
Texto base: 1Coríntios 12.31; 13.1-13
Introdução
O amor é um tema que nunca sai de moda e nunca se esgota. Então, o que falar do amor que ainda não tenha sido dito ou que você ainda não saiba?
O amor é um conceito complexo. Se ouve falar que o amor é um sentimento profundo de afeição, carinho, apego, cuidado e empatia em relação a alguém ou algo. Assim, o substantivo “amor” dá origem também ao verbo “amar”, que representa a ação do indivíduo que sente esse amor, estabelecendo uma relação entre o sujeito que ama e o objeto do amor. Também se ouve falar que o amor é uma decisão: “– Eu decidi amar!”. O puro sentimento não faz sentido sem a consequente ação. É como afirma Tiago “a fé sem obras é morta” (Tg 2.26). Talvez essas duas visões – sentimento e decisão – tenham o seu lugar. O amor é aquele sentimento inexplicável que, de alguma forma, surge e se expande dentro de nós podendo até nos dominar completamente. Entretanto, quando algo se interpõe entre nós e o objeto do amor, sufocando, de forma tóxica esse amor, mesmo assim pode-se tomar a decisão de continuar amando. Em termos práticos isso acontece através daquelas ações próprias de quem ama, que demonstram e explicitam o amor autêntico e verdadeiro.
No grego há cinco principais formas pelas quais o amor pode ser expresso e compreendido:
Ágape, pode ser considerado como a forma mais elevada de amor. É o amor incondicional e sacrificial, tipificado pelo amor de Deus para com a criatura humana, ao ponto de dar o seu Filho Jesus Cristo para morrer em seu lugar.
Eros, é o amor romântico e erótico, tipificado pela atração, desejo e paixão entre um homem e uma mulher.
Storge, é o amor familiar, tipificado pelo amor entre pais e filhos, marcado por cuidado, proteção e afeição.
Phileo, é o amor entre não parentes, tipificado pelo amor entre amigos, marcado por amizade, lealdade e apoio mútuo.
Philautia[1], é o amor-próprio, o amor que temos por nós mesmos. É também conhecido como autoestima ou autoamor. É o sentimento de valorização, apreço e respeito por si mesmo. Envolve uma atitude positiva em relação a quem você é e um reconhecimento de sua própria dignidade.
“O amor é frequentemente associado a emoções positivas, como felicidade, gratidão, empatia e compaixão. Ele desempenha um papel fundamental nas relações humanas, promovendo o entendimento, a união e o apoio mútuo.”
Neste estudo abordaremos alguns aspectos, bem como a visão bíblica do amor. O texto de 1Coríntios 13 é chamado de “capítulo” ou “hino do amor” porque o descreve, bem como sua importância e características de forma profunda e poética. No grego original é o amor ágape que está em foco neste capítulo. Seguem, então, algumas reflexões sobre o tema.
Desenvolvimento
1. O AMOR É A ESSÊNCIA DE DEUS
“Aquele que não ama não conhece a Deus, pois Deus é amor.” (1Jo 4.8)
“E nós conhecemos e cremos no amor que Deus tem por nós. Deus é amor, e aquele que permanece no amor permanece em Deus, e Deus, nele.” (1Jo 4.16)
A afirmação “Deus é amor” é correta e verdadeira e tem raízes na fé cristã. Ela se baseia em versículos bíblicos que descrevem o amor como uma característica fundamental de Deus. Esses versículos destacam a ideia de que o amor é uma parte essencial da natureza de Deus, e que ele é a fonte do amor.
Deus é a fonte do amor e Jesus Cristo é a expressão máxima do amor de Deus. Em muitas tradições religiosas, o amor é frequentemente considerado um dom de Deus. A ideia é que o amor, em suas várias formas, é algo que emana de Deus ou é concedido por Deus aos seres humanos. Essa crença está profundamente enraizada em muitas religiões e sistemas de crença e é frequentemente associada à ideia de que Deus é a fonte do amor.
Por exemplo, no cristianismo, o amor é frequentemente visto como um dom de Deus, como mencionado em versículos bíblicos como João 3.16, que diz: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.” Nesse contexto, o envio de Jesus Cristo ao mundo é considerado um ato supremo de amor de Deus pela humanidade. É o amor explicitado, materializado e comprovado através de ações práticas.
