
Introdução
Hoje, 15 de novembro de 2024, comemoramos os 135 anos da Proclamação da República no Brasil. Esse momento histórico, apesar de encoberto pela névoa do tempo, merece ser lembrado, bem como o período do Império que o precedeu. Mesmo que estejamos constantemente absorvidos pelas demandas do presente, voltar o olhar para o passado é essencial, pois a história permanece como a “mestra da vida” (lat. Magistra Vitae), oferecendo lições valiosas para o entendimento do presente e a construção do futuro.
É válida a tentativa de síntese do desenvolvimento brasileiro, em seus múltiplos aspectos: político, social e econômico. Não pretendemos inovar a periodização da historiografia tradicional: Colônia (1500-1822), Império (1822-1889) e República (a partir de 1889). Nesta breve abordagem vamos focar a questão religiosa no império e na virada da república.
Detalhando um pouco mais estes três períodos da história brasileira, temos:
| BRASIL | DESCRIÇÃO | PERÍODO | OBS |
| Colônia Portuguesa | Colonização | 1500-1807 | Descobrimento do Brasil: 22/04/1500 |
| Colônia Portuguesa | Período Joanino | 1808-1822 | D. João VI – Família Real Portuguesa no Brasil |
| Império | Primeiro Reinado | 1822-1831 | D. Pedro I e Independência do Brasil (07/09/1822) |
| Império (Fato Relevante) | Primeira Constituição | 1824 | D. Pedro I promulga a primeira constituição brasileira, instituindo o Brasil como uma monarquia constitucional. |
| Império | Segundo Reinado (Período Regencial) | 1831-1840 | D. Pedro I abdica em favor de seu filho, D. Pedro II, que ainda era criança. Inicia-se o Período Regencial, com regentes governando o Brasil até a maioridade de D. Pedro II. |
| Império | Segundo Reinado | 1840-1889 | D. Pedro II assume o trono aos 14 anos, encerrando o Período Regencial. |
| Império (Fato Relevante) | Abolição da Escravatura | 1888 | Em 13/05/1888, a Princesa Isabel assina a Lei Áurea, que abole a escravidão no Brasil. |
| República | Primeira República | 1889-1930 | Proclamação da República: Em 15/11/1889, Marechal Deodoro da Fonseca proclama a República, acabando com a monarquia e instaurando a Primeira República. |
| República (Fato Relevante) | Segunda Constituição | 1891 | – Promulgada após a Proclamação da República em 1889, refletindo o novo regime republicano e a separação entre Igreja e Estado. – Adotou um sistema federativo e presidencialista, com três poderes: Executivo, Legislativo e Judiciário. – Ampliou o direito ao voto, mas excluiu analfabetos, mulheres e menores de 21 anos. |
| República | A República Nova | 1930-1937 | Revolução de 1930: Getúlio Vargas assume o poder, encerrando a Primeira República e dando início a uma era de reformas sociais e econômicas. |
| República | Estado Novo | 1937-1945 | 1937 – Vargas implanta um governo autoritário, centralizando o poder e suspendendo eleições até 1945. |
| República | Regime Democrático | 1945-1964 | 1945 – Fim do Estado Novo: Vargas é deposto e o Brasil retorna ao regime democrático. |
| República | Regime Militar | 1964-1985 | Em 31/03/1964, os militares tomam o poder, com significativo apoio da população e da imprensa na época, que viram a intervenção militar como uma forma de restaurar a ordem e conter o que percebiam como uma crescente ameaça comunista, além de resolver a instabilidade política e econômica do governo do então presidente João Goulart. |
| República (Fato Relevante) | Redemocratização | 1985 | Tancredo Neves é eleito presidente por via indireta, marcando o fim do Regime Militar, embora ele falecesse antes de tomar posse; e seu vice, José Sarney, assume o cargo. |
| República (Fato Relevante) | Constituição Cidadã | 1988 | Promulgada a Constituição de 1988, que estabelece direitos e garantias fundamentais e define o Brasil como uma república democrática. |
1. PANORAMA RELIGIOSO NO BRASIL
Sociólogos e historiadores da religião geralmente dividem a história religiosa do Brasil em quatro períodos principais: o período colonial, o período do império e o período da república. Esta última se subdivide em uma fase mais recente, marcada por movimentos de renovação e expansão de algumas religiões universais.
1.1 Período Colonial (1500-1822)
Durante todo o período colonial o catolicismo foi, praticamente, a única religião do Brasil. O judaísmo, que também chega ao país na época do descobrimento, foi perseguido pela Inquisição e reduzido à clandestinidade. As penetrações de colonizadores protestantes (calvinistas franceses em 1555 e holandeses em 1624 e 1630) foram liquidadas pelas armas.
1.2 Período do Império (1822-1889)
A Constituição de 1824 estabeleceu que o catolicismo “continuaria” a ser a religião do Estado. Para os regalistas[1] isso significava a manutenção do status quo. Como consequência foram conservadas várias vantagens para a Igreja: manutenção do clero e do culto, dos seminários, das missões e exclusão dos não católicos da representação política (esse último privilégio cessou com a lei de 9 de janeiro de 1881). No entanto, nunca foi formalizada uma concordata que delimitasse claramente os direitos e deveres do Estado e da Igreja. Através do Ministério do Império, o governo regulava tanto questões disciplinares quanto, em alguns casos, litúrgicas da Igreja. Apesar desses privilégios, a vida religiosa passava por uma crise profunda. O prestígio do clero diminuía na esfera política e cultural, e o esvaziamento dos conventos se tornava evidente, levando muitos à ruína e até à extinção de ordens religiosas inteiras. Cogitou-se seriamente extinguir de vez essas ordens e secularizar os religiosos remanescentes. Em 1854 foi suspenso o noviciado em todas elas. A decadência precipitou-se ainda mais.
