Paternidade Refletida

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(Última atualização: 20/01/2024)

Sinopse
A família é uma instituição divina, um lindo projeto de Deus. Família é algo tão singular que se manifesta originalmente, de forma misteriosa, na Trindade; se reproduz na esfera dos seres humanos; e, também se expressa, de forma mística, na instituição Igreja. No projeto divino da família, cada membro tem um papel a desempenhar. Na posição de líder familiar, o pai tem um papel relevante que nem sempre é observado, causando graves consequências. O que a Bíblia tem a dizer sobre a paternidade responsável, comprometida, eficaz, ou seja, a paternidade integral? Confira aqui!

Paz

“Mas o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio….” (Gl 5.22-23a)

Introdução

Paz, esta pequena, mas tão significativa palavra, no hebraico é shalom (שָׁלוֹם); e no grego eireni (ειρήνη). A paz é algo tão relevante que diz respeito e afeta direta ou indiretamente toda a criação, toda a obra do Criador. Na queda dos nossos primeiros pais, Adão e Eva, a rebelião humana resultou no rompimento da paz com Deus e, não somente a raça humana, mas até mesmo o restante da criação sofreu e sofre as trágicas e devastadoras consequências.

A palavra “paz” é citada 95 vezes no Novo Testamento: 25 nos evangelhos, 6 em Atos, 62 nas epístolas e 2 no Apocalipse. Jesus mesmo a empregou cerca de 20 vezes; algumas vezes como saudação – “Paz seja convosco!”, outras como despedida – “vai-te em paz.” Principalmente nas epístolas de Paulo e de Pedro é recorrente encontrarmos esta mesma prática de Jesus, usando os termos “graça e paz” na saudação inicial e “paz” nas palavras de despedida.

O que é paz?

Há muitos anos, ouvi numa pregação do meu saudoso pai, uma ilustração que nunca mais esqueci, isto é, da ideia geral. Reconstituindo os detalhes esquecidos, seria mais ou menos assim:

Conta-se que um rei desejava ornamentar o seu palácio com um “quadro da paz”. Então, convocou artistas de diversas partes do mundo e lançou um concurso, oferecendo um prêmio ao artista que pintasse o quadro que melhor expressasse a paz. Muitos pintores aderiram ao desafio e apresentaram a sua obra. Chegaram ao palácio quadros variados. Eles retratavam a paz através de lindas paisagens com jardins, flores, praias, lagos e florestas, pássaros e borboletas, alvoradas e crepúsculos estonteantes.

O rei olhou todos os quadros, sendo que dois deles lhe chamaram mais a atenção.

Um deles retratava um lindo e sereno lago. O lago refletia com perfeição as altas e intocadas montanhas a sua volta, bem como o azul anil do céu, com algumas nuvens brancas como algodão. Os expectadores que acompanhavam o rei viram este quadro e acharam que seria o escolhido, pois era um perfeito retrato da paz.

O outro quadro também tinha montanhas e floresta. Acima havia um céu ameaçador do qual caía copiosa chuva, e no qual brilhavam relâmpagos. Na encosta da montanha havia uma cachoeira caudalosa e espumante. Não parecia retratar algo pacífico. Entretanto, olhando mais cuidadosamente, o rei observou, ao lado da cachoeira, um pequeno arbusto crescendo numa fenda da rocha. No arbusto uma mãe pássaro havia feito seu ninho. Lá, naquele abrigo simples, mas seguro, envolta em  tanta turbulência, se instalara a mãe pássaro em seu ninho, em perfeita paz.

Diante desta imagem, tão sutil, mas convincente, o rei não teve dúvida e escolheu este segundo quadro. Assim, os pintores não escolhidos, não conseguiam esconder sua perplexidade e indignação. – Como este quadro tão violento pode representar a paz?

Então, logo veio a explicação: PAZ não significa estar num lugar tranquilo, silencioso, sem problemas ou dificuldades ao redor. Paz significa estar no meio das adversidades e tempestades da vida e, mesmo assim, permanecer calmo e seguro.

