Maldição hereditária!?

Introdução

O que é uma maldição hereditária? A bíblia fala sobre maldição hereditária? Podem os filhos pagar pelos pecados dos pais? É preciso quebrar a “cadeia da maldição hereditária”? Ela afeta o crente? Estas são apenas algumas questões que permeiam o consciente ou inconsciente coletivo, que nunca saem de pauta e que precisam ser esclarecidas.

Maldição e amaldiçoar, o que dizem os dicionários?

Maldiçãosubst. feminino; 1. ação ou efeito de amaldiçoar ou maldizer. 2. Figurado -palavra ou conjunto de palavras que revela a vontade de que algo negativo aconteça; imprecação, praga.

Maldição – Chamamento de mal, sofrimento ou desgraça sobre alguém (Gn 27.12; Rm 3.14). (Bíblia online)

Amaldiçoar – Pronunciar palavras de MALDIÇÃO contra alguém (Gn 12.3; Tg 3.9). (Bíblia online)

1. MALDIÇÃO E BÊNÇÃO HEREDITÁRIAS

1.1 A origem e a realidade da maldição hereditária

Desde o início da história humana, bênção e maldição, assim como, abençoar e amaldiçoar, têm caminhado juntos como forças opostas. A ocorrência inicial e primeira manifestação de maldição aconteceu como consequência da desobediência a Deus e a queda dos nossos primeiros pais, sendo proferida sobre a: Serpente“Então, o SENHOR Deus disse à serpente: Visto que isso fizeste, maldita és entre todos os animais…” (Gn 3.14);  Terra“E a Adão disse: Visto que atendeste a voz de tua mulher e comeste da árvore que eu te ordenara não comesses, maldita é a terra por tua causa;” (Gn 3.17). E, assim, a desobediência, rebeldia e transgressão de um casal – Adão e Eva – acarreta a maldição de toda a criação. Surge, então aqui uma primeira ideia de maldição hereditária, quando os descendentes sofrem a maldição por causa do seu ascendente.

Algum tempo depois, Caim mata seu irmão Abel e é amaldiçoado por Deus (Gn 4.11).

Noé amaldiçoou o seu neto Canaã, porque Cam, o pai de Canaã, o teria desonrado por ocasião da sua embriaguez (Gn 9.20-27). A bíblia não nos revela se Canaã também esteve de alguma forma envolvido no episódio. Surge aí, então, mais um caso de maldição (hereditária).

1.2 A origem e a realidade da bênção hereditária

A Bíblia também menciona várias vezes o conceito de bênção transmitida de uma geração para a(s) seguinte(s), o que pode ser entendido como uma espécie de “bênção hereditária”. Neste sentido, dois exemplos muito emblemáticos, são: (i) Abraão e seus descendentes: Em Gênesis 17.7, Deus faz uma aliança com Abraão, prometendo bênçãos a ele e a seus descendentes (Gn 17.7-10). Essa bênção foi confirmada a Isaque (Gn 26.2-5) e a Jacó (Gn 28.13-15). Deus prometeu abençoar a descendência de Abraão, fazendo deles uma grande nação. (ii) Davi e seus descendentes: Deus promete a Davi que sua dinastia durará para sempre e que seus descendentes serão abençoados, com uma aliança eterna estabelecida com a sua casa (2Sm 7.12-16).

1.3 As alianças de Deus com os homens e suas consequências

É preciso destacar que o registro bíblico nos dá conta de oito principais alianças de Deus com o homem. Uma aliança é um pronunciamento soberano de Deus através do qual ele estabelece um relacionamento de responsabilidade entre ele mesmo e um indivíduo, ou uma família, ou uma nação, ou a humanidade em geral. As oito alianças são: (1) Edêmica (Gn 2.16); (2) Adâmica (Gn 3.15); (3) Noética (Gn 9.16); (4) Abraâmica (Gn 12.2); (6) Mosaica (Êx 19.5); (7) Davídica (2Sm 7.16); e a Nova Aliança (Hb 8.8). Naturalmente é Deus quem estabelece as bases dessas alianças e compete às partes cumprirem suas obrigações, sendo desnecessário dizer que Deus jamais deixará de cumprir a sua parte.

Há bênçãos ou maldições, individuais ou coletivas, como consequência da obediência ou desobediência a Deus, à sua Lei, à sua Aliança (Lv 26; Dt 27-28).

