“Mas o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio. Contra estas coisas não há lei.” (Gálatas 5.22-23)
O fruto do Espírito em termos de amor:
AMOR
ALEGRIA – É o amor exultante.
PAZ – É 0 amor que descansa.
LONGANIMIDADE – É 0 amor incansável.
BENIGNIDADE – É 0 amor que permanece.
BONDADE – É o amor em ação.
FÉ (FIDELIDADE) – É o amor no campo de batalha.
MANSIDÃO – É o amor sob disciplina.
TEMPERANÇA (DOMÍNIO PRÓPRIO)– É o amor em treinamento.
Extraído: Do grande evangelista Moody (anotações de sua Bíblia)
“Nada pode ser honesto, quando a justiça falta” (Cícero)
“Uma injustiça feita a um só é uma ameaça feita a todos” (Montesquieu)
“Nas sociedades carcomidas pela injustiça, os homens perdem o sentimento do dever, desviando-se da virtude” (Ingenieros)
“Por derradeiro, amigos de minha alma, por derradeiro, a última, a melhor lição da minha experiência. De quanto no mundo tenho visto, o resumo se abrange nestas cinco palavras: Não há justiça sem Deus. Quereríeis que vo-lo demonstrasse? Mas seria perder tempo, se se já não encontrastes a demonstração no espetáculo atual da terra, na catástrofe da Humanidade. O gênero humano afundou-se na matéria, e no oceano violento da matéria flutuam, hoje, os destroços da civilização meio destruída. Esse fatal excídio está clamando por Deus. Quando ele tornar a nós, as nações abandonarão a guerra, e a paz, então, assomará entre elas, a paz das leis e da justiça, que o mundo ainda não tem, porque ainda não crê.” (Rui Barbosa e a Justiça)
(Extraído)
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“Porque é abominação ao SENHOR, teu Deus, todo aquele que pratica tal injustiça.”(Dt 25.16)
“Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos.” (Mt 5.6)
“Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus.” (Mt 5.10)
“Não fará Deus justiça aos seus escolhidos, que a ele clamam dia e noite, embora pareça demorado em defendê-los?” (Lc 18.7)
“porquanto estabeleceu um dia em que há de julgar o mundo com justiça, por meio de um varão que destinou e acreditou diante de todos, ressuscitando-o dentre os mortos.”(At 17.31)
“A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça;” (Rm 1.18)
“pois aquele que faz injustiça receberá em troco a injustiça feita; e nisto não há acepção de pessoas.” (Cl 3.25)
“Continue o injusto fazendo injustiça, continue o imundo ainda sendo imundo; o justo continue na prática da justiça, e o santo continue a santificar-se.” (Ap 22.11)
Discípulo, do grego “mathetés”, era uma palavra muito usada por Jesus, ocorrendo cerca de 153 vezes, nos Evangelhos e em Atos (discípulo = 33 vezes e discípulos = 120 vezes). Ser discípulo é ser um seguidor de Jesus, ensinado e treinado por ele.
Para começar a tratar do tema deste estudo é importante rever os conceitos ou significados de EVANGELIZAÇÃO e de DISCIPULADO. Na grande comissão de Jesus aos seus discípulos isso fica evidenciado:
“E disse-lhes: Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo; quem, porém, não crer será condenado.” (Mc 16.15-16)
Evangelização é a pregação das boas novas do Evangelho para a salvação de todo aquele que crê. “E, assim, a fé vem pela pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo.” (Rm 10.17) e o Evangelho é o “poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê,” (Rm 1.16). É com o novo nascimento que começa o caminho do discipulado e, com o batismo, a inserção na igreja de Cristo. E, como definir o encontro de Filipe com o oficial etíope, eunuco, em Atos 8.26-40? Evangelização ou discipulado? Particularmente entendo que foi a evangelização de um homem piedoso, prosélito[1], adorador do Deus de Israel que ouviu a pregação e creu, confessou a Jesus como o Messias prometido, Filho de Deus e seu Salvador e foi batizado.
“Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século.” (Mt 28.19-20)
Neste registro de Mateus, da grande comissão, temos implícita a Evangelização – fazei discípulos – seguida da inserção na comunidade da fé pelo batismo, e o investimento no crescimento espiritual e amadurecimento dos discípulos de Cristo. São três imperativos, três pilares da fé cristã: Ide, Batizai e Ensinai!