Durante o período do império, a hegemonia religiosa, política e cultural do catolicismo no Brasil foi quebrada por influência de correntes liberais europeias, principalmente pelo estabelecimento da maçonaria e do protestantismo.
A maçonaria chegou ao Brasil em 1797, ainda durante o período colonial. As primeiras atividades maçônicas começaram por influência de europeus, principalmente portugueses e franceses, que trouxeram ideias iluministas para o país. No período do Império a maçonaria teve uma influência marcante na sociedade brasileira, incluindo na esfera religiosa, com impacto tanto no catolicismo quanto no protestantismo. Apesar de não ser uma religião, a maçonaria atraiu muitos líderes sociais e intelectuais da época. A maçonaria e a Igreja Católica mantiveram uma relação conflituosa no período imperial. No ápice deste atrito, a intervenção do governo imperial, que apoiava a maçonaria, levou a um embate com a Igreja. Essa crise simbolizou a resistência da Igreja Católica à influência maçônica e consolidou sua postura contra a maçonaria. A maçonaria, defendendo princípios como a liberdade religiosa, a tolerância e a separação entre Igreja e Estado, inspirou setores liberais do catolicismo. Apesar da oposição oficial da Igreja, alguns católicos progressistas, simpatizantes da maçonaria, defendiam a modernização e a independência da Igreja em relação ao Estado, o que contribuiu para o surgimento de uma visão mais reformista dentro do catolicismo.
Ainda que não concordemos com a participação de cristãos evangélicos na maçonaria, é preciso pontuar aqui que ambos os grupos tinham algumas pautas de interesse comum, sendo a principal a liberdade religiosa. O protestantismo começou a se estabelecer no Brasil na segunda metade do século XIX, principalmente com a chegada de missionários estrangeiros. A maçonaria, ao promover a liberdade religiosa e o direito de culto, acabou ajudando, mesmo que indiretamente, a abrir caminho para que o protestantismo se estabelecesse no país, em um ambiente dominado pelo catolicismo. Maçons e protestantes compartilhavam o interesse pela educação e pela leitura da Bíblia, o que incentivou o protestantismo a investir em escolas e instituições de ensino no Brasil. Alguns líderes protestantes tinham boas relações com maçons, e ambos os grupos se viam como aliados em sua defesa da liberdade religiosa e de um governo laico.
1.3 Período da República (1889-2024)
Um conflito entre dois prelados e o governo pôs a nu o artificialismo da situação e abalou fortemente as relações entre os dois poderes. Trata-se da Questão Religiosa (1872), cujos protagonistas foram o bispo de Olinda, D. Vital Maria Gonçalves de Oliveira, e o do Pará, D. Antônio Macedo Costa. A Proclamação da República alterou por completo a situação. A 7 de janeiro de 1890 o governo provisório separou a Igreja do Estado, declarou extinto o padroado e proibiu aos Estados-membros protegerem ou perseguirem qualquer Igreja. De um modo geral a medida foi considerada favorável e, reunidos pela primeira vez, os bispos brasileiros aprovaram uma pastoral coletiva em tom otimista. A situação, embora não fosse ideal, trouxe à Igreja Católica mais vantagens do que desvantagens.
A partir da Proclamação da República o quadro religioso novamente se altera, dessa vez a favor da expansão das religiões de massa, com a multiplicação de grupos sincretistas afro-brasileiros e o culto pentecostal. Ao lado do contínuo crescimento de numerosas formas de cultos populares, principalmente nos centros urbanos, aumenta o interesse pelo ecumenismo entre católicos e protestantes e por algumas expressões de religiões orientais que aqui se estabelecem, sincretizando-se por vezes entre si ou com o catolicismo, ou mantendo-se fechadas entre grupos de imigrantes, como os ortodoxos.
2. O CATOLICISMO NO IMPÉRIO
Durante o Brasil Império (1822-1889), ter uma religião — e, especificamente, ser católico — era de grande importância social, política e cultural. Como o catolicismo era a religião oficial do Estado, ele influenciava desde a vida cotidiana das pessoas até decisões governamentais e a educação. Eis alguns pontos que demonstram a importância da religião nesse período:
a) Cidadania e Inclusão Social:
O catolicismo era visto como parte da identidade nacional, e a adesão à fé católica era frequentemente associada à moralidade, respeito e status social. Aqueles que seguiam o catolicismo eram considerados cidadãos “normais”, enquanto os não católicos enfrentavam discriminação e exclusão social.
b) Participação em Rituais Públicos e Privados:
O calendário do Império era repleto de celebrações e feriados religiosos, e muitos eventos públicos, como casamentos, funerais e festividades, eram realizados dentro dos padrões eclesiásticos católicos. Esses eventos reforçavam o papel central da Igreja na vida das pessoas e contribuíam para a união e a continuidade das tradições culturais.
c) Controle sobre Educação e Moralidade Pública:
A Igreja Católica controlava grande parte do sistema educacional, transmitindo não apenas a fé, mas também os valores morais e sociais. A educação religiosa era considerada essencial para a formação do caráter e da moralidade, de modo que as instituições de ensino enfatizavam a doutrina católica como parte da formação intelectual e moral dos cidadãos.