É importante e necessário destacar aqui que esse amor de Deus não acoberta a prática do pecado. Deus ama o pecador, mas odeia o pecado. Deus também é justo juiz e há de julgar vivos e mortos. Em Cristo somos justificados mediante a fé; sua ira é aplacada; sua misericórdia é a causa de não sermos consumidos.
2. OS TRÊS NÍVEIS DE AMOR
Pode parecer um tanto quanto sutil, mas é possível perceber na visão judaico-cristã os seguintes níveis de amor:
1º) Amar uns aos outros
(Nível Básico ou Essential)
“Amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de toda a tua força. O segundo é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que estes.” (Mc 12.30-31)
O amor ao próximo é um dos ensinamentos mais importantes da Bíblia. De certa forma Jesus “sintetizou” toda a lei mosaica em dois principais mandamentos, conforme expresso em Marcos 12.30-31 (acima). O amor ao próximo reflete o amor a Deus, que perpassando por nós o alcança.
“O amor ao próximo se manifesta em palavras e ações. Não basta dizer que ama, é preciso provar com atitudes de bondade, compaixão, perdão, ajuda e respeito. O amor ao próximo não faz distinção de pessoas, mas abrange todos, inclusive os inimigos. Jesus ensinou que devemos amar os nossos inimigos e orar por aqueles que nos perseguem, pois assim seremos filhos de Deus, que faz o sol nascer sobre maus e bons (Mt 5.43-45).”
Jesus assim se expressou sobre isso:
“Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros.” (Jo 13.35)
“Isto vos mando: que vos ameis uns aos outros.” (Jo 15.17)
E os apóstolos também:
“Amai-vos cordialmente uns aos outros com amor fraternal, preferindo-vos em honra uns aos outros.” (Rm 12.10)
“A ninguém fiqueis devendo coisa alguma, exceto o amor com que vos ameis uns aos outros; pois quem ama o próximo tem cumprido a lei.” (Rm 13.8)
“No tocante ao amor fraternal, não há necessidade de que eu vos escreva, porquanto vós mesmos estais por Deus instruídos que deveis amar-vos uns aos outros;” (1Ts 4.9)
“Tendo purificado a vossa alma, pela vossa obediência à verdade, tendo em vista o amor fraternal não fingido, amai-vos, de coração, uns aos outros ardentemente,” (1Pe 1.22)
“Porque a mensagem que ouvistes desde o princípio é esta: que nos amemos uns aos outros;” (1Jo 3.11)
“Ora, o seu mandamento é este: que creiamos em o nome de seu Filho, Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o mandamento que nos ordenou.” (1Jo 3.23)
“Amados, amemo-nos uns aos outros, porque o amor procede de Deus; e todo aquele que ama é nascido de Deus e conhece a Deus. Aquele que não ama não conhece a Deus, pois Deus é amor.” (1Jo 4.7-8)
“Amados, se Deus de tal maneira nos amou, devemos nós também amar uns aos outros.” (1Jo 4.11)
“Ninguém jamais viu a Deus; se amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós, e o seu amor é, em nós, aperfeiçoado.” (1Jo 4.12)
“E agora, senhora, peço-te, não como se escrevesse mandamento novo, senão o que tivemos desde o princípio: que nos amemos uns aos outros.” (2Jo 1.5)
2º) Amar ao próximo como a si mesmo
(Nível Intermediário ou Personal)
“Não te vingarás, nem guardarás ira contra os filhos do teu povo; mas amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o SENHOR.” (Lv 19.18)
Provavelmente esta é a menção mais antiga sobre o amor ao próximo como a si mesmo expressa no livro de Levítico na forma de mandamento. Sem dúvida é um nível de amor mais elevado do que o anterior.