Sem dúvida, evangelização e discipulado são dois aspectos inseparáveis e essenciais para a igreja, assim como são igualmente importantes a asa esquerda e a asa direita de um pássaro. Será que cada cristão e cada igreja local tem consciência e estão efetivamente comprometidos com isso? Será que o perfil do cristão moderno está mais para crente-cliente à procura de espetáculos gospels ou para seguidor de Cristo disposto a pagar o preço do discipulado? “A salvação é de graça, mas o discipulado custa tudo o que temos.” (Billy Graham). Ser discípulo de Jesus é muito mais do que ser membro e frequentador de uma igreja; é renunciar tudo e segui-lo, é ter comunhão e relacionamento com ele, é ser como ele foi, é obedecê-lo, é conhecer e praticar o que ele ensinou, e muito mais. Ser discípulo não é correr atrás de espetáculo gospel, entretenimento e bênçãos; mas, entrega, sacrifício vivo, santo e agradável a Deus (Rm 12.1).
O assunto discipulado é bem amplo e o nosso foco aqui é “se” e “como” isso acontecia no início da igreja. Certamente temos muito a aprender com a igreja primitiva sobre este assunto. A igreja começou no Pentecostes com um grupo relativamente pequeno de discípulos de Jesus – cerca de 120 pessoas (At 1.13-15; At 2.1-4). Com o derramamento do Espírito Santo a igreja vai para as ruas e, após a pregação de Pentecostes há um acréscimo, num só dia, de quase três mil pessoas (At 2.41). Mesmo sob ameaças e perseguições a igreja continua crescendo: “Muitos, porém, dos que ouviram a palavra a aceitaram, subindo o número de homens a quase cinco mil.” (At 4.4). Antes que a grande perseguição dispersasse a igreja, para que o Evangelho chegasse a outras regiões (At 8), a igreja de Jerusalém já contava com uma multidão de convertidos (At 4.32). Diante desse crescimento exponencial a igreja se deparou com o tremendo desafio de cuidar, assistir e discipular os novos convertidos. Era preciso manter o extraordinário resultado alcançado e continuar expandido a igreja. Como a igreja fez isso é o que abordaremos, a seguir.
Desenvolvimento
“Toda pessoa nascida de novo é um milagre da graça de Deus. Está no plano de Deus que cada milagrosa vida nova cresça até a plenitude de Cristo…. O novo crente é uma criança espiritual e precisa ter imediatos cuidados maternos e paternos. O tempo longo, que, chocantemente, se deixa passar entre a decisão e o seguimento inicial, é um fator negativo de monta, que impede o futuro crescimento… Dentro de vinte e quatro horas o novo convertido deve receber oração, ser contatado pessoalmente e deve-se mostrar a ele como pode começar a alimentar-se com a Palavra de Deus. Um bebê necessita de carinho e de alimento! Quando lembramos os três anos do discipulado diário de Jesus, e os anos de comunhão de Paulo com Timóteo e Tito, vemos que o seguimento não é resolvido por um ou dois cultos na igreja.”(Waylon B. Moore)
Então, vejamos o que a igreja neotestamentária emergente fez:
1. ACOLHIMENTO E INTEGRAÇÃO
“E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações.” (At 2.42)
O que é mais difícil, atrair pessoas para Cristo, para a fé cristã e para a igreja, ou mantê-las em Cristo, na fé e na igreja? Vai saber… Prefiro pensar que recebemos a grande comissão de Jesus, precisamos fazer a nossa parte, mas somos apenas coadjuvantes do Espírito Santo nesta desafiadora missão.
Há uns quarenta anos atrás era comum a realização de grandes campanhas evangelísticas, com grandes pregadores. Havia muitas “decisões por Cristo”, porém, com pouca gente se arrolando a uma igreja. A literatura[2] da época também nos dava conta de que: (i) Nos Estados Unidos, 50% dos que tomavam decisão por Cristo, em suas igrejas, não chegavam a ser batizados; (ii) Na América do Sul, 8 em cada 10 dos que tomavam uma decisão por Cristo em reuniões evangelísticas, nunca voltavam à igreja. E, que isso também estava acontecendo na África e na Ásia. Portanto, acolhimento, integração e discipulado imediatos são providências essenciais.
