A “parábola” do rico e Lázaro

Foco: O que acontece após a morte.
Texto base: Lucas 16.19-31

Introdução

Há controvérsias quanto a narrativa do rico e Lázaro, encontrada em Lucas 16.19-31, ser considerada uma parábola ou uma história real. Aqueles que argumentam que a história não é uma parábola geralmente apresentam os seguintes pontos:

(i) A história começa de forma direta, sem uma introdução típica das parábolas.

(ii) As parábolas normalmente não mencionam nomes específicos, o que sugere que Jesus poderia estar se referindo a um evento ou a pessoas reais. Este é o único relato atribuído a Jesus onde um personagem, o pobre mendigo é nomeado (Lázaro[1]), o que não era de se esperar no caso de uma parábola. Abraão, Moisés e o Hades são realidades, não figuras alegóricas.

(iii) A menção feita pelo rico de ter cinco irmãos também é significativa (Lc 16.28). Por que tanta precisão numérica se nada é dito deles?

(iv) Normalmente as parábolas utilizavam situações do cotidiano do povo para expressar algumas verdades espirituais. Neste caso, a narrativa descreve de forma detalhada aspectos pós-morte dos dois personagens, algo que, segundo os críticos da interpretação como parábola, poderia indicar que Jesus estava relatando um evento real para ilustrar uma verdade espiritual.

(v) A história enfatiza alguns temas que são centrais na teologia cristã. A seriedade do ensinamento pode indicar que Jesus não estava apenas usando uma ilustração fictícia, mas descrevendo algo concreto para transmitir verdades sobre a vida após a morte.

Esses pontos são frequentemente usados por aqueles que veem o relato do rico e Lázaro como uma narrativa literal e não como uma parábola. Por outro lado, aqueles que consideram a passagem uma parábola apontam que a história pode ser interpretada como uma alegoria para ensinar sobre a importância de se preparar espiritualmente durante a vida, independentemente da riqueza ou pobreza material.

“Os fariseus, que amavam o dinheiro, ouviam tudo isso e zombavam de Jesus.” (Lc 16.14 NVI)

Considerando o contexto – Lucas 16, especialmente a partir do versículo 1 – é provável que Jesus tenha usado essa narrativa para confrontar diretamente os fariseus avarentos e gananciosos que zombavam de seus ensinamentos. Esses líderes religiosos, ao contrário da maioria do povo, viviam cercados de luxo e desfrutavam dos prazeres que a riqueza lhes proporcionava. Ao contar a história do rico e Lázaro, Jesus pretendia destacar o destino terrível daqueles que vivem unicamente para satisfazer seus desejos pecaminosos e egoístas, ignorando os valores espirituais e a compaixão pelos necessitados. Assim, a narrativa serve como um alerta solene sobre as consequências eternas de uma vida vivida com foco apenas na autossatisfação e na acumulação de riquezas, sem considerar os mandamentos de Deus e o amor ao próximo.

Nesta história do rico e Lázaro narrada por Jesus somos levados a refletir sobre a realidade inevitável do futuro – da morte e do pós-morte – sobre as consequências eternas das escolhas humanas e a importância da fé que se mostra e se manifesta através da compaixão, das boas obras. Ainda que você se envolva e se dedique totalmente nas coisas desta vida terrena; adie ou se recuse a pensar no pós-morte; querendo ou não esse dia chegará!

Então, preste bem a atenção ao que Jesus pretendeu nos revelar através desta narrativa, somente registrada no Evangelho de Lucas.

1. DUAS PESSOAS E DUAS CONDIÇÕES

19  Ora, havia certo homem rico que se vestia de púrpura e de linho finíssimo e que, todos os dias, se regalava esplendidamente.
20  Havia também certo mendigo, chamado Lázaro, coberto de chagas, que jazia à porta daquele;
21  e desejava alimentar-se das migalhas que caíam da mesa do rico; e até os cães vinham lamber-lhe as úlceras.

Jesus descreve dois personagens (duas pessoas) e duas condições sociais contrastantes: um homem rico que se vestia luxuosamente, se banqueteava com as suas finas iguarias e vivia com grande ostentação; e, Lázaro, um homem pobre, mendigo coberto de feridas que jazia à porta do rico, desejando se alimentar das migalhas que caíam da mesa dele. Enquanto o rico vivia em abundância, Lázaro sofria, na miséria. Jesus parece ter narrado esta história, intencionalmente, para impactar e provocar seus ouvintes quanto a realidade de tanto contraste e desigualdade social.