“Eis que, hoje, eu ponho diante de vós a bênção e a maldição: a bênção, quando cumprirdes os mandamentos do SENHOR, vosso Deus, que hoje vos ordeno; a maldição, se não cumprirdes os mandamentos do SENHOR, vosso Deus, mas vos desviardes do caminho que hoje vos ordeno, para seguirdes outros deuses que não conhecestes.” (Dt 11.26-28)

A característica básica dessas alianças, no que diz respeito à parte humana, é que a obediência é recompensada com bênçãos, ao passo que a desobediência acarreta disciplina e maldição. A cerimônia de ratificação da Aliança Mosaica, isto é, de Deus com Israel, registrada em Deuteronômio 27 e 28 é bastante interessante e pedagógica, ilustrando esta característica. “Moisés deu ordem, naquele dia, ao povo, dizendo: Quando houveres passado o Jordão, estarão sobre o monte Gerizim, para abençoarem o povo, estes: Simeão, Levi, Judá, Issacar, José e Benjamim. E estes, para amaldiçoar, estarão sobre o monte Ebal: Rúben, Gade, Aser, Zebulom, Dã e Naftali.” (Dt 27.11-13). Os levitas pronunciam, em alta voz, testificando a todo o povo de Israel 12 maldições (Dt 27.14-26). Nesta mesma ratificação da Aliança, são proferidas as Promessas de Bênçãos (Dt 28.1-14) e as Promessas de Maldições (Dt 28.15-68). É sem dúvida impressionante a abrangência dessas bênçãos e maldições!

Na Nova Aliança, conforme revelada no Novo Testamento, os conceitos de bênção e maldição são abordados de forma diferente em comparação à Antiga Aliança. A bênção está centrada em Cristo. Aqueles que estão em Cristo são considerados abençoados com toda sorte de bênçãos espirituais (Ef 1.3). A bênção não é mais apenas física ou material, mas abrange uma dimensão espiritual e eterna.  A bênção está intimamente ligada à fé em Cristo e à obediência ao Evangelho. A salvação, a vida eterna, a paz e o perdão dos pecados são algumas das bênçãos concedidas através de Cristo. A maldição, por outro lado, é vista no contexto da rejeição a Cristo. Para aqueles que rejeitam o Evangelho, há um juízo reservado. A maldição, portanto, na Nova Aliança, pode ser entendida como a separação de Deus e o julgamento e condenação eternos para aqueles que rejeitam a salvação oferecida em Cristo (Jo 3.36; 2Ts 1.8-9).

2. O PESO E A EFETIVIDADE DA MALDIÇÃO

O que significa exatamente a maldição proferida por Deus e a maldição proferida pelo homem ao seu semelhante? Qual o peso e efetividade de uma e de outra?

2.1 A manifestação de Deus

Quando da entrega dos dez mandamentos a Moisés e ao povo de Israel, na sequência do pronunciamento do segundo mandamento, Deus faz uma revelação surpreendente e impactante:

“Não farás para ti imagem de escultura, nem semelhança alguma do que há em cima nos céus, nem embaixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não as adorarás, nem lhes darás culto; porque eu sou o SENHOR, teu Deus, Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos até à terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem e faço misericórdia até mil gerações daqueles que me amam e guardam os meus mandamentos.” (Êx 20.4-6; ver tb Dt 5.9-10)

Em relação ao assunto em pauta, há aqui duas declarações divinas que precisam ser bem entendidas. Para tanto é importante mencionar outras duas citações referentes ao texto acima. Após o cometimento do pecado e quebra da lei, por ocasião da feitura e adoração do bezerro de ouro (Êx 32), depois da intercessão de Moisés a Deus e do arrependimento do povo, quando da renovação da Aliança, Moisés assim clamou: “E, passando o SENHOR por diante dele, clamou: SENHOR, SENHOR Deus compassivo, clemente e longânimo e grande em misericórdia e fidelidade; que guarda a misericórdia em mil gerações, que perdoa a iniquidade, a transgressão e o pecado, ainda que não inocenta o culpado, e visita a iniquidade dos pais nos filhos e nos filhos dos filhos, até à terceira e quarta geração!” (Êx 34.6-7). E, ainda, em outra ocasião posterior, após a manifestação de incredulidade e rebeldia do povo ao receber o relatório dos espias e ser castigado com quarenta anos de peregrinação no deserto, Moisés assim clama ao Senhor: “O SENHOR é longânimo e grande em misericórdia, que perdoa a iniquidade e a transgressão, ainda que não inocenta o culpado, e visita a iniquidade dos pais nos filhos até à terceira e quarta gerações.” (Nm 14.18)

a) A “maldição hereditária” (até a terceira e quarta gerações)

