Quem são os FILHOS DE DEUS? (Gn 6.2)

“vendo os filhos de Deus que as filhas dos homens eram formosas, tomaram para si mulheres, as que, entre todas, mais lhes agradaram.” (Gn 6.2)

Introdução

Em certa ocasião participei, juntamente com um grupo, de uma dinâmica simples, porém, que nos leva a uma interessante reflexão. O apresentador estendeu as mãos com uma folha de papel branca, com um pequeno ponto preto no centro e perguntou: – O que vocês estão vendo aqui? A maioria disse: – Um ponto preto! Alguns também disseram: – Uma folha branca!   E, outros: – Uma folha branca, com um ponto preto no centro. É natural que, de certa forma, essa dinâmica induza as pessoas a irem além do óbvio, isto é, “a folha branca”. Entretanto, a tendência da natureza humana é essa, de se apegar a certos pontos na Bíblia um pouco mais obscuros enquanto há outros 99% muito claros e evidentes.

Há certos textos na Bíblia que têm gerado variadas interpretações e não pouca discussão. Também há pessoas que gostam de dispender muito tempo e energia em questões polêmicas e secundárias, em “discutir o sexo dos anjos…”. Nem sempre nos será possível entender tudo o que está registrado na Bíblia; porém, em alguns casos, é razoável tentarmos.

Estamos diante de um texto de difícil interpretação, porém é necessário e legítimo lançar alguma luz sobre o assunto.

O capítulo 6 do livro de Gênesis descreve a multiplicação dos seres humanos e, também, a multiplicação do pecado, no mundo. Tem sido dado a este capítulo o título de “A corrupção do gênero humano” e, assim, introduz e esclarece a situação caótica que levou ao dilúvio anunciado na segunda metade do capítulo. “Viu o SENHOR que a maldade do homem se havia multiplicado na terra e que era continuamente mau todo desígnio do seu coração;” (Gn 6.5). Nem tudo estava perdido e Deus decidiu recomeçar a raça humana a partir de Noé e sua família.

O que tem a ver com tudo isso esses misteriosos “filhos de Deus” tomarem para si (casamento) as formosas “filhas dos homens”? Quem são esses “filhos de Deus” e essas “filhas dos homens”? É o que procuraremos tratar e entender neste breve estudo.

1. A mistura dos filhos de Deus com as filhas dos homens

“… tomaram para si mulheres, as que, entre todas, mais lhes agradaram.”

Independentemente de qual seja a origem destes homens e destas mulheres, o registro de suas qualificações “de Deus” e “dos homens” nos levam a crer em matrimônio misto. Então, naquele contexto de degeneração e corrupção espiritual, esse seria um ingrediente a mais como causa da multiplicação do pecado. Mais tarde, o povo de Israel e Salomão servirão de exemplos de que o casamento misto provoca um relaxamento no compromisso com Deus. Os cônjuges têm visão de vida diferente e estão trilhando caminhos diferentes.

A Bíblia menciona várias vezes que o povo judeu foi instruído a não se misturar, pelo casamento, com os povos pagãos. Essas instruções são encontradas principalmente no Antigo Testamento e o motivo é explicitado. Por exemplo: “nem contrairás matrimônio com os filhos dessas nações; não darás tuas filhas a seus filhos, nem tomarás suas filhas para teus filhos; pois elas fariam desviar teus filhos de mim, para que servissem a outros deuses; e a ira do SENHOR se acenderia contra vós outros e depressa vos destruiria.” (Dt 7.3-4; ver também, Êx 34.15-16; Ed 9.1-2; Ne 13:23-27).

Fica evidente aqui que Satanás procurou corromper a raça humana, na tentativa de frustrar o plano da redenção do homem, com a vinda do Messias. Mas Deus salvou um remanescente e uma linhagem piedosa foi preservada.

“Ora, naquele tempo havia gigantes na terra; e também depois, quando os filhos de Deus possuíram as filhas dos homens, as quais lhes deram filhos; estes foram valentes, varões de renome, na antiguidade.” (Gn 6.4)

