Lidando com o sentimento de culpa (Parte 1)

“Cria em mim, ó Deus, um coração puro e renova dentro de mim um espírito inabalável.” (Sl 51.10)

Introdução          

“Há algum tempo, aconselhei uma moça de 22 anos que tentara o suicídio. Descobri, depois de várias horas de aconselhamento, que ela possuía uma autoimagem muito baixa e negativa. Em meio a lágrimas, contou-me que, quanto mocinha, fora violentada por um membro da família; fato esse que lhe causou dificuldades no que diz respeito a amar e confiar nas pessoas, fazendo surgir sentimentos de culpa, rejeição e autoimagem negativa.” (Jaime Kemp – Lar Cristão -Nº 2)

Outros casos ou exemplos:

– Escolhi a carreira errada, não tenho qualquer vocação para medicina (ou direito, ou engenharia ou ….)
– Um marido que perde o emprego. Os frequentes problemas financeiros fazem com que a esposa deixe de acreditar nele.
– Uma gravidez indesejada paralela a crescentes pressões no emprego leva um marido a questionar o compromisso assumido no casamento.
– Um filho que cai da escada ou sofre um acidente e fica paraplégico.
– Um casamento fracassado que levou ao divórcio.
– Um adultério cometido e muito bem ocultado.
– Uma cessão de espaço para a pornografia.
– Um furto ocasional.
– Uma ou algumas mentiras proferidas.
– Foi testemunha de um fato e se omitiu.

O sentimento de culpa é uma forma de sofrimento mental, normalmente com desdobramentos que afetam a saúde do corpo, o comportamento, o estilo de vida e os relacionamentos. É uma triste realidade compartilhada pela espécie humana, desde as primeiras criaturas – Adão e Eva. Culpa, ciúme, medo, ansiedade, insegurança, autocondenação, ira, depressão, dentre outros, muitas vezes, ocasionam um desastre psicológico, portanto, precisam merecer nossa atenção, precisam ser tratados.

Paul Tournier, respeitado psiquiatra cristão, lembra que sentimentos como remorso, peso na consciência, vergonha, constrangimento, inquietação, confusão, timidez e modéstia em excesso estão todos ligados ao sentimento de culpa. Cristãos e não cristãos estão sujeitos a problemas que afetam a nossa psiquê e precisam trabalhar isso adequadamente.

Pessoas e famílias não são perfeitas. Erros cometidos, decisões equivocadas, atitudes inconvenientes e pecado praticado têm consequências e podem  provocar danos de menor ou maior proporção na vida de uma pessoa. Daí se estabelece o sentimento de culpa. Crentes salvos e habitados pelo Espírito Santo também estão aqui incluídos, com a ressalva de que quem está em Cristo é nova criatura e não vive na prática do pecado (1Jo 3.6) e não tem que viver sufocado por sentimentos de culpa. Portanto, este é o tipo de assunto que interessa a todos.

O que fazer para reduzir, bloquear ou eliminar um sentimento de culpa? É o que trataremos, a seguir.

Nesta Parte 1, faremos uma abordagem mais conceitual sobre a culpa e o sentimento de culpa, com os tópicos CULPA REAL e CULPA IMAGINÁRIA.

1. CULPA REAL

Considera-se, neste caso, que verdadeiramente o indivíduo tem culpa. Portanto, o sentimento de culpa é devido, o que é algo humanamente natural.

A culpa real pode ser definida levando-se em conta alguns aspectos:

1.1 QUANTO AO AGENTE

a) Culpa pela AÇÃO ou OMISSÃO

Ação, quando o indivíduo faz alguma coisa errada, que não deveria ou não poderia fazer.

Omissão, quando o indivíduo não faz alguma coisa certa que deveria ou poderia fazer.

b) Culpa DIRETA, INDIRETA e PRESUMIDA

Direta, quando o indivíduo age ou se omite, diretamente. Por exemplo: estava dirigindo, se distraiu com o celular, bateu com o carro no poste e o pai, que estava no banco do carona, veio a óbito. Ele é o agente e executor direto.

Indireta, quando o indivíduo é o mandante e outros fazem ou deixam de fazer alguma coisa por ordem ou acordo com ele. Por exemplo, Davi, quando ordenou que Urias fosse colocado na linha de frente da batalha e deixado, sem cobertura, para ser morto.  

