no Brasil[1]:

  • “4 milhões são os brasileiros que se declaram evangélicos, mas não têm vinculação eclesiástica; o percentual de evangélicos nesta situação é de 10%.
  • 62% dos desigrejados são egressos de denominações neopentecostais, cuja ênfase é a teologia da prosperidade;
  • 63% dos respondentes declararam que voltariam a se vincular a uma comunidade que não apresentasse os vícios e malversações que os afastaram da comunhão;
  • 29% dizem que não pretendem manter vínculo com outra igreja novamente;
  • 5,6 anos é o tempo médio de conversão dos desigrejados.”

Após a divulgação do Censo do IBGE em 2010, dando conta do número elevado de evangélicos nominais, isto é, sem vínculo eclesiástico, uma série de reportagens, livros e sites começou a circular, repercutindo a matéria, tentando entender, explicar ou polemizar o fenômeno. “Longe de ser um movimento isolado manifesto apenas em nosso país, o que vem ocorrendo é uma expressão nacional de onda de deserção institucional de grandes proporções que alcança o mundo inteiro.” [1]

“Eugene Peterson coloca na boca dos desigrejados nos Estados Unidos e por aí afora a seguinte confissão: ‘Senhor, tenho assumido a mentalidade de um consumidor. Saio à procura de religião como quem sai para comprar mantimento revirando as prateleiras (as Igrejas!) para encontrar o que combina com o meu gosto. Perdoa-me!’” (Revista Ultimato – JUL/AGO 2016)

O desafio da Igreja de Cristo é trazer de volta esses irmãos, tratar deles e inseri-los de novo na comunidade.

d) Desviados ou Descristianizados

Podemos identificar neste grupo ou segmento, aquelas pessoas que um dia professaram a fé cristã, chegaram a ser batizadas e se tornaram membros, ou não; entretanto, abandonaram a fé cristã e deixaram de frequentar uma igreja evangélica. É um fenômeno que se espalha pela Europa e Estados Unidos.

2. QUE RAZÕES LEVARIAM UMA PESSOA A SE TORNAR UM DESIGREJADO?

Na aula 2 aprofundamos o estudo sobre as razões para sermos membros ativos de uma igreja local, bem como as muitas bênçãos advindas desta vinculação e, ainda, os riscos a que são submetidos os que se isolam do corpo de Cristo. Não ignoramos a realidade inegável de existirem muitas pessoas na condição de desigrejadas, podendo haver crescimento numérico, pois há líderes que estimulam tal opção. Depois de um bom exercício mental e teórico, estamos sugerindo as prováveis causas e motivações para alguém adotar tal opção:


a) TRAUMA, FRUSTRAÇÃO, DECEPÇÃO

Certos membros caminhavam bem, na igreja, até que sofreram traumas e/ou frustrações, foram profundamente decepcionados pela liderança da igreja ou por outros membros.

  • Se frustraram com promessas (de cura, libertação, bem-estar pessoal/familiar ou prosperidade financeira) proferidas em nome de Deus e que nunca se cumpriram. Sofreram abuso espiritual e decepção, por parte daqueles que agiam mais como empresários da fé do que como legítimos pastores, despenseiros da graça de Deus.
  • Ou, então, não puderam tolerar determinadas condutas e comportamentos dentro de uma igreja que deveria ser sem mácula e muito diferente dos de fora, aqueles que não são remidos do Senhor. Daí resolveram sair e não mais se arrolarem a qualquer igreja local.

Reflexão: “Quem sai da igreja por causa de pessoas, nunca entrou lá por causa de Jesus.”

b) INTOLERÂNCIA ECLESIÁSTICA

São pessoas que acham que as igrejas são complicadas, cheias de regras e amarras burocráticas. Não acreditam na relevância da igreja institucional. Consideram tudo uma chatice e uma mesmice. Assim sendo, alegam ter optado por viver sozinhos a simplicidade do Evangelho de Jesus.

Em vários momentos da história da Igreja surgiram movimentos de contestação e repulsa à Suntuosidade de Templos, à Centralidade Pastoral e aos Sermões esvaziados de poder espiritual). Defendem locais de reunião simples, o Sacerdócio Universal dos Crentes e a espontaneidade das mensagens, focadas no cotidiano dos crentes.

Niilismo é um termo que significa “redução a nada” (o que se aproxima da anarquia). Niilismo eclesiástico: “advogam um cristianismo totalmente despido de formas, estruturas e concretude institucional”. Aí vai uma dica: não se deixe arrastar por delírios anarquistas. Onde há ajuntamento formal de pessoas torna-se necessário estabelecer uma estrutura de liderança e regras de convivência.

c) INDIVIDUALISMO E AUTOSSUFICIÊNCIA

Não se pode descartar a hipótese de que certos membros, tentaram caminhar entre os demais irmãos, mas se sentiram incomodados com esse convívio de grupo, pois preferem viver isolados. Pensam que sobrevivem bem sozinhos. Podem assistir cultos de diversas igrejas, transmitidos pela internet ou pela TV, leem sua bíblia e outros livros, ouvem músicas evangélicas e, tudo isso lhes basta. Na teoria, isso pode até ter alguma consistência, mas, na prática, não se sustenta. É uma brasa isolada da fogueira, prestes a se apagar.

