A conversão de Cornélio (Parte 1)

Parte 1: O Chamado de Pedro (At 10.1-23)

Lucas, o escritor do livro de Atos, inspirado por Deus, mostra-se muito atento aos acontecimentos que marcaram os primeiros passos da igreja. Em algumas ocasiões ele registra a fenomenal expansão da igreja e faz questão de quantificar as multidões que receberam e creram no Evangelho. Esse foi o grande milagre nos primórdios da igreja. O escritor deste livro, tão importante e empolgante, nos presenteia e nos enriquece com sua sensibilidade ao mencionar e descrever as experiências vividas por alguns personagens, gente simples ou de maior relevância na sociedade, gente de fora e de dentro da igreja, judeus e gentios, tais como: o coxo da porta do templo (At 3); Estêvão (At 7); Simão, o mágico (At 8); o eunuco etíope (At 8); Saulo (At 9); Enéias (At 9); Dorcas (At 9) e, neste caso em análise, Cornélio. São vidas preciosas alcançadas pela pregação do evangelho e pela graça divina. São registros que conseguem desempenhar o papel de “humanizar” o divino e elevar o humano “aos lugares celestiais”, às “insondáveis riquezas de Cristo” (Ef 3.8).

  • Quem era Cornélio? (vv.1-2)

1  Morava em Cesaréia um homem de nome Cornélio, centurião da coorte chamada Italiana,

Cornélio era um oficial do exército romano que comandava 100 homens, daí o termo “centurião”. Ele morava em Cesaréia, uma cidade situada nas margens do mar Mediterrâneo, a cerca de 82 Km (em linha reta) a noroeste de Jerusalém. Segundo os historiadores, naquela época era o local onde residiam os procuradores romanos e quartel-general de suas atividades na Palestina. Tornou-se um importante centro comercial marítimo e cultural.

2  piedoso e temente a Deus com toda a sua casa e que fazia muitas esmolas ao povo e, de contínuo, orava a Deus.

Sem dúvida o perfil de Cornélio descrito aqui neste versículo 2 é diferenciado e exemplar. Não há evidências neste registro bíblico de que ele fosse um prosélito do judaísmo. Entretanto, é dito que ele era piedoso e temente a Deus; e não a vários deuses. É provável que seu estilo de vida tenha sido de tal monta que influenciou significativamente os de sua casa; familiares e servos. Que tipo de exemplo e liderança espiritual estamos exercendo em nossa casa ou na vida daqueles com quem convivemos mais de perto (escola, trabalho etc.)? Além da sua vida devocional vertical (com Deus) estável e contínua, não era um homem teórico, vivendo um ascetismo recluso, introspectivo e focado em exercícios espirituais de autodisciplina. Ele tinha uma vida horizontal prática; ele olhava para o próximo e, de alguma forma, com os recursos que possuía procurava mitigar sua dor, sofrimento e carência. Ao longo da narrativa descobriremos algumas de suas virtudes: piedade, reverência, influência, liberalidade, oração, receptividade e obediência. Ele não era um cristão professo, porém sua conduta pode superar a de muitos de nós que somos cristãos. Quais são as evidências práticas da nossa fé, do nosso amor a Deus e ao próximo? Vale lembrar o que Tiago diz: “Mas alguém dirá: Tu tens fé, e eu tenho obras; mostra-me essa tua fé sem as obras, e eu, com as obras, te mostrarei a minha fé.” (Tg 2.18). Para aqueles que ainda não foram esclarecidos e alcançados pela graça salvadora em Cristo Jesus, tal perfil o colocaria no rol dos filhos de Deus. Porém, a salvação não vem pela religiosidade, piedade e boas obras. Ele precisava ter um encontro pessoal com Jesus Cristo ressuscitado.      