d) Legitimidade e Poder Político:
A fé católica servia como uma base de legitimidade para a monarquia. A Família Imperial e muitos nobres eram católicos devotos, e o catolicismo era apresentado como um fundamento moral para a liderança política. Reis e imperadores eram vistos como defensores da fé e, portanto, qualquer desvio do catolicismo poderia ser interpretado como uma ameaça à estabilidade e à ordem.
e) Direitos Civis e Status Jurídico:
Ser católico era essencial para usufruir de certos direitos civis, como o reconhecimento legal de casamentos e registros civis. Além disso, a Igreja controlava os cemitérios, e somente católicos tinham o direito de serem enterrados em solo sagrado. Muitos protestantes e judeus enfrentavam dificuldades para registrar seus filhos, se casar e até para garantir locais adequados de sepultamento.
f) Perseguição e Exclusão para Outras Religiões:
Como o catolicismo era a religião oficial, outras crenças eram vistas com desconfiança. Não católicos, como protestantes e praticantes de religiões afro-brasileiras, enfrentavam perseguições, discriminações e limitações severas, e muitas vezes tinham que praticar suas crenças em segredo. Essa exclusão reforçava a ideia de que o catolicismo era a única “religião verdadeira” e essencial para a moralidade.
Em resumo, no Brasil Império, ser católico era quase uma obrigação para quem desejasse participar plenamente da vida social e cívica. A religião moldava a vida pública e privada e servia como um pilar de legitimação da ordem política e social, deixando um legado que só começou a ser questionado com a chegada da República e a separação entre Igreja e Estado.
3. O PROTESTANTISMO[2] NO IMPÉRIO
A presença protestante no período colonial não teve continuidade histórica.
A organização das primeiras igrejas evangélicas de cada denominação no Brasil ocorreu principalmente no século XIX, com a chegada de missionários estrangeiros. Esses missionários originários de linhas teológicas diferentes, estabeleceram as bases de várias denominações evangélicas históricas. Algumas dessas primeiras igrejas evangélicas no Brasil e suas denominações são:
a) Congregacionalismo:
A primeira Igreja Evangélica Congregacional foi organizada em 11/07/1858, Igreja Evangélica Fluminense, na cidade do Rio de Janeiro, por Robert Reid Kalley [1809-1888](médico e missionário escocês, amigo do imperador D. Pedro II) e sua segunda esposa Sarah Poulton Kalley [1825-1907]. Essa igreja é considerada o marco inicial do protestantismo organizado no Brasil.
b) Presbiterianismo:
A primeira igreja presbiteriana foi organizada em 12/01/1862, Igreja Presbiteriana do Rio de Janeiro, na cidade do Rio de Janeiro, pelo missionário americano Ashbel Green Simonton [1833-1867]. Simonton também fundou o primeiro jornal evangélico e o primeiro Seminário Presbiteriano no país.
c) Metodismo:
A primeira igreja metodista no Brasil foi organizada em 1867, na cidade de Saltinho, próximo a Rio Claro, no estado de São Paulo. Esse movimento foi liderado por imigrantes americanos e europeus, especialmente após a chegada de missionários metodistas dos Estados Unidos. Um dos missionários mais importantes nesse processo foi o Rev. Junius Estaham Newman, que começou a realizar cultos e pregações para pequenos grupos de fiéis.
d) Batistas:
A primeira igreja batista no Brasil foi organizada em 10/09/1871, na cidade de Santa Bárbara d’Oeste, no estado de São Paulo. Essa fundação foi realizada por imigrantes batistas norte-americanos que haviam se estabelecido na região após a Guerra Civil dos Estados Unidos (Secessão), sendo William Buck Bagby o missionário pioneiro. Era, entretanto, uma igreja limitada em seu escopo: seus cultos, em língua inglesa, destinavam-se apenas aos colonos. Cumpriram sua missão e encerraram seus trabalhos. É considerada apenas como um marco inicial, um estágio preliminar na história batista do Brasil. Assim, com cinco membros fundadores, em 15/10/1882, foi organizada a Primeira Igreja Batista da Bahia e primeira igreja batista brasileira. Estes cinco são os casais missionários: William Buck Bagby e sua esposa Anne Luther Bagdy; Zacharias Clay Taylor e sua esposa Kate Stevens Crawford Taylor; e, Antônio Teixeira de Albuquerque, ex-padre católico que abandonou a batina, se casou, porém, sua esposa não era convertida.
e) Movimento dos irmãos (Casa de Oração)
Iniciou-se na cidade do Rio de Janeiro, RJ, na residência do irmão João Antonio de Menezes, em 07/07/1878, com oito irmãos que saíram da Igreja Evangélica Fluminense depois de troca de correspondências com o irmão Richard Holden, que havia sido co-pastor daquela mesma igreja ainda na época do Dr. Robert Kalley.
Essas primeiras igrejas evangélicas trouxeram novas doutrinas, práticas e formas de organização, contribuindo para a diversidade religiosa do Brasil e influenciando o cenário religioso e social do país.
