Administrando o Estresse

Introdução          

O estresse não é um problema (ou doença) novo. Entretanto, nessas últimas décadas, marcadas por expressivo desenvolvimento tecnológico e por muitas mudanças no mercado de trabalho e na sociedade, o estresse passou a ter um papel de destaque entre os problemas que afetam ou afligem o ser humano moderno. É mais um daqueles problemas que em algum momento da vida acabam afetando nossa vida. Portanto, mesmo que não possamos passar pela vida sem experimentá-lo, felizmente, pode-se garantir que é possível minimizar sua ocorrência ou, administrá-lo, quando vier a ocorrer.

Há situações que são complicadas, porém não tão aterradoras, como: a perda de um emprego, a desagregação ou abandono familiar, um imbróglio, que é aquele mal-entendido ou situação confusa em que nos envolveram, um acidente com pequenas sequelas ou uma doença temporária. Entretanto, há outras situações que parecem, ou mesmo, tem-se a certeza de que fogem ao nosso controle, como: estar na mira de uma arma em um assalto, uma doença degenerativa incurável, uma sequela grave de um acidente, uma catástrofe ambiental, uma pandemia, a perda repentina (ou não) de alguém muito querido, uma cirurgia de altíssimo risco ou quando estamos diante da nossa própria morte.

Você se considera uma pessoa estressada? Por quê?
Você acha que é possível prevenir situações que evitem o estresse?

1. O QUE É O ESTRESSE?

Estresse (do inglês stress, tensão), segundo o Dr. Hans Selye, se traduz pela seguinte fórmula:

A fórmula nos leva a concluir que o “excesso de ociosidade” ou o “excesso de atividade” resultam no estresse. O estresse é um alarme ou um alerta de que algo está errado e saindo do controle!

Ruy Fernando Barboza (advogado, jornalista e psicólogo; falecido em 2013), em entrevista à Revista Veja, há trinta anos (1992) foi perguntado: “Qual a posição do estresse no ranking das doenças brasileiras?”. Ele respondeu: “A prefeitura de São Paulo criou, em 1989, um serviço chamado ‘Programa de Aprimoramento de Informações de Mortalidade`, catalogando todas as mortes registradas na cidade. Analisando as mortes de outubro a dezembro de 1990, o programa concluiu que, de 14.304 mortes, 4.534 (31,7%) foram causadas por doenças do aparelho circulatório (enfartes e derrames cerebrais). O diretor do programa, sanitarista Marcos Drummond Jr., colocou ´principalmente o estresse, causado pela vida agitada`, como causa do aumento das doenças circulatórias, além do fumo e dos maus hábitos alimentares. A lista de doenças relacionadas ao estresse é enorme: úlceras, gastrites, diarreias e prisão de ventre; hemorroidas, ataques cardíacos e todos os tipos de problemas cardiovasculares, inclusive derrames; pressão alta, diabetes, enxaqueca.”[1] 

Ele acrescenta: “Rondando as grandes cidades, onde ataca em todas as profissões em geral e algumas em particular – executivos, jornalistas, médicos e assistentes sociais, entre outras –, o estresse é detentor de um recorde apavorante. Calcula-se hoje que de 80% a 85% das pessoas que procuram um clínico geral tem distúrbios causados por estresse de origem emocional. A lista de doenças ligadas a ele é de assustar.” Isso no ano de 1992.

Atualmente, muitos profissionais estão sendo afetados pela “Síndrome de Burnout” ou “Síndrome do Esgotamento Profissional” que é um distúrbio emocional com sintomas de exaustão extrema, estresse e esgotamento físico decorrente de situações de trabalho desgastantes, que demandam muita competitividade ou responsabilidade, ou mesmo de excesso de trabalho. Vale ressaltar que tal síndrome também vem afetando, de forma significativa, os pastores e líderes religiosos.

Enfim, muitas são as causas do estresse: competição profissional, desemprego, as demandas ou desafios da vida (doenças, desequilíbrio financeiro, violência urbana, decisões jurídicas e políticas públicas equivocadas, ideologias satânicas etc.), dentre muitas outras. Mais recentemente, a população mundial foi gravemente afetada pela pandemia da covid. Além dos muitos sobreviventes que permanecem estressados pelo que vivenciaram nesse período, não podemos deixar de registrar que não foram poucos aqueles que morreram porque entraram em pânico (estresse extremo) quando testaram positivo para a covid. O terror difundido pela velha mídia contribuiu para que muitos perdessem o controle emocional e infartassem. 

