Maldição hereditária!?

Introdução

O que é uma maldição hereditária? A bíblia fala sobre maldição hereditária? Podem os filhos pagar pelos pecados dos pais? É preciso quebrar a “cadeia da maldição hereditária”? Ela afeta o crente? Estas são apenas algumas questões que permeiam o consciente ou inconsciente coletivo, que nunca saem de pauta e que precisam ser esclarecidas.

Maldição e amaldiçoar, o que dizem os dicionários?

Maldiçãosubst. feminino; 1. ação ou efeito de amaldiçoar ou maldizer. 2. Figurado -palavra ou conjunto de palavras que revela a vontade de que algo negativo aconteça; imprecação, praga.

Maldição – Chamamento de mal, sofrimento ou desgraça sobre alguém (Gn 27.12; Rm 3.14). (Bíblia online)

Amaldiçoar – Pronunciar palavras de MALDIÇÃO contra alguém (Gn 12.3; Tg 3.9). (Bíblia online)

1. MALDIÇÃO E BÊNÇÃO HEREDITÁRIAS

1.1 A origem e a realidade da maldição hereditária

Desde o início da história humana, bênção e maldição, assim como, abençoar e amaldiçoar, têm caminhado juntos como forças opostas. A ocorrência inicial e primeira manifestação de maldição aconteceu como consequência da desobediência a Deus e a queda dos nossos primeiros pais, sendo proferida sobre a: Serpente“Então, o SENHOR Deus disse à serpente: Visto que isso fizeste, maldita és entre todos os animais…” (Gn 3.14);  Terra“E a Adão disse: Visto que atendeste a voz de tua mulher e comeste da árvore que eu te ordenara não comesses, maldita é a terra por tua causa;” (Gn 3.17). E, assim, a desobediência, rebeldia e transgressão de um casal – Adão e Eva – acarreta a maldição de toda a criação. Surge, então aqui uma primeira ideia de maldição hereditária, quando os descendentes sofrem a maldição por causa do seu ascendente.

Algum tempo depois, Caim mata seu irmão Abel e é amaldiçoado por Deus (Gn 4.11).

Noé amaldiçoou o seu neto Canaã, porque Cam, o pai de Canaã, o teria desonrado por ocasião da sua embriaguez (Gn 9.20-27). A bíblia não nos revela se Canaã também esteve de alguma forma envolvido no episódio. Surge aí, então, mais um caso de maldição (hereditária).

1.2 A origem e a realidade da bênção hereditária

A Bíblia também menciona várias vezes o conceito de bênção transmitida de uma geração para a(s) seguinte(s), o que pode ser entendido como uma espécie de “bênção hereditária”. Neste sentido, dois exemplos muito emblemáticos, são: (i) Abraão e seus descendentes: Em Gênesis 17.7, Deus faz uma aliança com Abraão, prometendo bênçãos a ele e a seus descendentes (Gn 17.7-10). Essa bênção foi confirmada a Isaque (Gn 26.2-5) e a Jacó (Gn 28.13-15). Deus prometeu abençoar a descendência de Abraão, fazendo deles uma grande nação. (ii) Davi e seus descendentes: Deus promete a Davi que sua dinastia durará para sempre e que seus descendentes serão abençoados, com uma aliança eterna estabelecida com a sua casa (2Sm 7.12-16).

1.3 As alianças de Deus com os homens e suas consequências

É preciso destacar que o registro bíblico nos dá conta de oito principais alianças de Deus com o homem. Uma aliança é um pronunciamento soberano de Deus através do qual ele estabelece um relacionamento de responsabilidade entre ele mesmo e um indivíduo, ou uma família, ou uma nação, ou a humanidade em geral. As oito alianças são: (1) Edêmica (Gn 2.16); (2) Adâmica (Gn 3.15); (3) Noética (Gn 9.16); (4) Abraâmica (Gn 12.2); (6) Mosaica (Êx 19.5); (7) Davídica (2Sm 7.16); e a Nova Aliança (Hb 8.8). Naturalmente é Deus quem estabelece as bases dessas alianças e compete às partes cumprirem suas obrigações, sendo desnecessário dizer que Deus jamais deixará de cumprir a sua parte.

Há bênçãos ou maldições, individuais ou coletivas, como consequência da obediência ou desobediência a Deus, à sua Lei, à sua Aliança (Lv 26; Dt 27-28).

“Eis que, hoje, eu ponho diante de vós a bênção e a maldição: a bênção, quando cumprirdes os mandamentos do SENHOR, vosso Deus, que hoje vos ordeno; a maldição, se não cumprirdes os mandamentos do SENHOR, vosso Deus, mas vos desviardes do caminho que hoje vos ordeno, para seguirdes outros deuses que não conhecestes.” (Dt 11.26-28)

A característica básica dessas alianças, no que diz respeito à parte humana, é que a obediência é recompensada com bênçãos, ao passo que a desobediência acarreta disciplina e maldição. A cerimônia de ratificação da Aliança Mosaica, isto é, de Deus com Israel, registrada em Deuteronômio 27 e 28 é bastante interessante e pedagógica, ilustrando esta característica. “Moisés deu ordem, naquele dia, ao povo, dizendo: Quando houveres passado o Jordão, estarão sobre o monte Gerizim, para abençoarem o povo, estes: Simeão, Levi, Judá, Issacar, José e Benjamim. E estes, para amaldiçoar, estarão sobre o monte Ebal: Rúben, Gade, Aser, Zebulom, Dã e Naftali.” (Dt 27.11-13). Os levitas pronunciam, em alta voz, testificando a todo o povo de Israel 12 maldições (Dt 27.14-26). Nesta mesma ratificação da Aliança, são proferidas as Promessas de Bênçãos (Dt 28.1-14) e as Promessas de Maldições (Dt 28.15-68). É sem dúvida impressionante a abrangência dessas bênçãos e maldições!

Na Nova Aliança, conforme revelada no Novo Testamento, os conceitos de bênção e maldição são abordados de forma diferente em comparação à Antiga Aliança. A bênção está centrada em Cristo. Aqueles que estão em Cristo são considerados abençoados com toda sorte de bênçãos espirituais (Ef 1.3). A bênção não é mais apenas física ou material, mas abrange uma dimensão espiritual e eterna.  A bênção está intimamente ligada à fé em Cristo e à obediência ao Evangelho. A salvação, a vida eterna, a paz e o perdão dos pecados são algumas das bênçãos concedidas através de Cristo. A maldição, por outro lado, é vista no contexto da rejeição a Cristo. Para aqueles que rejeitam o Evangelho, há um juízo reservado. A maldição, portanto, na Nova Aliança, pode ser entendida como a separação de Deus e o julgamento e condenação eternos para aqueles que rejeitam a salvação oferecida em Cristo (Jo 3.36; 2Ts 1.8-9).

