Paz

“Mas o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio….” (Gl 5.22-23a)

Introdução

Paz, esta pequena, mas tão significativa palavra, no hebraico é shalom (שָׁלוֹם); e no grego eireni (ειρήνη). A paz é algo tão relevante que diz respeito e afeta direta ou indiretamente toda a criação, toda a obra do Criador. Na queda dos nossos primeiros pais, Adão e Eva, a rebelião humana resultou no rompimento da paz com Deus e, não somente a raça humana, mas até mesmo o restante da criação sofreu e sofre as trágicas e devastadoras consequências.

A palavra “paz” é citada 95 vezes no Novo Testamento: 25 nos evangelhos, 6 em Atos, 62 nas epístolas e 2 no Apocalipse. Jesus mesmo a empregou cerca de 20 vezes; algumas vezes como saudação – “Paz seja convosco!”, outras como despedida – “vai-te em paz.” Principalmente nas epístolas de Paulo e de Pedro é recorrente encontrarmos esta mesma prática de Jesus, usando os termos “graça e paz” na saudação inicial e “paz” nas palavras de despedida.

O que é paz?

Há muitos anos, ouvi numa pregação do meu saudoso pai, uma ilustração que nunca mais esqueci, isto é, da ideia geral. Reconstituindo os detalhes esquecidos, seria mais ou menos assim:

Conta-se que um rei desejava ornamentar o seu palácio com um “quadro da paz”. Então, convocou artistas de diversas partes do mundo e lançou um concurso, oferecendo um prêmio ao artista que pintasse o quadro que melhor expressasse a paz. Muitos pintores aderiram ao desafio e apresentaram a sua obra. Chegaram ao palácio quadros variados. Eles retratavam a paz através de lindas paisagens com jardins, flores, praias, lagos e florestas, pássaros e borboletas, alvoradas e crepúsculos estonteantes.

O rei olhou todos os quadros, sendo que dois deles lhe chamaram mais a atenção.

Um deles retratava um lindo e sereno lago. O lago refletia com perfeição as altas e intocadas montanhas a sua volta, bem como o azul anil do céu, com algumas nuvens brancas como algodão. Os expectadores que acompanhavam o rei viram este quadro e acharam que seria o escolhido, pois era um perfeito retrato da paz.

O outro quadro também tinha montanhas e floresta. Acima havia um céu ameaçador do qual caía copiosa chuva, e no qual brilhavam relâmpagos. Na encosta da montanha havia uma cachoeira caudalosa e espumante. Não parecia retratar algo pacífico. Entretanto, olhando mais cuidadosamente, o rei observou, ao lado da cachoeira, um pequeno arbusto crescendo numa fenda da rocha. No arbusto uma mãe pássaro havia feito seu ninho. Lá, naquele abrigo simples, mas seguro, envolta em  tanta turbulência, se instalara a mãe pássaro em seu ninho, em perfeita paz.

Diante desta imagem, tão sutil, mas convincente, o rei não teve dúvida e escolheu este segundo quadro. Assim, os pintores não escolhidos, não conseguiam esconder sua perplexidade e indignação. – Como este quadro tão violento pode representar a paz?

Então, logo veio a explicação: PAZ não significa estar num lugar tranquilo, silencioso, sem problemas ou dificuldades ao redor. Paz significa estar no meio das adversidades e tempestades da vida e, mesmo assim, permanecer calmo e seguro.

Este é o significado real da PAZ. E essa paz só pode vir de Deus. Pois, dele procede a paz que excede todo entendimento. “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como a dá o mundo. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize.” (Jo 14.27). É como diz o cântico de Stuart Edmund McNair:

Ou seja o caminho de gozo e de luz,
Ou seja com trevas de horror,
Por Cristo já tenho aprendido a dizer:
“Tenho paz, doce paz no Senhor”.

A paz, na visão secular, é um conceito amplo e complexo que geralmente se refere a um estado de tranquilidade, ausência de conflitos, harmonia e estabilidade. Na perspectiva e cosmovisão cristã pode ser descrita como o relacionamento harmonioso do ser humano com Deus, consigo mesmo e com o seu semelhante.

O propósito deste estudo é proporcionar a reflexão sobre alguns aspectos e questões como: O que tira a paz? O que gera a paz? A fuga da realidade motivada pela falta de paz. Em que consiste a verdadeira paz? Qual a nossa responsabilidade em relação a promoção da paz?

1. O QUE TIRA A PAZ?

O ser humano do bem necessita e anseia por liberdade, paz e justiça e por ver suas necessidades básicas atendidas. Somos parte de algo muito maior, da sociedade e do mundo. Nós somos afetados por ele e, também, o podemos afetar. Se há paz ou guerra ou conflitos no mundo, isso pode afetar a nossa paz. Seria bom que todos levassem a sério a instrução bíblica: “Aparta-te do mal e pratica o que é bom; procura a paz e empenha-te por alcançá-la.” (Sl 34.14).  Infelizmente vivemos num mundo marcado por violência e guerras em toda a sua história. Há necessidade de paz em todas as suas dimensões: Paz com Deus, paz consigo mesmo, paz de espírito, com o próximo, paz entre as nações e paz na nação.

