Jesus e a mulher samaritana (Jo 4.4-29)

Introdução

O rio Ganges é o maior rio da Índia e é uma importante fonte de água para milhões de pessoas. Nasce no Himalaia e suas águas são formadas pela fusão das geleiras e das chuvas; percorre aproximadamente 2.525 quilômetros até desaguar no Golfo de Bengala. Anualmente se dá a peregrinação de milhares de hindus, que por o considerarem sagrado, buscam as suas águas para nelas se banharem e se purificarem. Nenhum dos inúmeros contratempos da viagem os fazem desistir (frio, fome, morte de outros peregrinos etc.). Permanecem firmes em seu propósito movidos por uma grande “sede espiritual”. Estes devotos não sabem o que adoram. Se ao menos a sua devoção e o seu esforço pudessem ser dirigidos à fonte da verdadeira “água viva”, que vida nova não teria a Índia. A mulher samaritana partiu em busca da água parada de um poço, mas levou de volta a “água viva”!

1. JESUS SENTADO JUNTO A FONTE (Jo 4.4-6)

(3  deixou a Judéia, retirando-se outra vez para a Galiléia.)
4  E era-lhe necessário atravessar a província de Samaria.
5  Chegou, pois, a uma cidade samaritana, chamada Sicar, perto das terras que Jacó dera a seu filho José.
6  Estava ali a fonte de Jacó. Cansado da viagem, assentara-se Jesus junto à fonte, por volta da hora sexta.

Jesus deixa a Judeia e segue o seu caminho em direção a Galileia (verso 3). “E era-lhe necessário….” (v.4). Se dermos uma olhada no mapa do mundo do novo testamento, aquele que se encontra no final de algumas bíblias, veremos que Samaria ficava exatamente entre a Galileia e a Judéia. Portanto, estava aí a necessidade geográfica de atravessá-la; provavelmente o caminho mais curto e a rota usual dos viajantes. Certamente havia outro motivo bastante forte, que era o de anunciar as boas novas àquele povo de Samaria.

Jesus tinha uma razão mais forte para não ficar muito tempo no mesmo lugar. Ele tinha pouco tempo pela frente e muito a fazer: pessoas a quem mostrar o poder de Deus, e muitas revelações e ensinamentos da parte de Deus. Entretanto sua condição humana o obrigava a parar para descansar.

Enquanto seus discípulos vão procurar alimentos (versos 5, 6 e 8), Jesus senta-se junto à fonte, por volta das 12 horas (meio-dia), pois estava cansado da viagem. Quão esgotado devia estar, na sua condição humana. Mas, será que ele não poderia operar um milagre em benefício próprio? Aí estava a chave do valor de sua missão neste mundo. Se ele não quisesse ser afetado ou incomodado pelas fraquezas humanas, ele teria vindo a este mundo como Deus e não como homem. Porém, que valor teriam as suas palavras e ações para os humanos se ele não tivesse a nossa mesma constituição física? Assim, Jesus Cristo se identifica perfeitamente com o homem, assumindo uma condição de humilhação, para em tudo nos dar o exemplo. O apóstolo Paulo descreve isso em Filipenses 2.6-11.

É notório que Jesus não se sentaria ali apenas para descansar, nem tampouco para tomar um pouco d’água. Essa sua postura era uma postura de espera, não apenas dos discípulos que haviam ido à cidade para comprar alimentos (v.8), mas de alguém carente, necessitado de uma palavra de esperança, de esclarecimento, de salvação. Era costume de as mulheres realizarem essa tarefa de buscar água, normalmente em grupos, bem cedo ou no final do dia. Alguns interpretam que o fato dela ter ido ao meio-dia e sozinha evidenciaria sua vergonha devido à sua conduta moral. Entretanto, não há qualquer prova nesse  sentido.

Jesus estava sentado junto a um poço, poço que fornecia água para sustentar muita gente. Isso nos leva a pensar na grande misericórdia e paciência de Cristo para com os impenitentes, insubmissos. Jesus continua, por enquanto, assentado à destra do Pai, aguardando pacientemente o fruto do seu penoso trabalho de redenção. Sim, a Fonte continua jorrando: de cima para baixo, de Cristo para os homens.