Temos observado que muitas igrejas hoje têm adotado estratégias de marketing e práticas visando atrair as pessoas, por exemplo, com a adaptação do ambiente de reunião de tal forma que lembram casa de show (paredes pintadas de preto, luz estroboscópica, canhões de led, telões de led, cortina de fumaça, são apenas alguns dos artifícios que fazem parte de igrejas contemporâneas, pensadas num público jovem). Nossa intenção aqui não é de julgar ou criticar, mas de provocar uma reflexão. A grande questão que se coloca é se tais práticas estão enchendo templos de discípulos verdadeiros de Jesus ou de espectadores vazios sempre em busca de “novas emoções”? De crentes alicerçados na Palavra de Deus e dispostos a obedecer e servir o Mestre e sofrer pela fé cristã, ou pessoas superficiais, rasas na fé, vulneráveis a todo vento de doutrina e totalmente dependentes de gurus espirituais?
Perseverança é a palavra de ordem na vida desses novos convertidos da igreja primitiva (At 2.42, 46). Começar a carreira cristã, após uma experiência pessoal com Deus, que levou à conversão, cheio de entusiasmo e vontade de fazer a diferença, é o que acontece com a maioria das pessoas nascidas de novo. O difícil é manter esse entusiasmo, indefinidamente. Perseverar é conservar-se firme e constante, é permanecer sem fraquejar. A perseverança nos treinos é a marca dos grandes campeões. É preciso perseverar na fé, primeiramente, e, também, em todos os compromissos assumidos com a igreja. Como fazer para não perder o entusiasmo? O que faziam os primeiros convertidos, pós-Pentecostes?
Um aspecto tremendamente facilitador na manutenção desse entusiasmo é estar junto com outros que compartilham os mesmos ideais. O versículo 44 destaca: “Todos os que creram estavam juntos…”. Isso tende a gerar:
• Sentimento de PERTENCIMENTO. • A boa influência do grupo sobre uma pessoa.
Viver em comunidade é viver “com + unidade”, “como + um”. Comum é o que pertence simultaneamente a mais do que um. Assim é a fé que professamos, a fé comum (Tt 1.4). Além do aspecto espiritual merece destaque o registro da cobertura ou assistência social ali praticada (At 2.4-45; 4.32-35). O amor de Deus derramado nos corações abre os olhos para o discípulo de Cristo enxergar a necessidade e a dor do próximo, principalmente do irmão em Cristo e, consequentemente, também abre o bolso para ajudá-lo em suas necessidades básicas. Todas as iniciativas de ajuda material eram feitas de forma voluntária. Também não podemos perder de vista a latente expectativa da iminente volta de Cristo, o que pode ter levado alguns a pensar que seria mais útil vender propriedades. Não há aqui qualquer base para a implementação de uma ideologia comunista. Diante de uma situação de carestia e perseguição aos seguidores de Cristo, a igreja fez o que precisava fazer naquele momento. De um modo geral a sociedade deve ter em mente a transformação de comunidades de consumo em comunidades produtivas! A dignidade humana se dá através do emprego e não do assistencialismo paternalista que explora a pobreza.
Há pessoas que pensam e defendem o ponto de vista de que não há necessidade de frequentar e participar de uma igreja local. Advogam a causa do “basta ter fé em Deus e viver uma vida justa e piedosa, diante de Deus e dos homens”. Isso não expressa, de forma alguma, a vontade de Deus, que instituiu a Igreja, a ECCLESIA (lat.) ou EKKLESIA (gr.). “EK”, que significa “movimento para fora” e “KLESIA”, do verbo KALEO (gr.), chamar. A Septuaginta (100 aC) emprega o termo quando traduz a palavra hebraica “kahal”, que designava a congregação dos israelitas como uma coletividade nacional. Logo, “ekklesia “ é a assembleia dos “chamados para fora” do mundo para viverem como filhos de Deus, na casa do Pai. “Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.” (Mt 16.18). A resistência está na vivência em comunidade e na unidade da fé comum.
Vejamos, a seguir, as quatro áreas nas quais eles perseveravam, coletivamente, como igreja, que servem de referência para a igreja de todos os tempos. Quando se tenta reduzir essas quatro áreas, a quatro tipos de reunião que devem compor a agenda da igreja, muito se perde da essência do que aqui está escrito. Senão, vejamos: eles perseveravam …
2. NO ENSINO e DOUTRINA
“E perseveravam na doutrina dos apóstolos …”
Infelizmente tem se levantado gurus espirituais promovendo uma espécie de reducionismo teológico e eclesiástico. Defendem eles que: (i) Só valem os ensinos de Jesus nos Evangelhos; (ii) Jesus é a “chave hermenêutica” da Bíblia. Assim sendo, segundo eles, nos demais livros do AT e NT só vale o que for respaldado nos ensinos de Jesus. Esse reducionismo despreza a importância e o papel da igreja institucional, o que é um lamentável equívoco. Os ensinos de Jesus são sim a nossa referência maior, porém, cremos que: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra.” (2Tm 3.16-17). A habitação do Espírito Santo no crente não o exime de observar e praticar os ensinos bíblicos!