4. A CONTRIBUIÇÃO DO CATOLICISMO
Durante o período do Império no Brasil, a Igreja Católica exerceu um papel relevante na sociedade, oferecendo importantes contribuições que marcaram a cultura, a educação, e a organização social. Sendo a religião oficial do Estado, sua influência ia além da esfera espiritual. Os protestantes têm sérias objeções à Igreja Católica, em termos de várias doutrinas e práticas, especialmente em áreas fundamentais da fé e do papel da Igreja. Essas divergências surgiram no século XVI com a Reforma Protestante, quando os reformadores defenderam uma volta aos ensinamentos bíblicos e rejeitaram algumas tradições e doutrinas católicas. Entretanto, não se pode deixar de reconhecer algumas das principais contribuições da Igreja Católica no Brasil Império, tais como:
a) Educação e Cultura:
A Igreja Católica foi a principal responsável pela educação formal no Brasil. Escolas, colégios e seminários católicos forneciam o ensino para a elite brasileira e formavam boa parte dos administradores e intelectuais do período. Essa educação, embora limitada a uma parcela da população, ajudou a estabelecer uma base cultural e moral significativa no país.
b) Assistência Social e Caridade:
A Igreja Católica desempenhou um papel relevante na assistência aos necessitados. Diversas ordens religiosas e irmandades mantinham hospitais, orfanatos, asilos e outros serviços de caridade, suprindo carências que o governo não atendia. Essa assistência foi essencial para as populações mais vulneráveis, especialmente em regiões onde o Estado tinha pouca presença.
c) Influência na Moralidade e nas Leis:
Como religião oficial, a Igreja Católica influenciou as normas morais e éticas da sociedade brasileira. As doutrinas e preceitos católicos moldaram costumes e leis, como as que regulavam o casamento e a família. Os casamentos, batismos e funerais eram organizados pela Igreja, e o catolicismo servia de referência para os padrões morais da época.
d) Influência no Abolicionismo:
Embora a posição da Igreja Católica sobre a escravidão fosse ambígua, alguns padres e membros de ordens religiosas participaram do movimento abolicionista, defendendo melhores condições e, eventualmente, a libertação de escravizados. Personalidades religiosas pressionaram o governo a adotar medidas mais humanitárias, ajudando a suavizar as condições em que viviam as populações escravizadas.
e) Preservação e Transmissão da Cultura e Literatura:
A Igreja Católica preservou e transmitiu conhecimentos e literatura religiosa e filosófica, conectando o Brasil ao pensamento europeu e promovendo valores cristãos que influenciaram as letras e artes. Esse acervo cultural contribuiu para a formação da identidade brasileira e o desenvolvimento intelectual.
5. ALGUNS PONTOS DE DIVERGÊNCIA
Os protestantes divergem da Igreja Católica Romana em diversas doutrinas e práticas, especialmente em questões essenciais de fé e no papel da Igreja. Essas diferenças surgiram no século XVI com a Reforma Protestante, um movimento liderado por figuras como Martinho Lutero, João Calvino e Ulrico Zwinglio. Esses reformadores defendiam um retorno aos ensinamentos bíblicos originais e rejeitavam certas tradições e doutrinas católicas que, segundo eles, não estavam fundamentadas nas Escrituras. Abaixo estão as principais diferenças entre as duas tradições:
5.1 A Autoridade das Escrituras (Sola Scriptura)
• Protestantes: Defendem a autoridade única das Escrituras (Bíblia) em matéria de fé e prática, o que é conhecido como Sola Scriptura. Para os protestantes, apenas a Bíblia é a fonte final de autoridade e doutrina cristã.
• Católicos: Acreditam que a autoridade em matéria de fé vem tanto das Escrituras quanto da Tradição da Igreja. Para a Igreja Católica, a Bíblia e a Tradição (como ensinamentos dos Padres da Igreja, concílios e encíclicas papais) são igualmente fundamentais.
5.2 Justificação pela Fé (Sola Fide)
• Protestantes: Ensinam que a justificação (ou seja, ser declarado justo diante de Deus) ocorre pela fé em Cristo, independentemente de obras. Esse princípio é conhecido como Sola Fide.
• Católicos: Acreditam que a justificação envolve tanto a fé quanto as obras. Para a Igreja Católica, as boas obras, em conjunto com a fé, são necessárias para a salvação, já que a graça de Deus se manifesta também através das ações do fiel.
5.3 A Natureza da Igreja e o Papel do Clero
• Protestantes: Ensinam que todos os crentes são sacerdotes diante de Deus (sacerdócio universal dos crentes), o que significa que todos têm acesso direto a Deus, sem necessidade de intermediação sacerdotal. Assim, não há uma hierarquia eclesiástica tão rígida como no catolicismo.
• Católicos: Mantêm uma estrutura hierárquica com o papa como autoridade suprema, seguido por cardeais, bispos e padres. A Igreja Católica acredita na autoridade dos clérigos para celebrar sacramentos, interpretar a Bíblia e liderar o rebanho.
5.4 Sacramentos
• Protestantes: Reconhecem geralmente apenas dois sacramentos: o batismo e a ceia do Senhor (ou eucaristia), ambos vistos como ordenanças que simbolizam a fé e a comunhão com Deus, mas não como meios de graça em si.
• Católicos: Reconhecem sete sacramentos (batismo, eucaristia, confirmação, confissão, unção dos enfermos, ordem e matrimônio), que são considerados meios pelos quais a graça de Deus é transmitida aos fiéis.
5.5 Doutrina da Eucaristia
• Protestantes: A maioria entende a ceia do Senhor de forma simbólica ou espiritual. Lutero, no entanto, acreditava na presença real de Cristo no pão e no vinho, enquanto outros reformadores, como Zwinglio, viam o pão e o vinho apenas como símbolos.