 “…visito a iniquidade dos pais nos filhos até à terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem…” (Êx 20.5b)
“…ainda que não inocenta o culpado, e visita a iniquidade dos pais nos filhos e nos filhos dos filhos, até à terceira e quarta geração!” (Êx 34.7b)
“…ainda que não inocenta o culpado, e visita a iniquidade dos pais nos filhos até à terceira e quarta gerações.” (Nm 14.18b)

Diante destes textos e de tudo o que já foi exposto anteriormente, fica claro que há no registro bíblico maldição hereditária; que ela acontece quando os pais pecam, quando há pecado na família. Certamente o pecado acarreta maldição. No entanto, é preciso ter cuidado com conclusões precipitadas, ao associar problemas vivenciados pelo indivíduo ou pela família com maldição hereditária. Jesus veio para nos salvar e libertar da maldição do pecado.

É fato que todos nós herdamos várias características genéticas de nossos pais e ascendentes, que determinam aspectos físicos, de temperamento e mentais. No processo de criação de filhos, da mesma forma, é comum ocorrer a influência deles no que diz respeito a crenças, princípios e valores, e espiritualidade. No entanto, essas características físicas, psicológicas, éticas e espirituais não determinam completamente nossa identidade, nosso jeito de ser, nossas atitudes e escolhas. Cada pessoa é responsável por seus atos e decisões, possuindo a capacidade de definir o seu próprio destino, independentemente das influências herdadas. Embora as heranças físicas, psicológicas e espirituais possam impactar a vida, elas não determinam de forma absoluta quem somos ou como agimos. Através de escolhas conscientes, cada indivíduo tem o poder de superar ou reforçar essas influências, definindo seu próprio caminho. Naturalmente, se somos guiados pelo Espírito de Deus e vivemos na sua dependência, nosso destino é conduzido pelo Senhor!

“Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram.” (Rm 5.12)

Já foi exposto anteriormente que toda a raça humana foi afetada pela maldição hereditária dos nossos primeiros pais (Rm 5.12), e, não somente os nossos primeiros pais, mas todos nós temos uma natureza pecaminosa, uma inclinação para pecar e, não há quem não cometa pecado, não há justo, nem sequer um (Rm 3.10). Assim, quando cada pessoa peca, está afetando a si mesma, os seus familiares e a sociedade.

O texto diz enfaticamente que aqueles que rejeitam e desobedecem a Deus, cometendo pecados, seus pecados podem afetar três ou quatro gerações. Como entender isso? Primeiramente vale ressaltar que nossos pecados não passam impunes diante de Deus. Em segundo lugar, nossos pecados, além de afetar diretamente as nossas vidas, afetam nossa família e nossos descendentes. Na verdade, o bem ou mal que fazemos afeta tudo o que está ao nosso redor. Entendemos que a quantificação de três ou quatro gerações não deve ser interpretada literalmente, mas como uma forma de expressar que as consequências do nosso pecado terão efeito por “algum tempo“. Por exemplo, se um pai provedor da família arriscar e perder todo o seu patrimônio devido a uma decisão profissional equivocada ou no jogo, tendo filhos pequenos, todo o futuro desses filhos e dessa família poderá ser comprometido, por algum tempo, por conta da falta de recursos financeiros.

Como entender esse efeito negativo por algum tempo? Seria uma intervenção contínua e punitiva de Deus até aliviar sua ira, ou simplesmente, a ocorrência da “lei da colheita conforme a semeadura”? “Não vos enganeis: de Deus não se zomba; pois aquilo que o homem semear, isso também ceifará.” (Gl 6.7). Se olharmos com este foco para as várias histórias das pessoas e famílias da bíblia veremos claramente as ações realizadas e suas consequências nas gerações seguintes. Um caso que ilustra bem isso é o pecado de Davi envolvendo o adultério com Bate-Seba e a morte encomendada de Urias, acarretando graves consequências na sua família. Como é Deus quem governa e conduz toda a história, não podemos colocar na conta do acaso e desdobramento natural, tudo o que acontece após o cometimento do pecado. Deus é soberano para interferir nessas consequências, aliviando ou pesando a sua mão, conforme a sua soberana vontade.