Jesus ratificou este mandamento:
“honra a teu pai e a tua mãe e amarás o teu próximo como a ti mesmo.” (Mt 19.19)
“O segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo.” (Mt 22.39; ver tb Mc 12.31; Lc 10.27)
O apóstolo Paulo e Tiago também:
“Pois isto: Não adulterarás, não matarás, não furtarás, não cobiçarás, e, se há qualquer outro mandamento, tudo nesta palavra se resume: Amarás o teu próximo como a ti mesmo.” (Rm 13.9)
“Porque toda a lei se cumpre em um só preceito, a saber: Amarás o teu próximo como a ti mesmo.” (Gl 5.14)
“Se vós, contudo, observais a lei régia segundo a Escritura: Amarás o teu próximo como a ti mesmo, fazeis bem;” (Tg 2.8)
3º) Amar uns aos outros, assim como Jesus os amou
(Nível Avançado ou Excellent)
“Novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros; assim como eu vos amei, que também vos ameis uns aos outros.” (Jo 13.34)
“O meu mandamento é este: que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei.” (Jo 15.12)
Por fim, Jesus nos apresenta o nível mais elevado de amor ao próximo – como Jesus amou –, isto é, ao ponto de dar a sua vida para o livrar da pena do pecado, para o salvar da morte eterna! Perceba que Jesus está aqui abrindo caminho para um novo tempo, uma nova ordem, embasada em um “novo mandamento”, “o meu mandamento”! O nível anterior tem lá o seu valor, mas tem suas limitações. O apóstolo Paulo escrevendo e instruindo os maridos assim se expressa: “Assim também os maridos devem amar a sua mulher como ao próprio corpo. Quem ama a esposa a si mesmo se ama. Porque ninguém jamais odiou a própria carne; antes, a alimenta e dela cuida, como também Cristo o faz com a igreja; porque somos membros do seu corpo.” (Ef 5.28-30). O argumento do apóstolo considera a regra geral, porém as limitações ou exceções acontecem de fato, no caso de pessoas que, por algum motivo, não se amam, não têm amor a vida, não se cuidam, desenvolvem o comportamento de autodestruição. Se assim agem consigo mesmas, provavelmente farão o mesmo com os outros.
Portanto, fica aqui explicitado o padrão divino do amor ao próximo, que é verdadeiramente desafiador!
Algumas afirmações, para reflexão:
- Quem não ama a si mesmo não consegue amar o outro.
- Quem só ama a si mesmo não tem como amar o outro.
- Quem não ama o outro não pode amar a Deus.
- Quem só ama o outro não tem como amar a si mesmo.
3. O AMOR É A ESSÊNCIA DA VIDA CRISTÃ
O capítulo 13 de 1Coríntios está estrategicamente inserido no contexto da exposição que o apóstolo Paulo faz sobre os dons espirituais: Quais são, seus propósitos e como devem ser usados na igreja. Se a posse e exercício desses dons tinham o potencial de levar a se ensoberbecer e achar-se superior aos demais irmãos era necessário mostrar a supremacia do amor.
O capítulo do amor é introduzido pelo último versículo do capítulo 12 como “um caminho sobremodo excelente” e pode ser dividido em três blocos, como apresentado a seguir.
a) Um amor contínuo (1Co 13.1-3)
“Todos os vossos atos sejam feitos com amor.” (1Co 16.14)
O amor deve inspirar, instigar e permear todas as nossas ações. Isto não significa tolerar o pecado, fazer vista grossa para o erro, tentar justificar ou defender o injustificável ou indefensável. Até a disciplina é um ato de amor, pois tem em vista a restauração e correção de rumo: “Deus, porém, nos disciplina para aproveitamento, a fim de sermos participantes da sua santidade.” (Hb 12.10b; ver tb Dt 8.5; Jó 5.17; Pv 3.12; 6.23); “O que retém a vara aborrece a seu filho, mas o que o ama, cedo, o disciplina.” (Pv 13.24; ver tb Ef 6.4).
Em 1Coríntios 13.1-3 o apóstolo apresenta cinco aspectos referentes ao desempenho ou atitudes na vida cristã iniciados pela expressão “ainda que” que se não forem fundamentados e motivados pelo amor de nada valem, não obterão a aprovação divina ou qualquer recompensa.
1º) Falar as línguas dos homens e dos anjos.
2º) Profetizar e acumular conhecimento.
3º) Ter muita fé.
4º) Ser caridoso e benevolente para com os necessitados.
5º) Se entregar como mártir.
b) Um amor autêntico e comprometido (1Co 13.4-7)
4 O amor é paciente, é benigno; o amor não arde em ciúmes, não se ufana, não se ensoberbece,
5 não se conduz inconvenientemente, não procura os seus interesses, não se exaspera, não se ressente do mal;
6 não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade;
7 tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
Nesse segundo bloco, de forma muito didática, prática e abrangente o apóstolo procura explicitar as características do amor: aquilo que ele é; aquilo que ele não é; e, aquilo de que ele é capaz. Toda essa descrição nos remete fortemente ao cotidiano da vida, dos relacionamentos humanos e às situações pelas quais passamos.