O profeta Elias é um exemplo típico da fragilidade humana (Tg 5.17). Este profeta notável, homem de Deus, corajoso, ousado, que desfrutava de intimidade com o Senhor,  vivenciou muitos momentos extraordinários da manifestação divina, como no desafio e derrota dos profetas de Baal (1Rs 18). No momento seguinte a tal vitória, diante da sentença de morte decretada pela rainha Jezabel, temeu e fugiu para o deserto (1Rs 19). Ali, sozinho, perdeu o controle emocional e pediu para si a morte, o que pode parecer um contrassenso, pois ele havia fugido exatamente para salvar sua vida. Sem dúvida, trata-se de incongruências decorrentes do estresse.

O estresse de Elias foi produzido pelo somatório de fatores adversos, tais como, cenário político, econômico e  religioso caóticos. A ameaça de Jezabel foi apenas a gota d’água (1Rs 19.10). 

2. PREVENINDO O ESTRESSE

É difícil imaginar que alguém não saiba o que fazer para prevenir o estresse. Normalmente as pessoas sabem o que devem e o que não devem fazer; conhecem os seus limites físicos e mentais. Entretanto, é comum se deixarem levar pelas situações e pressões sofridas, não conseguindo evitar a sobrecarga.

Vale lembrar alguns itens importantes nesta prevenção:

2.1 Hábitos Saudáveis.

– Alimentação saudável e refeição feita com tranquilidade, sem correria.

– Atividade física. Pelo menos caminhar e tomar um pouco de sol. O sedentarismo em nada contribui para a saúde física e mental.

– Descanso. Não fomos feitos para produzir ininterruptamente. É preciso destinar um tempo razoável para dormir, bem como intervalos, durante as atividades cotidianas, para descansar. Na Criação, Deus nos deu o exemplo de alternância entre trabalho e descanso.

– Organização da Agenda. Quando se programa adequadamente os compromissos e as atividades, a vida flui com menos atropelos e mais tranquilidade.

– Respeito aos compromissos. Comparecendo aos compromissos assumidos, nos horários estabelecidos ou acordados podemos evitar muitos dissabores. No caso de impossibilidade de comparecimento, por força maior, é importante comunicar com antecedência e justificar. Desculpas esfarrapadas não fazem parte da boa conduta e dificultam os relacionamentos.

– Organização financeira. Esta é uma área com grande potencial de provocar estresse!  Maximize as suas receitas. Seja rigoroso e prudente no controle e execução do seu orçamento, das suas despesas. Evite empréstimos. Não gaste mais do que você ganha.

– Mudar de ares. Viajar, passear, ter contato com a natureza.

– Lazer, recreação e descontração. Não precisamos e não devemos ser escravos da produtividade. É preciso relaxar, buscando alternativas que aliviem as tensões.

– Relacionar-se com pessoas. O ser humano é um ser social. Não fomos feitos para viver isolados, focados apenas na nossa vida. Precisamos conviver, trocar ideias, compartilhar problemas e soluções, interagir e nos desenvolver, dar e receber, abençoar e ser abençoados. É interessante esse testemunho de Paulo: “a fim de que, ao visitar-vos, pela vontade de Deus, chegue à vossa presença com alegria e possa recrear-me convosco.” (Rm 15.32)

2.2 Disciplinas Espirituais

“Porquanto a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens, educando-nos para que, renegadas a impiedade e as paixões mundanas, vivamos, no presente século, sensata, justa e piedosamente,” (Tt 2.11-12)

No tópico anterior foram abordadas algumas ações e atitudes relacionadas ao nosso “estilo de vida material”. É claro que não temos aqui a intenção de segmentar a vida em material e espiritual, pois entendemos que a vida é uma só e deve ser vivida integralmente para a glória de Deus e realização da sua vontade.