Em certa ocasião, após sua pregação, muitos creram em Jesus. E Jesus lhes falou da importância de permanecerem na sua palavra: “Ditas estas coisas, muitos creram nele. Disse, pois, Jesus aos judeus que haviam crido nele: Se vós permanecerdes na minha palavra, sois verdadeiramente meus discípulos; e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” (Jo 8.30-32). Um dos requisitos básicos para ser verdadeiro discípulo de Jesus é permanecer na sua Palavra.
Doutrina é o conjunto de princípios básicos, fundamentais, de um sistema religioso, político ou filosófico. Qual era a doutrina dos apóstolos? No tempo desses primeiros convertidos ainda não existia um só livro do Novo Testamento. Nesse tempo, os apóstolos transmitiam oralmente, ungidos e inspirados pelo Espírito Santo, toda a doutrina de Jesus: “…mas o Consolador, o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo o que vos tenho dito.” (Jo 14.26).
Jesus ensinava e provocava admiração nas multidões com sua nova doutrina. “Maravilhavam-se da sua doutrina, porque os ensinava como quem tem autoridade e não como os escribas.” (Mc 1.22).
Eles também transmitiam os ensinos que recebiam por revelação direta do Espírito Santo, numa época em que a Bíblia estava sendo escrita.
As Escrituras do Antigo e Novo Testamentos, transmitidas pelos apóstolos e profetas formaram o firme alicerce da igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo: “Assim, já não sois estrangeiros e peregrinos, mas concidadãos dos santos, e sois da família de Deus, edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a pedra angular; no qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para santuário dedicado ao Senhor, no qual também vós juntamente estais sendo edificados para habitação de Deus no Espírito.” (Ef 2.19-22). Era assim que os novos convertidos alimentavam suas mentes diariamente. Era assim que se mantinha a unidade da igreja, que os líderes e as igrejas eram orientados: “Expondo estas coisas aos irmãos, serás bom ministro de Cristo Jesus, alimentado com as palavras da fé e da boa doutrina que tens seguido.” (1Tm 4.6). “Habite, ricamente, em vós a palavra de Cristo; instruí-vos e aconselhai-vos mutuamente em toda a sabedoria, louvando a Deus, com salmos, e hinos, e cânticos espirituais, com gratidão, em vosso coração.” (Cl 3.16)
O entusiasmo e a unidade da igreja têm tudo a ver com o conhecimento e comprometimento dos remidos com a sã doutrina. Isso se cultiva através de uma vida devocional diária, enriquecida pela leitura e estudo da Bíblia e por ouvir a exposição precisa e edificante da Palavra de Deus. Todo grande Avivamento Espiritual, bíblico ou posterior, tem sido marcado por uma busca insaciável da Palavra de Deus. (2Rs 23; Ne 8 e 9)
Não queremos ser a igreja dos homens ou de um homem, mas a Igreja de Cristo ou do Livro. É com saudade que lembramos daquele tempo em que o crente era chamado de “bíblia”. É preciso estar alerta quanto àqueles que ficam aquém ou vão além da sã doutrina, ensinando a sua própria doutrina. “Se alguém ensina outra doutrina e não concorda com as sãs palavras de nosso Senhor Jesus Cristo e com o ensino segundo a piedade, é enfatuado, nada entende, mas tem mania por questões e contendas de palavras, de que nascem inveja, provocação, difamações, suspeitas malignas, altercações sem fim, por homens cuja mente é pervertida e privados da verdade, supondo que a piedade é fonte de lucro.” (1Tm 6.3). Esses não são de Deus e só provocam divisões e escândalos: “Todo aquele que ultrapassa a doutrina de Cristo e nela não permanece não tem Deus; o que permanece na doutrina, esse tem tanto o Pai como o Filho.” (2Jo 1.9); “Rogo-vos, irmãos, que noteis bem aqueles que provocam divisões e escândalos, em desacordo com a doutrina que aprendestes; afastai-vos deles,” (Rm 16.17). “Se alguém vem ter convosco e não traz esta doutrina, não o recebais em casa, nem lhe deis as boas-vindas.” (2Jo 1.10)
Enquanto a igreja primitiva buscava a solidez doutrinária e o firme fundamento das Escrituras, hoje nos deparamos com igrejas e pregadores da prosperidade, da ajuda do alto, do evangelho sem Cristo, do discurso motivacional, do vem como estás e continua assim mesmo, afinal, Jesus disse que aquele que estiver sem pecado atire a primeira pedra (Jo 8.7).