• Católicos: Acreditam na transubstanciação, ou seja, que o pão e o vinho se transformam literal e substancialmente no corpo e sangue de Cristo durante a missa, mesmo que mantenham a aparência de pão e vinho.
5.6 O Papel de Maria e dos Santos
• Protestantes: Não creem na intercessão de santos ou de Maria, nem na veneração ou devoção a eles. Acreditam que Jesus é o único mediador entre Deus e os homens e que a oração deve ser dirigida apenas a Deus.
• Católicos: Praticam a veneração de Maria e dos Santos, acreditando que eles podem interceder pelos fiéis junto a Deus. Maria, em especial, ocupa um papel central como Mãe de Deus e é considerada digna de devoção.
5.7 O Purgatório e a Indulgência
• Protestantes: Rejeitam a doutrina do purgatório e a prática das indulgências. Acreditam que, após a morte, as almas dos crentes vão diretamente ao céu, e as dos não crentes, ao inferno.
• Católicos: Acreditam no purgatório, um estado intermediário onde as almas são purificadas antes de entrar no céu. Indulgências são vistas como um meio de reduzir o tempo de purificação no purgatório, embora a venda de indulgências tenha sido abolida após a Reforma.
Os cinco “solas” da Reforma Protestante são:
SOLA FIDE (somente a Fé)
SOLA SCRIPTURA (somente a Escritura)
SOLUS CHRISTUS (somente Cristo)
SOLA GRATIA (somente a Graça)
SOLI DEO GLORIA (glória somente a Deus)
Essas diferenças teológicas refletem visões distintas sobre como o cristianismo deve ser vivido e praticado. Enquanto o catolicismo enfatiza a tradição e o papel mediador da Igreja, o protestantismo foca em uma abordagem mais direta e pessoal à fé, fundamentada nas Escrituras. Essas divergências ajudaram a moldar a identidade de cada tradição ao longo dos séculos.
6. A PERSEGUIÇÃO AOS PROTESTANTES
Se não houvesse tão extenso e inquestionável registro histórico da perseguição da Igreja Católica aos Protestantes, seria difícil imaginar tamanho repertório de hostilidade e horror impetrado por uma instituição religiosa contra aqueles que ousaram interpretar a Bíblia e a Fé Cristã de forma diferente, apesar desta ter como ponto central o amor a Deus e ao próximo. Ainda estou impactado com a leitura do livro JORNADA NO IMPÉRIO, citado na bibliografia, que descreve a vida e obra do Dr. Robert Kalley e toda a perseguição que esse médico e missionário cristão evangélico sofreu por parte da Igreja Católica, principalmente na Ilha da Madeira (os padres incitavam a população contra ele, sua casa foi incendiada e teve que fugir da ilha para não ser morto) e, também, aqui no Brasil. Vejam, por exemplo, este relato nas páginas 56 e 57, do ocorrido na Ilha da Madeira:
✍Maria Joaquina Alves, mãe de sete filhos, foi presa e acusada de apostasia, heresia e blasfêmia. Após dezesseis meses, foi levada a julgamento para responder às acusações feitas contra ela. A última acusação, blasfêmia, foi escolhida para receber atenção especial. “Você acredita”, eles perguntaram, “que a hóstia consagrada é o verdadeiro corpo, o verdadeiro sangue, a alma humana e divindade de Cristo?” Sua vida dependia da resposta que ela desse, mas firme e claramente respondeu: “Eu não acredito nisto”. O juiz a sentenciou à morte. Aproximadamente um ano depois esta sentença foi anulada pela corte de Lisboa, mas apenas em consequência de um erro técnico cometido durante o julgamento. A sentença, portanto, não poderia ser executada. No dia seguinte à sua libertação, Maria Joaquina foi ao culto de uma igreja e pediu para ser aceita como membro, pois nesta época a igreja evangélica em Madeira já havia sido fundada. Ela se tornou um exemplo vivo, para todos os seus companheiros crentes, de como haviam sido chamados para sofrer pela causa do evangelho e, no sofrimento, manterem-se firmes e leais a Cristo.”✍
A intenção de trazer isso à tona neste momento, não poderia ser outra senão ressaltar, com perplexidade, até que ponto a natureza humana caída e, certamente instigada por forças malignas, pode levar pessoas a tamanhas atrocidades contra o seu semelhante que tem uma crença diferente, o que deve nos servir de alerta para repudiar e jamais cair no mesmo erro.
Essas perseguições católicas refletem a clara intenção de manutenção do status quo, durante períodos em que religião e poder político estavam fortemente entrelaçados. No Apêndice 1, no final desta exposição, há uma lista dessas principais perseguições ao longo da história.
Quais as motivações dessas perseguições aos cristãos evangélicos no Brasil, no tempo do Império?
Durante o período imperial no Brasil (1822-1889), a Igreja Católica Romana exercia um papel de grande influência sobre o governo e a sociedade, sendo a religião oficial do Império. Essa posição oficial trazia consigo privilégios e direitos exclusivos à Igreja Católica, que via a expansão de outros grupos religiosos, especialmente os protestantes, como uma ameaça a essa posição.
