Lembranças da minha avó

“pela recordação que guardo de tua fé sem fingimento, a mesma que, primeiramente, habitou em tua avó Lóide e em tua mãe Eunice, e estou certo de que também, em ti”. (2Timóteo 1.5)

Essas palavras do apóstolo Paulo, ao seu filho na fé, Timóteo, soam como um importante e histórico tributo ao legado da fé, na família. A minha experiência se assemelha a de Timóteo, neste sentido. Fazendo uma paráfrase, é como se um dia alguém pudesse me dizer: “pela recordação que guardo de tua fé sem fingimento, a mesma que, primeiramente, habitou em tua avó Maria Angelina e em tua mãe Elvira, e estou certo de que também, em ti”.

Não faço ideia da razão de, na madrugada de 30/05/2022, eu ter sonhado que estava expondo alguns valores da minha saudosa avó Maria Angelina para algumas pessoas. Nos dias anteriores não estive folheando algum álbum de família, nem conversado sobre o assunto; simplesmente esse sonho surgiu do nada. Vale lembrar que minha ascendência passou por duas avós: Maria José (paterna) e Maria Angelina (materna). São duas Marias, duas mulheres portuguesas da Ilha de São Miguel (Açores), duas descendentes de famílias católicas, ambas tiveram quatro filhos, ambas tiveram um encontro pessoal com Jesus Cristo e passaram a viver a fé cristã evangélica, ambas foram mulheres de fibra na criação dos seus filhos aos pés do Senhor. Não tive o privilégio de conviver com minha avó paterna, que permaneceu na sua terra natal, já que meus pais migraram para o Brasil, bem como meu avô e avó maternos e seus descendentes. É dessa avó materna, Maria Angelina, que quero compartilhar algumas memórias relacionadas à sua vida e fé.

Maria Angelina nasceu em 07/11/1906, casou-se em 30/06/1927, teve três filhas e um filho que foi o caçula. Ela faleceu em 08/11/1968, um dia após completar 62 anos de uma vida abençoada por Deus. Nessa ocasião eu tinha apenas 13 anos de idade.

Algumas boas lembranças da minha avó:

1. O melhor é para Deus

Na prática, como você demonstraria esse valor ou conceito para outras pessoas, de que Deus requer e merece o melhor? Certamente, há várias maneiras de fazê-lo. Na sua sinceridade e simplicidade ela tinha lá o seu jeito próprio.

a) O dinheiro dos dízimos e ofertas

Naquela época o dinheiro de papel era amplamente utilizado. Assim sendo, nas suas pequenas transações comerciais do cotidiano, na padaria, açougue, armazém, mercearia, passagem de ônibus etc. ela ia separando e guardando as notas de dinheiro mais novas para o dízimo e para as ofertas. Para ela seria um sacrilégio, falta de temor a Deus, ofertar com dinheiro em mau estado de conservação (riscado, colado, rasgado etc.). É interessante que os diáconos chegavam a comentar que na contagem das ofertas, quando viam notas muito novas podiam até imaginar quem as ofertou. E essa prática acaba até influenciando outras pessoas.

b) A roupa para ir à igreja

Nesta mesma linha, ela acreditava que os membros da igreja, mesmo não tendo muitas posses,  deveriam usar suas boas roupas quando frequentavam a igreja. Isso não tem nada a ver com vaidade e ostentação (1Pe 3.3), mas com asseio e decência no trajar, porque Deus merece o nosso melhor (2Tm 2.9). 

São duas coisas simples, mas que reverberam conceitos que vêm do Antigo Testamento, onde o animal oferecido deveria ser sem defeito, as primícias da terra seriam para Deus, e assim por diante. “E dizeis ainda: Que canseira! E me desprezais, diz o SENHOR dos Exércitos; vós ofereceis o dilacerado, e o coxo, e o enfermo; assim fazeis a oferta. Aceitaria eu isso da vossa mão? —diz o SENHOR. Pois maldito seja o enganador, que, tendo um animal sadio no seu rebanho, promete e oferece ao SENHOR um defeituoso; porque eu sou grande Rei, diz o SENHOR dos Exércitos, o meu nome é terrível entre as nações.” (Ml 1.13-14)

2. Devoção verdadeira

Eu era apenas uma criança de uns 9 anos e passava alguns dias das férias escolares na casa dela, no bairro de Todos os Santos – Rio de Janeiro- RJ. Não sei se os meus pais me enviavam para lá para fazer companhia a eles ou para aliviar minha mãe, pois na ocasião éramos quatro irmãos. O fato é que eu gostava de brincar lá. Ainda me lembro vagamente das nossas idas para a casa dela. Descíamos a ladeira da casa dos meus pais até a avenida principal onde tomávamos o ônibus rumo a Todos os Santos. Ela não dispensava a sua sombrinha que a protegia do sol.

Quando eu passava aqueles dias, na sua casa, à noite ela se sentava comigo, lia a Bíblia e orava. Ela nos ensinou a recitar sempre o Salmo 4.8, antes de dormir: “Em paz também me deitarei e dormirei, porque só tu, SENHOR, me fazes habitar em segurança.” (versão Almeida Revista e Corrigida – ARC).  Ela também nos ensinava a recitar o Salmo 23 – O Senhor é o meu pastor. Nunca vou esquecer daquele dia em que ela leu o texto bíblico do sofrimento, crucificação e morte de Jesus. Ela lia e a emoção tomava conta dela, e as lágrimas rolavam no seu rosto. Para ela, a Bíblia não era um livro qualquer; ela o amava e obedecia. Não é sem razão que aquele hino tão conhecido “Rude cruz se erigiu, dela o dia fugiu” mexe  muito comigo.