b) A misericórdia até mil gerações

e faço misericórdia até mil gerações daqueles que me amam e guardam os meus mandamentos.” (Êx 20.6)
“…Deus compassivo, clemente e longânimo e grande em misericórdia e fidelidade; que guarda a misericórdia em mil gerações,…” (Êx 34.6b-7a)
“O SENHOR é longânimo e grande em misericórdia,…” (Nm 14.18a)

Se Deus não inocenta o culpado, por outro lado, ele perdoa o pecado, quando há arrependimento e confissão, porque grande é a sua misericórdia, que é a causa de não sermos consumidos (Lm 3.22). Em dois desses três textos, que guardam certo paralelismo, encontramos a “quantificação” da misericórdia “até ou em mil gerações”. Da mesma forma que a quantificação de três ou quatro gerações não deveria ser interpretada literalmente, mas com a intenção de expressar a ideia de “algum tempo”, entendemos aqui a intenção de expressar a ideia de “muito tempo”. É por isso que o terceiro texto diz que “o Senhor é longânimo e grande em misericórdia”. É interessante que essa expressão da misericórdia de Deus “até” ou “em” ou “para” “mil gerações”, para com aqueles que amam a Deus e guardam os seus mandamentos, ocorre no Antigo Testamento sete vezes (Êx 20.6; 34.7; Dt 5.10; 7.9; 1Cr 16.15; Sl 105.8).

Misericórdia e maldição hereditária não são aspectos mutuamente excludentes, ou seja, a extensa misericórdia do Senhor, embora não inocente o culpado, está continuamente predisposta a perdoar o pecador penitente que deverá necessariamente arcar com as consequências dos seus atos, que poderão afetar a sua descendência.

2.2 A maldição proferida pelo homem

Uma maldição é um pronunciamento de infortúnio, miséria ou calamidade sobre alguém ou algo. Na antiguidade, uma maldição ou bênção proferidas não eram consideradas um mero desejo, mas uma força poderosa. De fato, a imprecação feita por um ser humano contra outro não tem qualquer poder, exceto o de afetá-lo psicologicamente, sugestionando-o a acreditar que a praga rogada vai acontecer, causando medo ou ansiedade que, por sua vez, pode levar a resultados negativos em suas vidas.

Uma maldição pode, também, se tornar uma invocação sobrenatural de punição ou de desgraça, como uma consequência do desagrado devido a ações ou comportamentos específicos, uma expressão de ódio ou condenação por alguém, desejando que algo de ruim aconteça ao outro. Ninguém determina a Deus que faça o mal contra outrem, mas, sabemos que há pessoas encomendam trabalhos junto a entidades malignas para prejudicar desafetos ou com outros propósitos. Neste caso, fica aqui então o alerta de que o ser humano precisa estar protegido contra essas investidas malignas. Não são aqueles amuletos de proteção, segundo a crença popular, que irão nos proteger de ataques malignos, ou de energias negativas, ou contra o mal e, por outro lado, atrair boas vibrações! Os que estão em Cristo estão seguros e protegidos por ele: “embraçando sempre o escudo da fé, com o qual podereis apagar todos os dardos inflamados do Maligno.” (Ef 6.16); “Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não vive em pecado; antes, Aquele que nasceu de Deus o guarda, e o Maligno não lhe toca.” (1Jo 5.18)

2.3 A culpa de sangue

A expressão “culpa de sangue” não é uma invencionice qualquer, é uma expressão cunhada pelo próprio Deus e mencionada literalmente várias vezes no Antigo Testamento (Dt 22.8; 2Sm 21.1; 1Rs 2.32; Ez 22.13; 23.37, 45; 24.7). A Bíblia aborda a questão da “culpa de sangue” principalmente no contexto da justiça e responsabilidade pelo derramamento de sangue inocente. Esse conceito está associado à ideia de que alguém é moralmente ou legalmente responsável quando causa a morte de outra pessoa, e isso traz consequências espirituais e/ou legais. Desde o princípio da história humana, o sangue inocente derramado “ergue a sua voz a Deus” clamando por justiça e vingança, como no caso de Abel (Gn 4.10).