Os principais motivos que levaram a Igreja Católica a combater os cristãos evangélicos no Brasil imperial foram:
a) Exclusividade Religiosa e Cultural:
A Igreja Católica tinha não só uma posição oficial, mas também uma forte presença cultural e social. A chegada de missionários evangélicos trazia outras interpretações da fé cristã, o que desafiava a exclusividade católica.
b) Temor à Perda de Fiéis:
Os missionários evangélicos, como Robert Kalley e Ashbel Green Simonton, promoviam o acesso direto à Bíblia e ao ensino das Escrituras. Essa prática era vista como uma concorrência pela Igreja Católica, que temia perder influência e fiéis para as novas denominações.
c) Separação entre Igreja e Estado:
O trabalho dos protestantes era também uma ameaça à relação entre Igreja e Estado, pois promoviam uma interpretação do cristianismo mais alinhada à liberdade de consciência e de religião, defendendo uma separação entre as duas esferas.
d) Liberdade Religiosa e Educação:
Os evangélicos promoviam valores de liberdade religiosa e incentivavam a leitura da Bíblia em português, o que contrastava com a prática católica predominante de realizar missas em latim e centralizar o controle sobre a interpretação dos textos bíblicos.
Esses fatores provocaram tensões, perseguições e, em alguns casos, episódios de violência contra protestantes. Contudo, essa oposição contribuiu para o crescimento dos movimentos evangélicos no Brasil, que continuaram a se expandir e a se organizar, especialmente após a Proclamação da República em 1889, que trouxe maior liberdade religiosa ao país.
7. AS RESTRIÇÕES SOFRIDAS PELOS CRISTÃOS EVANGÉLICOS
Quando a Igreja Católica era a religião oficial do Brasil no período imperial, os não católicos — em sua maioria, cristãos evangélicos — enfrentavam uma série de restrições e limitações em direitos e práticas civis e religiosas. Entre os principais direitos que eles não possuíam, destacam-se:
a) Direito à Liberdade de Culto Público:
Os não católicos não podiam realizar cultos religiosos em espaços públicos ou de forma ostensiva. Embora pudessem se reunir para orações e estudos bíblicos em residências particulares, eram proibidos de construir templos ou realizar cultos publicamente, exceto em ambientes privados.
b) Registros Oficiais de Casamento e Batismo:
Casamentos e batismos não realizados pela Igreja Católica não eram reconhecidos legalmente pelo Estado. Assim, muitos cristãos evangélicos precisavam recorrer a cerimônias católicas para que seus matrimônios e o registro de seus filhos fossem legalmente aceitos.
c) Sepultamento em Cemitérios Públicos:
Os cemitérios eram controlados pela Igreja Católica e, em muitos lugares, apenas os católicos tinham direito ao sepultamento em cemitérios locais. Cristãos Evangélicos e pessoas de outras religiões eram, em várias ocasiões, enterrados em locais separados ou até mesmo fora das áreas comuns.
d) Participação em Cargos Públicos e Educação:
Embora não fosse um impedimento formal, havia discriminação no acesso a cargos públicos e nas instituições de ensino, pois a educação e a administração pública estavam fortemente influenciadas pela Igreja Católica. Ser católico era frequentemente uma exigência implícita para a ascensão em carreiras políticas e públicas.
e) Divulgação de Material Religioso:
A impressão e distribuição de Bíblias e outros materiais religiosos em português encontravam resistência. As autoridades católicas e o Estado frequentemente dificultavam a publicação e distribuição de literatura religiosa protestante.
Essas limitações começaram a mudar após a Proclamação da República, em 1889, quando o Brasil adotou o princípio de separação entre Igreja e Estado, e garantiu a liberdade religiosa, permitindo que não católicos exercessem sua fé livremente e em igualdade de direitos.
8.NOVOS TEMPOS, COM A REPÚBLICA
Após a Proclamação da República em 15/11/1889, o Brasil passou por importantes mudanças religiosas, impulsionadas pela separação entre Igreja e Estado e pela nova Constituição republicana de 1891, que garantiu a liberdade de crença e o fim do catolicismo como religião oficial. Entre as principais mudanças estão:
a) Liberdade Religiosa e de Culto:
A Constituição de 1891 garantiu a liberdade de culto, permitindo que as diferentes religiões se estabelecessem livremente e celebrassem suas cerimônias de forma pública. Essa medida assegurou igualdade de direitos para todos os grupos religiosos e removeu as restrições para os não católicos.
b) Separação Igreja e Estado:
Com a Proclamação da República, o Estado deixou de se associar oficialmente à Igreja Católica, passando a adotar uma postura laica. O clero perdeu seu papel de influência oficial nas decisões do governo e em áreas como educação e vida pública. Isso abriu espaço para a atuação de outras religiões e contribuiu para a diversidade religiosa.
c) Direitos Civis para Não Católicos:
Antes da República, casamentos e registros civis, como nascimento e óbito, eram conduzidos exclusivamente pela Igreja Católica. Com a nova legislação, o Brasil passou a reconhecer os registros civis, permitindo que casamentos e outros atos fossem realizados independentemente da religião.
d) Expansão de Denominações Evangélicas:
Missionários protestantes dos Estados Unidos e da Europa começaram a evangelizar e fundar igrejas no Brasil, especialmente entre 1858 e 1882 – Igrejas Congregacionais, Presbiterianas, Batistas e Metodistas. A liberdade religiosa certamente facilitou o crescimento dessas denominações evangélicas e a organização de outras, entre 1890 e 1930. Assim, a primeira igreja Assembleia de Deus no Brasil foi fundada em 18/06/1911, na cidade de Belém, Pará.
e) Acesso aos Cemitérios Públicos:
Antes da República, apenas católicos podiam ser sepultados em cemitérios controlados pela Igreja. Com as mudanças republicanas, os cemitérios foram secularizados, garantindo o direito de sepultamento a pessoas de todas as religiões, promovendo a igualdade nos direitos funerários.
f) Diversificação do Ensino Religioso:
A educação passou a ser laica, e o ensino religioso deixou de ser obrigatório nas escolas públicas. Embora o ensino religioso ainda fosse oferecido em algumas instituições, tornou-se opcional e não atrelado a uma religião específica, como o catolicismo.
