A subversão da racionalidade

Introdução

“… se alguém olhar para a terra, eis que só há trevas e angústia, e a luz se escurece em densas nuvens.” (Is 5.30b)

O texto acima é muito forte, impactante e aterrador! Mais do que descrever um ambiente físico assolado por alguma catástrofe natural ou destruído pela guerra, pode se referir a um ambiente espiritualmente devastado, obscurecido pela rebeldia, desobediência e outras formas de pecado, acarretando angústia e toda sorte de sofrimento.

A pequena palavra “Ai” aparece pelo menos 23 vezes, no Livro de Isaías, como “interjeição”. Interjeição é a palavra que transmite emoções ou sentimentos súbitos. Nessas 23 ocorrências, 21 revelam o sentimento de indignação de Deus em relação ao povo de Israel e outras nações (Is 1.4; 3.9,11; 5.8, 11, 18, 20, 21, 22; 10.1, 5; 17.12; 18.1; 28.1; 29.1,15; 30.1; 31.1; 33.1; 45.9,10); enquanto as outras 2 revelam o temor e a dor do profeta (Is 6.5; 24.10).

As seis expressões “AI DOS QUE” registradas no capítulo 5 de Isaías retratam claramente a situação degradante de uma parte do chamado povo de Deus (Reino de Judá) e a sentença estabelecida por Deus e comunicada por intermédio do seu profeta. Longe de se tratar de um caso isolado na história antiga, esta narrativa tem tudo a ver com os tempos modernos; com a nossa nação e com cada um de nós. O Brasil é conhecido como uma nação de maioria cristã, que tem sua cultura e costumes bastante influenciados pelo cristianismo. Entretanto, encontra-se, se não for pior, na mesma situação de degradação e crise espiritual descrita pelo profeta. Portanto, está sob a mesma sentença divina.

Isaías assistiu em seus dias o terrível castigo de Deus sobre o Reino de Israel (norte) e recebeu uma terrível, ao mesmo tempo que grandiosa, missão junto ao Reino de Judá (sul). Ele deveria denunciar o pecado e proclamar a sentença divina sobre o seu povo (Is 6.9-13) e demais nações; ao mesmo tempo deveria anunciar a vinda do Messias, a libertação de Israel, o Reino Milenial e os novos céus e a nova terra.

Ainda hoje, é necessário denunciar o pecado, aquilo que desagrada a Deus, provoca a sua ira, degrada e destrói o ser humano. Porém, com uma significativa diferença: anunciar que Deus ainda não esgotou a sua paciência; que a sua misericórdia continua estendida sobre nós; que ainda está disponível, por pouco tempo, o grande e único recurso para o homem, a graça salvadora em Cristo Jesus. É preciso exortar sempre o povo de Deus a não se envolver com esse sistema pecaminoso.

Deus sempre orienta e avisa primeiro antes de exercer o seu justo juízo. Veremos, a seguir, que o perfil da sociedade em que vivemos, no Brasil e no mundo, alienada de Deus, está expresso nos seis “Ais” de denúncias e sentenças de Deus. A humanidade vive sob o cativeiro da Corrupção (Rm 8.20-21).

1. CORRUPÇÃO DO DIREITO DE PROPRIEDADE

Ai dos que ajuntam casa a casa, reúnem campo a campo, até que não haja mais lugar, e ficam como únicos moradores no meio da terra! A meus ouvidos disse o SENHOR dos Exércitos: Em verdade, muitas casas ficarão desertas, até as grandes e belas, sem moradores. E dez jeiras de vinha não darão mais do que um bato, e um ômer cheio de semente não dará mais do que um efa.” (Is 5.8-10)