As palavras rico(s) ou riqueza(s) e pobre(s) ou pobreza, ocorrem nos quatro evangelhos, com a seguinte frequência:

Então, como pano de fundo, é necessário registrar que o evangelista Lucas tem um olhar mais atento para a questão da riqueza e da pobreza, provavelmente por influência da sua formação e ocupação. Lucas é “o médico amado”; o escritor do Evangelho que leva o seu nome e do livro de Atos dos Apóstolos; o companheiro de viagem e cooperador do apóstolo Paulo (Cl 4.14; 2Tm 4.11; Fm 1.24).

É importante destacar que ser rico não é pecado e a Bíblia não condena a riqueza. A riqueza obtida de forma honesta pode ser bênção se for bem administrada. Há cristãos ricos que efetivamente têm investido no reino de Deus, abençoado pessoas, a igreja, outras instituições e a sociedade em geral. José de Arimatéia era um homem rico e discípulo, em segredo, de Jesus, oferecendo-lhe um sepultamento digno (Mt 27.57). E, Zaqueu, um homem rico, também foi alcançado por Jesus (Lc 19.2).

Também há aqueles ricos que não eram bem-vistos, isto é: os que enriquecem de forma ilícita; os que exploram o trabalhador; os poderosos, soberbos e insensíveis que governam para si próprios em detrimento do bem-estar do povo, dentre outros.

A Bíblia e Jesus fazem alguns alertas quanto a riqueza – “Mas ai de vós, os ricos! Porque tendes a vossa consolação.” (Lc 6.24):

a) Os cuidados do mundo, a fascinação das riquezas e deleites da vida sufocam a palavra, e fica infrutífera (Lc 8.14; Mt 13.22; Mc 4.19).

b) A autoconfiança e falsa segurança nas riquezas, o entesourar para si mesmo e não ser rico para com Deus[2] (Lc 12.21).

c) O perigo e a impossibilidade de querer servir a dois senhores: a Deus e às riquezas (Lc 16.13; Mt 6.24).

d) O amor ao dinheiro é raiz de todos os males (1Tm 6.10).

Por fim, é bom refletir com cuidado a palavra de Jesus: “E Jesus, vendo-o assim triste, disse: Quão dificilmente entrarão no reino de Deus os que têm riquezas! Porque é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus.” (Lc 18.24-25; Mt 19.23-24; Mc 10.23, 25)

Quanto a narrativa do rico e Lázaro podemos destacar, incialmente:

(i) Havia um rico e um pobre, entretanto, apenas o pobre foi nomeado.

(ii)  A insensibilidade do homem rico que, tendo tudo (saúde, excelente alimentação e vestimentas da melhor qualidade e moradia) não se importou com a condição precária e desfavorável do pobre homem. Pode-se inferir que até os cães fizeram mais pelo pobre do que aquele rico, lambendo-lhe as chagas (Lc 16.21b).

Há aqui uma lição de vida extremamente importante. Esta narrativa retrata as desigualdades sociais e econômicas, uma triste realidade sempre presente neste mundo. Não há razão para generalizar, ou seja, simplesmente culpar os ricos por sua riqueza e os pobres por sua pobreza. Diversos são os fatores que conduzem à riqueza ou à pobreza, alguns incontroláveis, independentes da nossa vontade ou adquiridos por herança; outros,  controláveis, dependentes da nossa vontade ou da ajuda e intervenção de alguém. É uma utopia achar que algum regime político ou ideologia humana irá acabar com essa desigualdade. Entretanto, cabe a cada um fazer a sua parte. Ai dos que podem fazer alguma coisa e permanecem insensíveis e inertes. Cabe aos cristãos e à igreja realizar uma missão integral; focar e priorizar o espiritual, mas, também, atuar no social.

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2. DUAS MORTES E DOIS DESTINOS

22  Aconteceu morrer o mendigo e ser levado pelos anjos para o seio de Abraão; morreu também o rico e foi sepultado.
23  No inferno, estando em tormentos, levantou os olhos e viu ao longe a Abraão e Lázaro no seu seio.

