Lidando com o sentimento de culpa (Parte 2)

“Cria em mim, ó Deus, um coração puro e renova dentro de mim um espírito inabalável.” (Sl 51.10)

Na Parte 1, fizemos uma abordagem mais conceitual sobre a culpa e o sentimento de culpa, com os tópicos CULPA REAL e CULPA IMAGINÁRIA. Na Parte 2 apresentaremos aspectos mais práticos de como tratar da culpa e do sentimento de culpa, com os tópicos REAÇÕES A CULPA e TRATANDO A CULPA.

………….

3. REAÇÕES A CULPA

Inicialmente é importante reconhecer que há algo de potencialmente saudável na culpa. Se alguém nunca sentir culpa pelos seus erros, poderá se transformar em um verdadeiro monstro, um perigo para a sociedade. Sim, a culpa pode desempenhar uma função pedagógica, permitindo a reflexão e correção de atitudes e comportamentos errados.

Arrependimento é pesar ou lamentação pelo mal cometido; compunção, contrição. Remorso é inquietação, abatimento da consciência que percebe ter cometido uma falta, um erro. São sinônimos? Sempre entendi arrependimento como pesar pelo mal cometido e sincero desejo de não repeti-lo. Já o remorso, apenas como o pesar pelas consequências do mal cometido. Dizer que se arrependeu apenas porque foi descoberto e será penalizado não é um arrependimento sincero e verdadeiro.

Como as mentes reagem à culpa?

a) Mentes normais

Sentem culpa, admitem o erro ou pecado, se arrependem e superam a culpa, demonstrando resiliência.

b) Mentes fracas

Sentem culpa, admitem o erro ou pecado, se arrependem, mas não conseguem superar a culpa, não demonstrando resiliência.

c) Mentes petrificadas

Não sentem culpa, se acostumam com o erro ou pecado, por isso não se arrependem. Têm consciência cauterizada.

d) Mentes doentias

Psicopatas não têm sentimento de culpa. Por isso, cometem as piores barbaridades e não conseguem perceber os horrores que praticaram.

4. TRATANDO A CULPA

Dizem que a dinâmica mental não se estabiliza, não permite alcançar a paz interior diante da culpa, a menos que construa uma justificativa ou saída adequada.  Talvez a psicologia explique isso como o mecanismo de defesa da psiquê a que denomina de racionalização. O sentimento de culpa também pode provocar aquilo que chamam de loop ou looping mental, isto é, aquele pensamento acusador e perturbador que não sai da cabeça. Somente o perdão divino pode nos libertar totalmente da culpa!

A culpa e o sentimento de culpa precisam ser tratados, independentemente se a culpa é real ou imaginária. Sugerimos, então, os seguintes passos:

a) Análise preliminar ou diagnóstico

Identifique, esclareça, sem ou com a ajuda de terceiros, se a culpa é real ou imaginária.

A culpa imaginária pode ser revertida com uma boa análise do ocorrido e com bons argumentos que desconstruam este equivocado sentimento de culpa. É oportuno Introduzir-se aqui um tratamento profilático de modo a evitar o aparecimento de novos casos.

Se a culpa é verdadeira é preciso aplicar um tratamento mais abrangente, como o apresentado nos próximos passos.

Vale, desde já, o alerta: “Não adianta tentar jogar a culpa de seus fracassos sobre experiências e traumas do passado, pois isso não traz cura, apenas explica. Uma alma ferida não precisa de explicação, mas de restauração.” (Pr. Ubirajara Crespo – Lar Cristão SET-NOV/1996)

b) Corrigindo a situação.

Tomemos como exemplo o caso do Filho Pródigo (Lc 15.11-24, complementado com o caso de Zaqueu (Lc 19.1-10) e do caso de Jacó com Esaú (Gn 33.1-11). O Filho Pródigo tomou uma decisão equivocada, saiu da casa paterna, detonou todos os seus bens, vivendo dissolutamente (libertinagem e devassidão)(Lc 15.11-13). Como sempre, o pecado cobra uma conta muito alta. Então, sofrendo o dano das suas más escolhas, tentou resistir e sobreviver, sem querer dar o braço a torcer, sem querer ferir o orgulho próprio (Lc 15.14-16). Chegando ao fundo do poço, ele se deu conta de que precisava fazer alguma coisa para não sucumbir. Vejamos as etapas da sua restauração:

1ª) Conscientização (Lc 15.17)

       “Então, caindo em si, …”

É quando passa em nossa mente o filme de tudo o que aconteceu, desde o cometimento do erro, e se toma plena consciência do equívoco ou pecado cometido e dos danos causados, das consequências desastrosas. Não adianta esconder o pecado ou fazer de conta que ele não existe: “O que encobre as suas transgressões jamais prosperará; mas o que as confessa e deixa alcançará misericórdia.” (Pv 28.13)

2ª)  Decisão e Ação (Lc 15.18-21)

       “Levantar-me-ei, e irei ter com o meu pai, …” (v. 18a)
       “E, levantando-se, foi para seu pai…” (v. 20a)

É quando se deixa o lugar de rebeldia e sofrimento em busca da restauração humana e divina. É preciso se dirigir à vítima do nosso pecado, quando pecamos contra alguém, e a Deus, quando cometemos pecado.