Não há aqui qualquer condenação à riqueza, repúdio a se ter propriedades ou alguma velada apologia à pobreza. Vale lembrar que pobreza não garante a salvação eterna, nem tampouco a riqueza pode comprá-la. Salvação é pela Graça de Deus revela em Cristo! O grande problema, ora denunciado, acontece: quando as coisas saem de controle, o egocentrismo impera, a cobiça se alastra, a ganância domina e a avareza se instala; quando a única coisa que importa é o próprio bem-estar e a ostentação se faz presente; quando a necessidade e sofrimento do próximo não importam. Isso é muito lamentável e condenável. Pior ainda é constatar que alguns bilionários resolveram financiar ideologias nefastas e promover o progressismo anticristão, no mundo inteiro. A sentença divina e castigo para os que agem assim inclui desolação, baixo rendimento agrícola (calamidades, pragas agrícolas etc.). Dizem que “no mundo há o suficiente para satisfazer as necessidades de cada um, mas não a cobiça de todos”. Por outro lado, se honrarmos a Deus com os nossos bens, legitimamente adquiridos, e favorecermos aqueles a quem podemos ajudar, seremos ainda mais abençoados pelo Altíssimo (Pv 3.9-10; Lc 6.38).

2. CORRUPÇÃO DO PRAZER

Ai dos que se levantam pela manhã e seguem a bebedice e continuam até alta noite, até que o vinho os esquenta! Liras e harpas, tamboris e flautas e vinho há nos seus banquetes; porém não consideram os feitos do SENHOR, nem olham para as obras das suas mãos.” (Is 5.11-12)

O segundo “Ai” divino é dirigido aos que se entregam ao prazer sem limite: bebedices, vícios, festas, orgias, enfim, prazeres carnais. São vidas imersas no mundo material e sem qualquer sensibilidade espiritual. No passado, quantos reis, príncipes, nobres, imperadores e governantes levaram a vida desse jeito? E hoje, quantos estão completamente dominados por um estilo de vida que apenas se interessa e valoriza o prazer carnal? Não somos proibidos de desfrutar dos prazeres lícitos desta vida. Entretanto, somos lembrados e precisamos ter consciência de que “o principal objetivo do homem é glorificar a Deus e deleitar-se nele eternamente” (Sl 1.1-2; 97.12). Quem pauta sua vida pelos prazeres efêmeros deste mundo há de colher desilusão, frustração, insatisfação e, por fim, a perdição eterna.

3. CORRUPÇÃO DO TEMOR A DEUS

Ai dos que puxam para si a iniquidade com cordas de injustiça e o pecado, como com tirantes de carro! E dizem: Apresse-se Deus, leve a cabo a sua obra, para que a vejamos; aproxime-se, manifeste-se o conselho do Santo de Israel, para que o conheçamos.” (Is 5.18-19)

O terceiro “Ai” condena aqueles que abraçam a iniquidade e, não satisfeitos, ainda zombam de Deus. A figura ou metáfora usada no texto bíblico é de alguém que, traz para si e carrega atrás de si, uma carga repleta de impiedade. É como alguém se deslocando e puxando uma carroça carregada de iniquidade, com “cordas de injustiça e pecado”. É triste constatar que em todas as épocas, mesmo no âmbito do povo de Israel, há pessoas assim. Nos dias atuais, além do abandono de Deus, nos deparamos com manifestações explícitas de irreverência e escárnio do sagrado, de rebeldia contra Deus, de toda a sorte de iniquidade. Vale lembrar o alerta do apóstolo Paulo: “Não vos enganeis: de Deus não se zomba; pois aquilo que o homem semear, isso também ceifará. Porque o que semeia para a sua própria carne da carne colherá corrupção; mas o que semeia para o Espírito do Espírito colherá vida eterna.” (Gl 6.7-8)

4. CORRUPÇÃO DOS VALORES MORAIS

Ai dos que ao mal chamam bem e ao bem, mal; que fazem da escuridade luz e da luz, escuridade; põem o amargo por doce e o doce, por amargo!” (Is 5.20)

É lamentável constatar que o Brasil está vivenciando e exibindo, internamente e para o mundo, um quadro intelectual e moral inacreditável, que revela até que ponto pode chegar à irracionalidade e insanidade humanas! Uma militante progressista chegou a declarar: “Eu sou a favor do assalto. Tem uma lógica no assalto….eu não tenho uma coisa que preciso, porque fui contaminado pelo capitalismo. Isso seria justo (roubar), dentro de um contexto tão injusto, blá, blá, blá….”.

