A Igreja e o Chamado (At 13.1-3)

1 “Havia na igreja de Antioquia profetas e mestres: Barnabé, Simeão, por sobrenome Níger, Lúcio de Cirene, Manaém, colaço de Herodes, o tetrarca, e Saulo.
2  E, servindo eles ao Senhor e jejuando, disse o Espírito Santo: Separai-me, agora, Barnabé e Saulo para a obra a que os tenho chamado.
3  Então, jejuando, e orando, e impondo sobre eles as mãos, os despediram.”

Introdução

“Entretanto, a palavra do Senhor crescia e se multiplicava. Barnabé e Saulo, cumprida a sua missão, voltaram de Jerusalém, levando também consigo a João, apelidado Marcos.” (At 12.24-25)

A igreja primitiva vivia sob contínua e implacável perseguição e Tiago foi o primeiro dos doze a ser martirizado. Apesar disso, a igreja não recuava, ao contrário, com intrepidez testemunhava de Cristo e a palavra de Deus crescia e se multiplicava. No final do capítulo 12 de Atos encontramos Barnabé e Saulo retornando de Jerusalém para Antioquia, depois de cumprida alguma missão ali. Estava em curso tudo o que fora profetizado por Jesus, antes da sua ascensão, em Atos 1.8: a descida do Espírito Santo, o testemunho e avanço do evangelho em Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria e, agora era chegada a hora de alcançar os confins da terra. Até agora Simão Pedro havia sido o “protagonista”; entretanto, a partir do capítulo 13 de Atos Saulo-Paulo passa a assumir este papel.

1) HAVIA UMA IGREJA

“Havia na igreja de Antioquia…”

Tudo começou em Jerusalém, onde se estabeleceu a primeira igreja local, que se expandiu e chegou a cidade de Antioquia da Síria, onde foi organizada uma igreja local[1] que se notabilizou em fazer missões.

O que é uma igreja? Qual é a sua missão principal?

A Igreja é a ECCLESIA (lat.) ou EKKLESIA (gr.). “EK”, que significa “movimento para fora” e “KLESIA”, do verbo KALEO (gr.), chamar. A Septuaginta (100 a.C.) emprega o termo quando traduz a palavra hebraica “kahal”, que designava a congregação dos israelitas como uma coletividade nacional. Logo, “ekklesia “ é a assembleia dos “chamados para fora” do mundo para viverem como filhos de Deus, na casa do Pai.

“O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e apregoar o ano aceitável do Senhor.” (Lc 4.18-19)

A igreja tem a missão de dar continuidade a obra de Cristo. Isso começa com IDE – FAZEI DISCÍPULOS DE TODAS AS NAÇÕES – ENSINANDO-OS (Mt 28.19-20) e vai além, tendo em vista uma missão integral. Esta missão integral está fundamentada na vida e ensinamentos de Jesus, que curava os enfermos, alimentava os famintos, e proclamava as boas novas do Reino de Deus (Lc 4.18-19). A missão integral começa no Calvário, com a proclamação da mensagem de Jesus Cristo, levando as pessoas à fé e ao discipulado, onde elas aprendem a viver de acordo com os princípios do Evangelho. A igreja também é chamada a atuar em outras frentes interferindo proativamente para melhorar o ambiente social. Parte da missão integral é o cuidado pelos pobres, doentes e aflitos, “principalmente aos da família da fé” (Gl 6.10).

2) HAVIA PESSOAS QUALIFICADAS

“… profetas e mestres: Barnabé, Simeão, por sobrenome Níger, Lúcio de Cirene, Manaém, colaço de Herodes, o tetrarca, e Saulo.”

A igreja é muito mais do que uma organização, é um organismo vivo. É o Espírito Santo quem dá vida a igreja. Ele foi derramado sobre nós e nos fez igreja, o corpo de Cristo (At 2). Jesus falou que ele habitaria conosco e estaria em nós (Jo 14.17). É ele quem convence, regenera, habita em nós, nos batiza num só corpo, nos enche e nos reveste da sua plenitude, nos sela, nos concede os “nove gomos” do seu fruto e, seus dons: “E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres,” (Ef 4.11). Assim, ali naquela igreja, havia pessoas qualificadas por Deus, com dons espirituais, para a sua edificação.

Portanto, é Deus mesmo quem supre a sua igreja com pessoas – homens e mulheres –  por ele mesmo qualificadas para a edificação e o crescimento da igreja, e para os enviar ao campo missionário, a pregar e ensinar as boas novas da salvação, a cumprir o nosso chamado. Não há espaço para exibição pessoal e vanglória, pois somos apenas instrumentos nas mãos de Deus. Por outro lado, há motivos para celebrarmos e louvarmos a Deus por essa pluralidade de dons e talentos a serviço do Reino. A igreja é a unidade dos diferentes, e não o conjunto dos iguais, um conceito que reflete a essência da fé cristã, onde a diversidade é celebrada e a unidade é mantida por meio do amor e da fé em Jesus Cristo (1Co 12.12-14; Gl 3.28; Ef 2.14-16).