2. O PESO E A EFETIVIDADE DA MALDIÇÃO

O que significa exatamente a maldição proferida por Deus e a maldição proferida pelo homem ao seu semelhante? Qual o peso e efetividade de uma e de outra?

2.1 A manifestação de Deus

Quando da entrega dos dez mandamentos a Moisés e ao povo de Israel, na sequência do pronunciamento do segundo mandamento, Deus faz uma revelação surpreendente e impactante:

“Não farás para ti imagem de escultura, nem semelhança alguma do que há em cima nos céus, nem embaixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não as adorarás, nem lhes darás culto; porque eu sou o SENHOR, teu Deus, Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos até à terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem e faço misericórdia até mil gerações daqueles que me amam e guardam os meus mandamentos.” (Êx 20.4-6; ver tb Dt 5.9-10)

Em relação ao assunto em pauta, há aqui duas declarações divinas que precisam ser bem entendidas. Para tanto é importante mencionar outras duas citações referentes ao texto acima. Após o cometimento do pecado e quebra da lei, por ocasião da feitura e adoração do bezerro de ouro (Êx 32), depois da intercessão de Moisés a Deus e do arrependimento do povo, quando da renovação da Aliança, Moisés assim clamou: “E, passando o SENHOR por diante dele, clamou: SENHOR, SENHOR Deus compassivo, clemente e longânimo e grande em misericórdia e fidelidade; que guarda a misericórdia em mil gerações, que perdoa a iniquidade, a transgressão e o pecado, ainda que não inocenta o culpado, e visita a iniquidade dos pais nos filhos e nos filhos dos filhos, até à terceira e quarta geração!” (Êx 34.6-7). E, ainda, em outra ocasião posterior, após a manifestação de incredulidade e rebeldia do povo ao receber o relatório dos espias e ser castigado com quarenta anos de peregrinação no deserto, Moisés assim clama ao Senhor: “O SENHOR é longânimo e grande em misericórdia, que perdoa a iniquidade e a transgressão, ainda que não inocenta o culpado, e visita a iniquidade dos pais nos filhos até à terceira e quarta gerações.” (Nm 14.18)

a) A “maldição hereditária” (até a terceira e quarta gerações)

 “…visito a iniquidade dos pais nos filhos até à terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem…” (Êx 20.5b)
“…ainda que não inocenta o culpado, e visita a iniquidade dos pais nos filhos e nos filhos dos filhos, até à terceira e quarta geração!” (Êx 34.7b)
“…ainda que não inocenta o culpado, e visita a iniquidade dos pais nos filhos até à terceira e quarta gerações.” (Nm 14.18b)

Diante destes textos e de tudo o que já foi exposto anteriormente, fica claro que há no registro bíblico maldição hereditária; que ela acontece quando os pais pecam, quando há pecado na família. Certamente o pecado acarreta maldição. No entanto, é preciso ter cuidado com conclusões precipitadas, ao associar problemas vivenciados pelo indivíduo ou pela família com maldição hereditária. Jesus veio para nos salvar e libertar da maldição do pecado.

É fato que todos nós herdamos várias características genéticas de nossos pais e ascendentes, que determinam aspectos físicos, de temperamento e mentais. No processo de criação de filhos, da mesma forma, é comum ocorrer a influência deles no que diz respeito a crenças, princípios e valores, e espiritualidade. No entanto, essas características físicas, psicológicas, éticas e espirituais não determinam completamente nossa identidade, nosso jeito de ser, nossas atitudes e escolhas. Cada pessoa é responsável por seus atos e decisões, possuindo a capacidade de definir o seu próprio destino, independentemente das influências herdadas. Embora as heranças físicas, psicológicas e espirituais possam impactar a vida, elas não determinam de forma absoluta quem somos ou como agimos. Através de escolhas conscientes, cada indivíduo tem o poder de superar ou reforçar essas influências, definindo seu próprio caminho. Naturalmente, se somos guiados pelo Espírito de Deus e vivemos na sua dependência, nosso destino é conduzido pelo Senhor!

“Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram.” (Rm 5.12)

Já foi exposto anteriormente que toda a raça humana foi afetada pela maldição hereditária dos nossos primeiros pais (Rm 5.12), e, não somente os nossos primeiros pais, mas todos nós temos uma natureza pecaminosa, uma inclinação para pecar e, não há quem não cometa pecado, não há justo, nem sequer um (Rm 3.10). Assim, quando cada pessoa peca, está afetando a si mesma, os seus familiares e a sociedade.

O texto diz enfaticamente que aqueles que rejeitam e desobedecem a Deus, cometendo pecados, seus pecados podem afetar três ou quatro gerações. Como entender isso? Primeiramente vale ressaltar que nossos pecados não passam impunes diante de Deus. Em segundo lugar, nossos pecados, além de afetar diretamente as nossas vidas, afetam nossa família e nossos descendentes. Na verdade, o bem ou mal que fazemos afeta tudo o que está ao nosso redor. Entendemos que a quantificação de três ou quatro gerações não deve ser interpretada literalmente, mas como uma forma de expressar que as consequências do nosso pecado terão efeito por “algum tempo“. Por exemplo, se um pai provedor da família arriscar e perder todo o seu patrimônio devido a uma decisão profissional equivocada ou no jogo, tendo filhos pequenos, todo o futuro desses filhos e dessa família poderá ser comprometido, por algum tempo, por conta da falta de recursos financeiros.