Neste quarto “Ai” o profeta denuncia exatamente essa inversão de valores que estamos vivendo na política e no judiciário do Brasil. Nessa visão distorcida da realidade: “o policial é mau e o bandido é bom (ou vítima)”, “o empregador é mau e o trabalhador é bom e explorado”; “o menor infrator é vítima da sociedade”; “aquele que trabalha e produz não tem o direito de possuir propriedades ou bens”; “a verdade é censurada e a mentira liberada, conforme o lado que a divulga”; “ter e expressar opinião passou a ser crime, quando os contraria”; “os que mais falam em democracia são os que menos a praticam”(engodo semântico)[1]; “pessoas de bem são presas por suas opiniões e criminosos são descondenados”; “prisioneiros, assassinos dos pais, são liberados para a saidinha, no dia das mães e dos pais”; e assim por diante.  Um dia o candidato acusa publicamente o adversário político de ladrão e o mais corrupto que já governou este país e no momento seguinte se alia a ele e o apoia. A hipocrisia e falta de vergonha escancararam de vez; a irracionalidade tomou conta de algumas pessoas! De um modo geral as pessoas estão perdendo ou já perderam a noção do bem e do mal. A militância progressista, fortemente engajada na relativização de princípios e valores cristãos, tem logrado êxito e, consequentemente, produzido efeitos devastadores e ameaçadores ao equilíbrio e à paz social. As consequências já estão sendo e ainda serão muito amargas para a sociedade.  

Não adianta mudar as leis, os costumes, combater a Bíblia, chamar o mal de bem e o bem de mal; porque diante do supremo juiz divino, pecado é pecado (Rm 1.24-25). E, “O salário do pecado é a morte”(Rm 6.23).

5. CORRUPÇÃO INTELECTUAL

Ai dos que são sábios a seus próprios olhos e prudentes em seu próprio conceito!” (Is 5.21)

Presunção, orgulho e autossuficiência são pecados que acompanham o ser humano desde a sua criação, como todos os outros. Na medida que o fim se aproxima, o antropocentrismo e o egocentrismo crescem e os tais pecados afloram. As redes sociais se tornaram palco para muitos massagearem publicamente seu ego e mostrarem sua desejada relevância. As pessoas se mostram, se  expressam e dão seus palpites como se fossem entendidas e especialistas em todas as áreas. É preciso resgatar a humildade, perceber que não passamos de um sopro de vida e voltar-se para o Senhor: “Gloriar-se-á no SENHOR a minha alma; os humildes o ouvirão e se alegrarão.” (Sl 34.2). Salomão adverte: “Não sejas sábio aos teus próprios olhos; teme ao SENHOR e aparta-te do mal; será isto saúde para o teu corpo e refrigério, para os teus ossos.” (Pv 3.7-8). O conselho de Tiago é para ser levado a sério: “Antes, ele dá maior graça; pelo que diz: Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes.” (Tg 4.6)

Muitos séculos depois de Isaías, surge o apóstolo Paulo fazendo uma denúncia semelhante: “porquanto, tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; antes, se tornaram nulos em seus próprios raciocínios, obscurecendo-se-lhes o coração insensato. Inculcando-se por sábios, tornaram-se loucos” (Rm 1.21-22). Para os impenitentes, a palavra é dura: “E, por haverem desprezado o conhecimento de Deus, o próprio Deus os entregou a uma disposição mental reprovável, para praticarem coisas inconvenientes,” (Rm 1.28).

6. CORRUPÇÃO DA JUSTIÇA

Ai dos que são heróis para beber vinho e valentes para misturar bebida forte, os quais por suborno justificam o perverso e ao justo negam justiça!” (Is 5.22-23)

Por fim, o sexto “Ai” denuncia a corrupção da justiça. O profeta descreve esses juízes e magistrados corruptos de tal forma que induz nossa mente a imaginar pessoas abjetas e desprezíveis, que só pensam em si mesmas; autoridades que ignoram a verdade e o sofrimento alheio; seres humanos insensíveis que ocupam seus dias bebendo e comendo, enquanto destroem os justos e suas famílias, por suborno. A sociedade humana nunca consegue se livrar de gente dessa estirpe – “Por esta causa, a lei se afrouxa, e a justiça nunca se manifesta, porque o perverso cerca o justo, a justiça é torcida (Hc 1.4). No Brasil, lamentavelmente vivemos um tempo crítico e sombrio de “politização da justiça” e “judicialização da política”. Quando autoridades do judiciário deixam de lado a Lei ou a Constituição e fazem prevalecer sua ideologia política (‘suborno ideológico”) e preferência de lado, subvertem a justiça e decretam o colapso de uma sociedade democrática. Quando a justiça falha a sociedade paga um alto preço, perde o ânimo.

