A travessia da fé

Marcos 4.35-41; Mateus 8.18, 23-27; Lucas 8.22-25

Introdução

No findar de mais um dia de ensinamentos e doutrinamentos, Jesus se dirige aos que estavam com ele, num tom de comando, e diz: “- Passemos para a outra margem”. Na verdade, há nessas palavras do Mestre muito mais que a intenção de empreender uma viagem marítima. Observando atentamente os acontecimentos anteriores e posteriores, podemos perceber que Jesus intencionava conduzir os discípulos da margem teórica para a margem prática; da margem do conhecimento, das doutrinas, dos princípios, enfim, das palavras, para a margem da ação, da vivência, da experiência prática e real.

1. A MARGEM DE CÁ

“Tempo de arrependimento, confissão e aprendizado (discipulado)”

35 Naquele dia, sendo já tarde, disse-lhes Jesus: Passemos para a outra margem.(Mc 4)
18 Vendo Jesus muita gente ao seu redor, ordenou que passassem para a outra margem.(Mt 8)
22 Aconteceu que, num daqueles dias, entrou ele num barco em companhia dos seus discípulos e disse-lhes: Passemos para a outra margem do lago; …(Lc 8)

Jesus estava apenas no início do seu ministério. Entretanto, já conseguia reunir em torno de si uma numerosa multidão. Desta feita, ele fez de um barco à beira-mar (mar ou lago da Galileia) o seu púlpito e ensinava muitas coisas, por parábolas, àquela congregação à sua frente, na praia (Mc 4.1-2). Quem era este que tinha tanto a ensinar e tantos para lhe ouvir?

A característica mais marcante da margem de cá está expressa pelo evangelista em Marcos 4.2, 33-34. Esta margem se refere ao mundo das palavras, que expressam ideias, formam convicções e determinam comportamentos. Emerson se expressou assim: “Semeai um pensamento e colhereis um ato; Semeai um ato e colhereis um hábito; Semeai um hábito e colhereis um caráter; Semeai um caráter e colhereis um destino”.

A missão de Jesus incluía uma ampla exposição a respeito de coisas que o ser humano precisava saber. Coisas que Deus já havia revelado parcialmente “aos pais pelos profetas”, mas que agora falava diretamente pelo Filho (Hb 1.1-2). As palavras de Jesus revelavam, basicamente: Os mistérios, os princípios do reino de Deus, que estava sendo estabelecido entre os homens; os padrões de conduta requeridos por Deus e os acontecimentos futuros que afetariam a vida de cada criatura humana. Enfim, todo o conhecimento necessário ao homem, no qual ele pudesse alicerçar a sua vida, por nele a sua fé e viver em harmonia com o resto da criação e com o Criador.

Três grupos de pessoas:

Jesus tinha diante de si uma multidão, composta por grupos que, de certa forma, ainda nos cercam hoje. Do ponto de vista intelectual e de personalidade, podemos identificar três grupos principais – enfatizando tanto os aspectos materiais quanto os espirituais:

– Personalidade Massificada:

Formado por indivíduos que absorvem ideias dispersas e experiências cotidianas, esse grupo, também denominado “massa atrasada”, é o maior em qualquer época. Assim somos alertados em Romanos 14.5b: “Cada um tenha opinião bem definida em sua própria mente.”

– Personalidade Induzida:

Caracterizado por pessoas influenciadas por líderes ou ideologias de determinados segmentos – sejam entidades de classe, sindicatos, partidos políticos, religiões ou seitas – esse grupo se forma a partir da adoção de princípios e crenças alheias. É preciso ter cautela, conforme Colossenses 2.4: “Assim digo para que ninguém vos engane com raciocínios falazes.”

– Personalidade Lapidada:

Formado por indivíduos que constroem sua visão de mundo com base em ideias e fatos investigados, estudados e comprovados, esse grupo se destaca pelo discernimento. Em 1Tessalonicenses 5.21, somos exortados: “… julgai todas as coisas, retende o que é bom.”

Sejamos cristãos ou não, e independentemente do campo – religioso ou secular – cada um de nós pode ser enquadrado em um desses grupos. Em qual deles estamos? Ter consciência dessa realidade é fundamental para que possamos tomar decisões significativas em nossas vidas.

No universo das palavras, o Evangelho se destaca como o único capaz de salvar e aperfeiçoar o homem, conforme enfatizado em Colossenses 1.26-28.

2. A TRAVESSIA

“Tempo de experiência pessoal com Deus”

A vida não é feita só de palavras e pensamentos! Quantos ficariam assentados, indefinidamente, ouvindo palavras de sabedoria. A rainha de Sabá não mediu esforços para estar diante de Salomão e ouvir de viva voz palavras de extrema sabedoria. Não há limites para se registrar palavras e ideias, entretanto, se essas palavras não forem capazes de melhorar a situação do homem, então serão apenas palavras vazias, para o engano da alma e do intelecto.