– Deus diz a Noé e aos seus descendentes que haverá cobrança pela vida ceifada de qualquer ser humano (Gn 9.5-6).

– A Lei de Moisés prescreve punições para quem mata outra pessoa (Êx 21.12-14): (i) Homicídio doloso: quem mata intencionalmente (com premeditação) deve ser morto (Êx 21.12, 14); (ii) Homicídio culposo: se a morte ocorreu sem intenção (foi acidental), existiam cidades de refúgio onde a pessoa podia buscar proteção do “vingador do sangue – o parente mais próximo da vítima” até que o caso fosse devidamente julgado (Êx 21.13; Nm 35.11-12). O homicida intencional que nas cidades de refúgio buscasse abrigo seria retirado de lá e entregue ao vingador do sangue, para que fosse morto (Dt 19.11-13).

– É interessante destacar, ainda, que a culpa de sangue também recai sobre aquelas pessoas que, por irresponsabilidade ou descuido, tomam decisões equivocadas, colocando alguém em risco ou deixando de tomar as medidas protetivas ou de segurança, acarretando a morte de outrem, como no caso de construir um terraço sem o parapeito de segurança mencionado em Deuteronômio 22.8. Certamente sempre seremos responsáveis por nossa negligência e imperícia, porque o sangue da nossa eventual vítima será reivindicado.

– É impressionante o caso de três anos de fome em Israel por causa da culpa de sangue sobre Saul e seus descendentes pela morte dos gibeonitas com os quais havia uma aliança que foi quebrada por Saul. Essa culpa somente foi anulada com a matança de sete descendentes de Saul, com esse significativo desfecho: “Depois disto, Deus se tornou favorável para com a terra.” (2Sm 21.1-14). 

– No Novo Testamento, fica muito evidente a consciência que se tinha sobre essa “culpa de sangue”. Pilatos, ao lavar as mãos para simbolizar que não era responsável pela morte de Jesus, diz: “Estou inocente do sangue deste justo” (Mt 27.24). “E o povo todo respondeu: Caia sobre nós o seu sangue e sobre nossos filhos!” (Mt 27.25) .” 

Enfim, esses exemplos e textos refletem o ensino bíblico de que a vida é sagrada, e que o derramamento de sangue inocente traz consigo uma culpa que precisa ser tratada, seja por meio da justiça divina ou da humana. Cabe aqui uma boa reflexão sobre a prática do aborto e a culpa de sangue!

3. COMO SE LIVRAR DA MALDIÇÃO HEREDITÁRIA

A Bíblia não menciona explicitamente o termo “quebra de maldição hereditária”, mas o conceito pode ser inferido, não como alguns entendem, mas como a bíblia diz, como veremos a seguir.

3.1 A responsabilidade individual

“Tu usas de misericórdia para com milhares e retribuis a iniquidade dos pais nos filhos; tu és o grande, o poderoso Deus, cujo nome é o SENHOR dos Exércitos, grande em conselho e magnífico em obras; porque os teus olhos estão abertos sobre todos os caminhos dos filhos dos homens, para dar a cada um segundo o seu proceder, segundo o fruto das suas obras.” (Jr 32.18-19)

“Veio a mim a palavra do SENHOR, dizendo: Que tendes vós, vós que, acerca da terra de Israel, proferis este provérbio, dizendo: Os pais comeram uvas verdes, e os dentes dos filhos é que se embotaram? Tão certo como eu vivo, diz o SENHOR Deus, jamais direis este provérbio em Israel. Eis que todas as almas são minhas; como a alma do pai, também a alma do filho é minha; a alma que pecar, essa morrerá.” (Ez 18.1-4)

Circulava um provérbio popular entre o povo em Jerusalém (Jr 31.29) e na Babilônia, afirmando que os filhos estavam sofrendo pelos pecados cometidos pelos pais. Embora essa ideia tivesse alguma base nas declarações do Senhor (Êx 20.5-6; 34.6-7; Nm 14.18), Deus deixa claro que cada indivíduo é responsável por seus próprios pecados. Isso reforça a ideia de que, apesar das consequências que os pecados de uma geração possam ter sobre a próxima, cada pessoa será julgada por suas próprias ações e escolhas.

Diante da maldição herdada da queda de Adão e dos nossos ascendentes, sendo notificados pelo Senhor sobre sua responsabilidade individual, o que resta ao homem?