A narrativa nos conduz a uma realidade inexorável – o fim da vida, a morte. Parece que o pobre morreu primeiro, talvez por sua condição de vida e de saúde extremamente desfavoráveis. O rico também morreu. Não necessariamente, mas, às vezes, os recursos financeiros ajudam a prorrogar um pouco mais a passagem de uma pessoa rica por este mundo. O fato é que a morte é certa e, neste ponto final da existência terrena iguala a todos, neste caso, ricos e pobres! Entretanto, Jesus revela aqui que há um pós-morte com apenas dois destinos possíveis. Lázaro é levado pelos anjos ao seio de Abraão (um lugar de descanso e honra), enquanto o rico vai para o Inferno[3] (um lugar de tormento). É curioso que o termo grego traduzido aqui por Inferno é Hades (o mundo invisível dos mortos) e não Geena (o lugar de punição e sofrimento para os perdidos). Uma outra linha de interpretação é que o Hades era dividido em duas partes: o Seio de Abraão ou Paraíso, para os justos; e o outro lado para os ímpios. O rico, em tormento, ergue os olhos e vê Abraão ao longe, com Lázaro ao seu lado. O fato é que o contraste em vida e no sepultamento, também aconteceu após a morte deles, porém, de forma invertida.

Ao analisar as revelações do pós-morte, feitas por Jesus nesta narrativa, é preciso ter em mente se tratar de aspectos misteriosos do mundo espiritual e não uma descrição literal ou geográfica do céu e do inferno. Naturalmente ele precisou usar alguma ilustração para que pudesse ser compreendido.

O que se pode depreender do texto?

a) O rico foi sepultado, mas não há menção explícita do sepultamento do mendigo. Isso não significa que o sepultamento não tenha ocorrido. É provável que ele tenha sido enterrado em sepultura coletiva ou vala comum, muitas vezes fora dos muros da cidade, destinadas aos pobres e indigentes.

b) O mendigo foi honrado com a condução da sua alma, pelos anjos, ao “seio de Abraão”; enquanto o rico simplesmente é mencionado já no Hades ou inferno. Na tradição judaica, “seio de Abraão” representa a ideia de uma comunhão próxima com Abraão, o patriarca da fé, indicando um estado de bênção e paz para os justos que morreram.

c) A narrativa não explicita as razões dos destinos diferenciados desses dois personagens. Certamente não foi pelo simples fato de um ser rico e do outro ser pobre. O contexto destaca a importância de atender ao ensino de “Moisés e os profetas”, isto é, as Sagradas Escrituras. Há certos comportamentos e manifestações de caráter que depõem contra o rico: sua avareza em acumular riquezas apenas para si próprio; sua provável insensibilidade e falta de compaixão para com os pobres e necessitados. Enfim, Deus, que vê os corações, assim determinou o destino dos dois. “Os gozos do Céu são espirituais, e ali não há prazeres para os que não têm o temor de Deus ou o desejo de obedecer; e por isso aquele que, por uma longa vida de egoísmo e de esquecimento de Deus, tem endurecido a sua alma, com isso tem posto um grande abismo entre si mesmo e o Céu” (Goodman).

d) A narrativa de Jesus desconstrói a teoria ou doutrina do aniquilacionismo (total ou parcial). De acordo com essa teoria, os seres humanos, em sua totalidade ou em parte, são reduzido a nada. Assim, a morte biológica é suficiente para pôr fim a existência da criatura humana. Argumentam que:
(i) Só Deus é imortal (1Tm 1.17; 6.16).
(ii) Certos textos bíblicos parecem indicar a cessação da existência, na morte (Rm 6.23; Tg 5.20).
(iii) A imortalidade é um dom especial transmitido por Deus (Rm 2.7; 1Co 15.53-54; 2Tm 1.10).
(iv) É a demonstração do amor de Deus, pois ele aniquilaria os perdidos, em vez de castigá-los para sempre com um tormento consciente.

Enfim, trata-se de uma falsa doutrina. É importante esclarecer que a expressão “eterna destruição”(2Ts 1.9) não se refere ao aniquilamento dos ímpios, mas à eterna ruína devido à separação de Deus. Além da revelação de Jesus, nesta narrativa, a Bíblia menciona a ressurreição de todos os mortos em diversos textos, declarando que haverá ressurreição, tanto dos justos, quanto dos injustos (Dn 12.2; Jo 5.28-29; At 24.15).

e) A narrativa de Jesus desconstrói a crença do sono da alma que sustenta que, após a morte, as almas dos seres humanos entram em um estado de inconsciência ou “sono” até o momento da ressurreição. De acordo com essa doutrina, as almas não vão diretamente para o céu, inferno, ou qualquer outro destino imediato após a morte, porém, em vez disso, permanecem em um estado de inatividade até o retorno de Cristo e o julgamento final. Os defensores dessa crença citam textos bíblicos como Eclesiastes 9.5, que diz “os mortos não sabem coisa nenhuma”, e 1Tessalonicenses 4.13-14, que fala sobre os mortos “dormindo” até a segunda vinda de Cristo. Enfim, trata-se de uma falsa doutrina. Além da revelação de Jesus, nesta narrativa, a Bíblia menciona que os mortos estão em um estado de consciência após a morte (Lc 23.43; Ap 6.9-10; 2Co 5.8).

