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Sinais da verdadeira espiritualidade

“logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim.” (Gl 2.20)

Introdução

Quando se fala de “sinais da verdadeira espiritualidade”, sinais de vida espiritual, logo vem à nossa mente os “sinais vitais” do corpo humano. Estes sinais transmitem informações importantes sobre as funções básicas do corpo: pressão arterial, pulso (frequência cardíaca), respiração (frequência respiratória) e temperatura corporal. A temperatura corporal varia de pessoa para pessoa, mas nem tanto assim. Já a frequência cardíaca parece apresentar maior diferença quando se compara bebês de menos de 1 ano (100 a 160 batimentos por minuto) com adultos (60 a 100 batimentos por minuto). De igual forma, a frequência respiratória de recém-nascidos (44 respirações por minuto) é diferente em idosos (19 a 26 respirações por minuto). Por fim, a pressão arterial, tem lá suas variações, desde a hipotensão (inferior a 100 x 60) até a hipertensão grave (superior a 180 x 110). A nova vida em Cristo ou vida espiritual, ainda que invisível aos olhos naturais, também manifesta os seus sinais, visíveis e claros. Percebe-se que os corpos físicos apresentam alguns sinais que guardam certa semelhança, quando comparados indivíduos do mesmo sexo e na mesma faixa etária, porém, para outros sinais, nem tanto. Da mesma forma, os sinais da verdadeira espiritualidade guardam alguma semelhança, quando comparados cristãos com o mesmo tempo de convertido, porém, para outros sinais, nem tanto. Diferentemente do que ocorre com os sinais vitais, não há instrumentos e métodos específicos para se medir espiritualidade. Comete grave equívoco quem se atreve a tentar medir a espiritualidade de um crente, pela sua frequência às reuniões ou à quantidade de cargos que ocupa na igreja, por exemplo. Um crente pode ser um ativista e não ter grandeza espiritual. Um crente pode ser um membro antigo da igreja e, ainda assim, ser uma criança espiritual (1Co 3.1-2). Mais importante do que se preocupar com o nível espiritual do irmão é viver uma nova vida, em Cristo: “E, assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas.” (2Co 5.17). Quais seriam as características e sinais dessa nova vida?

Dentre muitos aspectos que poderiam ser elencados como características da vida cristã comum, sugerimos os seguintes, com base no texto de Colossenses 3.1-17:

1. Foco no céu (Cl 3.1-4)

O ser humano natural tem seus olhos voltados para baixo e para o “aqui e agora”. Sua vida está circunscrita a este mundo físico e terreno. Tudo que tem valor é o que este mundo físico e a sociedade podem lhe oferecer. Tudo que lhe interessa e onde aplica sua energia são algumas pessoas à sua volta, sua atividade ocupacional (lícita ou ilícita), adquirir determinados conhecimentos, desfrutar dos prazeres efêmeros da vida, até que a morte chegue e ponha um ponto final em tudo isso (1Co 15.32). Já o crente regenerado está voltado para cima e para o “lá e então”. O texto deixa claro que “morremos” para o mundo e ressuscitamos juntamente com Cristo. O desdobramento prático disso é um forte elo que passamos a ter com “as coisas do alto”. Isso se traduz em buscar e pensar no plano superior e celestial, tornando-o parte do nosso cotidiano. É claro que precisamos viver, com os pés na terra, todas as demandas e desafios do cotidiano, porém, fazendo a diferença, sendo diferente sem ser esquisito ou alienado, para mostrar que há um novo e vivo caminho, em Cristo. Mas esta vida será direcionada de cima para baixo, dos céus para a terra; por novos valores e princípios, por nova motivação, por nova maneira de enxergar as pessoas e coisas, por nova missão. O ápice dessa nova vida ocorrerá na nossa manifestação juntamente com Cristo, em glória, conforme conclui o apóstolo Paulo (v.4).

2. Mortificação da carne (Cl 3.5-11)

“Havia um homem que se queixava todas as noites da fadiga do dia.

– Qual é, pois, – lhe perguntou um amigo – a causa de tuas queixas? Que trabalho tão duro fazes que te aborrece tanto?

– Ah! É um trabalho – respondeu o amigo – que todas as minhas forças não bastariam se me não viesse fortalecer a graça de Deus. Tenho dois falcões para alimentar, duas lebres para cuidar, dois gaviões para adestrar, um dragão para vencer, um leão a combater e um enfermo para cuidar.

– Que loucura – respondeu-lhe o amigo.

– Não é loucura, meu amigo; o que digo é certo, respondeu-lhe ele.

Os dois falcões são os meus olhos, que tenho de guardá-los com muito cuidado para que não se detenham muito nas coisas deste mundo, porque assim me prejudicariam, arruinando a minha alma.

As duas lebres são os meus pés, que tenho de guardá-los para que se não lancem apressadamente na senda do pecado e da maldade. Os dois gaviões são minhas mãos que tenho que sujeitar ao trabalho, dando-lhes sempre coisa para fazer para que não façam o mal, para a desgraça de minha vida. O dragão é minha língua, que sempre precisa estar freada, porque está cheia de peçonha mortal. O leão é o meu coração, com o qual tenho de lutar constantemente, fazendo o possível para mantê-lo humilde e contrito perante o Senhor. O enfermo é o meu corpo, que ora tem calor, ora frio, ora fome, ora sede e exige sempre um cuidado especial. Diga-me, meu amigo, se tudo isso não é uma contínua fadiga?