Como entender esse efeito negativo por algum tempo? Seria uma intervenção contínua e punitiva de Deus até aliviar sua ira, ou simplesmente, a ocorrência da “lei da colheita conforme a semeadura”? “Não vos enganeis: de Deus não se zomba; pois aquilo que o homem semear, isso também ceifará.” (Gl 6.7). Se olharmos com este foco para as várias histórias das pessoas e famílias da bíblia veremos claramente as ações realizadas e suas consequências nas gerações seguintes. Um caso que ilustra bem isso é o pecado de Davi envolvendo o adultério com Bate-Seba e a morte encomendada de Urias, acarretando graves consequências na sua família. Como é Deus quem governa e conduz toda a história, não podemos colocar na conta do acaso e desdobramento natural, tudo o que acontece após o cometimento do pecado. Deus é soberano para interferir nessas consequências, aliviando ou pesando a sua mão, conforme a sua soberana vontade.

b) A misericórdia até mil gerações

e faço misericórdia até mil gerações daqueles que me amam e guardam os meus mandamentos.” (Êx 20.6)
“…Deus compassivo, clemente e longânimo e grande em misericórdia e fidelidade; que guarda a misericórdia em mil gerações,…” (Êx 34.6b-7a)
“O SENHOR é longânimo e grande em misericórdia,…” (Nm 14.18a)

Se Deus não inocenta o culpado, por outro lado, ele perdoa o pecado, quando há arrependimento e confissão, porque grande é a sua misericórdia, que é a causa de não sermos consumidos (Lm 3.22). Em dois desses três textos, que guardam certo paralelismo, encontramos a “quantificação” da misericórdia “até ou em mil gerações”. Da mesma forma que a quantificação de três ou quatro gerações não deveria ser interpretada literalmente, mas com a intenção de expressar a ideia de “algum tempo”, entendemos aqui a intenção de expressar a ideia de “muito tempo”. É por isso que o terceiro texto diz que “o Senhor é longânimo e grande em misericórdia”. É interessante que essa expressão da misericórdia de Deus “até” ou “em” ou “para” “mil gerações”, para com aqueles que amam a Deus e guardam os seus mandamentos, ocorre no Antigo Testamento sete vezes (Êx 20.6; 34.7; Dt 5.10; 7.9; 1Cr 16.15; Sl 105.8).

Misericórdia e maldição hereditária não são aspectos mutuamente excludentes, ou seja, a extensa misericórdia do Senhor, embora não inocente o culpado, está continuamente predisposta a perdoar o pecador penitente que deverá necessariamente arcar com as consequências dos seus atos, que poderão afetar a sua descendência.

2.2 A maldição proferida pelo homem

Uma maldição é um pronunciamento de infortúnio, miséria ou calamidade sobre alguém ou algo. Na antiguidade, uma maldição ou bênção proferidas não eram consideradas um mero desejo, mas uma força poderosa. De fato, a imprecação feita por um ser humano contra outro não tem qualquer poder, exceto o de afetá-lo psicologicamente, sugestionando-o a acreditar que a praga rogada vai acontecer, causando medo ou ansiedade que, por sua vez, pode levar a resultados negativos em suas vidas.

Uma maldição pode, também, se tornar uma invocação sobrenatural de punição ou de desgraça, como uma consequência do desagrado devido a ações ou comportamentos específicos, uma expressão de ódio ou condenação por alguém, desejando que algo de ruim aconteça ao outro. Ninguém determina a Deus que faça o mal contra outrem, mas, sabemos que há pessoas encomendam trabalhos junto a entidades malignas para prejudicar desafetos ou com outros propósitos. Neste caso, fica aqui então o alerta de que o ser humano precisa estar protegido contra essas investidas malignas. Não são aqueles amuletos de proteção, segundo a crença popular, que irão nos proteger de ataques malignos, ou de energias negativas, ou contra o mal e, por outro lado, atrair boas vibrações! Os que estão em Cristo estão seguros e protegidos por ele: “embraçando sempre o escudo da fé, com o qual podereis apagar todos os dardos inflamados do Maligno.” (Ef 6.16); “Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não vive em pecado; antes, Aquele que nasceu de Deus o guarda, e o Maligno não lhe toca.” (1Jo 5.18)

2.3 A culpa de sangue

A expressão “culpa de sangue” não é uma invencionice qualquer, é uma expressão cunhada pelo próprio Deus e mencionada literalmente várias vezes no Antigo Testamento (Dt 22.8; 2Sm 21.1; 1Rs 2.32; Ez 22.13; 23.37, 45; 24.7). A Bíblia aborda a questão da “culpa de sangue” principalmente no contexto da justiça e responsabilidade pelo derramamento de sangue inocente. Esse conceito está associado à ideia de que alguém é moralmente ou legalmente responsável quando causa a morte de outra pessoa, e isso traz consequências espirituais e/ou legais. Desde o princípio da história humana, o sangue inocente derramado “ergue a sua voz a Deus” clamando por justiça e vingança, como no caso de Abel (Gn 4.10).

– Deus diz a Noé e aos seus descendentes que haverá cobrança pela vida ceifada de qualquer ser humano (Gn 9.5-6).

– A Lei de Moisés prescreve punições para quem mata outra pessoa (Êx 21.12-14): (i) Homicídio doloso: quem mata intencionalmente (com premeditação) deve ser morto (Êx 21.12, 14); (ii) Homicídio culposo: se a morte ocorreu sem intenção (foi acidental), existiam cidades de refúgio onde a pessoa podia buscar proteção do “vingador do sangue – o parente mais próximo da vítima” até que o caso fosse devidamente julgado (Êx 21.13; Nm 35.11-12). O homicida intencional que nas cidades de refúgio buscasse abrigo seria retirado de lá e entregue ao vingador do sangue, para que fosse morto (Dt 19.11-13).

– É interessante destacar, ainda, que a culpa de sangue também recai sobre aquelas pessoas que, por irresponsabilidade ou descuido, tomam decisões equivocadas, colocando alguém em risco ou deixando de tomar as medidas protetivas ou de segurança, acarretando a morte de outrem, como no caso de construir um terraço sem o parapeito de segurança mencionado em Deuteronômio 22.8. Certamente sempre seremos responsáveis por nossa negligência e imperícia, porque o sangue da nossa eventual vítima será reivindicado.

– É impressionante o caso de três anos de fome em Israel por causa da culpa de sangue sobre Saul e seus descendentes pela morte dos gibeonitas com os quais havia uma aliança que foi quebrada por Saul. Essa culpa somente foi anulada com a matança de sete descendentes de Saul, com esse significativo desfecho: “Depois disto, Deus se tornou favorável para com a terra.” (2Sm 21.1-14). 

– No Novo Testamento, fica muito evidente a consciência que se tinha sobre essa “culpa de sangue”. Pilatos, ao lavar as mãos para simbolizar que não era responsável pela morte de Jesus, diz: “Estou inocente do sangue deste justo” (Mt 27.24). “E o povo todo respondeu: Caia sobre nós o seu sangue e sobre nossos filhos!” (Mt 27.25) .” 

Enfim, esses exemplos e textos refletem o ensino bíblico de que a vida é sagrada, e que o derramamento de sangue inocente traz consigo uma culpa que precisa ser tratada, seja por meio da justiça divina ou da humana. Cabe aqui uma boa reflexão sobre a prática do aborto e a culpa de sangue!