Disciplinas espirituais são práticas devocionais pessoais, intencionais e constantes, com vistas a desenvolver nossa espiritualidade e profundidade no nosso relacionamento com Deus. Elas nos ajudam a compreender mais quem Deus é, e a estreitar nossa intimidade com ele no nosso dia a dia. Portanto, as disciplinas espirituais dizem respeito ao nosso “estilo de vida espiritual” que tem o potencial de contribuir favoravelmente (ou desfavoravelmente) para o equilíbrio e a estabilidade do nosso ser – espírito, alma e corpo. Será favorável se forem observados os seguintes aspectos, dentre outros:

a) Comunhão com Deus.

Essa comunhão pressupõe relacionamento e dependência. A comunhão com Deus inicia com a regeneração e  habitação do Espírito Santo. Tudo isso em decorrência da Obra Redentora de Cristo na cruz do Calvário. Se Cristo realmente vive em nós, mantemos comunhão com ele – “O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus.” (Rm 8.16).

b) Oração e Jejum.

Através da oração nós falamos e abrimos nosso coração diante do nosso Pai Celestial, em confissão de pecados e de gratidão, petição e intercessão. Sentimos a sua presença e sua participação no nosso cotidiano. Através do jejum nós afligimos nossas almas diante de Deus, impulsionados por situações graves, rogando a sua intervenção.

c) Adoração e Louvor.

Desde o momento que acordamos até o momento de ir dormir nossos pensamentos devem estar postos no Deus da nossa salvação, em atitude de adoração e louvor. Também é essencial dedicarmos algum tempo específico para louvarmos a Deus, cantando ou ouvindo cânticos de louvor e adoração ao Senhor.

d) Bíblia.

É através da leitura, meditação e estudo da palavra de Deus que nos apropriamos do conhecimento de Deus, da sua vontade, dos seus feitos e dos seus ensinamentos para o nosso andar diário.  

Já que Elias estava estressado era necessário que fosse tratado. Afastado das causas do seu estresse ele recebeu tratamento especial. Foram três áreas e três etapas: (i) Física – Descanso e alimentação (1Rs 19.5-6); (ii) Mental / Emocional – Restaurado fisicamente o tratamento avança para a segunda etapa. O anjo do Senhor o assiste e o direciona a deixar Berseba, a maior cidade no deserto do Neguebe do sul de Israel e deslocar-se para Horebe, o monte de Deus ou monte Sinai. Ele reage positivamente, levanta-se da sua prostração e segue adiante (1Rs 19.7-8). ; (iii) Espiritual – Elias chega ao monte Horebe ou Sinai, o mesmo monte onde Moisés teve um encontro com Deus e recebeu a Lei (Êx 19ss). É significativo que, tempos depois, Jesus se encontrasse com eles no monte da transfiguração (Mt 17.1-8; Mc 9.2-8; Lc 9.28-36). Ali no monte o Senhor fala com ele e o questiona “– Que fazes aqui, Elias?”. Ali ele tem uma nova visão de Deus que o restaura espiritualmente. Situações críticas nos possibilitam vivenciar essas extraordinárias experiências com Deus. Jó também passou por isso e concluiu: “Eu te conhecia só de ouvir, mas agora os meus olhos te veem.”(Jó 42.5).

3. ADMINISTRANDO AS CAUSAS

São vários os fatores que concorrem para elevar a tensão produzindo o estresse. Abordaremos sucintamente alguns deles:

a) Preocupações constantes

“Entrega o teu caminho ao SENHOR, confia nele, e o mais ele fará.” (Sl 37.5).

Nunca mais esqueci dessa definição de um professor no Seminário: “Preocupação é ocupar-se antecipadamente com coisas que na maioria das vezes, não irão acontecer. É afligir-se antes do tempo.” É preciso ocupar melhor o nosso pensamento (Fp 4.8).

b) Ansiedade

“Humilhai-vos, portanto, sob a poderosa mão de Deus, para que ele, em tempo oportuno, vos exalte, lançando sobre ele toda a vossa ansiedade, porque ele tem cuidado de vós.” (1Pe 5-6-7)

A ansiedade é irmã gêmea da preocupação. Ambas são parentes próximos do medo (muitas vezes a diferenciação não é possível), sendo distinguidas dele pelo fato de o medo ter um fator desencadeante real e palpável, enquanto na ansiedade e na preocupação o fator de estímulo teria características mais subjetivas.