Justiça é um tema extremamente relevante ao longo de toda a Bíblia! A lei dada por Deus a Moisés estabelece: “Não farás injustiça no juízo, nem favorecendo o pobre, nem comprazendo ao grande; com justiça julgarás o teu próximo” (Lv 19.15). “Não torcerás a justiça, não farás acepção de pessoas, nem tomarás suborno; porquanto o suborno cega os olhos dos sábios e subverte a causa dos justos” (Dt 16.19). O sábio rei Salomão adverte: “O que justifica o perverso e o que condena o justo abomináveis são para o SENHOR, tanto um como o outro”. (Pv 17.15). O profeta Miquéias declara: “Ele te declarou, ó homem, o que é bom e que é o que o SENHOR pede de ti: que pratiques a justiça, e ames a misericórdia, e andes humildemente com o teu Deus” (Mq 6.8). No Novo Testamento, Jesus ensina: “Não julgueis segundo a aparência, e sim pela reta justiça” (Jo 7.24). Timóteo recomenda aos jovens: “Foge, outrossim, das paixões da mocidade. Segue a justiça, a fé, o amor e a paz com os que, de coração puro, invocam o Senhor” (2Tm 2.22). Se nesta vida a justiça for apenas uma miragem, o apóstolo Pedro nos enche de esperança: “Nós, porém, segundo a sua promessa, esperamos novos céus e nova terra, nos quais habita justiça” (2Pe 3.13). Enquanto aguardamos o fim de todas as coisas, a palavra de Deus, em seu último livro e capítulo, nos declara: “Continue o injusto fazendo injustiça, continue o imundo ainda sendo imundo; o justo continue na prática da justiça, e o santo continue a santificar-se” (Ap 22.11).

Conclusão

“Deus vela pela sua palavra para a cumprir” (Jr 1.12).

Assim como muitas palavras proferidas por Isaías e outros profetas já se cumpriram, outras ainda se cumprirão. Os “AI DOS QUE” de Isaías são permanentes e o recurso de Deus para o pecador é o Evangelho que já se tem mostrado eficaz para a transformação de muitas vidas – “Mas, se o nosso evangelho ainda está encoberto, é para os que se perdem que está encoberto, nos quais o deus deste século cegou o entendimento dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, o qual é a imagem de Deus”. (2Co 4.3-4)

Para os impenitentes, a sentença divina, após esses 6 “Ais”, é muito dura: “Pelo que, como a língua de fogo consome o restolho, e a erva seca se desfaz pela chama, assim será a sua raiz como podridão, e a sua flor se esvaecerá como pó; porquanto rejeitaram a lei do SENHOR dos Exércitos e desprezaram a palavra do Santo de Israel.” (Is 5.24)

Que Deus tenha misericórdia de nós!

“Aquele que dá testemunho destas coisas diz: Certamente, venho sem demora. Amém! Vem, Senhor Jesus!” (Ap 22.20)


[1] Engodo semântico – armadilha de significado. Segundo o Prof. André L. R. Cardoso (https://www.youtube.com/watch?v=et1Ksdqmq3s) é o uso de palavras para enganar quem ouve. Os comunistas-socialistas têm um dicionário próprio para enganar – o dicionário de Gramsci. Exemplos: DEMOCRACIA – Poder dos socialistas (e não o governo do povo e para o povo); INOCÊNCIA – Lealdade à causa revolucionária comuno-socialista (e não aquele que não é criminoso, corrupto). É por isso que Lula diz que não há pessoa mais inocente do que ele, isto é, leal à causa socialista-comunista que fecha igrejas e persegue os cristãos onde se instala.

Autor: Paulo Raposo Correia

Um servo de Deus empenhado em fazer a sua vontade.

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