Presumida, ocorre nas situações em que o agente assume os riscos ante à probabilidade de causar resultado danoso, sendo assim o responsável. Independentemente de estar ou não contemplado no Código Penal ou Código Civil, para efeito conceitual, incluo aqui este tipo de culpa. Exemplifico com o caso trágico de pais, com filho pequeno em casa, que cai da janela do apartamento ou morre afogado na piscina da casa, porque esses não tiveram o cuidado de instalar proteção na janela ou na piscina. O risco era previsível, mas não foi levado em conta. São formas de manifestação da inobservância do cuidado necessário, isso é, modalidades da culpa: a imprudência, negligência e imperícia.

1.2 QUANTO AO ATO EM SI

Gary Collins, conselheiro cristão, fala de dois tipos básicos de culpa, a saber, objetiva e subjetiva.

a) Culpa OBJETIVA

Objetiva, quando depende ou decorre do ato ou do fato.

Conforme Collins, são quatro os tipos de culpa objetiva:

– Culpa legal: acontece, por exemplo, quando uma pessoa é multada por ter desrespeitado um semáforo. Transgrediu a lei de trânsito, portanto, a pessoa é culpada, sentindo ou não culpa, arrependimento ou remorso pelo que fez.

– Culpa social: é quando se quebra uma norma não escrita, mas socialmente esperada, como qualquer regra de etiqueta ou boas maneiras.

– Culpa pessoal: é quando acontece uma violação de algum plano ou projeto pessoal. Um exemplo seria o caso do pai de família que, por força de obrigações profissionais, se vê forçado a passar menos tempo com seus filhos do que o que pretendia, ou a faltar a um evento na escola em que o filho iria se apresentar.

– Culpa teológica (que psicólogos e conselheiros cristãos também chamam de culpa verdadeira):  é proveniente de saber que houve desobediência às leis de Deus, violação a princípios, valores e ensinos contidos na bíblia. Muitos psicólogos e psiquiatras não cristãos não admitem a existência desse último tipo de culpa.

b) Culpa SUBJETIVA

Subjetiva, quando não depende ou não decorre do ato ou do fato em si, porém de sentimentos e interpretações pessoais. 

A culpa subjetiva está ligada aos sentimentos desconfortáveis de remorso, vergonha e autocondenação que podem acompanhar quem acha que fez algo errado (ou que a pessoa considera errado) ou que deixa de fazer o que acha que seria certo.

É importante saber de que tipo de culpa se está falando, para que se possa ajudar quem está com dificuldades nessa área tão importante da vida.

1.3 QUANTO A INTENÇÃO

a) Dolosa

Quando o indivíduo tem a intenção e faz alguma coisa errada, que não deveria ou não poderia fazer.

b) Culposa

Quando o indivíduo não tem a intenção e faz alguma coisa errada, que não deveria ou não poderia fazer.

1.4 QUANTO À CONSCIÊNCIA  

a) Consciente

Ocorre quando o agente prevê o resultado, mas espera que ele não ocorra, supondo poder evitá-lo com a sua habilidade.

b) Inconsciente

Na culpa inconsciente, o agente não prevê o resultado, que, entretanto, era objetiva e subjetivamente previsível.

2. CULPA IMAGINÁRIA

É importante reconhecer que há culpas reais ou verdadeiras e culpas imaginárias ou falsas. O efeito e prejuízo psicológico pode ser o mesmo nos dois casos. É fato que muita gente sofre com culpas que não são reais.

a) Culpa de natureza teológica

Embora o mundo cristão esteja sendo fortemente influenciado e afetado pelo liberalismo teológico e progressismo global, onde princípios e valores cristãos estão sendo relativizados ou ignorados, ainda encontraremos pregadores e professores com viés legalista e moralista forjando nas mentes dos crentes imaturos falsos conceitos de santidade, pureza e vida cristã. Assim, tais ouvintes podem desenvolver culpas imaginárias na consciência, culpas que decorrem de interpretação bíblica equivocada. Jesus nunca foi cúmplice do pecado, mas repreendeu veementemente os religiosos legalistas do seu tempo: “Atam fardos pesados e difíceis de carregar e os põem sobre os ombros dos homens; entretanto, eles mesmos nem com o dedo querem movê-los.” (Mt 23.4). É necessário pregar e ensinar sempre com base bíblica! É preciso fugir dos extremos onde “tudo é pecado” ou “nada é pecado”!