“Para os perversos, diz o meu Deus, não há paz.” (Is 57.21). Na simbologia bíblica o mar representa os povos, as nações, a massa agitada da humanidade (Ap 17.15). E, esse mundo está como um “mar agitado, que não se pode aquietar, cujas águas lançam de si lama e lodo” (Is 57.20).

Nosso mundo está mais agitado e perturbado do que nunca. São:

  • Guerras e rumores de guerras entre as nações;
  • Guerra civil;
  • Guerra de narrativas;
  • Guerra ideológica;
  • Ataques cibernéticos;
  • Golpes reais e virtuais;
  • Narrativas ambientalistas falaciosas;
  • Narrativas tecnológicas alarmantes.

Nas últimas décadas, a sociedade vem sendo mantida refém de narrativas globalistas alarmantes e, muitas vezes, falaciosas e com fins duvidosos (energia atômica, aquecimento global, efeito estufa, buraco na camada de ozônio com emissão de gás CFC, clonagem humana, alimentos transgênicos, pesticidas e agrotóxicos, desmatamento da Amazônia, mudanças climáticas e, agora, a Inteligência Artificial).

Não são poucos os motivos com potencial de nos tirar a paz:

  • Ameaça à perda da vida;
  • Ameaça à perda de pessoas queridas (familiares, amigos etc.);
  • Ameaça à perda da saúde;
  • Ameaça à perda da liberdade;
  • Ameaça à perda dos meios básicos para a sobrevivência (alimento, moradia, emprego etc.);
  • Ameaça à perda dos bens;
  • A doença incurável;
  • A desagregação familiar;
  • A injustiça;
  • A violência;
  • A traição;
  • O ódio alheio;
  • A calúnia e a difamação;
  • A opressão;
  • O autoritarismo;
  • Um governo corrupto;
  • Autoridades e políticos corruptos;
  • E, muitos outros.

2. A FUGA DA REALIDADE

Diante de uma sociedade tão agitada e amedrontada, de um mundo tão conturbado e dias tão turbulentos, cresce o número de pessoas que enveredam por caminhos ou atalhos perigosos e sem saída. Assim, podemos enumerar aqui alguns deles:

  • Uso de medicamentos que atenuam a percepção da realidade e criam dependência;
  • Consumo dos mais variados tipos de drogas – dependência química;
  • Práticas esotéricas fantasiosas e alienantes;
  • Adesão a falsas religiões, seitas e heresias;
  • Entrega desenfreada aos prazeres sexuais, orgias e pornografia.
  • Suicídio, quando se perde totalmente qualquer esperança.

“Quanto ao mais, sede fortalecidos no Senhor e na força do seu poder.” (Ef 6.10)

A sublimação[1] e fuga da realidade nunca foi e nunca será um bom caminho na busca da paz, particularmente no que tange a paz de espírito. Vale ressaltar aqui que, diante deste quadro e contexto social ameaçador, cresce no meio evangélico o número de pregadores que aderiram ao discurso da ajuda do alto (parafraseando os militantes da autoajuda). É claro que os púlpitos e gabinetes pastorais precisam acolher, consolar, apoiar e encorajar os mais fragilizados, principalmente os que estiverem passando por situações aflitivas na vida. Entretanto, o crente precisa mesmo viver em íntima comunhão com Deus, fortalecendo-se nele e na força do seu poder.

3. A VERDADEIRA PAZ

“Como fruto dos seus lábios criei a paz, paz para os que estão longe e para os que estão perto, diz o SENHOR, e eu o sararei.” (Is 57.19)

Deus mesmo se coloca aqui como o autor da paz! Portanto, a verdadeira paz procede do alto, de Deus: “Toda boa dádiva e todo dom perfeito são lá do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não pode existir variação ou sombra de mudança.” (Tg 1.17)

Jesus Cristo é a encarnação da verdadeira paz!

No Antigo Testamento, Jesus é vislumbrado pelo profeta Miquéias como “nossa paz” (Mq 5.5, ratificado pelo apóstolo Paulo, Ef 2.14) e pelo profeta Isaías como o “Principe da Paz” (Is 9.6).

No Novo Testamento, no nascimento de Jesus, o anjo e a multidão da milícia celestial glorificaram a Deus e proclamaram a chegada do Príncipe da Paz: “Glória a Deus nas maiores alturas, e paz na terra entre os homens, a quem ele quer bem.” (Lc 2.14)

No seu ministério terreno Jesus fez uma declaração contundente: “Supondes que vim para dar paz à terra? Não, eu vo-lo afirmo; antes, divisão.” (Lc 12.51). Isso em nada descredencia as palavras proféticas, pois, sua obra redentora e missão divide a humanidade em salvos e perdidos. Apenas para os salvos há garantia de paz!

No final do seu ministério Jesus trouxe aos seus seguidores duas relevantes palavras de encorajamento e esperança:

“Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como a dá o mundo. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize. (Jo 14.27)
“Estas coisas vos tenho dito para que tenhais paz em mim. No mundo, passais por aflições; mas tende bom ânimo; eu venci o mundo.” (Jo 16.33) 

É nas epístolas do NT que encontramos substancial e consistente conteúdo doutrinário e teológico sobre a verdadeira paz, criada por Deus e manifestada em Cristo, na plenitude dos tempos.

“Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo;” (Rm 5.1)

A paz com Deus é o elemento propulsor e ponto de partida para se desfrutar dessa autêntica e verdadeira paz! A rebeldia contra Deus e a rejeição ao seu Filho jamais permitirá alcançar essa paz. Em Cristo, na cruz do Calvário:

“Encontraram-se a graça e a verdade, a justiça e a paz se beijaram.” (Sl 85.10)

“Porque ele é a nossa paz, o qual de ambos fez um; e, tendo derribado a parede da separação que estava no meio, a inimizade, aboliu, na sua carne, a lei dos mandamentos na forma de ordenanças, para que dos dois criasse, em si mesmo, um novo homem, fazendo a paz, e reconciliasse ambos em um só corpo com Deus, por intermédio da cruz, destruindo por ela a inimizade.” (Ef 2.14-16)

Uma vez resolvida essa questão existencial do pecado, que nos separa e impede a comunhão com Deus, através da obra redentora de Cristo na cruz, passamos a ser guardados por ele: “E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará o vosso coração e a vossa mente em Cristo Jesus.” (Fp 4.7)

A paz oferecida pelo mundo é efêmera, enganosa e ilusória. Entretanto, a paz proporcionada por Deus, em Cristo, é real, verdadeira e eterna. Essa paz, além de ser decorrente do acerto da nossa vida com Deus, gera na nova criatura em Cristo:

  • Confiança e dependência de Deus: “Tu, SENHOR, conservarás em perfeita paz aquele cujo propósito é firme; porque ele confia em ti.” (Is 36.3);
  • Amor e prática da Palavra de Deus: “Grande paz têm os que amam a tua lei; para eles não há tropeço.” (Sl 119.165)
  • Afastamento do mal e a prática do bem (1Pe 3.11);
  • Amor e respeito ao próximo;
  • Domínio da natureza humana que é essencialmente má, pela atuação do Espírito Santo em nós – fruto do Espírito.

4. A NOSSA RESPONSABILIDADE EM RELAÇÃO A PAZ

O Deus a quem servimos é o Criador de todas as coisas, inclusive da paz, conforme já comentado (Is 57.19).

“Por essa razão, pois, amados, esperando estas coisas, empenhai-vos por serdes achados por ele em paz, sem mácula e irrepreensíveis,” (2Pe 3.14)

Na condição de seus servos somos chamados por Deus a viver em paz.

“se possível, quanto depender de vós, tende paz com todos os homens;” (Rm 12.18)

“Segui a paz com todos e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor,” (Hb 12.14)

“esforçando-vos diligentemente por preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz;” (Ef 4.3)

Além de desfrutar de paz interior, somos chamados a viver em paz com os outros.

“Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus.” (Mt 5.9)

Não somos apenas receptores passivos, mas agentes ativos da paz, chamados por Deus para promover a paz, para sermos pacificadores.

“E, vindo, evangelizou paz a vós outros que estáveis longe e paz também aos que estavam perto;” (Ef 2.17)

“Calçai os pés com a preparação do evangelho da paz;” (Ef 6.15)

A evangelização promove a paz! Jesus veio para promover a paz e nos comissionou para continuar a sua obra. Esse é o nosso desafio! Essa é a nossa missão! E, essa é a mais eficaz e poderosa estratégia de “disseminação” da paz!

Conclusão

“Ora, o Senhor da paz, ele mesmo, vos dê continuamente a paz em todas as circunstâncias. O Senhor seja com todos vós.” (2Ts 3.16)

Em Cristo nossos conflitos íntimos e existenciais podem ser neutralizados e sossegar nossa alma.

Em Cristo e nos ensinamentos bíblicos podemos superar nossas diferenças de opinião, alinhar nossos interesses com os do Reino de Deus, redefinir nossas prioridades de vida e distensionar nossos relacionamentos uns com os outros.

Sabemos que o mundo vai de mal a pior, pois se afasta de Deus e mantém-se em rebeldia contra ele. Entretanto, pesa sobre nós a responsabilidade e dever de fazer o que estiver ao nosso alcance, em prol da verdadeira paz. Devemos crer no poder transformador do evangelho e agir enquanto é tempo.

“Quanto ao mais, irmãos, adeus! Aperfeiçoai-vos, consolai-vos, sede do mesmo parecer, vivei em paz; e o Deus de amor e de paz estará convosco.” (2Co 13.11)

Bibliografia

1. Bíblia Sagrada (SBB – Versão Revista e Atualizada).
2. Bíblia Online – SBB.
3. Revista ANDAI NO ESPÍRITO (Ed. Didaquê).
4. Internet.


[1] A sublimação, na psicanálise, é um tipo de mecanismo de defesa maduro, no qual impulsos ou idealizações socialmente inaceitáveis ​​são transformados em ações ou comportamentos socialmente aceitáveis, possivelmente resultando em uma conversão a longo prazo da pulsão inicial.

O Fruto do Espírito

“Mas o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio. Contra estas coisas não há lei.” (Gálatas 5.22-23)

O fruto do Espírito em termos de amor:

AMOR

ALEGRIA – É o amor exultante.

PAZ – É 0 amor que descansa.

LONGANIMIDADE – É 0 amor incansável.

