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Cordel Encantado ou Bordel Encantado?

“Cordel Encantado” é a “novela das seis” da Rede Globo. É uma novela de época, uma ficção supostamente retratando usos e costumes do início do século XX. O foco principal é o nordeste brasileiro com a presença forte do cangaço e cangaceiros, que são “os bandidos do sertão nordestino, membros de grupos armados que percorriam o sertão do nordeste brasileiro, acampando e fazendo incursões a cidades e fazendas, e que atuaram mais intensamente no início do séc. XX, até 1938” (dic. Aulete).

O que é “cordel” e o que é “bordel”?

Cordel é definido no dicionário como “livreto ou folheto, ou a história nele impressa, produzidos com as técnicas gráficas e narrativas da literatura de cordel”. “De cordel”, aquilo “que é da literatura popular, e impresso em folhetos baratos; que é próprio do gênero literário conhecido como literatura de cordel”.

Bordel é definido no dicionário como “prostíbulo” e, por extensão, “qualquer lugar ou circunstância em que haja devassidão, obscenidade”.

O que se passa nesta novela?

Assisti a vários capítulos, o que não é o meu costume, interessado em avaliar o que entra nas casas dos brasileiros pela janela da TV aberta e faço estes comentários como um simples, mas atento, observador ou telespectador. Vejam só o que está sendo veiculado para crianças de 10 anos, sim, porque esta é a classificação indicativa anunciada:

1.       Ataque à instituição do casamento e a família.

Nesta teledramaturgia contabilizei 6 casais casados principais. Destes 6, apenas 1 (17%) apresenta uma relação estável e de fidelidade conjugal. É o casal Euzébio e Virtuosa, pais de criação de Açucena/Aurora. 

Nota: Para ver as fotos dos personagens, entre no site oficial da novela:

 http://cordelencantado.globo.com/personagens/

O que dizer dos outros 5 casais?

Duque Petrus & Duquesa Úrsula: Úrsula, quando vivia na corte, em Seráfia, traiu o seu marido Petrus com seu amante Nicolau (o mordomo) e com o seu outro amante, o General Baldini (com o qual tiveram uma filha). Como se fosse pouco, com a colaboração dos dois amantes, armou um golpe e aprisionou o marido traído na masmorra, com uma máscara de ferro. Quando chega com a corte ao Brasil, na cidade de Brogodó, acrescenta mais um amante à sua coleção particular, Herculano, o “rei do cangaço”, que, por sua vez é separado ou teve um caso com Siá Benvinda, e desta relação nasceu Jesuíno, o mocinho da história.

Prefeito Patácio & Dona Ternurinha: Em certo ponto da história, a mulher do prefeito (Dona Ternurinha) é raptada pelos cangaceiros. Lá no cangaço, o cangaceiro Zóio-Furado dá uns amassos nela que, “sem querer  querendo” e sem o mínimo pudor se rende às investidas “do selvagem”. Liberta do cativeiro, dali em diante ela passa a ter seus sonhos eróticos com o “facínora, bruto e selvagem”, como o chama excitada na hora dos amassos, que passam a acontecer frequentemente na sua casa, às escondidas do marido.

Farid ou Tufik ou Said & …. seu Harém: Ele é um turco, tipo caixeiro viajante, com uma mulher em cada cidade. Um verdadeiro “rodízio de carnes”.

Neusa é a sua esposa enganada e sem filhos, na cidade de Brogodó, que o conhece como Farid.

Bartira é a sua esposa enganada e com dois filhos, na cidade de Vila da Cruz, que o conhece como Tufik. Por sua vez, Bartira tem um admirador, o Dr. Sérgio.

Penélope é a sua amante enganada, uma jornalista que o conheceu na cidade grande, mas que chegou à cidade de Brogodó para uma cobertura jornalística, que o conhece como Said. Penélope não se contenta em fazer sexo só com Said, ela tem uma relação promíscua também com o cangaceiro Belarmino.

Zenóbio & Florinda: Aparentemente ia tudo bem com o casal, que tem filhos, até que surge em sua casa Duque Petrus, o homem da máscara de ferro, desmemoriado, que ela ajuda a cuidar. Depois que ele se recupera, os dois aparentam estar ardentemente apaixonados. Em uma determinada noite, Florinda sai de casa para encontrar-se com Petrus, no palácio da prefeitura onde estava hospedado, e seu marido Zenóbio acha aquilo normal, pois acha que ela precisa se certificar dos seus verdadeiros sentimentos. O que é isso???? Eles passam a noite juntos, adulterando. Ela retorna a casa na manhã seguinte e seu marido Zenóbio (o corno paciente) a recebe apenas enciumado. Que mensagem horrorosa!