3. NA COMUNHÃO
“E perseveravam … na comunhão …”
A segunda área na qual perseveravam era a comunhão, no grego koinonia. A palavra tem o sentido de “participação em comum em crenças ou ideias”. Há duas dimensões básicas da comunhão ensinadas na Bíblia: vertical e horizontal.
Comunhão com Deus (Pai, Filho e Espírito Santo) é a dimensão vertical.
“Ora, a nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho, Jesus Cristo.” (1Jo 1.3b); “A graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo sejam com todos vós.” (2Co 13.14). Na verdade, é muito mais do que uma “participação em comum” é uma interação íntima e visceral, pois somos coparticipantes da natureza divina (2Pe 1.4). Passamos a ser morada de Deus: “Respondeu Jesus: Se alguém me ama, guardará a minha palavra; e meu Pai o amará, e viremos para ele e faremos nele morada.” (Jo 14.23); “Naquele dia, vós conhecereis que eu estou em meu Pai, e vós, em mim, e eu, em vós.” (Jo 14.20); “….logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim;” (Gl 2.20a). O grande projeto de Deus é reproduzir em nós a imagem do seu Filho, Jesus: “E todos nós, com o rosto desvendado, contemplando, como por espelho, a glória do Senhor, somos transformados, de glória em glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito.” (2Co 3.18)
Comunhão com os irmãos, os santos, é a dimensão horizontal.
“Se, porém, andarmos na luz, como ele está na luz, mantemos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado.” (1Jo 1.7). A comunhão com Deus é fator preponderante para se ter comunhão com os irmãos na fé. Nós somos diferentes uns dos outros e temos nossas particularidades. Entretanto, quanto mais nos aproximamos de Deus, mais nos aproximamos uns dos outros, e, mais as nossas diferenças individuais diminuem. “completai a minha alegria, de modo que penseis a mesma coisa, tenhais o mesmo amor, sejais unidos de alma, tendo o mesmo sentimento.” (Fp 2.2).
Essa comunhão se estabelece, na vivência comunitária, através de ações práticas, produzidas pelo Espírito em nós – o fruto do Espírito: “Mas o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio. Contra estas coisas não há lei.” (Gl 5.22-23)
Se os membros relaxam e deixam o saudável convívio da igreja promovem um cristianismo individualista, egoísta, superficial e desfigurado. O convívio de Jesus com os seus discípulos era intenso, visceral e orgânico. Assim deve ser na igreja. Muitas igrejas têm adotado a boa prática de reuniões em pequenos grupos nas casas. Sem dúvida é uma excelente iniciativa e oportunidade para estreitamento da comunhão e crescimento espiritual (discipulado).
“Diariamente perseveravam unânimes no templo, partiam pão de casa em casa e tomavam as suas refeições com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus e contando com a simpatia de todo o povo. Enquanto isso, acrescentava-lhes o Senhor, dia a dia, os que iam sendo salvos.” (At 2.42-46)
Este versículo resume muito bem o saudável ambiente da igreja primitiva, de perseverança na fé, acolhimento, integração, comunhão com Deus e uns com os outros. E o resultado não poderia ser outro – expansão do reino!
4. NO PARTIR DO PÃO
“E perseveravam … no partir do pão …”
O partir do pão ou a refeição comunitária, gera a intimidade da família de Deus.
A essência da Ceia foi transmitida pelo Senhor quando a instituiu (Mt 26.26-29; Mc 14.22-25 e Lc 22.17-20). O apóstolo Paulo, quando trata dos problemas que estavam ocorrendo quando da observância da Ceia, não ousa lançar novas bases doutrinárias sobre este assunto; simplesmente ele destaca a instrução que recebeu do Senhor (1Co 11.17-34).
A Ceia do Senhor é:
Ordenança: “Fazei isto”. Uma das duas ordenanças de Jesus para a sua igreja. A outra é o batismo.
Memorial: “Em memória de mim”. Um meio para manter o foco dos remidos na Pessoa e na Obra Redentora de Cristo.
Proclamação: “Anunciais a morte do Senhor, até que ele venha”. Um meio de manter viva a esperança da sua volta.