– Oxalá – exclamou o outro – que todos levássemos este trabalho a sério e nos fatigássemos tanto contra o inimigo de todos os dias.”1

“Fazei, pois, morrer a vossa natureza terrena:….”. Essa nova vida que nasce da morte, requer, nada mais, nada menos, do que a mortificação da nossa natureza terrena e mundana. Essa ação é demandada por Deus, do crente regenerado e habitado pelo Espírito, que agora está revestido de uma natureza espiritual (v.10). Essa nova natureza lhe garante autoridade para subjugar o pecado: “Porque o pecado não terá domínio sobre vós;…” (Rm 6.14a). A lista de pecados que devem morrer com o nosso “velho homem” é pesada: a imoralidade sexual, a indecência, as paixões más, os maus desejos e a cobiça, a raiva, a paixão e os sentimentos de ódio, a mentira, a linguagem obscena e a conversa indecente. A figura empregada pelo apóstolo traz a ideia de livrar-se, desvencilhar-se, despir-se, de toda essa carga danosa e perigosa que transportávamos sobre nossos ombros nos caminhos dessa vida. Carga essa que dificultava nosso caminhar e trazia sobre nós a ira de Deus. Viver numa sociedade dominada pela prática de todo tipo de pecado e se manter blindado é um desafio que se impõe ao cristão, que se torna mais difícil a cada dia.

3. Revestimento de virtudes (Cl 3. 12-15)

Essa ideia de despojamento dos “trapos de imundícia” (Is 64.6) do pecado e revestimento de vestes novas, lavadas e alvejadas no sangue do Cordeiro (Ap 7.13), ou de Cristo, está muito presente no Novo Testamento: Efésios 4.22-24; Romanos 13.11-14; 1Pedro 2.1-2; 11-12. Essas vestes têm o simbolismo de justiça. O esvaziamento ou mortificação das velhas práticas pecaminosas é indispensável para a implementação do passo seguinte; o enchimento ou revestimento das virtudes recomendadas. A regeneração do Espírito Santo já produz em nós o fruto do Espírito, com seus “9 gomos” (Gl 5.22-23), que são manifestações do caráter do crente regenerado: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio. Espera-se que, na vida cristã comum, essas virtudes se manifestem naturalmente, bem como outras recomendadas no texto em análise: misericórdia e humildade. Pensando, ainda, na convivência dos irmãos, principalmente na comunidade dos santos, a igreja, o apóstolo destaca outras duas virtudes importantes: a)“Suportai-vos uns aos outros”: a ideia básica aqui e que se relaciona com a questão do perdão, que vem logo a seguir, é a de se tolerar, aguentar, não se irritar com as faltas do outro, porque o outro também precisará fazer o mesmo conosco, afinal, somos todos imperfeitos. A ideia secundária, mas não menos importante, é a de apoiar, de servir de suporte ao irmão. b) “perdoai-vos mutuamente”: a questão do perdão é sintetizada e ilustrada na parábola de Mateus 18.23-35. Nossa dívida era impagável (dez mil talentos), mas Deus a perdoou totalmente, em Cristo. Assim sendo, qualquer falta que cometerem contra nós, quando comparada a isso, torna-se insignificante (cem denários).

4. Crescimento na Palavra, na Adoração e no Serviço (Cl 3.16-17)

Por último, essa vida cristã comum se desenvolve e se expande, mostrando seus sinais, em três direções: a)Para dentro (v.16a): Crescimento espiritual e na Palavra de Deus a partir da busca insaciável, apropriação, compartilhamento e aconselhamento mútuo: “desejai ardentemente, como crianças recém-nascidas, o genuíno leite espiritual, para que, por ele, vos seja dado crescimento para salvação,” (1Pe 2.2). b)Para o alto (v.16b): Plenamente cheios e “encharcados” da Palavra, naturalmente iremos transbordar; primeiramente, para o alto, para Deus, através da adoração e louvor, fruto de corações agradecidos. c)Para o lado (v.17): Por fim, transbordaremos na direção do nosso próximo: compartilhando a fé comum, levantando o caído, alcançando os não alcançados pelo Evangelho, suprindo suas necessidades. Servindo fora dos holofotes (Ef 6.6), de boa vontade como ao Senhor (Ef 6.7), cientes que a recompensa virá do Senhor (Cl 3.24).

Conclusão

Que Deus nos ajude a nunca perder o foco, trocando o que é permanente e eterno pelo efêmero e transitório. Que tenhamos sempre a coragem de nos esvaziarmos de nós mesmos e de tudo que desagrada a Deus, nos abrindo para receber as insondáveis riquezas que ele reservou para nós. Que jamais abandonemos o “primeiro amor” (Ap 2.4), aquele ardor espiritual dos primeiros momentos do nosso encontro com Deus. Que nos doemos a cada dia para promover a glória de Deus e ajudar o nosso próximo. “Finalmente, irmãos, nós vos rogamos e exortamos no Senhor Jesus que, como de nós recebestes, quanto à maneira por que deveis viver e agradar a Deus, e efetivamente estais fazendo, continueis progredindo cada vez mais;” (1Ts 4.1)


[1] Almeida, Natanael de Barros. Tesouro de Ilustrações. Edições Vida Nova, 1981.

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