2. UM DIÁLOGO FRANCO (Jo 4.7-26)

JESUSMULHER SAMARITANA
1- Assentado esperando. (v.6)1- Chega para tirar água. (v.7a)
2- Pede-lhe água. (v.7b)
#Jesus, sendo homem e judeu, quebra os protocolos sociais ao falar publicamente com uma mulher de reputação duvidosa.
2- Espanta-se por Jesus dirigir-lhe a palavra, sendo ela samaritana e ele judeu. (v.9)
Nota: Não há barreiras, nacionais ou políticas, de cor, de bondade, de maldade. O Senhor transpõe qualquer obstáculo para nos abençoar. Veja, no final, o apêndice histórico.
3- Replica que não é apenas um judeu comum e que tem algo para lhe dar, “água viva”. (v.10)
#O pedido inicial foi apenas para servir de ponto de contato.  
3- Interpreta materialmente e, questiona a possibilidade de Jesus poder cumprir o que estava oferecendo, por: (vv.11-12)
– Falta de recursos;
– Falta de capacidade própria.
#Ainda hoje muitos duvidam do poder de Jesus (Cl 1.15, 19-20)!
4- Jesus não se defende. Ele não desejava entrar em atrito para não bloquear o acesso ao seu coração e insiste: (vv.13-14)
– A água dada por Jacó não eliminaria de vez a sua sede;
– A sua água era superior, logo ele era superior a Jacó.
#Uma resposta sutil!  
4- Continuava a entender por um prisma  material, como se ele se referisse a  um líquido dotado do poder mágico de  satisfazer a sede física. Sem entender ainda e, talvez com um tom irônico, ela pede dessa água para simplesmente satisfazer o comodismo de não mais ter o trabalho de ir ao poço. (v.15)
# Visão material.
# Comodismo religioso (A fé que nada  custa, nada vale).
5- Jesus não insiste e muda o rumo da conversa apelando para a vida sórdida (suja, pecaminosa) que ela levava pedindo-lhe para chamar o seu marido. (v.16)  5- Ela responde que não tem marido. (v.17a)  
6- Jesus a elogia pela sua sinceridade e revela algo mais sobre a sua vida. (v.17b-18)
#Era preciso fazê-la reconhecer que estava diante de alguém especial e, também, da necessidade de libertar-se dos seus pecados.  
6- Nesse ponto ela começa a entender que havia algo de especial naquele personagem desconhecido que apareceu no seu caminho. Supõe tratar-se de um profeta, ela apela para os seus conhecimentos religiosos e levanta uma questão antiga sobre o local da adoração. (vv.19-20)
7- Jesus então, a partir do assunto que ela levantou, expõe-lhe algumas verdades: (vv.21-24)
– Vós adorais o que não conheceis;
– Nós adoramos o que conhecemos;
– A salvação vem dos judeus;
–  Já chegou a hora de prestar um verdadeiro culto de adoração a Deus. Basta de formalidades e hipocrisia.
– O Pai procura adoradores que o adorem em espírito e em verdade. Isso nada tem a ver com sinceridade e boas intenções. Era uma forma de dizer que os homens podem aproximar-se de Deus através do próprio Jesus, o doador do Espírito (o que é simbolizado pela água transmissora de vida (comp. Jo 7.37-39).
7- A mulher mostra que conhecia alguma  coisa de religião e fala da sua esperança na vinda do Messias, chamado Cristo, que lhes havia de ensinar todas as coisas ainda obscuras.
#Sem qualquer pressão da parte de Jesus a conversa encaminhava-se para o ponto  desejado: naturalmente ela menciona a  vinda do Messias, o Salvador do mundo. (v.25)                
8- Quando Jesus sentiu haver um desbloqueio total na sua mente, em seu coração, ele se dá a conhecer de maneira maravilhosa: “Eu o sou, eu que falo contigo”. (v26)8- Ela não teve mais o que questionar. O  seu coração que naturalmente ardia durante a conversa, não hesitou em acolher entusiasticamente aquela nova e surpreendente revelação.

3. UMA DECISÃO ACERTADA (Jo 4.28-29)

28  Quanto à mulher, deixou o seu cântaro, foi à cidade e disse àqueles homens:
29  Vinde comigo e vede um homem que me disse tudo quanto tenho feito. Será este, porventura, o Cristo?!
(30  Saíram, pois, da cidade e vieram ter com ele.)

A mulher havia tomado conhecimento de uma verdade grande demais para guardar apenas para si. Resolveu então compartilhar com o seu povo (vinde e vede). O versículo 39 diz que muitos samaritanos creram nele em virtude do testemunho dela. Aquele encontro marcou profundamente a sua vida trazendo luz às suas fracas convicções religiosas.

O que muito nos impressiona é a expressão: “..deixou o seu cântaro, foi..”. Como ela pôde fazer isso? Afinal de contas ela foi até ali para encher o seu cântaro de água!

O mundo se divide em duas classes de pessoas:

1ª) Os que carregam cântaros de águas paradas e mortas. Estão mortos para Deus e voltados apenas para essa vida terrena e passageira.

2ª) Os que “deixaram seus cântaros aos pés de Jesus”, recebendo em troca a “água viva” que jorra para a vida eterna, o “dom de Deus”, a salvação eterna (Tt 3.3-7; Jo 4.13-14).

O cântaro representava para aquela mulher toda a razão dela estar ali. A finalidade da sua vida, naquele momento, se restringia simplesmente a levar água no seu cântaro!

