
Mateus 7.12-27; Lucas 6.43-49
Introdução
“Dualidade significa a qualidade ou o estado de ser duplo, indicando a presença de dois elementos, naturezas, princípios ou lados opostos que coexistem em uma mesma realidade, como o corpo e a alma ou a luz e a escuridão.”[1]
O Sermão do Monte (Mateus 5–7) é, sem dúvida, o mais conhecido discurso de Jesus registrado nas Escrituras. Nele, Cristo descreve as características dos cidadãos do Reino de Deus, corrige falsas interpretações da Lei, ensina sobre a verdadeira piedade e apresenta os princípios que devem governar a vida dos seus discípulos.
O evangelista Lucas, no chamado Sermão da Planície (Lc 6.17-49), preserva parte desses mesmos ensinamentos. Embora apresente uma organização diferente, mantém o mesmo propósito: mostrar que o verdadeiro discípulo não é apenas aquele que ouve Jesus, mas aquele que pratica sua Palavra.
A série dos “dois”
Ao concluir o Sermão do Monte, Jesus apresenta uma sequência de contrastes – 6 em Mateus e 5 em Lucas. Em vez de oferecer inúmeras alternativas, ele reduz toda a existência humana a duas possibilidades. Não existe um terceiro caminho, uma terceira porta ou um terceiro fundamento. Toda pessoa, consciente ou inconscientemente, está construindo sua vida sobre uma dessas duas opções.
Esses contrastes não tratam apenas de comportamento, mas revelam a realidade espiritual do coração e apontam para o juízo final. A grande pergunta não é se estamos fazendo escolhas, mas quais escolhas estamos fazendo.
| ITEM | CONTRASTE | REF. BÍBLICA |
| 1 | Duas portas | Mt 7.13-14 / (Lc 13.24) |
| 2 | Dois caminhos | Mt 7.13-14 / – |
| 3 | Duas árvores | Mt 7.15-20 / Lc 6.43-45 |
| 4 | Dois homens-tesouros | – / Lc 6.45 |
| 5 | Duas profissões de fé | Mt 7.21-23 / Lc 6.46 |
| 6 | Dois construtores | Mt 7.24-27 / Lc 6.47-49 |
| 7 | Dois fundamentos | Mt 7.24-27 / Lc 6.47-49 |
A Teologia de Jesus seria do tipo “digital” ou “binária” (0 ou 1), enquanto os seus adversários são mais analógicos e inclusivos?
Essa é uma questão interessante do ponto de vista bíblico e teológico, desde que seja feita com algumas ressalvas. A analogia entre uma lógica “binária” (0 ou 1) e uma lógica “analógica” pode ser útil como recurso didático, mas não deve ser levada ao pé da letra. Jesus não reduz toda a realidade da vida a apenas duas categorias em todos os assuntos; entretanto, quando trata da resposta do ser humano ao Reino de Deus, ele frequentemente apresenta apenas duas possibilidades mutuamente excludentes. Nesse sentido, a analogia é bastante apropriada.
Eis como esse pensamento pode ser desenvolvido – A “Teologia Binária” de Jesus. Uma das características mais marcantes do ensino de Jesus é que ele frequentemente reduz as questões espirituais fundamentais a apenas duas possibilidades.
⇨ Para Cristo, diante de Deus não existe neutralidade.
⇨ Não existe uma terceira via.
⇨ Não existe uma posição intermediária.
⇨ O Reino exige decisão.
É por isso que seus discursos terminam quase sempre com uma separação entre dois grupos.
A decisão é inevitável!
“Quem não é por mim é contra mim; e quem comigo não ajunta espalha.” (Mt 12.30)
Jesus não admite a ideia de que alguém possa permanecer indefinidamente neutro. Não existe uma terceira posição, ou a pessoa está com Cristo ou está contra Cristo. Até a omissão produz consequências: “e quem comigo não ajunta espalha.”
Vejamos, então, estes contrastes ou dualidades.
1. DUAS PORTAS (Mt 7.13-14; ver tb Lc 13.24)
“Entrai pela porta estreita…”
Toda jornada espiritual começa por uma decisão.
A porta larga:
– Fácil de atravessar.
– Permite levar consigo o pecado, o orgulho e a independência de Deus.
A porta estreita:
– É Cristo (João 10.9).
– Exige arrependimento e fé.
– Dá acesso à verdadeira vida.
💬Ensino: O destino eterno depende da porta pela qual entramos.
2. DOIS CAMINHOS (Mt 7.13-14)
Antes de falar dos caminhos, Jesus fala da porta, porque ninguém percorre um caminho sem primeiro entrar por uma porta.
O caminho largo:
– É espaçoso e confortável.
– Não exige arrependimento.
– A maioria caminha por ele.
– Conduz à perdição.
O caminho estreito:
– Exige renúncia.
– É percorrido por poucos.
– Conduz à vida eterna.
💬Ensino: A popularidade nunca foi critério para determinar a verdade.
3. DUAS ÁRVORES (Mt 7.15-20 / Lc 6.43-45)
Jesus ensina que o fruto revela a natureza da árvore.
A árvore boa:
– Tem raiz saudável.
– Produz bons frutos.
– Revela um coração transformado.
A árvore má:
– Pode até possuir boa aparência.
– Seus frutos denunciam sua verdadeira natureza.
– Não permanece diante de Deus.
💬Ensino: Deus observa menos as aparências e mais os frutos produzidos pela vida.
4. DOIS HOMENS-TESOUROS (Lc 6.45)
Embora Lucas 6.45 esteja intimamente ligado ao contraste das duas árvores, ele merece um desenvolvimento próprio, pois Jesus desloca a ênfase da árvore para o coração. Pode-se dizer que assim como a raiz da árvore está para a árvore, o coração está para o homem. Depois de ensinar sobre as duas árvores e seus frutos, Jesus revela a origem desses frutos: o coração. Se a árvore representa a natureza da pessoa, o tesouro representa aquilo que ela guarda no íntimo.
