Arquivo

Posts Tagged ‘permanecr em Cristo’

Permanecei firmes na fé (1Co 16.13; Hb 3.12-14)

Ouça este artigo:

Introdução

“Sede vigilantes, permanecei firmes na fé, portai-vos varonilmente, fortalecei-vos.” (1Co 16.13)

Um dos atributos incomunicáveis de Deus, que o  distingue de nós seres humanos é “independência”. Deus não precisa de nós, nem do restante da criação. Em contrapartida, nós dependemos de Deus, dos elementos por ele criados e, especialmente, uns dos outros. Particularmente, nós cristãos, somos também espiritualmente dependentes uns dos outros, não apenas em tempos de crises ou pandemias, mas em todo o tempo, como veremos na análise do texto de Hebreus. Os motivos são vários, mas podemos citar dois mais abrangentes e relevantes: 1º)Vivenciamos uma batalha pessoal e permanente contra o pecado. 2º) Vivemos num ambiente social dominado pelo maligno (o mundo jaz no maligno – 1Jo 5.19), numa verdadeira contracultura cristã que não mede esforços para desconstruir os valores morais e princípios judaico-cristãos.

1. Alerta de perigo – “perverso coração de incredulidade” (Hb 13.12)

12  Tende cuidado, irmãos, jamais aconteça haver em qualquer de vós perverso coração de incredulidade que vos afaste do Deus vivo;

Onde existe o risco sempre se encontrará o alerta e a devida orientação bíblica para que se tome o devido cuidado. Não é porque se professa a fé cristã (“irmãos”) que se está definitivamente livre de um retrocesso espiritual. Não existe a possibilidade de ficar estacionado na fé, na vida espiritual; ou se caminha para perto de Deus ou no sentido contrário. O não desenvolvimento da salvação significa enveredar por um caminho de esfriamento espiritual, quando se comete o equívoco de fazer concessões ao pecado. Através da obra redentora de Cristo estamos livres da pena do pecado (Rm 8.1), do poder do pecado (Rm 6.14), mas não da presença do pecado (Rm 13.11) que tão tenazmente nos assedia (Hb 12.1).

O pecado nos afasta de Deus e nos leva à incredulidade. O coração endurecido e insensível faz com que a pessoa passe a agir por sua própria conta e risco. Sua visão de Deus fica turvada, enfraquecida, distorcida e começa a vagar. No teísmo, a pessoa cria que Deus é o criador e sustentador do Universo. Então migra para o deísmo, ainda crendo que Deus é o criador, mas não o sustentador do Universo. Pode, ainda, descambar para o panteísmo, achando que Deus é o próprio Universo, que ele está diluído em todas as coisas. Por fim, pode chegar ao ateísmo, passando a defender a ideia de que simplesmente Deus não existe.

Vejam como o Novo Testamento (NT) cita o Antigo Testamento (AT) e o AT cita o AT; ou seja, a bíblia cita a bíblia e nos ensina a fazer o mesmo. O contexto deste alerta (Hb 3.7-11) aponta para um caso real, experimentado pelo povo de Israel. Trata-se de uma citação do Salmo 95.7b-11. Este salmo inicia fazendo um convite a se louvar o Senhor Criador e Sustentador do Universo (teísmo). Na sua segunda parte ele cita dois incidentes (Ex 17.1-7 e Nm 20.1-13) que ilustram a incredulidade do povo na caminhada para Canaã. Em duas ocasiões, em Massá e Meribá, aconteceu de faltar água e eles reclamaram e contenderam com seu líder Moisés, bem como provocaram e colocaram Deus à prova apesar de todos os milagres que haviam presenciado. Esse coração petrificado pela incredulidade fez com que eles perecessem no deserto e não entrassem no descanso de Deus, na terra prometida. Nos momentos mais difíceis da caminhada cristã corremos o risco de pensar ou até mesmo nos expressarmos com essa mesma carga de incredulidade deles: “Está o SENHOR no meio de nós ou não?” (Ex 17.7b). Quando tudo vai bem há a tendência de se esquecer de Deus e quando tudo vai mal de questionar a sua ausência. A consequência disso é ficar fora do descanso proporcionado pelo cuidado do Altíssimo – “O que habita no esconderijo do Altíssimo e descansa à sombra do Onipotente diz ao SENHOR: Meu refúgio e meu baluarte, Deus meu, em quem confio.” (Sl 91.1-2).

2. Medida preventiva – “exortai-vos mutuamente” (Hb 13.13)

13  pelo contrário, exortai-vos mutuamente cada dia, durante o tempo que se chama Hoje, a fim de que nenhum de vós seja endurecido pelo engano do pecado.

Tendo abordado sobre o perigo da incredulidade, o autor destaca aqui a ilusão, o engano do pecado. Um desejo pecaminoso pode até parecer bom, mas seu fim é danoso. O pecado pode ser visto como algo aparentemente inofensivo, tal qual um pequeno bloco de gelo que se desprende na geleira,  que pode provocar uma avalanche na vida do indivíduo, da sua família, na igreja e na sociedade.  E, o mal maior se dá quando a pessoa se torna insensível ao erro, rejeita a ajuda e despreza a repreensão.

O outro aspecto que pode ser destacado aqui é o da exortação mútua continuada. Nessa exortação mútua e diária, há de se empreender energia e foco na conduta e atitudes corretas e desejáveis; no que se deve fazer. Por outro lado e não menos importante é alertar e ressaltar quanto ao que não se deve fazer, por ser pecado ou inconveniente. É curioso como João, o apóstolo do amor, na sua primeira epístola, labora nessas duas frentes do – “faça” e “não faça” – dando tanta ênfase ao pecado. E, com que propósitos ele exorta os crentes? Para que tenham comunhão com o Pai Celestial e para que a nossa alegria seja completa (1Jo 1.3-4).