É preciso considerar que ter um pouco de preocupação ou ansiedade é um fato normal e natural no ser humano, muitas vezes agindo em prol da sua preservação. Quando se torna exagerada, fora de controle, causando transtorno comportamental, desequilíbrio, disfunção, sofrimento e estresse, a ansiedade não é mais normal e precisa ser tratada.

Para mais informações sobre o assunto, veja o artigo no link abaixo:
Descartando a ansiedade

c) Exigências profissionais

Os desafios que se apresentam para o empregado moderno são cada vez maiores. A competição interna acirrada, associada à exigência de resultados, precisam ser superadas a cada dia para se manter o emprego. Se não é possível alterar esse quadro, é mandatório aprender a conviver com ele. No tempo que se passa fora da jornada de trabalho é preciso compensar essa tensão com os hábitos saudáveis já mencionados.

d) Finanças familiar

Este assunto está diretamente ligado à sobrevivência familiar. Assim sendo, cada membro da família precisa ter consciência do seu papel e da responsabilidade de fazer a sua parte. Todos precisam acompanhar as contas a pagar e aprender a refrear seus impulsos de consumo.

e) Problemas familiares

O lar é onde passamos boa parte do nosso tempo. Nosso vínculo e responsabilidade para com a família são reais e indelegáveis. Tudo de mal que acontece na nossa família nos afeta diretamente e tem o potencial de nos levar ao estresse. Por exemplo, a desagregação familiar pelo divórcio, uma doença grave, um acidente com sequelas permanentes, dentre outros. É preciso buscar forças em Deus e contar com a solidariedade dos amigos para resistir e superar as dificuldades.

f) Ativismo (voluntário ou impositivo)

Há pessoas que estão sempre escapando de fazer alguma coisa, porém, há outras que têm certa compulsão por participar de tudo – ativismo voluntário. Também, há aquelas que se sentem na obrigação de assumir certas responsabilidades, porque outros se omitem – ativismo impositivo. Na igreja é comum ver membros sobrecarregados com muitos cargos e responsabilidades, enquanto outros, pouco ou nada fazem. É preciso frear o ativismo. É preciso descentralizar e distribuir cargos e responsabilidades como Jetro sugeriu ao seu genro Moisés (Êx 18.13-27). 

Conclusão

Na vida há tempo para tudo: “Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu:” (Ec 3.1). Há tempo para trabalhar, descansar, estudar, participar de atividades culturais e religiosas, lazer e recreação, dentre muitas outras atividades.

O estresse desorganiza todo o metabolismo do indivíduo, sendo capaz de produzir doenças psicossomáticas, além de causar a perda do sono, irritabilidade, desequilíbrio emocional e esgotamento físico. Pode levar a apatia, desânimo, falta de motivação e depressão. Portanto, deve merecer toda a atenção e o devido tratamento. Quando necessário, é importante buscar a ajuda de terceiros: conselheiros experientes, profissionais da área da saúde que possam ajudar preventivamente ou corretivamente (psicólogo, nutricionista etc.)

Finalmente, vale ressaltar que não se pode dissociar saúde mental/emocional de saúde espiritual. Desta forma, o corpo precisa de um tratamento holístico / integral.

Elias era um homem solitário, lutando as batalhas de Deus. Restaurado física, mental/emocional e espiritualmente ele foi divinamente convocado a prosseguir. A reinserção social começa com a ordem de retomada da missão: “vai, volta….” (1Rs 19.15). O caso de Elias nos deixa a lição de que não estamos sós; Deus está cuidando de nós. Ele nos assiste e nos ajuda nesse processo de restauração interior e retomada da vida, da missão. Aleluia!

Bibliografia
1. Bíblia Sagrada (SBB – Versão Revista e Atualizada).
2. Bíblia Online – SBB.
3. Revista Didaquê – Vida Abundante – DE BEM com a vida.
4. Internet.


[1] Revista Veja, 11/11/1992.


Veja, também:
Elias, no divã de Deus

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