BENIGNIDADE – É 0 amor que permanece.

BONDADE – É o amor em ação.

FÉ (FIDELIDADE) – É o amor no campo de batalha.

MANSIDÃO – É o amor sob disciplina.

TEMPERANÇA (DOMÍNIO PRÓPRIO)– É o amor em treinamento.

Extraído: Do grande evangelista Moody (anotações de sua Bíblia)

Mas o fruto do Espírito é….ALEGRIA

“Mas o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio. Contra estas coisas não há lei.” (Gl 5.22-23)

Introdução

Não podemos confundir “FRUTO DO ESPÍRITO”, com seus 9 gomos (Gl 5.22-23), que são manifestações do caráter do crente regenerado pelo Espírito Santo, com os “DONS DO ESPÍRITO” que são capacitações do Espírito para as realizações na igreja. Também é necessário distinguir “dom natural ou talento”, de “dom sobrenatural ou espiritual”, em que pese o valor e utilidade de ambos a serviço da igreja. Podemos dizer que há 20 dons espirituais, os quais são mencionados nas Escrituras Sagradas em Romanos 12.6-8, 1Coríntios 12.8-10, 1Coríntios 12.28 e Efésios 4.11.

Duas palavras estarão aqui em foco: Fruto e Alegria.

A) FRUTO

O Fruto, na biologia vegetal ou botânica e humana:

O fruto tem origem na fecundação da flor através da polinização. Suas funções são de proteção e disseminação das sementes que ficam dentro dele, perpetuando sua espécie. Os frutos geralmente são carnosos, são suculentos, bastante hidratados e geralmente comestíveis. Exemplos: mamão, abacate, manga, etc. O fruto, além desse significado atrelado à biologia vegetal, na biologia humana refere-se a filho e prole.

O Fruto, numa visão mais geral:

O fruto também tem outros significados no cotidiano, tais como: 1)Lucro, resultado, produto. 2) Proveito, utilidade. 3)Vantagem. 4)Rendimento, renda de um capital, de uma fazenda. 5)Consequência, resultado.

O Fruto, numa visão Espiritual:

O fruto do Espírito corresponde a essas mesmas ideias. No processo da regeneração e novo nascimento, o Espírito Santo fecunda em nós a natureza divina. O fruto ou resultado ou consequência disso é um novo caráter que expressa esses 9 aspectos mencionados e revela a nossa nova identidade de filhos de Deus: “Assim, pois, pelos seus frutos os conhecereis.” (Mt 7.20). Da mesma forma que no reino vegetal, esse fruto protege a semente do evangelho e a dissemina. “Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros.” (Jo 13.35)

B) ALEGRIA:

1. O QUE É ALEGRIA?

Imaginem que a ALEGRIA resolvesse fazer uma selfie em grupo. Quem você acha que faria questão de aparecer na foto? Certamente a FELICIDADE, a SATISFAÇÃO, o CONTENTAMENTO, o REGOZIJO, o JÚBILO, o PRAZER etc. Até que ponto estas palavras são distintas ou expressam a mesma coisa, são sinônimas, pelo menos algumas delas? Nos dicionários é muito comum encontrar algumas sendo usadas como sinônimos da outra ou como definição da outra. Sou inclinado a pensar que algumas expressam melhor as reações ou respostas pontuais e momentâneas aos acontecimentos, enquanto outras expressam melhor o estado geral da pessoa.

  • Alguns dizem que não existe felicidade neste mundo.
  • Outros pensam que o ser humano é infeliz, mas com alguns momentos de alegria. Assim, quanto mais ele puder promover momentos de alegria, maior será o sentimento de um estado de bem-estar e felicidade.
  • Outros dizem que são felizes, mas com alguns momentos de tristeza.

O que nos gera alegria? Como obter alegria?

2. O ESTADO DE FELICIDADE

O estado de felicidade parece ter muito mais a ver com o TER do que com o SER e com a ESCALA DE VALORES que se estabelece para a vida, cedendo ou não a pressões da sociedade.

Imaginem que a nossa vida fosse uma conta bancária, aberta no momento do nosso nascimento, com um determinado e modesto valor de depósito. Assim, ao longo dos dias, os motivos geradores de alegria ou de tristeza atuariam como se fossem créditos e débitos, respectivamente, nessa conta. Desta forma, enquanto o saldo fosse positivo, caracterizaria um estado de felicidade; e, enquanto permanecesse negativo, um estado de infelicidade. A questão a se considerar é: qual seria o motivo de alegria ou de tristeza, correspondente a um crédito ou débito tão expressivo, que fosse incapaz de possibilitar a reversão de um saldo tão positivo ou tão negativo decorrente de tal crédito ou débito? Ou seja, algo que acarretaria um estado permanente de felicidade ou de infelicidade.

Quando o salmista Davi diz, “O SENHOR é o meu pastor; nada me faltará.” (Sl 23.1), você pode chegar a duas conclusões: 1) Nada me faltará, porque ele providenciará tudo aquilo que eu precisar para viver bem. 2) Ele é o meu pastor e isso me basta. A primeira interpretação se inclina para uma visão de Deus consumista e utilitarista: ele me dará todas as coisas!  A segunda se inclina para uma visão de Deus quanto à sua essência: ele é tudo, ele é o meu bem mais precioso, ele me basta! Vale lembrar as parábolas do tesouro (Mt 13.44) e da pérola (Mt 13.45-46) quando se desfaz de tudo por elas.