3) HAVIA SERVIÇO AO SENHOR, COM ORAÇÃO E JEJUNS

“E, servindo eles ao Senhor e jejuando…”

A igreja é uma comunidade inclusiva, visto que é composta por pessoas de diferentes culturas, raças, idades, status sociais, e histórias de vida: unidas pela mesma fé em Cristo; com uma missão compartilhada de testemunhar o amor de Cristo ao mundo; oferecendo a todos a oportunidade de servir ao Senhor através da diversidade de dons espirituais.

Barnabé, Simeão, Lúcio, Manaém e Saulo estavam servindo ao Senhor, não descuidando de manter uma vida de plena comunhão com Deus, através de jejum e oração. Servir a Deus, sem manter comunhão com ele, é ativismo religioso; cultuar a Deus, sem obedecê-lo e servi-lo, é hipocrisia religiosa. Isso destaca a importância da obediência e do serviço como elementos essenciais de um culto verdadeiro e sincero a Deus, contrastando com a mera aparência externa de religiosidade.

4) HAVIA DEPENDÊNCIA E ORIENTAÇÃO DO ESPÍRITO SANTO

“…disse o Espírito Santo: Separai-me, agora, Barnabé e Saulo…”

Aquela igreja e aquelas pessoas qualificadas poderiam ter permanecido confortavelmente em sua zona de conforto, “dentro de quatro paredes”, servindo ao Senhor, jejuando e orando. No entanto, esses servos de Deus não estavam sendo movidos por suas próprias vontades e interesses. A marca e exemplo da igreja do Novo Testamento era sua profunda dependência e submissão à orientação do Espírito Santo. Isso é claramente ilustrado na expressão: “Pois pareceu bem ao Espírito Santo e a nós…” (At 15.28).

5) HAVIA UM CHAMADO E MISSÃO

“…para a obra a que os tenho chamado.“

A obra ou missão era a primeira viagem missionária de Paulo e devemos considerar os seguintes aspectos:

1º) Essa missão não foi fruto de um planejamento humano detalhado, baseado nas melhores técnicas conhecidas à época, como acontece com tantos empreendimentos humanos. Pelo contrário, foi guiada diretamente pelo Espírito Santo, de forma que os seus executores avançavam sem conhecimento do que viria a seguir, sendo continuamente impulsionados para a próxima etapa. Eles não tinham como intervir ou resistir, pois estavam inteiramente submissos à direção divina.

2º) O solo onde seria plantada a semente do evangelho foi cuidadosamente preparado pelo supremo agricultor. Quando a escritura afirma que Jesus veio na “plenitude do tempo” (Gl 4.4), tem a intenção de dizer que ele veio no tempo certo, quando o solo estava pronto para a semeadura da Palavra. Uma das evidências desse solo pronto era a língua grega largamente difundida por todas as nações que haviam se rendido ao império grego (325 – 65 a.C.) e ao processo de helenização. Quando Paulo diz que “a lei serviu de aio para nos conduzir a Cristo” (Gl 3.24), pode estar querendo indicar a contribuição prestada pelo judaísmo, com suas muitas sinagogas espalhadas pelo império onde judeus e prosélitos aprendiam a conhecer o Deus do Antigo Testamento e a esperar pela vinda do Messias libertador.

A estes aspectos acrescente-se os seguintes fatos relevantes: a ressurreição do Senhor Jesus; o declínio do poder espiritual do judaísmo; a descida do Espírito Santo; o rompimento entre o cristianismo e o judaísmo, marcado pela perseguição e dispersão; o desenvolvimento do poder espiritual da igreja cristã primitiva e a grande necessidade, pelo mundo inteiro, da redenção que há em Cristo.

É significativo que os primeiros missionários tenham iniciado sua pregação entre os seus compatriotas: Chipre, cidade natal de Barnabé (1ª viagem) e Tarso, cidade natal de Paulo (2ª e 3ª viagens). Jesus ordenou ao geraseno liberto: “vai para tua casa, para os teus. Anuncia-lhes tudo o que o Senhor te fez, e como teve compaixão de ti” (Mc 5.19).

3º) Uma missão precisa das pessoas certas, certamente chamadas por Deus e por ele guiadas. O Espírito precisava de alguém como Pedro e Paulo para atuarem na liderança da evangelização dos judeus e gentios, respectivamente. Paulo era a pessoa certa para promover a expansão da igreja no mundo gentio: ele tinha tanto o passado formativo judaico, quanto a experiência cristã. Tinha o privilégio da cultura, da educação e da cidadania romanas, que muito lhe foram úteis, apesar de não confiar em nada disso (Fp 3.4).

4º) Nenhum líder trabalha sozinho e de forma independente. Dependerá da direção do Espírito acima e adiante dele; de companheiros idôneos ao seu lado e do apoio na retaguarda daqueles que lhe confiaram a missão. Paulo pôde contar com tudo isso.