3. Uma mulher de família

Sua saúde não era perfeita, mas sempre foi uma guerreira nos cuidados com a casa e com a família. Ela amava e respeitava seu marido e meu avô. Ele era um homem alto, forte, porém manso e de poucas palavras. Não era de expressar abertamente o que sentia. Um português sempre muito ligado a terra, na sua velhice cuidava de jardins. Sempre foi um pai provedor. Já minha avó era uma mulher de baixa estatura física, porém de elevada estatura espiritual. Era uma mulher empoderada, não como apregoam as feministas, mas com o poder do alto, com o poder do Espírito Santo de Deus. Foi assim que ela gerou e criou quatro filhos nos caminhos do Senhor, sendo que todos eles viveram e morreram em Cristo, nos deixando um bom exemplo.

Sua vida nunca mais foi a mesma depois da morte do meu avô em 26/11/1967, com 63 anos. Foram 40 anos de casamento. Seus dias passaram a ser tristes. Desta forma, faltando uns 18 dias para completar 1 ano do falecimento dele, ela também se foi para o Pai Celestial. No pouco que me lembro, no dia anterior ao da sua morte, comemorou seu último aniversário. Parece que ela teve o desejo de comer algumas coisas gostosas e diferentes. Naquela ocasião ela estava morando num quarto da casa da sua filha mais velha, que era minha tia e vizinha. Então, ela comeu e dormiu tranquilamente aquela que seria a sua última noite. Assim, na manhã seguinte, para surpresa de todos, não acordou. Havia partido para o descanso eterno; estava agora nos braços do Pai Celestial, seu Senhor e Deus, único e verdadeiro.

4. O legado de uma vida

Quando envelhecemos e vamos nos aproximando do final da vida, passamos a fazer algumas reflexões existenciais. Uma delas é quanto ao legado que deixaremos para a nossa família, amigos, vizinhos e sociedade em geral. O fato é que um legado se produz ao longo de toda a vida, dia após dia, e não apenas nos últimos anos.

Então, vale a pena observar algumas dicas:

a) Plante boas memórias!

Conforme exposto acima, posso dizer que minha avó plantou em mim boas memórias. É claro que meus pais tiveram um papel muito mais robusto em termos de influenciar minha formação e caráter, pelo convívio diário e pelo exemplo de vida deles.

A morte de parentes próximos sempre nos afeta, nos faz enxergar a realidade da vida, principalmente quando vivenciamos essa experiência pela primeira vez. No meu caso, quando meu avô partiu no final de 1967. Em decorrência, o ano de 1968 mexeu muito comigo, me fez ver como esta vida é efêmera. Foi quando no mês de  maio eu entreguei minha vida a Cristo, confessando-o como meu Senhor e Salvador. No dia 31 de dezembro deste mesmo ano, após a segunda morte na família, a da minha avó, fui batizado. As perguntas que não calavam em meu coração eram: se eu morrer ou se Jesus voltar, o que será de mim? É por isso que outro hino também falou profundamente ao meu coração:

Quando lá do céu descendo
Para os seus, Jesus voltar
E o clarim de Deus a todos proclamar
Que chegou o grande dia
Da vitória do meu Rei
Eu, por sua imensa graça, lá estarei  

Plante boas memórias! Memórias de alguém que crê na bíblia, como a infalível e preciosa palavra de Deus; que tem a Jesus como seu Senhor e Salvador; que tem a certeza de que se morrer estará com Cristo e se Jesus voltar, Cristo estará com ele, para sempre. Memórias assim fazem toda a diferença na vida das pessoas.

b) Influencie positivamente!

As pessoas com quem convivemos exercem forte influência sobre nossas vidas. Um estudo científico feito há algum tempo pela Universidade de Minnesota, nos Estados Unidos, publicado pela revista Veja, foi realizado para responder à questão: “A inteligência e os traços da personalidade são herdados dos pais ou são fruto dos estímulos que o meio ambiente oferece às pessoas?” Eles estudaram 44 pares de gêmeos idênticos (com carga genética 100% igual) que foram separados ainda bebês e criados por casais diferentes, em cidades diferentes e meios econômico-sociais inteiramente díspares. Cada um dos gêmeos pesquisados, quando adulto, respondeu a inúmeras perguntas. A conclusão foi que a inteligência e os traços da personalidade são determinados em 60% pelos caracteres herdados (herança genética), sobrando 40% para o meio ambiente. Outros geneticistas e psicólogos consideraram um exagero este valor de 60% e acharam que é mais aceitável a proporção de 50% e 50%. Assim sendo, fica evidente a importância de influenciar positivamente as pessoas, ajudá-las na formação desses 50% que sobram das características geneticamente herdadas.   

Conclusão

Certamente meus familiares guardaram suas próprias lembranças dessa minha saudosa avó. Entretanto, essas foram as minhas lembranças e espero que esse compartilhamento possa abençoar a sua vida. Cumpra a missão divina, nesta vida, e deixe um bom legado por onde passar!

Soli Deo gloria!

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