Ele se dirige aos seus leitores crentes como “Amados” (6 vezes) e como “Irmãos” (1 vez). Ele usa palavras como amor (18 vezes), ama (9 vezes), amamos (4 vezes), amou (3 vezes), amo (1 vez) e amado (1 vez); totalizando 36 vezes.

Por outro lado ele se refere a pecado, no singular ou plural, 19 vezes. Também menciona treva ou trevas 7 vezes, como figura de conduta pecaminosa ou vida distante de Deus que é luz; totalizando 26 vezes. O que ele quer nos exortar sobre pecado ou trevas?

a) Luz e trevas não podem coexistir (1Jo 1.5-7).

Onde entra a luz as trevas se dissipam. Assim como no princípio de tudo Deus fez separação entre a luz e as trevas  (Gn 1.4), o Evangelho deve produzir separação entre luz e trevas; entre os que andam na luz da santidade divina e os que andam nas trevas do pecado.

b) Todos cometemos pecados (1Jo 1.8, 10).

Admitir o pecado e confessá-lo é o caminho da purificação; negar o cometimento de pecado é fazer de Deus um mentiroso; é revelar que não nos apropriamos da palavra de Deus.

c) Se viermos a pecar, poderemos ser perdoados e purificados (1Jo 2.1-2, 12;  1.9)

Jesus Cristo é o nosso advogado junto ao Pai e se apresenta como aquele que é a propiciação ou que fez a expiação dos nossos pecados. A ideia bíblica é de um ato praticado capaz de aplacar a ira divina, satisfazendo a sua santidade e justiça, cobrindo assim o nosso pecado. Mas o pecador precisa se arrepender e confessar o seu pecado para ser perdoado e ter restaurada a sua comunhão com Deus.

d) O pecado é a transgressão da lei (1Jo 3.4)

e) Toda injustiça é pecado (1Jo 5.17)

f) Aquele que pratica o pecado procede do diabo (1Jo 3.8)

g) Todo aquele que é nascido de Deus não vive na prática do pecado (1Jo 3.9; 5.18)

h) Aquele que odeia a seu irmão está nas trevas (1Jo 2.9, 11)

i) Jesus se manifestou ao mundo para tirar os pecados e nele não existe pecado (1Jo 3.5; 1Jo 4.10)

A ameaça do pecado é real, não deve ser subestimada e sua consequência devastadora. Não procede de Deus: “Porque tudo o que há no mundo — os desejos da carne, os desejos dos olhos e a soberba da vida— não procede do Pai, mas procede do mundo” (1João 2.16). Daí a importância de estarmos sempre alertas, vigiarmos os nossos pontos fracos e procurarmos ajudarmos uns aos outros.

3. Perseverança confirmadora – “Participantes de Cristo” (Hb 13.14)

14  Porque nos temos tornado participantes de Cristo, se, de fato, guardarmos firme, até ao fim, a confiança que, desde o princípio, tivemos.

A expressão “participantes de Cristo” pode ter, pelo menos, dois significados e interpretações. O de alguém que apenas tornou-se companheiro de Cristo, que caminha com ele, isto é, com a igreja e os crentes, um cristão professo; e aquele que efetivamente teve uma união mística com ele, se uniu a ele tornando-se participante da natureza divina pelo novo nascimento, um cristão verdadeiro. Não se pode negar a existência desses dois tipos de crentes. Também não se pode negar a existência de crentes que abandonaram ou apostataram da fé, na bíblia e fora dela. Muitos dos discípulos de Jesus o abandonaram (Jo 6.66). O escritor de Hebreus tinha consciência disso (Hb 6.4-8); o apóstolo Paulo lamenta que Demas, tendo amado o presente século o abandonou (2Tm 4.10). Quem não conhece pessoas assim? Os arminianos diriam que tais pessoas perderam a salvação. Os calvinistas diriam que eles nunca foram salvos. Pelo contexto da expressão podemos afirmar que os cristãos verdadeiros, os salvos, guardam firmes, até ao fim, a sua confiança em Cristo. Não pelos seus próprios méritos ou força, mas por aquele que os sustém. Se o salvo cair, Deus o levantará! Ele quer nos usar para nos ajudarmos mutuamente.

Vale mencionar mais uma vez o apóstolo João que, na sua primeira epístola, também ressaltou a importância da perseverança usando as palavras “permanece”(14 vezes), permanecer (2 vezes), permanecei (2 vezes), permanecemos (1 vez) e permanecereis (1 vez); totalizando (20 vezes). O que ele quer nos exortar sobre permanecer?

a) Aquele que permanece em Cristo, anda como ele andou (1Jo 2.6).

b) Aquele que permanece na luz ama a seu irmão e não é um tropeço na sua vida (1Jo 2.10).

c) Aquele que faz a vontade de Deus permanece eternamente (1Jo 2.17).

d) A unção do Espírito Santo permanece sobre os que são de Deus e os ensina (1Jo 2.27).

e) Todo aquele que permanece em Deus não vive pecando (1Jo 3.6).

f) Aquele que guarda os seus mandamentos permanece em Deus, e Deus, nele (1Jo 3.24).

g) Se amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós, e o seu amor é, em nós, aperfeiçoado. (1Jo 4.12).

Que sejamos instrumentos de Deus para nos ajudarmos mutuamente!

“Quanto ao mais, sede fortalecidos no Senhor e na força do seu poder.” (Ef 6.10)

%d blogueiros gostam disto: