
Texto base: Provérbios 31.10-31.
Introdução:
“Mulher virtuosa, quem a achará? O seu valor muito excede o de finas joias.” (Pv 31.10)
O livro de Provérbios é permeado por inúmeros ensinos, instruções e conselhos para um viver piedoso, bem-sucedido e que agrada a Deus. Depois de muitas referências negativas (e alertas) quanto à mulher (adúltera, estrangeira, vil, rixosa, iracunda) e, também, positivas (graciosa, virtuosa, sábia), no seu último capítulo encontramos esse clássico bíblico apreciando e enaltecendo a mulher – esposa e mãe – alguém tão especial no projeto de Deus que recebeu a sublime missão de gestar em seu corpo e ventre a prole humana. Este texto é um “espelho para as mulheres” (Matthew Henry).
O capítulo 31 começa revelando que o texto é do ilustre e desconhecido rei Lemuel (de Massá), cujo nome significa “que pertence a Deus”, reproduzindo o que teria aprendido com sua mãe (Pv 31.1). Esta seção final do livro e do capítulo 31 (versículos 10 a 31) foi escrita na forma literária de acróstico, ou seja, cada um dos 22 versículos se inicia com uma das 22 letras do alfabeto hebraico (alefe, beth, gimel, dalete etc.), sequencialmente.
O tema MULHER nunca foi tão atual, principalmente a partir do momento em que as feministas o elegeram como sua bandeira maior. Vale lembrar que o projeto maior desse movimento não é a promoção da mulher, mas a destruição da família tradicional. E, mais, fazer da mulher um homem, é a maior promoção do machismo. A discussão acontece na sociedade secular, bem como no meio eclesiástico e de forma efervescente: a igualdade entre os sexos, o papel e lugar da mulher, o empoderamento da mulher, o direito sobre o seu corpo (aborto), a violência contra a mulher (feminicídio), a representatividade da mulher nas organizações públicas e privadas, a remuneração igual no mercado de trabalho etc.
O que esse texto, escrito a cerca de três mil anos (982 aC), teria a nos dizer de relevante, hoje? Primeiramente, é preciso entender bem o contexto da época em que foi escrito. Em seguida, projetá-lo no contexto dessa sociedade pós-moderna na qual vivemos. Ou seja, é preciso seguir a regra geral da hermenêutica bíblica.
Ao ler esse texto me vem à mente a imagem de uma sociedade baseada predominantemente na agricultura e pecuária. Nesse contexto, imagino uma fazenda de porte razoável, com um casal; alguns filhos; servos trabalhando na casa, sob a orientação e supervisão da esposa e outros servos e/ou empregados, trabalhando no campo, sob a orientação e supervisão do marido. O foco do texto é posto na esposa e mãe. É bem provável que o autor não teria em mente uma única mulher que reunisse todas as qualidades mencionadas. Acredita-se que a intenção tenha sido a de elaborar um quadro descritivo ideal do que seria uma mulher (esposa e mãe) virtuosa. Portanto, não deve se sentir frustrada aquela mulher que perceber que não desenvolveu todas as qualidades mencionadas no texto.
Então, vejamos o que qualificaria uma mulher como virtuosa, digna de ser “louvada”. Por falar nisso, embora várias versões da bíblia mencionem o termo louvor (“seu marido a louva”– v.28; “essa será louvada” – v.30; “de público a louvarão” – v.31), fica melhor substituir “louvor” por “apreciação” ou “elogio”, reservando o termo louvor para Deus que é digno de todo o nosso louvor e adoração. Já há algum tempo aprendi que, pelo menos no âmbito eclesiástico, não usamos a expressão “voto de louvor” direcionado a pessoas, mas “voto de apreciação”, o que concordo plenamente.
Há muitas formas de classificar e definir as dimensões de um ser humano. Para efeito deste estudo vamos considerar quatro e perceber como uma mulher virtuosa poderia se enquadrar.
1. DIMENSÃO INTELECTUAL
Aspectos: Caráter, Personalidade, Valores, Confiabilidade, Bondade, Estética etc.