A reconciliação com Deus, por meio da obra redentora do Senhor Jesus Cristo, assegura que nós, os salvos, somos de Deus e ele é nosso, que estamos nele e ele está em nós, que recebemos de Deus tudo o que há de mais precioso e duradouro. Portanto, não há tristeza capaz de “negativar nosso saldo existencial”, mudar nosso estado de felicidade para infelicidade: nem a perda da saúde, de familiares ou amigos próximos, do emprego, de bens, da liberdade etc.

3. EM BUSCA DA ALEGRIA

Para tentar gerar um estado de felicidade, as pessoas correm atrás do vento, buscando motivos efêmeros de geração de alegria, através do TER, SER E FAZER.

A experiência de Salomão, narrada em Eclesiastes 2, expressa claramente a desilusão de quem busca a felicidade nas coisas materiais.

DIVERSÃO, BEBIDAS E PRAZERES:

1  Então resolvi me divertir e gozar os prazeres da vida. Mas descobri que isso também é ilusão.
2  Cheguei à conclusão de que o riso é tolice e de que o prazer não serve para nada.
3  Procurei ainda descobrir qual a melhor maneira de viver e então resolvi me alegrar com vinho e me divertir. Pensei que talvez fosse essa a melhor coisa que uma pessoa pode fazer durante a sua curta vida aqui na terra.

EMPREENDIMENTOS PROFISSIONAIS:

4  Realizei grandes coisas. Construí casas para mim e fiz plantações de uvas.
5  Plantei jardins e pomares, com todos os tipos de árvores frutíferas.
6  Também construí açudes para regar as plantações.
7  Comprei muitos escravos e além desses tive outros, nascidos na minha casa. Tive mais gado e mais ovelhas do que todas as pessoas que moraram em Jerusalém antes de mim.

RIQUEZA, ENTRETENIMENTO E PRAZER SEXUAL:

8  Também ajuntei para mim prata e ouro dos tesouros dos reis e das terras que governei. Homens e mulheres cantaram para me divertir, e tive todas as mulheres que um homem pode desejar.

PODER, FAMA, PROJEÇÃO HUMANA:

9  Sim! Fui grande. Fui mais rico do que todos os que viveram em Jerusalém antes de mim, e nunca me faltou sabedoria.
10  Consegui tudo o que desejei. Não neguei a mim mesmo nenhum tipo de prazer. Eu me sentia feliz com o meu trabalho, e essa era a minha recompensa.

DESILUSÃO, INUTILIDADE E FUTILIDADE:

11  Mas, quando pensei em todas as coisas que havia feito e no trabalho que tinha tido para conseguir fazê-las, compreendi que tudo aquilo era ilusão, não tinha nenhum proveito. Era como se eu estivesse correndo atrás do vento.

A Linha de Plimsoll.
LIMITES DE CARGA (Cultivando o contentamento ­– Gary Inrig)

Samuel Plimsoll carregava um fardo. Envolvido no comércio de carvão, no século 19, na Inglaterra, ele conscientizou-se dos terríveis perigos que os navegadores tinham que enfrentar. A cada ano, centenas de marinheiros perdiam suas vidas em navios perigosamente sobrecarregados. Os proprietários inescrupulosos desses navios, buscando lucros cada vez maiores, não se importavam em colocar a vida dos outros em risco. Navios carregados até quase a altura do convés deixavam o porto e afundavam no mar, fato bem recebido pelos proprietários, que recebiam grandes lucros das seguradoras. Em 1873, um número impressionante de navios, 411, afundaram levando consigo centenas de homens, para o sepultamento nas águas. Para piorar ainda mais as coisas, se um homem se alistasse para uma viagem, ele não podia desistir, por mais inseguro que considerasse o navio. A lei defendia com firmeza os proprietários e trocar de navio era um crime, não importava quão perigosa fosse a embarcação. No início dos anos de 1870, um de cada três prisioneiros do sudoeste da Inglaterra era um marinheiro que se havia recusado a servir nesses navios, que ficaram conhecidos como “caixões”.

Esse problema tornou-se uma missão para Plimsoll. Sua ideia era simples. Cada navio deveria ter uma linha limite de carga, que indicasse quando estaria sobrecarregado. Com isso em mente, Plimsoll concorreu às eleições do Parlamento, em 1868, e foi eleito (deputado). Ele começou imediatamente uma campanha intensiva para salvar as vidas dos marinheiros britânicos. Fez discursos veementes na Câmara dos Comuns e escreveu um livro que chocou o público diante da exposição daquelas terríveis condições. Gradualmente, conseguiu a aprovação da opinião pública e constrangeu o governo a tomar providências. Em 1875 foi aprovada a Lei dos Navios Inapropriados para o Mar. No ano seguinte, uma lei escrita por Plimsoll foi aprovada, que exigia uma linha para limite de carga. Porém, sob pressão de interesses comerciais, o Parlamento afrouxou a lei. Permitiu que o proprietário de um navio colocasse a linha onde desejasse.

