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“Gripe Espanhola”, COVID-19 e a Igreja

Introdução:

Neste artigo faremos uma rápida passada de vista em alguns registros históricos da humanidade, inclusive da Igreja Presbiteriana do Rio de Janeiro, uma igreja mais do que sesquicentenária.

Coincidência ou não, depois de 102 anos da pandemia da “gripe espanhola” estamos vivenciando uma nova pandemia, a do COVID-19 (do inglês, Coronavirus Disease 2019)[1]. Não bastasse os estragos e baixas humanas e econômicas provocados pela 1ª Guerra Mundial (1914-1918) aquela pandemia também deixou suas marcas na história. O que os registros históricos nos contam a respeito daquela pandemia e que reflexões podemos fazer?

1) Registros da Gripe Espanhola

A Wikipédia assim introduz o assunto: “A gripe espanhola, também conhecida como gripe de 1918, foi uma pandemia do vírus influenza incomumente mortal. De janeiro de 1918 a dezembro de 1920, infectou 500 milhões de pessoas, cerca de um quarto da população mundial na época. Estima-se que o número de mortos esteja entre 17 milhões a 50 milhões, e possivelmente até 100 milhões, tornando-a uma das epidemias mais mortais da história da humanidade. A gripe espanhola foi a primeira de duas pandemias causadas pelo influenzavirus H1N1, sendo a segunda ocorrida em 2009.”

Em outra literatura[2] que trata especificamente da história e suas pandemias e da convivência do ser humano com os microorganismos encontramos algumas informações interessantes:

– O vírus da gripe tem causado várias epidemias na história da humanidade, porém com taxa de mortalidade baixa e com complicações como a pneumonia afetando mais crianças de baixa faixa etária e os idosos.

– Em 1918 surgiu um novo vírus da gripe com muito maior poder de invasão que se alastrou pelo mundo, causando uma mortalidade nunca vista, inclusive entre jovens. Sua disseminação foi facilitada por ter surgido no último ano da guerra, e aos militares combatentes, aglomerados e sempre se deslocando.

– Cerca de um quinto da população mundial foi acometida pela doença nos anos de1918 e 1919, com uma taxa de mortalidade ao redor de 0,5 a 1,2%, o que significou a morte de cerca de 22 milhões de pessoas. Em algumas regiões esse percentual chegou a 25% (Samoa).

– A primeira onda americana da epidemia de gripe ocorreu na primavera de 1918 (março). Alcançou a Europa no verão de 1918, atingindo em cheio a Espanha, o que contribuiu para que recebesse o nome de “gripe espanhola”.

– A segunda onda da gripe começou em agosto de 1918, tomando proporções importantes na Europa e nos cinco continentes, atingindo, também, muitos militares, com muitas baixas. A taxa de mortalidade pela doença atingiu o pico no mês de outubro de 1918.

– A economia mundial entrou em crise, com a falência de empresas em todos os continentes, sem contar a grave situação que vivia a Europa, recém saída da Primeira Grande Guerra.

– O autor declara (no ano de 2003) que se engana quem acha que essa epidemia espanhola é coisa do passado. Uma nova epidemia de gripe, tão mortal assim é uma ameaça constante. Existem instituições dedicadas ao monitoramento e controle permanente de doenças infecciosas no globo terrestre.

– O vírus causador da gripe espanhola, o influenza, é universal na natureza e apresenta taxas de mutação elevadas.

Finalmente, vejam só esse alerta feito em 2003, pelo autor: “O que existe é o risco da formação de um novo vírus influenza, com poder maior de infecção e de mortalidade”.

2) Registro histórico de algumas pandemias:

A partir da Gripe Espanhola (1918) podemos destacar as seguintes pandemias:

PERÍODOLOCALIZAÇÃOPANDEMIAVÍRUSNº de MORTES (*)
1918-1920MundialGripe EspanholaH1N117 a 50 milhões
1957-1960MundialGripe AsiáticaH2N22 milhões
1968-1969MundialGripe de Hong KongH3N21 milhão
1974ÍndiaVaríola 15.000
1981-PresenteMundialHIV/AIDS > 30 milhões
2009MundialGripe InfluenzaH1N1/0914.286
2013-2016ÁfricaEbolaEbola>> 11.300
2019-PresenteMundialNovo CoronavírusCovid-19> 500.000 (28/06/2020)
Fonte: Wikipédia / Internet (*) Valores Estimados

3) Registros da Igreja Presbiteriana do Rio de Janeiro (organizada em 1862):

“Em toda a história do Brasil até essa data, 1918, não se registrara uma epidemia tão forte e que tenha causado tantas mortes. Quase toda a Igreja Presbiteriana do Rio de Janeiro sofreu com a gripe espanhola, como foi conhecida a gripe pneumônica.