Este é o significado real da PAZ. E essa paz só pode vir de Deus. Pois, dele procede a paz que excede todo entendimento. “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como a dá o mundo. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize.” (Jo 14.27). É como diz o cântico de Stuart Edmund McNair:

Ou seja o caminho de gozo e de luz,
Ou seja com trevas de horror,
Por Cristo já tenho aprendido a dizer:
“Tenho paz, doce paz no Senhor”.

A paz, na visão secular, é um conceito amplo e complexo que geralmente se refere a um estado de tranquilidade, ausência de conflitos, harmonia e estabilidade. Na perspectiva e cosmovisão cristã pode ser descrita como o relacionamento harmonioso do ser humano com Deus, consigo mesmo e com o seu semelhante.

O propósito deste estudo é proporcionar a reflexão sobre alguns aspectos e questões como: O que tira a paz? O que gera a paz? A fuga da realidade motivada pela falta de paz. Em que consiste a verdadeira paz? Qual a nossa responsabilidade em relação a promoção da paz?

1. O QUE TIRA A PAZ?

O ser humano do bem necessita e anseia por liberdade, paz e justiça e por ver suas necessidades básicas atendidas. Somos parte de algo muito maior, da sociedade e do mundo. Nós somos afetados por ele e, também, o podemos afetar. Se há paz ou guerra ou conflitos no mundo, isso pode afetar a nossa paz. Seria bom que todos levassem a sério a instrução bíblica: “Aparta-te do mal e pratica o que é bom; procura a paz e empenha-te por alcançá-la.” (Sl 34.14).  Infelizmente vivemos num mundo marcado por violência e guerras em toda a sua história. Há necessidade de paz em todas as suas dimensões: Paz com Deus, paz consigo mesmo, paz de espírito, com o próximo, paz entre as nações e paz na nação.

“Para os perversos, diz o meu Deus, não há paz.” (Is 57.21). Na simbologia bíblica o mar representa os povos, as nações, a massa agitada da humanidade (Ap 17.15). E, esse mundo está como um “mar agitado, que não se pode aquietar, cujas águas lançam de si lama e lodo” (Is 57.20).

Nosso mundo está mais agitado e perturbado do que nunca. São:

  • Guerras e rumores de guerras entre as nações;
  • Guerra civil;
  • Guerra de narrativas;
  • Guerra ideológica;
  • Ataques cibernéticos;
  • Golpes reais e virtuais;
  • Narrativas ambientalistas falaciosas;
  • Narrativas tecnológicas alarmantes.

Nas últimas décadas, a sociedade vem sendo mantida refém de narrativas globalistas alarmantes e, muitas vezes, falaciosas e com fins duvidosos (energia atômica, aquecimento global, efeito estufa, buraco na camada de ozônio com emissão de gás CFC, clonagem humana, alimentos transgênicos, pesticidas e agrotóxicos, desmatamento da Amazônia, mudanças climáticas e, agora, a Inteligência Artificial).

Não são poucos os motivos com potencial de nos tirar a paz:

  • Ameaça à perda da vida;
  • Ameaça à perda de pessoas queridas (familiares, amigos etc.);
  • Ameaça à perda da saúde;
  • Ameaça à perda da liberdade;
  • Ameaça à perda dos meios básicos para a sobrevivência (alimento, moradia, emprego etc.);
  • Ameaça à perda dos bens;
  • A doença incurável;
  • A desagregação familiar;
  • A injustiça;
  • A violência;
  • A traição;
  • O ódio alheio;
  • A calúnia e a difamação;
  • A opressão;
  • O autoritarismo;
  • Um governo corrupto;
  • Autoridades e políticos corruptos;
  • E, muitos outros.