  • A visão de Cornélio (vv.3-6)

3  Esse homem observou claramente durante uma visão, cerca da hora nona do dia, um anjo de Deus que se aproximou dele e lhe disse:

A palavra do profeta Jeremias se revela verdadeira na vida de Cornélio: “Buscar-me-eis e me achareis quando me buscardes de todo o vosso coração.” (Jr 29.13). Nenhuma vida e nenhuma busca sincera e verdadeira passa despercebida diante de Deus. Na hora nona, do cômputo judaico, ou seja, às quinze horas ou às três horas da tarde, Jesus expirou ali na cruz (Mc 15.34-37), Pedro e João subiram ao templo para a “oração da hora nona” e o coxo na porta do templo foi curado. Cornélio estava em sua casa observando a “hora nona da oração” quando teve esta visão de Deus (At 10.30). O ministério dos anjos se fez presente também no início da igreja, libertando Pedro da prisão (At 5.19), orientando Filipe (At 8.26) e agora falando com Cornélio. 

4  Cornélio! Este, fixando nele os olhos e possuído de temor, perguntou: Que é, Senhor? E o anjo lhe disse: As tuas orações e as tuas esmolas subiram para memória diante de Deus.

Não é muito comum ter encontros com anjos, ainda que em visão. Daí o temor e tremor de Cornélio e tantos outros que vivenciaram essa experiência. Esses seres celestiais são mensageiros de Deus e estão sempre a seu serviço. A palavra do anjo confirma o que todos sabemos, que ninguém e nada do que fazemos passa despercebido diante de Deus. De um modo especial, orações e esmolas. A prática constante da oração expressa a importante e significativa atitude de buscar a Deus. Também é significativa a menção das esmolas, o que demonstra o valor que o nosso Deus dá àqueles que se importam e são solidários para com os carentes e necessitados.

5  Agora, envia mensageiros a Jope e manda chamar Simão, que tem por sobrenome Pedro.
6  Ele está hospedado com Simão, curtidor, cuja residência está situada à beira-mar.

O “processo da salvação” envolve os três “P”: o Pregador, a Palavra e o Perdido (ou Pecador). O perdido era Cornélio. Bem que os anjos gostariam de ser pregadores do evangelho, mas essa tarefa e missão foi delegada a nós humanos, servos de Deus. Pedro foi o pregador escolhido e ele tinha a palavra de Deus a ser  transmitida a Cornélio. Assim sendo, este personagem tão relevante deveria ser acionado ali em Jope para que viesse abrir as portas do evangelho naquela vida, família e comunidade, conforme a palavra de Jesus: “Dar-te-ei as chaves do reino dos céus; o que ligares na terra terá sido ligado nos céus; e o que desligares na terra terá sido desligado nos céus.” (Mt 16.19)

  • Obedecendo a visão (vv.7-8)

7  Logo que se retirou o anjo que lhe falava, chamou dois dos seus domésticos e um soldado piedoso dos que estavam a seu serviço
8  e, havendo-lhes contado tudo, enviou-os a Jope.

Vale ressaltar a reação de Cornélio à visão angelical. Ele não teve dúvida de que aquela experiência foi perfeitamente real. Também, não teve receio de compartilhar com os seus dois servos e com o soldado da comitiva. Chama a atenção, também, o fato dele ter contado toda a visão e não apenas os orientado a chamar e trazer o apóstolo. Provavelmente sua intenção fora a de abastecê-los de informação capaz de convencer Pedro a atender ao chamado. Entretanto, o Espírito Santo já estava incumbido de providenciar esse convencimento.

  • A visão de Pedro (vv.9-16)

9  No dia seguinte, indo eles de caminho e estando já perto da cidade, subiu Pedro ao eirado, por volta da hora sexta, a fim de orar.

A cidade de Jope situava-se a cerca de 51Km (em linha reta) ao sul de Cesaréia. Enquanto a comitiva estava a caminho, Pedro cumpre sua disciplina de oração da hora sexta ou meio-dia e, para isso, subiu ao eirado ou terraço. Daniel orava três vezes ao dia (Dn 6.10), talvez na hora terceira (9h), na hora sexta (12h) e na hora nona (15h). Talvez isso fosse uma prática comum entre os judeus e Pedro a observava. O fato é que quando se busca a Deus, com frequência e anseio de estar na sua presença, algo acontece.

10  Estando com fome, quis comer; mas, enquanto lhe preparavam a comida, sobreveio-lhe um êxtase;

Não era sem razão que Pedro estava com fome; era chegada a hora de almoçar. Bom para ele que sendo visitante naquela casa tinha quem lhe preparasse uma boa refeição enquanto podia se dedicar a oração.