No contexto dessa narrativa da multiplicação do pecado que antecedeu o dilúvio, surge, de forma surpreendente e pela primeira vez, a menção de gigantes. No hebraico, nephilim  seria uma das formas de identificá-los (nefilins). Sem dúvida, trata-se de uma raça distinta de seres humanos. Quanto a gigantes, o versículo 4 é bem claro ao narrar que “naquele tempo havia gigantes na terra; e também depois, quando os filhos de Deus possuíram as filhas dos homens…”. Portanto, gigantes ou nefilins (hb.) já existiam na terra e não são fruto de qualquer união angelical e humana. Os frutos dessas uniões foram simplesmente “varões valentes”. Mesmo após o dilúvio encontramos o registro da existência de gigantes ou nefilins (Nm 13.33, ver tb Dt 2.10-11; Js 11.22; 14.15; 1Cr 20.6). Em Deuteronômio 3.11 encontramos a menção das medidas do leito do rei Ogue, o último dos refains, uma raça de gigantes: 9 côvados de comprimento por 4 côvados de largura, isto é, cerca de 4 metros por 1,8 metros. Golias, o gigante guerreiro morto por Davi, tinha a altura de 6 côvados e 1 palmo, ou cerca de 2,90m. No Guinness World Records há o registro do homem mais alto do mundo, o turco Sultan Kosen, com 2,51 metros de altura.

2. Os filhos de Deus

R. N. Champlin[1] nos diz que há muitas interpretações sobre essa menção a “filhos de Deus”, a saber:

“1. A linhagem piedosa de Sete (ver a genealogia em Gn 5.3 ss).

2. Semideuses ou heróis, como aqueles do folclore grego ou latino.

3. Anjos caídos, mas considerados seres materiais. Talvez nessa ocasião, a teologia dos hebreus ainda não concebesse seres imateriais. Para eles, os anjos eram uma classe diferente e mais alta de seres, mas não imateriais, como se vê na teologia posterior.

4. Anjos bons, mas não seres imateriais.

5. Anjos bons ou maus, mas seres imateriais.

6. Homens incomuns , como uma raça especial de gigantes.

7. Homens proeminentes, como juízes, governantes, sacerdotes etc.

8. Seres estranhos que não podem ser definidos.

9. Os críticos dizem que o relato é mitológico, pelo que não há como dar uma interpretação correta.

10. Homens comuns, mas controlados por forças sinistras, como anjos caídos.”

A crença na união entre deuses, semideuses e figuras angelicais com mulheres humanas era uma parte fundamental do folclore de muitos povos antigos. Algumas culturas antigas, como os egípcios, gregos e latinos, acreditavam que seus monarcas eram divinos ou semidivinos, refletindo práticas comuns nas fases iniciais da história humana.

Muitos intérpretes defendem a ideia de envolvimento angelical, enquanto outros enfatizam que os anjos são descritos como seres assexuados, que não se casam (Mt 22.30). Até que ponto a mitologia grega[2] tem influenciado certas interpretações?

“e a anjos, os que não guardaram o seu estado original, mas abandonaram o seu próprio domicílio, ele tem guardado sob trevas, em algemas eternas, para o juízo do grande Dia;” (Jd 6)

Alguns entendem que este texto de Judas 6 é uma referência ao registro de Gênesis 6.1-4, antes do dilúvio, quando suspostamente um grupo de anjos (filhos de Deus) se envolveram com mulheres formosas (as filhas dos homens) e geraram criaturas híbridas (meio homem, meio anjo), os gigantes (hb. nephilim ver tb Nm 13.33). Assim, o pecado deles estava relacionado à concupiscência e abandono do seu estado original. Segundo esses comentaristas, tal ação teria sido orquestrada por Satanás, na tentativa de desumanizar a raça humana e, assim, impossibilitar a encarnação de Jesus (Gn 3.15) e, subsequentemente, sua obra de redenção na cruz. Dizem, ainda, tais intérpretes que a resposta de Deus foi o dilúvio, enviado para aniquilar essa raça híbrida de seres e restaurar a situação da humanidade. Completam o cenário argumentando que foi a esses espíritos em prisão que Jesus pregou, após a sua morte e antes da sua ressurreição, conforme 1Pedro 3.19-20.

Embora tudo isso possa fazer algum sentido para essas pessoas, provavelmente não passa de uma interpretação fantasiosa. É certo que os anjos são “espíritos” ministradores (Hb 1.14), não visíveis, que têm a capacidade de mudar sua aparência e, em missões especiais, apareceram em forma humana e até comeram (Gn 18.8). Jesus ressuscitado atravessava paredes e, também comia (Lc 24.42-43). Para nós seres humanos é difícil entender a estrutura desse corpo de Jesus pós-ressurreição e do corpo dos anjos. Esses seres criados por Deus (Cl 1.16), citados na bíblia cerca de 277 vezes (“anjo” e “anjos”), segundo Jesus, são seres assexuados, que não se casam e não procriam (Mt 22.30; Mc 12.25). Portanto, sobre Gênesis 6.1-4, temos os seguintes entendimentos:

a) Trata-se da descrição do contexto humano corrompido no período que antecedeu ao dilúvio. Diante da disseminação da maldade humana (Gn 6.5) o veredito de Deus foi dado: “Então, disse o SENHOR: O meu Espírito não agirá para sempre no homem, pois este é carnal; ….” (Gn 6.3). Note-se que o cerne do problema ali em foco é o pecado do homem e não de anjos.