“O coração do seu marido confia nela, e não haverá falta de ganho.” (Pv 31.11)
“Ela lhe faz bem e não mal, todos os dias da sua vida.” (Pv 31.12)
“A força e a dignidade são os seus vestidos, e, quanto ao dia de amanhã, não tem preocupações.” (Pv 31.25)
“Levantam-se seus filhos e lhe chamam ditosa; seu marido a louva, dizendo: Muitas mulheres procedem virtuosamente, mas tu a todas sobrepujas.” (Pv 31.28-29)
A mulher virtuosa é, sem dúvida, uma pessoa diferenciada. Ela é vista como uma mulher capaz, dotada de nobre caráter e conhecimento das coisas úteis, para o desempenho do seu papel de esposa e mãe:
- Sua presença é marcante e inspiradora para toda a família.
- O seu marido confia nela porque ela é uma companheira fiel a ele, o apoiando e o encorajando, na enfermidade, na adversidade e na velhice.
- Ela demonstra seu nobre caráter por meio das suas ações.
- Tem a capacidade de administrar a sua casa, não dilapidando os recursos do casal com coisas supérfluas, ao contrário, promovendo prosperidade.
- Ela edifica a sua casa e é o esteio do seu lar.
- Ela tem opinião própria, sem ser arrogante; é firme e determinada sem ser autoritária.
- Ela tem consciência do seu papel e é dedicada no cumprimento da sua missão.
- Ela é cuidadosa consigo mesma; com sua mente, corpo e aparência.
- Sua bondade, força e dignidade permeiam os seus atos e adorna o seu caráter e personalidade.
- Seu zelo pela previdência humana e seu descanso na providência divina a fazem não abrigar preocupações com o dia de amanhã.
Uma mulher virtuosa, adornada de tantas qualidades, resplandece mais do que uma mulher fútil, vaidosa, vazia, enfeitada de finas joias, pois é a formosura interior que dá brilho ao que é exterior. “Não seja o adorno da esposa o que é exterior, como frisado de cabelos, adereços de ouro, aparato de vestuário; seja, porém, o homem interior do coração, unido ao incorruptível trajo de um espírito manso e tranquilo, que é de grande valor diante de Deus.” (1Pe 3.3-4)
Toda essa sua performance não passa despercebida pelos seus que a honram e não lhe poupam palavras e gestos de reconhecimento e apreciação.
2. DIMENSÃO LABORAL
Aspectos: Habilidades, Desempenho, Disposição, Dedicação, Persistência etc.
“Busca lã e linho e de bom grado trabalha com as mãos.” (Pv 31.13)
“É como o navio mercante: de longe traz o seu pão.” (Pv 31.14)
“É ainda noite, e já se levanta, e dá mantimento à sua casa e a tarefa às suas servas.” (Pv 31.15)
“Examina uma propriedade e adquire-a; planta uma vinha com as rendas do seu trabalho.” (Pv 31.16)
“Cinge os lombos de força e fortalece os braços.” (Pv 31.17)
“Ela percebe que o seu ganho é bom; a sua lâmpada não se apaga de noite.” (Pv 31.18)
“Estende as mãos ao fuso, mãos que pegam na roca.” (Pv 31.19)
“No tocante à sua casa, não teme a neve, pois todos andam vestidos de lã escarlate.” (Pv 31.21)
“Faz para si cobertas, veste-se de linho fino e de púrpura.” (Pv 31.22)
“Ela faz roupas de linho fino, e vende-as, e dá cintas aos mercadores.” (Pv 31.24)
“Atende ao bom andamento da sua casa e não come o pão da preguiça.” (Pv 31.27)
Quem imagina que o ideal bíblico para a mulher (esposa e mãe) é alguém inerte, sem vontade própria, sem iniciativas, totalmente dependente, apenas uma cuidadora e doméstica, se equivoca e vai se surpreender com a dimensão laboral da mulher expressa neste texto. Aliás, das quatro, essa é a dimensão mais rica em detalhes e mais extensa.
Homem e mulher foram criados por Deus com a mesma inteligência, porém com certas diferenças que acabam direcionando-os para a realização de funções diferentes. Há evidências sobradas de que determinadas áreas de trabalho e atividades se ajustam melhor e ganham a preferência do público masculino, enquanto outras, do público feminino. Não é nosso objetivo neste estudo tratar do papel da mulher no âmbito eclesiástico, mas do aspecto laboral da mulher virtuosa no cotidiano da família e da sociedade secular.