3. COMO SE LIVRAR DA MALDIÇÃO HEREDITÁRIA

A Bíblia não menciona explicitamente o termo “quebra de maldição hereditária”, mas o conceito pode ser inferido, não como alguns entendem, mas como a bíblia diz, como veremos a seguir.

3.1 A responsabilidade individual

“Tu usas de misericórdia para com milhares e retribuis a iniquidade dos pais nos filhos; tu és o grande, o poderoso Deus, cujo nome é o SENHOR dos Exércitos, grande em conselho e magnífico em obras; porque os teus olhos estão abertos sobre todos os caminhos dos filhos dos homens, para dar a cada um segundo o seu proceder, segundo o fruto das suas obras.” (Jr 32.18-19)

“Veio a mim a palavra do SENHOR, dizendo: Que tendes vós, vós que, acerca da terra de Israel, proferis este provérbio, dizendo: Os pais comeram uvas verdes, e os dentes dos filhos é que se embotaram? Tão certo como eu vivo, diz o SENHOR Deus, jamais direis este provérbio em Israel. Eis que todas as almas são minhas; como a alma do pai, também a alma do filho é minha; a alma que pecar, essa morrerá.” (Ez 18.1-4)

Circulava um provérbio popular entre o povo em Jerusalém (Jr 31.29) e na Babilônia, afirmando que os filhos estavam sofrendo pelos pecados cometidos pelos pais. Embora essa ideia tivesse alguma base nas declarações do Senhor (Êx 20.5-6; 34.6-7; Nm 14.18), Deus deixa claro que cada indivíduo é responsável por seus próprios pecados. Isso reforça a ideia de que, apesar das consequências que os pecados de uma geração possam ter sobre a próxima, cada pessoa será julgada por suas próprias ações e escolhas.

Diante da maldição herdada da queda de Adão e dos nossos ascendentes, sendo notificados pelo Senhor sobre sua responsabilidade individual, o que resta ao homem?

3.2 A providência divina

“Mas ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados. Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo caminho, mas o SENHOR fez cair sobre ele a iniquidade de nós todos.” (Is 53.5-6)

“Logo, muito mais agora, sendo justificados pelo seu sangue, seremos por ele salvos da ira.” (Rm 5.9)

“Todos quantos, pois, são das obras da lei estão debaixo de maldição; porque está escrito: Maldito todo aquele que não permanece em todas as coisas escritas no Livro da lei, para praticá-las. E é evidente que, pela lei, ninguém é justificado diante de Deus, porque o justo viverá pela fé. Ora, a lei não procede de fé, mas: Aquele que observar os seus preceitos por eles viverá. Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se ele próprio maldição em nosso lugar (porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado em madeiro), para que a bênção de Abraão chegasse aos gentios, em Jesus Cristo, a fim de que recebêssemos, pela fé, o Espírito prometido.” (Gl 3.10-14)

A norma da lei estabelecia: “Eis que todas as almas são minhas; como a alma do pai, também a alma do filho é minha; a alma que pecar, essa morrerá.” (Ez 18.4). A culpa de sangue deveria ser expiada com sangue. O escritor aos hebreus afirma: “Com efeito, quase todas as coisas, segundo a lei, se purificam com sangue; e, sem derramamento de sangue, não há remissão.” (Hb 9.22) 

Cristo nos redime da maldição da lei, por haver-se feito maldição em nosso lugar (Gl 3.13). Jesus Cristo veio para libertar os eleitos de toda maldição do pecado, seja a maldição universal decorrente da queda de Adão, seja aquela herdada de nossos ascendentes. A obra redentora de Cristo rompe com qualquer maldição hereditária, oferecendo plena libertação, inclusive de situações como a de uma pessoa que quando bebê foi oferecida ou consagrada a entidades malignas. Dessa forma, o crente, salvo pela graça, tem o poder e a autoridade espiritual para enfrentar qualquer problema e viver na liberdade que Jesus oferece. Cristo não apenas perdoa os pecados, mas também remove os efeitos espirituais negativos que poderiam ser transmitidos através das gerações, permitindo que os fiéis vivam uma vida nova e livre em sua presença. Vale ressaltar e alertar aqui a lei da colheita, conforme a semeadura. O salvo por Jesus Cristo, após a sua conversão não ficará isento das consequências das suas más ações anteriores!

Portanto, o conceito de “quebra de maldição hereditária” pode ser visto como parte do processo de redenção e renovação oferecido por Cristo. Os crentes, ao colocarem sua fé em Jesus, são libertos de qualquer maldição que possa ter sido transmitida através de gerações, vivendo agora sob a bênção e proteção de Deus. Isso implica que a “quebra” ocorre quando uma pessoa recebe a Jesus Cristo e vive de acordo com os princípios do Evangelho.

3.3 A necessidade de arrependimento e confissão

“O que encobre as suas transgressões jamais prosperará; mas o que as confessa e deixa alcançará misericórdia.” (Pv 28.13)

O pecado de Davi envolvendo o adultério com Bate-Seba e a morte encomendada de Urias foi muito grave. A sentença divina proferida pelo profeta Natã também incluiu sua casa e descendência e começou assim: “Por que, pois, desprezaste a palavra do SENHOR, fazendo o que era mal perante ele? A Urias, o heteu, feriste à espada; e a sua mulher tomaste por mulher, depois de o matar com a espada dos filhos de Amom. Agora, pois, não se apartará a espada jamais da tua casa,…” (2Sm 12.9-10a). Davi assumiu sua culpa e pecado naquela mesma hora, pois ele era um homem segundo o coração de Deus (2Sm 12.13a). O Salmo 51 expressa bem a sua confissão e arrependimento. Deus prescruta a intenção do coração e o perdoou e declarou: “Disse Natã a Davi: Também o SENHOR te perdoou o teu pecado; não morrerás. Mas, posto que com isto deste motivo a que blasfemassem os inimigos do SENHOR, também o filho que te nasceu morrerá.” (2Sm 12.13b-14). Apesar do perdão divino, teve um “mas” (conjunção adversativa), a criança gerada do adultério morreria, e as demais partes da sentença não seriam revogadas. A confissão e arrependimento traz o perdão, e com o perdão a revogação da culpa, porém, não traz a revogação das consequências dos pecados anteriormente cometidos.