f) A narrativa de Jesus desconstrói a doutrina do purgatório, uma crença predominante na Igreja Católica Romana que defende a existência de um estado intermediário após a morte, onde as almas dos fiéis que morreram em estado de graça, mas que ainda necessitam de purificação, passam por um processo de purificação antes de entrar no céu. Segundo essa doutrina, o purgatório não é um lugar de condenação eterna como o inferno, mas um estado temporário onde as almas são purificadas dos pecados veniais (pecados menores) ou de qualquer punição temporal devida por pecados já perdoados. Este processo de purificação é necessário para que a alma esteja plenamente preparada para a visão beatífica, ou seja, a plena e direta experiência da presença de Deus no céu. A doutrina do purgatório é apoiada por passagens bíblicas interpretadas pela Igreja Católica Romana, como 1Coríntios 3.11-15, que fala sobre a obra de cada pessoa sendo testada pelo fogo, e 2Macabeus 12.45-46 (que aceita os livros apócrifos como inspirados e canônicos), que menciona orações pelos mortos, sendo uma demonstração adequada de que as preces e os sacrifícios feitos pelos humanos vivos podem ajudar a melhorar as condições das almas que se desincorporaram. Portanto, essa é mais uma doutrina equivocada! Além da clara revelação de Jesus nesta narrativa, a Bíblia menciona que os mortos não passam por um estado intermediário, tendo o seu destino já definido imediatamente após a morte (Lc 23.43; Fp 1.23; 2Co 5.8). “E, assim como aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo depois disso o juízo.” (Hb 9.27). Este versículo enfatiza que, após a morte, vem o julgamento, sem mencionar um processo intermediário de purificação.

3. DUAS FALAS E DUAS IMPOSSIBILIDADES

24  Então, clamando, disse: Pai Abraão, tem misericórdia de mim! E manda a Lázaro que molhe em água a ponta do dedo e me refresque a língua, porque estou atormentado nesta chama.
25  Disse, porém, Abraão: Filho, lembra-te de que recebeste os teus bens em tua vida, e Lázaro igualmente, os males; agora, porém, aqui, ele está consolado; tu, em tormentos.
26  E, além de tudo, está posto um grande abismo entre nós e vós, de sorte que os que querem passar daqui para vós outros não podem, nem os de lá passar para nós.

A visão e a comunicação entre os dois lados do mundo dos mortos são vistos por alguns como prova do caráter alegórico e não literal desta história. Não há dúvida de que estamos diante de muitos mistérios, aspectos humanamente incompreensíveis. O rico clama a Abraão, pedindo que Lázaro molhe a ponta do dedo na água e refresque sua língua, pois estava atormentado na chama. Abraão responde que, durante a vida, o rico recebeu suas boas coisas, enquanto Lázaro recebeu males. Agora, as situações se inverteram, além disso, um grande abismo separava os dois, impossibilitando qualquer travessia de um lado para o outro.

São duas falas, a do rico e a de Abraão; e duas impossibilidades:
(i) receber misericórdia ou ter seu castigo reduzido, no inferno e,
(ii) transitar entre os dois destinos ou alterar esse destino após a morte.

O que se pode depreender do texto?

A narrativa de Jesus descontrói a doutrina da mudança do destino eterno. Esta crença sugere que, após a morte, o destino eterno de uma alma pode ser alterado ou revisado. Algumas visões sobre essa doutrina são:
(i) Universalismo ou Salvação Universal: Argumentam que, eventualmente, todas as almas serão reconciliadas com Deus, implicando uma eventual mudança de destino eterno para todos, independentemente da vida que viveram.
(ii) Segunda chance após a morte: Algumas crenças sugerem que as pessoas terão uma segunda chance de aceitar a salvação após a morte.

Essas visões são amplamente rejeitadas pela maioria das denominações cristãs, que ensinam que o julgamento acontece imediatamente após a morte (Hb 9.27).