5º) Não basta evangelizar! É preciso conservar os frutos. Temos em Paulo a figura de um missionário modelo. Ele dava a sua vida para pregar o evangelho em toda a parte e a qualquer estrato da sociedade, com o objetivo de fundar igrejas locais. Zelava também pelo sustento desses novos núcleos: promovendo a eleição de presbíteros, com suas orações, com visitas periódicas (sua ou de seus colaboradores) e, ainda, mui especialmente, através de cartas.

6) HAVIA UMA RETAGUARDA DE APOIO

“Então, jejuando, e orando, e impondo sobre eles as mãos, os despediram.”

Acima de tudo o obreiro é sustentado pelo Senhor. No entanto, a retaguarda da igreja é fundamental no apoio às missões, desempenhando um papel essencial em vários aspectos, a saber:

1º) Suporte espiritual que envolve a intercessão contínua pela obra missionária. Orar pelos missionários, pelas comunidades alcançadas e pelos desafios enfrentados no campo é crucial para o avanço do trabalho e a proteção espiritual dos envolvidos.

2º) Suporte financeiro, pois missões demandam recursos financeiros para sustentar missionários, construir infraestrutura, e desenvolver projetos sociais e evangelísticos. A retaguarda na igreja local mobiliza os recursos necessários para que a obra missionária possa prosseguir.

3º) Aconselhamento e suporte emocional, considerando que os missionários enfrentam desafios culturais, emocionais e espirituais significativos. Ter uma igreja que oferece aconselhamento, encorajamento e cuidado pastoral ajuda a sustentar esses obreiros espiritual e emocionalmente.

4º) Treinamento e capacitação podem ser providos pela retaguarda que inclui preparar e capacitar novos missionários e membros da igreja para entenderem a importância e as peculiaridades das missões, equipando-os com as habilidades e ferramentas necessárias para servir.

5º) Comunicação, acompanhamento e mobilização, uma vez que a comunicação entre o campo missionário e a igreja local é essencial. A retaguarda trabalha para manter a igreja informada sobre as necessidades e os progressos das missões, mobilizando mais pessoas para se envolverem e proverem mais recursos financeiros.

Esses aspectos mostram que, sem uma retaguarda forte, as missões enfrentam grandes dificuldades para se sustentar e crescer. A igreja local, funcionando como retaguarda, é a base que permite que a obra missionária avance com eficiência e segurança, sob a direção de Deus.

Conclusão

“Pois quem despreza o dia dos humildes começos, esse alegrar-se-á vendo o prumo na mão de Zorobabel. Aqueles sete olhos são os olhos do SENHOR, que percorrem toda a terra.” (Zc 4.10)

O que eram dois missionários, Barnabé e Saulo, para levar o evangelho até aos confins da terra? Humanamente falando seria uma gota no oceano!

Deus valoriza os pequenos começos e, que grandes coisas podem surgir a partir de iniciativas modestas! Mesmo quando algo possa parecer insignificante no início, Deus pode usá-lo para cumprir seus propósitos grandiosos. Em Mateus 13.31-32, Jesus compara o Reino dos Céus a um grão de mostarda, que é a menor de todas as sementes, mas cresce e se torna maior que todas as hortaliças. Sem dúvida, um crescimento espetacular como o Reino de Deus. É o mesmo que  constatamos quando olhamos para esse humilde começo, e, depois, para todas as pessoas que foram alcançadas desde então, e para o tamanho da igreja, atualmente.

Tudo isso nos ensina a valorizar os pequenos começos e confiar que Deus pode fazer grandes coisas a partir deles.

Você se acha impotente, dispensável e insignificante para fazer a diferença neste mundo? Pensa que não tem nada a contribuir para a expansão do reino de Deus?

Então, não duvide do quanto Deus pode fazer com o pouco que julgamos ser ou com o pouco que temos! Todos nós temos dons e talentos dados por Deus que nos capacitam e permitem cumprir o nosso chamado e missão de formas distintas. Lembre-se: “Missões se faz com os pés dos que vão, com os joelhos dos que oram e com as mãos dos que contribuem”.

Para reflexão:

Bibliografia

1. Bíblia Sagrada (SBB – Versão Revista e Atualizada).
2. A Bíblia Anotada (MC – Editora Mundo Cristão).
3. Bíblia Online – SBB.
4. O Novo Testamento Interpretado, versículo por versículo.
(Russel Norman Champlin, Ph D. – 1982). 5. Internet / ChatGPT. 


[1] Antioquia (da Síria, não confundir com a Antioquia da Pisídia – At 13.14-52; 14.21): situada às margens do Rio Orontes, cerca de 480 quilômetros ao norte de Jerusalém, era capital da província romana da Síria. Era a terceira maior cidade do império, com uma população de quinhentas mil pessoas. Era um dos centros cosmopolitas do mundo da época e um centro comercial, tendo em Selêucia (25 quilômetros a oeste) o seu porto marítimo (At 13.4). Substituindo Jerusalém como a principal cidade cristã, tornou-se o centro da atividade missionária inicial da Igreja (At 6.5; 13.1; 14.26; 15.35; 18.22). [A Bíblia Anotada]