11  então, viu o céu aberto e descendo um objeto como se fosse um grande lençol, o qual era baixado à terra pelas quatro pontas,
12  contendo toda sorte de quadrúpedes, répteis da terra e aves do céu.
13  E ouviu-se uma voz que se dirigia a ele: Levanta-te, Pedro! Mata e come.

Não, não mesmo! Pedro não estava delirando por estar faminto! Era Deus mesmo querendo revelar-lhe alguma coisa em visão. Na sua experiência pregressa de pescador, Pedro estava acostumado a ver redes sendo lançadas para o alto, ao mar e, depois, sendo puxadas com nenhum, poucos ou muitos peixes. Porém, não lhe era nem um pouco familiar aquela visão divina de um lençol sendo baixado à terra com tal variedade e representatividade da fauna: quadrúpedes, que andam sobre suas quatro patas; répteis, que rastejam; e, aves que voam. Não há qualquer referência à cor deste lençol, já que isso não tinha importância; porém, desde a primeira vez que tive contato com essa história, me vem à mente a ideia de um lençol branco. Talvez por conta do contexto da voz falando de purificação. Além da imagem, Pedro ouve uma voz que se dirige diretamente e nominalmente a ele: “Levanta-te, Pedro! Mata e come”. Em outras palavras: Pedro, você está com fome e eu te trouxe alimento com fartura. Vá em frente, prepara o teu almoço e come!

14  Mas Pedro replicou: De modo nenhum, Senhor! Porque jamais comi coisa alguma comum e imunda.

A primeira constatação é a de que Pedro entendeu que Deus estava falando com ele, quem sabe para o testar. Na verdade, era para o ensinar algo muito além de hábito ou restrição alimentar. A instrução divina sobre ingestão de alimentos vem de longe. Depois do dilúvio o Senhor disse a Noé e a seus filhos: “Tudo o que se move e vive ser-vos-á para alimento; como vos dei a erva verde, tudo vos dou agora.” (Gn 9.3). Entretanto, os judeus sabiam perfeitamente que a lei de Moisés estabeleceu claras restrições quanto a determinados animais que vivem na terra, nas águas, bem como a aves e insetos, os declarando imundos ou impuros e impróprios para se comer (Lv 11; Dt 14). A questão não era apenas de impureza cerimonial, mas sanitária, de saúde pública – “Esta é a lei dos animais, e das aves, e de toda alma vivente que se move nas águas, e de toda criatura que povoa a terra, para fazer diferença entre o imundo e o limpo e entre os animais que se podem comer e os animais que se não podem comer.” (Lv 11.46-47). Pedro e os demais judeus levavam muito a sério essa lei mosaica. Eles não apenas se consideravam o povo de Deus, um povo santo com uma “alimentação santa”, como consideravam os gentios gente “imunda” e, portanto, não se misturavam e nem comiam com eles.

15  Segunda vez, a voz lhe falou: Ao que Deus purificou não consideres comum.
16  Sucedeu isto por três vezes, e, logo, aquele objeto foi recolhido ao céu.

Qualquer tentativa de interpretar essa purificação divina, aqui mencionada, como uma ressignificação da lei mosaica, liberando para ingestão tudo o que era estabelecido como imundo, deve ser vista como mera especulação ou equívoco. A questão é bem outra, isto é, tem a ver com a inclusão de todos os povos, tribos, raças e nações na Nova Aliança da Graça de Deus. É o cumprimento da promessa de Deus a Abraão: “Ora, tendo a Escritura previsto que Deus justificaria pela fé os gentios, preanunciou o evangelho a Abraão: Em ti, serão abençoados todos os povos.” (Gl 3.8; ver tb Gn 12.3; At 3.25). E Isaías profetizou: “Sim, diz ele: Pouco é o seres meu servo, para restaurares as tribos de Jacó e tornares a trazer os remanescentes de Israel; também te dei como luz para os gentios, para seres a minha salvação até à extremidade da terra.” (Is 49.6). Era chegada a hora de Pedro, dos demais apóstolos e da igreja judaica abrirem a mente, o coração e os braços para receberem e acolherem a todos aqueles que eram alvos da graça divina.