Analisando superficialmente os versículos acima, selecionados para este segundo tópico verificamos alguns aspectos dessa mulher:
a) Ela participa efetivamente do provimento e sustento da casa e da família, buscando insumos e tecendo com as mãos. Num tempo em que não havia lojas de departamentos e que era caro contratar profissionais, esperava-se que a esposa fosse uma boa costureira. (vv. 13-14)
b) Ela não tem qualquer acordo com a preguiça. Num tempo em que não havia energia e luz elétrica era preciso aproveitar, ao máximo, a luz do sol. Ela acorda muito cedo, de madrugada, providencia a primeira refeição do dia e já distribui as tarefas com as servas, revelando ser uma boa administradora do lar. Ela encarna o ideal da feminilidade: é ativa, trabalhadora diligente e sábia, sempre presente e produtiva; sabe fazer e sabe delegar. (vv. 15, 27)
c) Ela é uma empreendedora, uma microempresária e investidora, lidando com avaliação e aquisição de propriedade e plantando vinha com a renda do seu trabalho. Também faz roupas e cintos para vender aos comerciantes. (vv. 16, 24)
d) Suas atividades laborais adentram a noite. Sua lamparina acesa fala de esperança de uma vida melhor para a família. O trabalho manual árduo e contínuo fortalece seus braços. Ela fabrica tecidos, faz cobertas para o seu próprio uso e veste-se de linho e púrpura. “Ela evitava o que debilitaria o seu corpo ou amoleceria a sua mente” (Adam Clarke)(vv. 17,18 e 22)
e) Ela não teme o inverno e as tempestades de neve, pois se prepara para esse tempo de frio com antecedência. (v. 21)
Esse é o perfil laboral dessa mulher virtuosa: uma pessoa proativa, dinâmica, que organiza os serviços da casa e dá conta dos seus negócios e empreendimentos. Sem dúvida, alguém que seria capaz de atender às demandas profissionais do nosso tempo. Ela faz algumas investidas no ambiente externo à sua casa, porém, a predominância da sua ocupação se dá na modalidade de home office, para usar o linguajar da vez. Vivemos num tempo muito diferente, principalmente nas grandes metrópoles, entretanto, a essência não mudou. Ambos os cônjuges têm a responsabilidade do sustento e da administração da casa, bem como da educação, orientação, cuidado e disciplina dos filhos. Ambos podem ter que cuidar da sua carreira e vida profissional no mercado de trabalho, porém, devem prestar muita atenção à seguinte afirmação: “Atende ao bom andamento da sua casa e não come o pão da preguiça.” (Pv 31.27)
3. DIMENSÃO RELACIONAL
Aspectos: Comunicação, Empatia, Sensibilidade Social, Misericórdia etc.
“Abre a mão ao aflito; e ainda a estende ao necessitado.” (Pv 31.20)
“Seu marido é estimado entre os juízes, quando se assenta com os anciãos da terra.” (Pv 31.23)
“Fala com sabedoria, e a instrução da bondade está na sua língua.” (Pv 31.26)
É fato que as mulheres não são todas iguais e não têm todas o mesmo perfil e vocação. O mesmo se dá com os homens, é claro. Entretanto, de um modo geral e com muitas exceções, quando se trata de relacionamento social a natureza feminina leva vantagem. No lar, ela é a conciliadora, apaziguadora, conselheira, confidente e companheira. No mercado de trabalho ela é predominantemente professora, pedagoga, advogada, enfermeira, assistente social, cuidadora, atendente, secretária, arquiteta, ginecologista etc. Lidar com pessoas é o seu ponto forte. Ela gosta de falar e carrega a pecha de falar muito. Quando sensata e prudente, fala com sabedoria, como Abigail a Davi, pacificando a situação (1Sm 25).
Não há qualquer virtude em se viver uma vida regalada, voltada para o seu próprio umbigo, sem se importar com o próximo. Na sua empatia e sensibilidade, a mulher virtuosa, além de servir e suprir a própria família, volta o seu olhar para os aflitos e necessitados, para distribuir entre os pobres uma porção da sua generosidade. Ela faz como Rute que deixou tudo para acompanhar e cuidar da sua sogra Noemi (Rt 1.16-18), sendo literalmente reconhecida por Boaz como “mulher virtuosa” (Rt 3.11); ou como a bondosa Dorcas que era notável pelas boas obras que fazia (At 9.36).