Damião x Amália: É um casal secundário na história que vive um verdadeiro inferno conjugal. Ele acha que um dos filhos é fruto de algum caso extraconjugal da esposa.

Isso é ou não é um bordel (“qualquer lugar ou circunstância em que haja devassidão, obscenidade”)? Qualquer semelhança é mera certeza! Uma novela de época pode ganhar muita audiência sem precisar apelar para tanta baixaria. Basta citar, por exemplo, a novela SINHÁ MOÇA, da mesma emissora.

2.       Paixões desencontradas e descontroladas.

É incrível a criatividade dos autores quando se trata enrolar a história. Quase todas as paixões não são correspondidas, senão vejamos:

Açucena/Aurora gosta de Jesuíno, mas está dividida entre ficar ali em Brogodó com ele ou ir para o reino de Seráfia assumir sua posição de princesa e se casar com o príncipe Felipe.

Jesuíno gosta de Açucena/Aurora, mas não quer impedi-la de seguir o seu destino na corte de Seráfia. Enquanto isso tem umas recaídas com a Doralice.

Doralice gosta de Jesuíno, mas não é correspondida. Ora tem uns momentos mais quentes com Jesuíno, ora sonha com o príncipe Felipe.

Príncipe Felipe tenta conquistar Açucena/Aurora, pois a corte aguarda o casamento dos dois, mas não deixa de ter uns momentos mais quentes com Doralice e sonha com ela.

Delgado Batoré gosta de Antônia que não gosta dele. Depois que ela foge para Vila da Cruz ele começa a investir na viúva rainha Helena.

Antônia gosta do Infante Dom Inácio que resolveu abandonar a corte para viver uma vida celibatária e a favor dos pobres.

Cícero gosta de Antônia que não gosta dele.

Rosa gosta de Cícero que não gosta dela.

Timóteo gosta de Açunena/Aurora que não gosta dele.

Lady Carlota gosta de Timóteo que não gosta dela. Mesmo assim vai lhe dar um filho.

Fausto gosta de Lady Carlota que não gosta dele. Vai ficar com ele porque não lhe restou outra alternativa.

Tibungo gosta de Lilica que não gosta dele.

Lilica parece gostar de Timóteo, seu patrão, que não gosta dela. Enquanto isso ela tem um caso com o Mordomo Nicolau que prometeu levá-la para a corte, mas mudou de idéia.

Quanto desencontro!!!!! Parece que em apenas dois casos há amor correspondido: Rei Augusto & Maria Cesária e Quiquiqui & Téinha.

3.       Ridicularização do Poder Público.

Na novela, o prefeito Patácio é uma piada a cada aparição em cena. O delegado Batoré e seus auxiliares, nem se fala. Prefeito e Delegado de Brogodó são “coco”, isto é, covardes e corruptos. Por outro lado, o cangaço é enaltecido e prestigiado. Isso é ou não é um incentivo ao surgimento de grupos paramilitares independentes do poder público? Essa é a visão que a TV passa para crianças de 10 anos de idade ou mais. Todos sabemos que muitos representantes públicos deixam muito a desejar. De um modo geral o povo não confia neles e nem me passou pela cabeça defendê-los. Entretanto, não se pode perder de vista que a democracia só sobrevive a partir de instituições fortes e respeitadas. Ao invés de incentivar o deboche e o descaso com coisa pública, já é hora (nunca deixou de ser) de pais, escolas, veículos de comunicação e governo investir seriamente na formação de novas gerações para o exercício de uma democracia séria e responsável. Noutro dia veiculou uma matéria na TV em que uma mãe de aluno, ao ser abordada por um jornalista sobre a razão de ter estacionado em fila tripla, em frente à escola, responde: “– Não sei, isso aqui é Brasil!”. A pergunta que não quer calar é “até quando Brasil será sinônimo de incivilidade, bagunça, desrespeito ao direito do outro, descaso com a coisa pública? É hora de romper de vez com essa mediocridade em vez de perpetuá-la! A economia do país cresce e se projeta cada vez mais no cenário internacional, mas a cabeça de muitos continua a mesma. Para estes, o que interessa mesmo é “se dar bem”, “levar vantagem em tudo”, não interessa como!