Ela chegou a Jesus trazendo: (i) o espanto daquele judeu lhe dirigir a palavra, lhe dar atenção; (ii) a incredulidade quanto aquele personagem ser maior do que Jacó e ter uma água melhor para lhe dar; (iii) a sua limitação quanto ao entendimento das coisas espirituais; (iv) a sua vida sórdida e marcada pelo adultério e outras formas de pecado; (v) suas pobres convicções religiosas; (vi) mas, também, uma mente aberta para reconhecer a triste vida que levava, “carregando águas mortas”. Ali mesmo ela decidiu trocar tudo isso pela “água viva” da salvação em Cristo. Houve ali uma verdadeira conversão de vida. Ela chegou ali com um propósito em seu coração e saiu com outro totalmente diferente. Ficou eufórica pelo encontro que teve com o Messias.

Quantas pessoas andam por aí carregando pesados “cântaros” cheios de aflições, vícios, medo, intranquilidade, enfermidade, incerteza, infidelidade conjugal, desesperança etc. Jesus ainda está junto a fonte para fornecer a “água viva” a quem se chegar até ele com fé, disposto a fazer a troca.

Por outro lado, vale lembrar que aquele que se diz cristão deve vigiar para não ser encontrado enchendo seu velho cântaro com “águas mortas”, isto é, deixando-se envolver ou ser dominado pelas coisas desta vida. É melhor deixar esse cântaro aos pés de Cristo e prosseguir testemunhando aos outros que “a fonte da água viva ainda está jorrando”; remindo o tempo, pois a qualquer momento ela se fechará.

Conclusão

É preciso ressaltar que, neste encontro de Jesus com a mulher samaritana, são evidenciadas algumas verdades relevantes:

– A perfeita humanidade e divindade de Jesus, o Messias, o Filho de Deus.

– O amor e interesse de Jesus pelas pessoas, não conhecendo fronteiras étnicas, culturais ou condição social.

– O valor e importância que ele dá a uma mulher, num tempo em que elas tinham pouco valor e, principalmente esta mulher com uma vida nada recomendável. Jesus Cristo e o cristianismo veio resgatar o valor da mulher!

– Jesus usa um ponto de interesse comum – a água, a sede física – como ponte para expor verdades espirituais mais profundas. Verdadeiramente ele dá uma aula sobre evangelismo pessoal!

– Jesus revela o conceito da verdadeira adoração a Deus – em espírito e em verdade – que nada tem a ver com a participação em rituais religiosos vazios e não está restrita a montes ou templos, pois Deus é espírito.


Assista ao vídeo: Jesus e a mulher samaritana.


Apêndice histórico

Samaria:

A província de Samaria compreendia, primeiramente, todo o território ocupado pelas dez tribos revoltadas que seguiram a Jeroboão, por ocasião da divisão das doze tribos de Israel. A cidade de Samaria, capital das dez tribos, foi edificada por Onri, rei de Israel (1Rs 16.23-24), sobre o monte de Samaria. Ficou bastante conhecida pela sua idolatria, principalmente no tempo de Acabe, rei de Israel.

Desentendimento entre judeus e samaritanos: 

Quando as dez tribos foram transportadas para o cativeiro na Assíria, no reinado de Oséias, milhares de pobres permaneceram na terra. Sargom II, rei da Assíria, trouxe gente da Babilônia, de Cuta, de Ava, de Hamate e de Sefarvaim, para colonizar o país (2Rs 17.21-41). Isso resultou numa raça mestiça. Com o retorno do cativeiro, criou-se grande confusão. Na mesma área havia o judaísmo e uma imitação do judaísmo; os samaritanos, sacrificando “neste monte” (v.21) (Gerizim), e os judeus fiéis, em Jerusalém. Daí a razão do conflito entre judeus legítimos e samaritanos.

Os samaritanos baseavam sua religião somente no pentateuco, rejeitando o restante do Antigo Testamento. Observavam o sábado, as festas, a circuncisão etc. Esperavam a vinda do Messias para converter as nações ao samaritanismo.

Reflexão complementar:

Em se tratando de evangelização, vale lembrar os sete princípios de ação sugeridos por Gavin Levi Aitken, extraídos do encontro de Jesus com a mulher samaritana, no Evangelho de João, capítulo 4 .

1º) Entrar em contato com as pessoas (aspecto social).
2º) Estabelecer um interesse comum (uma ponte, neste caso a “água”).
3º) Despertar o interesse (“água viva”), quebrando barreiras (social, racial, religiosa etc.).
4º) Não dar tudo de uma só vez.
5º) Não condenar.
6º) Não desviar do assunto.
7º) Confrontar a pessoa diretamente com Jesus, levando-a a uma definição.

Que Deus nos ajude!

Autor: Paulo Raposo Correia

Um servo de Deus empenhado em fazer a sua vontade.

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