2. A FUGA DA REALIDADE

Diante de uma sociedade tão agitada e amedrontada, de um mundo tão conturbado e dias tão turbulentos, cresce o número de pessoas que enveredam por caminhos ou atalhos perigosos e sem saída. Assim, podemos enumerar aqui alguns deles:

  • Uso de medicamentos que atenuam a percepção da realidade e criam dependência;
  • Consumo dos mais variados tipos de drogas – dependência química;
  • Práticas esotéricas fantasiosas e alienantes;
  • Adesão a falsas religiões, seitas e heresias;
  • Entrega desenfreada aos prazeres sexuais, orgias e pornografia.
  • Suicídio, quando se perde totalmente qualquer esperança.

“Quanto ao mais, sede fortalecidos no Senhor e na força do seu poder.” (Ef 6.10)

A sublimação[1] e fuga da realidade nunca foi e nunca será um bom caminho na busca da paz, particularmente no que tange a paz de espírito. Vale ressaltar aqui que, diante deste quadro e contexto social ameaçador, cresce no meio evangélico o número de pregadores que aderiram ao discurso da ajuda do alto (parafraseando os militantes da autoajuda). É claro que os púlpitos e gabinetes pastorais precisam acolher, consolar, apoiar e encorajar os mais fragilizados, principalmente os que estiverem passando por situações aflitivas na vida. Entretanto, o crente precisa mesmo viver em íntima comunhão com Deus, fortalecendo-se nele e na força do seu poder.

3. A VERDADEIRA PAZ

“Como fruto dos seus lábios criei a paz, paz para os que estão longe e para os que estão perto, diz o SENHOR, e eu o sararei.” (Is 57.19)

Deus mesmo se coloca aqui como o autor da paz! Portanto, a verdadeira paz procede do alto, de Deus: “Toda boa dádiva e todo dom perfeito são lá do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não pode existir variação ou sombra de mudança.” (Tg 1.17)

Jesus Cristo é a encarnação da verdadeira paz!

No Antigo Testamento, Jesus é vislumbrado pelo profeta Miquéias como “nossa paz” (Mq 5.5, ratificado pelo apóstolo Paulo, Ef 2.14) e pelo profeta Isaías como o “Principe da Paz” (Is 9.6).

No Novo Testamento, no nascimento de Jesus, o anjo e a multidão da milícia celestial glorificaram a Deus e proclamaram a chegada do Príncipe da Paz: “Glória a Deus nas maiores alturas, e paz na terra entre os homens, a quem ele quer bem.” (Lc 2.14)

No seu ministério terreno Jesus fez uma declaração contundente: “Supondes que vim para dar paz à terra? Não, eu vo-lo afirmo; antes, divisão.” (Lc 12.51). Isso em nada descredencia as palavras proféticas, pois, sua obra redentora e missão divide a humanidade em salvos e perdidos. Apenas para os salvos há garantia de paz!

No final do seu ministério Jesus trouxe aos seus seguidores duas relevantes palavras de encorajamento e esperança:

“Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como a dá o mundo. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize. (Jo 14.27)
“Estas coisas vos tenho dito para que tenhais paz em mim. No mundo, passais por aflições; mas tende bom ânimo; eu venci o mundo.” (Jo 16.33) 

É nas epístolas do NT que encontramos substancial e consistente conteúdo doutrinário e teológico sobre a verdadeira paz, criada por Deus e manifestada em Cristo, na plenitude dos tempos.

“Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo;” (Rm 5.1)

A paz com Deus é o elemento propulsor e ponto de partida para se desfrutar dessa autêntica e verdadeira paz! A rebeldia contra Deus e a rejeição ao seu Filho jamais permitirá alcançar essa paz. Em Cristo, na cruz do Calvário:

“Encontraram-se a graça e a verdade, a justiça e a paz se beijaram.” (Sl 85.10)

“Porque ele é a nossa paz, o qual de ambos fez um; e, tendo derribado a parede da separação que estava no meio, a inimizade, aboliu, na sua carne, a lei dos mandamentos na forma de ordenanças, para que dos dois criasse, em si mesmo, um novo homem, fazendo a paz, e reconciliasse ambos em um só corpo com Deus, por intermédio da cruz, destruindo por ela a inimizade.” (Ef 2.14-16)