4.       Considerações Finais.

Quando se fala em análise crítica de conteúdo de novela, sempre surge aquela questão: “A ARTE IMITA A VIDA ou A VIDA IMITA A ARTE?”  Ainda que a arte reproduza fatos que eventualmente aconteçam na vida, não tenho dúvida alguma de que a mídia televisiva afeta e influencia forte e profundamente o comportamento da sociedade, muitas vezes em nome de uma EQUIVOCADA MODERNIDADE COMPORTAMENTAL. Não é sem causa que cada conteúdo é cuidadosamente formatado para alcançar o objetivo determinado. Não preciso ir muito longe, basta verificar o intenso e explícito investimento na promoção da causa gay na novela “Insensato Coração”, que contou com quadros específicos, pedagogicamente preparados.

Intencionalmente ou não, vejam só os conceitos e idéias que essa novela passa para o público, de forma sutil ou explícita, afetando principalmente aquelas crianças em fase de formação e as pessoas menos preparadas para separar o joio do trigo:

1º) Casamento é uma farsa, coisa sem graça e uma prisão. Os adultos casados são inconfiáveis e infiéis, incapazes de se guardar para o seu cônjuge.

2º) Mesmo que não se ame determinada pessoa, se esta estiver muito apaixonada por você, é comum ceder ao “chega pra cá” e depois desculpar-se que gosta de outra pessoa.

3º) O poder público é incompetente e safado, mas, se a pessoa não conseguir outra coisa, até que é uma boa ir pra lá, “faturar” um dinheirinho fácil.

Sem querer desmerecer a Rede Globo de Televisão, pois presta à sociedade um bom serviço jornalístico, não posso deixar de chamar a sua atenção para o fato de que ela vai precisar intensificar muito projetos do tipo CRIANÇA ESPERANÇA. Por que? É simples. Com tamanho desserviço prestado ao casamento e à família pela maioria de suas novelas, filmes TELA QUENTE, ZORRA TOTAL, dentre outros de sua grade de programação, certamente teremos mais e mais famílias destroçadas, crianças desestruturas e largadas à sua própria sorte, suplicando pelo socorro da sociedade.

Finalmente, na minha ótica e usando o meu direito e liberdade de expressão, diria que a REDE GLOBO DE TELEVISÃO (E OUTRAS REDES DE TELEVISÃO), através de algumas novelas e de alguns programas de sua grade de programação CORROMPE OS BONS COSTUMES, POR ATACADO, e através de projetos do tipo Criança Esperança, age NO VAREJO, sobre a miséria que ajuda a gerar, num verdadeiro círculo vicioso.

É isso aí….. Lembre-se: uma sociedade nasce, se desenvolve e morre. Por que morre? Pela incapacidade de preservar seus valores e princípios!!!! Faça a sua parte; eu estou tentando fazer a minha!

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  1. 23/08/2011 às 15:17

    Paulo:
    Gostaria de me solidarizar com a sua matéria e sua opinião. Há muito sou testemunha de como as televisões em nosso país, em especial a REDE GLOBO, vem prestando um grande deserviço a causa da família, da ética, dos bons costumes, da verdade (não meias verdades), da calúnia, da defesa de interesses escusos e muitas vezes anti-nacionais, etc., etc. Reconheço que alguns programas são edificantes. Parabenizo sua iniciativa e compartilho com sua indignação e revolta com o nível atual. Esperamos pelo dia em que a verdadeira liberdade de imprensa exista: quando for dado o direito de resposta a informações infundadas e não como temos hoje um palanque onde somente um fala e todos nós somos somente ouvimos.
    Guaraci

  2. 26/08/2011 às 17:25

    Caro Pb. Paulo

    Registro aqui a minha apreciação ao texto e o parabenizo pela coragem em tempos de tanto relativismo. Relativismo este vivido, até mesmo, no cenário evangélico. É incrível pois, ao longo da caminhada, parece que vamos ficando amortecidos e acostumados ao pecado. Vamos ficando maleáveis demais e todo aquele que se apresenta com uma postura mais rígida frente ao mundo atual é tido como fundamentalista e retrógrado. E assim a mídia vai disseminando, aos poucos, a sua vã doutrina. E tem muito crente engolindo tudo e achando graça.
    Que Deus nos ajude a pregar o Evangelho com doçura e com amor, mas, também, com firmeza e com doutrina.

    Rev. Marcelo Vidal

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