Plimsoll seguiu lutando por mais 14 anos, até serem aprovadas leis que assegurassem que a linha seria colocada num nível que desse segurança para o navio. Com o tempo, a sua linha de carga tornou-se um padrão internacional. Hoje, em todos os portos do mundo você pode ver os resultados do trabalho de Plimsoll, o que fez com que ele fosse chamado de “O Amigo dos Marinheiros”. No corpo (casco) de cada navio de carga você verá a linha Plimsoll, indicando a profundidade máxima até onde um navio pode ser carregado legalmente e de forma segura.

A vida seria muito mais fácil se existisse uma marca Plimsoll para as pessoas. Navegar pela vida exige meios de segurança. … Não chegaremos a salvo ao nosso destino, a não ser que compreendamos a linha Plimsoll divina.”

Numa sociedade fundada sobre o consumismo crônico e compulsivo, como vamos estipular limites de carga? Quanto é suficiente, na mesa da cozinha? Quanto dinheiro, para compensá-lo pelo seu trabalho? Quanto tempo, deve dedicar à sua família? Quanta glória pública, para satisfazer o seu ego? Quantos títulos, para aprofundar o seu entendimento? Quantas coisas são suficientes para você? E, sem considerar quantas coisas já tem, como você encontra — e define — satisfação?

4. VIVENDO COM ALEGRIA

Nós, os salvos, precisamos estar atentos para não cair nessa cilada de passar a vida correndo atrás do que não se tem, esquecendo-se de desfrutar do que sem tem.

“Far-me-ás ver a vereda da vida; na tua presença há abundância de alegrias; à tua mão direita há delícias perpetuamente.” (Sl 16.11)
“porque o Reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo” (Rm 14.17).

Conta-se a história de uma menina cujo pai era um resmungão crônico. Certa noite, à mesa do jantar, ela anunciou com orgulho: “Eu sei o que todos na nossa família gostam!” Ela não precisou de nenhuma persuasão para revelar a sua informação: “João gosta de hambúrgueres; Cristina adora sorvete; Jaime ama pizza; e mamãe gosta de frango.” O pai esperava pela sua vez, mas não veio nenhuma informação. Ele perguntou: “Bem, e eu? Do que o papai gosta?” Com a inocência e a dolorosa perspicácia de uma criança, a menininha respondeu: “Papai, você gosta de tudo o que nós não temos!”

Alguém descreveu a nossa sociedade como “a sociedade do inextinguível descontentamento”. Somos incentivados a pensar que precisamos adquirir, consumir, melhorar e aumentar. Nesse contexto, é raro o conceito de “suficiente”. Ninguém está fazendo propaganda das virtudes do contentamento. Mas o Espírito Santo usa justamente essa palavra para colocar o dedo numa das questões mais significativas e sensíveis nas nossas vidas: “Porque nada temos trazido para o mundo, nem coisa alguma podemos levar dele. Tendo sustento e com que nos vestir, estejamos contentes.” (1Tm 6.7-8). “Seja a vossa vida sem avareza. Contentai-vos com as coisas que tendes; porque ele tem dito: De maneira alguma te deixarei, nunca jamais te abandonarei.” (Hb 13.5). No AT encontramos as palavras de Agur: “Duas coisas te peço; não mas negues, antes que eu morra: afasta de mim a falsidade e a mentira; não me dês nem a pobreza nem a riqueza; dá-me o pão que me for necessário; para não suceder que, estando eu farto, te negue e diga: Quem é o SENHOR? Ou que, empobrecido, venha a furtar e profane o nome de Deus.” (Pv 30.7-9). Estes versículos nos apontam para a necessidade de uma linha de Plimsoll nas nossas vidas, se esperamos navegar por uma cultura materialista, com sucesso.

Conclusão:

  1. Não confunda alegria com felicidade.
  2. Desenvolva um estilo de vida com limites.
  3. Cultive a generosidade e não a avareza.
  4. Valorize o que você tem, não o que poderia ter.
  5. Invista no que é eterno, não apenas no temporário.

 


Algumas definições:

ALEGRIA: Contentamento, júbilo, prazer moral. Regozijo. Divertimento, festa. Acontecimento feliz.

Antônimos: tristeza, desgosto.

FELICIDADE: Estado de quem é feliz. Ventura. Bem-estar. Contentamento. Bom resultado, bom êxito.

SATISFAÇÃO: Ato ou efeito de satisfazer ou de satisfazer-se. Qualidade ou estado de satisfeito; contentamento, prazer. Sensação agradável que sentimos quando as coisas correm à nossa vontade ou se cumprem a nosso contento. Ação de satisfazer o que se deve a outrem; pagamento. Prestar contas a outrem de uma incumbência; desempenho. Reparação de uma ofensa. Explicação, justificação, desculpa: Não deu satisfação dos seus atos a quem quer que seja. Alegria produzida pelo cumprimento de ação meritória que se praticou.

CONTENTAMENTO: Ação ou efeito de contentar. Estado de quem está contente. Alegria, satisfação.