A mulher virtuosa não se presta ao desserviço de falar mal do marido e nem de divulgar as fraquezas e debilidades da sua família. Ao contrário, sua boa atuação projeta uma boa imagem da sua casa, sendo parte do sucesso do seu marido.
4. DIMENSÃO ESPIRITUAL
Aspectos: Temor a Deus, Fé, Piedade etc.
“Enganosa é a graça, e vã, a formosura, mas a mulher que teme ao SENHOR, essa será louvada.” (Pv 31.30)
“Dai-lhe do fruto das suas mãos, e de público a louvarão as suas obras.” (Pv 31.31)
Chegamos, por fim, à última dimensão, a espiritual. Tudo o que foi dito anteriormente pode ser compartilhado por várias mulheres, independentemente da sua devoção ou não a alguma religião. Entendemos que essa última dimensão, que tem a ver com seu temor a Deus e sua fé, constitui, verdadeiramente, o grande diferencial. “Muitas mulheres procedem virtuosamente, mas tu a todas sobrepujas.” (Pv 31.29). Sem dúvida, a mulher cristã, regenerada e habitada pelo Espírito Santo, manifestará o fruto do Espírito que é a essência da mulher virtuosa. Essa capacitação divina será um tremendo facilitador e impulsionador para a sua atuação nas três dimensões tratadas acima. Este é o verdadeiro e autêntico empoderamento, o que vem do alto, de Deus!
Na galeria dos heróis e heroínas da fé (Hb 11) não foram esquecidas as mulheres. Entre os grandes personagens bíblicos ali destacados por sua fé, vamos encontrar Sara (Hb 11.11) e Raabe, a meretriz regenerada por Deus (Hb 11.31). Ao longo da história não faltaram mulheres de Deus que fizeram toda a diferença e marcaram sua época; algumas sempre lembradas e outras permaneceram no anonimato.
Conclusão:
Nesse tempo de pós-modernidade, muitas ideias progressistas e narrativas falaciosas têm surgido e provocado certa inquietação, dentro e fora da igreja. Os absolutos de Deus estão sendo bombardeados diariamente. É preciso ter cuidado e buscar o alicerce na bíblia para não ser arrastado por certas novidades. Nem tudo que é antigo é ruim e nem tudo que é moderno é bom, principalmente no campo das ideias.
É preciso tomar cuidado com certas narrativas que estão sendo empurradas goela abaixo e, muitos, inclusive cristãos, não estão percebendo e reagindo:
– “Lugar de mulher é onde ela quiser!”
– “O trabalho feminino é menos valorizado!”
– “A mulher ganha menos do que o homem!”
– “Meu corpo, minhas regras!”
Nem sempre a mulher recebeu o seu devido valor e igualdade de tratamento e oportunidade. Em boa parte do planeta essa situação melhorou, porém, no restante, predominantemente não cristão, ainda não. Vale ressaltar que Jesus e sua igreja têm resgatado a dignidade e o valor da mulher. No plano maior divino, homem e mulher têm papeis bem definidos, dentro e fora da igreja.
O ensino bíblico da subordinação da esposa ao marido não foi revogado, não caducou e não deprecia a mulher. A subordinação da mulher não significa inferioridade. Sobre isto, comenta Augustus Nicodemus Lopes: “Assim como Pai e Filho, que são iguais em poder, honra e glória, desempenham papéis diferentes na economia da salvação (o Filho se submete ao Pai), homem e mulher se complementam no exercício de diferentes funções, sem que haja qualquer desvalorização ou inferiorização da mulher”. Do mesmo modo, portanto, a submissão da mulher ao homem no contexto do lar e da igreja não significa que ela lhe seja inferior. Explicitamente, à ordem de submissão o apóstolo contrapõe: “No Senhor, todavia, nem a mulher é independente do homem, nem o homem, independente da mulher. Porque, como provém a mulher do homem, assim também o homem é nascido da mulher; e tudo vem de Deus.” (1Co 11.11-12).
Que Deus nos ajude!
Bibliografia:
1. Bíblia Sagrada (SBB – Versão Revista e Atualizada).
2. Bíblia Online – SBB.
3. Revista Didaquê – Vida Abundante – VIVENDO E Aprendendo.
4. Champlin, Russell Norman, Ph.D. – O Antigo Testamento Interpretado, versículo por versículo – Hagnos.
5. Internet.
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