d) INDECISÃO NA FÉ

São aquelas pessoas indecisas e inseguras que nunca conseguem decidir qual é a melhor igreja, com a mais correta linha doutrinária. Assim sendo, preferem não se arrolarem a qualquer uma. Há um provérbio popular que diz: “o ótimo é inimigo do bom”. Precisamos tomar decisão pelo bom, sem nunca deixar de perseguir o ótimo.

e) CONDUTA LIBERTINA

Pode acontecer que certos membros caminhavam entre os demais irmãos, mas quando começaram a adotar certas práticas e condutas pecaminosas que foram reprovadas pela igreja, em vez de confessar e deixar, preferiram sair da igreja, para se livrarem das críticas. Enfim, preferem viver um padrão moral e ético reprovável! Certamente, aqueles que são regenerados pelo Espírito Santo não podem viver acomodados na prática do pecado (1Jo 3.6).

f) FUGA DO DÍZIMO

Quem sabe se algumas pessoas não se arrolam a uma igreja local por questões financeiras, para “economizarem” no dízimo? Quando o “bolso” não se converte é difícil acreditar que o “coração” se converteu!  Sem dúvida, esses precisam se preocupar com o devorador (Ml 3.11). Aquele que retém o que é de Deus, há de prestar contas diretamente a ele.

Conclusão:

  1. Não precisamos substituir ou reinventar a igreja! A forma pode e deve sempre ser modificada, com criatividade, equilíbrio e sensatez; porém, sua essência e conteúdo, não! Há coisas que a gente faz na vida cuja essência não muda, embora a forma possa mudar, assim também acontece com a igreja local. Veja, por exemplo:

a) O tipo de alimento, o local onde encontra-lo ou a forma de se alimentar, mudam, mas a necessidade de ingerir alimentos é permanente.

b) O lugar e a forma de tomar banho, mudam, mas a necessidade de manter o corpo limpo é permanente.

c) Casar-se, procriar, estudar, aprender, trabalhar, trocar de roupa, se comunicar, se locomover, enfim, tudo que fazemos no intervalo entre o nascer e o morrer, o que denominamos de vida, pode ser feito de maneiras e formas diferentes, modificadas e melhoradas à cada geração, mas a essência não muda. E, Jesus, diz “… eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância.” (Jo 10.10b). Não exatamente em número de anos, mas, em termos de qualidade, e que faça a diferença.

  1. Na verdade, o que precisamos fazer é rever nossos conceitos e atitudes para com Deus e sua igreja. Somos servos e não clientes. Formamos um só rebanho, de um só pastor. Crente isolado do corpo de Cristo é como ovelha desgarrada; torna-se presa fácil dos predadores de plantão. “Subi ao monte, trazei madeira e edificai a casa; dela me agradarei e serei glorificado, diz o SENHOR.” (Ag 1.8)
  1. Finalmente, é preciso deixar claro que Deus não tem um “Plano B” para a sua Igreja, a família da fé; assim como não tem um “Plano B” para a família consanguínea! Relembrando a essencialidade da igreja: ADORAÇÃO, EVANGELIZAÇÃO, EDUCAÇÃO CRISTÃ, COMUNHÃO e SERVIÇO. Ainda que haja desigrejados, dentro e fora da igreja; ainda que haja imitações falsas ou até profanas da igreja; a genuína igreja de Cristo há de permanecer neste mundo até o grande e esperado dia do seu arrebatamento!

“Qual será o futuro dos desigrejados? É provável que muitos permaneçam desiludidos e reticentes em retornar à frequência eclesial. Preferirão permanecer no ceticismo comunitário. Outros, talvez encontrem modelos mais espontâneos e informais para compartilhar a fé cristã. Há ainda aqueles que retornarão às comunidades históricas. Após um período de desilusão institucional e de passarem por experiências sofríveis no anseio de praticar o cristianismo, é provável que cheguem à conclusão de que a igreja, mesmo com seus defeitos (expressão de nossa pecaminosidade), é o melhor lugar para congregar, compartilhar e defender a fé.” [2]

Você tem consciência do risco de viver separado do corpo de Cristo?

……………………………….
[1] FERNANDES, Carlos. “Desigrejados, fenômeno que cresce”. Cristianismo Hoje. Niterói, edição 37, ano 7, 2013. p. 23. Informações complementares quanto à pesquisa aplicada pelo BEPEC poderão ser encontradas nos sites: http://www.bepec.com.br ou http://www.genizahvirtual.com.br.

[2] Revista Teologia Brasileira – Niilismo eclesiástico: uma análise do movimento dos desigrejados (17/06/2014)

http://www.teologiabrasileira.com.br/teologiadet.asp?codigo=390


Nota: esboço pessoal de aula, preparado por mim, para facilitar a ministração da Aula 6 (A ovelha solitária) – Módulo 5 – EBD Catedral 2016, de modo a atender a temática proposta no material elaborado pelo Pr. Joel Theodoro para os alunos. Foram feitas algumas alterações para divulgação neste blog.

O vídeo desta aula está disponível abaixo:
(Escola Bíblica Dominical – 13/11/2016)

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  1. Washington Maciel
    17/03/2017 às 10:28

    Muito bom. É um assunto complexo que a pós-modernidade tornou agudo.

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