b) Culpa pela forma de criação dos filhos

Na atualidade, talvez seja mais comum encontrarmos pais que não impõem limites na criação e educação dos seus filhos. Entretanto, igualmente danoso para a formação desses é o rigor exagerado por parte de outros pais. A pedagogia do elogio tem sido recomendada, porém tais pais se relacionam com seus filhos só na base da censura, da crítica, da reclamação e da condenação. Crianças criadas dessa maneira são fortes candidatas a se tornarem adultos problemáticos, sempre a lutar contra um sentimento de culpa vago e indefinido, mas terrível, que sempre cobra algo mais, que nunca se satisfaz. É lógico que crianças precisam de repreensão quando fazem algo verdadeiramente errado; mas precisam igualmente de elogio, incentivo, estímulo, agradecimento, para que venham a ser adultos mais centrados e equilibrados.

c) Culpa de natureza circunstancial

São culpas que se originam de circunstâncias imprevisíveis, muitas vezes agravadas por envolverem acontecimentos trágicos. Pode-se exemplificar com o seguinte caso. Uma mãe pede a seu filho jovem para ir até a padaria, perto da sua casa, para comprar alguma coisa para o lanche. Exatamente quando o jovem chega à padaria, está ocorrendo um assalto, ele recebe um tiro de bala perdida e vai a óbito. Então, aquela mãe incorpora um sentimento de culpa que sufoca e asfixia sua existência. Esse é apenas um dos inúmeros casos em que a pessoa não cessa de se questionar – E SE…. ? E se eu não tivesse pedido a ele para ir até lá? Ele estaria vivo!

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Não perca a continuação…..em breve….
Na Parte 2 apresentaremos aspectos mais práticos de como tratar da culpa e do sentimento de culpa, com os tópicos REAÇÕES A CULPA e TRATANDO A CULPA.

ABORTO, uma experiência traumática!

“Os teus olhos me viram a substância ainda informe, e no teu livro foram escritos todos os meus dias, cada um deles escrito e determinado, quando nem um deles havia ainda.”
(Sl 139.16)

Vale a pena você conferir o testemunho abaixo da GESA MORAES. São milhões de abortos realizados no mundo a cada ano. Dificilmente se chegará a uma estatística confiável devido ao elevado número de abortos clandestinos. Isso sim é um verdadeiro genocídio, defendido pelos globalistas progressistas! Misericórdia, SENHOR!

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Eu acreditava em Deus, mas do meu jeito. Ele era uma “força” que eu podia manipular. Foi assim que aprendi em minha casa e isso me bastava.

Meus pais tiveram um casamento atribulado que acabou em divórcio. Durante os últimos anos juntos, minha mãe vivia deprimida e meu pai entregue ao alcoolismo. Era mais fácil me darem liberdade total do que estabelecerem limites. Então, por volta dos 15 anos, “cai na vida”.

Tive vários namorados. De alguns gostei, de outros, nem tanto. Minha necessidade, porém, era ser amada. Eu não ligava por “pagar” beijos, abraços e palavras carinhosas, com cama. Era um preço até baixo pelos momentos em que me sentia protegida. Porém, minha má fama começou a crescer. Passei, então, a me sentir usada e a ter raiva do que estava acontecendo. No entanto, não conseguia dizer Não! Paguei caro por isso. Vivia com medo de estar grávida. Tive namorados que me ridicularizavam em público, outros que eram verdadeiros bárbaros, a ponto de praticamente me violentarem.

Fiquei calada com medo de represália e do descrédito dos outros.
E assim fui vivendo até que conheci um rapaz notável que restaurou minha autoestima. Ele me respeitou e em nosso primeiro encontro não encostou nenhum dedo em mim. Foi um verdadeiro cavalheiro e amigo, mesmo depois que começamos a namorar. As coisas acabaram evoluindo, mas daquela vez era realmente por amor. E assim foi indo até que estourou a bomba. Estávamos namorando há seis meses quando descobri que estava grávida. Ele entrou em pânico. Eu fiquei apavorada! Além dele, nossos amigos faziam pressão para que eu abortasse. Eu não sabia o que fazer. Fui falar com meu pai. Ele foi muito compreensivo oferecendo ajuda para criar a criança, caso eu quisesse, porém disse que me achava nova demais para tanta responsabilidade. Aí me contou que eu também tinha sido fruto de uma concepção pré-conjugal e que seu casamento não dera certo por terem se casado sem planejamento e às pressas. “Não cometa o mesmo erro”, ele disse. Então tão, cedi à pressão. O argumento havia se tornado muito pessoal e forte demais. Afinal de contas, o embrião era só um amontoado de células, não é mesmo?!