4. DUAS SÚPLICAS E DUAS RECUSAS

27  Então, replicou: Pai, eu te imploro que o mandes à minha casa paterna,
28  porque tenho cinco irmãos; para que lhes dê testemunho, a fim de não virem também para este lugar de tormento.
29  Respondeu Abraão: Eles têm Moisés e os Profetas; ouçam-nos.
30  Mas ele insistiu: Não, pai Abraão; se alguém dentre os mortos for ter com eles, arrepender-se-ão.
31  Abraão, porém, lhe respondeu: Se não ouvem a Moisés e aos Profetas, tampouco se deixarão persuadir, ainda que ressuscite alguém dentre os mortos.

Um aspecto fascinante e revelador é que, segundo a narrativa, a identidade, a consciência e a personalidade permanecem intactas após a morte. Há no texto indícios claros de lembranças, sentimentos, conhecimento, visão, raciocínio e memória no estado pós-morte. Abraão continuou sendo Abraão, Lázaro permaneceu Lázaro, e o rico manteve sua identidade e percepção de sua condição. Isso levanta a questão de como essas faculdades impactam o estado final de cada indivíduo. Para os salvos, elas podem afetar a plenitude da alegria e da comunhão com Deus? Para os não salvos, podem intensificar o tormento, ao refletirem continuamente sobre suas escolhas e oportunidades perdidas?

O rico não desiste de expor suas reinvindicações e, agora, dirige o seu foco para os seus parentes vivos. Ele pede que Lázaro seja enviado à casa de seus familiares para advertir seus cinco irmãos, a fim de que eles não sejam igualmente destinados para aquele lugar de tormento. Abraão responde que eles têm Moisés e os Profetas; que os ouçam. O rico insiste, dizendo que se alguém ressuscitasse dos mortos, eles se arrependeriam. Abraão, contudo, afirma que, se não ouvem Moisés e os Profetas, não serão persuadidos mesmo que alguém ressuscite dos mortos.

O que se pode depreender do texto?

a) A narrativa de Jesus desconstrói a crença ou doutrina de que o inferno é aqui mesmo, na Terra. Essa doutrina sugere que o conceito de inferno não se refere a um lugar específico após a morte, mas sim às dificuldades, sofrimentos e desafios que as pessoas enfrentam nesta vida, na Terra. Segundo essa visão, o sofrimento humano, como pobreza, doenças, guerras, injustiças e outras formas de dor, constituem uma espécie de “inferno” experimentado durante a vida. Se nega ou minimiza a ideia de um inferno literal após a morte, enfatizando que as experiências dolorosas e difíceis da vida são o verdadeiro “inferno”. Essa crença popular não tem qualquer fundamentação bíblica. No versículo 28, o rico menciona esse lugar de tormento, um lugar ou estado de separação eterna de Deus “após a morte”, destinado aos que rejeitam a salvação oferecida por Cristo. A Bíblia menciona o inferno como um lugar destinado àqueles que pecam e se mantém rebeldes contra Deus. Descreve-o como:
(i) Um lugar de castigo, punição e tormento, eternos. É um lugar onde o diabo e seus seguidores serão castigados (Mt 25.41; Ap 20.10).
(ii) O inferno é caracterizado pela ausência de Deus e de tudo que é bom, onde os ímpios serão “… banidos da face do Senhor e da glória do seu poder,” (2Ts 1.9).
(iii) É um lugar tenebroso e de sofrimento (2Ts 1.9; Mt 8.12).  
(iv) Jesus menciona a existência do inferno, descrevendo-o como um fogo eterno ou uma fornalha acesa, onde haverá choro e ranger de dentes (Mt 13.42; 25.41; Mc 9.43-48; ver tb. Ap 21.8).
(v) A existência do inferno é vista como uma expressão da justiça de Deus, onde os pecados são punidos de forma justa (2Pe 2.4). Por outro lado, a Bíblia também enfatiza que Deus providenciou um meio para se escapar do inferno. Ele enviou Jesus para a salvação de todo aquele que crer. Aqueles que recebem Jesus como seu salvador têm a promessa de vida eterna com Deus (Jo 3.16; Rm 6.23).