Essas mudanças tornaram o Brasil um país de diversidade religiosa, favorecendo o crescimento de diferentes tradições e influenciando a cultura e a identidade religiosa do país até hoje.
9.OS TEMPLOS NÃO CATÓLICOS
Com a separação entre Igreja e Estado, e a liberdade religiosa, após a Proclamação da República, os não católicos puderam construir templos que refletissem suas crenças e estilos de culto, inaugurando uma nova fase na arquitetura religiosa do Brasil. Algumas características marcantes desses novos templos são:
a) Estilo Simples e Funcionalidade:
Muitos templos protestantes adotaram uma arquitetura simples e sem grandes ornamentações, diferentemente das igrejas católicas tradicionais, que eram repletas de detalhes barrocos e neogóticos. A ênfase estava na funcionalidade, refletindo a prática protestante de focar mais na leitura e pregação da Bíblia do que em imagens e esculturas religiosas. O layout interno direciona o olhar dos fiéis para o púlpito, de onde o pastor ou ministro conduz o culto. Esse arranjo realça a centralidade da pregação e do ensino bíblico na igreja.
b) Ausência de Imagens e Ornamentações Religiosas:
Os templos protestantes não seguem a linha do uso de imagens de santos, cruzes ornamentadas e vitrais. Em vez disso, o espaço tendia a ser mais neutro, com paredes lisas ou com poucos detalhes, refletindo a tradição protestante de não veneração de imagens.
c) Incorporação de Estilos Modernos:
Ao longo do século XX, com o crescimento do movimento pentecostal e neopentecostal, os templos passaram a incorporar estilos arquitetônicos mais modernos. Muitos construíram espaços amplos, com estruturas de concreto e vidro, em um estilo contemporâneo, que facilitava a ventilação e acomodação de grandes congregações.
d) Espaços Multifuncionais:
Com a expansão e diversidade de denominações evangélicas, muitos templos evangélicos foram projetados para serem espaços multifuncionais, usados não apenas para cultos, mas também para eventos comunitários, como aulas, conferências e projetos sociais. Esse aspecto reforça a ideia de que o templo é um local de convívio comunitário e ação social, além de culto.
e) Construção de Mega Templos:
Com a expansão das igrejas pentecostais, neopentecostais e históricas no final do século XX, começaram a surgir mega templos em áreas urbanas.
Essas mudanças na arquitetura dos templos não católicos no Brasil mostram uma adaptação aos princípios teológicos e práticos de cada denominação, criando espaços que expressam suas crenças e identidades distintas da tradição católica.
10.CONSIDERAÇÕES FINAIS
Defenderemos sempre o respeito e a tolerância com aqueles que pensam diferente ou têm crenças ou religiões diferentes da nossa. Atualmente, a relação entre o catolicismo e o protestantismo é marcada por um aumento do diálogo e da cooperação, tanto no Brasil quanto no mundo, especialmente em comparação com os séculos passados, quando houve grandes conflitos e divisões.
No Brasil, onde o protestantismo, especialmente na forma de igrejas evangélicas, tem crescido rapidamente, há uma convivência relativamente pacífica entre católicos e protestantes. Embora existam diferenças doutrinárias e alguns momentos de tensão, as duas comunidades geralmente coexistem respeitosamente. Além disso, em muitas famílias, há membros de ambas as tradições, o que contribui para uma interação harmoniosa no nível pessoal.
Ainda que as relações tenham avançado, alguns temas geram tensão entre católicos e protestantes. No Brasil, por exemplo, certas denominações protestantes criticam mais enfaticamente doutrinas católicas, como a veneração de santos e o papel de Maria, o que pode criar conflitos. Em regiões de rápida expansão evangélica, essa competição religiosa pode gerar atritos, principalmente no que diz respeito à evangelização e à influência social de cada grupo.
“se possível, quanto depender de vós, tende paz com todos os homens;” (Rm 12.18)
“Segui a paz com todos e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor,” (Hb 12.14)
BIBLIOGRAFIA
- Enciclopédia Mirador Internacional
- Filho, M. Porto – Congregacionalismo Brasileiro
- Matos, Alderi de Souza – O Diário de Simonton – Ed. Cultura Cristã
- Pereira, J. Reis – Breve História dos Batistas – JUERP
- Filgueiras, S. G. – Os Irmãos
- Forsyth, William B. – Jornada no Império – Ed. Fiel
- Internet / IA / ChatGPT / COPILOT / Wikipédia
[1] Os regalistas eram defensores de uma doutrina conhecida como regalismo, que afirmava a autoridade do Estado sobre certos aspectos da Igreja Católica. Essa ideia era comum em vários países católicos da Europa e também no Brasil durante o período imperial, especialmente no século XIX.
[2] Protestantismo: A palavra Protestantismo tem origem no termo “protesto”, que remonta a um evento específico da história europeia. Em 1529, durante a Dieta de Speyer, uma reunião das autoridades do Sacro Império Romano-Germânico, houve um importante conflito sobre as questões religiosas que surgiram a partir da Reforma iniciada por Martinho Lutero em 1517.