 

Sinais da verdadeira espiritualidade

“logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim.” (Gl 2.20)

Introdução

Quando se fala de “sinais da verdadeira espiritualidade”, sinais de vida espiritual, logo vem à nossa mente os “sinais vitais” do corpo humano. Estes sinais transmitem informações importantes sobre as funções básicas do corpo: pressão arterial, pulso (frequência cardíaca), respiração (frequência respiratória) e temperatura corporal. A temperatura corporal varia de pessoa para pessoa, mas nem tanto assim. Já a frequência cardíaca parece apresentar maior diferença quando se compara bebês de menos de 1 ano (100 a 160 batimentos por minuto) com adultos (60 a 100 batimentos por minuto). De igual forma, a frequência respiratória de recém-nascidos (44 respirações por minuto) é diferente em idosos (19 a 26 respirações por minuto). Por fim, a pressão arterial, tem lá suas variações, desde a hipotensão (inferior a 100 x 60) até a hipertensão grave (superior a 180 x 110). A nova vida em Cristo ou vida espiritual, ainda que invisível aos olhos naturais, também manifesta os seus sinais, visíveis e claros. Percebe-se que os corpos físicos apresentam alguns sinais que guardam certa semelhança, quando comparados indivíduos do mesmo sexo e na mesma faixa etária, porém, para outros sinais, nem tanto. Da mesma forma, os sinais da verdadeira espiritualidade guardam alguma semelhança, quando comparados cristãos com o mesmo tempo de convertido, porém, para outros sinais, nem tanto. Diferentemente do que ocorre com os sinais vitais, não há instrumentos e métodos específicos para se medir espiritualidade. Comete grave equívoco quem se atreve a tentar medir a espiritualidade de um crente, pela sua frequência às reuniões ou à quantidade de cargos que ocupa na igreja, por exemplo. Um crente pode ser um ativista e não ter grandeza espiritual. Um crente pode ser um membro antigo da igreja e, ainda assim, ser uma criança espiritual (1Co 3.1-2). Mais importante do que se preocupar com o nível espiritual do irmão é viver uma nova vida, em Cristo: “E, assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas.” (2Co 5.17). Quais seriam as características e sinais dessa nova vida?

Dentre muitos aspectos que poderiam ser elencados como características da vida cristã comum, sugerimos os seguintes, com base no texto de Colossenses 3.1-17:

1. Foco no céu (Cl 3.1-4)

O ser humano natural tem seus olhos voltados para baixo e para o “aqui e agora”. Sua vida está circunscrita a este mundo físico e terreno. Tudo que tem valor é o que este mundo físico e a sociedade podem lhe oferecer. Tudo que lhe interessa e onde aplica sua energia são algumas pessoas à sua volta, sua atividade ocupacional (lícita ou ilícita), adquirir determinados conhecimentos, desfrutar dos prazeres efêmeros da vida, até que a morte chegue e ponha um ponto final em tudo isso (1Co 15.32). Já o crente regenerado está voltado para cima e para o “lá e então”. O texto deixa claro que “morremos” para o mundo e ressuscitamos juntamente com Cristo. O desdobramento prático disso é um forte elo que passamos a ter com “as coisas do alto”. Isso se traduz em buscar e pensar no plano superior e celestial, tornando-o parte do nosso cotidiano. É claro que precisamos viver, com os pés na terra, todas as demandas e desafios do cotidiano, porém, fazendo a diferença, sendo diferente sem ser esquisito ou alienado, para mostrar que há um novo e vivo caminho, em Cristo. Mas esta vida será direcionada de cima para baixo, dos céus para a terra; por novos valores e princípios, por nova motivação, por nova maneira de enxergar as pessoas e coisas, por nova missão. O ápice dessa nova vida ocorrerá na nossa manifestação juntamente com Cristo, em glória, conforme conclui o apóstolo Paulo (v.4).

2. Mortificação da carne (Cl 3.5-11)

“Havia um homem que se queixava todas as noites da fadiga do dia.

– Qual é, pois, – lhe perguntou um amigo – a causa de tuas queixas? Que trabalho tão duro fazes que te aborrece tanto?

– Ah! É um trabalho – respondeu o amigo – que todas as minhas forças não bastariam se me não viesse fortalecer a graça de Deus. Tenho dois falcões para alimentar, duas lebres para cuidar, dois gaviões para adestrar, um dragão para vencer, um leão a combater e um enfermo para cuidar.

– Que loucura – respondeu-lhe o amigo.

– Não é loucura, meu amigo; o que digo é certo, respondeu-lhe ele.

Os dois falcões são os meus olhos, que tenho de guardá-los com muito cuidado para que não se detenham muito nas coisas deste mundo, porque assim me prejudicariam, arruinando a minha alma.

As duas lebres são os meus pés, que tenho de guardá-los para que se não lancem apressadamente na senda do pecado e da maldade. Os dois gaviões são minhas mãos que tenho que sujeitar ao trabalho, dando-lhes sempre coisa para fazer para que não façam o mal, para a desgraça de minha vida. O dragão é minha língua, que sempre precisa estar freada, porque está cheia de peçonha mortal. O leão é o meu coração, com o qual tenho de lutar constantemente, fazendo o possível para mantê-lo humilde e contrito perante o Senhor. O enfermo é o meu corpo, que ora tem calor, ora frio, ora fome, ora sede e exige sempre um cuidado especial. Diga-me, meu amigo, se tudo isso não é uma contínua fadiga?