No Antigo Testamento, há exemplos de orações de confissão de pecados coletivos, onde líderes ou profetas piedosos intercederam por todo o povo de Israel, reconhecendo e se incluindo como autores dos pecados cometidos pela nação, os “pecados geracionais”, clamando pela misericórdia e graça de Deus, como, por exemplo: o sacerdote e escriba Esdras (Ed 9.5-15); o copeiro do rei e, posteriormente, governador de Israel, Neemias (Ne 1.4-11); e o profeta e estadista Daniel (Dn 9.1-19).

“Arrependei-vos, pois, e convertei-vos para serem cancelados os vossos pecados,” (At 3.19)
“Se, com a tua boca, confessares Jesus como Senhor e, em teu coração, creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Porque com o coração se crê para justiça e com a boca se confessa a respeito da salvação.” (Rm 9.5-6) 

O arrependimento e a confissão de pecados são elementos essenciais para a reconciliação com Deus e a justificação/salvação.

João Batista, o precursor do Messias, pregava o arrependimento como uma preparação para a vinda do reino dos céus: “Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus.” (Mt 3.2). Após a ressurreição de Jesus, Pedro disse ao povo: “Respondeu-lhes Pedro: Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo.” (At 2.38).

“Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça.” (1Jo 1.9)

Até mesmo os salvos, redimidos pela obra do Calvário, precisam se manter puros, confessando os seus pecados na jornada da vida.

Conclusão

Não é razoável ignorar aquilo que nossos antepassados fizeram de mau e que nos trouxe ou traz consequências negativas. Temos visto que de fato existe uma “cadeia genealógica de bênção ou maldição”, isto é, o que você faz de bom ou o seu pecado se torna herança para as próximas gerações. Também não podemos ignorar a responsabilidade que temos pelos nossos atos. Não podemos ignorar o que alguns chamam de “lei da herança” e “lei da responsabilidade individual”.

Afinal, a maldição hereditária afeta o crente?

Em Cristo somos feitos nova criatura: “E, assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas.” (2Co 5.17). Havendo arrependimento, confissão de pecados e fé em Cristo e na sua obra redentora somos libertos de toda e qualquer maldição do pecado. Habitados e revestidos pelo Espírito Santo somos fortalecidos pelo Senhor e protegidos de toda a obra maligna. Entretanto, isso não nos isentará de pagar o preço das consequências dos nossos atos equivocados ou pecaminosos anteriormente cometidos.

Libertados da pena/condenação e do poder/domínio do pecado, o crente não está livre da presença do pecado. Precisa permanecer sóbrio e vigilante, pois não está livre das investidas do diabo que anda em derredor procurando alguém para devorar (1Pe 5.8). É preciso resistir às investidas da carne, do diabo e do mundo. Se cair, durante a jornada da fé, o crente precisa se arrepender e confessar, restaurando a sua comunhão com Deus (1Jo 1.6-7, 9; 1Jo 2.1-2).

“Aleluia! Bem-aventurado o homem que teme ao SENHOR e se compraz nos seus mandamentos. A sua descendência será poderosa na terra; será abençoada a geração dos justos.” (Sl 112.1-2)

Na visão bíblica, os atos dos pais podem ter repercussões sobre seus descendentes, tanto em termos de maldição, quanto de bênção. No entanto, Ezequiel 18.19-20 oferece uma perspectiva importante, enfatizando a responsabilidade individual e afirmando que cada pessoa é responsável por seus próprios pecados. Portanto, embora a Bíblia reconheça o impacto das ações de uma geração sobre a outra, ela também sublinha a justiça individual de Deus, que julga cada pessoa de acordo com suas próprias ações.

É importante terminarmos com uma mensagem positiva: “Fui moço e já, agora, sou velho, porém jamais vi o justo desamparado, nem a sua descendência a mendigar o pão.” (Sl 37.25)

E, assim, que Deus nos ajude!

Bibliografia

1. Bíblia Sagrada (SBB – Versão Revista e Atualizada).
2. Bíblia Online – SBB.
3. R. N. Champlin, Ph. D. – Enciclopédia de Bíblia, Teologia & Filosofia (Ed. Hagnos) – 2011.
4. Internet / ChatGPT.

A cura do cego de nascença

A CURA DO CEGO DE NASCENÇA (Jo 9. 1-41)
Uma ilustração da redenção do homem e suas consequências.

Introdução

Ainda na festa dos tabernáculos, num contexto de muitas discussões sobre a autenticidade messiânica de Jesus, João apresenta uma narrativa extensa sobre um grande milagre operado por Jesus dando visão a um cego de nascença, o único caso, entre os  sete casos registrados pelos evangelhos (Mt 9.27 [2]; Mc 8.22; Mt 12.22; 20.30 [2] e Jo 9.1).  O milagre em si e a narrativa cumpriram o importante papel de testificar que Jesus era verdadeiramente o Messias, porquanto, homem algum, nem mesmo possuído por Satanás, havia curado um cego de nascença.

Há muito mais neste texto do que uma cura de Jesus. Jesus ilustra a sua missão como “Luz do Mundo” (Jo 9.5), concedendo a visão física, a um cego de nascença e, em seguida, completa a obra, concedendo a visão espiritual. A riqueza de detalhes encontrados nesta história nos conduz aos elementos característicos da operação divina no homem, uma ilustração da redenção do homem e suas consequências. A redenção….

a) É resultado da iniciativa de Deus (v.1a)

1a  Caminhando Jesus, viu….

O olhar de Jesus é diferente: penetrante (vê o interior, pesa os sentimentos e  amarguras da alma) e ativo (contempla, se  compadece, se aproxima e auxilia).

Deus também viu que não havia um mediador humano, alguém com as qualificações necessárias para a tão elevada missão de salvação, então, ele próprio a providenciou enviando o seu Filho, Jesus Cristo, como mediador e salvador, no seu primeiro advento: “Viu que não havia ajudador algum e maravilhou-se de que não houvesse um intercessor; pelo que o seu próprio braço lhe trouxe a salvação, e a sua própria justiça o susteve.” (Is 59.16). O mesmo profeta Isaías complementa: “O SENHOR desnudou o seu santo braço à vista de todas as nações; e todos os confins da terra verão a salvação do nosso Deus.” (Is 52.10). Foi essa  visão divina que trouxe Jesus ao mundo (Sl  14.2-3; Gl 4.4; Hb 1.1-3).

b) É focalizada na necessidade humana (v.1b)

1b ….um homem cego de nascença.