Uma vez resolvida essa questão existencial do pecado, que nos separa e impede a comunhão com Deus, através da obra redentora de Cristo na cruz, passamos a ser guardados por ele: “E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará o vosso coração e a vossa mente em Cristo Jesus.” (Fp 4.7)

A paz oferecida pelo mundo é efêmera, enganosa e ilusória. Entretanto, a paz proporcionada por Deus, em Cristo, é real, verdadeira e eterna. Essa paz, além de ser decorrente do acerto da nossa vida com Deus, gera na nova criatura em Cristo:

  • Confiança e dependência de Deus: “Tu, SENHOR, conservarás em perfeita paz aquele cujo propósito é firme; porque ele confia em ti.” (Is 36.3);
  • Amor e prática da Palavra de Deus: “Grande paz têm os que amam a tua lei; para eles não há tropeço.” (Sl 119.165)
  • Afastamento do mal e a prática do bem (1Pe 3.11);
  • Amor e respeito ao próximo;
  • Domínio da natureza humana que é essencialmente má, pela atuação do Espírito Santo em nós – fruto do Espírito.

4. A NOSSA RESPONSABILIDADE EM RELAÇÃO A PAZ

O Deus a quem servimos é o Criador de todas as coisas, inclusive da paz, conforme já comentado (Is 57.19).

“Por essa razão, pois, amados, esperando estas coisas, empenhai-vos por serdes achados por ele em paz, sem mácula e irrepreensíveis,” (2Pe 3.14)

Na condição de seus servos somos chamados por Deus a viver em paz.

“se possível, quanto depender de vós, tende paz com todos os homens;” (Rm 12.18)

“Segui a paz com todos e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor,” (Hb 12.14)

“esforçando-vos diligentemente por preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz;” (Ef 4.3)

Além de desfrutar de paz interior, somos chamados a viver em paz com os outros.

“Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus.” (Mt 5.9)

Não somos apenas receptores passivos, mas agentes ativos da paz, chamados por Deus para promover a paz, para sermos pacificadores.

“E, vindo, evangelizou paz a vós outros que estáveis longe e paz também aos que estavam perto;” (Ef 2.17)

“Calçai os pés com a preparação do evangelho da paz;” (Ef 6.15)

A evangelização promove a paz! Jesus veio para promover a paz e nos comissionou para continuar a sua obra. Esse é o nosso desafio! Essa é a nossa missão! E, essa é a mais eficaz e poderosa estratégia de “disseminação” da paz!

Conclusão

“Ora, o Senhor da paz, ele mesmo, vos dê continuamente a paz em todas as circunstâncias. O Senhor seja com todos vós.” (2Ts 3.16)

Em Cristo nossos conflitos íntimos e existenciais podem ser neutralizados e sossegar nossa alma.

Em Cristo e nos ensinamentos bíblicos podemos superar nossas diferenças de opinião, alinhar nossos interesses com os do Reino de Deus, redefinir nossas prioridades de vida e distensionar nossos relacionamentos uns com os outros.

Sabemos que o mundo vai de mal a pior, pois se afasta de Deus e mantém-se em rebeldia contra ele. Entretanto, pesa sobre nós a responsabilidade e dever de fazer o que estiver ao nosso alcance, em prol da verdadeira paz. Devemos crer no poder transformador do evangelho e agir enquanto é tempo.

“Quanto ao mais, irmãos, adeus! Aperfeiçoai-vos, consolai-vos, sede do mesmo parecer, vivei em paz; e o Deus de amor e de paz estará convosco.” (2Co 13.11)

Bibliografia

1. Bíblia Sagrada (SBB – Versão Revista e Atualizada).
2. Bíblia Online – SBB.
3. Revista ANDAI NO ESPÍRITO (Ed. Didaquê).
4. Internet.


[1] A sublimação, na psicanálise, é um tipo de mecanismo de defesa maduro, no qual impulsos ou idealizações socialmente inaceitáveis ​​são transformados em ações ou comportamentos socialmente aceitáveis, possivelmente resultando em uma conversão a longo prazo da pulsão inicial.