3ª) Confissão (Lc 15.18-21)

       “… , e lhe direi: Pai, pequei contra o céu e diante de ti; …” (v. 18b)
       “E o filho lhe disse: Pai, pequei contra o céu e diante de ti; …” (v. 21a)

Não é uma etapa simples ou fácil, porém não pode ser evitada ou descartada. “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça.” (1Jo 1.9). Para se livrar da culpa real é necessário admitir o pecado realmente praticado (não o pecado que se imagina que tenha sido praticado), confessá-lo e abandoná-lo (Pv 28.13). Caso você tenha falhado, não se deixe sufocar pela culpa. Confesse seu erro a Deus e à pessoa contra quem você pecou.

4ª) Reparação (Lc 19.8; Gn 33.8)

       “Entrementes, Zaqueu se levantou e disse ao Senhor: Senhor, resolvo dar aos pobres a metade dos meus bens; e, se nalguma coisa tenho defraudado alguém, restituo quatro vezes mais.” (Lc 19.8)
       “Perguntou Esaú: Qual é o teu propósito com todos esses bandos que encontrei? Respondeu Jacó: Para lograr mercê na presença de meu senhor.” (Gn 33.8)  

Nem sempre esta etapa pode ser cumprida, mas tem o seu lugar e valor. O Filho Pródigo não tinha como reverter o dano material causado. Também não temos como oferecer qualquer coisa a Deus, o Pai Celestial, pelo pecado cometido. Não temos como fazer isso, mas Jesus já o fez por nós! “Filhinhos meus, estas coisas vos escrevo para que não pequeis. Se, todavia, alguém pecar, temos Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo; e ele é a propiciação pelos nossos pecados e não somente pelos nossos próprios, mas ainda pelos do mundo inteiro.” (1Jo 2.1-2). Entretanto, há situações nas quais é possível fazer a reparação por perdas e danos causados ao outro, quer seja uma reparação material, quer imaterial ou moral. Este foi o caso de Zaqueu e Jacó, conforme exposto nos versículos acima.

5ª) Pacificação (Lc 15.22-24)

       “… Comamos e regozijemo-nos, porque este meu filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado. E começaram a regozijar-se.” (Lc 15.23b-24)

O pecado nos leva à morte espiritual, isto é, à separação da comunhão com Deus. Cumpridas essas etapas podemos, pela fé, nos apropriarmos da promessa do perdão divino e crer que ele é mesmo fiel para cumprir o que promete. Somos libertos do sentimento de culpa e reconectados com Deus. A reconciliação nos leva à paz com Deus e à paz com as pessoas que, de alguma forma, causamos algum dano. Ainda que estas pessoas não nos recebam e não aceitem nosso gesto de confissão e retratação, Deus aceitará e nos livrará de qualquer sentimento de culpa. O perdão divino é o mais eficaz – na verdade, o único – remédio para a culpa e o sentimento de culpa.

Conclusão

A imperfeição humana nos leva a cometer erros e a pecar. Porém, Deus nos dotou de uma consciência, que se estiver sadia, poderá nos incomodar o suficiente, por meio do sentimento de culpa, nos conduzindo a corrigir o erro ou a minimizar os seus efeitos e a não repeti-lo. 

A Bíblia, a palavra de Deus, deve ser sempre o nosso primeiro e mais importante referencial de conduta e de vida, do que é certo ou errado. Se há culpa (ou sentimento de culpa) em decorrência de alguma transgressão cometida, isto é razoável, porém não precisa e não deve ser permanente. A culpa corrói o caráter e destrói a pessoa: “Enquanto calei os meus pecados, envelheceram os meus ossos pelos meus constantes gemidos todo o dia. Porque a tua mão pesava dia e noite sobre mim, e o meu vigor se tornou em sequidão de estio.” (Sl 32.3-4). Em Cristo, Deus providenciou meios para a cura e libertação plena do pecado, da culpa, do sentimento de culpa!

Ressaltamos a importância de ler a Bíblia, de tomar conhecimento dos seus preciosos ensinamentos e praticá-los, o que nos ajudará a evitar danos materiais e emocionais: “Disse, pois, Jesus aos judeus que haviam crido nele: Se vós permanecerdes na minha palavra, sois verdadeiramente meus discípulos; e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” (Jo 8.31-32). Não é razoável um cristão deixar de ler a Bíblia ou de ouvir os seus ensinamentos, para não tomar conhecimento do que é certo ou errado e, assim, pensar que terá a consciência pesada. Vale lembrar que na lei de Moisés os chamados “pecados por ignorância” não passavam em branco diante de Deus (Lv 4.2, 13, 22, 27 etc.) e, também, na lei dos homens, não isentando o infrator e acusado de ser responsabilizado pelos seus atos ou omissões. Diz o Código Penal Brasileiro: “Art. 21 – O desconhecimento da lei é inescusável. O erro sobre a ilicitude do fato, se inevitável, isenta de pena; se evitável, poderá diminui-la de um sexto a um terço. Parágrafo único – Considera-se evitável o erro se o agente atua ou se omite sem a consciência da ilicitude do fato, quando lhe era possível, nas circunstâncias, ter ou atingir essa consciência.”

Que a igreja de Cristo fomente e proporcione espaços de cura, perdão e aceitação para os que buscam solução para suas lutas contra a culpa ou contra o sentimento de culpa!

Bibliografia:

1. Bíblia Sagrada (SBB – Versão Revista e Atualizada).
2. Bíblia Online – SBB.
3. Revista Didaquê – Vida Abundante – DE BEM com a vida.
4. Revistas Lar Cristão.
5. Internet.


Veja, também, a Parte 1:
Lidando com o sentimento de culpa (Parte 1)

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