3.2 A providência divina

“Mas ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados. Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo caminho, mas o SENHOR fez cair sobre ele a iniquidade de nós todos.” (Is 53.5-6)

“Logo, muito mais agora, sendo justificados pelo seu sangue, seremos por ele salvos da ira.” (Rm 5.9)

“Todos quantos, pois, são das obras da lei estão debaixo de maldição; porque está escrito: Maldito todo aquele que não permanece em todas as coisas escritas no Livro da lei, para praticá-las. E é evidente que, pela lei, ninguém é justificado diante de Deus, porque o justo viverá pela fé. Ora, a lei não procede de fé, mas: Aquele que observar os seus preceitos por eles viverá. Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se ele próprio maldição em nosso lugar (porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado em madeiro), para que a bênção de Abraão chegasse aos gentios, em Jesus Cristo, a fim de que recebêssemos, pela fé, o Espírito prometido.” (Gl 3.10-14)

A norma da lei estabelecia: “Eis que todas as almas são minhas; como a alma do pai, também a alma do filho é minha; a alma que pecar, essa morrerá.” (Ez 18.4). A culpa de sangue deveria ser expiada com sangue. O escritor aos hebreus afirma: “Com efeito, quase todas as coisas, segundo a lei, se purificam com sangue; e, sem derramamento de sangue, não há remissão.” (Hb 9.22) 

Cristo nos redime da maldição da lei, por haver-se feito maldição em nosso lugar (Gl 3.13). Jesus Cristo veio para libertar os eleitos de toda maldição do pecado, seja a maldição universal decorrente da queda de Adão, seja aquela herdada de nossos ascendentes. A obra redentora de Cristo rompe com qualquer maldição hereditária, oferecendo plena libertação, inclusive de situações como a de uma pessoa que quando bebê foi oferecida ou consagrada a entidades malignas. Dessa forma, o crente, salvo pela graça, tem o poder e a autoridade espiritual para enfrentar qualquer problema e viver na liberdade que Jesus oferece. Cristo não apenas perdoa os pecados, mas também remove os efeitos espirituais negativos que poderiam ser transmitidos através das gerações, permitindo que os fiéis vivam uma vida nova e livre em sua presença. Vale ressaltar e alertar aqui a lei da colheita, conforme a semeadura. O salvo por Jesus Cristo, após a sua conversão não ficará isento das consequências das suas más ações anteriores!

Portanto, o conceito de “quebra de maldição hereditária” pode ser visto como parte do processo de redenção e renovação oferecido por Cristo. Os crentes, ao colocarem sua fé em Jesus, são libertos de qualquer maldição que possa ter sido transmitida através de gerações, vivendo agora sob a bênção e proteção de Deus. Isso implica que a “quebra” ocorre quando uma pessoa recebe a Jesus Cristo e vive de acordo com os princípios do Evangelho.

3.3 A necessidade de arrependimento e confissão

“O que encobre as suas transgressões jamais prosperará; mas o que as confessa e deixa alcançará misericórdia.” (Pv 28.13)

O pecado de Davi envolvendo o adultério com Bate-Seba e a morte encomendada de Urias foi muito grave. A sentença divina proferida pelo profeta Natã também incluiu sua casa e descendência e começou assim: “Por que, pois, desprezaste a palavra do SENHOR, fazendo o que era mal perante ele? A Urias, o heteu, feriste à espada; e a sua mulher tomaste por mulher, depois de o matar com a espada dos filhos de Amom. Agora, pois, não se apartará a espada jamais da tua casa,…” (2Sm 12.9-10a). Davi assumiu sua culpa e pecado naquela mesma hora, pois ele era um homem segundo o coração de Deus (2Sm 12.13a). O Salmo 51 expressa bem a sua confissão e arrependimento. Deus prescruta a intenção do coração e o perdoou e declarou: “Disse Natã a Davi: Também o SENHOR te perdoou o teu pecado; não morrerás. Mas, posto que com isto deste motivo a que blasfemassem os inimigos do SENHOR, também o filho que te nasceu morrerá.” (2Sm 12.13b-14). Apesar do perdão divino, teve um “mas” (conjunção adversativa), a criança gerada do adultério morreria, e as demais partes da sentença não seriam revogadas. A confissão e arrependimento traz o perdão, e com o perdão a revogação da culpa, porém, não traz a revogação das consequências dos pecados anteriormente cometidos.

