
Salmo 23
Introdução
O escritor do Salmo 23, Davi, que na sua juventude fora um perito pastor de ovelhas, resolve mudar de lado, colocando-se agora na posição de ovelha do Supremo Pastor. Para desempenhar bem um papel como este é preciso conhecer as particularidades das ovelhas, o que não representava qualquer dificuldade para um experiente pastor como ele.
Encarnando a visão da ovelha, ele faz algumas afirmações que, quando vistas superficialmente, aparentam ser tão somente expressões poéticas. Como tal, podem ser facilmente memorizadas e declamadas ou, até mesmo usadas como uma espécie de “fórmula mágica” para tranquilizar o espírito em momentos de aflição. Entretanto, quando observadas com mais cuidado, pode-se perceber claramente um encadeamento natural entre elas, formando então um quadro da trajetória da ovelha de Deus, desde o momento do seu ingresso no rebanho, até a sua entrada triunfal no Aprisco Celestial. A partir dessa nova perspectiva, cada parte do salmo deve ser explorada com a vontade de quem escava uma mina de ouro, pois cada afirmação passa a ter um profundo e edificante significado.
1. SALVAÇÃO e SEGURANÇA (v.1)
“O Senhor é o meu Pastor: nada me faltará”
A primeira parte do versículo fala do maior tesouro – o Criador e Senhor do Universo – e da mais importante propriedade individual, ainda que não exclusiva – ter a Deus como o meu Pastor. É o ponto de partida. É o momento da salvação do pecador arrependido, que pela fé na obra redentora de Jesus é recebido no rebanho divino.
A segunda parte é radicalmente confortante e reflexo direto da primeira – a garantia do total suprimento. Nunca podemos perder de vista que:
“Deus, sem você é Deus. Você, sem Deus é nada.”
“Logo após a segunda grande guerra, os exércitos aliados recolheram milhares de crianças desabrigadas e famintas, e as levaram para alojamentos especiais. Ali essas crianças foram alimentadas e tratadas. Entretanto, à noite, elas não conseguiam dormir bem. Pareciam sempre inquietas e temerosas. Por fim, um psicólogo descobriu a razão do problema e como solucioná-lo; tratava-se de insegurança. Então, eles decidiram que, quando as crianças fossem dormir, receberiam uma fatia de pão para segurarem. Aquele pedaço de pão não era para ser comido; deviam apenas segurá-lo. Se demonstrassem desejo de comê-lo, deveriam ganhar outra fatia de pão, mas aquela eles não poderiam comer. O pedaço de pão produziu resultados miraculosos. As crianças dormiam com a certeza subconsciente de que teriam algo para comer no dia seguinte. Isso lhes proporcionava um sono tranquilo e calmo.”[1]
Davi fala deste sentimento de segurança no coração da ovelha. Deus tem as provisões necessárias para os seus filhos, restaurados à comunhão com o Pai (Sl 37.25; Mt 6.8; 6.33; Fp 4.19).
“Rico não é quem tem muito, mas quem precisa de pouco!”
2. DESCANSO e FORTALECIMENTO (vv.2-3a)
“Ele me faz repousar em pastos verdejantes. Leva-me para junto das águas de descanso; refrigera-me a alma.”
a) Repouso: A vida do homem sem Deus é uma vida extenuante, cansativa. É uma incessante procura por coisas que possam preencher o vazio do coração. É um contínuo “correr atrás do vento” (Ec 1.14). É neste estado que o pecador arrependido se chega a Deus: cansado das suas ideias, dos seus programas, dos seus sofrimentos e das suas desilusões. O Pastor, então, lhe oferece o verdadeiro descanso – “Vinde a mim todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei” (Mt 11.28). Que coisa preciosa! É o momento que se segue a salvação.
b) Pastos verdejantes: O pastor oriental sai com as ovelhas para o campo por volta das quatro horas da manhã. Enquanto pastam, elas estão sempre se movimentando, nunca param. Por volta das dez horas, o sol já está quente e as ovelhas começam a sentir calor, ficam cansadas e sedentas. O pastor inteligente sabe que elas não podem beber água nestas condições e com o estômago cheio de relva ainda não totalmente digerida. Por isso, ele as leva para um canto fresco e sossegado daquelas pastagens verdejantes e faz com que se deitem ali. Em repouso, a ovelha não pasta e, começa a ruminar (remoer os alimentos que retornam do estômago à boca), sua maneira natural de proceder à digestão.