“Ora, aquele que possuir recursos deste mundo, e vir a seu irmão padecer necessidade, e fechar-lhe o seu coração, como pode permanecer nele o amor de Deus? Filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas de fato e de verdade.” (1Jo 3.17-18)
Antes de fixar os olhos na contemplação da vida eterna é preciso viver o presente, com todos os seus desafios, principalmente o de ajudar o irmão necessitado.
c) A supremacia do amor (1Co 13.8-13)
Este terceiro bloco apresenta os seguintes aspectos:
1º) A eternidade do amor (1Co 13.8-10)
“8 O amor jamais acaba; mas, havendo profecias, desaparecerão; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, passará;
9 porque, em parte, conhecemos e, em parte, profetizamos.
10 Quando, porém, vier o que é perfeito, então, o que é em parte será aniquilado.”
Deus é a essência do amor e é eterno. Diferentemente de tantas coisas próprias do tempo presente, o amor transporá o portal deste mundo terreno para a eternidade. “Quando, porém, vier o que é perfeito”, uma provável alusão à segunda vinda de Cristo, muitas coisas desta vida perderão o sentido. Naquela ocasião se dará a consolidação do plano de redenção e a revelação do mundo espiritual tão aguardada.
2º) A vivência em amor é sinal de maturidade (1Co 13.11-12)
“11 Quando eu era criança, falava como criança, sentia como criança e pensava como criança. Agora que sou adulto, parei de agir como criança.
12 O que agora vemos é como uma imagem imperfeita num espelho embaçado, mas depois veremos face a face. Agora o meu conhecimento é imperfeito, mas depois conhecerei perfeitamente, assim como sou conhecido por Deus.”
3º) O amor é a maior das virtudes (1Co 13.13)
“Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três; porém o maior destes é o amor.” (1Co 13.13)
O capítulo é encerrado com a menção às chamadas virtudes teologais: Fé – Esperança – Amor. Agora, no tempo presente, as três permanecem e são valiosas. Entretanto, o apóstolo elege o amor como a maior dentre elas.
Conclusão
A cidade de Corinto era notória por tudo que era pecaminoso. Vivendo nesse tipo de contexto a igreja de Corinto acabou sendo afetada. Havia ali divisões e partidarismo (1.11); imoralidade sexual (cap. 5; 6.9-20); disputas legais (6.1-8); problemas relacionados à Ceia do Senhor (11.17-34); falta de entendimento quanto a ressurreição dos mortos (1Co 15); abusos e mal-entendidos quanto ao uso dos dons espirituais (caps 12 e 14); dentre outros. Assim sendo, o apóstolo escreve-lhes essa carta, de forma muito prática e objetiva, a fim de tratar dessas questões.
Além dos esclarecimentos doutrinários necessários o apóstolo enfatiza a importância do amor, “porque o amor cobre multidão de pecados.” (1Pe 4.8b). A ideia por trás dessa afirmação é que o amor desempenha um papel crucial na vida cristã, promovendo a harmonia, a reconciliação e a tolerância. Essa expressão não sugere que o amor é capaz de eliminar ou anular os pecados em termos de justiça divina, mas destaca a importância do amor na dinâmica das relações interpessoais dentro da comunidade cristã. O amor promove a flexibilidade, a compaixão e a disposição para perdoar, criando um ambiente propício para o crescimento espiritual e a paz entre os membros da comunidade.
Que Deus nos ajude!
Bibliografia
1. Bíblia Sagrada (SBB – Versão Revista e Atualizada).
2. Bíblia Online – SBB.
3. Revista ANDAI NO ESPÍRITO (Ed. Didaquê).
4. Internet.
[1] O amor-próprio não se trata de egoísmo, arrogância ou narcisismo. Em vez disso, é uma base sólida para o crescimento pessoal e para estabelecer relacionamentos saudáveis. Algumas características e elementos do amor-próprio incluem: Autoaceitação, Autocompaixão, Respeito próprio, Autoconfiança, Cuidado pessoal e Valorização, dentre outros. Enfim, o amor-próprio é fundamental para o bem-estar emocional e mental, bem como para a construção de relacionamentos saudáveis e a realização pessoal.