No dia 16 de dezembro de 1981, matei meu filho. Foi em uma “clínica” de fundo de quintal, em uma lavanderia, sob anestesia geral, pelas mãos de um ginecologista ganancioso. Quando recobrei a consciência, comecei a me contorcer de dor e me debati contra uma parede úmida, fria, de pedra, no porão escuro da casa, ouvindo também gemidos de outras mulheres. Cheguei a pensar que linha morrido e que estava no inferno. Ao sair da “clínica” recebemos os medicamentos e as devidas ameaças para manter em sigilo o ocorrido. Além de tudo, tive que fingir que nada havia acontecido.

0 problema do meu namorado tinha terminado, mas o meu acabara de começar! Gradativamente a culpa começou levar-me à loucura. Vivia deprimida e com vontade de morrer. Comecei a fazer psicoterapia, mas a ajuda não passava de certo ponto. Bebia incontrolavelmente e tomava antidepressivos. Aí, aconteceu de novo. Dessa vez, só a ideia de abortar já trazia culpa. Fisicamente eu não tinha condições para fazer outro. Mas, lá fui eu novamente ao “matadouro”. A única exigência que é que deveria ser em um hospital de verdade. E foi. Antes de ir para a sala de cirurgia fui até a janela do meu quarto, olhei para o céu e pedi que Deus me perdoasse. Tive uma “curetagem”. Acordei mais tarde revoltada com meu namorado e com a vida. Tudo era tão injusto!

Pouco depois ficamos noivos e nos casamos no ano seguinte, como manda o figurino. Entre o noivado e o casamento, encontrei a Jesus, ou melhor, Jesus me encontrou. Entreguei a Ele minha vida. Bem… quase toda. Eu achava que “aqueles” pecados eram terríveis demais para ele perdoar. Tive medo que me rejeitasse. Compreender e aceitar que o Senhor perdoa todas as nossas iniquidades veio com o tempo.

Primeiramente, ele foi misericordioso e após nosso casamento, nos deu dois filhos lindos e sadios. Depois, me envolveu em uma escola de evangelização infantil. Suavemente foi me assegurando seu amor e mostrando que me aceitava incondicionalmente. Conversei com meus sogros, que não sabiam de nada e pedi a eles perdão pelo que fizera. Fui perdoada. E, finalmente, perdoei meu marido. O peso foi saindo e o Pai me mostrando que jamais me abandonaria. Mesmo nas horas difíceis estaria ali segurando minha mão e acolhendo meus pequeninos. Por fim, falou direto ao meu coração e eu confessei sem restrições aqueles pecados que pesavam toneladas. Paz, restauração, perdão pleno – o Senhor Jesus me transformou. Lavou-me com seu precioso sangue e fez de mim uma nova criatura.

Esse processo durou quase dez anos e, para mim, esse tempo foi uma prova viva de Sua graça. Estou livre agora. Não vivo mais na dor do passado, mas na alegre expectativa de uma reunião familiar no céu. Louvo a Deus, pois sou uma prova viva de que Deus pode transformar maldição em bênção!

(Transcrito de: Revista Lar Cristã – Vol. 7 – Número 27 – JUN/AGO 1994)


“As sequelas físicas dos abortos são várias desde câncer de mama até esterilidade, mas não necessariamente acontecem em todas as mulheres. As emocionais, no entanto, mais avassaladoras, marcam, machucam e escravizam. Podem trazer depressão, baixa autoestima, culpa, rejeição, amargura, raiva e até mesmo a separação do casal. A mulher geralmente as carrega de forma mais presente que o homem, mas isso não quer dizer que ele fique isento.” (Rose Santiago)


Vale a pena conferir, no artigo abaixo, os dados mundiais e os argumentos, levando-se em conta os países onde o aborto é legalmente proibido e liberado!
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Sabe aquele papo de que o número de abortos não aumenta se ele for liberado? É mentira.
https://www.gazetadopovo.com.br/instituto-politeia/sabe-aquele-papo-aborto-mentira/

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