A necessidade humana é aqui contemplada por Jesus; e, pela trindade santa, desde sempre. Já nascemos em pecado, portanto, somos pecadores de nascença, conforme confessou o rei Davi: “Eu nasci na iniquidade, e em pecado me concebeu minha mãe.” (Sl 51.5). E, o apóstolo Paulo conclui: “como está escrito: Não há justo, nem um sequer,  não há quem entenda, não há quem busque a Deus; todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um sequer, pois todos pecaram e carecem da glória de Deus,  sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus,” (Rm 3.10-12, 23-24). É assim que todos somos encontrados e contemplados pela visão divina desde o nosso nascimento. Não é correto pensar e acreditar que a natureza humana é essencialmente boa. Claro que não é! Isso é discurso mentiroso de uma religião falsa que quer agradar as pessoas e cooptar adeptos.

c) É de acordo com a vontade de Deus (vv. 2-3)

2  E os seus discípulos perguntaram: Mestre, quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego?

Havia falsas crenças entre os judeus de que a doença e o sofrimento eram resultado de uma punição pelo pecado praticado pela pessoa em alguma outra existência passada ou resultado do pecado praticado pelos pais. A primeira tem a ver com a doutrina da reencarnação e a segunda com a chamada maldição hereditária (ver Ex 20.5; 34.7; Nm 14.18; Dt 5.9; Ez 18.2).

3  Respondeu Jesus: Nem ele pecou, nem seus pais; mas foi para que se manifestem nele as obras de Deus.

Jesus, em sua resposta, descarta as duas supostas alternativas determinantes do sofrimento humano. Deus está no controle e pode transformar em bem aquilo que parece mal e cruel aos olhos humanos. Deus tinha um propósito na vida daquele cego e com aquele milagre de cura.

d) É para ser agenciada em caráter de urgência (vv. 4-5)

4  É necessário que façamos as obras daquele que me enviou, enquanto é dia; a noite vem, quando ninguém pode trabalhar.
5  Enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo.

Jesus mesmo se declara a “luz do mundo”, pois veio ao mundo para abrir os olhos aos espiritualmente cegos: “Prosseguiu Jesus: Eu vim a este mundo para juízo, a fim de que os que não veem vejam, e os que veem se tornem cegos.” (Jo 9.39). Ele tinha pressa em realizar sua missão pois tinha consciência da exiguidade do seu tempo entre nós e da urgência em viabilizar a salvação de todo aquele que crê.

e) É através de Jesus (v. 6)

6  Dito isso, cuspiu na terra e, tendo feito lodo com a saliva, aplicou-o aos olhos do cego,

O método divino aqui utilizado pode até causar estranheza ou repulsa em algumas pessoas. Quem sabe se alguns circunstantes, vendo aquele “ritual grotesco”, censuraram veladamente ou abertamente a Jesus, julgando que tal ato se revestia da intenção de impor humilhação ao pobre homem que nem sequer podia ver o que o Mestre fazia? Só a mente divina é capaz de entender a razão ou motivação de tal ritual de cura. Como a imaginação não tem limites e pode até ganhar asas e flutuar na vastidão do espaço das ideias, sem compromisso com a exata, mas nem sempre disponível, interpretação teológica,  arrisco compartilhar aqui a seguinte ideia. Jesus, o também Deus-Criador, temporariamente encarnado, reproduz diante de todos o ato criativo do gênesis, desta vez cuspindo e manuseando outra vez a terra, o barro, para aplicar e restaurar o órgão defeituoso daquele homem. No início Adão foi formado do barro, do pó da terra, mas teve o toque e o sopro de vida divinos! Da mesma forma este cego recebe o toque divino para que a luz divina adentre o seu ser.

Por falar em método estranho, o apóstolo Paulo também menciona, por diversas vezes, que a mensagem do Evangelho, a pregação da Cruz é loucura para os que se perdem, para aqueles que acham que têm boa visão, mas que permanecem cegos espiritualmente. “Visto como, na sabedoria de Deus, o mundo não o conheceu por sua própria sabedoria, aprouve a Deus salvar os que creem pela loucura da pregação.” (1Co 1.21, ver 1Co 1.18-25; 2.14).

f) É recebida através da obediência do homem (v. 7)

7  dizendo-lhe: Vai, lava-te no tanque de Siloé (que quer dizer Enviado). Ele foi, lavou-se e voltou vendo.

Antes de prosseguir é importante esclarecer que, segundo a hermenêutica bíblica, que é a ciência, a arte de interpretação das Sagradas Escrituras, as parábolas proferidas por Jesus são narrativas alegóricas destinadas a transmitir verdades e conceitos gerais importantes. Portanto, não tiveram o propósito de servir de fonte de doutrina da fé cristã para a igreja, nem tampouco os detalhes e pormenores das narrativas se prestam a isso. O que estamos fazendo aqui é, a partir da doutrina exposta nas Epístolas doutrinárias, identificando e destacando de forma reversa alguns aspectos da redenção humana.

Isso posto, que fique claro que a salvação é obra exclusiva de Deus; portanto, não depende das obras humanas: “que nos salvou e nos chamou com santa vocação; não segundo as nossas obras, mas conforme a sua própria determinação e graça que nos foi dada em Cristo Jesus, antes dos tempos eternos,” (2Tm 1.9). Deste versículo 7 podemos destacar dois aspectos importantes:

  • Submissão ao método divino.

Quem é o ser humano para questionar o método divino? Sendo Deus a parte ofendida só ele poderia estabelecer as regras e condições para que o homem voltasse a ter comunhão com ele. Estas regras e condições incluíam a necessidade de um mediador com as características de Jesus. Conforme já comentamos, isso é loucura para os que se perdem!

  • Recepção e Obediência à palavra de Jesus.

O homem cego nem sabia ao certo tudo o que estava acontecendo. Ele recebeu o toque de Jesus, ouviu a sua palavra, recebeu-a em sua mente e coração, creu nela e obedeceu. Jesus nos ensinou assim: “Em verdade, em verdade vos digo: quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna, não entra em juízo, mas passou da morte para a vida.” (Jo 5.24). E o apóstolo Paulo acrescenta: “E, assim, a fé vem pela pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo.” (Rm 10.17). Os ensinos de Jesus enfatizam a importância do arrependimento, do crer nele e na sua palavra, do recebe-lo e da obediência à vontade de Deus: “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que creem no seu nome; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus.” (Jo 1.12-13)

O lavar neste texto nos leva a pensar no lavar regenerador do Espírito Santo: “não por obras de justiça praticadas por nós, mas segundo sua misericórdia, ele nos salvou mediante o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo,” (Tt 3.5); “Tais fostes alguns de vós; mas vós vos lavastes, mas fostes santificados, mas fostes justificados em o nome do Senhor Jesus Cristo e no Espírito do nosso Deus.” (1Co 6.11)

g) É transformadora (vv. 8-9)

8   Então, os vizinhos e os que dantes o conheciam de vista, como mendigo, perguntavam: Não é este o que estava assentado pedindo esmolas?
9  Uns diziam: É ele. Outros: Não, mas se parece com ele. Ele mesmo, porém, dizia: Sou eu.