Após um dia repleto das sábias e inspiradoras palavras de Jesus, era chegada a hora de vê-las ganhar forma e transformar-se em vida. Era tempo de sair da zona de conforto e vivenciar a fé. Em outra ocasião, mais adiante, no monte da transfiguração, Pedro sugeriu ficarem ali, “com a cabeça nas nuvens”, desfrutando daquele momento glorioso (Mc 9.5), porém havia uma missão a cumprir, muita gente a ser alcançada, libertada e curada, como o jovem possesso, no pé do monte (Mc 9.14-29).

A travessia é:

  • Uma Ordem Divina – “Passemos…”
  • Obrigatória para se alcançar a outra margem, isto é, algo mais.
  • Dinâmica como o deslizar do barco sobre as águas.

No campo da fé, ela retrata a experiência pessoal, através da qual a Palavra de Deus passa a ter um significado real em nossa vida. É quando as promessas divinas deixam de ser apenas palavras e passam a ser realidade.

a) O início da travessia

36 E eles, despedindo a multidão, o levaram assim como estava, no barco; e outros barcos o seguiam.(Mc 4)
23 Então, entrando ele no barco, seus discípulos o seguiram. (Mt 8)
22 ….; e partiram.(Lc 8)

Este é o cenário do início da travessia. A multidão permanece na praia enquanto o barco de Jesus assume a dianteira, seguido por outras embarcações. Elementos simples – barco, mar, viagem – simbolizam a essência da vida. Podemos imaginar que somos como um barco navegando pelo vasto mar do mundo: uma imensidão repleta de recursos e belezas, mas também sujeita a surpresas desagradáveis.

Quatro tipos de atitudes para com Jesus:

O quadro do início da travessia nos sugere ou remete a algumas atitudes que em todas as épocas as pessoas têm tido para com Jesus:

1º) Os Indiferentes
Há uma grande multidão que nem sequer está interessada em saber quem é Jesus e ouvir o que ele tem a dizer. São pessoas muito ocupadas e entretidas trilhando o caminho largo.

2º) Os Oportunistas
Há uma pequena multidão que até gosta de ouvir sobre Jesus, mas fica na praia e, logo após, retorna a seus velhos hábitos.

3º) Os Simpatizantes
Há também aqueles, que se dizem interessados, ou até mesmo cristãos, mas seguem Jesus de longe, sem assumir compromisso.

4º) Os Autênticos
O menor e mais privilegiado grupo é formado por aqueles que têm Jesus no barco da sua vida, isto é, que desfrutam da sua intimidade e comunhão.

Esses grupos sempre existirão. Em qual deles você está?

b) O meio da travessia

O quadro do meio da travessia se mostra ameaçador, tenebroso, como na provação. Por cima, a negridão da noite; por baixo, o mar revolto; em volta, ao redor, a tempestade de vento levantando fortes ondas que se arremessavam contra o barco. Que situação terrível! É na provação que chegamos mais perto de Deus. Ela nos proporciona a oportunidade de conhecer melhor a Deus e a nós mesmos. Os momentos de crise têm mudado a vida de muitos, levando-os a uma vida de inteiro compromisso e dependência de Deus (Jó 42.5). Por que? Porque a Palavra de Deus se reveste de vida. A presença de Deus se torna real.

Quatro fases da crise:

1º) Crise e Autossuficiência

37 Ora, levantou-se grande temporal de vento, e as ondas se arremessavam contra o barco, de modo que o mesmo já estava a encher-se de água. (Mc 4)
24 E eis que sobreveio no mar uma grande tempestade, de sorte que o barco era varrido pelas ondas. Entretanto, Jesus dormia. (Mt 8)
23 Enquanto navegavam, ele adormeceu. E sobreveio uma tempestade de vento no lago, correndo eles o perigo de soçobrar. (Lc 8)

É interessante observar como as coisas acontecem. Aquele tipo de tempestade de vento era muito comum no Mar da Galileia. O levantamento do ar quente do dia permitia ao ar mais frio das colinas ao redor, descer rapidamente sobre o lago, girando e rodopiando. Aqueles homens, como bons conhecedores do mar, certamente sabiam disso. Entretanto, confiados na habilidade que tinham, parece que inicialmente dispensaram a presença de Jesus, talvez até mesmo com a nobre intenção de deixá-lo descansar. Jesus ficou atrás, na popa, e dormia. Na nossa vida não é muito diferente. Nos julgamos capazes de lidar com os desafios sozinhos, com os nossos próprios recursos, com as nossas habilidades, talvez, até com as palavras de Jesus na mente, mas quanto a Jesus, ele fica “dormindo”, atrás.

2º) Crise e Clamor

38 E Jesus estava na popa, dormindo sobre o travesseiro; eles o despertaram e lhe disseram: Mestre, não te importa que pereçamos? (Mc 4)
25 Mas os discípulos vieram acordá-lo, clamando: Senhor, salva-nos! Perecemos! (Mt 8)
24 Chegando-se a ele, despertaram-no dizendo: Mestre, Mestre, estamos perecendo!… (Lc 8)

Quando o barco começa a encher-se de água, porque o “barco” do cristão não está isento das tempestades desta vida; quando nos tornamos completamente impotentes para dominar a situação, só então nos lembramos de recorrer a Jesus. Como Deus tem sido misericordioso! Jesus nunca rejeita um coração quebrantado e aflito. Ele se mantém fiel e pronto a ajudar, apesar de tudo.