Não havia remédios, médicos e urnas funerárias suficientes. Foi uma catástrofe que assolou o Rio de Janeiro e o mundo.

O mau cheiro dos cadáveres obrigou muitas famílias a se retirarem de suas casas para lugares mais distantes.

As cenas eram deprimentes; carroças, inclusive de lixo, transportavam pelas ruas os corpos em estado de decomposição.

O escritor e médico Pedro da Silva Nava registrou, na época, o cotidiano da cidade nesse período:

‘Nenhuma de nossas calamidades chegara aos pés da moléstia reinante: o terrível não era o número de casualidades – mas não haver quem fabricasse caixões, quem os levasse ao cemitério, que abrisse covas e enterrasse os mortos. O espantoso já não era a quantidade de doentes, mas o fato de estarem quase todos doentes, a impossibilidade de ajudar, tratar, transportar comida, vender gêneros, aviar receitas, exercer, em suma, os misteres indispensáveis à vida coletiva’.

O Rev. Álvaro Reis, no seu relatório de 1918, registra o comportamento da sociedade carioca diante da pandemia. O charlatanismo, a estupidez e a idolatria dos cidadãos predominavam. Tudo em vão!”[3]

Registro de Membros:

ANOMEMBROS(*)ADMITIDOSFALECIDOS
191620816613
1917218510417
1918230512022
1919244213715
1920256212015
1921269413217
1922282813418
Igreja Presbiteriana do Rio de Janeiro

(*) Membros Maiores ou Comungantes (Total acumulado desde 12/01/1862 até em 31 de dezembro do ano em referência). Inclui todos os admitidos e demitidos desde a organização da Igreja.

Nas estatísticas anuais de membros da igreja observa-se no ano de 1918 uma elevação muito pouco significativa no número de membros falecidos.

4) Reflexões Finais:

a) A oportunidade de “cair na real”.

As crises nos oferecem a oportunidade de contemplar a realidade nua e crua da vida terrena. Apesar de poucos ou de muitos momentos prazerosos, o que está reservado ao ser humano, nesta vida, é o gemido e angústia.

“Pois a criação está sujeita à vaidade, não voluntariamente, mas por causa daquele que a sujeitou, na esperança de que a própria criação será redimida do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus. Porque sabemos que toda a criação, a um só tempo, geme e suporta angústias até agora. E não somente ela, mas também nós, que temos as primícias do Espírito, igualmente gememos em nosso íntimo, aguardando a adoção de filhos, a redenção do nosso corpo.” (Rm 8.20-23)

b) A oportunidade de ver o imperceptível.

Nestes momentos de pandemia e quarentena, Deus nos tem dado a oportunidade de refletir um pouco mais sobre a realidade da vida terrena que é breve e frágil; de volver nossos olhos para a história humana e perceber quantas aflições as gerações passadas sofreram. Não somos melhores do que eles. O fato é que as pandemias vêm sobre todos, sem pedir licença e sem se importar com aspectos que nós simples mortais muitas vezes usamos para fazer a diferença entre pessoas.

c) A oportunidade de recomeço.

Quando as epidemias aparecem e depois se vão, sempre deixam um rastro de destruição, porém, sempre existe a oportunidade de um recomeço. E, como a vida precisa continuar, seguir adiante, é necessário recolher os cacos e pavimentar o futuro, enquanto Deus nos permitir.

d) A oportunidade de olhar além.

Algo verdadeiramente importante é que nós cristãos não depositamos a nossa esperança nas coisas efêmeras e passageiras da vida presente. Caso contrário receberíamos do apóstolo a seguinte advertência: “Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens.” (1Co 15.18)

e) A oportunidade de cultivar a paciência.

Em tempos de quarentena, à medida que o tempo passa vai aumentando a ansiedade, a expectativa e o desejo por dias melhores, pela “volta da normalidade”. Mas é preciso cultivar a paciência até este momento angustioso acabar. Essa situação que estamos vivendo nos remete à expectativa de um evento incomparavelmente superior que devemos aguardar com paciência: “Há, todavia, uma coisa, amados, que não deveis esquecer: que, para o Senhor, um dia é como mil anos, e mil anos, como um dia.” (2Pe 3.8). A pergunta que não quer calar é se também arde em nós a expectativa do término da “quarentena terrena” e o desejo da manifestação gloriosa do Senhor Jesus na sua segunda vinda.    

“aguardando a bendita esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador Cristo Jesus,” (Tt 2.13)


[1] Fonte: Wikipédia

[2] Ujvari, Stefan Cunha – A história e suas epidemias. SENAC (2003)

[3] Livro: História da Igreja Presbiteriana do Rio de Janeiro (1862 – 2012)

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