No Antigo Testamento, há exemplos de orações de confissão de pecados coletivos, onde líderes ou profetas piedosos intercederam por todo o povo de Israel, reconhecendo e se incluindo como autores dos pecados cometidos pela nação, os “pecados geracionais”, clamando pela misericórdia e graça de Deus, como, por exemplo: o sacerdote e escriba Esdras (Ed 9.5-15); o copeiro do rei e, posteriormente, governador de Israel, Neemias (Ne 1.4-11); e o profeta e estadista Daniel (Dn 9.1-19).

“Arrependei-vos, pois, e convertei-vos para serem cancelados os vossos pecados,” (At 3.19)
“Se, com a tua boca, confessares Jesus como Senhor e, em teu coração, creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Porque com o coração se crê para justiça e com a boca se confessa a respeito da salvação.” (Rm 9.5-6) 

O arrependimento e a confissão de pecados são elementos essenciais para a reconciliação com Deus e a justificação/salvação.

João Batista, o precursor do Messias, pregava o arrependimento como uma preparação para a vinda do reino dos céus: “Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus.” (Mt 3.2). Após a ressurreição de Jesus, Pedro disse ao povo: “Respondeu-lhes Pedro: Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo.” (At 2.38).

“Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça.” (1Jo 1.9)

Até mesmo os salvos, redimidos pela obra do Calvário, precisam se manter puros, confessando os seus pecados na jornada da vida.

Conclusão

Não é razoável ignorar aquilo que nossos antepassados fizeram de mau e que nos trouxe ou traz consequências negativas. Temos visto que de fato existe uma “cadeia genealógica de bênção ou maldição”, isto é, o que você faz de bom ou o seu pecado se torna herança para as próximas gerações. Também não podemos ignorar a responsabilidade que temos pelos nossos atos. Não podemos ignorar o que alguns chamam de “lei da herança” e “lei da responsabilidade individual”.

Afinal, a maldição hereditária afeta o crente?

Em Cristo somos feitos nova criatura: “E, assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas.” (2Co 5.17). Havendo arrependimento, confissão de pecados e fé em Cristo e na sua obra redentora somos libertos de toda e qualquer maldição do pecado. Habitados e revestidos pelo Espírito Santo somos fortalecidos pelo Senhor e protegidos de toda a obra maligna. Entretanto, isso não nos isentará de pagar o preço das consequências dos nossos atos equivocados ou pecaminosos anteriormente cometidos.

Libertados da pena/condenação e do poder/domínio do pecado, o crente não está livre da presença do pecado. Precisa permanecer sóbrio e vigilante, pois não está livre das investidas do diabo que anda em derredor procurando alguém para devorar (1Pe 5.8). É preciso resistir às investidas da carne, do diabo e do mundo. Se cair, durante a jornada da fé, o crente precisa se arrepender e confessar, restaurando a sua comunhão com Deus (1Jo 1.6-7, 9; 1Jo 2.1-2).

“Aleluia! Bem-aventurado o homem que teme ao SENHOR e se compraz nos seus mandamentos. A sua descendência será poderosa na terra; será abençoada a geração dos justos.” (Sl 112.1-2)

Na visão bíblica, os atos dos pais podem ter repercussões sobre seus descendentes, tanto em termos de maldição, quanto de bênção. No entanto, Ezequiel 18.19-20 oferece uma perspectiva importante, enfatizando a responsabilidade individual e afirmando que cada pessoa é responsável por seus próprios pecados. Portanto, embora a Bíblia reconheça o impacto das ações de uma geração sobre a outra, ela também sublinha a justiça individual de Deus, que julga cada pessoa de acordo com suas próprias ações.

É importante terminarmos com uma mensagem positiva: “Fui moço e já, agora, sou velho, porém jamais vi o justo desamparado, nem a sua descendência a mendigar o pão.” (Sl 37.25)

E, assim, que Deus nos ajude!

Bibliografia

1. Bíblia Sagrada (SBB – Versão Revista e Atualizada).
2. Bíblia Online – SBB.
3. R. N. Champlin, Ph. D. – Enciclopédia de Bíblia, Teologia & Filosofia (Ed. Hagnos) – 2011.
4. Internet / ChatGPT.