3º) Crise e Solução

39 E ele, despertando, repreendeu o vento e disse ao mar: Acalma-te, emudece! O vento se aquietou, e fez-se grande bonança. (Mc 4)
40 Então, lhes disse: Por que sois assim tímidos?! Como é que não tendes fé? (Mc 4)
26 Perguntou-lhes, então, Jesus: Por que sois tímidos, homens de pequena fé? E, levantando-se, repreendeu os ventos e o mar; e fez-se grande bonança. (Mt 8)
24 ….Despertando-se Jesus, repreendeu o vento e a fúria da água. Tudo cessou, e veio a bonança. (Lc 8)
25 Então, lhes disse: Onde está a vossa fé? ….. (Lc 8)

Diante dos clamores daqueles homens, Jesus acorda (a autenticidade da sua humanidade) e repreende o vento e aquieta o mar (a autenticidade da sua divindade). Felizes são aqueles que podem contar com Jesus, por perto, pois ele pode salvar a alma das tempestades repentinas da vida e da destruição final!

Após o majestoso milagre, Jesus se dirige àqueles homens questionando-lhes a falta de fé. Por que? “O apelo que lhe fizeram, estando ele dormindo, não foi a calma da invocação de um poder em que se confia, mas a reprimenda assustada daqueles cuja fé foi derrotada pelo perigo”. Deus espera muito mais de nós em termos de fé!

4º) Crise e Crescimento

41 E eles, possuídos de grande temor, diziam uns aos outros: Quem é este que até o vento e o mar lhe obedecem? (Mc 4)
27 E maravilharam-se os homens, dizendo: Quem é este que até os ventos e o mar lhe obedecem? (Mt 8)
25 …. Eles, possuídos de temor e admiração, diziam uns aos outros: Quem é este que até aos ventos e às ondas repreende, e lhe obedecem? (Lc 8)

O descobrimento da grandeza daquele Jesus que estava ao lado deles era tal que as suas mentes ficaram confusas e atemorizadas com o que seus olhos presenciaram. O reconhecimento da grandeza deste Deus vivo e verdadeiro, através de uma experiência pessoal é indispensável para alcançarmos a outra margem da vida cristã.

3. A MARGEM DE LÁ

“Tempo de vida frutífera”

É o lugar de ação, do serviço cristão. É o lugar onde se encontram as multidões famintas e necessitadas. Quando Jesus desembarcou na outra margem (Mc 5.1), ele enfrentou e venceu os maiores desafios que conhecemos: O poder satânico (Mc 5.1-20), a enfermidade incurável (Mc 5.25-34) e a morte (Mc 5.21-24; 35-43). Provou assim toda a sua autoridade.

Jesus, porém, não reservou para si próprio a tarefa de libertar, curar e pregar; antes, capacitou e continua capacitando aqueles seus servos que se dispõem a pagar o preço dessa viagem para a outra margem, dessa travessia da fé (Mc 6.7-13).

Conclusão

A margem de cá representa o tempo de forjar a fé, alicerçando-a solidamente na Bíblia, a Palavra de Deus. Na travessia do cotidiano, é o tempo de aprofundar a comunhão e a intimidade com o Senhor — tanto nos dias serenos quanto nos embates da vida. E, na margem de lá, salvos e capacitados por Deus, fortalecidos pelo Espírito Santo, é tempo de sermos instrumentos úteis: cumprindo nossa missão, servindo ao próximo, levando a mensagem da vida eterna e sendo apoio nas suas eventuais necessidades e desafios.

A poesia abaixo resume os três tópicos:

A Travessia da Fé

Na margem de cá,
Onde a calmaria nos aquieta
o coração se abre à brisa suave
de lições sagradas e promessas contidas.
Ali, em cada palavra e olhar,
descobrimos os ensinamentos
que, como sementes, aguardam o tempo
de germinar na alma.

Então, surge a travessia,
o mar se agita, tempestade e desafio,
e o barco balança a fé.
A experiência prática pulsa,
no uivar do vento e no agito da dúvida,
mas então, a voz de Jesus
acalma as ondas,
e a travessia se torna
um caminho de confiança renovada,
onde cada gota de medo
se transforma em confiança no Salvador.

E chegamos à margem de lá,
a luz se ergue em frutos de serviço,
Ali, a fé amadurece e é comprovada.
O que foi aprendido e vivido se traduz em ação:
em cada gesto de amor,
em cada palavra de esperança,
floresce o fruto da graça
que transforma o mundo ao nosso redor.

………………………..

Entre a margem de cá, a travessia e a margem de lá, a travessia se revela como um caminho de transformação e ação:
Na calmaria, aprendemos;
na tormenta, experimentamos;
e, no amanhecer, servimos …
com a grandiosidade do Deus que acalma todas as tempestades.

A sociedade clama por socorro. Temos ouvido a sua voz?

Você que ainda não tem Jesus no “barco”, como vai reagir a tudo que tem ouvido?