Os vizinhos e conhecidos do homem outrora cego ficaram confusos. Se parecia com ele, mas estava diferente. Antes era visto como um mendigo desprezível, um pobre coitado, um ser socialmente excluído. Agora, parecia um novo homem. Ele, porém, assumia e declarava sua mesma identidade, mas uma nova condição.

Quando o Espírito Santo regenera uma pessoa acontece algo extraordinário. A transformação maior acontece no seu interior, mas o seu exterior também é positivamente afetado. Não significa que atingiu a perfeição e não pecará mais. Não significa que era pobre e agora ficará rico.

O fato é que a habitação e o fruto do Espírito fazem dessa pessoa alguém diferente, uma nova criatura em Cristo, com um novo propósito de vida, com uma nova conduta e forma de agir. Em alguns casos a transformação é imediata e radical; em outras é mais lenta e gradual. Porém, é mandatório existir essa transformação!

h) É espantosa à mente humana (os vizinhos – vv. 10-12)

10  Perguntaram-lhe, pois: Como te foram abertos os olhos?
11  Respondeu ele: O homem chamado Jesus fez lodo, untou-me os olhos e disse-me: Vai ao tanque de Siloé e lava-te. Então, fui, lavei-me e estou vendo.
12  Disseram-lhe, pois: Onde está ele? Respondeu: Não sei.

Certamente essa boa e perceptível transformação favorece o surgimento das primeiras oportunidades de testemunhar aquilo que Deus fez em nossa vida. Já vivi o suficiente para ver o antes e o depois de pessoas transformadas por Cristo. A diferença é verdadeiramente surpreendente. Já tomei conhecimento de casais que participaram do evento Encontro de Casais com Cristo e tiveram suas vidas transformados. Uma amiga perguntou à esposa de um desses casais: – O que aconteceu com o seu marido, ele está tão diferente, parece até outra pessoa. Ela respondeu: – Nós participamos de um Encontro de Casais com Cristo. A amiga desabafou: – Nossa, que bom! Eu quero isso para o meu marido também!

 O intrigante é ser questionado sobre o que realmente aconteceu e na resposta só se ater aos detalhes elementares e materiais. É compreensível, afinal, como explicar as operações sobrenaturais de Deus, no coração humano? Testemunhar com fidelidade o que aconteceu, sua experiência pessoal com Deus, vale mais do que muitas teorias e filosofias.

i) É agente de polêmica para a religião formal (os fariseus – vv. 13-17)

13  Levaram, pois, aos fariseus o que dantes fora cego.
14  E era sábado o dia em que Jesus fez o lodo e lhe abriu os olhos.
15  Então, os fariseus, por sua vez, lhe perguntaram como chegara a ver; ao que lhes respondeu: Aplicou lodo aos meus olhos, lavei-me e estou vendo.
16  Por isso, alguns dos fariseus diziam: Esse homem não é de Deus, porque não guarda o sábado. Diziam outros: Como pode um homem pecador fazer tamanhos sinais? E houve dissensão entre eles.
17  De novo, perguntaram ao cego: Que dizes tu a respeito dele, visto que te abriu os olhos? Que é profeta, respondeu ele.

Mais uma marca da regeneração é que a nova criatura em Cristo passa a ser observada e confrontada pelo sistema majoritário ou dominante, quer religioso, quer secular. Esse é o preço de viver e praticar a contracultura cristã num mundo que jaz no maligno. Os versículos em análise neste tópico comprovam isso. O farisaísmo legalista daquela época e de sempre está mais preocupado com uma suposta violação do descanso sabático do que com o bem praticado a um pobre homem. É claro que o objetivo final é desqualificar o enviado de Deus. Vale ressaltar a postura e reação do que fora cego. (i) Ele não se intimida mesmo estando sob muita pressão de pessoas influentes. (ii) Ele não vacila, mas mantém a resposta, a verdade dos fatos ocorridos. (iii) Ele ousa defender o seu benfeitor, refutando os poderosos acusadores de Jesus, com um argumento de peso, ao ponto de criar dissensão entre eles. (iv) Ele demonstra uma visão crescente a respeito da pessoa de Jesus – que é profeta – e ousa declarar isso num meio tão hostil.

j) É motivo de escândalo para aqueles que não querem perder o prestígio (os pais – vv. 18-23)

18  Não acreditaram os judeus que ele fora cego e que agora via, enquanto não lhe chamaram os pais
19  e os interrogaram: É este o vosso filho, de quem dizeis que nasceu cego? Como, pois, vê agora?
20  Então, os pais responderam: Sabemos que este é nosso filho e que nasceu cego;
21  mas não sabemos como vê agora; ou quem lhe abriu os olhos também não sabemos. Perguntai a ele, idade tem; falará de si mesmo.
22  Isto disseram seus pais porque estavam com medo dos judeus; pois estes já haviam assentado que, se alguém confessasse ser Jesus o Cristo, fosse expulso da sinagoga.
23  Por isso, é que disseram os pais: Ele idade tem, interrogai-o.

A reação dos incrédulos muitas vezes acaba cumprindo o papel de prestar um serviço valioso para atestar e ratificar a operação miraculosa de Deus. Essa rigorosa apuração dos fatos conduzida por aqueles religiosos ciumentos, interrogando os pais do curado, só contribuíram para a comprovação do fato. Chama a atenção aqui a flagrante diferença de postura por parte dos pais do homem curado: (i) Eles procuram manter uma postura de isenção e distanciamento do fato, mesmo percebendo a grande bênção recebida pelo filho – “não sabemos como vê agora”.  (ii) Preferem não expor qualquer simpatia por Cristo – “ou quem lhe abriu os olhos”. (iii) Transferem toda a responsabilidade pela explicação para o filho curado – “perguntai a ele”. (iv) O texto (versículo 22) deixa claro que eles agiram dominados pelo medo de serem expulsos da sinagoga, da sua religião formal.