b) A intenção de Deus no dilúvio foi: “Farei desaparecer da face da terra o homem que criei, o homem e o animal, os répteis e as aves dos céus; …” (Gn 6.7). Não há na narrativa qualquer menção a seres híbridos esquisitos, semi-humanos ou semiangelicais na mira do extermínio divino.

No Antigo Testamento há outros registros da expressão “filhos de Deus” que apontam para seres angelicais, como: Jó 1.6; 2.1; 38.7; Sl 29.1. Entretanto, em Isaías 43.6 fica evidenciado que tal expressão não se aplica apenas a esses seres celestiais.

Portanto, de todo o exposto, entendemos que os “filhos de Deus” muito provavelmente são uma referência à descendência abençoada de Sete, filho de Adão (Gn 4.25). Vale lembrar que o capítulo 5 de Gênesis descreve sua genealogia, culminando em Noé, um homem diferenciado dos seus contemporâneos – homem justo e íntegro (Gn 6.9), na qual se insere a ascendência de Jesus (Lc 3.36-38).

3. As filhas dos homens

As principais interpretações da expressão “filhas dos homens”, segundo R. N. Champlin[3], são duas:

“1. Mulheres em geral, não estabelecendo nenhuma distinção entre a linhagem de Caim (cuja genealogia começa em Gn 4.17) e a linhagem de Sete (genealogia a partir de Gn 5.3).

2. Ou a linhagem de Caim. Nesse caso, o texto nos estaria dizendo que uma maior corrupção caiu sobre a terra quando os filhos de Deus (sem importar quem fossem eles) começaram a casar-se com as mulheres da ímpia linhagem de Caim. Isso foi o rompimento da separação estabelecida por Deus, apressando o julgamento da queda. Houve um “ultrapassar dos limites impostos por Deus. Os filhos de Deus formavam “um grupo sensual, que buscava fama e fertilidade” (Allen P. Ross, in loc.).”

Portanto, entendemos que a expressão “filhas dos homens” é uma referência à descendência amaldiçoada de Caim (Gn 4.11-16).

Conclusão

Não há necessidade de estender ainda mais as explicações. É importante apenas ressaltar aqui algumas verdades:

1º) Em lugar algum das Escrituras, nem mesmo em Gênesis 6, é dito que seres angelicais (anjos) se casaram com seres humanos (mulheres). Ao contrário, Jesus disse: “Porque, na ressurreição, nem casam, nem se dão em casamento; são, porém, como os anjos no céu.” (Mt 22.30)

2º) Em lugar algum das Escrituras, nem mesmo em Gênesis 6, é dito que os gigantes são o resultado da concepção de mulheres por seres angelicais.

Finalmente, considerando a complexidade do assunto e as várias interpretações, é importante manter a humildade e reconhecer nossas limitações.

Bibliografia

1. Bíblia Sagrada (SBB – Versão Revista e Atualizada).
2. Bíblia Online – SBB.
3. Bíblia de Estudo da Fé Reformada (R. C. Sproul – Editor geral)(Ed. Fiel – 2020).
4. R. N. Champlin, Ph. D. – O Antigo Testamento Interpretado – Versículo por versículo (Ed. Hagnos – 2001).
5. R. N. Champlin, Ph. D. – O Novo Testamento Interpretado – Versículo por versículo (Ed. Hagnos – 1982).
6. Internet / ChatGPT.


[1] R. N. Champlin, Ph. D. – O Antigo Testamento Interpretado – Versículo por versículo (Ed. Hagnos).

[2] “A mitologia grega, uma coleção rica de histórias e lendas sobre deuses, heróis e criaturas mitológicas, surgiu ao longo de muitos séculos, se desenvolvendo e sendo transmitida principalmente por via oral antes de ser escrita. As origens da mitologia grega remontam ao período minoico (c. 3000-1450 a.C.) e micênico (c. 1600-1100 a.C.). Muitos dos mitos gregos têm raízes nas religiões e mitologias das civilizações minoica e micênica, que influenciaram a cultura grega posterior.” (ChatGPT)

[3] R. N. Champlin, Ph. D. – O Antigo Testamento Interpretado – Versículo por versículo (Ed. Hagnos).