b) A narrativa de Jesus desconstrói a crença ou doutrina da reencarnação. Essa  doutrina defende que, após a morte física, a alma ou espírito de uma pessoa renasce em um novo corpo. Este processo de renascimento pode ocorrer repetidamente, permitindo que a alma evolua espiritualmente através de múltiplas vidas. A narrativa deixa claro que as almas dos mortos não voltam para o mundo dos viventes para ocuparem outros corpos. Não há fundamentação bíblica para essa doutrina! Depois da morte segue-se o juízo: “E, assim como aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo, depois disto, o juízo,” (Hb 9.27). A doutrina bíblica ensina que a salvação (a justificação, o perdão e a remissão de pecados) é alcançada por meio da fé em Jesus Cristo (Ef 2.8-9; Jo 3.16), e não através de um processo de purificação ao longo de múltiplas encarnações. A fé e a graça de Deus determinam o destino eterno de cada indivíduo. O que a bíblia nos revela é a ocorrência milagrosa de alguns casos de ressurreição, quando a alma retorna para o mesmo corpo como manifestação do poder de Deus (1Rs 17.17-24; 2Rs 4.32-37; 2Rs 13.20-21; Lc 7.11-17; Mc 5.21-43; Lc 8.40-56; Jo 11.1-44; Mt 27.52-53; At 9.36-42; 20.7-12). A ressurreição de Jesus (Mt 28; Mc 16; Lc 24; Jo 20-21) é a garantia da ressurreição dos salvos (1Co 15).

O rico tinha a presunção de acreditar que alguém vindo de entre os mortos teria mais sucesso para convencer os pecadores do que os vivos, os representantes de Moisés e dos profetas. Acontece que o fato do outro Lázaro, irmão de Marta e Maria, ter sido ressuscitado por Jesus e ter sido uma testemunha viva do seu poder não fez com que os opositores do Mestre se arrependessem (Jo 11.46-53; 12.9-11).

Conclusão

Esta narrativa ou “parábola” nos traz relevantes  revelações e ensinamentos:

– Nos mostra que mais importante do que as riquezas terrenas é acumular tesouro no céu, é ser rico para com Deus.

– Alerta para o fato de que a vida após a morte envolve uma consciência contínua e que as escolhas feitas em vida têm consequências eternas.

– Que o rico, apesar de sua riqueza, falhou em mostrar compaixão e ajuda ao necessitado. Isso revela um caráter não transformado pela graça divina e traz consequências graves após a morte. A narrativa deve despertar o senso de responsabilidade de usar os recursos que temos e as oportunidades para ajudar os outros.

– A resposta de Abraão mostra que as Escrituras (representadas por Moisés e os Profetas), pela ação do Espírito Santo, são suficientes para levar ao arrependimento. Mesmo um milagre, como a ressurreição dos mortos, não seria eficaz para aqueles que já rejeitaram a mensagem divina.

– A narrativa apresentada por Jesus também cumpre um papel importante de desconstruir 7 (sete) falsas crenças ou doutrinas como: aniquilacionismo, sono da alma, purgatório, universalismo ou salvação universal, segunda chance após a morte, o inferno é aqui mesmo, reencarnação.

Enfim, essa narrativa é uma poderosa advertência quanto a importância de se viver uma vida de fé em Cristo, com justiça e com compaixão pelo próximo; e sobre a realidade da vida após a morte.

Bibliografia

1. Bíblia Sagrada (SBB – Versão Revista e Atualizada).
2. Bíblia Online – SBB.
3. Bíblia de Estudo da Fé reformada (Ed. Fiel)
4. Revista ENSINOS DO REINO (Ed. Didaquê).
5. McNair, S. E. – A Bíblia explicada.
6. R. N. Champlin, Ph. D. – Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia  (Ed. Hagnos).
7. Internet / ChatGPT / COPILOT.


[1] Lázaro – O nome “Lázaro” vem do hebraico “Eleazar” (אֶלְעָזָר, Elʿāzār), que significa “Deus ajudou” ou “Deus é o meu socorro”.

[2] “Rico para com Deus”: Acumular riquezas materiais para si mesmo, sem considerar as riquezas espirituais e a generosidade para com os outros, é fútil e perigoso. Jesus contrasta a riqueza material com a riqueza espiritual, enfatizando que a verdadeira riqueza não está em bens materiais, mas em ser “rico para com Deus”. Isso significa viver uma vida que é espiritual e moralmente rica, caracterizada por fé genuína, amor a Deus e ao próximo, e boas obras, em vez de se concentrar apenas em acumular bens terrenos.

[3] Inferno: Há quatro palavras traduzidas por inferno na Edição Revista e Atualizada: Sheol (hb) e Hades (gr.), o mundo dos mortos, o lugar das almas que partiram deste mundo; Geena (gr.) (vale de Hinom – sacrifícios humanos (Jr 7.31)) e Tártaro (gr.) (queima de lixo – Mc 9.44; Tg 3.6; Ap 20.14) que designam um lugar de suplício eterno.

Autor: Paulo Raposo Correia

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