O bom tesouro:
O homem bom possui um coração transformado pela graça de Deus. Seu “tesouro” é formado pela Palavra de Deus, pela ação do Espírito Santo e por valores moldados pelo Reino.
Por isso, dele procedem:
– Palavras que edificam.
– Atitudes de amor e misericórdia.
– Decisões sábias.
– Frutos de justiça.
As boas obras não são produzidas por mero esforço humano, mas transbordam de um coração renovado.
O mau tesouro:
“Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto; quem o conhecerá?” (Jr 17.9)
O homem mau revela um coração dominado pelo pecado. Seu tesouro é composto por pensamentos, desejos e valores contrários à vontade de Deus.
Consequentemente, dele procedem:
– Palavras destrutivas.
– Mentira e maldade.
– Orgulho.
– Egoísmo.
– Atitudes pecaminosas.
Assim como uma fonte contaminada não pode produzir água pura, um coração não regenerado não pode produzir, de forma contínua, os frutos que agradam a Deus.
A boca revela o coração:
Jesus conclui com um princípio universal: “A boca fala do que está cheio o coração.”
As palavras funcionam como um termômetro da vida espiritual. Elas revelam o que realmente ocupa o interior da pessoa. Quem enche o coração da verdade de Deus falará com sabedoria, graça e amor. Quem alimenta o coração com pecado e incredulidade acabará manifestando isso em suas palavras e atitudes.
💬Ensino: Deus não avalia apenas o que fazemos ou dizemos; ele examina o tesouro escondido no coração, de onde procedem nossos pensamentos, palavras e ações. A transformação verdadeira começa no interior e, inevitavelmente, manifesta-se no exterior.
5. DUAS PROFISSÕES DE FÉ (Mt 7.21-23 / Lc 6.46)
“Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor!…”
Ambos reconhecem Jesus com os lábios, mas apenas um pertence verdadeiramente a ele.
A profissão de fé falsa:
– Possui palavras religiosas.
– Até realiza atividades espirituais.
– Nunca desenvolveu relacionamento verdadeiro com Cristo.
A profissão de fé verdadeira:
– Confessa Jesus.
– Obedece à vontade do Pai.
– Demonstra fé por meio da obediência.
💬Ensino: A verdadeira fé não se limita à confissão verbal; manifesta-se numa vida obediente.
6. DOIS CONSTRUTORES (Mt 7.24-27 / Lc 6.47-49)
Os dois homens são muito semelhantes.
Ambos:
– Construíram uma casa.
– Enfrentaram tempestades.
A diferença não estava na aparência da construção, mas na maneira de construir.
O construtor prudente:
É semelhante ao que:
– Ouve.
– Obedece.
– Persevera.
O construtor insensato:
É semelhante ao que:
– Ouve.
– Não pratica.
– Confia apenas na aparência.
💬Ensino: O verdadeiro discípulo é reconhecido por colocar em prática a Palavra.
7. DOIS FUNDAMENTOS (Mt 7.24-27 / Lc 6.47-49)
Toda construção repousa sobre um fundamento.
A rocha:
Representa Cristo e sua Palavra.
Características:
– Firmeza.
– Estabilidade.
– Segurança diante das tempestades.
A areia:
Representa tudo aquilo que substitui Cristo:
– Religiosidade.
– Tradição.
– Emoções.
– Sabedoria humana.
– Autoconfiança.
Enquanto o tempo é favorável, as duas casas parecem iguais. A diferença aparece quando chegam as tempestades.
As tempestades representam:
– Provações.
– Sofrimentos.
– Tentações.
– e, finalmente, o julgamento de Deus.
💬Ensino: O fundamento invisível determina o futuro visível.
Conclusão
Ao observar cuidadosamente Mateus 7.13-27, percebemos que Jesus constrói seus argumentos em ordem (ou etapas) crescente.
| Contraste | Pergunta principal |
| Duas portas | Por onde você entra? |
| Dois caminhos | Para onde você está indo? |
| Duas árvores | Quem você realmente é? |
| Duas profissões de fé | Sua fé é verdadeira? |
| Dois construtores | Como você vive? |
| Dois fundamentos | Sobre o que sua vida está edificada? |
Perceba que Jesus passa:
Da decisão inicial… para a caminhada…
Da caminhada… para o caráter…
Do caráter… para a profissão de fé…
Da profissão de fé… para a prática…
Da prática… para o destino eterno.
Nada é superficial e estático, tudo é progressivo, tudo conduz ao Juízo Final. É exatamente por isso que essa seção do Sermão do Monte é considerada uma das mais solenes de toda a Bíblia. Ela mostra que a eternidade depende da resposta dada aos ensinos de Cristo.
Enfim, Jesus encerra o Sermão do Monte mostrando que a vida é marcada por escolhas decisivas. Há apenas duas portas, dois caminhos, duas árvores, duas profissões de fé, dois construtores e dois fundamentos. Esses contrastes conduzem a apenas dois destinos: vida ou perdição, aprovação ou condenação, permanência ou ruína.
O Senhor não convida seus ouvintes apenas a admirarem seus ensinos, mas a responderem a eles com fé e obediência. A pergunta final não é quanto conhecemos da Palavra, mas sobre qual fundamento estamos edificando nossa vida.
Toda a série dos “dois” converge para uma única decisão: ouvir Jesus e praticar sua Palavra, edificando a vida sobre a Rocha, ou ignorar seus ensinos e construir sobre a areia. O destino eterno será determinado por essa escolha.
[1] (Dicio – Dicionário online)