Origem do Termo: Na Dieta de Speyer, o imperador Carlos V tentou restringir as liberdades religiosas que haviam sido temporariamente concedidas aos príncipes e territórios que aderiam às ideias reformistas de Lutero. Diante dessa tentativa de repressão, um grupo de príncipes e representantes de cidades que apoiavam as ideias da Reforma apresentou uma “protestatio” (ou protesto) contra o decreto imperial que impunha o catolicismo como única prática religiosa e limitava a liberdade dos reformistas.
Esse ato de protesto tornou-se um marco para os que seguiam o movimento reformista, que passaram a ser chamados de protestantes. Assim, o termo “Protestantismo” passou a designar o movimento religioso que defendia a Reforma e se opunha à supremacia da Igreja Católica Romana, adotando uma nova interpretação e prática do cristianismo baseada nos princípios defendidos por Lutero, Calvino, Zwinglio e outros reformadores.
APÊNDICE 1
SÍNTESE DAS MAIS CONHECIDAS PERSEGUIÇÕES AOS PROTESTANTES
Ao longo da história, especialmente nos séculos XVI e XVII, os protestantes enfrentaram diversas perseguições pela Igreja Católica, especialmente em regiões onde o catolicismo era a religião oficial do Estado. Essas perseguições ocorreram em resposta ao crescimento da Reforma Protestante, iniciada por Martinho Lutero em 1517, que levou a uma ruptura significativa na Igreja cristã e ao surgimento de várias denominações protestantes. Abaixo estão algumas das perseguições mais conhecidas:
- A Guerra dos Camponeses (1524-1525)
• Em resposta aos escritos de Lutero, muitos camponeses alemães se levantaram em revolta, inspirados por interpretações de igualdade religiosa e social. Embora essa revolta tenha sido mais social que religiosa, a resposta da Igreja e dos príncipes católicos foi brutal, resultando em aproximadamente 100 mil mortos, muitos dos quais eram simpatizantes do protestantismo. - A Noite de São Bartolomeu (1572)
• Esta foi uma das perseguições mais violentas e emblemáticas contra os protestantes. Na França, milhares de huguenotes (protestantes franceses) foram assassinados em uma noite e nos dias seguintes, em uma ação que começou em Paris e se espalhou para outras regiões. Estima-se que entre 5 mil e 30 mil huguenotes foram mortos, resultado de uma decisão conjunta entre líderes católicos e membros da monarquia francesa. - As Guerras Religiosas Francesas (1562-1598)
• Estas guerras civis entre católicos e huguenotes duraram mais de três décadas e foram marcadas por massacres, exílios e repressões severas contra os protestantes na França. A violência só teve uma trégua com o Edito de Nantes, em 1598, que garantiu certa liberdade religiosa aos protestantes, embora temporária. - A Contrarreforma e a Inquisição (séculos XVI-XVII)
• Com a Contrarreforma, a Igreja Católica intensificou a repressão ao protestantismo, especialmente por meio da Inquisição. Nos países ibéricos (Espanha e Portugal), a Inquisição perseguiu protestantes e simpatizantes da Reforma, resultando em prisões, exílios, confiscos de bens e execuções. Em Portugal, os protestantes eram acusados de heresia, e muitos foram presos ou queimados em autos de fé. - A Guerra dos Trinta Anos (1618-1648)
• Esta guerra devastadora na Europa teve raízes religiosas, envolvendo conflitos entre católicos e protestantes no Sacro Império Romano-Germânico e em outros territórios europeus. Embora não tenha sido exclusivamente uma perseguição religiosa, ela incluiu massacres de comunidades protestantes em territórios dominados por príncipes católicos e vice-versa. A guerra terminou com a Paz de Vestfália, que estabeleceu certa tolerância religiosa. - A Revogação do Edito de Nantes (1685)
• Em 1685, o rei Luís XIV da França revogou o Edito de Nantes, retirando a liberdade religiosa concedida aos protestantes e impondo o catolicismo como religião obrigatória. Essa decisão levou a uma onda de perseguições e à fuga de milhares de huguenotes para outros países. Os protestantes que ficaram foram forçados a se converter, e aqueles que se recusaram enfrentaram prisões, perda de bens e até a execução. - Perseguições na América Latina Colonial
• Nos territórios coloniais da América Latina, sob domínio de Espanha e Portugal, a Inquisição atuou para manter a uniformidade católica. Qualquer tentativa de introduzir o protestantismo era severamente punida, e os protestantes que imigravam para a América Latina enfrentavam repressões ou eram forçados a ocultar suas crenças. - Perseguições nos Estados Papais (século XIX)
• No século XIX, alguns protestantes na Itália sofreram perseguições em regiões sob o controle direto do papado, como os Estados Papais, antes da unificação italiana. O acesso ao culto público protestante era limitado e, em alguns casos, proibido. Após a unificação, os protestantes ganharam mais liberdade, mas ainda enfrentaram resistência em áreas fortemente católicas.
Essas perseguições refletem a intensa disputa entre o catolicismo e o protestantismo durante períodos em que religião e poder político estavam fortemente entrelaçados. A partir do século XVIII, com o surgimento do pensamento iluminista e o avanço do secularismo, as perseguições religiosas diminuíram significativamente, e o conceito de liberdade religiosa começou a ser incorporado nas legislações de vários países.