Com o novo convertido a coisa não é muito diferente. Com fome e sede da verdade ele busca todo o alimento espiritual disponível. Então, é nesse momento de descanso espiritual que ele começa a “ruminar” as verdades do Evangelho que acabou de receber; aproveita para fazer uma avaliação existencial em termos de passado, presente e futuro.
c) Águas de descanso: As ovelhas, em geral, são muito medrosas. Elas têm medo, principalmente, das fortes correntezas, e com razão. Por causa de sua pesada capa de lã, elas dariam péssimas nadadoras. A ovelha sabe, por instinto, que não poderia nadar numa correnteza forte, e por isso não se aproxima de riachos para se abeberar; somente o faz em águas paradas. O pastor não zomba dos temores da ovelha, e nem tenta forçá-la contra a sua natureza. Pelo contrário, ele a guia por montanhas e vales à procura de águas tranquilas, para ali saciar-lhe a sede.
Deus conhece nossas limitações e não nos condena por nossa fraqueza. Ele supre as nossas necessidades, preparando-nos para enfrentar o “calor do dia”, os desafios da caminhada.
d) Refrigera-me a alma: O resultado deste segundo momento não poderia ser diferente. Uma verdadeira restauração física e mental (Ef 2.4-6).
3. ORIENTAÇÃO e CORREÇÃO (v.3b)
“Guia-me pelas veredas da justiça por amor do seu nome”
O segundo momento é tão agradável que corre-se o risco de cair no mesmo comodismo (zona de conforto) de Pedro quando ali no monte da transfiguração sugeriu a Jesus: “Bom é estarmos aqui; se queres, farei aqui três tendas…”(Mt 17.4). O cristão não foi chamado para viver os seus dias aqui neste mundo como se estivesse num eterno oásis, alienado e perdido em profundas reflexões espirituais. É preciso desenvolver a salvação (Fp 2.12b-13). Depois do descanso, do fortalecimento da alma, vem então o terceiro momento. É tempo de colocar em prática os princípios eternos expressos na Bíblia. É preciso corrigir atitudes, linguajar, hábitos etc.
Entretanto, Deus não nos empurra para as veredas da justiça; ele simplesmente nos “guia” (Sl 32.8). Certamente Davi está se recordando de seus dias de pastor. Ele sabia que as ovelhas não tinham muito senso de direção. Um cão, um gato ou um cavalo, quando se extraviam, sabem perfeitamente achar o caminho de volta. Eles parecem possuir uma bússola interior. Com a ovelha isto não acontece. A ovelha não possui boa visão. Não enxerga além de 8 ou 10 metros à sua frente. As campinas da Palestina eram cortadas por trilhas estreitas, pelas quais os pastores levavam o rebanho para o pasto. Algumas dessas trilhas terminavam à beira de precipícios, nos quais a ovelha desatenta poderia cair e morrer. Outras iam dar em becos sem saída. Havia outras, porém, que levavam a pastos verdejantes e a águas tranquilas. Algumas vezes, o pastor as guiava através de passagens íngremes e perigosas, mas os caminhos por onde passavam sempre iam dar em um bom lugar. As ovelhas estavam sempre dispostas a deixar a escolha deste lugar aos cuidados do pastor.
O grande sábio Salomão afirmou: “Reconhece-o em todos os teus caminhos e, ele endireitará as tuas veredas” (Pv 3.6). Uma vez pertencendo ao rebanho do Senhor precisamos abandonar nossos próprios caminhos e seguir os seus passos: “Porquanto para isto mesmo fostes chamados, pois que também Cristo sofreu em vosso lugar, deixando-vos exemplo para seguirdes os seus passos,” (1Pe 2.21). A palavra de Deus aplicada pelo Espírito Santo aos nossos corações nos dá a direção certa na vida.
4. PROVAÇÃO e PROTEÇÃO (v.4)
“Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte não temerei mal nenhum, porque tu estás comigo: a tua vara e o teu cajado me consolam”
a) Vale da sombra da morte:
É certo que a expressão “vale…morte” não significa apenas morte física. Ela já foi traduzida como: “O corredor sombrio”, e compreende todas as experiências duras e terríveis da vida.
b) Tu estás comigo: Há um grande poder nesta presença (Mt 28.20b; Is 41.13).
c) Vara e Cajado: A ovelha é um animal muito vulnerável. Ela não tem meios próprios de defesa. É presa fácil para qualquer animal feroz.