Outra consequência da regeneração é a reação da família quando um dos seus membros acolhe a fé cristã. Essa reação pode se manifestar de várias formas: Às vezes pode ser positiva, entretanto, é mais comum ser de (i) desconfiança; (ii) indiferença; (iii) contrariedade e desagrado pelo rompimento com a religião tradicional da família; (iv) rejeição e expulsão de casa, como manifestação extremada de repulsa. Assim, o novo convertido precisa estar preparado para lidar com essas reações, mantendo-se firme no Senhor.

k) É um fato incontestável (vv. 24-34)

24  Então, chamaram, pela segunda vez, o homem que fora cego e lhe disseram: Dá glória a Deus; nós sabemos que esse homem é pecador.
25  Ele retrucou: Se é pecador, não sei; uma coisa sei: eu era cego e agora vejo.

O fato da cura é comprovado naquele em que se realizou a obra divina. O fato em si é mais relevante do que a sua explicação racional. Assim se dá com a regeneração espiritual e isso é um bom princípio para o evangelismo pessoal.

26  Perguntaram-lhe, pois: Que te fez ele? como te abriu os olhos?
27  Ele lhes respondeu: Já vo-lo disse, e não atendestes; por que quereis ouvir outra vez? Porventura, quereis vós também tornar-vos seus discípulos?
28  Então, o injuriaram e lhe disseram: Discípulo dele és tu; mas nós somos discípulos de Moisés.
29  Sabemos que Deus falou a Moisés; mas este nem sabemos donde é.
30  Respondeu-lhes o homem: Nisto é de estranhar que vós não saibais donde ele é, e, contudo, me abriu os olhos.
31  Sabemos que Deus não atende a pecadores; mas, pelo contrário, se alguém teme a Deus e pratica a sua vontade, a este atende.
32  Desde que há mundo, jamais se ouviu que alguém tenha aberto os olhos a um cego de nascença.
33  Se este homem não fosse de Deus, nada poderia ter feito.
34  Mas eles retrucaram: Tu és nascido todo em pecado e nos ensinas a nós? E o expulsaram.

O fato extraordinário comprova a procedência do poder que o realizou. O texto em análise demonstra a insistência das autoridades religiosas em buscar uma resposta racional para o ocorrido. Por outro lado, também apresenta a impaciência do curado e seus atos de coragem e renúncia: (i) confrontando os seus inquiridores de forma extremamente ousada – “quereis vós também tornar-vos seus discípulos?”;  (ii) declarando a incompetência deles em identificar quem era aquele que realizou tão grande milagre e sua procedência – “é de estranhar que vós não saibais donde ele é”; (iii) usando argumentos teológicos incontestáveis – “Deus não atende a pecadores” (Jó 27.8-9; Sl 66.16-19; Pv 15.29; Zc 7.13); (iv) defendendo o caráter piedoso daquele que o curou – Jesus – que foi atendido devido à sua condição espiritual aceitável diante de Deus – “se alguém teme a Deus e pratica a sua vontade, a este atende.”; (v) reportando-se à ausência de evidência de milagres como o que nele se realizou na história. A literatura e as tradições judaicas creditam 62 milagres a Moisés. Entre estes, nenhum de cura de cegueira de nascença; (vi) defendendo que o seu benfeitor não era apenas um profeta, não era apenas um homem piedoso, mas alguém provindo de Deus. Suas respostas incisivas foram tão impactantes que os seus inquiridores ficaram sem argumentos e de tão humilhados decidiram expulsá-lo.

As reações do homem curado servem de bom exemplo para os regenerados quando confrontados, principalmente pelos incrédulos e opositores da fé cristã. Certamente aquele homem foi assistido por Deus nas suas respostas e a promessa que recebemos é que o Espírito Santo há de nos assistir (Jo 14.26; 16.13).  

l) É o agente que não apenas transforma, mas conduz: (vv. 35-38)

35   Ouvindo Jesus que o tinham expulsado, encontrando-o, lhe perguntou: Crês tu no Filho do Homem?
36  Ele respondeu e disse: Quem é, Senhor, para que eu nele creia?
37  E Jesus lhe disse: Já o tens visto, e é o que fala contigo.
38  Então, afirmou ele: Creio, Senhor; e o adorou.

Percebe-se um conhecimento progressivo de Jesus, por parte daquele que fora cego, que culmina no crer e adorar: (i) Um homem chamado Jesus (v.11); (ii) É profeta (v.17); (iii) Alguém que teme a Deus e pratica a sua vontade (v.31); (iv) “Creio, Senhor; e o adorou.” (v.38).

O apóstolo Paulo nos apresenta a salvação como um processo contínuo, algo a ser desenvolvido: “Assim, pois, amados meus, como sempre obedecestes, não só na minha presença, porém, muito mais agora, na minha ausência, desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor;” (Fp 2.12).  É preciso crescer na fé: “antes, crescei na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.” (2Pe 3.18a) . A figura do leite, como alimento infantil, e a expressão “não sejais como meninos” é mencionada algumas vezes referindo-se àqueles que precisavam crescer e amadurecer espiritualmente (1Co 14.20; Ef 4.14; 1Co 3.2; Hb 5.12-13; 1Pe 2.2).

A pública declaração de fé daquele homem quando do seu encontro com Cristo, nos remete à prática da Profissão de Fé e Batismo dos regenerados em Cristo.

Por fim, após a declaração de fé daquele homem, registra o texto bíblico – “e o adorou.”. Essa atitude de adoração será tanto mais expressiva quanto maior for o nível desse conhecimento de Cristo e a proximidade dele. Essa cena nos remete à figura da Ceia do Senhor, o outro rito praticado pela igreja – “fazei isso em memória de mim”.

m) É o agente que produz separação entre os homens (vv. 39-41)

39   Prosseguiu Jesus: Eu vim a este mundo para juízo, a fim de que os que não vêem vejam, e os que vêem se tornem cegos.
40  Alguns dentre os fariseus que estavam perto dele perguntaram-lhe: Acaso, também nós somos cegos?
41  Respondeu-lhes Jesus: Se fôsseis cegos, não teríeis pecado algum; mas, porque agora dizeis: Nós vemos, subsiste o vosso pecado.

Saindo de cena as narrativas da cura, dos interrogatórios e do encontro do homem curado com Jesus, o texto bíblico apresenta o Senhor Jesus aproveitando o ocorrido para transmitir uma preciosa lição:

– Os que reconhecem a sua “cegueira” e se submetem à operação divina recebem a “visão espiritual”, a salvação eterna;

– Os que não reconhecem a sua “cegueira” e não se submetem à operação divina permanecem sem a “visão espiritual”, e estão perdidos eternamente.