– Oxalá – exclamou o outro – que todos levássemos este trabalho a sério e nos fatigássemos tanto contra o inimigo de todos os dias.”1

“Fazei, pois, morrer a vossa natureza terrena:….”. Essa nova vida que nasce da morte, requer, nada mais, nada menos, do que a mortificação da nossa natureza terrena e mundana. Essa ação é demandada por Deus, do crente regenerado e habitado pelo Espírito, que agora está revestido de uma natureza espiritual (v.10). Essa nova natureza lhe garante autoridade para subjugar o pecado: “Porque o pecado não terá domínio sobre vós;…” (Rm 6.14a). A lista de pecados que devem morrer com o nosso “velho homem” é pesada: a imoralidade sexual, a indecência, as paixões más, os maus desejos e a cobiça, a raiva, a paixão e os sentimentos de ódio, a mentira, a linguagem obscena e a conversa indecente. A figura empregada pelo apóstolo traz a ideia de livrar-se, desvencilhar-se, despir-se, de toda essa carga danosa e perigosa que transportávamos sobre nossos ombros nos caminhos dessa vida. Carga essa que dificultava nosso caminhar e trazia sobre nós a ira de Deus. Viver numa sociedade dominada pela prática de todo tipo de pecado e se manter blindado é um desafio que se impõe ao cristão, que se torna mais difícil a cada dia.

3. Revestimento de virtudes (Cl 3. 12-15)

Essa ideia de despojamento dos “trapos de imundícia” (Is 64.6) do pecado e revestimento de vestes novas, lavadas e alvejadas no sangue do Cordeiro (Ap 7.13), ou de Cristo, está muito presente no Novo Testamento: Efésios 4.22-24; Romanos 13.11-14; 1Pedro 2.1-2; 11-12. Essas vestes têm o simbolismo de justiça. O esvaziamento ou mortificação das velhas práticas pecaminosas é indispensável para a implementação do passo seguinte; o enchimento ou revestimento das virtudes recomendadas. A regeneração do Espírito Santo já produz em nós o fruto do Espírito, com seus “9 gomos” (Gl 5.22-23), que são manifestações do caráter do crente regenerado: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio. Espera-se que, na vida cristã comum, essas virtudes se manifestem naturalmente, bem como outras recomendadas no texto em análise: misericórdia e humildade. Pensando, ainda, na convivência dos irmãos, principalmente na comunidade dos santos, a igreja, o apóstolo destaca outras duas virtudes importantes: a)“Suportai-vos uns aos outros”: a ideia básica aqui e que se relaciona com a questão do perdão, que vem logo a seguir, é a de se tolerar, aguentar, não se irritar com as faltas do outro, porque o outro também precisará fazer o mesmo conosco, afinal, somos todos imperfeitos. A ideia secundária, mas não menos importante, é a de apoiar, de servir de suporte ao irmão. b) “perdoai-vos mutuamente”: a questão do perdão é sintetizada e ilustrada na parábola de Mateus 18.23-35. Nossa dívida era impagável (dez mil talentos), mas Deus a perdoou totalmente, em Cristo. Assim sendo, qualquer falta que cometerem contra nós, quando comparada a isso, torna-se insignificante (cem denários).

4. Crescimento na Palavra, na Adoração e no Serviço (Cl 3.16-17)

Por último, essa vida cristã comum se desenvolve e se expande, mostrando seus sinais, em três direções: a)Para dentro (v.16a): Crescimento espiritual e na Palavra de Deus a partir da busca insaciável, apropriação, compartilhamento e aconselhamento mútuo: “desejai ardentemente, como crianças recém-nascidas, o genuíno leite espiritual, para que, por ele, vos seja dado crescimento para salvação,” (1Pe 2.2). b)Para o alto (v.16b): Plenamente cheios e “encharcados” da Palavra, naturalmente iremos transbordar; primeiramente, para o alto, para Deus, através da adoração e louvor, fruto de corações agradecidos. c)Para o lado (v.17): Por fim, transbordaremos na direção do nosso próximo: compartilhando a fé comum, levantando o caído, alcançando os não alcançados pelo Evangelho, suprindo suas necessidades. Servindo fora dos holofotes (Ef 6.6), de boa vontade como ao Senhor (Ef 6.7), cientes que a recompensa virá do Senhor (Cl 3.24).

Conclusão

Que Deus nos ajude a nunca perder o foco, trocando o que é permanente e eterno pelo efêmero e transitório. Que tenhamos sempre a coragem de nos esvaziarmos de nós mesmos e de tudo que desagrada a Deus, nos abrindo para receber as insondáveis riquezas que ele reservou para nós. Que jamais abandonemos o “primeiro amor” (Ap 2.4), aquele ardor espiritual dos primeiros momentos do nosso encontro com Deus. Que nos doemos a cada dia para promover a glória de Deus e ajudar o nosso próximo. “Finalmente, irmãos, nós vos rogamos e exortamos no Senhor Jesus que, como de nós recebestes, quanto à maneira por que deveis viver e agradar a Deus, e efetivamente estais fazendo, continueis progredindo cada vez mais;” (1Ts 4.1)


[1] Almeida, Natanael de Barros. Tesouro de Ilustrações. Edições Vida Nova, 1981.