É como aquele homem que ficara gravemente ferido em um ciclone. Depois do acidente, ele perdera muito da alegria de viver. Ficava temeroso de que outro ciclone se abatesse sobre ele e que nada poderia fazer. Um dia, seus filhos resolveram construir-lhe um abrigo subterrâneo. Quando o viu, sorriu, um novo ânimo invadiu o seu ser. Agora, o ciclone mais terrível poderia vir – agora ele se sentia protegido.
Vara – O pastor sempre carrega consigo um bastão pesado e rígido, de cerca de sessenta centímetros a um metro. Quando Davi escreveu este salmo, provavelmente estava se lembrando da necessidade que ele próprio tivera de usar aquela vara. Em 1Samuel 17 ele conta a Saul como matara um leão e um urso para proteger seu rebanho.
Cajado – Além da vara, o pastor tem também um cajado de quase três metros. A ponta deste é recurvada, formando um gancho. Muitas trilhas da Palestina vão margeando barrancos íngremes. Era muito fácil a ovelha, às vezes, desequilibrar-se e escorregar para o abismo, ficando suspensa apenas por uma saliência estreita. O pastor então estendia o cajado, encaixava-o no peito da ovelha e a içava para cima, de volta ao caminho certo.
A ovelha sente-se instintivamente protegida pelo cajado e pela vara que o pastor carrega. É o conforto de saber que o pastor é capaz de solucionar qualquer emergência que possa surgir.
O perigo nos cerca por todos os lados. Nós estamos temerosos, e muitas vezes temos uma forte sensação de desamparo. É então que encontramos grande consolo em pensar na presença e no poder de Deus (Ef 3.20).
5. DISTINÇÃO e OPOSIÇÃO (v.5)
“Preparas-me uma mesa na presença dos meus adversários, unges-me a cabeça com óleo; o meu cálice transborda”
Tendo diante de si todas as hostes do inimigo, o cristão não tem vida fácil. Enquanto Deus prepara-lhe uma mesa farta de bênçãos espirituais e muitas vezes também materiais, os seus adversários se amontoam em redor. Mas, apesar das dificuldades colocadas pelos adversários, o Senhor unge os seus servos.
6. PRESERVAÇÃO e RECOMPENSA (v.6)
“Bondade e misericórdia certamente me seguirão todos os dias da minha vida; e habitarei na casa do Senhor para todo o sempre”.
Depois de todo um caminhar seguindo o Senhor, temos a garantia de continuar desfrutando desta Suprema presença, desta feita no Lar Eterno, que é a maior de todas as esperanças.
Conclusão:
Portanto, o Salmo apresenta o caminho do cristão em termos de três níveis de restauração e três níveis de garantias, a saber:
– Restauração espiritual (v.1);
– Restauração física e mental (v.2-3a);
– Restauração ética e comportamental (valores e atitudes) (v.3b);
– Garantia da presença divina (v.4);
– Garantia de bênçãos (v.5);
– Garantia de Vida Eterna (v.6).
Existe caminho melhor do que este?
É curioso pensar que somos comparados a um animal tão frágil: ingênuo, medroso, sem senso de direção, com pouca visão e indefeso. Isso deve nos levar a trocar aquela postura de autossuficiência por uma entrega incondicional ao Supremo e Bom Pastor.
Se você já está neste caminho, não perca de vista o significado de cada etapa!
[1] “A psiquiatria de Deus” (Charles L. Allen)
Nota: Baseado no livro “A psiquiatria de Deus” (Charles L. Allen)

Graça e paz, pastor Paulo.
Meu pai ganhou o livro “A psiquiatria de Deus” da minha tia, irmã dele. Isso há mais ou menos uns quarenta anos. Ele guardou o livro numa gaveta, e várias vezes, quando eu abria aquela gaveta, olhava para aquele livro com “certo” desprezo, pois éramos católicos e ignorávamos os evangélicos. Até que certo dia aquele livro me chamou a atenção. Comecei a lê-lo e posso dizer que foi através dele que o Espírito Santo tocou o meu coração, abriu os meus olhos espirituais e hoje sou grata por ser uma filha de Deus ! Acho incrível como Deus trabalha, a Sua incomparável criatividade ! Continuo a orar pela conversão do meu pai e do meu irmão e toda a sua família.
Grata pela oportunidade. Continue a postar as mensagens pois são muito edificantes. Deus abençoe o irmão e toda sua família. Kelly
Louvado seja Deus, que nos alcança e se revela a nós de muitas formas! Li esse livro na minha juventude que muito me edificou e ainda o tenho, bem preservado (quinta edição, 1981 – Ed. Betânia). Que o bom legado dos servos de Deus continue alcançando e abençoando muitas vidas, inclusive a do seu pai e toda a família!