Comunhão: Um instrumento de aproximação dos filhos, entre si, e do Pai Celestial. “A Ceia não é para todos, mas somente para aqueles que são espiritualmente capazes de discernir o corpo do Senhor. Ela não se destina à conversão dos pecadores, mas à edificação dos discípulos.” (Spurgeon)
Há duas deturpações perigosas quando da observância da Ceia:
A primeira se dá quando um crente, que entende claramente o significado da celebração da Ceia, não lhe dar o devido valor; não se interessa em participar ou quando o faz, é por mero hábito, rotina ou obrigação.
A segunda acontece quando alguém, cristão professo ou não, não entendendo o seu significado, faz questão de participar por achar que o pão e o cálice têm algum poder sobrenatural ou trará alguma graça divina para sua vida.
Daí a exortação do apóstolo: “Examine-se…..e assim coma do pão e beba do cálice” (1Co 11.28). “As três perguntas que Philip Henry aconselhava às pessoas a fazerem a si mesmas, em autoexame, antes da participação na Ceia, eram: O que sou eu? Que tenho feito? Que desejo? – John Whitecross”
5. NAS ORAÇÕES
“E perseveravam … nas orações.”
A última área mencionada neste versículo, na qual eles perseveravam é a oração. No capítulo 12 de Romanos, o apóstolo associa a cada dom ou ação ou atitude, uma palavra-chave. Assim, para a oração a palavra-chave é perseverança:
“regozijai-vos na esperança, sede pacientes na tribulação, na oração, perseverantes;” (Rm 12.12); “Perseverai na oração, vigiando com ações de graças.” (Cl 4.2); “com toda oração e súplica, orando em todo tempo no Espírito e para isto vigiando com toda perseverança e súplica por todos os santos” (Ef 6.18); “Orai sem cessar”.(1Ts 5.17)
Jesus mesmo fez questão de ressaltar a importância da perseverança na oração. “Disse-lhes Jesus uma parábola sobre o dever de orar sempre e nunca esmorecer: Não fará Deus justiça aos seus escolhidos, que a ele clamam dia e noite, embora pareça demorado em defendê-los?” (Lc 18.1,7)
Conclusão
Muito mais se pode dizer sobre o discipulado na igreja primitiva. Por exemplo, sobre o trabalho desenvolvido por Barnabé com Saulo e com seu sobrinho Marcos; por Áquila e Priscila com Apolo; por Paulo com Timóteo, Tito e outros colaboradores. Também podemos citar alguns dos métodos utilizados na época, como “Correspondências Pessoais” (1Tm 1.1-2) e “Coletivas” (1Ts 1.1), “Intercessão Pessoal” (1Ts 1.2; 3.10), “Representantes Pessoais” (1Ts 3.1-5) e “Contato Pessoal” (1Ts 2.18). Vale destacar o fato de o apóstolo Paulo mencionar, em Romanos 16, cerca de 28 nomes de pessoas ou famílias, o que demonstra o quanto ele valorizava o relacionamento pessoal.
Nesta abordagem, fica evidente a importância dos líderes eclesiásticos, por toda a parte, perceberem o vasto potencial que existe na abordagem feita nos pequenos grupos e no discipulado um-a-um.
Finalmente, fica aqui para reflexão. Você sabe o que é ser um discípulo? Você é um discípulo? Você é um discipulador ou precisa ser discipulado? O que um discípulo precisa saber, praticar e compartilhar? O que um discipulador precisa saber, praticar e compartilhar? Qual o papel do cristão e da igreja no discipulado? Que importância tem a Escola Bíblica Dominical, as Sociedades Internas ou Departamentos da Igreja (por afinidade e/ou idade e/ou sexo), os Pequenos Grupos etc. no discipulado? Que pontos fortes e pontos de melhoria podem ser identificados no seu ministério pessoal de discipulado e no da sua igreja? Será que podemos afirmar que discipulado é mais do que um programa pontual, é um estilo de vida dos cristãos?
Que Deus nos ajude!
Bibliografia 1. Bíblia Sagrada (SBB – Versão Revista e Atualizada). 2. Bíblia Online – SBB. 3. Revista Fazei Discípulos (Ed. Didaquê). 4. Multiplicando Discípulos – Moore, Waylon B. – JUERP, 1983. 5. O Novo Testamento Interpretado, versículo por versículo (Russel Norman Champlin, Ph D. – 1982). 6. Internet.
[1] Prosélito: gentio (estrangeiro) que adotou a religião judaica (Mt 23.15; At 13.43). [2] Multiplicando Discípulos – Moore, Waylon B. – JUERP, 1983.