Parece que para Pedro se dar conta as coisas precisavam acontecer três vezes. Ele negou Jesus três vezes (Lc 22.54-62), Jesus o perguntou três vezes se ele o amava (Jo 21.15-17). Porém, Samuel também foi chamado por Deus, por três vezes (1Sm 3.8). Há outros casos interessantes de uma terceira vez (1Rs 18.34; 2Rs 1.13; Mt 26.44; Mc 14.4; Lc 23.22).

  • A chegada da comitiva (vv.17-18)

17  Enquanto Pedro estava perplexo sobre qual seria o significado da visão, eis que os homens enviados da parte de Cornélio, tendo perguntado pela casa de Simão, pararam junto à porta;
18  e, chamando, indagavam se estava ali hospedado Simão, por sobrenome Pedro.

O lençol foi recolhido e verifica-se que Pedro ainda estava perplexo, tentando entender o significado de tudo aquilo. É interessante como a revelação divina é gradativa e progressiva; como Deus vai preparando as pessoas, respeitando o tempo de cada indivíduo. Enquanto isso, a comitiva vai indagando e chegando até à casa onde Pedro estava hospedado.

  • A orientação do Espírito (vv.19-20)

19  Enquanto meditava Pedro acerca da visão, disse-lhe o Espírito: Estão aí dois homens que te procuram;
20  levanta-te, pois, desce e vai com eles, nada duvidando; porque eu os enviei.

Talvez agora, algum tempo depois, um pouco menos perplexo e mais pensativo, Pedro continuava aguardando as respostas. Se ele perdeu o apetite ou almoçou, não sabemos. Então, o Espírito Santo se dirige diretamente a ele passando mais algumas instruções. É curioso que essas novas instruções avançam um pouco mais, mas não elucidam toda a situação. Pedro é convocado a acompanhar aqueles estranhos, depositando confiança plena na condução divina. O grande desafio de ser um seguidor de Cristo é o de se sujeitar à sua vontade e obedecer ao seu comissionamento, mesmo sem ter a visão completa da situação, aprendendo dia a dia a viver na sua dependência.

  • O encontro de Pedro com a comitiva (vv.21-23)

21  E, descendo Pedro para junto dos homens, disse: Aqui me tendes; sou eu a quem buscais? A que viestes?

O Espírito de Deus já havia preparado Pedro para aquele encontro. Assim, quando ele vê ou escuta aquela movimentação toda junto à entrada da casa de Simão, o curtidor, tratou de descer e se apresentar aos homens enviados pelo centurião Cornélio. Era chegada a hora dele saber o que estava acontecendo, então se apressou em lhes perguntar o motivo da vinda deles.

22  Então, disseram: O centurião Cornélio, homem reto e temente a Deus e tendo bom testemunho de toda a nação judaica, foi instruído por um santo anjo para chamar-te a sua casa e ouvir as tuas palavras.

Ao ouvirem a indagação de Pedro, parece que aqueles homens nem tiveram a preocupação de se apresentarem; se o fizeram Lucas foi suscinto no registro omitindo essa parte. A resposta da comitiva foi direta ao ponto, ressaltando as virtudes do seu senhor e sintetizando a experiência incomum que ele teve. Como servos de Deus também devemos focar e apresentar o Senhor que nos enviou ao mundo, bem como sua mensagem.

23  Pedro, pois, convidando-os a entrar, hospedou-os. No dia seguinte, levantou-se e partiu com eles; também alguns irmãos dos que habitavam em Jope foram em sua companhia.

Pedro sentia-se bem à vontade, na casa de Simão, acolhendo os viajantes e hospedando-os. A viagem foi cansativa; era hora de descansar, se alimentar e conversar um pouco. No dia seguinte Pedro partiu com eles rumo a Cesaréia. Vale destacar o cuidado da igreja ou dos irmãos ali em Jope, enviando ou se voluntariando a fazer companhia a Pedro naquela missão. Estes eram judeus adiante denominados de “fiéis que eram da circuncisão” (At 10.45).


Veja também:
Parte 2: A Pregação de Pedro (At 10.24-48)
Parte 3: A Defesa de Pedro (At 11.1-18)

Autor: Paulo Raposo Correia

Um servo de Deus empenhado em fazer a sua vontade.

2 comentários em “A conversão de Cornélio (Parte 1)”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: